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LITURGIA GERAL
CAPITULO IV.
O TEMPO SACRO
§ 61. A ANO ECLESIÁSTICO EM GERAL
245.
Servir a Deus não é só obrigação do indivíduo, mas também da
comunidade. A veneração comum, porém, da divina Majestade
supõe nos membros desta comunidade o conhecimento de uma
hora fixa para o culto, e de um tempo determinado para
certas funções cultuais. A esta exigência corresponde o ano
eclesiástico.
1. Definição.
Materialmente
o ano
eclesiástico é uma sucessão de 365 ou 366 dias. É formado à
semelhança do ano civil, composto de 52 ou 53 semanas.
Liturgicamente,
em
sentido lato, designa os 52 domingos, cada qual com a sua
semana (p. ex., Fer. 2 infra Dom. 8 post Pent.) e com as
festas ocorrentes. Nesta acepção também o antigo testamento
possuía ano litúrgico. Mas o novo testamento tem algo mais:
a significação mística.
Misticamente, o ano eclesiástico é a repetição da vida de
Cristo, baseada na celebração dos mistérios principais do
divino Redentor. Portanto, o ano litúrgico em sentido
estrito é o ano solar repetindo a vida de Jesus Cristo pelos
tempos santos.
246. 2. História.
O ponto de partida do ano litúrgico
se
acha no santo sacrifício da missa, em que "a obra da nossa
redenção se celebra". Pois nele se renovam as obras
principais desta redenção: a paixão, a ressurreição e a
glorificação.
A
formação
do ano
litúrgico, na qualidade de tempo sacro, deve-se atribuir à
comemoração da obra da redenção em dias determinados. Tais
eram os domingos e as festas de páscoa e pentecostes. Cada
domingo (dies dominica) é dia de Nosso Senhor e lembra a sua
ressurreição. Deste feito todo o ano litúrgico possui um
caráter cristocêntrico e eucarístico. Aperfeiçoou-se pelo
aumento sucessivo das festas; no século
VII-VIII
tinha a forma de hoje. Testemunha-o o sacramentário
gregoriano, discrepando só no fato de contar 5 domingos do
advento em lugar de 4. O jejum antes da páscoa havia já no
II século, o qual pouco a pouco se estendeu.
247. 3. 0 costume de principiar o ano litúrgico
com o
advento começou no século XI, ocasionado quiçá pelos livros
litúrgicos. Pois os antigos sacramentários trazem em
primeiro lugar as missas do natal. Para tornar o uso destes
livros mais cômodo, foi conveniente pôr as missas do advento
antes da festa do natal. Assim fizeram em parte no século X,
generalizando-se o costume no século
XII.
Tendo principiado o livro litúrgico com as missas do
advento, a conseqüência foi dar início também ao ano
eclesiástico pelo advento. Foi o que fizeram os liturgistas,
entre eles já Beletho.
Na
idade média havia vários modos de começar o ano: no dia do
natal (25 de dezembro), 1° de janeiro, 1° de março, 25 de
março, sábado santo, páscoa. Apesar de existirem os
elementos do ano litúrgico, o nome "ano eclesiástico" ocorre
pela primeira vez em 1589.
248. 4. A divisão
do ano
litúrgico em 3 ciclos é ainda mais nova do que o princípio
dele com o advento. O ciclo do natal e o da páscoa são
geralmente admitidos; não o é, porém, igualmente o ciclo de
pentecostes. Afirmam alguns que nem pela história nem pela
matéria se pode justificar este último. Mas deve-se
distinguir. Se se toma o terceiro ciclo significando a
terceira parte do ano eclesiástico sob o nome
de
"pentecostes", então este terceiro ciclo é inadmissível, por
não ter nada com pentecostes, a não ser o nome dos domingos.
Se, porém, se estabelece o terceiro ciclo com o nome de
"Cristo Rei", então há razões suficientes para o admitir.
(n. 425.)
§ 62. A SEMANA
O DOMINGO
249.
A semana
cristã é a continuação da semana israelítica. Mas o sábado,
como dia do culto divino, foi substituído pelo domingo.
1. Os primeiros cristãos
estavam
acostumados a guardar o sábado, o último dia da semana.
Depois de acabar este dia
(mais
ou menos às 6 horas da tarde), celebravam o santo mistério
da missa e comunhão no primeiro dia da semana. Assim sabemos
que S. Paulo reuniu os cristãos de Trôade para partir o pão
eucarístico una sabbati, "no primeiro dia depois do
sábado". Em Corinto (1 Cor 16, 2) os cristãos se reuniram
pela primeira vez
per
unam sabbati.
No Apocalipse de S. João (1, 10) este dia pela
primeira vez é chamado: dia do Senhor (dies dominica,
domingo).
Em breve
o domingo foi recebido pelo uso geral, a ponto de ficarem as
seitas mais antigas, p. ex., os ebionitas, com o domingo ao
lado do sábado, ao qual deram preferência. O domingo foi
chamado também dies solis, o dia do sol, pois que
Jesus Cristo é o verdadeiro sol de justiça e
santidade.
250. 2.
A Igreja
tem o poder de substituir o sábado pelo domingo.
Pois Jesus Cristo aboliu as leis cerimoniais do antigo
testamento pela sua morte. Por isso, avisa S. Paulo os
cristãos perseguidos por não observarem as leis
cerimoniais judaicas (Col 2, 16) que não se
importassem com as festas da lua nova ou do sábado.
Pois tudo isso era figura do futuro, que se achava
cumprido em Jesus Cristo e por conseguinte não tinha
mais força obrigatória.
251. 3.
Motivos
para
celebrar o domingo.
1) A
ressurreição de Jesus Cristo no primeiro dia da semana,
mistério fundamental da fé cristã. Por isso nos domingos se
recita o Sl 117, que traz as palavras da antífona pascoal:
"Heec dies quam
fecit dominus: exsultemus et lwtemur in ea."
O Senhor
mesmo aplicou estas palavras à sua ressurreição (Mt 21, 42):
"Nunquam legistis
in scripturis: a domino factum est istud et est mirabile in
oculis nostris?"
São Pedro alude ao mesmo salmo. (At 4, 11; 1 Ped 2, 7.) Por
isso, as antífonas das Laudes e Horas menores vêm
acompanhadas de 1 ou 3 aleluias como no tempo pascal; não se
jejua nem se reza de joelhos, p. ex., as antífonas marianas,
o anjo do Senhor. S. Agostinho explica este costume, dizendo
(Ep. 55, 28):
Stantes oramus, quod est signum resurrectionis.
2) O dia
da criação do mundo. Lembrança disso há nas vésperas:
Lucis Creator optime.
3) O dia
dá descida do Espírito Santo. Por isso o domingo era "o dia
da Liturgia" e o tipo de todas as festas, que durante o ano
eclesiástico se celebravam com vigília e descanso dominical.
(Piacenza, Reg. p. 29.)
252.
Sendo
comemoradas assim as três Pessoas divinas no domingo, foi
ele considerado como dedicado à SS. Trindade.
Fala
deste santo mistério o hino das matinas:
"Primo die quo Trinitas Beata
mundum condidit"; o responsório 8 com o Sanctus, Sanctus,
Sanctus, o símbolo Quicumque, o prefácio da SS.
Trindade.
Mas o
domingo não foi igualmente por toda parte considerado
primeiro dia da semana. Em vários países era o último dia da
semana, porquanto esta começava pela segunda-feira. Pela
legislação eclesiástica e civil o domingo se tornou dia de
descanso no sentido cristão desde o século IV. Assistir à
missa nos domingos tornou-se obrigação para todos os adultos
desde o princípio do século IV. (Sínodo de Elvira, 306.)
§ 63. DIVISÃO DOS DOMINGOS
253. 1. Classes. No missal, p. ex., o primeiro domingo do advento traz a rubrica: 1
classis. Semiduplex. É uma contradição aparente. Pois os
domingos são classificados segundo a dignidade (p. ex., 1
classis) e o rito (p. ex., semiduplex).
a) Quanto
ao rito, todos os domingos são semiduplex com
exceção de 3: Dominica paschalis, Dominica iri Albis,
Dominica Pentecostes.
b) Quanto
à dignidade, distinguem-se maiores e menores ou
comuns (per annum).
c) Os
domingos maiores dividem-se em 2 classes conforme o seu
respectivo privilégio de preferência.
aa. Os
domingos da primeira classe são preferidos na
ocorrência (portanto não nas vésperas) a todas as festas
são 10: o 1° domingo do advento, os 4 domingos da
quaresma e os 4 seguintes até ao domingo da pascoela, e
pentecostes. As festas incidentes devem ser transferidas.
