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TRATADO DA VERDADEIRA
DEVOÇÃO DA SANTÍSSIMA VIRGEM
Escrito por São Luís Maria Grignion de Montfort
19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992.
1.
Foi pela
Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é
também por ela que deve reinar no mundo.
2. Toda a sua vida Maria permaneceu oculta; por isso o
Espírito Santo e a Igreja a chamam Alma Mater – Mãe
escondida e secreta.1 Tão profunda era a sua
humildade, que, para ela, o atrativo mais poderoso, mais
constante era esconder-se de si mesma e de toda criatura,
para ser conhecida somente de Deus.
1) Antífona à
Santíssima Virgem para o tempo de Natal; hino “Ave Maris
Stella”.
3. Para atender aos pedidos que ela lhe fez de escondê-la,
empobrecê-la e humilhá-la, Deus providenciou para que oculta
ela permanecesse em seu nascimento, em sua vida, em seus
mistérios, em sua ressurreição e assunção, passando
despercebida aos olhos de quase toda criatura humana.
Seus próprios parentes não a conheciam; e os anjos
perguntavam muitas vezes uns aos outros: Quae est ista?... –
Quem é esta? (Ct 3, 6; 8, 5), pois que o Altíssimo lha
escondia; ou, se algo lhes desvendava a respeito, muito
mais, infinitamente, lhes ocultava.
4. Deus Pai consentiu que jamais em sua vida ela fizesse algum
milagre, pelo menos um milagre visível e retumbante,
conquanto lhe tivesse outorgado o poder de fazê-los. Deus
Filho consentiu que ela não falasse, se bem lhe houvesse
comunicado a sabedoria divina. Deus Espírito Santo consentiu
que os apóstolos e evangelistas a ela mal se referissem, e
apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo.
E, no entanto, ela era a Esposa do Espírito Santo.
5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo
conhecimento2 e domínio ele reservou para si.
Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la
e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade,
tratando-a de mulher – mulier (Jo 2, 4; 19, 26),
como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse
e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a
fonte selada (Ct 4, 12) e a esposa fiel do
Espírito Santo, onde só ele pode penetrar. Maria é o
santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus
está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro
lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins
e serafins; e criatura algumas, pura que seja, pode aí
penetrar sem um grande privilégio.
2)...ut soli Deo
cognoscenda reservatur (São Bernardino de Sena, Sermão 51,
art. 1, cap. 1).
6. Digo com os santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre3
do novo Adão, no qual este se encarnou por obra do Espírito
Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis.
É o grande, o divino mundo de Deus4, onde há belezas e
tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus5,
em que ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e
nele tudo que há de mais excelente e mais precioso.
Oh! que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso
realizou nesta criatura admirável, di-lo ela mesma,
como obrigada, apesar de sua humildade profunda:
Fecit mihi magna qui potens est (Lc 1, 49). O mundo desconhece essas coisas porque é
inapto e indigno.
3) Racionalis
secundi Adam paradisus. São Leão Grande (Sermo de
Annunctiatione).
4) Mundus
specialissimus altissimi Dei. (São Bernardo).
5) Magnificentia
Dei. Ricardo de São Lourenço (De laud. Virg., lib. IV).
7. Os santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus;
e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes, – eles o
confessam – que ao tomá-la como tema de suas palavras e de
seus escritos. E, depois, proclamam que é impossível
perceber a altura dos seus méritos, que ela elevou até ao
trono da Divindade; que a largura de sua caridade,
mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além
de toda compreensão a grandeza do poder que ela exerce sobre
o próprio Deus; e, enfim, que a profundeza de sua
humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo
impossível de sondar. Ó altura incompreensível! Ó
largura inefável! Ó grandeza incomensurável! Ó insondável!
8. Todos os dias, dum extremo da terra ao outro, no mais alto
dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo prega, tudo
exalta a incomparável Maria. Os nove coros de anjos, os
homens de todas as idades, condições e religiões, os bons e
os maus. Os próprios demônios são obrigados, de bom ou mau
grado, pela força da verdade, a proclamá-la bem-aventurada.
Vibra nos céus, como diz São Boaventura, o clamor incessante
dos anjos: Sancta, sancta, sancta Maria, Dei Genitrix et
Virgo; e milhões e milhões de vezes, todos os dias, eles lhe
dirigem a saudação Angélica: Ave, Maria...,
prosternado-se diante dela e pedindo-lhe a graça de honrá-la
com suas ordens. E a todos se avantaja o príncipe da corte
celeste, São Miguel, que é o mais zeloso em render-lhe e
procurar toda a sorte de homenagens, sempre atento, para ter
a honra de, à sua palavra, prestar um serviço a algum dos
seus servidores.
9. Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente
entre os cristãos, que a tomam como padroeira e protetora em
muitos países, províncias, dioceses e cidades.
Inúmeras catedrais são consagradas sob a invocação do seu
nome. Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra;
não há região ou país que não possua alguma de suas imagens
milagrosas, junto das quais todos os males são curados e se
obtêm todos os bens. Quantas confrarias e congregações
erigidas em sua honra! quantos institutos e ordens
religiosas abrigados sob seu nome e proteção! quantos irmãos
e irmãs de todas as confrarias , e quantos religiosos e
religiosas a entoar os seus louvores, a anunciar as
suas maravilhas! Não há criancinha que, balbuciando
a Ave-Maria, não a louve; mesmo os pecadores, os mais
empedernidos, conservam sempre uma centelha de confiança em
Maria. Dos próprios demônios no inferno, não há um que não a
respeite, embora temendo.
10. Depois disto é preciso dizer, em verdade, com os santos:
De Maria nunquam satis...
Ainda não se louvou, exaltou, amou e serviu
suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito,
amor e serviço ela merece.
11. É preciso dizer, ainda, com o Espírito Santo: Omnis gloria
eius filiae Regis ab intus – Toda a glória da Filha do Rei
está no interior (Sl 44, 14), como se toda a glória
exterior, que lhe dão, a porfia, o céu e a terra, nada fosse
em comparação daquela que ela recebe no interior, da parte
do Criador, e que desconhecem as fracas criaturas, incapazes
de penetrar o segredo dos segredos do Rei.
12. Devemos, portanto, exclamar com o apóstolo: Nec oculus vidit, nec
auris audivit, nec in cor hominis ascendit (1Cor 2, 9) –
os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do
homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de
Maria, o milagre dos milagres da graça6, da
natureza e da glória. Se quiserdes compreender a Mãe – diz
um santo – compreendei o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus:
Hic taceat omnis lingua – Toda língua aqui emudeça.
6) Miraculum
miraculorum (São João Damasceno, Oratio I de Nativitate
B.V.).
13.
Meu
coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial
alegria, para demonstrar que Maria Santíssima tem
sido, até aqui, desconhecida7, e que é esta
uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como
deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o
reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será uma conseqüência
necessária do conhecimento e do reino da Santíssima Virgem
Maria. Ela o deu ao mundo a primeira vez, e também, da
segunda, o fará resplandecer.
7) No sentido
de: conhecida insuficientemente, como se depreende de todo
este parágrafo e da expressão: “Jesus Cristo não é conhecido
como deve ser”.
Capítulo I
Necessidade da devoção à Santíssima Virgem
14. Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura
saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à
Majestade infinita ela é menos que um átomo, é, antes, um
nada, pois que só ele é “Aquele que é” (Ex 3,
14) e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre
independente e bastando-se a si mesmo, não tem nem teve
jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de
suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe
querer para tudo fazer.
15.
Digo,
entretanto, que, supostas as coisas como são, já que Deus
quis começar e acabar suas maiores obras por meio da
Santíssima Virgem, depois que a formou, é de crer que não
mudará de conduta nos séculos dos séculos, pois é
Deus, imutável em sua conduta e em seus sentimentos.
Artigo I
Princípios
Primeiro Princípio – Deus quis servir-se de Maria na
Encarnação.
16. Deus Pai só deu ao mundo seu Unigênito por Maria.
Suspiraram os patriarcas, e pedidos insistentes fizeram os
profetas e os santos da lei antiga, durante quatro milênios,
mas só Maria o mereceu, e alcançou graça diante de
Deus8, pela força de suas orações e pela
sublimidade de suas virtudes. Porque o mundo era
indigno, diz Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus
diretamente das mãos do Pai, ele o deu a Maria a fim de que
o mundo o recebesse por meio dela.
8) Cf. Lc 1, 30;
Invenisti enim gratiam apud Deum.
Em Maria
e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa
salvação.
Deus
Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, mas só depois
de lhe ter pedido consentimento por intermédio de um dos
primeiros ministros da corte celestial.
17. Deus Pai transmitiu a Maria sua fecundidade, na medida em que a
podia receber uma simples criatura, para que ela pudesse
produzir o seu Filho e todos os membros de seu Corpo
Místico.
18. Deus Filho desceu ao seu seio virginal, qual novo Adão no
paraíso terrestre, para aí ter suas complacências e operar
em segredo maravilhas de graça. Deus, feito homem,
encontrou sua liberdade em se ver aprisionado no seio da
Virgem Mãe; patenteou a sua força em se deixar levar por
esta Virgem santa; achou sua glória e a de seu Pai,
escondendo seus esplendores a todas as criaturas deste
mundo, para revelá-las somente a Maria; glorificou sua
independência e majestade, dependendo desta Virgem amável,
em sua conceição, em seu nascimento, em sua apresentação no
templo, em seus trinta anos de vida oculta, até à morte, a
que ela devia assistir, para fazerem ambos um mesmo
sacrifício e para que ele fosse imolado ao Pai
eterno com o consentimento de sua Mãe, como outrora Isaac,
como o consentimento de Abraão à vontade de Deus. Foi ela
quem o amamentou, nutriu, sustentou, criou e sacrificou por
nós.
Ó
admirável e incompreensível dependência de um Deus, de que
nos foi dado conhecer o preço e a glória infinita, pois o
Espírito Santo não a pôde passar em silêncio no Evangelho,
como incógnitas nos ficaram quase todas as coisas
maravilhosas que fez a Sabedoria encarnada durante sua vida
oculta. Jesus Cristo deu mais glória a Deus, submetendo-se a
Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda
a terra pela realização dos mais estupendos milagres. Oh!
quão altamente glorificamos a Deus, quando, para lhe
agradar, nos submetemos a Maria, a exemplo de Jesus Cristo,
nosso único modelo.
19. Se examinarmos atentamente o resto da vida de Jesus, veremos
que foi por Maria que ele quis começar seus milagres.
Pela palavra de Maria ele santificou São João no seio de
Santa Isabel; assim que as palavras brotaram dos lábios de
Maria, João ficou santificado, e foi este seu primeiro e
maior milagre de graça. Foi ao humilde pedido de Maria, que
ele, nas núpcias de Caná, mudou água em vinho, sendo este
seu primeiro milagre sobre a natureza. Ele começou e
continuou seus milagres por Maria, e por Maria os continuará
até ao fim dos séculos.
20. O Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia
outra pessoa divina, tornou-se fecundo em Maria. É com
ela, nela e dela que ele produziu sua obra-prima, de um Deus
feito homem, e que produz todos os dias, até ao fim do
mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe
adorável. Eis por que, quanto mais, em uma alma, ele
encontra Maria, sua querida e inseparável esposa9, mais
operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo
nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo.
9) Sponsa
Spiritus Sancti (Santo Idefonso, Líber de Corona Virginis,
cap. III. – Sponsus eius Spiritus veritatis (Belarmino,
Concio 2 super “Missus est”).
21. Não se quer dizer com isto que a Santíssima Virgem dê a
fecundidade ao Espírito Santo, como se ele não a tivesse.
Sendo Deus, ele possui a fecundidade ou a capacidade de
produzir, como o Pai e o Filho. Não a reduz, porém, a ação,
e não gera outra pessoa divina. O que se quer dizer é que o
Espírito Santo, por intermédio da Virgem, da qual se quis
servir, se bem que não lhe fosse absolutamente necessário,
reduziu ao ato a sua fecundidade, produzindo, nela e por
ela, Jesus Cristo e seus membros. É um mistério da
graça inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre
os cristãos.
Segundo Princípio. – Deus quer servir-se de Maria na
santificação das almas
22. A conduta das três pessoas da Santíssima Trindade, na encarnação e
primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias,
de um modo visível, na Igreja, e esse procedimento há de
perdurar até à consumação dos séculos, na última vinda de
Cristo.
23. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu
todas as graças e chamou-as Maria10. Este grande
Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou
tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até
seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os
anjos chamam o tesouro do Senhor11, e de cuja
plenitude os homens se enriquecem.
10)
Appellvit eam Mariam, quasi mare gratiarum (S. Antonino,
Summa, p. IV, tit. 15, cap. 4, § 2).
11) Ipsa est
thesaurus Domini (Idiota, In contemplatione B.M.V.).
24. Deus Filho comunicou a sua Mãe tudo que adquiriu por sua vida e
morte: seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis.
Fê-la tesoureira de tudo que seu Pai lhe deu em herança;
é por ela que ele aplica seus méritos aos membros do corpo
místico, que comunica suas virtudes, e distribui suas graças;
é ela o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam
abundante e docemente suas misericórdias.
25. Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel esposa, seus
dons inefáveis, escolhendo-a para dispensadora de tudo que
ele possui. Deste modo ela distribui seus dons e suas graças
a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom
nenhum é concedido aos homens, que não passe por suas mãos
virginais. Tal é a vontade de Deus, que tudo
tenhamos por Maria e assim será enriquecida, elevada e
honrada pelo Altíssimo, aquela que, em toda a vida,
quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada. Eis
a opinião da Igreja e dos Santos Padres.12
12) Ver, entre
outros, São Bernardo e São Bernardino de Sena, que S. Luís
Maria cita mais adiante (141-142).
26. Se eu me dirigisse aos espíritos fortes desta época, tudo isso,
que digo simplesmente, poderia prová-lo pela Sagrada
Escritura, pelos Santos Padres, citando longas passagens em
latim e aduzindo os mais fortes argumentos, que o Padre
Poiré deduz e desenvolve em sua Tríplice coroa da
Santíssima Virgem. Falo, porém, aos pobres e aos
simples que, por serem de boa vontade e terem mais fé que a
maior parte dos sábios, crêem com mais simplicidade e
mérito, e, portanto, contento-me de lhes simplesmente a
verdade, sem me preocupar em citar todos os textos latinos,
embora mencione alguns, mas sem os rebuscar muito.
Continuemos.
27. Pois que a graça aperfeiçoa a natureza e a glória aperfeiçoa
a graça, é certo que Nosso Senhor continua a ser, no céu,
tão Filho de Maria, como o foi na terra. Por conseguinte,
ele conserva a submissão e obediência do mais perfeito dos
filhos para com a melhor das mães. Cuidemos, porém,
de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou
imperfeição em Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo
de seu Filho, que é Deus, e, portanto, não lhe
dá ordens, como uma mãe terrestre as dá a seu filho.
Maria,
porque está toda transformada em Deus pela graça e pela
glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede,
não quer, não faz a menor coisa contrário à eterna e
imutável vontade de Deus. Quando se lê, portanto, nos
escritos de São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura,
etc., que no céu e na terra tudo, o próprio Deus, está
submisso à Santíssima Virgem13, devemos entender que a
autoridade, que Deus espontaneamente lhe conferiu, é tão
grande que ela parece ter o mesmo poder que Deus, e
que suas preces e rogos são tão eficazes que se
podem tomar como ordens junto de sua Majestade, e ele não
resiste nunca às súplicas de sua Mãe, porque ela é sempre
humilde e conformada à vontade divina.
13) Ver adiante a
citação (nº 76).
Se
Moisés, pela força de sua oração, conseguiu sustar a cólera
de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o altíssimo
e infinitamente misericordioso Senhor lhe disse que o
deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que
devemos pensar, com muito mais razão, da prece da humilde
Maria, a digna Mãe de Deus, que tem mais poder junto da
Majestade divina, que as preces e intercessões de todos os
anjos e santos do céu e da terra?14
14) S. Agostinho,
Sermo 208 in Assumpt., nº 12.
28. No céu, Maria dá ordens aos anjos e aos bem-aventurados.
Para recompensar sua profunda humildade, Deus lhe deu o
poder e a missão de povoar de santos os tronos vazios, que
os anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho.15
E a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes
(Lc 1, 52), é que o céu, a terra e o inferno se curvem, de
bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria16, pois ele a
fez soberana do céu e da terra, general de seus exércitos,
tesoureira de suas riquezas, dispensadora de sua graças,
artífice de suas grandes maravilhas, reparadora do gênero
humano, medidora para os homens, exterminadora dos inimigos
de Deus e a fiel companheira de sua grandezas e de seus
triunfos.
15) Per Mariam ab
hominibus Angelorum chori reintegrantur (São Boaventura -
Speculum B.V., lect. XI, § 6).
16) In nomine tuo
omne genu flectatur caelestium, terrestrium et infernorum
(São Boaventura – Psalter. maius B.V., Cantic. Instar
“Cantici trium puerorum”).
29. Por meio de Maria, Deus Pai quer que aumente sempre o número de
seus filhos, até a consumação dos séculos, e diz-lhes estas
palavras: In Iacob inhabita – Habita em Jacob (Ecli 24, 13),
isto é, faze tua morada e residência em meus filhos e
predestinados, figurados por Jacob e não nos filhos do
demônio e nos réprobos, que Esaú figura.
30. Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma
mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma
mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e
os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem
não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai. Por
isso, os réprobos, os hereges, os cismáticos, etc., que
odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima
Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disto se gloriem,
pois não têm Maria por mãe. Se eles a tivessem por Mãe,
haviam de amá-la e honrá-la, como um bom e verdadeiro filho
ama e honra naturalmente sua mãe que lhe deu a vida.
O sinal
mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um
cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e
o réprobo ostentam desprezo e indiferença pela Santíssima
Virgem17 e buscam por suas palavras e exemplos, abertamente
e às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e
amesquinhar o culto e o amor a Maria. Ah! Não foi nestes que
Deus Pai disse a Maria que fizesse sua morada, pois são
filhos de Esaú.
17) Quicumque vult
salvus esse, ante omnia opus est ut teneat de Maria firmam
fidem (São Boaventura, Psalter. maius B.V., Symbol. Instar
Symboli Athanasii).
31. O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer,
encarnar-se todos os dias, por meio de sua Mãe, em seus
membros. Ele lhe diz: “In Israel hereditare – Possui
tua herança em Israel” (Ecli 24, 13), como se dissesse:
Deus, meu Pai, deu-me por herança todas as nações da terra,
todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os
conduzirei, uns com a vara de ouro, outros com a vara de
ferro; serei o pai e advogado de uns, o justo vingador para
outros, o juiz de todos; mas vós, minha querida Mãe, só
tereis por herança e possessão os predestinados, figurados
por Israel. Como sua boa mãe vós lhes dareis a vida,
os nutrireis, educareis; e, como sua soberana, os
conduzireis, governareis e defendereis.
32. “Um grande número de homens nasceu nela”, diz o
Espírito Santo: Homo et homo natus est in ea. Conforme a
explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido
em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem
puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo,
o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são
os membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma
conseqüência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça
sem os membros ou os membros sem a cabeça: seria uma
monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da
graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um
membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é, um
predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu
a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus
Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.
33. Além disso, pois que Jesus é agora, mais do que nunca, o fruto de
Maria, como lhe repetem mil e mil vezes diariamente o céu e
a terra: “...e bendito é o fruto do vosso ventre”,
é certo que Jesus Cristo, para cada homem em particular, que
o possui, é tão verdadeiramente o fruto e obra de Maria como
pra todo o mundo em geral. Deste modo, se qualquer fiel tem
Jesus Cristo formado em seu coração, pode atrever-se a
dizer: “Mil graças a Maria! este Jesus que eu possuo
é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais o teria”.
Pode-se ainda aplicar-lhes, com mais propriedade que São
Paulo aplica a si próprio, as palavras: “Quos iterum
parturio, donec formetur Christus in vobis” (Gal 4, 19): Dou
à luz todos os dias os filhos de Deus, até que Jesus Cristo
seja nele formado em toda a plenitude de sua idade.
Santo
Agostinho, sobrepujando a si mesmo, e tudo o que acabo de
dizer, confirma que todos os predestinados, para serem
conformes à imagem do Filho de Deus, são neste mundo ocultos
no seio da Santíssima Virgem, e aí guardados, alimentados,
mantidos e engrandecidos por esta boa Mãe, até que ela os dê
à glória, depois da morte, que é propriamente o dia de seu
nascimento, como qualifica a Igreja a morte dos justos.
Ó mistério de graça, que os réprobos desconhecem e os
predestinados conhecem muito pouco.
34. É vontade de Deus Espírito Santo que nela e por ela se formem
eleitos. “In electis meis mitte radices” (Ecli 24, 12), lhe
diz ele: Minha bem-amada e minha esposa, lança em meus
eleitos as raízes de todas as virtudes, a fim de que eles
cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive
tanta complacência em ti, quando vivias na terra, praticando
as mais sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-te
sobre a terra sem que deixes de estar no céu.
Reproduze-te, portanto, em meus eleitos. Que eu veja neles
com complacência as raízes de tua fé invencível, de tua
humildade profunda, de tua mortificação universal, de tua
oração sublime, de tua caridade ardente, de tua firmíssima
esperança e de todas as tuas virtudes. É sempre a minha
esposa tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que tua
fé me dê fiéis, que tua pureza me dê virgens, que tua
fecundidade me dê eleitos e templos.
35. Quando Maria lança suas raízes em uma alma, maravilhas de
graça se produzem, que só ela pode produzir, pois é a única
Virgem fecunda que não teve jamais, nem terá semelhante em
pureza e fecundidade.
Maria
produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que
existiu e existirá – um Deus-homem; e ela produzirá, por
conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir
nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes
santos, que aparecerão no fim do mundo, lhe está reservada,
pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em
união com o Espírito santo, as obras singulares e
extraordinárias.
36. Quando o Espírito Santo, seu esposo, a encontra numa alma,
ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude,
comunicando-se-lhe abundantemente e na medida que lhe
concede sua esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o
Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes,
é não encontrar ele uma união bastante forte entre as almas
e sua esposa fiel e inseparável. Digo esposa inseparável
porque, depois que este Amor substancial do Pai e do Filho
desposou Maria para produzir Jesus Cristo, o chefe dos
eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, nunca a repudiou, pois
ela tem sido sempre fiel e fecunda.
Artigo II
Conseqüências
Primeira conseqüência. – Maria é a Rainha dos corações
37. Do que ficou dito, deve-se concluir evidentemente que:
Primeiro, Maria recebeu de Deus um grande domínio sobre as
almas dos eleitos;
pois ela não pode estabelecer neles sua residência, como
Deus Pai lhe ordenou; não pode formá-los, nutri-los,
fazê-los nascer para a vida eterna, como sua mãe, possuí-los
como sua herança e partilha, formá-los em Jesus Cristo e
Jesus Cristo neles; não pode implantar em seus corações as
raízes de suas virtudes, a ser a companheira inseparável do
Espírito Santo em todo os seus trabalhos de graça; não pode,
repito, fazer todas estas coisas, se não tiver direito
e domínio sobre suas almas, por uma graça singular do
Altíssimo. E esta graça, que lhe deu autoridade sobre o
Filho único e natural de Deus, lhe foi concedida também
sobre seus filhos adotivos, não só quanto ao corpo, o que
seria pouco, mas também quanto à alma.
38. Maria é a Rainha do céu e da terra, pela graça, como Jesus é
o rei por natureza e conquista. Ora, como o reino de
Jesus Cristo compreende principalmente o coração ou o
interior do homem, conforme a palavra: “O reino de
Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21), o reino da
Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem,
isto é, em sua alma, e é principalmente nas almas que ela é
mais glorificada com seu Filho, do que em todas as criaturas
visíveis, e podemos chamá-la com os santos a Rainha
dos corações.
Segunda conseqüência. – Maria é necessária aos homens para
chegarem ao seu último fim
39. Em segundo lugar, é preciso concluir que a Santíssima Virgem,
sendo necessária a Deus, de uma necessidade chamada
hipotética, devido à sua vontade, é muito mais necessária
aos homens para chegarem a seu último fim. Não se confunda,
portanto, a devoção à Santíssima Virgem com a devoção aos
outros santos, como se não fosse mais necessária que a
destes, e apenas de superrogação.
§ 1. A devoção à santa Virgem é necessária a todos os homens
para conseguirem a salvação.
40. O douto e piedoso Suárez, da Companhia de Jesus, o sábio e devoto
Justo Lípsio, doutor da universidade de Lovaina, e muitos
outros, provaram incontestavelmente, apoiados na opinião dos
Santos Padres, entre outros, Santo Agostinho, Santo Efrém,
diácono de Edessa, São Cirilo de Jerusalém, São Germano de
Constantinopla, São João de Damasco, Santo Anselmo, São
Bernardo, São Bernardino, Santo Tomás e São Boaventura,
que a devoção à Santíssima Virgem é necessária à
salvação, e que é um sinal infalível de condenação –
opinião do próprio Ecolampádio e vários outros hereges, –
não ter estima e amor à Santíssima Virgem. Ao contrário, é
indício certo de predestinação, ser-lhe inteira e
verdadeiramente devotado17.
17) A verdadeira
devoção à Santíssima Virgem consiste em se lhe devotar e
entregar. O culto de dulia é a dependência, a servidão (S.
Th. – Sum. Theol. 2-2, q. 103, a. 3, in fine corp.); o culto
de hiperdulia consite numa dependência mais perfeita à
Santíssima Virgem, ou, em outras palavras na escravidão
preconizada por São Luís Maria de Montfort.
41. As figuras e palavras do Antigo e do Novo Testamento o provam; a
opinião e os exemplos dos santos o confirmam; a razão e a
experiência o ensinam e demonstram; o próprio demônio e seus
asseclas, premidos pela força da verdade, riram-se muitas
vezes constrangidos a confessá-lo a seu pesar. De todas as
passagens dos Santos Padres e doutores que compilei para
provar esta verdade, cito apenas uma para não me alongar:
“Tibi devotum esse, est arma quaedam salutis quae Deus his
dat quos vult salvos fieri...” S. João Damasc.) – Ser
vosso devoto, ó Virgem Santíssima, é uma arma de salvação
que Deus dá, àqueles que quer salvar.
42. Eu poderia repetir aqui várias histórias que provam o que afirmo.
Entre outras, primeiro aquela que vem narrada nas crônicas
de São Francisco, em que se conta que o santo viu, em
êxtase, uma escada enorme, em cujo topo, apoiado no céu,
avultava a Santíssima Virgem. E o santo compreendeu que
aquela escada ele devia subir para chegar ao céu; segundo a
outra, narrada nas crônicas de São Domingos: Quando o
santo pregava o rosário nas proximidades de Carcassona,
quinze mil demônios, que possuíam a alma de um infeliz
herege, foram obrigados, por ordem da Santíssima Virgem, a
confessar muitas verdades grandes e consoladoras, referentes
à devoção a Maria. E eles, para própria confusão, o
fizeram com tanto ardor e clareza que não se pode ler essa
autêntica narração e o panegírico, que o demônio, embora a
contragosto, fez da devoção mariana, sem derramar lágrimas
de alegria, ainda que pouco devoto se seja da Santíssima
Virgem.
§ 2. A devoção à Santíssima Virgem é mais necessária ainda
àqueles chamados a uma perfeição particular.
43. Se a devoção à Virgem Santíssima é necessária a todos os
homens para conseguirem simplesmente a salvação, é ainda
mais para aqueles que são chamados a uma perfeição
particular; nem creio que uma pessoa possa adquirir uma
união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao
Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem
e uma grande dependência de seu socorro.
44. Só Maria achou graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem
auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois dela,
que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio
dela e é só por ela que acharão graça os que ainda virão.18
Maria era cheia de graça quando o arcanjo Gabriel a
saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou
quando o Espírito Santo a cobriu com sua sombra inefável
(Lc 1, 35). E de tal modo ela aumentou essa dupla plenitude,
de dia a dia, de momento a momento, que chegou a um ponto
imenso e inconcebível de graça, de sorte que o Altíssimo a
fez tesoureira de todos os seus bens, dispensadora de suas
graças, para enobrecer, elevar e enriquecer a quem ela
quiser, para fazer entrar quem ela quiser no caminho
estreito do céu, para deixar passar, apesar de tudo, quem
ela quiser pela porta estreita da vida eterna. E para dar o
trono, o cetro, e a coroa de rei a quem ela quiser. Jesus é
em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é
em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e
a verdadeira mãe que o produz19.
19) Cf. acima, nº
33.
45. A Maria somente Deus confiou as chaves dos celeiros do
divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e
mais secretas da perfeição, e de nesses caminhos fazer
entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos
de Eva infiel a entrada no paraíso terrestre, para aí
espairecerem agradavelmente com Deus, para aí, com
segurança, se ocultarem de seus inimigos, para aí, sem mais
receio da morte, se alimentarem deliciosamente do fruto das
árvores da vida e da ciência do bem e do mal, e para
sorverem longamente as águas celeste desta bela fonte que
jorra com tanta abundância; ou melhor, como ela mesma é esse
paraíso terrestre ou essa terra virgem e abençoada, da qual
Adão e Eva, pecadores, foram expulsos, ela só dá entrada
àqueles, que lhe apraz deixar entrar e para torná-los
santos.