254.
bb. Os
domingos da segunda classe são preferidos a todas as
festas menos às de primeira classe. São 6: o 2°, 3° e 4°
do advento, os três antecedentes à quaresma: setuagésima,
sexagésima e qüinquagésima.
2.
Privilégios.
Todos os domingos têm os seguintes privilégios:
a) Neles
nenhuma festa pode ser fixada para sempre. Exceções:
festa da S. Família, da SS. Trindade, de Cristo Rei ou de
outra festa por dispensa rara da S. C. dos Ditos.
b)
Nenhuma festa pode ser transferida para um domingo.
c) Nenhum
ofício de domingo se omite totalmente; quando
impedido deve ser comemorado no ofício e na missa com seu
prefácio próprio, ao menos por via de regra, e a missa
impedida deve ser rezada na semana seguinte, conforme regras
especiais.
3.
Número.
Nos livros litúrgicos são indicados 53
domingos e 53 ofícios de domingos. Se A é letra dominical ou
(no ano bissexto) é uma delas (A g, bA), i. é, quando o 1°
de janeiro cai num domingo, ou, no ano bissexto no sábado,
lodos os 30 ofícios depois de pentecostes (24 mais 6 da
epifania) têm o seu domingo, do contrário só 29, e um ofício
antecipado no sábado com os direitos de domingo. Pois, neste
caso, são só 52 domingos.
255. 4.
Vacantes são os domingos sem ofício e sem
comemoração.
Ocorrem, às vezes, entre o dia 25 de dezembro e 13 de
janeiro e são ocupados por festas.
Vagos
(móveis)
se chamam o 3°, 4°, 5° e 6° domingo depois da epifania,
porque não são fixados num lugar certo, sendo celebrados,
ora depois da epifania, ora depois de pentecostes.
256.
5. O primeiro domingo do mês é, na acepção civil,
aquele que cai no dia primeiro do mês ou vem logo depois
dele. Este cômputo
é
necessário, quando se trata de fixar uma festa num domingo
determinado ou de ganhar indulgências concedidas para certo
domingo do mês. No cômputo propriamente eclesiástico o
primeiro domingo do mês é aquele que cai no dia primeiro ou
que vem mais perto dele. Se o dia primeiro do mês cai numa
segunda ou terça ou quarta-feira;
o primeiro domingo é aquele que precede estes dias; se cai
nos outros dias, é o domingo seguinte. Faz exceção o
primeiro domingo do advento que é determinado em relação à
festa de S. André. (30 de nov.) Este cômputo decide o
princípio das lições da
s.
escritura no ofício divino.
§ 64. OS DIAS DA SEMANA
257. 1.
Nomes. O nosso domingo era chamado pelos
israelitas primeiro dia depois do sábado (una =
prima sabbati), os dias seguintes eram designados com o
número ordinal. Este modo foi recebido pela Igreja, mas
modificado quanto ao primeiro e último dia, que tomaram o
nome de domingo e sábado. Além disso a Igreja acrescentou ao
número ordinal o termo feria, falando da Feria
secunda, Feria tertia. Quis significar que os clérigos
devem deixar o cuidado das outras coisas para "feriar" só
para Deus. (In festo S. Silvestri, 31 dec.)
Os pagãos
falavam do dies soils, lunce, martis, mercurii,
jovis, veneris et saturni, termos às vezes empregados
também pelos s. padres dos primeiros séculos.
258. 2. Dias principais.
São os dias que, ainda hoje, no ano eclesiástico têm uma
posição especial na quaresma e nas quatro têmporas: a
quarta-feira, a sexta-feira e o sábado.
A sexta-feira, tanto no Oriente como no Ocidente, foi
consagrada à paixão de Jesus Cristo. Foi neste dia que o
Senhor foi pregado na cruz para satisfazer por nossos
pecados. Em sinal de luto e penitência guardava-se nele o
jejum.
A
quarta-feira
lembra a traição de Judas, que neste dia vendeu o divino
Redentor por 30 siclos. Esta circunstância motivou o jejum
de penitência na quarta-feira.
O
sábado
era celebrado no Ocidente do mesmo modo que no
Oriente. No Ocidente encontramos pelo fim do século III o
uso de jejuar no sábado. Provavelmente tem a sua origem no
fervor dos cristãos que estenderam o jejum da sexta-feira
até ao sábado (superponere jejunium). Nestes
três dias mencionados nem em Alexandria nem em Roma havia
missa. Eram dias de estação (statio), dias
alitúrgicos. Provavelmente feria só é a tradução do hebraico sabbatum,
descanso. Pois S. Jerônimo (Ad Gal. II, 4; ML 26 p. 378)
chama a quarta-feira cristã quartam sabbati.
259. 3. O sábado,
ao menos desde o fim do século X
,
é
consagrado à Maria Santíssima.
Durandus
(IV, c. 1, n.° 30-35) alega os motivos seguintes, que com
reserva merecem ser mencionados.
1.
Achava-se numa igreja de Constantinopla uma imagem da Virgem
SS., diante da qual pendia uma cortina que a cobria toda.
Esta cortina desaparecia na sexta-feira depois das vésperas
sem alguém a tocar, só por um milagre de Deus, para que a
imagem pudesse ser vista totalmente pelo povo. Depois das
vésperas do sábado a cortina cobria outra vez a imagem e
ficava assim até à sexta-feira seguinte. Por causa deste
milagre determinou-se cantar sempre neste dia em honra da
SS. Virgem.
2. Quando
o Senhor estava morto e os discípulos desesperaram da
ressurreição, naquele sábado só nela ficou toda a fé. Ela
estava certa de que Cristo era filho de Deus e havia de
ressurgir no terceiro dia.
3. O
sábado é a porta do domingo, portanto a porta do céu,
cujo símbolo é o domingo. Ora, Maria é a porta do céu.
Por isto a festejamos no dia que precede o domingo.
4. A
solenidade do filho (sexta-feira) deve seguir-se
imediatamente a solenidade da mãe.
5. Convém
que no sábado, em que Deus descansou da sua obra, haja
alguma solenidade.
Quanto à
1ª razão é preciso notar que uma crença popular e ingênua
pode ser a causa próxima de uma devoção fundada em motivos
sólidos. A 2ª razão dificilmente se compõe com a promessa de
que S. Pedro nunca havia de vacilar na fé. Bento XIV (de
fest. c. 5, n. 8) diz: "Nem todos os teólogos defendem
a sentença de
que
os
apóstolos perderam a fé, a qual era firme só na Virgem SSma.
Pois Pedro, negando a Cristo, não cometeu outra falta além
de ter medo de confessar a Cristo aberta e livremente. A sua
alma contudo estava isenta de qualquer erro. Nem Cristo
teria encomendado sua mãe caríssima a S. João, se ele
tivesse perdido a fé." (Suarez, de fide disp. 9. sect. 3.)
O mesmo
papa (de fest. B. M. V. I.
II
c.
18 n. 2) escreve: Belarmino observa que Madalena estava
abrasada de grande fogo de caridade como se vê em Jo. 19 e
20. Ora, a caridade não se pode separar da fé. Até
acrescenta: Parece ser perigoso dizer que só na Virgem SSma.
ficou a verdadeira Fé. Desta maneira a Igreja teria
perecido. Pois uma pessoa não pode ser chamada Igreja,
porquanto a Igreja é um povo e o reino de Cristo. (Bellarm.
t.
II.
controvers. 1. '3, de eccl. mil . c.
17.)
A 4ª
razão será a decisiva. Começou-se a jejuar na sexta-feira
e continuou-se em honra da mãe.
Stabat iuxta crucem
fesu Mater eius.
(Jo 19,
25.)
No
Liber sacramentorurn do séc. VIII para cada dia da
semana
está assinalada uma missa votiva própria. Pois não havendo
muitas festas de santos não era possível evitar a
repetição
da missa do domingo. Para aliviar a devoção pela
mudança
das fórmulas da missa e para achar auxílio nas necessidades
por missas especiais formou-se o costume, fixado mais tarde
por Pio V, de consagrar os dias da semana
ao
culto de Deus trino e dos santos segundo a dignidade
indicada na ladainha de todos os santos: Deus, Maria, José e
Apóstolos.
O
domingo está consagrado à SS. Trindade, com
preferência considerada na unidade da essência divina.
A
segunda-feira, sendo Maria SS. venerada no sábado,
dedicou-se à SS. Trindade, considerada expressamente na
trindade das Pessoas divinas, a terça-feira
aos anjos, que têm o terceiro lugar, a quarta-feira
aos apóstolos que ocupam o quarto lugar no céu. Com o
conhecimento mais profundo da dignidade de São José superior
à dos apóstolos, a ele se deu o quarto lugar, logo depois
dos anjos, e a sua missa votiva (1883) foi marcada também
para a quarta-feira. A quinta-feira sempre
esteve dedicada à SS. Eucaristia, a sexta-feira
à cruz, o sábado à Maria SSma.