46. Todos os ricos do povo, para me servir da expressão do
Espírito Santo (Sl 44, 13), suplicarão, conforme a
explicação de São Bernardo, vossa face em todos os séculos,
e particularmente no fim do mundo; isto é, os mais
santos, as almas mais ricas em graça e em virtudes serão as
mais assíduas em rogar à Santíssima Virgem que lhes esteja
sempre presente, como seu perfeito modelo a imitar, e que as
socorra com seu auxílio.
47. Disse que isto aconteceria particularmente no fim do mundo e em
breve, porque o Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar
grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a
maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se
avantajam às pequenas árvores em redor, segundo revelação
feita a uma santa alma.
48. Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão
escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar
em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da
Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de
seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu
braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que
combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra
(cf. Ne 4, 17). Com a direita combaterão, derrubarão,
esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com
seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios
com suas impiedades; e com a esquerda edificarão o templo do
verdadeiro Salomão e a cidade mística de Deus, isto é,
a Santíssima Virgem que os Santos Padres chamam “o
templo de Salomão”20 e “a cidade de Deus”21. Por suas
palavras e por seu exemplo, arrastarão todo o mundo à
verdadeira devoção e isto lhes há de atrair inimigos sem
conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único
Deus. É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande
apóstolo de seu século, e que se encontra assinalado em uma
de suas obras.
20) “Templum
Salomonis”. Idiota, De B.V. p. XVI, contemplação 7.
21) “Civitas Dei”.
S. Agostinho, Enarrat in Os. 142, n. 3.
O mesmo
parece ter predito o salmo 58 (14, 15), em que se lê: “Et
scient quia Deus dominabitur Jacob et finium terrae;
convertentur ad vesperam, et famem patientur ut canes, et
circuibunt civitatem – E saberão que Deus reinará
sobre Jacob, e até os confins da terra; voltarão à tarde, e
padecerão fome como cães, e rodearão a cidade, em busca do
que comer”. Esta cidade que os homens encontrarão no fim do
mundo para se converterem e saciarem a sua fome de justiça,
é a Santíssima Virgem, que o Espírito Santo denomina “cidade
de Deus” (Sl 86, 3).
§ 3. A devoção à Santíssima Virgem será especialmente
necessária nesses últimos tempos.
1. Papel especial de Maria nos últimos tempos
49. Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que
deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria
quase não apareceu, para que os homens, ainda
insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa
de seu Filho, não se lhe apegassem demais e grosseiramente,
afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente
acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio
Deus lhe havia ornado a aparência exterior. São Dionísio, o
Areopagita, o confirma numa página que nos deixou 22 e em
que diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma
divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza
incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe
ensinasse o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus
Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito
Santo, a fim de que por ela seja Jesus Cristo conhecido,
amado e servido, pois já não subsistem as razões que levaram
o Espírito Santo a ocultar sua esposa durante a vida e a
revelá-la só pouco depois da pregação do Evangelho.
50. Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e
manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos:
1º
Porque ela se ocultou neste mundo, e, por sua humildade
profunda, se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos
apóstolos e evangelistas, não ser quase mencionada.
2º
Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em
baixo, pela graça, como no céu, pela glória, ele quer que,
por ela, os viventes o louvem e glorifique sobre a terra.
3º
Visto ser ela a aurora que precede e anuncia o Sol da
justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que
Jesus Cristo o seja.
4º
Pois que é a via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira
vez, ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo
diferente.
5º
Pois que é o meio seguro e o caminho reto e imaculado para
se ir a Jesus Cristo e encontrá-lo plenamente, é por ela que
as almas, chamadas a brilhar em santidade, devem
encontrá-lo. Quem encontrar Maria encontrará a vida (cf.
Prov 8, 35), isto é, Jesus Cristo, que é o caminho, a
verdade e a vida (Jo 14, 6). Mas não pode encontrar Maria
quem não a procura; quem não a conhece, e ninguém procura
nem deseja o que não conhece. É preciso, portanto, que Maria
seja, mais do que nunca, conhecida, para maior conhecimento
e maior glória da Santíssima trindade.
6º
Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar, como jamais
brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia
para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e
desviados que se converterão e voltarão ao seio da Igreja
católica; em força contra os inimigos de Deus, os
idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios
empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e
fazer cair, com promessas e ameaças, todos os que lhes forem
contrários. Deve, enfim, resplandecer em graça, para animar
e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que
pugnarão por seus interesses.
7º Maria
deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes
como um exército em linha de batalha, principalmente n esses
últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo
lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus
esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis
e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos
verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para
vencer.
51. É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do
demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do
Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição
e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso
terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da
Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do
demônio.
“Inimicitias ponan inter
te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret
caput tuum, et tu insidiaberis calcaneo eius” (Gn 3, 15): Porei inimizades entre ti e a mulher, e
entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará
a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.
52. Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade
irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao
fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o
demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os
filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais
terrível inimiga que Deus armou contra o demônio.
Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse
amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para
descobrira malícia desta velha serpente, tanta força para
vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o
temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe
inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o
próprio Deus. Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não
sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem,
pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro
lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente
mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde
escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder
divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão
grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se
viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos,
infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma,
que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças
que todos os outros tormentos.
53. O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por
humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência,
salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente,
perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder
infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou
consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.
54. Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente
entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da
Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer,
Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos
entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e
os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor
sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns
e outros.
Os filhos
de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a
mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no
futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como
outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão
Jacob, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a
humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse
orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará
ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho.
Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará
suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e
até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra
as garras de tão cruel inimigo.
Mas
o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se
com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás
começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus
humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela
suscitará para combater o príncipe das trevas.
Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e
rebaixados diante de todos como o calcanhar em comparação
com os outros membros do corpo. Mas, em troca, eles
serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes
distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em
santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por
seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder
divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com
Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo
de Jesus Cristo.
2. Os apóstolos dos últimos tempos
55. Deus quer, finalmente, que sua Mãe Santíssima seja agora
mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi.
E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem
em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior
e perfeita que lhes indico a seguir. E, se a
observarem com fidelidade, verão, então, claramente, quanto
lho permite a fé, esta bela estrela do mar, e chegarão a bom
porto, tendo vencido as tempestades e os piratas.
Conhecerão as grandezas desta soberana e se consagrarão
inteiramente a seu serviço, como súditos e escravos de amor.
Experimentarão suas doçuras e bondades maternais a amá-la-ão
ternamente como seus filhos estremecidos. Conhecerão as
misericórdias de que ela é cheia e a necessidade que têm de
seu auxílio, e há de recorrer a ela em todas as
circunstâncias como à sua querida advogada e medianeira
junto de Jesus Cristo. Reconhecerão que ela é o meio mais
seguro, fácil, mais rápido e mais perfeito de chegar a Jesus
Cristo, e se lhe entregarão de corpo e alma, sem restrições,
para assim também pertencerem a Jesus Cristo.
56. Mas quem serão esses servidores, esses
escravos e filhos de Maria?
Serão
ministros do Senhor ardendo em chamas abrasadoras, que
lançarão por toda a parte o fogo do divino amor.
Serão
“sicut sagittae in manu potentis” (Sl 126, 4) – flechas
agudas nas mãos de Maria toda-poderosa, pronta a traspassar
seus inimigos.
Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes
tribulações, e bem colados a Deus22,
que levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração
no espírito, e a mirra da mortificação no corpo e que serão
em toda parte para os pobres e os pequenos o bom odor de
Jesus Cristo, e para os grandes, os ricos e os orgulhosos do
mundo, um odor repugnante de morte.
22) Tradução
enérgica da palavra de São Paulo (1Cor 6, 17): “Qui adhaeret
Domino”.
57. Serão nuvens trovejantes esvoaçando pelo ar ao menor sopro do
Espírito Santo, que, sem apegar-se a coisa alguma nem
admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da
palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o
pecado, e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o
demônio e seus asseclas, e, para a vida ou para a morte,
traspassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da
palavra de Deus (Cf. Ef 6, 17), todos aqueles a quem forem
enviados da parte do Altíssimo.
58. Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, e o Senhor
das virtudes lhes dará a palavra e a força para fazer
maravilhas e alcançar vitórias gloriosas sobre seus inimigos;
dormirão sem ouro nem prata, e, o que é melhor, sem
preocupações no meio dos outros padres, eclesiásticos e
clérigos, “intermédios cleros” (Sl 67, 14) e, no
entanto, possuirão as asas prateadas da pomba, para voar,
com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das
almas, aonde os chamar o Espírito Santo, deixando após si,
nos lugares em que pregarem, o ouro da caridade que é o
cumprimento da lei (Rom 13, 10).
59. Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus
Cristo, andando nas pegadas da pobreza e humildade, do
desprezo do mundo e caridade, ensinado o caminho estreito de
Deus na pura verdade, conforme o santo Evangelho, e não
pelas máximas do mundo, sem se preocupar nem fazer acepção
de pessoa alguma, sem poupar, escutar ou temer nenhum
mortal, por poderoso que seja. Terão na boca a espada de
dois gumes da palavra de Deus; em seu ombros ostentarão o
estandarte ensangüentado da cruz, na direita, o crucifixo,
na esquerda o rosário, no coração os nomes sagrados de Jesus
e de Maria, e, em toda a sua conduta, a modéstia e a
mortificação de Jesus Cristo.
Eis
os grandes homens que hão de vir, suscitados por Maria, em
obediência às ordens do Altíssimo, para que o seu império se
estenda sobre o império dos ímpios, dos idólatras e dos
maometanos. Quando e como acontecerá?... Só Deus o sabe!...
Quanto a nós, cumpre calar-nos, orar, suspirar e esperar: Exspectans exspectavi (Sl 39, 2).
Capítulo II
Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem
60. Até aqui dissemos alguma coisa sobre a necessidade que temos da
devoção à Santíssima Virgem. Com o auxílio de Deus direi
agora em que consiste esta devoção, expondo, porém, antes,
algumas verdades fundamentais, que esclarecerão esta grande
e sólida devoção que quero manifestar.
Artigo I
Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem
61. Primeira verdade. –
Jesus Cristo, nosso salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem, deve ser o fim último de todas as nossas devoções;
de outro modo, elas serão falsas e enganosas. Jesus
Cristo é o Alfa e Omega23, o princípio e o fim de
todas as coisas.
Nós só
trabalhamos, como diz o apóstolo, para tornar todo homem
perfeito em Jesus Cristo, pois é em Jesus Cristo que habita
toda a plenitude da Divindade e todas as outras plenitudes
de graças, de virtudes, de perfeições; porque nele somente
fomos abençoados de toda a bênção espiritual; porque é nosso
único mestre que deve ensinar-nos, nosso único Senhor de
quem devemos depender, nosso único chefe ao qual devemos
estar unidos, nosso único modelo, com o qual devemos
conformar-nos, nosso único médico que nos há de curar, nosso
único pastor que nos há de alimentar, nosso único caminho
que devemos trilhar, nossa única verdade que devemos crer,
nossa única vida que nos há de vivificar, e nosso tudo em
todas as coisas, que deve bastar-nos.
Abaixo do
céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos
ser salvos. Deus não nos deu outro fundamento para nossa
salvação, nossa perfeição e nossa glória, senão Jesus
Cristo. Todo edifício cuja base não assentar sobre esta
pedra firme, estará construído sobre areia movediça, e ruirá
fatalmente, mais cedo ou mais tarde. Todo fiel que não está
unido a ele, como um galho ao tronco da videira, cairá e
secará, e será por fim atirado ao fogo. Fora dele tudo é
ilusão, mentira, iniqüidade, inutilidade, morte e danação.
Se estamos, porém, em Jesus Cristo e Jesus Cristo em nós,
não temos danação a temer; nem os anjos do céu, nem os
homens da terra, nem criatura alguma nos pode embaraçar,
pois não pode separar-nos da caridade de Deus que está em
Jesus Cristo. Por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus
Cristo, podemos tudo: render toda a honra e glória ao Pai,
em unidade do Espírito Santo e tornar-nos perfeitos e ser
para nosso próximo um bom odor de vida eterna.
62. Se estabelecermos, portanto, a sólida devoção à Santíssima Virgem,
teremos contribuído para estabelecer com mais perfeição a
devoção a Jesus Cristo, teremos proporcionado um meio fácil
e seguro de achar Jesus Cristo. Se a devoção à Santíssima
Virgem nos afastasse de Jesus Cristo, seria preciso
rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas é tão o
contrário, que, como já fiz ver e farei ver, ainda, nas
páginas seguintes, esta devoção só nos é necessária para
encontrar Jesus Cristo, amá-lo ternamente e fielmente
servi-lo.
23) As páginas
eloqüentes que seguem são tiradas quase exclusivamente da
Sagrada Escritura. Cf., p. ex., Ap 1, 8; Cl 2, 8; Mt 23, 10;
Jo 13, 13; 1Cor 8, 6; Cl 1, 18; Jo 13, 15; 10, 16; 14, 6; At
9, 12; 1Cor 3, 11; Mt 7, 26-27; Jo 15, 6; Rm 8, 38-39; etc.
63. Volto-me, aqui, um momento, pra vós, ó Jesus, a fim de
queixar-me amorosamente à vossa divina majestade, de que a
maior parte dos cristãos, mesmo os mais instruídos
desconhecem a ligação imprescindível que existe entre vós e
vossa Mãe Santíssima. Vós, Senhor, estais sempre com
Maria, e Maria sempre convosco, nem pode estar sem vós; de
outro modo, ela deixaria de ser o que é; e de tal maneira
está ela transformada em vós pela graça, que já não vive, já
não existe; sois vós, meu Jesus, que viveis e reinais nela,
mais perfeitamente que em todos os anjos e bem-aventurados.
Ah! Se conhecêssemos a glória e o amor que recebeis
nesta admirável criatura, bem diferentes seriam os nossos
sentimentos a respeito de vós e dela. Maria está tão
intimamente unida a vós que mais fácil seria separar do sol
a luz, e do fogo o calor; digo mais: com mais facilidade se
separariam de vós os anjos e os santos que a divina Mãe,
pois que ela vos ama com amais ardor e vos glorifica com
mais perfeição que todas as vossas outras criatura juntas.
64. Depois disto, meu amável Mestre, não é triste e lamentável ver a
ignorância e as trevas em que jazem todos os homens na
terra, a respeito de vossa Mãe Santíssima? Não falo dos
idólatras e pagãos, que, não vos conhecendo, também não se
importam de conhecê-la; nem falo dos hereges e cismáticos,
que não têm a peito ser devotos de vossa Mãe Santíssima, a
não ser de um modo especulativo, seco, estéril e
indiferente. Estes senhores raras vezes falam de Maria e da
devoção que se lhe deve ter, porque, dizem, receiam que se
abuse dessa devoção e que se vos ofenda, honrando
excessivamente vossa Mãe Santíssima.
Se vêem
ou ouvem algum devoto da Santíssima Virgem falar muitas
vezes, de um modo terno, forte e persuasivo, da devoção a
esta boa Mãe, como de um meio seguro e sem ilusão, dum
caminho curto e sem perigo, duma via imaculada e sem
imperfeição, e dum segredo maravilhoso para chegar a vós e
vos amar perfeitamente, clamam contra ele, e lhe apresentam
mil razões falsas, para provar-lhes que não é necessário
falar tanto a respeito da Santíssima Virgem, que há muito
abuso nessa devoção, que é preciso empenhar-se em destruir,
e aplicar-se em falar sobre vós em vez de favorecer a
devoção à Virgem Maria, a quem o povo já ama
suficientemente.
Às
vezes metem-se a falar da devoção à vossa Mãe Santíssima,
não, porém, para assentá-la e propagá-la, e sim para
destruir os abusos que dela se fazem.
Estes senhores são, no entanto, desprovidos de piedade, e
não têm por vós sincera devoção, pois que não a têm a Maria.
Consideram o rosário, o escapulário, o terço, como devoções
de mulheres, próprias de ignorantes, sem as quais se pode
obter muito bem a salvação. E se lhes cai nas mãos algum
devoto da Virgem Santíssima, que recita o seu terço ou
pratica qualquer outra devoção Mariana, mudam-lhe em pouco
tempo o espírito e o coração: em lugar do terço lhe
aconselham recitar os sete salmos; em vez da devoção à
Santíssima Virgem aconselham a devoção a Jesus Cristo.
Ó meu
amável Jesus, terá essa gente o vosso espírito? Será
possível que vos agradem, agindo desse modo? Poderá
alguém agradar-vos sem fazer todos os esforços para agradar
a Maria, por medo de vos desagradar? A devoção à vossa Mãe
impede a vossa? Atribuir-se-á ela as honras que lhe damos?
Formará ela um partido diverso do vosso? É ela, acaso, uma
estrangeira sem a menor ligação convosco? É desagradar-vos
querer agradecer-lhe? Separamo-nos, talvez, ou nos afastamos
de vosso amor, se nos damos a ela e a amamos?
65. Entretanto, meu amável Mestre, a maior parte dos sábios, em
castigo de seu orgulho, não se afastariam mais da devoção à
Santíssima Virgem, nem a olhariam com mais indiferença, se
tudo o que acabo de dizer fosse verdade. Guardai-me, Senhor,
guardai-me de seus sentimento e de suas práticas, e dai-me
uma parte dos sentimentos de reconhecimento, de estima, de
respeito e de amor, que tendes para com vossa Mãe
Santíssima, a fim de que eu vos ame e glorifique na medida
em que vos imitar e mais de perto vos seguir.
66. Concedei-me a graça de louvar dignamente vossa Mãe
Santíssima, como se nada fosse o que, até aqui, disse em sua
honra. “Fac me digne tuam Matrem collaudare”, a
despeito de todos os seus inimigos, que são os vossos, e que
eu lhes repita com os santos: “Nom praesumat aliquis Deum se
habere propitium qui bem edictam Matrem offensam habuerit. –
Não presuma receber a graça de Deus, quem ofende sua
Mãe Santíssima”.
67. E, para alcançar de vossa misericórdia uma verdadeira devoção a
vossa Mãe Santíssima, e inspirá-la a toda a terra, fazei que
eu vos ame ardentemente, e recebei para este fim a súplica
ardente que vos dirijo com Santo Agostinho24 e vossos
verdadeiros amigos:
24) Meditationum
lib. I, cap. XVIIIm n. 2 (inter opera S. Agostini).
No
sentido de satisfazer aos desejos dos fiéis que não
compreendem o latim, damos aqui uma tradução desta oração.
“Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai santo, meu Deus
misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu bom
pastor, meu único mestre, meu auxílio cheio de bondade, meu
pão vivo, meu sacerdote eterno, meu guia para a pátria,
minha verdadeira luz, minha santa doçura, meu reto caminho,
sapiência minha preclara, minha pura simplicidade, minha paz
e concórdia; sois, enfim, toda a minha salvaguarda, minha
herança preciosa, minha eterna salvação...
Ó
Jesus Cristo, amável Senhor, por que, em toda a minha vida,
amei, por que desejei outra coisa senão vós? Onde estava eu
quando não pensava em vós? Ah! que, pelo menos, a partir
deste momento meu coração só deseje a vós e por vós se
abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já
bastante tardastes; apressai-vos para o fim a que aspirais;
procurai em verdade aquele procurais. Ó Jesus anátema seja
quem não vos ama.
Aquele que não vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce
Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração
dignamente consagrado à vossa glória. Deus de meu coração e
minha partilha, Jesus Cristo, que em vós meu coração
desfaleça, e sede vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha
alma a brasa ardente de vosso amor e se converta num
incêndio todo divino, a arder para sempre no altar de meu
coração; que inflame o âmago de minha alma; para que no dia
de minha morte eu apareça diante de vós inteiramente
consumido em vosso amor... Amém”.
Quis
transcrever no original esta oração admirável de Santo
Agostinho para que assim a possam recitar as pessoas que não
entendem latim. Recitemo-la todos os dias para pedir o amor
de Jesus, que procuramos por intermédio da Santíssima
Virgem.
Artigo II
Pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de
escravos
68. Segunda verdade. – Do
que Jesus é para nós, concluímos que não nos
pertencemos, como diz o apóstolo (1Cor 6, 19), e sim a
ELE, inteiramente, como seus membros e seus
escravos, comprados que fomos por um preço infinitamente
caro, o preço de seu sangue.
Antes do
batismo o demônio nos possuía como escravos, e o
batismo nos transformou em escravos de Jesus Cristo e só
devemos viver, trabalhar e morrer para produzir frutos para
o homem-Deus (Rom 7, 4), glorificá-lo em nosso corpo
e fazê-lo reinar em nossa alma, pois somos sua conquista,
seu povo adquirido, sua herança. Pelo mesmo motivo o
Espírito Santo nos compara24:
1º a
árvores plantadas ao longo das águas da graça, nos campos da
Igreja, árvores que devem dar seus frutos no tempo adequado;
2º aos
galhos de uma videira de que Jesus Cristo é o tronco, e que
devem produzir boas uvas;
3º a um
rebanho cujo pastor é Jesus, e esse rebanho deve
multiplicar-se e dar leite;
4º a uma
boa terra de que Deus é o lavrador, e na qual a semente se
multiplica, rendendo trinta, sessenta, cem vezes mais.
Jesus amaldiçoou a figueira estéril (Mt 21, 19)
e declarou condenado o servo inútil o que não fizera
valer o seu talento (Mt 25, 24-30).
Tudo isso
nos prova que Jesus Cristo quer receber alguns frutos de
nossas mesquinhas pessoas: quer receber nossas boas
obras, porque as boas obras lhe pertencem exclusivamente:
“Creati in operibus bonis in Christo Iesu – Criados em
Jesus Cristo para boas ações” (Ef 2, 10).
Essas palavras do Espírito Santo mostram que Jesus Cristo é
o único fim de todas as nossas boas obras, e que devemos
servi-lo não somente como servidores assalariados, mas como
escravos de amor. Explico-me.
69. Há duas maneiras, aqui na terra, de alguém pertencer a outrem e de
depender de sua autoridade. São a simples servidão e a
escravidão, donde a diferença que estabelecemos entre servo
e escravo.
Pela servidão,
comum entre os cristãos, um homem se põe a serviço de outro
por um certo tempo, recebendo determinada quantia ou
recompensa.
Pela escravidão,
um homem depende inteiramente de outro durante toda a vida,
e deve servir a seu senhor, sem esperar salário nem
recompensa alguma, como um dos animais sobre que o dono tem
direito de vida e morte.
70. Há três espécies de escravidão25: por natureza, por
constrangimento e por livre vontade.
Por
natureza, todas as criaturas são escravas de Deus: “Domini
est terra et plenitudo eius” (Sl 23, 1). Os demônios e os
réprobos são escravos por constrangimento; e os justos e os
santos o são por livre e espontânea vontade.
A
escravidão voluntária é a mais perfeita, a mais gloriosa aos
olhos de Deus, que olha o coração
(1Rs 16, 7), que pede o coração (Prov 23, 26)
e que é chamado o Deus do coração (Sl 72, 26)
ou da vontade amorosa, porque, por esta escravidão,
escolhe-se, sobre todas as coisas, a Deus e seu serviço,
ainda quando não o obriga a natureza.
25) Cf. S.
Agostinho, “Expositio cantici Magnificat” (circa médium). S.
Tomás, Summa Theol. 3, q. 48, ª 4, corp. et resp. ad 1.
71. A diferença entre um servo e um
escravo é total:
1º Um
servo não dá a seu patrão tudo o que é, tudo o que possui ou
pode adquirir por outrem ou por si mesmo; mas um escravo se
dá integralmente a seu senhor, com tudo o que possui ou
possa adquirir, sem nenhuma exceção.
2º O
servo exige salário pelos serviços que presta a seu patrão;
o escravo, porém, nada pode exigir, seja qual for a
assiduidade, a habilidade, a força que empregue no trabalho.
3º O
servo pode deixar o patrão quando quiser, ou ao menos quando
expirar o tempo de serviço, mas o escravo não tem esse
direito.
4º O
patrão não tem sobre o servo direito algum de vida e de
morte, de modo que, se o matasse como mata um se seus
animais de carga, cometeria um homicídio; mas, pelas leis, o
senhor tem sobre o escravo o poder de vida e morte26; de
modo que pode vendê-lo a quem o quiser ou matá-lo, como, sem
comparação, o faria a seu cavalo.
26) A lei natural,
a lei mosaica e as leis modernas não reconhecem tal direito,
a não ser por um mandato especial do soberano Senhor da vida
e da morte. O bem-aventurado se coloca aqui simplesmente do
ponto de vista do fato, conforme as leis civis dos países em
que vigorava a escravidão (cf. Secret de Marie, p. 34).
Abstraindo da moralidade do ato, seu fito é mostrar, por um
exemplo, a total dependência de que fala.
5º O
servo, enfim, só por algum tempo fica a serviço de um
patrão, enquanto o escravo o é para sempre.
72. Só a escravidão, entre os homens, põe uma pessoa na posse e
dependência completa de outra. Nada há, do mesmo modo, que
mais absolutamente nos faça pertencer a Jesus Cristo e a sua
Mãe Santíssima do que a escravidão voluntária, conforme
o exemplo do próprio Jesus Cristo, que, por nosso amor,
tomou a forma de escravo: “Formam servi accipiens” (Filip
2, 7), e da Santíssima Virgem, que se declarou a
escrava do Senhor (Lc 1, 38).
O
apóstolo honra-se várias vezes em suas epístolas com o
título de “servus Christi”27. A Sagrada Escritura chama
muitas vezes os cristãos de “servi Christi”, e esta palavras
“servus”, conforme a observação acertada de um grande
homem28, significava, outrora, apenas escravo, pois não
existiam servos como os de hoje, e os ricos só eram servidos
por escravos ou libertos. E para que não haja a menor dúvida
de que somos escravos de Jesus Cristo, o Concílio de Trento
usa a expressão inequívoca “mancipia Christi” e no-lo
aplica: escravos de Jesus Cristo29. Isto posto:
27) Cf. Rom 1, 1;
Gal 1, 10; Filip 1, 1; Tito 1, 1.
28) Henri-Marie
Boudon, arcediago d’Evreux, em seu livro: “La sainte
esclavage de l’admirable Mère de Dieu’, cap. II.
29) Catec. Rom.,
parte I, cap. 3: De secundo Symboli articulo (in fine).
73. Digo que devemos pertencer a Jesus Cristo e servi-lo, não só
como servos mercenários, mas como escravos amorosos,
que, por efeito de um grande amor, se dedicam a servi-lo
como escravos, pela honra exclusiva de lhe pertencer. Antes
do batismo, éramos escravos do demônio; o batismo nos
fez escravos de Jesus Cristo. Importa, pois, que os
cristãos sejam escravos ou do demônio ou de Jesus Cristo.
74. O que digo absolutamente de Jesus Cristo, digo-o também da
Virgem Maria, pois Jesus Cristo, escolhendo-a para sua
companheira inseparável na vida, na morte, na glória, em seu
poder no céu e na terra, deu-lhe pela graça, relativamente à
sua majestade, os mesmos direitos e privilégios que ele
possui por natureza. “Quidquid Deo convenit per
naturam, Mariae convenit per gratiam... – Tudo que
convém a Deus pela natureza, convém a Maria pela graça”,
dizem os santos. Assim, conforme este ensinamento, pois que
ambos têm a mesma vontade e o mesmo poder, têm também os
mesmos súditos, servos e escravos30.
30) Oportebat...
Dei Matrem ea quae Filii essent possidere (São João Damasc.,
Sermo 2 in Dormitione B. M.).
75. Podemos, portanto, seguindo a opinião dos santos e de muitos
doutos, dizer-nos e fazer-nos escravos da Santíssima
Virgem, para deste modo nos tornarmos mais perfeitamente
escravos de Jesus Cristo. 29 A Santíssima
Virgem é o meio de que Nosso Senhor se serviu para vir até
nós; e é o meio de que nos devemos servir para ir a Ele30.
Bem
diferente é Ela das outras criaturas, as quais, se a elas
nos apegarmos, poderão antes afastar-nos que aproximar-nos
de Deus. A mais forte inclinação de Maria é unir-nos a
Jesus Cristo, seu divino Filho; e a mais forte inclinação do
Filho é que vamos a ele por meio de sua Mãe Santíssima.
E isto é para ele tanta honra e prazer, como seria para um
rei honra e prazer, se alguém, para tornar-se mais
perfeitamente seu escravo, se fizesse escravo da rainha. Eis
por que os Santos Padres, e São Boaventura com eles, dizem
que a Santíssima Virgem é o caminho para chegar a
Nosso Senhor: “Via veniendi ad Christum est
appropinquare ad illam”31.
29) Ita serviam Matri tuae,
ut ex hoc ipse me probes servisse tibi (S. Ildefonso: de
virginitate perpetua B. M., cap. XII).
30) Per ipsam Deus
descendit ad terras, ut per ipsam homines ascendere
mereantur ad caelos (S. Agostinho – Sermo 113 in Nativit.
Domini). Ver também S. Boaventura: Expositio in Lc, cap. I,
n. 38. Pio X, Encíclica “Ad diem illum”.
31) Psalterium
maius B. M., Sl 117.