A
missa do Espírito Santo se reservou para a quinta-feira,
dia este, em que se realizou a ascensão de Jesus Cristo, de
que dependia essencialmente a abertura da porta celestial e
por conseguinte a descida triunfal do Espírito Santo. (lo
16, 7, Pref. de Sp. S.) A segunda-feira é o dia das
almas.
O
ensejo
desta instituição parece ser uma suposta revelação divina em
que se afirma ter outorgado Nosso Senhor aos condenados
repouso de seus tormentos todos os domingos em honra de sua
ressurreição. A notícia se acha no apocalipse apócrifo de
São Paulo do séc. IV e tornou-se opinião muito espalhada.
Com o correr dos séculos o privilégio dos condenados foi
transferido para as almas do purgatório. Assim São Pedro
Damião, seguindo, como ele diz, "a piedosa opinião de homens
ilustres", ensina que as almas do purgatório no domingo
estão livres dos sofrimentos' mas devem voltar para as penas
na segunda-feira.
Por isso é mister socorrê-las neste dia. A Igreja,
com a sua solicitude maternal, sem adotar esta opinião,
prescreve, quando não obstam as rubricas, a oração "Fidelium"
pelos defuntos e permite a missa conventual de réquie na
segunda-feira.
(Franz:Messe i. d. Mittel pág. 144 MI. 145 pág. 564; 427;
Durand IV, 1 n. 29.)
O
fundamento dogmático decisivo para a Igreja é a comunhão dos
santos. No domingo se comemora a Igreja triunfante, logo
depois na segunda-feira a Igreja padecente, à maneira da
festa de Todos os Santos e do dia de finados.
§ 65. DIVISÃO DAS FÉRIAS
260.
1. Segundo a dignidade, as férias dividem-se em
férias maiores e menores. Maiores são as
férias do advento, da quaresma, das quatro têmporas de
setembro, da segunda-feira das Rogações.
As férias
maiores são privilegiadas ou não privilegiadas. As
privilegiadas são 7: A quarta-feira das cinzas e os 6 dias
da semana santa (S. R. C. 1.0 nov. 1931). São
preferidas a todas as festas.
As férias
maiores não privilegiadas são preferidas somente às festas
simples e vigílias, mas são comemoradas nos ofícios de 9
lições.
Menores
ou per annum são todas as férias fora das férias
maiores. Não tem comemoração, quando se celebra outro
ofício.
261.
2. Ofício. A féria menor não tem I vésperas,
principia, portanto, pelas matinas e termina com as vésperas
e completas do dia.
Precede
um simplex, as vésperas são da féria respectiva,
porquanto o simplex não tem II vésperas. Segue-se
urna festa, embora simplex, o ofício da féria termina
com a noa, e as vésperas são da festa seguinte, sem
comemoração da féria. Ocorre um simplex ou
simplificado numa féria maior, as vésperas do dia anterior
são da féria, como no saltério, com comemoração do
simplex ou simplificado. Pois não se rezam as vésperas
de um ofício, que na sua maior parte é simplificado. Pars
maior trahit minorem.
262.
3. Composição do ofício ferial. Invitatório,
hino, os 9 salmos e antífonas (omitido o versículo do 1º, 2º
noturno) e o versículo do 3º noturno da féria respectiva.
Lições e responsórios do próprio do tempo; no fim da 3ª
lição no tempo da páscoa — Te Deum, o qual fora deste
tempo e na segunda-feira das rogações se omite. Nas laudes
se rezam nas férias menores as antífonas e salmos da 1ª
série; no advento, no tempo entre a setuagésima até à semana
santa, nas vigílias comuns (exceto a vigília da ascensão),
nas quatro têmporas, da 2ª
série.
263.
A capítula da féria respectiva. A oração, se não
houver própria, é a do domingo precedente. O sufrágio, fora
do advento e do tempo da paixão (no tempo pascal
commemoratio crucis), se não houver comemoração de um
duplex, de uma oitava, ou de um oitavo dia simplex,
item na sexta-feira depois da oitava da ascensão e na
vigília de pentecostes.
As preces
feriais recitam-se no advento, na quaresma até à semana
santa, inclusive, nas quatro têmporas, mesmo se se fizer a
comemoração de uma oitava, de um duplex ou
semiduplex (A. B. VIII, 3).
264.
4. A prima é rezada como está indicado no
ordinário e saltério.
a) Se nas
laudes se tomou a
2ª
série, a prima tem além dos 3 salmos costumados um quarto
salmo, a saber, o primeiro da 1ª série de laudes, que havia
sido omitido e substituído pelo Miserere.
b) A
capítula é: Pacem; só nos dias de domingo antecipado
e do tempo pascal: Regi.
c) Se
houver preces feriais nas laudes, há-os também na prima; se
não, há dominicais.
5.
Terça, sexta, noa
como no
ordinário e saltério. Preces feriais, se houver na prima.
6.
Vésperas como no ordinário, saltério, e próprio do tempo.
Sufrágio e preces feriais como nas laudes.
7.
Completas como no ordinário e saltério. Preces como na
prima.
§ 66. AS QUATRO TÊMPORAS
265.
1. Nome. Quatro têmporas ou só têmporas
se chamam a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado das 4
semanas seguintes: primeira da quaresma, primeira de
pentecostes, terceira de setembro e terceira de dezembro;
nestas semanas há jejum.
2.
Origem.
Influíram
provavelmente vários elementos. Conforme uns autores as
quatro têmporas são o vestígio da antiga semana cristã com 3
dias de jejum; conforme outros, foram instituídas para
santificar o início das 4 estações do ano. Mais provável é
que sejam resultado de várias reflexões.
a) A
idéia de jejum algumas vezes por ano acha-se na escritura
sagrada do antigo testamento.
Estes
textos são citados nas lições dos sábados das têmporas de
setembro. O profeta Zacarias (8, 19) menciona quatro épocas
de jejum para Israel. O Papa Leão Magno (Sermão 92; 79; 12)
ensina que as têmporas fora da quaresma foram instituídas
pelos apóstolos.
266.
b) Foi em Roma que primeiro se celebravam as 3 têmporas do
verão, outono e inverno. O número 3 se explica por certas
festas pagas que ocorriam três vezes por ano, feriae
sementinae (inverno), feriae messis (verão),
feriae vindemiales (outono). As têmporas
contrabalançavam os excessos dos idólatras. Assim se explica
o fato, um tanto estranho, de que o Oriente não conhece as
têmporas. O Líber Pontificalis diz que o papa
Calisto (+ 233) instituiu estas 3 têmporas.
c) S.
Leão Magno menciona pela primeira vez as quatro têmporas
relacionando-as com as 4 estações do ano. Deviam ser
santificadas pelo jejum.
d) O Papa (Gelásio (+ 496) acrescentou as ordenações
sacerdotais que ainda hoje se fazem nestes dias. (Cân. 1006,
§ 2) De Roma, as têmporas se propagaram para todas as
igrejas de rito romano. A sua época só foi fixada por Urbano
II (1095).
Como foi costume antigo cristão jejuar antes das ordenações
(At 13, 2), a Igreja, guardando este costume, conferia as
ordens nos dias de jejum. Segundo Durandus (II e 1 n.34) as
quatro têmporas são as primícias do tempo, porque
representam cada vez o inicio de uma nova estação do ano. Os
clérigos são as primícias do povo cristão, porquanto estão
em lugar dos levitas, os quais Deus reservou para si em
troca dos filhos primogênitos de cada família. Por isso
convém, que as primícias do povo cristão sejam consagradas a
Deus junto com as primícias do tempo, as quatro têmporas.
267.
3. A Liturgia das têmporas tem na quarta-feira duas
epístolas. A razão histórica é o antigo
costume romano e de outras Liturgias de ler duas lições
antes do evangelho.
Beletho (c. 90) e Durando (VI, c. 8 n. 2) explicam as duas
lições com a antiga regra de que, no sábado depois de uma
quarta-feira com duas lições na missa, se podem ordenar
sacerdotes, e isto seis vezes por ano. Na quarta-feira os
candidatos eram examinados e por isso na missa se
acrescentava uma lição relativa ao sacerdócio, para
significar que os ordenandos devem ser versados no antigo e
novo testamento para poder instruir o povo.
Nos
sábados das têmporas se lêem seis lições, mas provavelmente
antes eram doze, como ainda no sábado santo, por causa do
escrutínio dos catecúmenos antes do batismo. A quinta lição
é sempre a chamada lectio de camino ignis do profeta
Daniel. A sua significação é profunda. Como os três jovens
passaram pela prova do fogo, assim os candidatos ao
sacerdócio devem passar pelas provas exigidas pela Igreja,
conforme a lei apostólica: Probentur primum et sic
ministrent.
(1 Tim 3, 10; Durando VI, c. 10, n. 3.)
Depois.
dela antigamente se realizavam todas as ordenações, ao passo
que hoje são distribuídas pelas várias lições.
Artigo I. Ciclo de natal
§ 67. O ADVENTO
268.
1. Prioridade dos ciclos. A formação do
ano litúrgico teve início pelas festas de páscoa e
pentecostes. Só mais tarde acrescentou-se o ciclo do natal,
o qual consideramos em primeiro lugar.
2.
Natureza do ciclo do natal.
O ciclo
principia pelo advento (= vinda), que abrange 4 semanas de
preparação. As festas centrais deste ciclo são o dia de
natal de N. S. Jesus Cristo e a epifania. A epifania é
mais antiga e liturgicamente superior (2i. ordinis), o
natal, porém, (3i. ordinis) tem a prioridade nos
mistérios do Redentor e dá o nome ao ciclo. Objeto
deste ciclo é a aparição de Cristo na gruta, na
circuncisão, perante os magos, perante os discípulos em Caná, perante o povo no Jordão, perante Simeão no templo,
perante os doutores (Dom. inf. oct. Ep.)
269.
3. História do advento. Na Espanha,
já o sínodo de Saragossa (380) prescreveu 3 semanas de
preparação para a epifania, em que se celebrava outrora o
natal de Cristo. Em Tours, o bispo Perpétuo (+ 491)
ordenou 6 semanas de preparação para o natal em 25 de
dezembro. Em Roma, o advento é mencionado no
Gelasiano (fins do século V). Os domingos do advento foram
por muito tempo em alguns lugares 5, ainda hoje no rito
ambrosiano são 6, em Roma 4 desde o V século. O rito grego
não conhece o advento, mas sim
um
jejum de 40 dias.
O
advento começa no domingo próximo à festa de Santo André.
(30 de nov.) Se a festa ocorre na primeira metade da semana,
o advento começa na festa ou no domingo precedente, do
contrário, no seguinte. A razão mística porque Santo André
introduz o ano eclesiástico é o seu empenho de conduzir seu
irmão Pedro a Nosso Senhor. A razão natural é o cálculo das
4 semanas do advento. Pois este não pode começar em 26 de
novembro, porque seriam mais que 4 semanas (29 dias), nem em
4 de dezembro, porque seriam menos que 4 semanas até a festa
de
Natal.
Só o dia 30 de novembro regula o cálculo litúrgico entre
27-11 e 3-12.
270.
4. Caráter do advento.
1) É
o tempo da preparação para o aniversário da vinda do
Salvador, causa de novas graças. Pois só a esta se pode
aplicar o invitatório nas vésperas de 24 de dezembro:
Hodie scietis, guia veniet Dominus et mane videbitis
gloriam ejus, repetido várias vezes; a antífona:
Crastina die delebitur iniquitas terrae; em 21 de
dezembro, a antífona: Quinta die veniet ad vos Dominus.
Esta
idéia manifesta da vinda do Redentor inspira toda a Liturgia
do advento.
No 1º
domingo do advento, o Senhor está longe. A antífona das
primeiras vésperas é: Nomen Domini venit de
longínquo; Aspiciens a longe (1° Resp.); Prope est
regnum Dei. (Evang.)
No 2°
domingo: O desejo da Igreja é mais ardente, quase
impaciente: Jerusalem, cito veniet salus tua, quare
mcerore consumeris. (1.° Resp.) Tu es, qui
venturas es. (Evang.)
No 3°
domingo Gaudete: Prope est iam Dominus. (Invit.)
Alegrai-vos. Pois o Senhor já está perto. Gaudete,
Dominus enim propeest. (Capit.) Medias vestrum stetit.
(Evang.)
No 4.°
domingo: Pulchriores sunt oculi eius vino et dentes eius
lacte candidiores (2° Resp.); Videbit omnis caro
salutare Dei. (Evang.) Depois os textos do dia 21-24 de
dezembro.
271.
2) 0 advento é o tempo de preparação para a segunda vinda
de Jesus Cristo como muitos textos o provam, mas
só em segundo lugar. Os hinos nas matinas, laudes e vésperas
mencionam primeiro o nascimento de Jesus, em segundo
lugar o último juízo, do mesmo modo a oração da vigília.
3) Na
Liturgia se encontram continuamente os dois elementos:
da penitência e da alegria.
a) Os
sinais de penitência: no ofício do tempo, não se
canta Te Deum; rezam-se as preces feriais; missa sem
Glória com paramentos roxos, sem órgão, ornato
simples do altar; o diácono e o subdiácono não usam
dalmática nem tunicela (vestimenta laetitiae: Pontif.);
em lugar delas se usa o estolão para o diácono nas
igrejas maiores e as igrejas paroquiais, quanto a
este efeito, são igrejas maiores (d. 3352 ad 7) ; nas
outras o diácono e subdiácono vestem só alva, estola
e manípulo. (Miss. rubr. XIX, 6, 7.)
b) Os
sinais de alegria são: sempre aleluia; o vivo desejo
do Redentor nas antífonas ad laudes nos domingos e na
última semana; as antífonas O ad vésperas; no domingo
Gaudete, em que os paramentos podem ser cor de rosa, é
permitido o órgão e o uso da dalmática e da tunicela.
4) As
regras litúrgicas mencionadas obrigam só nas funções
litúrgicas do tempo, não obrigam porém nem nas festas
nem nas funções extra-litúrgicas, p. ex., devoções e benção.
272.
5. O advento é símbolo do tempo antes do nascimento de Jesus
Cristo. Os suspiros: Rorate, caeli, desuper et nubes
pluant Iustum (Is 45, 8) e numerosas aspirações
distribuídas por todas as partes do ofício e da missa
claramente o provam.
6.
O uso do presépio, antigamente muito espalhado no Brasil,
merece ser preferido ao da árvore de natal, que é ornada
também pelos incrédulos e pagãos modernos.
7. Entre
os sinais de alegria deve-se contar o culto especial da SS.
Virgem, devido a ela como mãe do Menino Deus. Nos
responsórios e antífonas é ela muitas vezes mencionada; a
oração de Beata está prescrita como comemoração
comum, e em muitos lugares cantam-se as missas: Rorate.
Durante o tempo do advento ocorrem duas festas solenes com
suas oitavas.
273.
a. Imaculada Conceição, a 8 de dezembro, em honra de
Maria, concebida sem pecado.
Os
primeiros vestígios desta festa encontram-se no Oriente em
meados do século VIII, no Ocidente no século IX; em Nápoles,
na Inglaterra pelo ano 1100 já se encontra com o nome de
"Conceição da B. V. Maria". Espalhou-se
rapidamente. Sixto V, O. F. M. a introduziu no calendário
romano, Clemente IX (+ 1670) acrescentou a oitava, Pio IX
com imenso júbilo de todos os fiéis definiu em 1854 o
dogma da Imaculada Conceição e elevou a festa a dia santo de
guarda.
274.
b. Nossa Senhora de Guadalupe, no México, padroeira
da América Latina, a 12 de dezembro; antigamente a 26 de
fevereiro.
Em 1531
Maria SS. apareceu a um índio mexicano, João Diogo, e o
encarregou de pedir ao bispo que mandasse construir um
santuário em honra dela. Como o prelado desejasse uma prova
da veracidade da mensagem, Maria Santíssima apareceu a Diogo
outra vez, entregando-lhe rosas lindíssimas, apesar do
inverno, tempo em que não havia flores. Na capa, em que as
levou ao bispo, apareceu pintada a imagem da Mãe de Deus tal
qual Diogo a tinha visto. Foi prova suficiente para se
reconhecer que a mensagem era genuína. Erigiu-se um templo
magnífico.
§ 68. FESTA DO NATAL
De beleza
e encanto admirável são as festas da igreja e merecem ser
tratadas com esmerado cuidado. Com razão diz S. João
Crisóstomo (In s. bapt. Salvat. MG 49 p. 365): "Muitos
celebram as festas e conhecem os seus nomes, mas ignoram a
sua origem histórica e ocasional. Merece isto a censura de
proceder muito vergonhoso e ridículo."
1. O
centro do ciclo do natal é a festa do nascimento de N. S.
Jesus Cristo junto com a epifania, na qual antigamente, por
algum tempo, foi comemorado o dia natalício do Redentor.
275.
Nenhuma festa do natal
era
conhecida
nos 3
primeiros séculos.