76. Além disso, se a Virgem Santíssima, como já disse (v. nº 38),
é a rainha e soberana do céu e da terra –
“Imperio Dei omnia subiciuntur et Deus”32 , dizem Santo
Anselmo, São Bernardo, São Boaventura – não possui Ela
tantos súditos e escravos quantas criaturas existem?33 Não é
razoável que, entre tantos escravos por constrangimento,
haja alguns por amor, que de boa vontade e na qualidade
de escravos, escolham Maria para sua soberana?
Pois
então os homens e os demônios terão seus escravos
voluntários e Maria não há de tê-los? Seria desonra para um
rei se a rainha, sua companheira, não possuísse escravos
sobre os quais tivesse direito de vida e morte34, pois a
honra e o poder do rei são a honra e o poder da rainha; e
pode-se acreditar que Nosso Senhor, o melhor de todos os
filhos, que deu a sua Mãe Santíssima parte de todo o seu
poder, considere um mal ter Ela escravos?35 Terá
Ele menos respeito e amor a sua Mãe do que teve Assuero a
Éster e Salomão a betsabé? Quem ousaria dizê-lo ou pensá-lo
sequer?
32) “Ao poder de
Deus tudo é submisso, até a Virgem; ao poder da Virgem tudo
é submisso, até Deus”.
33) “Res quippe
omnes conditas Filius Matri mancipavit”. S. João Damasceno.
Sermo 2 in Dormitione B. M. – São Boaventura: Ancilla
Dominae Mariae est quaelibet anima Fidelis, imo etiam
Ecclesia universalis (Speculum B. M. M., lect. III § 5).
34) V. nota ao n.
71.
35) Christianiorum
memento, qui servi tui sunt. São Germano de Constatinopla:
Orat. hist. In Dormitione Deiparae.
77. Mas onde me leva minha pena? Por que me detenho aqui a provar uma
coisa tão evidente? Se alguém recusa confessar-se escravo de
Maria, que importa? Que se faça e diga escravo de Jesus
Cristo. É o mesmo que ser escravo da Santíssima
Virgem, pois Jesus é o fruto e a glória de Maria. E
isto se faz perfeitamente pela devoção de que falaremos a
seguir36.
36) Para
explicação da doutrina exposta neste artigo II, ver: A.
Lhomeau: “A vida espiritual do B. L. M. Grignion de Montfort”,
1ª parte, cap. IV.
Artigo III
Devemos despojar-nos do que há de mau em nós
78. Terceira verdade. – Nossas melhores ações são ordinariamente
manchadas e corrompidas pelo fundo de maldade que há em nós.
Quando se despeja água limpa e clara em uma vasilha suja,
que cheira mal, ou quando se põe vinho em uma pipa cujo
interior está azedado por outro vinho que aí antes se
depositara, a água límpida e o vinho bom adquirem facilmente
o mau cheiro e o azedume dos recipientes. Do mesmo modo,
quando Deus põe no vaso de nossa alma, corrompido pelo
pecado original e pelo pecado atual, suas graças e orvalhos
celestiais ou o vinho delicioso de seu amor, estes dons
divinos ficam ordinariamente estragados ou manchados pelo
mau germe e mau fundo que o pecado deixou em nós; nossas
ações, até as mais sublimes virtudes, disto se ressentem.
É,
portanto, de grande importância, para adquirir a perfeição,
que só se consegue pela união com Jesus Cristo,
despojar-nos de tudo que de mau existe em nós.
Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia
infinitamente a menor mancha na alma, nos repelirá e de modo
algum se unirá a nós.
79. Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer
primeiramente e bem,
pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa
incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as
coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade
de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar. O pecado de
nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos
azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e
corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que
cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam,
aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância
e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.
Nosso corpo é tão corrompido, que o Espírito Santo
(Rom 6, 6; Sl 50, 7) o chama corpo do pecado,
concebido no pecado, nutrido no pecado, e só apto para o
pecado, corpo sujeito a mil e mil males, que se
corrompe sempre mais cada dia, e que só engendra a doença,
os vermes, a corrupção.
Nossa
alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada
carne: “Toda a carne tinha corrompido o seu caminho”
(Gn 6, 12). Toda a nossa herança é orgulho e cegueira
no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e
inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e
doenças no corpo.
Somos,
naturalmente, mais orgulhosos que os pavões, mais apegados à
terra que os sapos, mais feios que os bodes, mais invejosos
que as serpentes, mais glutões que os porcos, mais coléricos
que os tigres e mais preguiçosos que as tartarugas; mais
fracos que os caniços, e mais inconstantes do que um
catavento. Tudo que temos em nosso íntimo é nada e pecado, e
só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.37
37) S. Luís Maria fala de
nosso nada e de nossa impotência na ordem sobrenatural, sem
o socorro da graça (v. com efeito, mais adiante o n. 83:
Nosso íntimo..., tão corrompido, se nós apoiamos em nossos
próprios trabalhos... para chegar a Deus...).
80. Depois disto, por que admirar-se de ter Nosso Senhor dito que
quem quisesse segui-lo devia renunciar a si mesmo e odiar a
própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e
quem a odiasse se salvaria? (Jo 12, 25). A Sabedoria
infinita, que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos
odiemos porque somos grandemente dignos de ódio: só
Deus é digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do
que nós.
81. Em segundo lugar, para
despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias
morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações
das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisamos
ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos,
servir-nos das coisas deste mundo como se não o fizéssemos
(cf. 1Cor 7, 29-31), o que São Paulo chama morrer
todos os dias:
“Quotidie morior”
(1Cor 15, 31). “Se o grão de trigo, caindo na terra,
não morrer, fica só, e não produz fruto apreciável:
Nizi granum
frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet”
(Jo 12, 24-25).
Se
não morrermos a nós mesmos, e se as mais santas devoções não
nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não
produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis,
todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso
amor-próprio e nossa própria vontade, e Deus abominará os
maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer.
Na hora da nossa morte, teremos as mãos vazias de virtudes e
méritos, e não brilhará em nós a menor centelha do puro
amor, que só é comunicado às almas mortas a si mesmas, almas
cuja vida está oculta com Jesus Cristo em Deus
(Col 3, 3).
82. Em terceiro lugar,
é preciso escolher entre todas as devoções à Santíssima
Virgem, a que nos leva com mais certeza a este aniquilamento
do próprio eu. Esta será a devoção melhor e
mais santificante, pois é mister reconhecer que nem tudo que
luz é ouro, nem tudo que é doce é mel, e nem tudo que é
fácil de fazer e praticar é o mais santificante. Do
mesmo modo que a natureza tem segredos para fazer em pouco
tempo, sem muitos gastos e com facilidade, certas operações
naturais, há segredos, na ordem da graça, pelos quais se
fazem, em pouco tempo, com doçura e facilidade, operações
sobrenaturais, como despojar-nos de nós mesmos,
encher-nos de Deus, e tornar-nos perfeitos.
A prática
que quero revelar é um desses segredos da graça,
desconhecido da maior parte dos cristãos, conhecidos de
poucos devotos, praticado e apreciado por um número bem
diminuto. Antes de abordar esta prática, apresento uma
quarta verdade que é conseqüência da terceira.
Artigo IV
Temos necessidade de um medianeiro junto do próprio
medianeiro que é Jesus Cristo
83. Quarta verdade. – É muito
mais perfeito, porque é mais humilde, tomar um medianeiro
para nos aproximarmos de Deus. Se nos apoiarmos
sobre nossos próprios trabalhos, habilidade e preparações,
para chegar a Deus e agradar-lhe, é certo que todas as
nossas obras de justiça ficarão manchadas e peso
insignificante terão junto de Deus, para movê-lo a unir-se a
nós e nos atender, pois, como acabo de demonstrar,
nosso íntimo é extremamente corrupto.
E
não foi sem razão que ele nos deu medianeiros junto de sua
majestade. Viu nossa iniqüidade e incapacidade, apiedou-se
de nós, e, para dar-nos acesso às suas misericórdias,
proporcionou-nos intercessores poderosos junto de sua
grandeza; de sorte que negligenciar esses medianeiros e
aproximar-se diretamente de sua santidade sem outra
recomendação é faltar ao respeito a um Deus tão alto e tão
santo; é menosprezar este Rei dos reis, como não se faria a
um rei ou príncipe da terra, do qual ninguém se aproximaria
sem a recomendação de um amigo.
84. Nosso Senhor é nosso advogado e medianeiro de redenção junto de
Deus Pai; é por intermédio Dele que devemos rezar
com toda a Igreja triunfante e militante; é por intermédio
Dele que obtemos acesso junto de sua majestade, em cuja
presença não devemos jamais aparecer, a não ser amparados e
revestidos dos méritos de Jesus Cristo, como Jacob
revestindo-se da pele de cabrito para receber a bênção de
seu pai Isaac.
85. Mas temos necessidade de um medianeiro junto do próprio
medianeiro? Será a nossa pureza suficiente para que
nos permita unir-nos diretamente a ele, e por nós mesmos?
Não é ele Deus, em tudo igual ao Pai, e, por conseguinte, o
Santo dos santos, digno de tanto respeito como seu Pai? Se
ele, por sua caridade infinita, se constituiu nosso penhor e
medianeiro junto de Deus seu Pai, para aplacá-lo e pagar-lhe
o que lhe devíamos, quer isto dizer que lhe devemos menos
respeito e tomar por sua majestade e santidade?
Digamos,
pois, ousadamente, com São Bernardo38, que temos
necessidade de um medianeiro junto do Medianeiro por
excelência, e que Maria Santíssima é a única capaz de
exercer esta função admirável. Por ela Jesus
Cristo veio a nós, e por ela devemos ir a ele.
Se
receamos ir diretamente a Jesus Cristo Deus, em vista da sua
grandeza infinita, ou por causa de nossa baixeza, ou, ainda,
devido aos nossos pecados, imploremos afoitamente o
auxílio e intercessão de Maria nossa Mãe; ela é boa e terna;
nela não há severidade nem repulsa, tudo nela é sublime e
brilhante contemplando-a, vemos nossa pura natureza. Ela não
é o sol, que, pela força de seus raios, nos poderia
deslumbrar em nossa fraqueza, mas é bela e suave como a lua
(Cant 6, 9), que recebe a luz do sol e a tempera para que
possamos suportá-la.
É
tão caridosa que a ninguém repele, que implore sua
intercessão, ainda que seja um pecador; pois, como dizem os
santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que
alguém que tenha recorrido à Santíssima Virgem, com
confiança e perseverança, tenha sido desamparado ou
repelido.39 Ela é tão poderosa que jamais foi desatendida em
seus pedidos; basta-lhe apresentar-se diante de seu
Filho para pedir-lhe algo, e ele só ouve o pedido para logo
conceder-lhe o que ela pede; é sempre amorosamente vencido
pelo seios, pelas entranhas e pelas preces de sua querida
Mãe.
38) Sermo in Domin. inf.
oct. Assumptionis, n. 2: “Opus est enim mediatore ad
Mediatorem istum, nec alter nobis utilior quam Maria”. Todo
este parágrafo é tirado deste sermão de São Bernardo.
39) Termina aqui a citação
de S. Bernardo. A frase seguinte é tirada de S. Boaventura:
Sermo 2 in B. V. M.
86. Tudo isto é tirado de São Bernardo e de São Boaventura. De acordo com
suas palavras, temos três degraus a subir para chegar a
Deus: o primeiro, mais próximo de nós e mais conforme
à nossa capacidade, é Maria; o segundo é Jesus Cristo; e o
terceiro é Deus Pai.40 Para ir a Jesus é
preciso ir a Maria, pois ela é a medianeira de intercessão.
Para chegar ao Pai eterno é preciso ir a Jesus, que é nosso
medianeiro de redenção. Ora, pela devoção que
preconizo, mais adiante, é esta a ordem perfeitamente
observada.
40) Cf. S. Boaventura: Per
Mariam ad Christum accedimos, et per Christum gratium
Spiritus Sancti invenimus (Speculum B. V., lect. VI, § 2). –
V. também Leão XIII, Encíclica “Octobri mense”, 22-9-1891.
Artigo V
É muito difícil para nós conservar as graças e tesouros
recebidos de Deus
87. Quinta verdade. – É extremamente difícil, devido à nossa fraqueza e
fragilidade, conservarmos em nós as graças e os tesouros que
recebemos de Deus:
1º Porque este tesouro, mais valioso que o céu e a terra, nós os
guardamos em vasos frágeis:
“Habemus thesaurum
istum in vasis fictilibus”
(2Cor 4, 7); em um corpo corruptível, em uma alma
fraca e inconstante que um nada perturba e abate.
88. 2º porque os demônios, que são ladrões finórios, buscam
surpreender-nos de improviso para nos roubar e despojar;
espreitam dia e noite o momento favorável a seu desígnio;
andam incessantemente ao redor de nós, prontos a devorar-nos
(cf 1Ped 5, 8) e, pelo pecado, arrebatar-nos, num momento,
tudo que em longos anos conseguimos alcançar de graças e
méritos. E tanto mais devemos temer esta desgraça, sabendo
quão incomparável é sua malícia, sua experiência, suas
astúcias e seu número. Pessoas tem havido muito mais
cheias de graças do que nós, mais ricas em virtudes, mais
experientes, mais elevadas em santidade, que foram
surpreendidas, roubadas, saqueadas lamentavelmente.
Ah!
quantos cedros do Líbano, quantas estrelas do firmamento se
têm visto cair miseravelmente, perdendo em pouco tempo toda
a sua altivez e claridade. A que atribuir tão estranha
mudança? Não foi falta de graça, pois a graça não
falta a ninguém; foi falta de humildade. Essas
pessoas acreditavam-se mais fortes e suficientes do que o
eram na realidade; julgavam-se capazes de guardar seus
tesouros; fiaram-se e apoiaram-se em si próprias; creram sua
casa bastante segura e bem fortes os seus cofres para
guardar o precioso tesouro da graça, e, devido a essa
segurança imperceptível que tinham em si (conquanto
lhes parecesse que se apoiavam na graça de Deus), é
que o justíssimo Senhor, abandonando-as às próprias forças,
permitiu que fossem roubadas.
Ah! se
tivessem conhecido a devoção admirável que vou expor, em
seguida, teriam confiado seu tesouro à Virgem poderosa
e fiel, que o teria guardado como seu próprio bem,
fazendo mesmo, disso, um dever de justiça.
89. 3º É difícil perseverar na justiça, por causa da
corrupção do mundo. O mundo está, atualmente, tão
corrompido, que é quase necessário que os corações
religiosos sejam manchados, se não pela lama, ao menos pela
poeira dessa corrupção; de modo que se pode considerar um
milagre o fato de uma pessoa manter-se firme no meio dessa
torrente impetuosa sem que o turbilhão a arraste; no meio
desse mar tempestuoso sem que o furor das ondas a submerja
ou a pilhem os piratas e corsários no meio desse ar
empestado sem que os miasmas a contaminem. É a Virgem,
a única fiel, na qual a serpente não teve parte jamais, que
faz este milagre em favor daqueles e daquelas que a servem
da mais bela maneira.
Capítulo III
Escolha da verdadeira devoção à Santíssima Virgem
90. Conhecidas estas cinco verdades, é preciso, mais do que nunca,
fazer agora uma boa escolha da verdadeira devoção à Virgem
Santíssima, pois, como jamais, pululam falsas
devoções a Maria Santíssima, as quais passam facilmente por
devoções verdadeiras. O demônio, como um moedeiro
falso e um enganador fino e experimentado, tem já enganado e
perdido inúmeras almas, inculcando uma falsa
devoção à Santíssima Virgem, e todos os dias vale-se
de sua experiência diabólica para lançar outros mais à
eterna condenação, divertindo-as e acalentando-as no pecado,
sob o pretexto de algumas orações mal recitadas e de
algumas práticas exteriores que lhes inspira.
Como um
moedeiro falso só falsifica ordinariamente moedas de ouro e
prata, raras vezes imitando outros metais, que não compensam
o trabalho, do mesmo modo o espírito maligno não se detém em
falsificar outras devoções que não sejam as de Jesus e de
Maria, à santa comunhão, e à Virgem Santíssima, porque são
estas como ouro e a prata entre os metais.
91. É, portanto, de grande importância conhecer primeiramente as
falsas devoções à Santíssima Virgem, para evitá-las, e a
verdadeira, para abraçá-la; segundo, entre tantas
práticas diferentes da verdadeira devoção à Virgem
Santíssima, distinguir a mais perfeita, a mais agradável a
Maria Santíssima, a que mais glória dá a Deus, a mais
santificante para nós, para a esta nos apegarmos.
Artigo I
Os sinais da falsa e da verdadeira devoção à Santíssima
Virgem
§ I. Os falsos devotos e as falsas devoções à Santíssima
Virgem.
92. Conheço sete espécies de falsos devotos e falsas devoções à Santíssima
Virgem:
1º os devotos críticos,
2º os devotos escrupulosos,
3º
os devotos exteriores,
4º os devotos presunçosos,
5º os devotos inconstantes,
6º os devotos hipócritas,
7º os devotos interesseiros.
1º Os devotos críticos
93. Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes
e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à
Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de
devoção que a gente simples tributa de boa-fé e santamente a
esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à
sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e
histórias narrados por autores dignos de fé, ou inseridos em
crônicas de ordens religiosas, atestando as misericórdias e
o poder da Santíssima Virgem.
Repugna-lhes ver pessoas simples e humildes ajoelhadas
diante de um altar ou de uma imagem da Virgem, às vezes no
recanto de uma rua, rezando a Deus; chegam a acusá-las de
idolatria, como se estivesse adorando a pedra ou a madeira.
Dizem que, de sua parte, não apreciam essas devoções
exteriores e que seu espírito não é tão fraco que vá dar fé
a tantos contos e historietas que se atribuem à Santíssima
Virgem. Quando alguém lhes repete os louvores admiráveis que
os Santos Padres dão à Santíssima Virgem, respondem que são
flores de retórica, ou exagero, que aqueles escritores eram
oradores; ou dão, então, uma explicação má daquelas
palavras.41
41) Não se pense que S.
Luís Maria exagere neste ponto. A época em que escrevia era
a desses devotos críticos, que procuravam propagar entre os
fiéis escritos venenosos, como o panfleto de Windenfelt,
intitulado: “Avisos salutares da B. V. Maria a seus devotos
indiscretos” (V. Lhomeau: “Vida espiritual”).
Esta
espécie de falsos devotos e orgulhosos e mundanos é muito
para temer e eles causam um mal infinito à devoção à
Santíssima Virgem, dela afastando eficazmente o povo, sob
pretexto de destruir-lhes os abusos.
2º Os devotos escrupulosos
94. Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desonrar o Filho,
honrando a Mãe, e rebaixá-lo se a exaltarem demais. Não
podem suportar que se repitam à Santíssima Virgem aqueles
louvores justíssimos que lhe teceram os Santos Padres; não
suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de
Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento,
como se fossem antagônicos, e como se os que rezam à
Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio dela.
Não querem que se fale tão freqüentemente da
Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a ela.
Algumas
frases eles as repetem a cada momento: Para que tantos
terços, tantas confrarias e devoções exteriores à Santíssima
Virgem? Vai nisso muito de ignorância! É fazer da religião
uma palhaçada. Falai-me, sim, dos que são devotos de Jesus
Cristo (e eles o
nomeiam, muitas vezes, sem se descobrir, digo-o sem
parêntesis):
cumpre recorrer a Jesus Cristo, pois é ele o nosso único
medianeiro; é preciso pregar Jesus Cristo, isto sim que é
sólido!
Em certo
sentido é verdade o que eles dizem. Mas, pela
aplicação que lhe dão, é bem perigoso e constitui uma cilada
sutil do maligno, sob o pretexto de um bem muito maior, pois
nunca se há de honrar mais a Jesus Cristo, do que honrando a
Santíssima Virgem, desde que a honra que se presta a Maria
não tem outro fim que honrar mais perfeitamente a Jesus
Cristo, e que só se vai a ela como ao caminho para atingir o
termo que é Jesus Cristo.
95.
A santa Igreja, como o Espírito Santo, bendiz primeiro a
Santíssima Virgem e depois Jesus Cristo: “benedicta tu in
mulieribus et benedictus fructus ventris tui Iesus”. Não
porque a Santíssima Virgem seja mais ou igual a Jesus
Cristo: seria uma heresia intolerável, mas porque, para mais
perfeitamente bendizer Jesus Cristo, cumpre bendizer antes a
Maria.
Digamos,
portanto, com todos os verdadeiros devotos de Maria, contra
seus falsos e escrupulosos devotos: Ó Maria, bendita
sois vós entre todas as mulheres e bendito é o fruto do
vosso ventre, Jesus!
3º Os devotos exteriores
96. Devotos exteriores são as pessoas que fazem consistir toda a devoção à
Santíssima Virgem em práticas exteriores; que só tomam
interesse pela exterioridade da devoção à Santíssima Virgem,
por não terem espírito interior; que recitarão
às pressas uma enfiada de terços, ouvirão, sem atenção, uma
infinidade de missas, acompanharão as procissões sem
devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar de
vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes
desta Virgem Santíssima.
Amam apenas o que há de sensível na devoção, sem interesse
pela parte sólida.
Se suas
práticas não lhes afetam a sensibilidade, acham que não há
nada mais a fazer, ficam desorientados, ou fazem tudo
desordenadamente. O mundo está cheio dessa espécie de
devotos exteriores e não há gente que mais critique as
pessoas de oração que se dedicam à devoção interior sem
desprezar o exterior de modéstia, que acompanha sempre a
verdadeira devoção.
4º Os devotos presunçosos
97. Os devotos presunçosos são pecadores abandonados a suas paixões, ou
amantes do mundo, que, sob o belo nome de cristãos e devotos
da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza,
ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia,
ou a maledicência, ou a injustiça, etc.; que dormem
placidamente em seus maus hábitos, sem violentar-se muito
para se corrigir, alegando que são devotos da Virgem;
que prometem a si mesmos que Deus lhes perdoará, que não hão
de morrer sem confissão, e não serão condenados porque
recitam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à confraria
do santo Rosário ou do Escapulário, ou a alguma congregação;
porque trazem consigo o pequeno hábito ou a cadeiazinha da
Santíssima Virgem, etc.
Quando
alguém lhes diz que sua devoção não é mais do que ilusão e
uma presunção perniciosa capaz de perdê-los, recusam-se a
crer; dizem que Deus é bom e misericordioso e que não nos
criou para nos condenar; que não há homem que não peque; que
eles não hão de morrer sem confissão; que um bom peccavi
à hora da morte basta; de mais a mais que eles são devotos
da Santíssima Virgem, cujo escapulário usam; e em cuja honra
dizem, todos os dias, irrepreensivelmente e sem vaidade
(isto é, com
fidelidade e humildade)
sete Pai-Nosso e sete Ave-Marias; que recitam mesmo, uma vez
ou outra, o terço e o ofício da Santíssima Virgem; que
jejuam, etc.
Para
confirmar o que dizem e mais aumentar a própria cegueira,
relembram umas histórias que leram ou ouviram, verdadeiras
ou falsas não importa, em que se afirma que pessoas mortas
em pecado mortal, sem confissão, só pelo fato de que em vida
tinham feito algumas orações ou práticas de devoção à
Santíssima Virgem ressuscitaram para se confessar, ou sua
alma permaneceu milagrosamente no corpo até se confessarem,
ou, ainda, que, pela misericórdia da Santíssima Virgem,
obtiveram de Deus, na hora da morte, a contrição e o perdão
de seus pecados, e se salvaram. Eles esperam, portanto, a
mesma coisa.
98. Não há, no cristianismo, coisa tão condenável como essa
presunção diabólica; pois será possível dizer de
verdade que se ama e honra a Santíssima Virgem, quando,
pelos pecados, se fere, se traspassa, se crucifica e ultraja
impiedosamente a Jesus Cristo, seu Filho? Se Maria
considerasse uma lei salvar essa espécie de gente, ela
autorizaria um crime, ajudaria a crucificar e injuriar seu
próprio Filho. Que o ousaria pensar?
99. Digo que abusar assim da devoção à Santíssima Virgem, a mais
santa e mais sólida devoção a Nosso Senhor e ao Santíssimo
Sacramento, é cometer um horrível sacrilégio, o maior e o
menos perdoável, depois do sacrilégio de uma comunhão
indigna.
Confesso que, para ser alguém verdadeiramente devoto da
Santíssima Virgem, não é absolutamente necessário ser santo
ao ponto de evitar todo pecado, conquanto seja este o ideal;
mas é preciso ao menos (note-se bem o que vou dizer):
Em
primeiro lugar, estar com a resolução sincera de
evitar ao menos todo pecado mortal, que ofende tanto a Mãe
como o Filho.
Segundo,
fazer violência a si mesmo para evitar o pecado.
Terceiro,
filiar-se a confrarias, rezar o terço, o santo rosário
ou outras orações, jejuar aos sábados, etc.
100. Isto é maravilhosamente útil à conversão de um pecador, mesmo
empedernido; e se meu leitor estiver nestas condições, como
que tenha já um pé no abismo, eu lho aconselho, contanto,
porém, que só pratique estas boas obras na intenção de, pela
intercessão da Santíssima Virgem, obter de Deus a graça da
contrição e do perdão dos pecados, e de vencer seus maus
hábitos, e não para continuar calmamente no estado de
pecado, a despeito dos remorsos de consciência, do exemplo
de Jesus Cristo e dos santos, e das máximas do santo
Evangelho.
5º Os devotos inconstantes
101. Devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem
periodicamente, por intervalos e por capricho: hoje são
fervorosos, amanhã tíbios; agora mostram-se prontos a tudo
empreender em serviço de Maria e logo após já não parecem
os mesmos. Abraçam logo todas as devoções à Santíssima
Virgem, ingressam em todas as suas confrarias, e em pouco
tempo já nem observam as regras com fidelidade; mudam como a
lua42, e Maria os esmaga sob seus pés como faz ao crescente,
pois eles são volúveis e indignos de ser contados entre os
servidores desta Virgem fiel, que têm a fidelidade e a
constância por herança. Vale mais não se sobrecarregar
de tantas orações e práticas de devoção, e fazer poucas com
amor e fidelidade, a despeito do mundo, do demônio e da
carne.
42) A lua, por suas
variações, é tomada freqüentemente pelos antigos autores
místicos como o símbolo das mudanças da alma inconstante. –
Cf. Ecli 27, 27, 12. São Bernardo: “Sermo super Signum
Magnum”, n.3.
6º Os devotos hipócritas
102. Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas,
que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta
Virgem fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo
que não são.
7º Os devotos interesseiros
103. Há ainda os devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem
para ganhar algum processo, para evitar algum perigo, para
se curar de alguma doença ou em qualquer necessidade desse
gênero, sem o que a esqueceriam; uns e outros são falsos
devotos que não têm aceitação diante de Deus e de sua Mãe
Santíssima.
104. Cuidemos, portanto, de não pertencer ao número dos devotos críticos
que em coisa alguma crêem e de tudo criticam; dos devotos
escrupulosos que receiam ser demasiadamente devotos da
Santíssima Virgem, por respeito a Jesus Cristo; dos devotos
exteriores que fazem consistir toda a sua devoção em
práticas exteriores; dos devotos presunçosos, que, sob o
pretexto de sua falsa devoção continuam marasmados em seus
pecados; dos devotos inconstantes que, por leviandade,
variam suas práticas de devoção, ou as abandonam
completamente à menor tentação; dos devotos hipócritas que
se metem em confrarias e ostentam as insígnias da Santíssima
Virgem a fim de passar por bons; e, enfim, dos devotos
interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para se
livrarem dos males do corpo ou obter bens temporais.
§ II. A verdadeira devoção à Santíssima Virgem.
105. Depois de descobrir e condenar as falsas devoções à Santíssima Virgem,
cumpre estabelecer em poucas palavras a devoção verdadeira,
que é:
1º interior,
2º terna,
3º santa,
4º constante,
5º desinteressada.
1º A verdadeira devoção é interior
106. Antes de tudo, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é
interior, isto é, parte do espírito e do coração.
Vem da estima em que se tem a Santíssima Virgem. Da alta
idéia que se formou de suas grandezas, e do amor que se lhe
consagra.
2º A verdadeira devoção é terna
107. Em segundo lugar é terna, quer dizer cheia de confiança na
Santíssima Virgem, da confiança de um filho em sua mãe.
Impele uma alma a recorrer a ela em todas as necessidades do
corpo e do espírito, com extremos de simplicidade, de
confiança e de ternura; ela implora o auxílio de sua
boa Mãe em todo o tempo, em todo lugar, em todas as coisas:
em suas dúvidas, para ser esclarecida; em seus erros, para
se corrigir; nas tentações, para ser sustentada; em suas
fraquezas, para ser fortificada; em suas quedas, para ser
levantada; em seus abatimentos, para ser encorajada; em seus
escrúpulos, para ficar livre deles; em suas cruzes,
trabalhos e reveses da vida, para ser consolada. Em
todos os males do corpo e do espírito, enfim, Maria é o
refúgio, e não há receio de importunar esta boa Mãe e
desagradar a Jesus Cristo.
3º A verdadeira devoção é santa
108. Terceiro, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é santa:
Leva uma alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes da
Santíssima Virgem, principalmente sua humildade profunda,
sua contínua oração, sua obediência cega, sua fé viva, sua
mortificação universal, sua pureza divina, sua caridade
ardente, sua paciência heróica, sua doçura Angélica e sua
sabedoria divina. Aí estão as dez principais da Santíssima
Virgem.
4º A verdadeira devoção é constante
109.
Quarto,
verdadeira devoção à Santíssima Virgem é constante, firma
uma alma no bem, e ajuda-a a perseverar em suas práticas de
devoção. Torna-a corajosa para se opor ao mundo em suas modas e máximas, à
carne, em seus aborrecimentos e paixões, e ao demônio, em
suas tentações. Assim, uma pessoa verdadeiramente
devota da Santíssima Virgem não é volúvel, nem se deixa
dominar pela melancolia, pelos escrúpulos ou pelos receios.
Não quer isto dizer que não caia ou não mude, às vezes, na
sensibilidade de sua devoção; mas, se cai, levanta-se logo,
estende a mão à sua boa Mãe, e, se perde o gosto ou a
devoção sensível, não se aflige irremediavelmente, pois o
justo e devoto fiel de Maria vive da fé de Jesus e de Maria,
e não nos sentimentos naturais.
5º A verdadeira devoção é desinteressada
110.
A
verdadeira devoção à Santíssima Virgem é, finalmente,
desinteressada, leva a alma a buscar não a si mesma, mas
somente a Deus em sua Mãe Santíssima. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta
augusta Rainha por espírito de lucro e de interesse, nem
para seu bem temporal ou eterno, corporal ou espiritual,
mas unicamente porque ela merece ser servida, e Deus
exclusivamente nela; o verdadeiro devoto não ama a
Maria precisamente porque ela lhe faz ou ele espera dela
algum bem, mas porque ela é amável. Só por isto ele a ama e
serve nos desgostos e na aridez, como nas doçuras e no
fervor sensível, sempre com a mesma fidelidade; ama-a nas
amarguras do Calvário como nas alegrias de Caná.
Oh!
como é agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Mãe
Santíssima, esse devoto, que em nada se busca nos serviços
que presta à sua Rainha. Mas, também, quão raro é encontrá-lo agora. E é com
o fito de que cresça o número desses fiéis devotos, que
empunhei a pena para escrever o que tenho, com particular
fruto, ensinado em público e em particular nas minha
missões, durante anos e anos.
111. Muitas coisas já disse sobre a Santíssima Virgem. Mais ainda tenho,
entretanto, a dizer, e infinitamente mais omitirei, seja por
ignorância, incapacidade ou falta de tempo, no desígnio que
tenho de formar um verdadeiro devoto de Maria e um
verdadeiro discípulo de Jesus Cristo.
112. Oh! bem empregado seria o meu esforço, se este escrito, caindo nas
mãos duma alma bem nascida, nascida de Deus e de
Maria, e não do sangue, ou da vontade da carne, nem da
vontade do homem (cf. Jo 1, 13), lhe desvendasse e
inspirasse, pela graça do Espírito Santo, a excelência e o
prêmio da verdadeira e sólida devoção à Santíssima Virgem,
como vou indicar.
Se eu
soubesse que meu sangue pecaminoso poderia servir para fazer
entrar no coração as verdades que escrevo em honra de minha
querida Mãe e soberana Senhora, da qual sou o último dos
filhos e escravos, em lugar de tinta eu o usaria para formar
esses caracteres, na esperança que me anima de encontrar
boas almas que, por sua fidelidade à prática que ensino,
compensarão minha boa Mãe e Senhora das perdas que lhe têm
causado minha ingratidão e infidelidade.
113. Sinto-me, mais do que nunca, animado a crer e esperar em tudo que
tenho profundamente gravado no coração, e que há muitos anos
peço a Deus: que mais cedo ou mais tarde a Santíssima Virgem
terá mais filhos, servidores e escravos44, como nunca houve,
e que, por este meio, Jesus Cristo, meu amado Mestre,
reinará totalmente em todos os corações.
44) Note-se a associação
destes dois termos: filho e escravo. A mesma aproximação foi
feita pelo Catecismo do Concílio de Trento (p. I, cap. 3,
“De secundo symboli articulo”, in fine).
114. Vejo, no futuro, animais frementes, que se precipitam furiosos para
dilacerar com seus dentes diabólicos este pequeno manuscrito
e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para escrevê-lo,
ou ao menos para fazê-lo ficar envolto nas trevas e no
silêncio de uma arca, a fim de que ele não apareça. Atacarão
até, e perseguirão aqueles e aquelas que o lerem e o puserem
em prática.45
Mas não
importa! tanto melhor! Esta visão me encoraja e me dá a
esperança de um grande sucesso, isto é, um esquadrão de
bravos e destemidos soldados de Jesus e de Maria, de ambos
os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza
corrompida, nos tempos perigosos que virão, e como
ainda não houve. “Que legit, intelligat. Qui potest
capere, capiat” (Mt 24, 15; 19, 12).
45) Esta predição
realizou-se ao pé da letra. Em todo o decorrer do século
XVIII, os filhos de Montfort fora o alvo dos ataques dos
jansenistas, em vista de seu zelo por esta devoção. E o
precioso manuscrito, escondido durante as perturbações da
Revolução Francesa, só foi encontrado em 1842 por um padre
da Companhia de Maria, em um caixote de livros antigos.
Artigo II
As práticas da verdadeira devoção à Santíssima Virgem
§ I. As práticas comuns.
115. Há muitas práticas interiores da verdadeira devoção à Santíssima
Virgem.
As
principais são, abreviadamente, as seguintes:
1.
Honrá-la, como a digna Mãe de Deus, com o culto de
hiperdulia, isto é, estimá-la e honrá-la sobre todos
os outros santos, como a obra-prima da graça e a primeira
depois de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
2.
Meditar suas virtudes, seus privilégios e seus atos.
3.
Contemplar suas grandezas.
4.
Fazer-lhe atos de amor, de louvor e reconhecimento.
5.
Invocá-la cordialmente.
6.
Oferecer-se e unir-se a ela.
7. Em
todas as ações ter a intenção de agradar-lhe.
8.
Começar, continuar, e acabar todas as ações por ela, nela,
com ela e para ela, a fim de fazê-las por Jesus Cristo, em
Jesus Cristo, com Jesus Cristo e para Jesus Cristo, nosso
último fim. Mais adiante explicaremos esta última prática
(Ver cap. VIII, art, II).
116.
A verdadeira devoção à Santíssima Virgem tem também muitas
práticas exteriores, das quais as principais são:
1º
Alistar-se em suas confrarias e ingressar em suas
congregações;
2º
ingressar numa das ordens instituídas em sua honra;
3º
publicar seus louvores;
4º dar
esmolas, jejuar e mortificar-se o espírito e o corpo em sua
honra;
5º trazer
consigo suas insígnias, como o santo rosário ou o terço, o
escapulário ou a cadeiazinha;
6º
recitar com devoção, atenção e modéstia ou o santo rosário,
composto de quinze dezenas de Ave-Maria, em honra dos quinze
mistérios principais de Jesus Cristo, ou o terço de cinco
dezenas, contemplando os cinco
mistérios gozosos: anunciação, a visitação,
a natividade de Jesus Cristo, a purificação e o encontro de
Jesus no templo; os cinco
mistérios dolorosos:
a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, sua
flagelação, a coroação de espinhos, Jesus levando cruz, e a
crucificação; os cinco
mistérios gloriosos: a ressurreição de
Jesus, sua ascensão, a descida do Espírito Santo, a assunção
da Santíssima Virgem em corpo e alma ao céu, e sua coroação
pelas três pessoas da Santíssima Trindade.
Pode-se
recitar também uma coroa de seis ou sete dezenas em honra
dos anos que se crê a Santíssima Virgem ter vivido na terra;
ou a coroinha da Santíssima Virgem, composta de três
Pai-nosso e doze Ave-Marias, em honra de sua coroa de doze
estrelas ou privilégios; outrossim o ofício da Santíssima
Virgem universalmente conhecido e recitado pela Igreja; o
pequeno saltério da Santíssima Virgem que São Boaventura
compôs em sua honra, tão terno e devoto que não se pode
recitá-lo sem enternecimento; quatorze Pai-nosso e
Ave-Marias em honra de suas quatorze alegrias; quaisquer
outras orações, enfim, hinos e cânticos da Igreja, como o
“Salve Rainha”, o “Alma”, o Ave Regina caelorum”, ou o
“Regina caeli”, conforme os diferentes tempos; ou o “Ave,
Maris Stella”, “O gloriosa Domina”, etc., ou o “Magnificat”,
e outras orações e hinos de que andam cheios os
devocionários;
7º cantar
e fazer cantar em sua honra cânticos espirituais;
8º
fazer-lhe um certo numero de genuflexões ou reverências,
dizendo-lhe, p. ex., todas as manhãs, sessenta ou cem vezes:
“Ave, Maria, Virgo Fidelis”, para, por meio dela, obter de
Deus a fidelidade às graças durante o dia; e à noite: “Ave,
Maria, Mater Misericordiae”, para, por intermédio dela,
alcançar de Deus o perdão dos pecados cometidos durante o
dia;
9º ter
zelo por suas confrarias, ornar seus altares, coroar e
enfeitar suas imagens;
10º
carregar nas procissões ou fazer que se conduza sua imagem
nas procissões, e trazê-la consigo como uma arma eficaz
contra o demônio;
11º
mandar fazer imagens que a representem, ou seu nome, e
colocá-los nas igrejas, nas casas, nos pórticos ou à entrada
das cidades, igrejas e casas;
12º
consagrar-se a ela, de uma maneira especial e solene.
117. Há uma quantidade de outras práticas da verdadeira devoção à
Santíssima Virgem, que o Espírito Santo tem inspirado às
almas de escol, e que são muito santificantes.
Pode-se encontrá-las mais extensamente no livro “Paraíso
aberto a Filágia”do Padre Paulo Barry, da Companhia de
Jesus. Aí o autor coligiu grande número de devoções
praticadas pelos santos em honra da Santíssima Virgem,
devoções maravilhosamente úteis para santificar as almas,
desde que sejam praticadas como devem, isto é:
1º
Com reta e boa intenção de agradar só a Deus, de unir-se a
Jesus Cristo como o nosso fim último, e de edificar o
próximo;
2ª
com atenção, sem distrações voluntárias;
3º
com devoção, sem precipitação nem negligência;
4º
com modéstia e compostura, em atitude respeitosa e
edificante.
§ II. A prática perfeita.
118. Depois de ler quase todos os livros que tratam da devoção à Santíssima
Virgem e de conversar com as pessoas mais santas e
instruídas destes últimos tempos, declaro firmemente que não
encontrei nem aprendi outra prática de devoção à Santíssima
Virgem semelhante a esta que vou iniciar, que exija de uma
alma mais sacrifícios a Deus, que a despoje mais
completamente de seu amor-próprio, que a conserve com mais
fidelidade na graça e a graça nela, que a una com mais
perfeição e facilidade a Jesus Cristo, e, afinal, que seja
mais gloriosa para Deus, santificante para a alma e útil ao
próximo.
119. O essencial desta devoção consiste no interior que ela deve
formar, e, por este motivo, não será compreendida igualmente
por todo o mundo. Alguns hão de deter-se no que ela
tem de exterior, e não passarão avante, e estes serão o
maior número; outros, em número reduzido, entrarão em seu
interior, mas subirão apenas um degrau. Quem alcançará o
segundo? Quem se elevará ao terceiro? Quem,
finalmente, se identificará nesta devoção? Aquele somente a
quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo.
Ele mesmo conduzirá a esse estado a alma fiel, fazendo-a
progredir de virtude em virtude, de graça em graça e de luz
em luz, para que ela chegue a transformar-se em Jesus
Cristo, e atinja a plenitude de sua idade sobre a terra e de
sua glória no céu.
Capítulo IV
Da perfeita devoção à Santíssima Virgem ou
a perfeita consagração a Jesus Cristo
120.
A
mais perfeita devoção é aquela pela qual nos conformamos,
unimos e consagramos mais perfeitamente a Jesus Cristo, pois
toda a nossa perfeição consiste em sermos conformados,
unidos e consagrados a ele. Ora, pois que Maria é, de todas
as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, segue daí que, de todas as devoções, a que mais consagra e
conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima
Virgem, sua santa Mãe, e que, quanto mais uma alma se
consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo.
Eis por
que a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que
uma perfeita e inteira consagração à Santíssima Virgem, e
nisto consiste a devoção que eu ensino; ou, por outra, uma
perfeita renovação dos votos e promessas do santo batismo.
Artigo I
Uma perfeita e inteira consagração
de si mesmo à Santíssima Virgem
121. Esta devoção consiste, portanto, em entregar-se inteiramente à
Santíssima Virgem, a fim de, por ela, pertencer inteiramente
a Jesus Cristo.46
É preciso
dar-lhe:
1º nosso
corpo com todos os seus membros e sentidos,
2º nossa
alma com todas as suas potências,
3º nossos
bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e
futuros,
4º nossos bens interiores e espirituais, que são nossos méritos, nossas
virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras.
Numa palavra, tudo que temos na ordem da natureza e na ordem
da graça, e tudo que, no porvir, poderemos ter na ordem da
natureza, da graça e da glória, e isto sem nenhuma reserva,
sem a reserva sequer de um real, de um cabelo, da menor boa
ação, para toda a eternidade, sem pretender e nem esperar a
mínima recompensa de sua oferenda e de seu serviço, a não
ser a honra de pertencer a Jesus Cristo por ela e nela,
mesmo que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a
mais liberal e reconhecida das criaturas.
46) Cf. S. João Damasceno:
“Mentem, animam, corpus, nos iposque totos consecramus” (Sermo
I in Dormitione B. V.).
122. Importa notar, aqui, duas coisas que há nas boas obras que fazemos, a
saber: a satisfação e o mérito, ou o valor
satisfatório ou impetratório e o valor meritório.
O valor
satisfatório ou impetratório duma boa obra é uma boa ação na
medida em que satisfaz a pena devida pelo pecado, ou em que
obtêm alguma nova graça; o valor meritório ou o mérito é uma
boa ação, em quanto merece a graça e a glória eterna.
Ora,
nesta consagração de nós mesmos à Santíssima Virgem, nós lhe
damos todo o valor satisfatório, impetratório e meritório,
ou por outra, as satisfações e os méritos de todas as nossas
boas obras: damos-lhe nossos méritos, nossas graças e nossas
virtudes, não para comunicá-los a outrem (porque nossos
méritos, graças e virtudes, propriamente falando, são
incomunicáveis; só Jesus Cristo, fazendo-se nosso penhor
diante do Pai, pôde comunicar-nos seus méritos), mas para
no-los conservar, aumentar e encarecer, como diremos ainda.
(V. nn. 146, ss). Damos-lhe nossas satisfações para que ela
as comunique a quem bem lhe pareça e para maior glória de
Deus.
123. Daí segue 1º que, por esta devoção, damos a Jesus Cristo,
do modo mais perfeito, pois que o fazemos pelas mãos de
Maria, tudo que lhe podemos dar, e muito mais que por outras
devoções, pelas quais lhe damos uma parte de nosso tempo ou
de nossas boas obras, ou uma parte de nossas satisfações e
mortificações. Aqui damos e consagramos tudo, até o
direito de dispor dos bens interiores, e as satisfações que
ganhamos por nossas boas obras, dia a dia: e isto não se faz
nem mesmo numa ordem religiosa.
Nestas,
consagram-se a Deus os bens de fortuna pelo voto de pobreza,
os bens do corpo pelo voto de castidade, a vontade própria
pelo voto de obediência, e, às vezes, a liberdade do corpo
pelo voto de clausura. Não se lhe dá, porém, a liberdade ou
o direito que temos de dispor de nossas boas obras, nem se
renuncia tanto como se pode ao que o cristão tem de mais
precioso e caro: seus méritos e satisfações.
124. 2º Uma pessoa, que assim voluntariamente se consagrou e
sacrificou a Jesus Cristo por Maria, já não pode dispor do
valor de nenhuma de suas boas ações. Tudo o que sofre, tudo
o que pensa, diz e faz de bem pertence a Maria, para que ela
de tudo disponha conforme a vontade e para maior glória de
seu Filho, sem que, entretanto, esta dependência prejudique
de modo algum as obrigações de estado no qual esteja
presentemente, ou venha a estar no futuro: por
exemplo, as obrigações de um sacerdote que, por dever de
ofício ou por outro motivo, deve aplicar o valor
satisfatório e impetratório da santa missa a um particular;
pois não se faz esta oferta a não ser conforme a ordem de
Deus e os deveres de estado.
125. 3º A consagração é feita conjuntamente à Santíssima Virgem e a
Jesus Cristo; à Santíssima Virgem como ao meio perfeito que
Jesus Cristo escolheu para se unir a nós e nós a ele; e a
Nosso Senhor como o nosso fim último, ao qual devemos tudo o
que somos, como a nosso Redentor e nosso Deus.
Artigo II
Uma perfeita renovação dos votos do batismo
126. Disse acima (V. nº 120) que a esta devoção podia-se chamar muito bem
uma perfeita renovação dos votos ou promessas do santo
batismo.
Todo cristão, antes do batismo, era escravo do demônio, pois
lhe pertencia. Na ocasião do batismo o cristão, por sua
própria boca ou pela de seu padrinho e de sua madrinha,
renunciou a Satanás, a suas pompas e obras, e tomou Jesus
Cristo
para seu Mestre e soberano Senhor, passando a depender dele,
na qualidade de escravo por amor. É o que se faz pela
presente devoção: renuncia-se (como está indicado na
fórmula de consagração) ao demônio, ao mundo, ao
pecado e a si próprio, dando-se inteiramente a Jesus Cristo
pelas mãos de Maria. Faz-se até algo mais, pois se,
no batismo, falamos ordinariamente pela boca de outrem, pela
boca do padrinho ou da madrinha, nesta devoção fazemo-lo nós
mesmos, voluntariamente, com conhecimento de causa.
No
batismo não é pelas mãos de Maria que nos damos a Jesus
Cristo, pelo menos duma maneira expressa, nem fazemos doação
a ele do valor de nossas boas ações; depois do batismo,
ficamos inteiramente livres de aplicar esse valor a quem
quisermos ou de conservá-lo para nós. Por essa devoção,
damo-nos, porém, a Nosso Senhor pelas mãos de Maria, e lhe
consagramos o valor de todas as nossas ações.
127. No santo batismo, diz Santo Tomás, os homens fazem o voto de
renunciar ao demônio e às suas pompas: “In baptimo
vovent homines abrenuntiare diabolo et pompis eius”.47
E este voto, afirma Santo Agostinho, é o maior e o mais
indispensável.
“Votum maximum nostrum quo
vovimus nos Christo esse mansuros”.48
É também o que dizem os canonistas:
“Praecipuum votum est quod in
baptismate facimus”
– o voto principal é o que fazemos no batismo.
Quem, entretanto, guarda tão grande voto? Quem é que mantém
fielmente as promessas do santo batismo? Não é um fato que
quase todos os cristãos falseiam à fidelidade que no batismo
prometeram a Jesus Cristo? Donde poderá vir esse
desregramento universal senão do esquecimento em que se vive
das promessas e compromissos do santo batismo, e por que
cada um não ratifica espontaneamente o contrato de aliança
feito com Deus por seu padrinho e sua madrinha?
47) Summa Theol. 2-2, q.
88, art. 2, arg. 1.
48) Epistola 59 ad Paulin.
128. É tão verdade isto, que o Concílio de Sens convocado por ordem de Luís
o Bonachão para pôr cobro às grandes desordens dos cristãos,
declarou que a causa principal da corrupção reinante
vinha do esquecimento e ignorância em que se vivia dos
compromissos tomados no santo batismo; e não
encontrou melhor remédio tão grande mal do que induzir os
cristãos a renovar as promessas do santo batismo.
129. O Catecismo de Concílio de Trento, fiel intérprete deste santo
Concílio, exorta os curas a fazer o mesmo, e a relembrar aos
fiéis que estão ligados e consagrados a Nosso Senhor Jesus
Cristo, como escravos a seu Redentor e Senhor. Eis as
palavras textuais:
“Parochus fidelem populum ad eam rationem cohortabitur ut
sicat aequissimum esse... nos ipsos, nom secus ac mancipia
Redemptori nostro et Domino in perpetuum addicere et
consecrare”.49
49) Catec. Conc. Trid., p.
I, cap. 3, art. 2, § 15, “De secundo Symboli articulo” in
fine.
130. Ora, se os Concílios, os Santos Padres e a própria experiência nos
mostram que o melhor meio de remediar os desregramentos dos
cristãos é fazê-los relembrar as obrigações assumidas no
batismo e renovar os votos que então fizeram, não é natural
que se faça isto presentemente, de um modo perfeito, por
esta devoção e consagração a Nosso Senhor, por intermédio de
sua Mãe Santíssima? Digo “de um modo perfeito” porque nos
servimos, nesta consagração a Jesus Cristo, do mais perfeito
de todos os meios, que é a Santíssima Virgem.
Respostas a algumas objeções
131. Não se pode objetar que esta devoção seja nova ou sem
importância. Não é nova porque os concílios, os
padres e muitos autores antigos e modernos falam desta
consagração a Nosso Senhor ou renovação das promessas do
batismo, como de uma prática antiga, aconselhando-a a todos
os cristãos. Esta prática também não é sem
importância, pois a principal fonte de todas as desordens e
conseqüente condenação dos cristãos está no esquecimento e
indiferença por esta renovação.
132. Alguns podem alegar que esta devoção, levando-nos a dar a Nosso
Senhor, pelas mãos de Maria Santíssima, o valor de todas as
nossas boas obras, orações, mortificações e esmolas, nos
torna impotentes para socorrer as almas de nossos parentes,
amigos e benfeitores.
A
esses respondo primeiro que não é crível que nossos amigos,
parentes ou benfeitores sofram prejuízo por nos termos
devotado e consagrado sem reserva ao serviço de Nosso Senhor
e de sua Mãe Santíssima.
Seria fazer uma injúria ao poder e bondade de Jesus e Maria,
que saberão muito bem valer os nossos parentes, amigos e
benfeitores, aproveitando o nosso crédito espiritual, ou por
outro meio qualquer.
Segundo,
esta prática não impede que rezemos pelos outros,
vivos ou mortos, se bem que a aplicação de nossas boas obras
dependa da vontade da Santíssima Virgem; e, bem ao
contrário, esta circunstância nos levará a rezar com
muito mais confiança, do mesmo modo que uma pessoa
rica, que tivesse doado a um grande príncipe todos os seus
bens, rogaria com redobrada confiança a esse príncipe que
beneficiasse a algum amigo necessitado. Seria até causar
prazer a esse príncipe dar-lhe ocasião de demonstrar seu
reconhecimento a uma pessoa que de tudo se tivesse despojado
para engrandecê-lo, que se tivesse reduzido a completa
pobreza para honrá-lo. O mesmo se deve dizer de Nosso
Senhor e da Santíssima Virgem: eles jamais se deixarão
vencer em reconhecimento.
133. Outros dirão, talvez: Se eu der à Santíssima Virgem todo o valor de
minhas ações para que ela o aplique a quem quiser, terei de
sofrer talvez muito tempo no purgatório.
Esta objeção, produto do amor-próprio e da ignorância da
liberalidade de Deus e de sua Mãe Santíssima, destrói-se por
si mesmo. Uma alma cheia de fervor e generosa, que antepõe os
interesses de Deus aos seus próprios, que tudo que tem dá a
Deus inteiramente, sem reserva, que só aspira à glória e ao
reino de Jesus Cristo por intermédio de sua Mãe Santíssima,
e que se sacrifica completamente para obtê-lo, esta alma
generosa, repito, e liberal, será castigada no outro mundo
por ter sido mais liberal e desinteressada que as outras?
Muito ao contrário, é a esta alma, como veremos a seguir,
que Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima se mostram mais
generosos neste mundo e no outro, na ordem da natureza, da
graça e da glória.
134. Vejamos agora, o mais brevemente que pudermos, os motivos que nos
recomendam esta devoção, os maravilhosos efeitos que ela
produz nas almas fiéis, e as práticas desta devoção.
Capítulo V
Motivos que nos recomendam esta devoção
Artigo I
Esta devoção nos põe inteiramente ao serviço de Deus
135. Primeiro motivo, que nos mostra a excelência desta consagração
de nós mesmos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria.
Desde que
não se pode conceber sobre a terra emprego mais relevante
que o serviço de Deus; se o menor servidor de Deus é mais
rico, mais poderoso e mais nobre que todos os reis e
imperadores da terra que não sejam também servidores de
Deus, quais não serão as riquezas, o poder e a dignidade do
fiel e perfeito servidor que se tiver devotado ao serviço
divino, tão inteiramente e sem reserva quanto for capaz!?
Assim será um fiel e amoroso escravo de Jesus e Maria,
que, pelas mãos de Maria Santíssima, se entregar
inteiramente ao serviço deste Rei dos reis, e que não
reservar nada para si: nem todo ouro da terra e as
belezas do céu o podem pagar.
136. As outras congregações, associações e confrarias eretas em honra de
Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que promovem grande bem no
cristianismo, não mandam que se dê tudo sem reserva; não
prescrevem a seus associados mais que certas práticas e atos
para satisfazerem suas obrigações; deixam-nos livres em
todas as outras ações e instantes de sua vida. Mas nesta
devoção, que apresento, damos sem reserva a Jesus e
Maria todos os nossos pensamentos, palavras, ações e
sofrimentos, e todos os momentos da vida: de sorte
que, ou despertados ou adormecidos, bebendo ou comendo, nas
ações as mais importantes como nas mais corriqueiras,
pode-se sempre dizer em verdade que o fazemos, embora nem
sequer nos ocorra a idéia, pertence a Jesus e Maria em
virtude da nossa oferta, a menos que a retratemos
expressamente. Que consolação!
137. Além disso, como já ficou dito, não há outra prática como esta, pela
qual nos desfazemos facilmente dum certo espírito de
propriedade, que se insinua até nas melhores ações; e nosso
bom Jesus nos dá esta grande graça em recompensa do ato
heróico e desinteressado que fizemos, cedendo-lhe, pelas
mãos de sua Mãe Santíssima, todo o valor de nossas boas
obras. Se, mesmo neste mundo, ele dá o cêntuplo
àqueles que, por seu amor, abandonam os bens exteriores,
temporais e caducos (cf. Mt 19, 20), em que
proporção dará aos que lhe sacrificarem até seus bens
interiores e espirituais?!
138. Jesus, nosso divino amigo, deu-se a nós sem reserva, seu corpo e sua
alma, suas virtudes, graças e méritos:
“Se toto totum me comparavit”
– diz São Bernardo: Ele ganhou-me inteiramente
dando-se inteiramente a mim. A justiça e a gratidão exigem,
portanto, que lhe demos tudo que pudermos. Foi ele o
primeiro a ser liberal para conosco; sejamos também
generosos para com sua liberalidade, durante a vida, na hora
da morte e por toda a eternidade.
“Cum liberali liberalis erit”.
Artigo II
Esta devoção leva a imitar o exemplo
dado por Jesus Cristo, e a praticar a humildade
139. Segundo motivo, que nos mostra que é justo e vantajoso aos
cristãos consagrar-se, por esta prática, inteiramente à
Santíssima Virgem, a fim de pertencer mais perfeitamente a
Jesus Cristo.
Este bom Mestre não desdenhou encerrar-se no seio da
Santíssima Virgem, como um cativo, um escravo amoroso, e
submeter-se a ela, obedecendo-lhe durante trinta anos.
É aqui, repito, que o espírito humano se confunde, quando
reflete seriamente nesta atitude da divina Sabedoria
encarnada, que não quis, embora podendo, dar-se
diretamente aos homens, preferindo fazê-lo por intermédio da
Santíssima Virgem; que não quis aparecer no mundo em
plena idade viril, independentemente de quem quer que fosse,
mas como uma criancinha dependendo dos cuidados de sua Mãe
Santíssima, e mantida por ela.
Esta Sabedoria infinita, cheia de um desejo imenso de
glorificar a Deus seu Pai e de salvar os homens, não
encontrou meio algum mais perfeito nem mais simples de
fazê-lo, do que submetendo-se em todas as coisas à
Santíssima Virgem,
não só durante oito, dez ou quinze anos, mas durante trinta
anos; e Ele deu mais glória a Deus seu Pai durante todo esse
tempo de submissão à Santíssima Virgem, como não lhe deu
empregando os últimos três anos de sua vida a fazer
prodígios, e pregar por toda parte, a converter os homens.
Oh! que grande glória damos a Deus, submetendo-nos a
Maria, a exemplo de Jesus.
Com um
exemplo tão visível e conhecido por todo mundo, seremos
insensatos a ponto de pensar que encontraremos um meio mais
perfeito e mais certo submetendo-nos a Maria, a exemplo de
seu Filho?
140. Lembremos aqui, para prova da dependência que devemos ter para com
Maria, o que já ficou dito (nn. 14-39), citando os exemplos
que nos dão o Pai, o Filho e o Espírito Santo nesta
dependência. Deus Pai nos deu e nos dá seu Filho por
ela somente, só produz outros filhos por meio dela, e só por
intermédio dela nos comunica suas graças. Deus Filho
foi formado para todo o mundo, por ela, e não é senão por
ela que é formado todos os dias, e gerado por ela em união
com o Espírito Santo, é ela a única via pela qual nos
comunica suas virtudes e seus méritos. O Espírito
Santo formou Jesus Cristo por meio dela, e por meio dela
forma os membros de seu corpo místico, e só por ela nos
dispensa seus dons e favores. Depois de exemplos tão
claros e instantes, poderemos, sem uma extrema cegueira,
prescindir de Maria, deixar de consagrar-nos a ela e de
depender dela para irmos a Deus e a ele nos sacrificarmos?