Concluímos este fato do silêncio dos escritores daqueles
tempos,
que, enumerando os dias da festa, mencionam
só o
domingo, a páscoa e o pentecostes, p. ex., Tertuliano
e
Orígenes. Este último até afirma que somente os ímpios,
como os
Faraós e Herodes, celebravam o dia do seu nascimento.
O
concílio de Nicéia não faz menção da festa do
natal.
Eusébio também não fala dela. Arnóbio (por volta
de 300,
Advers. gentes I c. 34; ML 5 p. 758) ria-se dos pagãos,
porque
celebravam o nascimento dos deuses. Em tal
atmosfera
a festa do natal era impossível.
2. Pela
primeira vez
é
mencionada no dia 25 de dezembro
no ano de
354 em Roma, no catálogo das festas, chamado:
Depositio Martyrum,
com a
rubrica "VIII Kal. Ianuarü
natus Christus in Betleem ludeae."
Mas, há razões suficientes
para
supor que já no ano de 336 a festa foi celebrada
neste
dia. De Roma ela se estendeu rapidamente pela
Itália,
região de Antioquia, Capadócia, Constantinopla, Jerusalém,
Egito e
Armênia.
276.
3. A data de 25 de dezembro
não é
o dia natalício
de Jesus
Cristo, como todos o admitem. Clemente de Alexandria (Strom.
I, 145) refere que uns o celebravam no dia 19 ou 20 de
abril, outros em 20 de maio; outros preferiam o dia 28 de
março ou a festa da epifania. Em Roma foi fixado para o dia
25 de dezembro. Quais fossem as razões de escolher este dia,
não as sabemos.
a)
Explicação levítica.
Alguns
autores quiseram aproveitar o s. evangelho, Lc 1, 5-8. Ali
se diz que Zacarias era da tribo de Abia. As 24 tribos
revezavam-se no serviço do templo numa ordem constante.
Partindo, portanto, ou do princípio do serviço sacerdotal no
novo templo ou do fim na destruição de Jerusalém e
atribuindo á tribo Joiaribe, por certas razões, o primeiro
lugar, calcula-se o tempo do nascimento de Nosso Senhor. Mas
em vão. Pois todo o cálculo carece de fundamentos sólidos.
b)
A explicação simbólica.
Foi
outrora opinião que Nosso Senhor morreu no dia 25 de março.
Conforme o simbolismo dos números deveria também ser
concebido no dia 25 de março e por conseguinte nascer no dia
25 de dezembro. Deve-se respeitar a habilidade de combinação
do autor. Mas não se entende como uma idéia artificial possa
produzir uma lesta litúrgica. Nem a base é sólida.
277.
c)
A
explicação histórica.
Foi
indicada já por Petavius (+ 1652), e é sentença comum.
Consiste na substituição da festa pagã do sol natural
pela festa cristã do Sol divino, Jesus Cristo. A
base certa desta explicação é a festa pagã do sol invencível
(solis
invicti).
Atesta-nos esta festa:
a) O
calendário de Filócalo do ano 354 com a rubrica:
"VIII
Kal. Jan. N (atalis) invicti (Solis)."
b) O
calendário do astrólogo Antioco do ano c. 200;
c) As
festas celebradas no fim do ano pelo imperador Juliano em
honra do
Sol
invictos.
d) Desta
festa fala S. Agostinho (s. 190 in Nat. D.), mui
provavelmente, dizendo: "Celebremos este dia não como
os infiéis por causa deste sol, mas por causa daquele que
fez este sol."
278.
Esta festa pagã, dedicada a Mitras, deus benfazejo, deus da
luz, foi substituída pela festa cristã do natal de Nosso
Senhor. Conforme a lenda pagã este deus da luz, sol
invictos, nasceu à meia noite de 24 para 25 de dezembro,
saindo de uma pedra. Foi adorado pelos pastores
(circunstância provavelmente tirada do sto. evangelho).
Adulto, venceu o touro inimigo, e, por causa disto, era o
deus preferido pelos soldados (Dict. Arch. Mitras) e
celebrado principalmente pelos imperadores no fim do século
III.
O próprio
Constantino, ainda pagão, mandou cunhar uma moeda com a
inscrição: Soli invicto comiti (Pauly, Mitras),
indicando que os imperadores se consideravam como deuses. O
culto de Mitras era geral em todo o império romano desde a
Inglaterra até à África e à Pérsia, como provam os numerosos
santuários de Mitras encontrados nas escavações.
O
progresso do cristianismo, o seu triunfo sob o domínio de um
imperador cristão era incompatível com o sincretismo
cultivado por muitas pessoas até então. Urgia uma decisão.
Abolir a festa do
sot
invictos,
que era
festa do imperador, era impossível.
Portanto,
os cristãos a transformaram numa festa litúrgica, método
este que foi também aplicado em outras festas. Ficaram com o
dia, eliminaram o Mitras e consagraram a festa ao nascimento
de Nosso Senhor, no qual se verificam eminentemente todas as
qualidades atraentes, que os pagãos atribuíam ao seu ídolo
Mitras. Pois, Jesus Cristo é a verdadeira luz dos
crentes, o Sol de justiça, nasceu da Virgem e foi adorado
pelos pastores.
279.
Também contribuiu para esta substituição a figura do pequeno
Mitras. Um altar pagão achado recentemente em Treves
representa o nascimento deste deus da luz. É surpreendente a
sua semelhança com o Menino Jesus, como se vê pela
comparação da figura de Mitras com o do Menino Jesus, obra
moderna. Todas estas circunstâncias lembravam o Menino Deus.
As autoridades acharam nisto um estímulo para proceder à
mudança, os cristãos, convertidos do paganismo, não tinham
dificuldade em aceitá-la. Pois o dia 25 de dezembro
conservava-se para o nascimento de Deus, não já de um Deus
imaginário, mas do Deus vivo. Assim o dia 25 de dezembro não
só não perdeu nada do seu brilho, mas foi enriquecido com
nova glória. (Holzmeister, Cronologia, p. 39.)
A festa
cristã foi o golpe de morte para Mitras, cujo culto decaiu
rapidamente, e um novo triunfo do Menino Jesus, tão
combatido pelos idólatras de Mitras. O mérito desta reforma
cabe ao Papa Silvestre (314-335). Pois com boa razão se
afirma que a festa do natal já existia no ano de 336. (Dict.
d'arch. XII p. 912.) Júlio I reinou de 337-352. Por
conseguinte não foi ele que introduziu esta festa, mas
Silvestre, homem enérgico e reformador da Liturgia.
A lenda
de Mitras tem o seu fundamento no solstício do inverno, a
partir do qual o sol outra vez se levanta no hemisfério do
norte. Chamar isto nascimento também é conforme ao nosso
modo de falar: Nasce o sol todos os dias.
280.
4.
Privilégios.
1) A
recitação solene do martirológio.
2) As
três missas já em uso antes do século VI. Têm elas a sua
origem em circunstâncias locais de Roma (Braun s. v.) e
simbolizam, conforme explicação posterior, o nascimento de
Jesus Cristo do Pai, o seu nascimento temporal da Mãe, o
nascimento místico nas almas. Por causa das 3 missas
(Liturgias) o dia do natal é dia polilitúrgico.
A
primeira missa (a "missa do galo" porque é rezada quando o
galo canta pela primeira vez) não pode começar antes de
meia-noite. Deve ser missa paroquial (cân. 821, § 2),
portanto não privada, mas celebrada com assistência dos
paroquianos. Nas casas religiosas e pias, um sacerdote pode
dizer as três missas (1. c. 3) com as portas abertas a
pessoas estranhas, segundo a interpretação de vários
autores. (REB, 1942, p. 1002.) Durante (intra missam)
todas as missas se pode distribuir a comunhão. (C. B. 224;
Pont. C. Cod. 16.III.36.)
A segunda
missa antigamente era rezada na igreja de S. Anastácia. Pio
V a substituiu por uma missa em honra de Jesus Cristo, mas
prescreveu da comemoração da santa.
O
sacerdote que diz só uma missa, tome a primeira, se celebra
de noite; a segunda, se de manhã; a terceira, se depois de
nascer do sol. (d. 3354.)
A missa
do galo foi introduzida provavelmente para igualar a festa
de natal à solenidade da páscoa com vigília e missa noturna.
Talvez influísse o costume de Jerusalém. Não remontará além
do séc. IV.
§ 69. A OITAVA DO NATAL
281.
1. A oitava do natal admite a celebração de festas de
santos: de S. Estevão, S. João Evangelista, Ss.
Inocentes, S. Tomás Becket, S. Silvestre. Fora de S. Tomás
(I- 1170) nenhum é celebrado no dia histórico da sua morte.