141. Eis algumas passagens dos Santos Padres, que escolhi como prova do que
acabo de dizer:
“Duo filii Mariae sunt, homo Deus e homo purus; unius
corporaliter, et alterius spiritualiter mater est Maria”
(S. Boav. e Orígenes).50
50)
“Maria tem dois filhos, um, homem-Deus e o outro, puro
homem; de um Maria é Mãe corporal, do outro, mãe espiritual”
(Speculum B.M.V., lect. III, § 1, 2º).
“Haec est voluntas Dei,
qui totum nos voluit habere per Mariam; ac proinde, si quid
spei, si quid gratiae, si quid salutis, ab ea noverimus
redundare”
(S. Bern.).51
51) São
Bernardo (De Aquaeductu, n. 6): “Tal é a vontade de
Deus que quis que tenhamos tudo por Maria. Se, portanto,
temos alguma esperança, alguma graça, algum dom salutar,
saibamos que isto nos vem por suas mãos”.
“Omnia dona, virtutes,
gratiae ipsius Spiritus Sancti, quibus vult, et quando vult,
quomodo vult, quantum vult per ipsius manus administrantur”
(S.
Bernardino).52
52) São
Bernardino de Sena (Sermo in Nativ. B.V. art. un., cap. 8):
“Todos os dons, virtudes e graças do Espírito Santo
são distribuídos pelas mãos de Maria, a quem ela quer,
quando quer, com o quer, e quanto quer”.
“Qui
indignus eras cui daretur, datum est Mariae, ut per eam
acciperes quidquid haberes”
(S. Bernardo).53
53) São
Bernardo (Sermo 3
in vigilia Nativitatis Domini, n. 10):
“Eras indigno de receber as graças divinas: por isso
elas foram dadas a Maria, a fim de que por ela recebesses
tudo o que terias”.
142. Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças
diretamente de suas mãos divinas, dá-as a Maria, a fim de
obtermos por ela o que ele nos quer dar; e também redunda em
glória para ele, receber pelas mãos de Maria o
reconhecimento, o respeito e o amor que lhe devemos por seus
benefícios. É, pois, muito justo que imitemos o
procedimento de Deus, a fim – diz São Bernardo54 – de que a
graça volte a seu autor pelo mesmo canal por onde veio:
“Ut eodem alveo ad
largitorem gratia redeat quo fluxit”.
54) “De
Aquaeductu”, n. 18.
É o que
fazemos por meio de nossa devoção: oferecemos e
consagramos à Santíssima Virgem tudo o que somos e tudo o
que possuímos, a fim de que Nosso Senhor receba por sua
mediação a glória e o reconhecimento que lhe devemos.
Reconhecemo-nos indignos e incapazes de, por nós mesmos,
aproximar-nos de sua majestade infinita; e por isso
servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem.
143. Além disso, é uma prática de grande humildade, virtude que Deus ama
acima de todas as outras. Uma alma que se eleva a si mesma,
rebaixa Deus; Deus resiste aos soberbos e dá sua graça
aos humildes (Tg 4, 6). Se vos rebaixais
crendo-vos indignos de aparecer diante dele e de vos
aproximar dele, ele desce, rebaixa-se para vir até vós, para
comprazer-se em vós, e para vos elevar.
Quando,
porém, tentamos aproximar-nos atrevidamente de Deus, sem
medianeiro, Deus se esquiva e não conseguimos atingi-lo.
Oh! quanto ele ama a humildade de coração.
É a esta humildade que convida esta prática de devoção, pois
ensina a não nos aproximarmos diretamente de Nosso Senhor,
por misericordioso e doce que ele seja, mas a nos servirmos
sempre da intercessão da Santíssima Virgem tanto para
comparecer diante de Deus, como para lhe falar,
aproximar-nos dele, oferecer-lhe qualquer coisa, para nos
unirmos ou nos consagrarmos a ele.
Artigo III
Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima
Virgem
§ I. Maria se dá a quem é seu escravo por amor.
144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e
misericórdia, que jamais se deixa vencer em amor e
liberalidade, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente,
para honrá-la e servir-lhe, despojando-se do que tem de mais
caro para com isso adorná-la, entrega-se também inteiramente
e dum modo inefável, a quem tudo lhe dá. Ela o faz imergir
no abismo de suas graças, e reveste-o de seus merecimentos,
dá-lhe o apoio de seu poder, ilumina-o com sua luz, abrasa-o
de seu amor, comunica-lhe suas virtudes: sua
humildade, sua fé, sua pureza, etc.; constitui-se seu
penhor, seu suplemento, seu tudo para com Jesus. Como,
enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também
é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo
e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si
próprio, que ele a tomou como um bem, para sua casa:
“Accepit eam discipulus in
sua”
(Jo 19, 27).
145. É isto que produz na alma fiel uma grande desconfiança, desprezo
e ódio de si mesma, ao lado de uma confiança ilimitada na
Santíssima Virgem, sua boa Senhora. Já não procura,
como antes, o seu apoio em suas próprias disposições,
intenções, méritos, virtudes e boas obras, pois, tendo
sacrificado tudo a Jesus por esta boa Mãe, só lhe resta um
tesouro que resume todos os seus bens e de que ele não
dispõe, e esse tesouro é Maria.
É o
que o faz aproximar-se de Nosso Senhor, sem receio servil
nem escrupuloso, e rezar com extrema confiança;
é o que o faz adquirir os sentimentos do devoto e sábio
abade Ruperto, o qual, aludindo à vitória de Jacob sobre o
anjo (cf. Gn 32, 23), dirige à Santíssima Virgem estas belas
palavras: “Ó Maria, minha princesa e Mãe Imaculada de
Deus-homem, Jesus Cristo, é meu desejo lutar com este Homem,
isto é, o Verbo divino, armado não com meus próprios
méritos, mas com os vossos:
“O Domina, Dei Genitrix,
Maria, et incorrupta Mater Dei e hominis, non meis, sed tuis
armatus meritis, cum isto Viro, scilicet Verbo Dei, luctare
cupio”.55
55) Rup.,
Prolog. in Cant.
Oh!
Quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado
dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como
diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo-poderoso.
§ II. Maria purifica nossas boas obras,
embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.
146. Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a seu
Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção,
as damos todas a ele pelas mãos de sua Mãe Santíssima.
1º Ela as
purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego
imperceptível à criatura, apego que se insinua
insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em
suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não
foram jamais manchadas nem ociosas, e que purificam tudo que
tocam, tiram do presente que lhe fazemos tudo que pode
deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito.
147. 2º Ela embeleza nossas boas ações ornando-as com seu
méritos e virtudes. É como se um campônio, querendo
ganhar a amizade do rei, se dirigisse à rainha, e lhe
apresentasse uma maçã, que representasse todo o seu lucro, e
lhe pedisse que a oferecesse ao rei. A rainha,
acolhendo a pobre dádiva do camponês, punha-a no centro de
grande e magnífico prato de ouro, e apresentava-a assim ao
rei, da parte do ofertante. Nestas circunstâncias, a
maçã, indigna por si mesma de ser oferecida ao rei, torna-se
um presente digno de sua majestade, devido ao prato de
ouro e à importância da pessoa que a apresenta.
148. 3º Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada
retém para si do que lhe ofertamos. Tudo
remete fielmente a Jesus. Se algo lhe damos a ela, damos
necessariamente a Jesus. Se a louvamos e
glorificamos, logo ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como
outrora, quando Santa Isabel a exaltou, ela canta, quando a
louvamos e bendizemos:
“Magnificat anima mea Dominum...”
(Lc 1, 46).
149. 4º Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e
pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos Santos
e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a
Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa
própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente e
muitas vezes o rejeita em vista das manchas que a
dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente
rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de
vontade própria.
Quando,
porém, lhe apresentamos algo pelas mãos puras e virginais de
sua bem-amada, tomamo-lo pelo seu lado fraco, se me é
permitida a expressão. Ele não considera tanto a oferta que
lhe fazemos como sua boa Mãe que lha apresenta; não
olha tanto a procedência como a portadora. Deste
modo, Maria, que nunca foi repelida, e, pelo contrário, foi
sempre bem recebida, faz que seja agradavelmente recebido
pela Majestade divina tudo que lhe apresenta, pequeno ou
grande: basta que Maria lho apresente para que Jesus o
receba e acolha. Conselho valioso é o que dava São Bernardo
aos que dirigia no caminho da perfeição: “Quando
quiserdes oferecer qualquer coisa a Deus, tende o cuidado de
oferecê-lo pelas mãos agradáveis e digníssimas de Maria, a
menos que queirais ser rejeitados” –
Modicum quid offerre
desideras, manibus Mariae offerendum tradere cura, si non
vis sustinere repulsam.56
56)
São Bernardo: “De
Aquaeductu”.
150. E, como vimos (n. 146), a própria natureza não inspira aos pequenos
como agir em relação aos grandes? Por que não há de
levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que
está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos
menos que átomos? Tendo além disso uma advogada tão
poderosa, que não foi jamais repelida; tão habilidosa que
conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e
caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que
seja.
Referirei
mais adiante a verdadeira figura das verdades que afirmo, na
história de Jacob e Rebeca (v. cap. VI).
Artigo IV
Esta devoção é um meio excelente
de promover a maior glória de Deus
151.
Quarto
motivo.
Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio
para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras
contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com
este nobre intuito, apesar de a isto estarmos obrigados, ou
porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus,
ou porque não a quer.
Mas a
Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas
obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de
Deus, e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um
perfeito servo dessa amável Soberana, que a ela se consagrou
inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o
valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é
aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que
revogue expressamente a intenção de sua oferta.
Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que
ama a Deus com um amor puro e desinteressado, e que preza
mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios
interesses?
Artigo V
Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor
152. Quinto motivo.
Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro
para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a
perfeição do cristão.
§ I. Esta devoção é um caminho fácil.
É
um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando
veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de
chegar a ele. Pode-se, é verdade, chegar a ele por outros caminhos; mas encontram-se
muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais
empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar
por noites obscuras, por combates e agonias terríveis,
escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos,
atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo
caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e
tranqüilidade.
Aí se
encontram, sem dúvida, rudes combates a travar, e
dificuldades enormes para vencer. Mas esta boa Mãe e
Senhora está sempre tão próxima e presente a seus fiéis
servos, para alumiá-los em suas trevas, esclarecê-los em
suas dúvidas, encorajá-los em seus receios, sustê-los em
seus combates e dificuldades, que, em verdade, este caminho
virginal, para chegar a Jesus Cristo é um caminho de rosas e
de mel, em vista de outros caminhos.
Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém,
São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São
Boaventura, São Francisco de Sales,
etc., que trilharam este caminho ameno para ir a Jesus
Cristo, porque o Espírito Santo, esposo fiel de Maria,
o indicou a eles por uma graça especial; os outros
santos, porém, que são em muito maior número, embora tenham
tido devoção à Santíssima Virgem, não entraram, ou entraram
muito pouco, nesta via. E por isso tiveram de arrostar
provas bem mais rudes e mais perigosas.
153.
A que atribuir, então, – dirá algum fiel servidor desta boa
Mãe, – que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões
de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos?
Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os
suportam57; ou, então, andam em trevas interiores, e em
aridez de deserto onde não pinga nem uma gota de orvalho
celeste. Se esta devoção torna mais fácil o caminho que
conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão
desprezados?
57) Cf. S. Boaventura:
“Servientes tibi plus aliis invadunt dracones inferni”
(Psalter. maius B. V., Sl 118).
154. Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da
Santíssima Virgem, porque são os seus grandes favoritos,
recebem dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as
cruzes; mas sustento que são também os
servidores de Maria que levam estas cruzes com mais
facilidades, mérito e glória; e mais que, onde outro
qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm
e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe,
cheia de graça e unção do Espírito Santo, adoça todas as
cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e
na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam
alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são
amargas.
E
creio que uma pessoa que quer ser devota e viver
piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer
perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não
carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará
alegremente até ao fim, sem uma terna devoção à Santíssima
Virgem, que torna doces as cruzes;
do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande
violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes
verdes que não fossem saturadas de açúcar.
§ II. Esta devoção é um caminho curto.
155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto58, para encontrar
Jesus Cristo, seja porque dele não nos extraviamos, seja
porque, como acabo de dizer, nele marchamos com mais alegria
e facilidade, e, conseqüentemente, com mais prontidão.
Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência
a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e
contando apenas com o próprio esforço; pois o homem
obediente e submisso a Maria Santíssima cantará vitórias
(Prov. 21, 28) assinaladas sobre seus inimigos.
Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a
recuar, ou derrubá-lo; mas, apoiado, auxiliado e guiado por
Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo atrasar-se,
avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo
mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18, 6),
Jesus trilhou para vir a nós em largos passos e em pouco
tempo.
58) Cf. S. Bernardo : “Tu
es via compendiosa in caelo” (Laudes glor. Virginis). – Cf.
Bento XV: “Recta et tanquam compendiaria via ad Iesum per
Mariam itur” (Epist. ad R. P. D. Schoepfer. – AAS 1914, p.
515).
156. Por que viveu Jesus Cristo tão pouco sobre a terra, e por que esses
poucos anos que aqui viveu passou-os quase todos em
submissão e obediência a sua Mãe? Ah! é que, tendo
vivido pouco, encheu a carreira de uma longa vida
(Sb 4, 13); viveu longamente e mais do que Adão, do qual
veio reparar as perdas, embora este tenha vivido mais de
novecentos anos; e Jesus Cristo viveu longamente, porque
viveu bem submisso e bem unido a sua Mãe Santíssima, para
obedecer a Deus seu Pai; pois:
1º
aquele que honra sua mãe assemelha-se a um homem que
entesoura, diz o Espírito Santo, isto é, aquele que honra a
Maria, sua Mãe, ao ponto de submeter-se a ela e obedecer-lhe
em tudo, em breve se tornará rico, pois acumula tesouros
todos os dias, pelo segredo desta pedra filosofal:
“Qui honorat
matrem, quasi qui thesaurizat”
(Ecli 3,
5);
2º
porque, conforme uma interpretação espiritual da palavra do
Espírito Santo:
“Senectus mea in misericordia
uberi,
- Minha velhice se encontra na misericórdia do seio”
(Sl 91, 11), é no seio de Maria, que “envolveu e gerou
um homem perfeito” (cf. Jer 31, 22), e que
“teve a capacidade de conter aquele que o universo todo não
compreende nem contém”59, é no seio de Maria que os
jovens envelhecem em luz, em santidade, em experiência e em
sabedoria, e onde, em poucos anos, se atinge a plenitude da
idade de Jesus Cristo.
59) Cf. Gradual da Missa
da Santíssima Virgem (de Pentecostes ao Advento); 1º
Responso do Ofício da Santíssima Virgem.
§ III. Esta devoção é um caminho perfeito.
157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho
perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a
mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo,
que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em sua
grande e admirável viagem. O Altíssimo, o
Incompreensível, o Inacessível, aquele que é, quis vir a
nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez
isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até
nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua
divindade e santidade; e é por Maria que os
pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo
sem recear coisa alguma.
O
Incompreensível deixou-se compreender e conter perfeitamente
por Maria, sem nada perder de sua imensidade; é também pela
pequena Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter
perfeitamente sem a menor reserva. O Inacessível
aproximou-se, uniu-se estreitamente, perfeitamente e até
pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem
perder uma parcela de sua majestade; é também por Maria que
devemos aproximar-nos de Deus e unir-nos a sua majestade,
perfeita e estreitamente, sem temor de repulsa.
Aquele
que é quis, enfim, vir ao que não é, e fazer que aquele que
não é se torne Deus ou aquele que é. E ele o fez
perfeitamente, dando-se e submetendo-se inteiramente à
Virgem Maria sem deixar de ser no tempo aquele que é na
eternidade; outrossim, é por Maria que, se bem que sejamos
nada, podemos tornar-nos semelhantes a Deus, pela graça e
pela glória, dando-nos a ela tão perfeita e inteiramente,
que nada sejamos em nós mesmos e tudo nela, sem receio de
enganar-nos.
158. Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que
esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos
bem-aventurados, ornados de todas as suas virtudes heróicas,
iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos,
e que todos os anjos e santos lá estejam para conduzir,
defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem
palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo
a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o
caminho imaculado de Maria:
“Posui immaculatam viam meam”
(Sl 18, 33), via ou caminho sem a menor nódoa ou
mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem
trevas; e quando meu amável Jesus vier, em sua glória, uma
segunda vez à terra (como é certo) para aqui reinar, o
caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo
qual ele veio com segurança e perfeitamente a primeira vez.
A
diferença entre a primeira e a última vinda é que a primeira
foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e
retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a
primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender:
“Hic taceat omnis lingua”.
§ IV. Esta devoção é um caminho seguro.
159.
Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para
irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição,
unindo-nos a ele:
1º Porque
esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga,
que não se pode, como diz Boudon60, em um livro que escreveu
sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os
começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos
encontram-se vestígios dela na Igreja.61
60) Henri-Marie Boudon,
doutor em teologia, falecido em odor de santidade, em 1702,
como arcediago de Evreux. Autor do livro intitulado “A santa
escravidão da admirável Mãe de Deus”, e de outras obras,
todas impregnadas de uma ardente devoção à Santíssima
Virgem.
61) O santo rei Dagoberto
II (século VII) consagrou-se assim à Santíssima Virgem, na
qualidade de escravo (cit. por Kronenburg in “Maria’s
Heerlikheid”, 1, 98). O mesmo fez o Papa João VII (701-707).
Santo
Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um
dos primeiros que a praticaram na França, conforme está
anotado em sua vida.
O cardeal
Pedro Damião62 refere que em 1016 o bem-aventurado Marinho,
seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença
de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao
pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma
quantia de dinheiro como sinal do seu devotamento e
consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão
fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e
consolado por sua boa Soberana, de cujos lábios recebeu as
promessas do paraíso em recompensa de seus serviços.
62) Declarado “doutor da
Igreja” por Leão XIII.
Cesário
Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak,
parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300
fez esta consagração à Santíssima Virgem.
160. O padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da
redenção dos cativos, pregador do rei Filipe III, pôs em
voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na
Alemanha63; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório
XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.
63) O próprio imperador
Fernando II fez esta consagração com toda a sua corte, em
1640.
O padre
de Los Rios, da Ordem de S. Agostinho, aplicou-se com seu
íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por
toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e
pregações. Compôs um grosso volume intitulado “Hierarquia
Mariana”64, no qual trata com piedade e erudição, da
antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção.
64) Editado em Antuérpia
em 1641.
161. Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na
Sicília e na Sabóia, no século 17.
O rev.
Padre Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou
maravilhosamente esta devoção na Polônia.65
65) O rei da Polônia
Wladislaf encarregou os jesuítas de pregá-la em seu reino.
O rev.
Padre Cornélio a Lápide, recomendável tanto por sua piedade
como por seu profundo saber, tendo recebido de vários bispos
e teólogos a incumbência de dar seu parecer sobre esta
devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos
de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras
pessoas importantes.
Os
reverendos padres Jesuítas, sempre zelosos do serviço da
Santíssima Virgem, apresentaram ao duque Fernando da
Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno
tratado desta devoção.66 O duque, que era, então arcebispo
de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de
imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua
diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção.
66) Intitulado “Mancipium
Virginis” – A escravidão da Virgem. Colônia, 1634.
162. O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a
França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção,
apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe
levantaram e moveram os críticos e os libertinos.
Acusaram-nos de inventar novidade e superstição; escreveram
e publicaram contra ele um panfleto difamatório, e
serviram-se, ou antes o demônio, por seu ministério, de mil
estratagemas para impedi-lo de divulgar na França esta
devoção.
Mas o
grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma inalterável
paciência, e às suas objeções, contidas no tal libelo, um
pequeno escrito em que as refuta energicamente, demonstrando
que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas
obrigações que lhe devemos, e nos votos que fizemos no santo
batismo, e é especialmente com esta última razão que ele
fecha a boca a seus adversários, fazendo ver que esta
consagração à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo por suas
mãos, nada mais é que uma perfeita renovação das promessas
do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se
podem ler nas suas obras.
163. No livro de Boudon, já citado (n. 159), encontra-se os nomes dos Papas
que aprovaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram,
pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que
venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que
jamais Papa algum a tenha condenado; nem seria possível
fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo.
Fica,
portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é
comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e
praticada por todo mundo.
164. 2º Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque
pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a
Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao
Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas
espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que
conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que
achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e
para cada uma em particular, fosse um empecilho a uma alma
que busca a grande graça da união com ele? Seria
possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de
graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de ele
encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente
unida a Deus?
É verdade
que a vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia,
talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não
Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma
das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da
idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a
Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada
nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve
ter a árvore que a produz; quem quer possuir o fruto de
vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria.
Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter
sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna
fértil e fecundo, como já dissemos alhures (nn.
20-21).
165. Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em
vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de
um modo distinto e perceptível, ao menos geral e
imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus
Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e
incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer
criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda
abismada em Deus, esta longe de tornar-se um obstáculo aos
perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e,
bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca
criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta
grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos
comunicará, pois ninguém fica cheio do pensamento de Deus se
não for por ela, diz um santo67:
“Nemo cogitatione Dei
repletur nisi per te”; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra
o qual ela vos garantirá.
67) São Germano de
Constantinopla (Sermo 2 in Dormit.).
166. Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais
mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom
espírito, é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de
pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe freqüentemente.
É esta a opinião de um santo68 que acrescenta que, como a
respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está
morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é
um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.
68) Idem: Orat. in
Encaenia veneranda aedis B. V.
167. Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com
o Espírito Santo que a conduz:
“Sola cunctas haereses
interemisti in universo mundo”69;
e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação,
jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na
ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmente, tomar
a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto
mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou
mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro
material, e, quando o reconhecer, não teimará de modo algum
em crer e sustentar o que tomara por verdade.
69) Ofício da Santíssima
Virgem, 1ª antífona do 3º noturno.
168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas
de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e
achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o
coração,
“corde magno et animo volenti”
(2Mac 1, 3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez
ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que
não conhecia e que eu lhe mostro (1Cor 12,31). É um
caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada,
nosso único chefe. Os fiéis que o trilharem não podem estar
enganados.
É
um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do
Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste
caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em
pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a
menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro
que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita
ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida
eterna. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e
noite, até a plenitude da idade de Jesus Cristo (cf.
Ef. 4, 13).
Artigo VI
Esta devoção dá uma grande liberdade interior
169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá, às pessoas que a
praticam fielmente, uma grande liberdade interior, que é a
liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21). Visto
que, por esta devoção, nos tornamos escravos de Jesus
Cristo, consagrando-nos todo a ele nesta condição,
este bom Mestre, em recompensa do cativeiro por amor a que
nos submetemos, tira, primeiro, à alma todo escrúpulo
e temor servil, que a constrangem, escravizam e perturbam;
segundo, alarga o coração por uma santa confiança em
Deus, fazendo-o considerá-lo como Pai; terceiro,
inspira-lhe um amor terno e filial.
170. Sem me deter em amontoar razões para provar esta verdade, contento-me
de citar uma passagem histórica que li na vida da Madre Inês
de Jesus, religiosa jacobina70 do convento de Langeac em
Auvergne, a qual morreu em odor de santidade nesse mesmo
lugar, em 1634.
Não tinha
ela ainda sete anos, quando, uma ocasião, sofrendo tormentos
de espírito, ouviu uma voz que lhe disse que, se ela
quisesse livrar-se de todos os seus sofrimentos e ser
protegida contra todos os seus inimigos, se fizesse
quanto antes escrava de Jesus e de sua Mãe Santíssima.
Mal
chegou em casa, entregou-se inteiramente a Jesus e Maria,
como lhe aconselhara a voz, embora não soubesse antes em que
consistia esta devoção; e, tendo encontrado uma corrente de
ferro, cingiu-se com ela os rins e a usou até à morte.
Depois desse ato todas as suas penas e escrúpulos
cessaram, e ela se achou numa grande paz e bem-estar de
coração, e isto a levou a ensinar esta devoção a muitas
outras pessoas, que fizeram grandes progressos,
entre outros, a M. Olier, que instituiu o seminário de São
Sulpício, e a muitos outros padres e eclesiásticos do mesmo
seminário...
Um dia a
Santíssima Virgem lhe apareceu e lhe pôs ao pescoço uma
cadeia de ouro para lhe testemunhar a alegria de tê-la como
escrava de seu Filho e sua; e Santa Cecília, que acompanhava
a Santíssima Virgem, lhe disse: Felizes os fiéis
escravos da Rainha do céu, pois gozarão da verdadeira
liberdade:
“Tibi servire libertas”.
70) Até a Revolução
Francesa os religiosos da Ordem de São Domingos eram
chamados jacobinos, do nome da igreja de Saint-Jacques (São
Tiago) em Paris, perto da qual a Ordem se estabeleceu.
Artigo VII
Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção
171. Sétimo motivo. O que pode
ainda levar-nos a abraçar esta devoção são os grandes bens
que por ela receberá nosso próximo. Pois,
praticando-a, exercemos para com ela a caridade de uma
maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que
temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório e
impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o
menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento;
consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de
adquirir de satisfações, seja, até à hora da morte,
empregado conforme à vontade da Santíssima Virgem, à
conversão dos pecadores ou à libertação das almas do
purgatório.
Não
é isto amar perfeitamente o próximo? Não é este o verdadeiro
discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade?
(Jo 13, 35). Não é este o meio de converter os
pecadores, sem temer a vaidade, e de livrar as almas do
purgatório, sem fazer quase nada mais do que aquilo a que
cada um está obrigado em seu estado?
172. Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem
que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório:
bem infinito, maior que criar o céu e a terra71, pois que é
dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática,
não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se
convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para
induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la?
71) S. Agost., Tract. 72
in Ioann., a medio.
É
preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas
mãos de Maria, recebem um aumento de pureza, e, por
conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e
impetratório;
por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar os
pecadores do purgatório e de converter os pecadores do que
se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O
pouco que damos pela Santíssima Virgem, sem vontade própria,
e por uma desinteressada caridade, tornar-se, em verdade,
bem mais potente para abrandar a cólera de Deus e atrair sua
misericórdia; e há de verificar-se à hora da morte que uma
pessoa fiel a esta prática terá, por este meio, libertado
inúmeras almas do purgatório, e convertido muitos pecadores,
conquanto só tenha feito as ações comuns e ordinárias do seu
estado. Que alegria haverá em seu julgamento! Que glória na
eternidade!
Artigo VIII
Esta devoção é um meio admirável de perseverança
173. Oitavo motivo.
Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos
induz a esta devoção à Santíssima Virgem, é constituir um
meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel.
Como se explica que a maior parte das conversões dos
pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair
no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de
avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças,
perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham?
Esta infelicidade provém, como já o demonstrei (v. nn.
87-89), de que o homem, sendo tão corrompido, tão
fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e crê-se
capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e
méritos.
Por
esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por
excelência, tudo o que possuímos; tomamo-la por depositária
universal de todos os bens da natureza e da graça.
É em sua fidelidade que confiamos, no seu poder que nos
apoiamos, em sua misericórdia e caridade que nos baseamos
para que ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a
despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos
os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-lhe como um bom
filho a sua mãe: “Depositum custodi” (1Tm 6, 20), isto
é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente
muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa
intercessão, do que mereço, e minha funesta experiência me
ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e
que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em
mim: “adolescentulus sum ergo et contemptus”
(Sl 118, 141); recebei em depósito tudo o que possuo, e
conservai-mo por vossa fidelidade e vosso poder. Se me
guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei;
se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos.
174. É o que diz S. Bernardo para inspirar-nos esta prática:
“Enquanto Maria vos sustenta, não caís; enquanto vos
protege, não temeis; enquanto vos conduz, não vos fatigais;
e, sendo-vos propícia, chegareis ao porto da salvação:
Ipsa tenente, non
corruis; ipsa protegente, nom metuis; ipsa duce, nom
fatigareis; ipsa propitia, pervenis”72 O mesmo parece dizer São Boaventura em termos ainda mais claros:
A Santíssima Virgem, diz ele, está não só detida na
plenitude dos santos, mas também guarda e detém os santos na
plenitude para que esta plenitude não diminua; impede que
suas virtudes se dissipem, que seus méritos pereçam, que se
percam sua graças, que os prejudiquem os demônios; impede,
por fim, que Nosso Senhor castigue os pecadores:
“Virgo nom solum in
plenitudine sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine
sanctos detinet, ne plenitudo minuatur; detinet virtutes ne
fugiant; detinet merita ne pereant; detinet gratias ne
effluant; detinet daemones ne noceant; detinet Filium ne
peccatores percutiat”.73
72) Homilia 2 super
“Missus est” n. 17.
73) “Speculum B. V.”,
lect. VII, § 6.
175.
A
Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, por sua fidelidade a
Deus, repara as perdas que Eva infiel causou por sua
infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a
perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso um santo a compara à âncora firme, porque os retém e impede
de soçobrar no m ar agitado deste mundo, onde tantas pessoas
naufragam por não se firmarem nesta âncora inabalável.
“Prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança, como a uma
âncora firme: Animas ad spem tuam sicut ad firmam anchoram
alligamus”.74
Foi a ela
que os santos mais se agarraram, e prenderam os outros, com
o fito de perseverar na virtude. Felizes, mil vezes
felizes os cristãos que agora se apegam fiel e inteiramente
a ela, como a uma âncora firme. Os arrancos da
tempestade deste mundo não os farão submergir, nem perder os
tesouros celestes. Bem-aventurados os que nela buscam abrigo
como na arca de Noé. As águas do dilúvio de pecados, que
afogam tanta gente, não lhes farão mal, pois: “Qui operantur
in me non peccabunt” – os que se guiam por mim não pecarão
(Ecli 24, 30), diz ela com a Sabedoria.
Bem-aventurados os filhos infiéis da desgraçada Eva que se
apegam à Mãe e Virgem fiel, que permanecem sempre fiéis e
que não faltam jamais à sua palavra:
“Fidelis permanet,
se ipsam negare non potest”75,
e que ama aqueles que a amam:
“Ego diligentes me diligo”
(Prov 8,
17), não só um amor afetivo, mas um amor efetivo e eficaz,
impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de recuar
na virtude, ou de cair no caminho, perdendo a graça de seu
Filho.
74) S. João Damasceno,
“Sermo 1 in Dormitione B. M. V.”.
75) Aplicação à Santíssima
Virgem das palavras de São Paulo: 2Tm 2, 13.
176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo que lhe entregamos
em depósito; e, desde que ela o recebeu como depositária, é
obrigada por justiça, em virtude do contrato de depósito, a
guardá-lo para nós; do mesmo modo que uma pessoa, a quem eu
confiasse mil escudos, seria obrigada a guardá-los para mim,
de tal modo que se, por sua negligência, meus mil escudos se
perdessem seria ela, com justiça, a responsável. Mas isto
não acontece, pois Maria, a virgem fiel, jamais deixaria
perder-se, por sua negligência, o que lhe tivéssemos
confiado. Antes passarão o céu e a terra do que ela ser
negligente e infiel para com aqueles que dela se fiam.
177. Pobres filhos de Maria! extrema é vossa fraqueza, grande, vossa
inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o
confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e
Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos,
regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo
desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais
devotos.
Não
deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados
pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais
exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande
e tão precioso. Não depositeis a água pura e
cristalina da fonte em vossos vasos machados e infeccionados
pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja,
mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não
despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já
contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis.
178. Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente.
Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa
pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de
vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e
quebrado, a um vaso conta minado e corrompido, como vós sois;
porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os
demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento
próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do
amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria,
tudo o que Deus vos dá de mais puro.
Depositai, derramai no seio e no coração de Maria todos os
vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes.
Maria é um vaso espiritual, um vaso honorífico, um vaso
insigne de devoção:
“vas spirituale, vas
honorabile, vas insigne devotionis”.
Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa,
com todas as suas perfeições, este vaso tornou-se todo
espiritual, e a morada espiritual das almas mais
espirituais. Tornou-se honorável, e o trono de honra
dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se insigne na
devoção e a morada dos mais ilustres em doçura, em graças e
virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de
ouro, forte como a torre de Davi, puro como uma torre de
marfim.
179. Oh! quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que nela confia em
tudo e por tudo. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele.
Pode dizer afoitamente com David: “Haec facta est mihi:
Maria foi feita para mim” (Sl 118, 56); ou com o discípulo
amado: “Accepi eam in mea” (Jo 19, 27) – Eu a tomei como
toda a minha riqueza; ou com o próprio Jesus Cristo: “Omnia
mea tua sunt, et omnia tua mea sunt: Todas as minhas coisas
são tuas, e as tuas são minhas” (Jo 17, 10).
180. Se algum crítico, ao ler isto, achar que falo exageradamente e por
excesso de devoção, infeliz dele, pois não me compreende, ou
por ser um homem carnal que não aprecia as coisas do
espírito, ou por ser do mundo que não pode receber o
Espírito Santo, ou por ser orgulhoso e crítico, que condena
e despreza o que não entende. As almas, porém, que não
nasceram do sangue nem da vontade da carne (Jo 1, 13)
mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam; e
é para elas, afinal, que eu escrevo.
181. Digo, entretanto, para uns e outros, voltando ao assunto interrompido,
que Maria Santíssima, porque é a mais honesta e mais
generosa de todas as puras criaturas, não se deixa vencer
jamais em amor e liberalidade. E por um ovo, diz um
santo homem ela dá um boi, isto é, por pouco que lhe demos
ela dá mais do que recebeu de Deus; e, por conseguinte, se
uma alma se lhe entrega sem reserva, se nela depositamos
toda a nossa confiança, trabalhando de nosso lado em
adquirir as virtudes e domar as paixões.
182. Que os fiéis servidores de Maria digam, pois, ousadamente com São João
Damasceno: “Tendo confiança em vós, ó Mãe de Deus,
serei salvo; tendo vossa proteção, não temerei; com vosso
auxílio, combaterei os meus inimigos e os porei em fuga;
pois vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá a quem
quer salvar:
Spem tuam habens, o Deipara,
sevabor; defensionem tuam possidens, non timebo; persequar
inimicos meos et in fugam vertam, habens protectionem tuam
et auxilium tuum; nam tibi devotum esse est arma quaedam
salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri” (Sermo de
Annunc.).
Capítulo VI
Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó
183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação à Santíssima
Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura
(Gn 27), uma figura admirável na história de Jacó, o qual
recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de
sua mãe Rebeca.
Ei-la tal
como conta o Espírito Santo. Em seguida ajuntarei a
explicação.
Artigo I
Rebeca e Jacó
§ I. História de Jacó.
184. Esaú vendera a Jacó, seu direito de primogenitura.
Anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, assegurou a
Jacó, – que ela amava ternamente, – as vantagens daquele
privilégio, empregando, para isto, uma astúcia santa e cheia
de mistério. Pois Isaac, sentindo-se extremamente
velho, quis, antes de morrer, abençoar seus filhos, e,
chamando Esaú, o preferido, ordenou-lhe que fosse caçar algo
para ele comer. Depois o abençoaria. Rebeca, prontamente,
pôs Jacó ao corrente do que se passava, e disse-lhe que
fosse buscar dois cabritos no rebanho. Assim que ele lhos
trouxe, ela os preparou do modo que Isaac mais gostava.
Em
seguida, com as vestes de Esaú, que ela guardava, vestiu
Jacó e com as peles dos cabritos envolveu-lhe o pescoço e as
mãos, a fim de que Isaac, que não podia ver, acreditasse,
tateando-lhe as mãos, que fosse Esaú, embora ouvindo a voz
de Jacó. Isaac, com efeito, ficou surpreso ao ouvir a voz
que ele reconhecia como de Jacó, mas, fazendo-o aproximar-se
e tateando-lhe os pelos que cobriam as mãos do filho,
murmurou: Em verdade a voz é de Jacó, mas as mãos são de
Esaú. E, convencido, comeu. Em seguida, ao beijar Jacó
sentiu a fragrância das roupas de Esaú, o que acabou por
dissipar-lhe as dúvidas. Abençoou-o, então, e desejou-lhe o
orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o
senhor de todos os seus irmãos, e terminou a bênção com
estas palavras: “Aquele que te amaldiçoar seja amaldiçoado,
e aquele que te abençoar seja cumulado de bênçãos”.
Apenas
Isaac acabara de falar, entrou Esaú trazendo um guisado da
caça que abatera, e o apresentou ao pai, pedindo-lhe que
comesse e em seguida o abençoasse. O santo patriarca
ficou extremamente surpreendido, ao ficar ciente do engano,
mas, longe de retratar o que fizera, confirmou-o, pois
reconhecia no fato, evidentemente, o dedo de Deus.
Então Esaú, como observa a Sagrada Escritura, gritou com
grande clamor, e acusando em altas vozes o embuste do seu
irmão, perguntou ao pai se ele não tinha outra bênção.
Neste ponto, notam os Santos Padres, ele era a imagem dos
que facilmente conciliam Deus com o mundo, querendo gozar ao
mesmo tempo as consolações do céu e as da terra.
Isaac, comovido pelos gritos de Esaú, abençoou-o, enfim, mas
a bênção que lhe deu foi uma bênção terrena, sujeitando-o ao
irmão. Por isso Esaú concebeu um ódio tão profundo contra
Jacó que, para matá-lo, só esperava a morte do pai. E
Jacó não teria podido evitar a morte, se sua extremosa mãe
Rebeca não o protegesse com sua habilidade e os bons
conselhos que lhe deu e que ele seguiu.
§ II. Interpretação da história de Jacó.
185. Antes de explicar esta história tão bela, é preciso notar que,
conforme todos os Santos Padres e intérpretes da Sagrada
Escritura, Jacó é figura de Jesus Cristo e dos
predestinados, enquanto Esaú é figura dos réprobos; basta,
apenas, examinar a atitude de um e de outro para
verificá-lo.
1º Esaú, figura dos réprobos.
1º Esaú,
o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e
habilidoso no manejo do arco e na arte da caça.
2º Quase
não parava em casa, e, confiante em sua força e destreza, só
trabalhava fora, ao ar livre.
3º Pouco
se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por
ela.
4º Era
guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a
vender seu direito de progenitura por um prato de lentilhas.
5º
Estava, como Caim, cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o
perseguia sem tréguas.
186. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias:
1º
Fiam-se em sua força e indústria nos negócios temporais; são
muito fortes, muito hábeis e esclarecidos para as coisas da
terra, mas extremamente fracos e ignorantes nas coisas do
céu: “In
terrenis fortes, in caelestibus debiles”.
Por isso:
187. 2º Não se demoram ou se demoram muito pouco em sua
própria casa, quer dizer no seu interior, que é a casa
interior e essencial dada por Deus a cada homem para aí
morar, conforme seu exemplo, pois Deus mora sempre em sua
casa. Os réprobos não amam o retiro, nem a
espiritualidade, nem a devoção interior e chamam de
espírito acanhados, carolas e selvagens aqueles que são
espirituais e retirados do mundo, e que trabalham mais no
interior do que fora.
188. 3º Os réprobos não se preocupam de modo algum com a
devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados.
É verdade que não a odeiam formalmente, fazem-lhe às vezes
um elogio, dizem que a amam, praticam até alguma devoção em
sua honra, mas, de resto, não suportariam vê-la amada
ternamente, porque não têm para ela as ternuras de Jacó.
Acham
motivo de censura nas práticas de devoção, a que se entregam
os bons filhos e servos da Santíssima Virgem para obter sua
afeição, na certeza de que esta devoção lhes é necessária à
salvação, e acham mais que, desde que não odeiam formalmente
a Santíssima Virgem, e que não desprezam abertamente sua
devoção, isso é bastante e já ganharam as boas graças da
Santíssima Virgem e são seus servos, ao recitarem ou
resmungarem algumas orações em sua honra, sem a menor
ternura por ela nem emenda para eles.
189. 4º Esses réprobos vendem seu direito de primogenitura,
isto é, os gozos do paraíso, por um prato de lentilhas, os
prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se,
jogam, dançam, etc..., sem a mínima preocupação, como Esaú,
de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Em
três palavras, eles só pensam na terra, só amam a terra, só
falam e agem pela terra e pelos prazeres terrenos,
vendendo, por um instante de prazer, por uma vã fumaça de
honra, e por um pedaço de matéria amarela ou branca, a graça
batismal, sua veste de inocência, sua celestial herança.
190. 5º Os réprobos, finalmente, em segredo ou às claras,
odeiam e perseguem diariamente os predestinados.
Prejudicam-nos quanto podem, desprezam-nos, roubam-nos,
enganam-nos, empobrecem-nos, expulsam-nos, reduzem-nos a pó;
enquanto eles mesmos fazem fortuna, gozam seus prazeres,
vivem em situação esplêndida, enriquecem, se engrandecem e
levam vida folgada.
2º Jacó, figura dos predestinados.
191. 1º Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e
sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar
as graças de sua Mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía
de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança
em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.
192. 2º Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em
casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava
tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava
agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o
amor que dedicava ao filho.
193. 3º Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe,
obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta,
sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da
vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava.
Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe
dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os
dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para
Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para
satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discernir, fez
exatamente como ela mandou.
194. 4º Ele depositava uma confiança sem limites em sua
querida mãe; como não contava absolutamente com sua
própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos
desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas
necessidades e consultava-a em todas as suas dúvidas:
por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez da bênção, não
receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta
que ela lhe deu de que não tomaria sobre si a maldição.
195. 5º Ele imitava, enfim, na medida de sua capacidade, as
virtudes que via em sua mãe; e parece que uma das
razões por que ele permanecia em casa, tão sedentário, é que
procurava imitar sua virtuosa mãe, e afastar-se de más
companhias, que corrompem os costumes. Por tal motivo
tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu querido
pai.
196. Eis também a conduta diária dos predestinados:
1º Vivem em casa, sedentariamente, com sua mãe, quer dizer, amam o
recolhimento, são interiores, e se aplicam à oração, mas
conforme o exemplo e a companhia de sua Mãe, a Santíssima
Virgem, cuja glória está toda no interior e que, durante a
vida inteira, tanto amou o retiro e a oração.
É verdade
que aparecem às vezes fora, no mundo; fazem-no, porém,
em obediência à vontade de Deus e de sua querida Mãe, para
cumprir os deveres de seu estado. Por grandes coisas
que façam no exterior e que apareçam, preferem muito mais as
que se fazem no interior, em companhia da Santíssima Virgem,
porque aí executam a grande obra de sua perfeição, ao lado
da qual todas as outras são como brinquedos de criança.
Por isso,
enquanto que seus irmãos e irmãs trabalham muitas vezes para
o exterior com mais entusiasmo, habilidade e sucesso,
recebendo os louros e aprovações do mundo, eles sabem, pela
luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, bem e
prazer em permanecer oculto no reconhecimento com Jesus
Cristo, seu modelo, numa submissão inteira e perfeita a sua
Mãe, do que em realizar, por si próprio, maravilhas naturais
e da graça no mundo, como tantos Esaús e réprobos.
“Gloria et divitiae in domo eius” Sl 111, 3) – a
glória para Deus e as riquezas para os homens encontram-se
na casa de Maria.
Senhor
Jesus, quão amáveis são vossos tabernáculos! O pardal
encontrou uma casa para se alojar, e a rola, um ninho, onde
abrigar seus filhotes. Oh! como é feliz o homem que mora na
casa de Maria, na qual fizestes, primeiro, a vossa morada! É
nesta casa de predestinados que ele de vós somente pede
socorro, e em seu coração dispôs subidas e degraus de todas
as virtudes, para elevar-se à perfeição neste vale de
lágrimas. “Quam dilecta tabernacula...” (Sl 83).
197. 2º Eles amam ternamente e honram em verdade a Santíssima
Virgem, como sua boa Mãe e Senhora. Amam-na não só
com a boca, mas verdadeiramente; honram-na não só no
exterior, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo
que pode desagradar-lhe, e praticam com fervor tudo que
crêem poder adquirir-lhes sua benevolência. Trazem-lhe e lhe
entregam não só dois cabritos como Jacó a Rebeca, mas
seu corpo e sua alma, com tudo que do corpo e da
alma depende, de que são figura os dois cabritos de Jacó,
1º para
que Ela os receba como um dom que lhe pertence;
2º para
que os sacrifique e faça morrer ao pecado e a si
próprios, escorchado-os e despojando-os da própria
pele de seu amor-próprio, e para agradar, por este meio, a
Jesus, seu filho, que não quer para amigos e discípulos,
senão aqueles que estiverem mortos a si mesmos;
3º para
que os prepare ao gosto do Pai celeste, e para servir
à sua maior glória, que Ela conhece melhor que nenhuma outra
criatura;
4º para
que, por seus cuidados e intercessões, este corpo e
esta alma, purificados de toda mancha, bem mortos,
bem despojados e bem preparados, sejam um manjar delicado,
digno do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é o
que farão as pessoas predestinadas, que apreciarão e
praticarão a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos
de Maria, como lhes ensinamos, para testemunhar a Jesus e
Maria um amor efetivo e corajoso?
Os
réprobos dizem que amam a Jesus, que honram Maria, mas não
com sua substância76, com os seus haveres, ao ponto de lhes
sacrificar seu corpo com os sentidos, sua alma com todas as
paixões, como fazem os predestinados.
76) Cf. Prov 3, 9: “Honora
Dominum de tua substantia” – Honra o Senhor com os teus
haveres.
198. 3º Eles são submissos e obedientes à Santíssima Virgem,
como a sua boa Mãe a exemplo de Jesus Cristo, que, dos
trinta e três anos que viveu sobre a terra, dedicou trinta
a glorificar a Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira
submissão a sua Mãe Santíssima. A ela obedecem,
seguindo com exatidão os seus conselhos, como o pequeno Jacó
seguia os de sua mãe, que lhe diz: “Acquiesce consiliis
meis” (Gn 27, 8) – Meu filho, segue meus conselhos; aos
quais a Santíssima Virgem diz: “Quodcumque dixerit vobis
facite” – Fazei tudo o que ele vos disser
(Jo 2, 5).
Por
ter obedecido a sua mãe, Jacó recebeu a bênção, como por
milagre, embora por direito natural não devesse recebê-la; porque
os servos nas bodas de Caná seguiram o conselho da
Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de
Jesus Cristo, que nessa ocasião, a pedido de sua
Mãe, converteu a água em vinho. Assim, todos aqueles
que até ao fim dos séculos receberem a bênção do Pai
celeste, e forem honrados com as maravilhas de Deus, só
receberão estas graças em conseqüência de sua perfeita
obediência a Maria; os Esaús, ao contrário, perderão
sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem.
199. 4º Os predestinados têm uma grande confiança na bondade e
no poder da Santíssima Virgem; reclamam sem cessar o seu
socorro; olham-na como a estrela polar guiando-os a
seguro porto; comunicam-lhe, com o coração aberto, suas
penas e suas necessidades; acolhem-se à sua misericórdia e
doçura para, por sua intercessão, alcançar o perdão de seus
pecados, ou para gozar de seus maternais carinhos em suas
aflições e contrariedades.
Atiram-se
até, escondem-se e se perdem dum modo admirável em seu
regaço amoroso e virginal, para aí ficarem abrasados de
amor, para aí se purificarem das menores manchas,
e para aí encontrarem plenamente a Jesus, que aí reside como
no mais glorioso dos tronos. Oh! que felicidade! “Não creais,
diz o abade Guerrico, que seja maior felicidade habitar o
seio de Abraão que o seio de Maria, pois neste colocou o
Senhor o seu trono:
Ne credideris maioris esse
felicitatis habitare in sinu Abrahae quam in sinu Mariae,
cum in eo Dominus possuerit thronum suum”.77
77) Sermo 1 in Assumptione,
n. 4.
Os
réprobos, ao contrário, põem toda a confiança em si
próprios, só comem, como o filho pródigo, o que comem os
porcos; como vermes, só se alimentam de terra; e porque amam
somente as coisas visíveis e passageiras, como os mundanos,
não apareciam as doçuras e suavidades do seio de
Maria. Não sentem aquele apoio e aquela confiança
que os predestinados sentem pela Santíssima Virgem, sua boa
Mãe. Amam miseravelmente sua fome exterior, como diz São
Gregório78, porque não querem provar a suavidade que está
preparada no próprio íntimo deles e no íntimo de Jesus e de
Maria.
78) “Amamus foris miseri
famem nostram” (Homil. 36 in Evangel.).
200. 5º Finalmente, os predestinados mantêm-se nos caminhos da
Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto eles são
verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal
infalível de sua predestinação. Esta boa Mãe lhes
diz: “Beati qui custodiunt vias meas” (Prov 8, 32) – Bem-aventurados os que praticam minhas
virtudes, e caminham sobre as pegadas de minha vida, com o
socorro da divina graça.
Eles são felizes neste mundo, durante sua vida, devido à
abundância de graças e de doçuras que eu lhes comunico de
minha plenitude e com muito mais abundância que aos outros
que não me imitam tão esforçadamente; eles são felizes em sua morte, que é doce e
tranqüila, e na qual eu os assisto, para os conduzir às
alegrias da eternidade; serão finalmente, felizes na
eternidade, porque jamais se perdeu algum dos meus servos,
que durante a vida tenha imitado fielmente as minhas
virtudes.
Os
réprobos, ao contrário, são infelizes durante a vida, em sua
morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem
em suas virtudes, contentando-se com pertencer a alguma de
suas confrarias, com recitar uma ou outra oração em sua
honra ou fazer qualquer devoção exterior.
Ó
Virgem Santíssima, minha boa Mãe, quão felizes são aqueles – eu o repito com transportes de coração – quão felizes
são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa
devoção, guardam fielmente vossos caminhos, vossos conselhos
e vossas ordens! Quão infelizes, porém, e malditos, aqueles
que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos
de vosso Filho!
“Maledicti omnes qui declinant a mandatis tuis”
–
Malditos os que se afastam de teus mandamentos (Sl
118, 21).
Artigo II
A Santíssima Virgem e os seus escravos por amor
201. Eis, em seguida, os caridosos deveres que a Santíssima Virgem cumpre
como a melhor das mães, para com seus fiéis servos, que a
ela se deram como indiquei, e conforme a figura de Jacó.
§ I. Ela os ama.
“Ego
diligentes me diligo” – Eu amo aqueles que me amam”
(Prov 8, 17). Ela os ama;
1º porque
é sua verdadeira Mãe; ora, uma mãe ama sempre seu filho, o
fruto de suas entranhas;
2º ela os
ama por reconhecimento, pois que eles efetivamente a amam
como sua boa Mãe;
3º ela os
ama, porque, sendo predestinados, Deus os ama: “Iacob dilexi,
Esau autem odio habui – Amei Jacó, porém aborreci
Esaú” (Rm 9, 13);
4º ela os
ama porque eles se lhe consagraram, e porque são sua
partilha e herança: “In Israel hereditare” (Ecli 24, 13).
202. Ela os ama ternamente, e com mais ternura do que todas as mães
juntas. Acumulai, se puderdes, num só coração
materno e por um filho único, todo o amor natural que todas
as mães deste mundo têm por seus filhos: sem dúvida essa mãe
amaria muito esse filho. É verdade, entretanto, que
Maria ama ainda mais ternamente seus filhos do que aquela
mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas
também com eficácia. Seu amor por eles é ativo e
efetivo, como aquele de Rebeca por Jacob, e muito mais. Eis
o que esta boa Mãe, da qual Rebeca era apenas a figura, faz
com o fito de alcançar, para seus filhos, a bênção do Pai
celestial.
203. 1º Ela espreita, como Rebeca, as ocasiões favoráveis de lhes
proporcionar algum bem, de os engrandecer, de os enriquecer.
Ela vê claramente em Deus todos os bens e males, as boas e
más fortunas, as bênçãos e as maldições divinas, e por isso,
já de longe, dispõe as coisas para isentar seus servos de
todo mal e cumulá-los de todos os bens; de sorte
que, se há um bom proveito para alcançar em Deus, pela
fidelidade duma criatura em algum alto emprego, é certo que
Maria o conseguirá para algum de seus filhos, e lhe dará a
graça de chegar ao fim com fidelidade: “Ipsa procurat
negotia nostra”, diz um santo.
204. 2º Ela lhes dá bons conselhos, como Rebeca a Jacó:
“Fili mi, acquiesce consiliis meis” – Meu filho, segue
meus conselhos” (Gn 27, 8). E, entre outros
conselhos, ela lhes sugere levar-lhe dois cabritos, isto é,
seu corpo e sua alma, de lhos consagrar para que ela prepare
um manjar agradável a Deus, e de fazer tudo que Jesus
Cristo, seu Filho, nos ensinou pela palavra e pelo exemplo.
Se não é diretamente que lhes dá seus conselhos, fá-lo pelo
ministério dos anjos, para os quais constitui o maior prazer
e a maior honra obedecer à menor de suas ordens para descer
à terra e auxiliar seus fiéis servos.
205. 3º Quando lhe levamos e consagramos nosso corpo e nossa alma
com tudo que deles depende, sem nada excetuar, que faz esta
boa Mãe? O mesmo que fez, outrora, Rebeca aos dois cabritos
que Jacó lhe trouxe:
1º
mata-os, tirando-lhes a vida do velho Adão;
2º
escorcha-os e despoja da pele natural, das inclinações
naturais, do amor próprio, da vontade própria e de todo
apego à criatura;
3º
purifica-os de toda mancha, sujeira e pecado;
4º
prepara-os ao gosto de Deus e para sua maior glória.
Ninguém como ela conhece perfeitamente este gosto divino e
esta maior glória do Altíssimo, e, portanto, só ela
pode, sem enganar-se aprontar e preparar nosso corpo e nossa
alma de acordo com esse gosto infinitamente elevado e essa
glória infinitamente oculta.
206. 4º Esta boa Mãe, depois de receber a oferenda perfeita que lhe
fizemos de nós mesmos e de nossos próprios méritos e
satisfações, pela devoção de que falei, depois de nos ter
despojado de nossos antigos hábitos, limpa-nos e nos torna
dignos de aparecer diante de nosso Pai celeste.
1º Ela
nos cobre com as vestes limpas, novas, preciosas e
perfumadas de Esaú, o primogênito, isto é, de Jesus Cristo
seu Filho, daquelas vestes que ela conserva em sua casa, ou,
por outra, em seu poder, pois que é a tesoureira, a
dispensadora universal dos méritos e virtudes de seu Filho
Jesus Cristo, dons que ela dispensa e comunica a quem quer,
quando quer, como quer, e em quanto quer, como já
vimos acima (cf. nn. 25 e 141).
2º Ela
rodeia o pescoço e as mãos de seus servos com o pelo dos
carneiros mortos e escorchados, quer dizer, ela os reveste
dos méritos e do valor de suas próprias ações. Ela
mata e mortifica, em verdade, tudo que eles têm de impuro e
imperfeito em suas pessoas; mas não perde nem dissipa o bem
que neles a graça já realizou; pelo contrário,
guarda-o e aumenta-o para lhes ornar e fortalecer o pescoço
e as mãos, isto é, para que eles tenham força para carregar
o jugo do Senhor, que se carrega ao pescoço, e para fazerem
grandes coisas que redundem na glória de Deus e na salvação
de seus irmãos.
3º Ela
põe um novo perfume e uma nova graça nessas vestes e
ornamentos, pelo contato de suas próprias vestes: seus
méritos e suas virtudes, que ela, ao morrer, lhes legou em
testamento, como diz uma santa religiosa do século 17, morta
em odor de santidade, e que o soube por revelação; de modo
que todos os seus servidores, seus fiéis servos e escravos
ficam duplamente vestidos: com as vestes dela e com as de
seu Filho: “Omnes domestici eius vestiti sunt duplicibus” (Prov
31, 21). Por isso eles não têm que recear o frio de Jesus
Cristo, branco como a neve, que os réprobos, completamente
nus e despojados dos méritos de Jesus Cristo e da Santíssima
Virgem, não poderão suportar.
207. 5º Ela consegue-lhes, enfim, a bênção do Pai celeste,
se bem que eles sejam os segundos, os filhos adotivos, e,
portanto, não devessem recebê-la. Com essas roupas novas,
preciosas e odorosas, e com seu corpo e alma bem preparados
e dispostos, eles se aproximam confiantes do leito de
repouso do Pai celeste. Este os ouve e os reconhece pela
voz, a voz do pecador; toca-lhes as mãos cobertas de pêlos;
aspira o perfume que de suas vestes se desprende; come
alegremente o que Maria lhe preparou; e neles reconhecendo
os méritos e o bom odor de seu Filho e de sua Mãe
Santíssima:
1º
dá-lhes sua dupla bênção, bênção do orvalho do céu:
“De rore caeli” (Gn 27, 28), isto é, da graça divina que é a
semente da glória: “Benedixit nos in omni benedictione
spirituali in Christo Iesu” (Ef 1, 3: Deus nos abençoou com
toda a bênção espiritual em Cristo Jesus); bênção da
fertilidade da terra: “De pinguetudine terrae” (Gn
27, 28), em outras palavras, que este bom Pai lhes dá seu
pão cotidiano e uma abundância suficiente de bens deste
mundo;
2º fá-los
senhores de seus outros irmãos, os reprovados, embora esta
primazia nem sempre transpareça neste mundo que passa num
instante, e no qual dominam muitas vezes os reprovados:
“Peccatores effabuntur et gloriabuntur... (Sl 93, 3, 4),
Vidi impium superexaltatum e elevatum” (Sl 36, 35); essa
primazia é, no entanto, verdadeira e será manifestada por
toda a eternidade, no outro mundo, onde os justos, como diz
o Espírito Santo, dominarão e comandarão as nações:
“Dominabuntur populis” (Sb 3, 8);
3º Sua
majestade, não contente de abençoá-los em suas pessoas e em
seus bens, abençoa ainda todos os que eles abençoarem, e
amaldiçoa todos os que os amaldiçoarem e perseguirem.
§ II. Ela os mantém.