As festas, porém, são antigas: as de S. Estevão e S. João do
séc. IV, a dos Inocentes do séc. V, a de S. Silvestre ao
menos do séc. VII, talvez mesmo do séc. V ou IV.
As razões
por que a estes santos foram reservados os dias imediatos ao
natal de Cristo, eram, como parece, litúrgicas. A festa do
natal é o inicio e o fundamento das outras festas solenes,
diz S. João Crisóstomo. Por isso pareceu conveniente que
fosse destacada por uma coroa de santos, dos mais célebres,
dignos representantes da Igreja. Realmente, S. Gregório
Nisseno (+ 394) contemporâneo da introdução da festa do
natal a 25 de dezembro no Oriente, menciona no dia 26 S.
Estevão, a 27 S. Pedro, João e Tiago, como representantes de
todos os apóstolos, a 28 S. Paulo, logo os mais insignes
santos da primitiva igreja. As únicas testemunhas da antiga
série são S. João e S. Estevão, talvez, diz Beletho (c. 70),
porque nestes dias foi consagrada uma igreja em honra deles.
Durandus (VII, c.
42, n. 2)
aduz razões místicas. Seguindo a S. Bernardo, chama a S.
Estevão, S. João e aos Ss. Inocentes companheiros de Cristo.
O divino
Redentor, diz ele, quer ser acompanhado de mártires de toda
espécie: um mártir de desejo, S. João; outros só de fato, os
Inocentes; quia non
loquendo, sed moriendo Christum confessi stint (Brev.);
e um mártir de desejo e de fato: S. Estevão. O dia 31 de
dezembro é consagrado ao papa S. Silvestre, provavelmente
porque prescreveu o dia 25 de dezembro para a festa de natal
e mereceu assim ser comemorado durante a oitava. Mas a sua
festa não é feriada, porque a aplicação da missa pelo povo
não foi prescrita pela Igreja em honra de S. Silvestre, mas
em agradecimento dos benefícios recebidos durante o ano que
finda.
282.
2. A
festa
dos Inocentes
tem
caráter de luto, indicado pelos paramentos roxos, porque não
entraram no céu e sim no limbo. Mas já Durandus rejeita esta
explicação. (VII, e. 42, n. 11.) Adverte que S. João Batista
também não entrou logo na glória e, contudo, a festa dele
tem cor branca,
Gloria
e
Te
Deram.
Por
conseguinte, à razão verdadeira deve ser outra. É o luto das
mães aflitas. "Vox in Rama audita est, ploratus et ululatus
multus" (Evangelho do dia). No oitavo dia, porém, ou se cair
no domingo ou for do rito de primeira classe, a festa é
celebrada com os sinais de alegria e cor vermelha. Pois o
domingo é dia de ressurreição e o número oito símbolo da
perfeição, obtida pela glorificação celestial é
a
futura ressurreição. (Beletho c. 70.)
283. 3. A circuncisão de Nosso Senhor,
a 1.° de janeiro. No oitavo dia depois do nascimento, o
Menino Deus foi circuncidado. A festa encontra-se primeiro
na Gália (567), na Espanha, no séc. VII, em Roma, não antes
do séc. IX, sendo celebrado só o oitavo dia de natal. Foi
introduzida:
1) Contra
os abusos dos saturnais, festas licenciosas pagãs. É
mencionada no sínodo de Tours (567) ;
2) Para
santificar o começo do ano civil por uma festa cristã,
substituindo-se o ídolo Jano (fama), deus da entrada
do novo ano, por Jesus Cristo, a única "porta" (ianua)
da felicidade;
3) Para
encerrar a oitava de natal;
4) Para
honrar a Maria Santíssima, dever de gratidão, porque nos deu
o Redentor do mundo. Das Liturgias orientais, a grega,
siríaca e jacobitica logo no dia 26 de dez. celebram a festa
de Nossa Senhora.
(Nilles, Kal. man. 1, 366; 466; II, 700; Stim. d. Z.
1904, p. 554.) No calendário romano ainda no séc. XII, além
da missa da oitava, neste dia havia uma em honra da Mãe de
Deus. (Beletho, c. 71.) Esta é a razão por que o ofício
atual se compõe de elementos das festas da oitava, da
circuncisão e de Maria Santíssima. Na circuncisão o Menino
recebeu o nome. Por isso, a festa do SS. Nome de Jesus,
concedida em 1530 aos Franciscanos e prescrita em 1721 para
a Igreja universal, celebra-se no domingo que cai no dia 2,
3 ou 4 de janeiro, conforme as rubricas.
§ 70. A FESTA DA EPIFANIA
284. 1. A
epifania
(apparitio;
Dia de
Reis) é urna
festa
coletiva
dos três
milagres: "hoje a estrela conduziu os magos
ao
presépio, hoje nas bodas a água se tornou vinho, hoje
Cristo
quis ser batizado por João no Jordão para nos salvar."
(Ant. de
Magnif.) Jesus, portanto, apareceu como Deus aos
magos
pagãos, aos apóstolos em Caná e ao povo israelita
no
Jordão.
2. No
Oriente.
Epifania
era a festa do nascimento de Jesus Cristo, mas só depois do
ano 300 (Holzmeister, p. 40), e do seu batismo. Depois foi
acrescentado o milagre de Caná.
No
Ocidente
também se
comemorava neste dia o nascimento do Redentor, ao menos em
um ou outro lugar, não em Roma. As palavras do prefácio e do
communicantes
da
epifania:
in
substantia nostrce mortalitatis apparuit
ou
corporalis apparuit,
não provam que em Roma a epifania era a festa do nascimento
de Jesus Cristo, nem pela suposta antiguidade, por serem
relativamente recentes, nem pela prioridade da composição,
por serem em parte tomadas da festa do natal e suporem a
existência desta festa. (LThK X, 777.) Mas, desde que o dia
25 de dezembro foi admitido como dia fixo do natal, o objeto
principal da epifania é a adoração do Menino Deus pelos
magos e a vocação dos pagãos á Igreja.
O
dia da festa é a data de 6 de janeiro, tanto no
Oriente como no Ocidente. Tem o seu fundamento na tradição
dos basilidianos, seita gnóstica do princípio do II século.
Que esta tradição mereça toda a confiança, não é certo. Ao
menos toda a Igreja grega aceitou-a como verdadeira. (Holzmeister,
Chron., p. 104.) A vigília aparece pelos fins tio século
VII, a oitava no século VIII.
Epifania
era um
termo conhecido entre os pagãos e significava a aparição do
deus Apolo. Como termo cristão, (Diet. d'Arch. V, 199),
epifania
(ta
epifania,
neutr.
pl.)
é
termo técnico e significa na teologia grega a incarnação do
Filho de Deus, junto com o nascimento. A comemoração dos
três mistérios da festa: adoração dos magos, bodas de Cana e
o batismo de Jesus Cristo talvez seria ocasionada por
costumes e festas dos pagãos, entre os quais os cristãos
viviam. Celebravam-se neste dia. Mas a comemoração cristã
não é cópia delas nem tem a mesma raiz que elas.
a)
Adoração dos magos. Está em relação com a festa do
nascimento de Jesus Cristo. A festa do natal no Oriente
provavelmente está ocasionada pela festa pagã do equinócio
do inverno, na qual os pagãos celebravam o nascimento do
deus pagão Mon (sol), já multo tempo antes de Cristo. Disso
nos fala Epifánio (séc. IV) dizendo que em a noite de 5 para
6 de janeiro, segundo o calendário juliano, os pagãos
levavam uma criança pelo interior do templo com a
exclamação: "a virgem deu à luz o aion." Um outro escritor
posterior (cuja notícia foi confirmada, Diet. d'Arch. XII,
p. 912) diz que isto se fazia no dia 24 para 25 de dezembro
e que se gritava: "cresce a luz".
A
solução da diferença das duas datas está no fenômeno
astronômico da precessão do sol. O ponto equinocial se muda
devagar continuamente. Em Alexandria atenderam na mudança e
celebravam o nascimento do aion no dia 25 de dezembro. Nos
outros lugares não sabiam nada da mudança do equinócio e
continuavam a festejar o dia 6 de janeiro, ou melhor a noite
de 5 para 6 de janeiro. Havia portanto no dia 6 de janeiro
uma festa pagã do nascimento de um deus, cujo nome variava:
Aion, Dionisio, Osiris, Dusares.