208. O segundo dever de caridade que a Santíssima Virgem exerce para com
seus fiéis servos é provê-los de tudo para o corpo e para a
alma. Ela lhes fornece as vestes duplas, como acabamos de
ver; dá-lhes de comer os manjares mais finos da mesa de
Deus; dá-lhes o pão da vida que ela formou: “A
generationibus meis implemini” (Ecli 24, 26): “Meus
queridos filhos, lhes diz ela, sob o nome da Sabedoria,
enchei-vos de meus frutos, isto é, de Jesus, o fruto de vida
que eu pus no mundo para vós. – “Venite, comedite
panem meum et bibite vinum quod miscui vobis” (Prov 9, 5);
“comedite et bibite, et inebriamini, carissimi” (Cant 5, 1):
Vinde, lhes repete, comei do meu pão, que é Jesus, e bebei
do vinho de seu amor, que para vós preparei com o leite de
meus seios. E como é a tesoureira e a dispensadora dos dons
e das graças do Altíssimo, ela toma uma boa porção, a
melhor, para alimentar e sustentar seus filhos e servos.
Eles são fortalecidos com o pão vivo, embriagados com o
vinho que gera virgens (cf. Zc 9, 17); são levados
ao seio: “ad ubera portamini” (Is 66, 12); e têm tanta
facilidade em carregar o jugo de Jesus Cristo, que quase não
lhe sentem o peso, graças ao óleo da devoção com que ela o
faz apodrecer: “Iugum eorum computrescet a facie
olei” (Is 10, 27).
§ III. Ela os conduz.
209. O terceiro bem que a Santíssima Virgem faz a seus fiéis servos é
conduzi-los e dirigi-los conforme a vontade de seu Filho.
Rebeca conduzia o pequeno Jacó e de vez em quando lhe dava
bons conselhos, e deu-lhos tanto para ele atrair a bênção de
Isaac, como para subtrair-se à fúria de Esaú. Maria, a
estrela do mar, guia todos os seus fiéis servos a bom porto;
mostra-lhes os caminhos da vida eterna; desvia-os dos passos
perigosos; leva-os pela mão nas sendas da justiça;
sustém-nos quando estão prestes a cair; levanta-os quando
caíram; repreende-os, como mãe caridosa, quando comentem
alguma falta; e, até, às vezes, os castiga amorosamente.
Um
filho que obedece a Maria, pode acaso errar o caminho que
leva à eternidade?
“Ipsam sequens, non devias: Seguindo-a, não vos
extraviareis”, diz São Bernardo. Não temais que um
verdadeiro filho de Maria se deixe enganar pelo demônio e
venha a cair em alguma heresia formal. Onde se manifesta a
mão condutora de Maria, aí não se encontram nem o espírito
maligno com suas ilusões, nem os hereges com seus sofismas:
“Ipsa tenente, non corruis”.79
79) Palavras de São
Bernardo, citadas e comentadas mais acima, n. 174.
§ IV. Ela os defende e protege.
210. O quarto favor que a Santíssima Virgem presta a seus filhos e
fiéis servos é defendê-los e protegê-los de seus inimigos.
Rebeca, por seus cuidados e por sua habilidade livrou Jacó
dos perigos que o ameaçavam, e particularmente da morte que
lhe jurara Esaú, e que, no auge da raiva e inveja que o
dominavam, ele teria levado a termo, como outrora Caim a seu
irmão Abel.
Maria, a Mãe misericordiosa dos predestinados, abriga-os sob
as asas de sua proteção, como uma galinha aos pintinhos.
Ela lhes fala, abaixa-se até a eles, é condescendente para
com suas fraquezas, protege-os contra as garras do gavião e
do abutre; acompanha-os como um exército em linha de
batalha: “ut castrorum acies ordinata” (Ct 6, 3). Pode um
homem, garantido por um exército de cem mil soldados, ter
receio de seus inimigos? Menos ainda há de recear um servo
fiel de Maria, rodeado que está da proteção e força de sua
Mãe Santíssima. Esta Mãe e Princesa poderosa enviaria antes
batalhões de milhares de anjos em socorro de um só de seus
servos, para que se não dissesse que um servo fiel de Maria,
que a ela se confiou, sucumbiu à malícia, ao número e à
força do inimigo.
§ V. Ela intercede por eles.
211. O quinto, enfim, e o maior bem, que a amabilíssima Maria
proporciona a seus fiéis devotos, é interceder por eles
junto de seu Filho, apaziguá-lo por suas preces, uni-los a
ele por um forte elo, e para ele os conservar.
Rebeca
mandou a Jacó que se aproximasse do leito de Isaac; e o
ancião tateou as mãos e os braços do filho, abraçou-o e
beijou-o com alegria, mostrando-se contente e satisfeito com
o acepipe que Jacó lhe apresentava. E ao aspirar com extrema
satisfação o perfume que se exalava das vestes de Esaú,
exclamou: “Ecce odor filii mei sicut odor agri pleni, cui
benedixit Dominus: Eis que o cheiro de meu filho é
como o cheiro de um campo florido que o Senhor abençoou”
(Gn 27, 27). Este campo florido, cujo odor encanta o
coração do pai, outro não é que o odor das virtudes e dos
méritos de Maria, que é um campo cheio de graça, no qual
Deus Pai semeou, qual grão de trigo dos eleitos, o seu Filho
único.
Oh!
bem-vindo é, junto de Jesus Cristo, Pai do futuro século, um
filho que rescende o bom odor de Maria. E quão pronta e
perfeitamente lhe fica unido, já o demonstramos longamente.
212. Além disso, depois de cumular de favores seus filhos e servos
fiéis, Maria Santíssima lhes obtém a bênção do Pai celestial
e a união com Jesus Cristo, e, mais, conserva-os em Jesus
Cristo e Jesus Cristo neles. Ela os guarda e por
eles vela constantemente, para que não percam a graça de
Deus e não caiam nas armadilhas do inimigo: “In plenitudine
sanctos detinet: Detém os santos em sua plenitude” 80, e
ajuda-os a perseverar até ao fim, como já vimos.
80) Palavras de São
Boaventura já citadas e comentadas (n. 174).
Aí está a
explicação desta grande e antiga figura da predestinação e
da condenação, figura tão desconhecida e tão cheia de
mistérios.
Capítulo VII
Efeitos maravilhosos que esta devoção produz numa alma que
lhe é fiel
213. Meu querido irmão, convencei-vos de que, se vos tornardes fiel às
práticas interiores e exteriores desta devoção, que vos
indico em seguida:
Artigo I
Conhecimento e desprezo de si mesmo
1º
Pela luz que o Espírito Santo vos dará por intermédio de
Maria, sua querida esposa, conhecereis vosso fundo mau,
vossa corrupção e vossa incapacidade para todo bem, e, em
conseqüência deste conhecimento, vos desprezareis, e será
com horror que pensareis em vós mesmos.
Considerar-vos-eis como uma lesma asquerosa que tudo estraga
com sua baba, como um sapo repugnante que tudo envenena com
sua peçonha, ou como a serpente traiçoeira que só busca
enganar. A humilde Maria vos dará, enfim, parte de sua
profunda humildade, com que vos desprezareis a vós mesmo,
sem desprezar pessoa alguma, e gostareis até de ser
desprezado.
Artigo II
Participação da fé de Maria
214. 2º A Santíssima Virgem vos dará uma parte na fé, a maior
que já houve na terra, maior que a de todos os patriarcas,
profetas, apóstolos e todos os santos. Agora,
reinando nos céus, ela já não tem esta fé, pois vê
claramente todas as coisas em Deus, pela luz da glória. Com
assentimento do Altíssimo, ela, entretanto, não a perdeu ao
entrar na glória; guardou-a para seus fiéis servos e servas
na Igreja militante.
Quanto mais, portanto, ganhardes a benevolência desta
Princesa e Virgem fiel, tanto mais profunda fé tereis em
toda a vossa conduta:
uma fé pura, que vos levará à despreocupação por tudo que é sensível e
extraordinário; uma fé viva e animada pela caridade que fará
com que vossas ações sejam motivadas por puro amor; uma fé
firme e inquebrantável como um rochedo, que vos manterá
firme e contente no meio das tempestades e tormentas; uma fé
ativa e penetrante que, semelhante a uma chave misteriosa,
vos dará entrada em todos os mistérios de Jesus
Cristo, nos novíssimos do homem e no coração do próprio
Deus; fé corajosa que vos fará empreender sem
hesitações, e realizar grandes coisas para Deus e a salvação
das almas; fé, finalmente, que será vosso fanal luminoso,
vossa via divina, vosso tesouro escondido da divina
Sabedoria e vossa arma invencível, da qual vos servireis
para aclarar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte,
para abrasar os tíbios e os que necessitam do ouro candente
da caridade, para dar vida aos que estão mortos pelo pecado,
para tocar e comover, por vossas palavras doces e poderosas,
os corações de mármore e derrubar os cedros do Líbano, e
para, enfim, resistir ao demônio e a todos os inimigos
da salvação.
Artigo III
Graça do puro amor
215. 3º Esta Mãe do amor formoso (Ecli 24, 24) aliviará
vosso coração de todo escrúpulo e de todo temor servil; ela
o abrirá e alargará para correr pelo caminho dos mandamentos
de seu Filho (cf. Sl 118, 32), com a santa liberdade
dos filhos de Deus, e para nele introduzir o puro amor, de
que ela possui o tesouro; de tal modo que não mais vos
conduzireis, como o fizestes até aqui, pelo receio ao Deus
de caridade, mas pelo puro amor, unicamente.
Passareis a olhá-lo como vosso bondoso Pai, tratando de
agradar-lhe incessantemente;
com ele conversareis confidentemente, à semelhança de um
filho com seu pai. Se, por acaso, o ofenderdes,
humilhar-vos-eis em continente diante dele, pedir-lhe-eis
perdão humildemente, lhe estendereis simplesmente a mão, e
vos levantareis amorosamente, sem perturbação nem
inquietação, se sem desfalecimentos continuareis a caminhar
para ele.
Artigo IV
Grande confiança em Deus e em Maria
216. 4º A Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e
nela:
1º porque
não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmo, mas
sempre por intermédio desta bondosa Mãe;
2º
porque, tendo lhe dado todos os vossos méritos, graças e
satisfações, para que deles disponha à sua vontade, ela vos
comunicará suas virtudes e vos revestirá de seus méritos, de
sorte que podereis dizer confiantemente a Deus: “Eis
Maria, vossa serva: faça-se em mim conforme a vossa palavra:
Ecce ancilla Domini;
Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38);
3º
porque, desde que vos destes a ela inteiramente, de corpo e
alma, ela, que é liberal com os liberais, e mais liberal que
os próprios liberais, dar-se-á a vós em troca, e isto de um
modo maravilhoso, mas verdadeiro; assim podereis dizer-lhe
ousadamente: “Tuus
sum ego, salvum me fac!
– Eu vos pertenço, Santíssima Virgem, salvai-me!”
(Sl 118, 94) ou, como já disse (cf. nº 179), com o discípulo
amado: “Accepi te
in mea” – eu vos tomei, Mãe Santíssima, como todo o
meu bem. Podereis ainda dizer com São Boaventura:
“Ecce Domina
salvatrix mea, fiducialiter agam, et non timebo, quia
fortitudo mea, et laus mea in Domino es tu...”81 e em outro lugar: “Tuus
totus ego sum, et omnia mea tua sunt; o Virgo gloriosa,
super omnia benedicta, ponam te ut signaculum super cor meum,
quia fortis est ut mors dilectio tua82 – Minha querida Senhora e Salvadora, agirei com confiança e
não temerei porque sois minha força e meu louvor no
Senhor... Sou todo vosso, e tudo que tenho vos
pertence; ó gloriosa Virgem, bendita sobre todas as coisas
criadas, que eu vos ponha como uma marca sobre meu coração,
pois vossa dileção é forte como a morte!”
Podereis
dizer a Deus com os sentimentos do profeta:
“Domine, non est exaltatum
cor meum, neque elati sunt oculi mei; neque ambulavi in
magnis, neque in mirabilibus super me; si non humiliter
sentiebam, sed exaltavi animam meam; sicut ablactatus est
super matre sua, ita retributio in anima mea (Sl 130, 1-2) – Senhor, nem meu coração nem meus
olhos têm motivo para se elevar e ensoberbecer, nem de
buscar coisas grandes e maravilhosas; e mesmo assim, ainda
não sou humilde; mas elevei e encorajei minha alma pela
confiança; sou como uma criança, afastada dos prazeres da
terra e apoiada ao seio de minha mãe; e é neste seio que sou
cumulado de bens.
4º O que
aumenta ainda vossa confiança nela é que, tendo lhe dado em
depósito tudo o que tendes de bom para dar ou guardar,
confiareis menos em vós e muito mais nela, que é vosso
tesouro. Oh! que confiança e consolação para uma alma
poder chamar também seu o tesouro de Deus, onde Deus
depositou o que tem de mais precioso!
“Ipsa est thesaurus Domini
– Ela é, diz um santo, o tesouro do Senhor”.83
81) Psalter. maius B. V.,
Cant. instar Is 12, 2.
82) Psalter. Maius B. V.,
Cant. instar Ex 15.
83) Idiota (In
contemplatione B. M. V.).
Artigo V
Comunicação da alma e do espírito de Maria
217. 5º A alma da Santíssima Virgem se comunicará a vós para
glorificar o Senhor; seu espírito tomará o lugar do vosso
para regozijar-se em Deus, contanto que pratiqueis fielmente
esta devoção.
“Sit in singulis anima Mariae,
ut magnificet Dominum; sit in singulis spiritus Mariae, ut
exultet in Deo
84 –
Que a alma de Maria esteja em cada um para aí glorificar
o Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um para aí
regozijar-se em Deus”.
Ah!
quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida
Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente
ao império de seu grande e único Jesus? Quando chegará o dia
em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar?
Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo, onde o
Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa como que
reproduzida nas almas, a elas descerá abundantemente, enchendo-as de seus
dons, particularmente do dom da sabedoria, a fim de operar
maravilhas de graça.
Meu caro
irmão, quando chegará esse tempo feliz, esse século de
Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no
abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria,
para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará
quando se conhecer e praticar a devoção que ensino,
“Ut adveniat regnum tuum,
adveniat regnum Mariae”.
84) S. Ambrósio (Expositio in Lc 1. III, n. 26).
Artigo VI
Transformação das almas em Maria à imagem de Jesus Cristo
218. 6º Se Maria, que é a árvore da vida, for bem cultivada em nossa
alma pela fidelidade às práticas desta devoção, ela dará
fruto em seu tempo; e seu fruto não é outro senão Jesus
Cristo. Vejo tantos devotos e devotas que buscam Jesus
Cristo, estes por uma via e uma prática, aqueles por outra;
e muitas vezes depois de muito labutar durante a noite,
podem dizer: “Per
totam noctem laborantes, nihi cepimus
– Trabalhamos a noite inteira, nada apanhamos”
(Lc 5, 5).
E pode-se
responder-lhes:
“Laborastis multum, et intulistis parum – muito trabalhastes e pouco ganhastes”.85 Jesus Cristo
está ainda muito fraco em vós. Mas, pelo caminho imaculado
de Maria e por esta prática divina que ensino, trabalha-se
durante o dia, trabalha-se num lugar santo, trabalha-se
pouco. Em Maria não há noite, pois ela jamais pecou,
nem teve sequer a sombra dum pecado. Maria é um lugar santo,
o Santo dos santos, em que se formam e modelam os santos.
85) Ag 1, 6 (O texto exato
diz “Seminastis multum...”).
219. Notai, se vos apraz, que eu digo que os santos são moldados por
Maria. Há grande diferença entre executar uma figura
em relevo, a martelo e a cinzel, e executá-la por molde. Os
escultores e estatuários têm de esforçar-se muito para fazer
uma figura da primeira maneira, e gastam muito tempo; mas,
da segunda maneira, trabalham pouco e terminam em pouco
tempo. S. Agostinho chama a Santíssima Virgem “forma Dei”, o
molde de Deus. “Si
formam Dei te appellem, digna exsistis”85:
o molde próprio para formar e moldar deuses. Aquele que é
lançado no molde divino fica em breve formado e moldado em
Jesus Cristo, e Jesus Cristo nele: com pouca despesa e em
pouco tempo, ele se tornará deus, pois foi lançado no mesmo
molde que formou um Deus.
85) Sermo 208 (inter opera
S. Augustini): “Sois digna de ser chamada o molde de Deus”.
220. Parece-me que posso muito bem comparar esses diretores e pessoas
devotas que pretendem formar Jesus Cristo em si mesmos ou
nos outros, por meio de práticas diferentes destas, a
escultores que, depositando toda a confiança na própria
perícia, conhecimento e arte, dão uma infinidade de
marteladas e embotam o cinzel numa pedra dura, ou numa
madeira áspera, para fazer a imagem de Jesus Cristo; e
às vezes não conseguem dar expressão natural a Jesus Cristo,
ou por falta de conhecimentos ou devido a algum golpe
desastrado que prejudica toda a obra.
Aqueles,
porém, que abraçam este segredo da graça que lhes apresento,
eu os comparo a fundidores e moldadores que, tendo
encontrado o belo molde de Maria, no qual Jesus Cristo foi
natural e divinamente formado, sem se fiar na própria
habilidade, mas unicamente na eficiência do molde, lançam-se
e perdem-se em Maria para se tornarem o retrato natural de
Jesus Cristo.
221. Bela e verdadeira comparação! Quem a compreenderá, porém? Desejo que
sejais vós, querido irmão. Mas lembrai-vos que só se
lança no molde o que está fundido e líquido, isto é, que é
mister destruir e fundir em vós o velho Adão, para que venha
a ser o novo em Maria.
Artigo VII
A maior glória de Jesus Cristo
222. 7º Por esta prática, fielmente observada, dareis a Jesus
Cristo mais glória em um mês, que por qualquer outra, embora
mais difícil, em muitos anos. – Eis as razões do que afirmo:
1º
Porque, fazendo vossas ações pela Santíssima Virgem, como esta prática ensina, abandonais vossas próprias intenções e
operações, ainda que boas e conhecidas, para vos perder, por
assim dizer, nas da Santíssima Virgem, embora as
desconheçais; e por aí entrais a participar da sublimidade
de suas intenções, que foram tão puras, que ela deu mais
glória a Deus, pela menor das suas ações, por exemplo,
fiando na sua roca, dando um ponto de agulha, do que um São
Lourenço estendido na grelha, por seu cruel martírio, e
mesmo que todos os santos por suas mais heróicas ações; pelo
que, durante sua vida neste mundo, ela conquistou tal
soma inefável de graças e méritos que se contariam antes as
estrelas do firmamento, as gotas d’água do mar e os grãos de
areia das praias; e ela deu mais glória a Deus que todos os
anjos e santos reunidos e como eles jamais deram nem poderão
dar. Ó prodígio de Maria! vós só podeis realizar
prodígios de graça nas almas que querem de boa mente
abismar-se em vós.
223. 2º Porque uma alma, por esta prática, considerando nada tudo o
que pensa ou faz por si mesma, e pondo todo o seu apoio e
complacência nas disposições de Maria, para aproximar-se de
Jesus Cristo e até para falar-lhe, pratica mais humildade
que as almas que agem por si mesmas, que se apóiam e
comprazem nas próprias disposições. Conseqüentemente, ela
glorifica mais altamente a Deus, que só é glorificado
perfeitamente pelos humildes e pequenos de coração.
224. 3º Porque a Santíssima Virgem, querendo, por sua grande
caridade, receber em suas mãos virginais o presente de
nossas ações, dá-lhes uma beleza e brilho
admiráveis; ela mesma as oferece a Jesus Cristo, e Nosso
Senhor é assim mais glorificado que se nós lhas
oferecêssemos por nossas mãos criminosas.
225. 4º Enfim, porque nunca pensais em Maria, sem que ela, em
vosso lugar, pense em Deus. Nunca a louvais nem honrais, sem
que ela convosco louve e honre a Deus. Maria está
toda em conexão com Deus, e com toda a propriedade eu a
chamaria a relação de Deus, que só existe em referência a
Deus, o eco de Deus, que só diz e repete Deus. Santa Isabel
louvou Maria e chamou-a bem-aventurada, porque ela creu, e
Maria, o eco fiel de Deus, entoou: “Magnificat anima mea
Dominum – Minha alma glorifica o Senhor” (Lc
1, 46). O que fez nessa ocasião, Maria o faz todos os
dias; quando a louvamos, amamos, honramos ou lhe damos algo,
Deus é louvado, amado, honrado, e recebe por Maria e em
Maria.
Capítulo VIII
Práticas particulares desta devoção
Artigo I
Práticas exteriores
226. Se bem que o essencial desta devoção consista no interior, ela
conta também práticas exteriores que é preciso não
negligenciar:
“Haec oportuit facere et illa
non omittere” (Mt 23, 23); tanto porque as práticas exteriores bem
feitas ajudam as interiores, como porque relembram ao homem,
que se conduz sempre pelos sentidos, o que fez ou deve
fazer; também porque são próprias para edificar o próximo
que as vê, o que já não acontece com as práticas puramente
interiores.
Nenhum
mundano, portanto, critique, nem meta aqui o nariz, dizendo
que a verdadeira devoção está no coração, que é preciso
evitar exterioridades, que nisto pode haver vaidade, que é
preferível ocultar cada um sua devoção, etc. Respondo-lhes
com meu Mestre: “Assim brilhe a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem
vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Não quer
isto dizer, como observa S. Gregório 86, que devamos fazer
nossas ações e devoções exteriores para agradar os homens e
daí tirar louvores, o que seria vaidade; mas fazê-las às
vezes diante dos homens, com o fito de agradar a Deus e
glorificá-lo, sem, preocupar-nos com o desprezo ou os
louvores dos homens.
86) Homil. II in Evangel.
Citarei
apenas abreviadamente algumas práticas exteriores, que não
qualifico de exteriores porque sejam feitas sem interior,
mas porque contêm qualquer exterioridade, e para
distingui-las das que são estritamente interiores.
§ I. Consagração depois de exercícios preparatórios.
227. Primeira prática. Aqueles e aquelas que quiserem adotar
esta devoção, que não está erigida em confraria, como seria
de desejar 87, depois de ter, como já disse na primeira
parte desta preparação ao reino de Jesus Cristo 88,
empregando ao menos doze dias em desapegar-se do espírito do
mundo, contrário ao de Jesus Cristo, dedicarão três semanas
a encher-se de Jesus Cristo por intermédio da Santíssima
Virgem. Eis a ordem a observar:
87) Os votos de S. Luís
Maria de Montfort se realizaram. Sua querida devoção está
ereta em Arquiconfraria, cujos membros, já numerosos, se
multiplicam dum modo extraordinário.
88) Estas palavras de S.
Luís Maria parecem aludir a outra obra que teria servido de
introdução a esta, como por exemplo: “L’amour de la Sagesse
éternelle” (Cf. cap. VII e XVI).
228. Durante a primeira semana aplicarão todas as orações e atos de
piedade para pedir o conhecimento de si mesmo e a contrição
por seus pecados. Tudo farão em espírito de humildade.
Para isso poderão, se quiserem, meditar sobre o que ficou
dito sobre o nosso fundo de maldade (V. acima n. 78 e
seguintes), e considerar-se, nos seis dias desta semana,
como uma lesma, um sapo, um porco, uma serpente, um bode;
ou, então, estas três palavras de São Bernardo:
“Cogita quid fueris, semen
putridum; quid sis, vas stercorum; quid futurus sis, esca
verminum”.
89
Pedirão a Nosso Senhor e a seu Espírito Santo que os
esclareça, dizendo: “Domine, ut videam 90; ou
“Noverim me”
91; ou “Veni,
Sancte Spiritus”,
e dirão todos os dias a ladainha do Espírito Santo e a
oração que segue. Recorrerão à Santíssima Virgem e lhe
pedirão esta grande graça que deve ser o fundamento das
outras, e para isso recitarão todos os dias o “Ave, Maris
Stella” e as ladainhas.
89) Pensa no que
fostes: um pouco de lodo; no que és: vaso de escórias; no
que serás: pasto de vermes” (São Bernardo, inter opera:
Meditação sobre o conhecimento da condição humana).
90) “Senhor, fazei que
eu veja” (Lc 18, 41).
91) Santo Agostinho:
“Que eu me conheça”.
229. Durante a segunda semana, aplicar-se-ão em todas as
suas orações e obras cotidianas, em conhecer a Santíssima
Virgem. Implorarão este conhecimento ao Espírito Santo.
Poderão ler e meditar o que já dissemos a respeito.
Recitarão, como na primeira semana, as ladainhas do Espírito
Santo, o “Ave, Maris Stella”, e mais um rosário todos os
dias, ou pelo menos o terço, nesta intenção.
230.
A
terceira semana será empregada em conhecer Jesus Cristo.
Poderão ler e meditar o que dissemos neste sentido, e
recitar a oração de santo Agostinho, inserida no número 67.
Poderão, com o mesmo santo, dizer e repetir centenas de
vezes por dia:
“Noverim te:
Senhor, que eu vos conheça”, ou então:
Domine, ut videam
– Senhor, fazei que eu veja quem sois”. Como
nas semanas precedentes, recitarão as ladainhas do Espírito
Santo e o “Ave, Maris Stella”, ajuntando as ladainhas do
Santíssimo nome de Jesus.
231. Ao fim destas três semanas, confessar-se-ão e comungarão na
intenção de se darem a Jesus Cristo na condição de escravos
por amor, pelas mãos de Maria. E depois da comunhão,
que cuidarão de fazer conforme o método que segue (v. n.
266), recitarão a fórmula de consagração, que se encontra
também adiante (v. p. 280); será necessário que a escrevam
ou mandem escrever, se não estiver impressa, e a assinem no
mesmo dia em que a fizerem.
232. Nesse dia, será bom renderem algum tributo a Jesus Cristo e a
sua Mãe Santíssima, seja em penitência de sua infidelidade
passada às promessas do batismo, seja em sinal de sua
dependência do domínio de Jesus e de Maria. Ora,
esse tributo será conforme a devoção e capacidade de cada
um: um jejum, uma mortificação, uma esmola, um círio.
Ainda que não dêem mais que um alfinete em homenagem,
contanto que o dêem de bom coração, é o bastante para Jesus,
que só olha a boa vontade.
233. Todos os anos, ao menos, no mesmo dia, renovarão a consagração,
observando as mesmas práticas durante três semanas.
Poderão
até, todos os meses e, quiçá, todos os dias, renovar, com as
poucas palavras seguintes, tudo o que fizerem:
“Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt
– Sou todo vosso e tudo o que tenho vos pertence”,
ó meu amável Jesus, por Maria, vossa Mãe Santíssima.
92
92) Os
membros da Arquiconfraria de Maria, Rainha dos corações,
ganham uma indulgência de 300 dias todas as vezes que
renovarem sua consagração, pelas palavras: “Sou todo
vosso, e tudo que possuo vos ofereço, ó meu amado Jesus, por
Maria, vossa Mãe Santíssima”.
§ II. Recitação da coroinha da Santíssima Virgem.
234. Segunda prática. Recitarão todos os dias de sua
vida, sem, entretanto, nenhum constrangimento, a coroinha da
Santíssima Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze
Ave-Marias, em honra dos doze privilégios e grandezas da
Santíssima Virgem. Esta prática é muito antiga e tem
seu fundamento na Sagrada Escritura. São João viu uma
mulher coroada de doze estrelas, vestida do sol e tendo a
lua debaixo de seus pés (Ap 12, 1) e esta mulher, na
opinião dos intérpretes 93, é a Santíssima Virgem.
93) Entre outros, S.
Agostinho (Tratct. De Symbolo ad Catechumenos, 1. IV, cap.
I); S. Bernardo (Sermo super “Signum Magnum”, n. 3).
235. Há muitos modos de rezar bem esta coroinha e seria demasiado longo
mencioná-los. O Espírito Santo o inspirará àqueles e àquelas
que mais fiéis se mostrarem a esta devoção. Para rezá-la bem
simplesmente é preciso dizer em primeiro lugar:
“Dignare me laudare te, Virgo
sacrata; da mihi virtutem contra hostes tuos”
94; em seguida, reza-se o credo, depois um Pai-Nosso,
quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai; ainda um Pai-Nosso,
quatro Ave-Marias, e um Glória ao Pai; e assim por diante.
Ao terminar, diz-se:
“Sub tuum praesidium”.
94) “Fazei-me digno de
vos louvar, ó Virgem sagrada, e dai-me força contra os
vossos inimigos”.
§ III. Usar pequenas cadeias de ferro.
236. Terceira prática. É muito louvável, glorioso e útil
àqueles e àquelas, que assim demonstrarão ser escravos de
Jesus em Maria, trazer, como sinal de sua amorosa
escravidão, pequenas cadeias de ferro, bentas com uma bênção
especial. 95
95) Poder-se-ia crer que
certos decretos das Congregações Romanas tenham proibido
terminantemente o uso dessas pequenas cadeias. Nada vemos,
contudo, nesses decretos que interdite esta prática símbolo
da escravidão a Jesus em Maria, no que consiste propriamente
a devoção do B. Montfort (V. Analecta Iuris Pontificii, 1ª
série, col. 757).
Estas
demonstrações exteriores não são na verdade, essenciais, e
uma pessoa pode bem se dispensar, embora tenha abraçado esta
devoção. Não posso, contudo, esquivar-me a louvar aqueles e
aquelas que, depois de terem rompido as cadeias vergonhosas
da escravidão do demônio, a que os tinha arrastado o pecado
original, e talvez os pecados atuais, se entregaram
voluntariamente à gloriosa escravidão de Jesus Cristo e com
S. Paulo se gloriam de estar acorrentados por Jesus
Cristo (cf. Ef 3, 1), com correntes que, embora de
ferro e sem brilho, são mais gloriosas e mais preciosas que
todos os colares de ouro dos imperadores.
237. Nos tempos de outrora era a cruz o que havia de mais infamante;
hoje, no entanto, é o símbolo mais glorioso do cristianismo.
Digamos o mesmo dos ferros da escravidão. Nada havia de mais
ignominioso entre os antigos, e ainda atualmente entre os
pagãos.
Entre os
cristãos, porém, são mais ilustres, pois elas nos
livram e preservam dos liames vergonhosos do pecado e do
demônio; elas nos restituem a liberdade e nos ligam a Jesus
e Maria, não a contragosto e a força, como a forçados, mas
por caridade, por amor, como filhos:
“Traham eos in vinculis
caritatis”
(Os 11, 4) – eu os atrairei a mim, diz Deus pela boca
do profeta, com os vínculos da caridade, que, por
conseqüência, são fortes como a morte (cf. Ct 8, 6),
e, de certo modo, mais fortes naqueles que fielmente
trouxeram, até a morte, esses distintivos gloriosos.
Pois a
morte, destruindo-lhes embora o corpo e reduzindo-o à
podridão, não destruirá as algemas de sua escravidão, as
quais por serem de ferro, não se corrompem tão facilmente.
E, no dia da ressurreição dos corpos, no juízo final, quem
sabe, essas cadeias, pendentes ainda de seus ossos, não
virão a constituir uma parte de seus ossos, não virão a
constituir uma parte de sua glória, mudando-se em cadeias de
luz e de glória? Felizes, portanto, mil vezes felizes os
escravos ilustres de Jesus em Maria, que até ao túmulo
usarem essas cadeias!
238. Eis os motivos por que se usam estas cadeiazinhas:
1º
Relembram ao cristão os votos e compromissos do batismo, a renovação perfeita das promessas batismais que ele
fez por esta devoção, e a estrita obrigação em que está de
se conservar fiel. O homem, porque se deixa
levar mais pelos sentidos do que pela fé pura, esquece
facilmente suas obrigações para com Deus, se não tiver algo
que lhas traga à memória.
Por isso
estas pequenas cadeias servem para lembrar ao cristão
aquelas cadeias do pecado e da escravidão do demônio,
de que o santo batismo o livrou, e a
dependência que, neste sacramento, votou a Jesus Cristo, e a
ratificação dessa dependência, feita ao renovar os seus
votos; e um dos motivos por que tão poucos cristãos
pensam nas promessas do santo batismo, e vivem com tanta
libertinagem como se nada houvessem prometido a Deus, como
se fossem pagãos, é não trazerem nenhuma marca ou distintivo
exterior que disso os relembre.
239. 2º Mostra que ele não se envergonha de ser escravo e
servo de Jesus Cristo, e que renunciou à escravidão funesta
do mundo, do pecado e do demônio.
3º
Garantem-no e preservam-no dos grilhões do pecado e do
demônio, pois, ou estaremos agrilhoados pelas correntes do
inimigo, ou traremos as cadeias da caridade e da salvação:
“Vincula peccatorum;
in vinculis caritatis”.
240. Ah! querido irmão, despedacemos os grilhões do pecado e dos pecadores,
do mundo e dos mundanos, do demônio e de seus asseclas, e
lancemos longe de nós seu jugo funesto:
“Dirumpamus vincula eorum et
proiiciamus a nobis iugum ipsorum”
(Sl 2, 3). Metamos nossos pés, para servir-nos das palavras
do Espírito Santo, em seus ferros gloriosos e nosso pescoço
em suas cadeias:
“Iniice pedem tuum in compedes illius, e in torques illius
collum tuum”
(Ecli 6, 25).
Curvemos
os ombros e carreguemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, e
não nos enfademos de suas correntes:
“Subiice humerum tuum et
porta illam, et ne acedieris vinculis eius”
(Ecli 6, 26). Notareis que o Espírito Santo, antes de dizer
estas palavras, prepara a alma, a fim de que ela não rejeite
o importante conselho. Eis as suas palavras:
“Audi fili, et accipe
consilium intellectus, et ne abiicias consilium meum
– Ouve,
filho, e recebe uma sábia advertência, e não rejeites o meu
conselho”
(Ecli 6, 24).
241. Permiti, caríssimo amigo, que me una aqui ao Espírito Santo, para
dar-vos o mesmo conselho:
“Vincula illius, alligatura
salutaris”
(Ecli 6, 31) – Suas cadeias são cadeias de salvação. Jesus
pendente da cruz deve atrair tudo a si, e tudo, de bom ou
mau grado, será atraído. Do mesmo modo ele atrairá os
réprobos pelas correntes de seus pecados, para
acorrentá-los, como forçados e demônios, à sua ira eterna e
à sua justiça vingadora. Nos últimos tempos, porém,
atrairá especialmente os predestinados, pelas cadeias da
caridade:
“Omnia grahan ad meipsum”
(Jo 12, 32). “Trahan eos in vinculis caritatis” (Os 11, 4).
242. Esses amorosos escravos de Jesus Cristo ou acorrentados de Jesus
Cristo, “vincti Christi” (Ef 3, 1), podem usar suas cadeias ou ao pescoço ou no braço, ou na
cintura, ou nos pés. O padre Vicente Caraffa, sétimo geral
da Companhia de Jesus, falecido em odor de santidade no ano
1643, usava, como sinal de sua servidão, um círculo de ferro
nos pés, e dizia que lamentava não poder arrastar
publicamente os grilhões. A madre Inês de Jesus, a quem já
nos referimos (n. 170), trazia sempre uma corrente de ferro
na cintura. Outros a usaram ao pescoço, em penitência pelos
colares de pérola que costumam usar no mundo. Outros a
usaram no braço, para se lembrarem, no trabalho manual, que
eram escravos de Jesus Cristo.
§ IV. Devoção especial ao mistério da Encarnação.
243. Quarta prática. Terão uma devoção especial pelo mistério
da Encarnação do Verbo, a 25 de março 96, que é o mistério
adequado a esta devoção, pois que esta devoção foi inspirada
pelo Espírito Santo:
1º
para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis
estar de Maria, para glória de Deus seu Pai e para nossa
salvação; dependência que transparece particularmente neste
mistério em que Jesus se torna cativo e escravo no seio de
Maria Santíssima, aí dependendo dela em tudo;
2º
para
agradecer a Deus as graças incomparáveis que concedeu a
Maria, principalmente por tê-la escolhido para sua Mãe
digníssima, escolha feita neste mistério. São estes os dois
fins principais da escravização a Jesus Cristo em Maria.
96) No dia 25 de março,
todos os membros da Arquiconfraria de Maria, Rainha dos
corações, podem ganhar uma indulgência plenária.
244. Peço-vos notar que digo ordinariamente: “o escravo de Jesus em
Maria, a escravização a Jesus em Maria”. Pode-se, é
verdade, dizer como muitos já o disseram até aqui, “o
escravo de Maria, a escravidão da Santíssima Virgem”.
Creio, porém, que é melhor dizer “escravo de Jesus em
Maria” como aconselhava M. Tronson, superior geral
do seminário de S. Sulpício, o qual era conhecido por sua
rara prudência e grande piedade. Assim aconselhou ele a um
eclesiástico que o consultou sobre o assunto. As razões são
estas:
245. 1º Visto estarmos num século orgulhoso, em
que pululam os sábios enfatuados, os espíritos fortes e
críticos, que sempre acham o que falar das mais sólidas e
bem estabelecidas práticas de piedade, é preferível, para
evitar-lhes ocasião de crítica desnecessária, dizer
“escravidão de Jesus em Maria” e dizer-se “escravo
de Jesus Cristo” do que escravo de Maria. Assim a
denominação desta devoção será dada antes pelo caminho e
meio para atingir este fim, Maria Santíssima. Pode-se,
entretanto, usar uma ou outra sem o menor escrúpulo, como eu
faço. Um homem, por exemplo, que vai de Orleans a Tours pelo
caminho de Amboise, pode evidentemente dizer que vai a
Amboise e que vai a Tours. A única diferença é que Amboise é
apenas o caminho para ir a Tours e Tours é o fim, o termo de
sua viagem.
246. Como o principal mistério que se celebra e honra nesta devoção é
o mistério da Encarnação, no qual só se pode contemplar
Jesus em Maria, e encarnado em seu seio, é mais
adequado dizer-se “a escravidão de Jesus em Maria”,
de Jesus residindo e reinando em Maria, conforme a bela
oração de tantos homens célebres: “Ó Jesus vivendo em
Maria, vinde e vivei em nós, em vosso espírito de santidade”,
etc.
247. 3º Este modo de falar patenteia ainda mais a união
íntima entre Jesus e Maria. Tão intimamente estão unidos que
um é tudo no outro: Jesus é tudo em Maria e Maria é tudo em
Jesus; ou, melhor, ela já não existe, mas Jesus somente
nela, e antes se separaria do sol a luz, do que apartar
Maria de Jesus. É assim que se pode chamar Nosso Senhor
“Jesus de Maria”, e a Santíssima Virgem “Maria de Jesus”.
248. O tempo não me permite deter-me aqui para explicar as excelências e as
grandezas do mistério de Jesus vivendo e reinando em Maria,
ou a Encarnação do Verbo. Contento-me, por
isso, em dizer, em três palavras, que é este o primeiro
mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o
menos conhecido; que é neste mistério que Jesus, em
colaboração com Maria, em seu seio, e por isto chamado pelos
santos “aula
sacramentorum”,
sala dos segredos de Deus 97, escolheu todos os eleitos; que
foi neste mistério que ele operou todos os mistérios
subseqüentes de sua vida, pela aceitação deles:
“Iesus ingrediens mundum
dicit: Ecce venio ut faciam, Deus,
voluntatem tuam” (Hb 10, 5-9).
Por
conseguinte, este mistério é um resumo de todos os
mistérios, e contém a vontade e a graça de todos. Este
mistério é, enfim, o trono da misericórdia, da
liberdade e da glória de Deus. O trono da
misericórdia de Deus, porque, já que não
podemos aproximar-nos de Jesus senão por Maria, não podemos
ver Jesus nem falar-lhe senão por intermédio de Maria.
Jesus atende sempre a sua querida Mãe e concede sempre
sua graça e sua misericórdia aos pobres pecadores:
“Adeamus ergo cum fiducia
ad thronum gratiae
– Cheguemo-nos, pois, confiadamente, ao trono da
graça” (Hb 4, 16).
É o trono
de sua liberalidade para Maira, porque este novo Adão,
enquanto permaneceu nesse verdadeiro paraíso terrestre,
aí realizou ocultamente tantas maravilhas que nem os
anjos nem os homens as compreendem; por isso os
santos chamaram Maria a magnificência de Deus:
“Magnificentia Dei” 98, como se Deus só fosse magnífico
em Maria:
“Solummodo ibi magnificus Dominus” (Is 33, 21). É o trono de sua glória para seu Pai, pois
foi em Maria que Jesus Cristo acalmou perfeitamente seu Pai
irritado contra os homens; que ele recuperou perfeitamente a
glória que o pecado lhe tinha arrebatado, e que, pelo
sacrifício, que neste mistério fez da sua vontade e de si
mesmo, lhe deu mais glória como jamais lhe deram todos os
sacrifícios da antiga lei, e, finalmente, lhe deu uma glória
infinita como ainda não recebera de criatura humana.
97) S. Ambrósio: De Instit.
Virg., cap. VII, n. 50.
98) Ricardo de São
Lourenço: De laud. Virg. IV.
§ V. Grande devoção à Ave-Maria e ao terço.
249. Quinta prática. Terão grande devoção ao recitar a
Ave-Maria, ou a Saudação Angélica, da qual bem
poucos cristãos, mesmos esclarecidos, conhecem o valor, o
mérito, a excelência e a necessidade. Foi preciso que a
Santíssima Virgem aparecesse várias vezes a grandes santos
muito doutos, para demonstrar-lhes o mérito desta pequena
oração, como sucedeu a S. Domingos, a S. João Capistrano, ao
bem-aventurado Alano de la Roche. E eles compuseram
livros inteiros sobre as maravilhas e a eficácia da
Ave-Maria, para conversão das almas.
Altamente
publicaram e pregaram que a salvação do mundo começou pela
Ave-Maria, e a salvação de cada um em
particular está ligada a esta prece; que foi esta prece que
trouxe à terra seca e árida o fruto da vida, e que é esta
mesma prece que deve fazer germinar em nossa alma a palavra
de Deus e produzir o fruto da vida, Jesus Cristo; que
a Ave-Maria é um orvalho celeste, que umedece a terra, isto
é, a alma, para fazer brotar o fruto no tempo adequado; e
que uma alma que não for orvalhada por esta prece ou orvalho
celeste não dará fruto algum, nem dará senão espinhos, e não
estará longe de ser amaldiçoada (Hb 6, 8).
250. No livro “De dignitate Rosarii” do bem-aventurado Alano de la
Roche, lê-se o seguinte que a Santíssima Virgem lhe revelou:
“Saibas, meu filho, e comunica-o a todos, que um sinal
provável e próximo de condenação eterna é a aversão, a
tibieza, a negligência em rezar a Saudação Angélica, que foi
a reparação de todo o mundo –
Scias enim et secure
inteligas et inde late omnibus patefacias, quod videlicet
signum probabile est et propinquum aeternae damnationis
horrere e acediari ac negligere Salutationem angelicam,
totius mundi reparationem” (cap. II).
Eis aí
palavras consoladoras e terríveis, que se
custaria a crer, se não no-la garantissem esse santo homem e
antes dele S. Domingos, como, depois dele, muitos
personagens fidedignos, com a experiência de muitos séculos.
Pois sempre se verificou que aqueles que trazem o sinal de
condenação, como os hereges, os ímpios, os orgulhosos, e os
mundanos, odeiam e desprezam a Ave-Maria e o terço.
Os
hereges ainda aprendem e recitam o Pai-Nosso,
mas abominam a Ave-Maria e o terço. Trariam
antes uma serpente sobre o peito do que o rosário ou o
terço. Os orgulhosos também, embora católicos, mas tendo as
mesmas inclinações que seu pai Lúcifer, desprezam ou mostram
uma indiferença completa pela Ave-Maria,
considerando o terço uma devoção efeminada, suficiente para
os ignorantes e analfabetos. Ao contrário, tem-se visto e a
experiência o prova que aqueles e aquelas que possuem outros
e grandes indícios de predestinação, amam, apreciam e
recitam com prazer a Ave-Maria. E que quanto
mais são de Deus, tanto mais amam esta oração. É o
que a Santíssima Virgem diz também ao bem-aventurado Alano,
em seguida às palavras que citei.
251. Não sei como isto acontece nem por que; entretanto é verdade, e não
conheço melhor segredo para verificar se uma pessoa é de
Deus, do que examinar se gosta ou não de rezar a
Ave-Maria e o terço. Digo: gosta, pois pode
acontecer que alguém esteja na impossibilidade natural ou
até sobrenatural de dizê-la, mas sempre a ama e a inspira
aos outros.
252. Almas predestinadas, escravas de Jesus em Maria, aprendei que a
Ave-Maria é a mais bela de todas as orações, depois do
Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que
podeis fazer a Maria, pois é a saudação que o Altíssimo
indicou a um arcanjo, para ganhar o coração da Virgem de
Nazaré. E tão poderosas foram aquelas palavras, pelo
encanto secreto que contêm, que Maria deu seu pleno
consentimento para a Encarnação do Verbo, embora relutasse
em sua profunda humildade. É por esta saudação
que também vós ganhareis infalivelmente seu coração,
contanto que a digais como deveis.
253.
A
Ave-Maria, rezada com devoção, atenção e modéstia, é, como dizem os santos, o inimigo do demônio, pondo-o logo em
fuga, e o martelo que o esmaga; a santificação da alma, a
alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do
Novo Testamento, o prazer de Maria e a glória da Santíssima
Trindade. A Ave-Maria é um orvalho celeste que torna
a alma fecunda; é um beijo casto e amoroso que se dá em
Maria, é uma rosa vermelha que se lhe apresenta, é uma
pérola preciosa que se lhe oferece, é uma taça de ambrosia e
de néctar divino que se lhe dá. Todas estas comparações são
de santos ilustres.
254. Rogo-vos instantemente, pelo amor que vos consagro em Jesus e Maria,
que não vos contenteis de recitar a coroinha de Santíssima
Virgem, mas também o vosso terço, e até, se houver
tempo, o vosso rosário, todos os dias, e abençoareis, na
hora da morte, o dia e a hora em que me acreditastes; e,
depois de ter semeado sob as bênçãos de Jesus e de Maria,
colhereis bênçãos eternas no céu:
Qui seminat in
benedictionibus, de benedictionibus et metet”
(2Cor 9,
6).
§ VI. Recitação do Magnificat
255. Sexta prática. Para agradecer a Deus pelas graças que concedeu à
Santíssima Virgem, dirão freqüentemente o Magnificat, a
exemplo da bem-aventurada Maria d’Oignies e de muitos outros
santos.
É a
única oração e a única obra composta por Maria, ou, melhor,
que Jesus fez por meio dela, pois ele fala pela boca de sua
Mãe Santíssima. É o maior sacrifício de louvor que Deus já recebeu na lei
da graça. É dum lado, o mais humilde e o mais reconhecido e,
doutro, o mais sublime e mais elevado de todos os cânticos.
Há neste cântico mistérios tão grandes e tão ocultos, que os
próprios anjos ignoram.
Gerson,
que foi um doutor tão sábio quanto piedoso, depois de
empregar grande parte de sua vida escrevendo tratados cheios
de erudição e piedade, sobre os mais difíceis temas, tremeu
e vacilou no fim da carreira, ao empreender a explicação do
Magnificat, com que tencionava coroar todas as suas obras.
Num volume in-folio, ele nos diz coisas admiráveis do belo e
divino cântico.
Entre outras, afirma que a Santíssima Virgem o recitava
muitas vezes sozinha, principalmente depois da santa
comunhão, em ação de graças. O sábio Benzônio, num explicação do mesmo cântico, cita
vários milagres operados por sua virtude, e diz que os
demônios tremem e fogem, quando ouvem as palavras do
Magnificat:
“Fecit potentiam in brachio
suo, dispersit superbos mente cordis sui” (Lc 1, 51).
§ VII. O desprezo pelo mundo.
256. Sétima prática. Os fiéis servos de Maria devem
desprezar, odiar e fugir ao mundo corrompido, e servir-se
das práticas de desprezo pelo mundo, que assinalamos na
primeira parte.99
99) V. nota 3 do n. 227.
Cf. “L’Amour de la Sagesse éternelle”, cap. XVI.
Artigo II
Práticas especiais e interiores para os que querem tornar-se
perfeitos
257. Além das práticas exteriores da devoção que vimos referindo, as quais
não se deve omitir por negligência ou desprezo, na medida
que o estado e as condições de cada um o permitem,
acrescentamos algumas práticas interiores assaz
santificantes para aqueles chamados pelo Espírito Santo a
mais alta perfeição.
Consiste,
em quatro palavras, em fazer todas as suas ações por
Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las
mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para
Jesus.
§ I. Fazer todas as ações por Maria.
258. 1º É preciso fazer todas as ações por Maria, quer
dizer, em todas as coisas obedecer à Santíssima Virgem, e em
tudo conduzir-se por seu espírito, que é o santo espírito de
Deus. São filhos de Deus os que se conduzem pelo espírito de
Deus: “Qui
spiritu Dei aguntur, ii sunt filii Dei”
(Rm 8, 14). E os que pautam sua conduta pelo espírito
de Maria são filhos de Deus, como já demonstramos; entre
tantos devotos da Santíssima Virgem, só os que se conduzem
por seu espírito é que são devotos verdadeiros e fiéis.
Disse que
o espírito de Maria é o espírito de Deus,
porque ela jamais se conduziu por seu próprio espírito, e
sempre pelo espírito de Deus, e este de tal modo a dominou
que acabou tornando-se seu próprio espírito. Por isto, diz
Santo Ambrósio:
“Sit in singulis...
etc. – Esteja a alma de Maria em cada um para
glorificar o Senhor; esteja em cada um o espírito de Maria
para que se regozija em Deus”.100 Quão feliz é uma
alma quando, a exemplo do bom irmão jesuíta Rodriguez101,
falecido em odor de santidade, é toda possuída e governada
pelo espírito de Maria, que é um espírito suave e forte,
zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo!
100) Palavras já citadas e
comentadas no n. 217.
101) Canonizado por Leão
XIII, em 15 de janeiro de 1888.
259. Para que a alma se deixe conduzir por este espírito de Maria, é
mister:
1º
Renunciar ao próprio espírito, às próprias luzes e vontades,
antes de qualquer coisa: por exemplo, antes da oração, antes
de dizer ou ouvir a santa missa, antes de comungar,
etc...; pois as trevas de nossa vontade própria, se bem que
nos pareçam boas, poriam obstáculo ao santo espírito de
Maria.
2º
É preciso entregar-se ao espírito de Maria para ser por ele
movido e conduzido como ela quiser.
Cumpre colocar-se e permanecer entre suas mãos virginais
como um instrumento nas mãos dum operário, como uma cítara
nas mãos dum artista. Cumpre abandonar-se e perder-se nela,
como uma pedra que se atira ao mar.
E isto se
faz simplesmente e num instante, por um só olhar do
espírito, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente.
Dizendo, por exemplo: “Renuncio a mim mesmo, dou-me a
vós, minha querida Mãe”. E ainda que não sintamos
nenhuma doçura sensível neste ato de união, ela não deixa de
ser verdadeiro, do mesmo modo que, se disséssemos, com
desagrado de Deus:
“Dou-me ao demônio”, com a mesma sinceridade, embora o disséssemos sem
mudança alguma sensível, não pertenceríamos menos
verdadeiramente ao demônio.
3º
É preciso, de tempos em tempos, durante uma ação ou depois,
renovar o ato de oferecimento e de união, e, quanto mais o
fizermos, mais cedo nos santificaremos, e mais cedo
chegaremos à união com Jesus Cristo, que segue sempre
necessariamente a união com Maria, pois o espírito de Maria
é o espírito de Jesus.
§ II. Fazer todas as ações com Maria.
260. 2º É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as
ações olhar Maria como um modelo acabado de todas as
virtudes e perfeições, que o Espírito Santo formou numa pura
criatura, e imitá-lo na medida de nossa capacidade.
Cumpre, portanto, que, em cada ação, consideremos como Maria
a fez ou faria se estivesse em nosso lugar. Devemos,
por isso, examinar e meditar as grandes virtudes que ela
praticou durante a vida, especialmente:
1º
sua fé viva, pela qual creu fielmente e constantemente até
ao pé da cruz, sobre o Calvário;
2º
sua humildade profunda que a levou a esconder-se, a
calar-se, a submeter-se a tudo e a colocar-se em último
lugar;
3º
sua pureza virginal, que jamais teve nem terá semelhante sob
o céu, e por fim todas as suas outras virtudes.
Lembrai-vos, repito-o uma segunda vez, de que Maria é o
grande e único molde de Deus102 próprio para fazer imagens
vivas de Deus, com pouca despesa e em pouco tempo; e que uma
alma que encontrou este molde, e que nele se perde, fica em
breve mudada em Jesus Cristo, aí representado ao natural.
102) Ver
antes, n. 218 seg.
§ III. Fazer todas as ações em Maria.
261. 3º É preciso fazer todas as ações em Maria.
Para compreender cabalmente esta prática, é necessário saber
que a Santíssima Virgem é o verdadeiro paraíso terrestre do
novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas
figura. Há, portanto, neste paraíso terrestre, riquezas,
belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o novo Adão,
Jesus Cristo, aí deixou.
Neste
paraíso ele pôs suas complacências durante nove meses, aí
operou suas maravilhas e aí acumulou riquezas com a
magnificência de um Deus. Este lugar santíssimo é formado de
uma terra virgem e imaculada, da qual se formou e nutriu o
novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do
Espírito Santo que aí habita.
É neste
paraíso terrestre que está em verdade a árvore da vida que
produziu Jesus Cristo, o fruto da vida; a
árvore da ciência do bem e do mal, que deu a luz ao mundo.
Há, neste lugar divino, árvores plantadas pela mão de Deus e
orvalhadas por sua unção divina, árvores que produziram e
produzem, todos os dias, frutos maravilhosos dum sabor
divino; há canteiros esmaltados de belas e variegadas flores
de virtudes, cujo perfume delicia os próprios anjos.
Ostentam-se neste lugar prados verdes de esperança, torres
fortes e inexpugnáveis e fortes, habitações cheias de
encanto e segurança, etc. Ninguém, exceto o Espírito
Santo, pode dar a conhecer a verdade oculta sob estas
figuras de coisas materiais. Reina neste lugar um ar
puro, sem infecção, um ar de pureza; um belo dia sem noite,
da humanidade santa; um belo sol sem sombras, da Divindade;
uma fornalha ardente e contínua de caridade, na qual todo o
ferro que aí se lança fica abrasado e se transforma em ouro;
há um rio de humildade que surge da terra, e que,
dividindo-se em quatro braços, rega todo este lugar
encantado: são as quatro virtudes cardeais.
262. O Espírito Santo, pela boca dos Santos Padres, chama também a
Santíssima Virgem:
1º
a porta oriental, por onde o sumo sacerdote Jesus Cristo
entra e vem ao mundo
(cf. Ez 44, 2-3); por ela entrou da primeira vez, e
por ela virá da segunda;
2º
o santuário da Divindade, o reclinatório da Santíssima
Trindade, o trono de Deus, a cidade de Deus, o altar de
Deus, o templo de Deus, o mundo de Deus.
Todos
estes diferentes epítetos e louvores são verdadeiros em
relação às diversas maravilhas e graças que o Altíssimo
realizou em Maria. Oh! que riqueza! que glória! que prazer!
que felicidade poder entrar e habitar em Maria, em quem o
Altíssimo colocou o trono de sua glória suprema!
263. Mas quão difícil é a pecadores, como somos, alcançar a permissão
e a capacidade e a luz para entrar em lugar tão alto e tão
santo, guardado não por um querubim, como o antigo
paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo, que nele
se tornou o Senhor absoluto e do qual diz:
“Hortus conclusus soror mea
sponsa, hortus conclusus, fons signatus”
(Ct 4, 12). Maria é fechada; Maria é selada; os miseráveis
filhos de Adão e Eva, expulsos do paraíso terrestre, só tem
acesso a este outro paraíso por uma graça especial do
Espírito Santo, a qual devem merecer.
264. Depois que, pela fidelidade, obtivermos esta graça insigne, é
com complacência que devemos morar no belo interior de
Maria, aí repousar em paz, aí apoiar-nos com toda a
confiança, aí seguramente esconder-nos e perder-nos sem
reserva, a fim de que neste seio virginal:
1º
a alma se alimente do leite de sua graça e de sua
misericórdia maternal;
2º
aí fique livre de suas perturbações, de seus temores e
escrúpulos:
3º
aí esteja em segurança, ao abrigo de todos os seus inimigos,
o demônio, o mundo e o pecado, que aí não tem jamais
entrada; e por isso ela diz que os que operam nela, não
pecarão:
“Qui operantur in
me, non peccabunt”
(Ecli 24,
30), isto é, os que em espírito, habitam a Santíssima
Virgem, não cometerão pecado grave;
4º
para que a alma fique formada em Jesus Cristo e Jesus Cristo
nela; porque o seu seio, como dizem os Santos Padres103, é a
sala dos sacramentos divinos, onde Jesus Cristo e todos os
eleitos se formaram:
“Homo et homo natus est in
ea”
(Sl 86, 5).104
103) Ver acima n. 248:
“Aula sacramentorum”.
104) Sobre este texto,
veja-se o comentário de nosso Santo, n. 32.
§ IV. Fazer todas as ações para Maria.
265. 4º É preciso fazer finalmente todas as ações para Maria.
Porque, desde que nos entregamos completamente a seu
serviço, é justo que façamos tudo para ela, como um criado,
um servo, um escravo. Não a tomamos, porém, como fim último
de nossos serviços, que é somente Jesus Cristo, mas como fim
próximo, intermédio misterioso, e o meio mais fácil de
chegar a ele.
A exemplo
de um bom servo e escravo, é preciso que não fiquemos
ociosos, e sim que, apoiados por sua proteção, empreendamos
e realizemos grandes coisas para tão augusta Soberana. É
preciso defender seus privilégios quando alguém os disputar;
sustentar sua glória, quando alguém a atacar; atrair todo o
mundo, se for possível, ao seu serviço e a esta verdadeira e
sólida devoção; falar, clamar contra todos os que abusem de
sua devoção para ultrajar seu Filho; e ao mesmo tempo
estabelecer esta verdadeira devoção.
E
como recompensa destes pequenos serviços, não devemos
pretender mais que a honra de pertencer a uma Princesa tão
amável, e a felicidade de, por meio dela, ficarmos unidos a
Jesus Cristo, seu Filho, com um liame indissolúvel no tempo
e na eternidade.
Glória a Jesus em Maria!
Glória a Maria em Jesus!
Glória a Deus somente!
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Continua...
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