Para
contrabalançar esta festa pagã os cristãos do Oriente
celebravam a festa do Natal de Jesus Cristo, mas só depois
do ano 300 mais ou menos. Quando em Roma a festa do natal
foi fixada para o dia 25 de dezembro e a data romana era
observada também no Oriente, para a festa da epifania restou
do mistério de Belém só a adoração dos magos, e com eles a
vocação dos gentios para o reino do Messias.
b) As
bodas de Caná. No dia 5 para 6 de janeiro, conforme Epifânio
relata, o povo pagão em muitos lugares celebrava a festa do
nascimento do deus Dionisio. Era crença geral que neste dia
a água tirada de fontes se transformava em vinho. Os
sacerdotes pagãos por maquinismos artificiais sabiam imitar
tais transformações. Em várias igrejas do Oriente, os fiéis
neste dia tiravam água de poços e fontes, e mais tarde de
rios, atribuindo-lhe forças milagrosas, conservando os
costumes populares e sugestionados pelos pagãos. Para
sobrepujar a festa pagã, aproveitar a idéia da água feita
vinho e desviar a fantasia popular dos ídolos para o
Redentor, a igreja celebrou o milagre histórico de Caná, em
que se tirou água (de uma fonte e se converteu em vinho.
Assim se explica o segundo elemento da Epifania.
c)
Batismo de Cristo no Jordão. A Epifania, celebrada no dia 6
de Janeiro era a festa da aparição de Jesus Cristo em carne
pelo nascimento corporal. Mas esta palavra significa também
a aparição na glória, como aquela no batismo do Jordão, em
que Ele revelou o seu nascimento eterno do Pai celeste. A
idéia da água e do rio por outros motivos também no ligara a
esta festa. Os basilidianos celebravam neste dia
exclusivamente o batismo no Jordão. E assim se explica o
terceiro mistério da resta cristã da Epifania. Em Jerusalém
se explicava a reunião dos dois mistérios do nascimento e do
batismo de Jesus Cristo no mesmo dia, pelas palavras da
Sagrada Escritura, que no momento do batismo o Redentor
"começou a entrar no seu 30° “ano de idade" (Lc 3, 23);
celebrou portanto aproximadamente o aniversário do seu
nascimento. (Diet. d'arch. V p. 199.)
Qual
destes três elementos foi o primeiro a ocasionar a festa não
é certo. Provavelmente foi o batismo, como parece constar
pelo uso dos basilidianos. O segundo elemento foi o
nascimento de Cristo; o qual substituiu o nascimento de Aion.
O terceiro elemento foi a adoração dos magos, ocasionada
pela fixação do natal para o dia 25 de dezembro na igreja
romana.
(Stimm d. Z. 1939, p. 207-225.)
285.
3. Por que se omite nas Matinas:
Domine, labia mea,
o
invitatório e o hino e se começa logo pelo salmo do 1.°
Noturno?
Durandus (VI c. 16,
n.° 8-9)
responde que em algumas
igrejas se tem este costume, para indicar a prontidão,
com que
os pagãos vieram, quando a estrela apareceu. O invitatório
não se
diz, porque os pagãos não foram convidados,
por um profeta falante, mas por uma estrela aluda,
envergonhando
os que
ouvem pregadores e são vagarosos para
crer e
adorar Nosso Senhor.
Esta
interpretação é mística. A razão histórica parece
ser o
costume antigo de que fala Amalário de Metz:
"nostra regio in pr es senti
officio solita est unum omittere de consuelo more id est
invitatórium. Invitatorius est psalmus Venite exultemos
Domino."
(ML 105
c. 21 p. 1275.) Omitir no início
o sl.
Venite
é antigo
costume galicano e remonta com a
liturgia
galicana até ao séc. V ou IV.
A
antiguidade deste costume é comprovada:
a) pelo
modo antigo da construção do oficio, prescrevendo os sl. 94,
95, 96 com números seguidos;
b) pelas
diferentes traduções do sl. Venite, usadas uma por S.
Bento no início do ofício, outra no terceiro noturno antes
de S. Bento tomada do saltério galicano;
c) pela
colocação do sl. Venite no início do ofício, só
prescrita por S. Bento e não antes;
d) pela
forma do ofício da oitava com o sl. Venite no início,
introduzido no século
VIII;
e) pelo
teor do invitatório festivo do ofício do dia 6 de janeiro:
Venite adoremus eum
guia ipse est Dominus
Deus nosier
próprio para uma festa em que se veneram os dois
mistérios do natal e da epifania, como existia na Gália no
séc. IV, ao passo que nos ofícios posteriores se distinguem
as duas festas: Christus natus est nobis; Christus
apparuit nobis. O oficio do dia 6 de janeiro é o único
de estrutura antiga conservado na Igreja. O invitatório é
próprio dele e guarda ainda o nome: "antífona", de que fala
S. Bento na sua regra, usando "antífona" em lugar de
invitatório!
O
Sl. 94
com o invitatório era cantado no terceiro noturno
provavelmente por causa do povo, que na festa da epifania
assistia ao ofício noturno
(Ordo rom. XI; ML 78 p. 1035),
mas só do terceiro noturno em diante. Assim o Sl. 94 servia
de convite solene ao povo para tomar parte nas funções
sagradas. Semelhante costume se conserva até hoje na festa
de natal nas regiões de influência galicana. Canta-se o "Venite
exsultemus" e o terceiro noturno e segue-se a missa de galo.
Em algumas regiões na epifania o sl. "Venite" não se rezava
no 7. 0 lugar no início do terceiro noturno, mas no fim do
segundo, no 8° lugar.
(Beletho c. 73.)
É posição incompreensível para um salmo tão solene de
convite, mas muito natural considerando a entrada sucessiva
do povo na igreja no fim do segundo noturno, a fim de
assistir ao terceiro noturno e às demais funções. O salmo de
convite satisfaz neste caso perfeitamente ao seu fim.
O número
dos magos nos antigos autores varia entre 3 e 12. Mas desde
Leão Magno o número 3 é tradicional. Os nomes aparecem no
séc. XI e são pura invenção.
286. 4. Funções especiais
da epifania são a publicação solene das festas móveis, prescrita no
Crer. Episcoporum e antigamente necessária por causa da
dificuldade de calcular á data da páscoa; e algumas bênçãos
de água (lembrança do batismo), de ouro, incenso, mirra e
giz, e a incensação das casas. Os párocos todos os anos na
festa da epifania anunciem ao povo as festas móveis segundo
a fórmula publicada na folhinha brasileira. (C. B. n. 360 §
1.) Nesta mesma festa ou em outra determinada pelo ordinário
do lugar, os curas d'almas, depois do sermão sobre a
fidelidade em guardar o grande dom da fé, recitem junto com
o povo em língua vulgar o símbolo apostólico e renovem os
votos batismais. Todos os domingos e nas outras festas de
guarda, antes da missa paroquial ou antes da catequese dos
adultos, recitem junto com o povo com voz clara e distinta
os atos de fé, esperança e caridade e de contrição. (C. B.
n. 472.)
287. 5.
Desde 1921, a festa da Sagrada Família, instituída
por Leão XIII, foi prescrita para o domingo na oitava da
epifania. A festa tem importância muito atual por ser a família
cristã ameaçada de ruiva pelo bolchevismo.
§ 71. PURIFICAÇÃO DE MARIA SS.
288. 1.
40 dias depois do natal, em 2 de fevereiro, celebra-se
a festa da purificação de Maria. (Nossa Senhora
das
Candeias, da Luz, lumen gentium, dos Navegantes stella maris,
da
Candelária.)
É festa do Senhor por ser a comemoração
da
apresentação do Menino Jesus no templo, de encontro
com o santo velho Simeão.
(Occursus Domini, ypapanté.)
Os seus
primeiros vestígios remontam até ao IV século.
Em Jerusalém foi festa soleníssima, igual à páscoa,
com
procissão, sermão e missa
(Etéria). Em Constantinopla foi
introduzida antes de 518, em Roma, no século VI-VII.
2.
Em Roma a procissão substituiu uma procissão pagã
de lustração: amburbale
(in ambitu urbis), um
fato, que antigos autores afirmam. "Quam
solemnitatem transtulimus in llr,norem Beata Virginis." (Serm.
Corb. X séc.)
Mais recente
é
a
distribuição das velas. A procissão fazia-se antigamente
com paramentos pretos, agora com paramentos roxos,
e não se transfere para outro dia,
caso a festa da purificação
deva ser celebrada mais tarde.
A razão
mais profunda da introdução desta festa é provavelmente um
antigo costume romano baseado nos Sentimentos de piedade e
medo. Pois sendo fevereiro o último mês de então estava
consagrado ao culto dos mortos com a festa de parentalia.
(Pauly VI, 2056
sq.)
Portanto honravam os mortos, mas também como autores de
males os temiam. Para se defender contra os males, a morte e
o influxo de poderes invisíveis, as doenças, mormente a
peste, a esterilidade
(Geiásio I, 492-496; ep.
contra Androm. ML 59, p. 110), era preciso purificar-se. Por ser este mês destinado à
purificação, foi chamado februarius, nome este
derivado de februare, que significa purificar.
A
purificação se fazia todos os anos nos lupercalia
no
dia 15 de fevereiro e no amburbalia, no princípio
deste mês. Nos lapercalia os sacerdotes pagãos e
outros indivíduos passavam pela cidade batendo nas pessoas
com quem se encontravam, homens e mulheres para expelir o
"mal". Nos amburbalia os participantes
(Pauly, I, p. 1817) levavam fachos ardentes, aproveitando
o
poder purificador do fogo e da luz. No fundo o dia da
purificação foi uma lesta sanitária popular da primavera.
(Cf. n. 101.)
Quando os
cristãos começaram a celebrar o natal de Jesus Cristo, o
costume pagão da purificação devia chamar a sua atenção para
a purificação da ilibada Mãe de Deus, este mistério tão
simpático, que coincidiu com a festa pagã e era muito
própria para substituí-la. Celebraram-na no dia 14, depois
no dia 2
de
fevereiro já que se celebrava o natal no dia 6 de janeiro,
ou 25 de dezembro.
O costume
pagão romano facilmente se tornou conhecido no Oriente pelos
muitos romanos que lá se achavam como magistrados, soldados
ou romeiros e podia assim ocasionar a festa da purificação.
Para os cristãos o mal se condensou no demônio e no pecado,
que se deve expulsar pela penitência.
Este
é
o fundamento provável da procissão da penitência em Roma. No
Oriente a procissão tomou um caráter festivo. A festa
portanto parece ter substituído uma festa pagã. Quando se
celebrou a festa da purificação de Maria Virgem no dia 2 de
fevereiro, o dia dos parentalia era livre para a
festa de S. Pedro, que substituiu esta festa pagã.
(Cf. 438.)
Na
vida de S. Teodósio (séc. VI) conta-se que no tempo do
imperador Marciano (450-457) a matrona romana Hiquélia deu a
idéia de se levarem na procissão do dia 2 de fevereiro velas
acesas em comemoração das palavras de Simeão: "luz
para a iluminação dos gentios."
(Stapper, Lit. p. 300.)
Esta notícia parece confirmar a explicação acima dada sobre
a origem da festa. Pois foi uma romana que teve a idéia das
velas acesas, provavelmente porque tinha visto a mesma coisa
em Roma. Gueranger cita em favor desta explicação
(III, p. 519)
Bento XIV, Menard, Rocca, Henschenius.
§ 72. A BÊNÇÃO DAS VELAS, DA CINZA
E DOS RAMOS EM GERAL
289.
Observações.
1.
Nestas três funções deve dar a bênção
o
mesmo sacerdote que celebra a Missa (d. 2783 ad 2), com exceção do
bispo. O cruciferário revestido de tunicela ou casula
dobrada, conforme a cerimônia, deve ser diferente do
subdiácono da missa, e deve levar a cruz no dia da
Purificação, domingo de Ramos, quinta e sexta-feira santa.
No dia de finados leva-o o subdiácono da missa.
(d. 2642 ad 1.)
2. Paramentos:
a) Para o
cel. amito, alva, cordão, estola roxa (cruzada por cima da
alva), pluvial roxo, se houver (e não casula), sem manípulo
(Rub. Miss. XIX, n.
4)
;
b) para o
D e o S amito, alva, sem manípulo; para o diácono estola
roxa, sem dalmática nem tunicela, mas
in
ecclesiis
maioribus
(p. ex.,
igrejas catedrais e colegiadas)
planeta
plicata (i. e,
uma
casula com a extremidade dobrada na parte anterior).
3.
O C conserva sempre as mãos juntas ao
Dominus vobiscum,
Oremus,
orações,
fazendo inclinação à cruz nas palavras que a exigem. Quando
a rubrica o mandar, faz o sinal da cruz sobre os objetos a
benzer, pousando a mão esquerda sobre o altar.
290. 4.
Se as funções se fazem com canto, todas as orações
terminadas com conclusão longa têm o
tonos
ferialis,
as de
conclusão curta têm o de versículo.
5.
Ao incenso diz-se a fórmula costumada:
Ab
illo benedicaris,
borrifa-se com as palavras:
Asperges me Domine
hyssopo et mundabor, lavabis me et super nivem dealbabor,
sem salmo nem
Gloria
Patri (Miss. et Rit.)
A
aspersão e a incensação em todas as circunstâncias
semelhantes se fazem em forma de cruz, i. é, primeiro no
meio, depois do lado da mão esquerda, e por fim da direita.
6.
No altar acendem-se mais de duas velas.
7.
As
funções
solenes
com D e S, conforme o missal e o
Caer.
Ep.,
são
obrigatórias nas igrejas catedrais, colegiadas, paroquiais
ou filiais que têm o número suficiente de ministros sacros.
Nas igrejas paroquiais, onde estes faltam, usa-se o
cerimonial simples: com clérigos ou ajudantes. (d. 2970 ad
5; 4049 ad 1.) Valem estas disposições também para o tríduo
sacro da semana santa.
291. 8.
Para as igrejas não paroquiais, deve-se distinguir entre as
bênçãos e as funções da semana santa. As ditas bênçãos são
lícitas sem licenças especiais por toda parte (d. 2123 ad
5), com cerimonial solene, se houver D e S (d. 3697 ad 17) ;
do contrário, com cerimonial simples. As funções da semana
santa com cerimonial solene pôde permiti-las o bispo (e para
as ordens religiosas provavelmente o superior maior) sob
duas condições:
1. que na
igreja se conserve o SS. Sacramento;
2. que as
funções não coincidam com as funções paroquiais e assim os
fiéis possam assistir as funções na matriz.
(Ver n. 323, 5.)
As
funções da semana santa com cerimonial simples nas igrejas
não paroquiais exigem um indulto da S. Congregação dos
Ritos. (d. 4049 ad
1.)
9.
O canto nas funções com cerimonial simples é permitido, de
sorte que a paixão se possa ler e a parte depois de
Munda cor
cantar no
tom do evangelho. (d. 4031 ad 2.) A mesma liberdade se tem
em outras partes das funções, contanto que haja ao menos
dois cantores aptos.
(Mem. Rit.)
§ 73. A BÊNÇÃO DAS VELAS
292. 1.
Preparativos.
a) Junto
do altar, do lado da epístola, mesa com as velas. Sendo
preciso, os leigos podem ter nas mãos as velas a benzer. No
altar, se for possível, não se põem flores, senão depois da
procissão.
b) Sobre
a credencia, fora do que é necessário para a missa, põe-se
água benta com hissope, bacia, jarro com água e toalha para
o C.
c) Na
sacristia, os paramentos supra-indicados.
A
BÊNÇÃO SOLENE
293. 1.
O
C, ao aceno do M. d. C., precedido dos ministros ou entre
eles (neste caso seguram o pluvial), vai ao altar. Depois
da
genuflexão, o D e o S sobem com o C para o altar. O C beija
o altar no meio e vai para diante do missal. O D e o S
colocam-se à direita e à esquerda do C. É este o seu lugar
em todas as funções. Quando o C levanta a mão para benzer, o
D ergue-lhe o pluvial. Terminada a quinta oração, o D
ministra o incenso, o qual o C põe no turíbulo e benze
segundo o costume. O D oferece ao C o hissope com os devidos
ósculos. O C asperge as velas e, tendo recebido o turíbulo,
as incensa. Se o C fizer uma breve instrução sobre o rito
desta bênção, poderá sentar-se num mocho no supedâneo do
lado do evangelho.
Sentido da cerimônia.
O clero e
o povo toma devotamente a vela para associar-se à procissão
em honra de Deus e de Maria, Virgem Mãe, para receber as
chamas da caridade, o fogo do Espírito Santo, o próprio
Cristo Rei (suscipe regem Christum) no símbolo da
luz, e a saúde do corpo e da alma pela misericórdia divina e
a intercessão da Mãe de Deus.
(Orat. in bened. candel.)
294. 2.
Distribuição.
O C e os
MM vão ao meio do altar e, sem inclinação ao altar,
voltam-se para o povo. O D entrega a vela destinada ao C ao
mais digno do clero, o qual a beija e, de pé, sem beijar a
mão, sem estola (d. 2148 ad 5) a entrega ao C, que fica de
pé e beija a vela. O C a entrega ao D e recebe do D uma
outra que entrega ao dignior. Este a recebe (se não
for cônego) ajoelhado no bordo do supedâneo, beijando
primeiro a vela, depois a mão do C. (d. 2148 ad 5.) O D não
pode entregar a vela ao C. Não estando portanto presente
fora dos MM outro sacerdote, o D pousa a vela apagada em
cima do altar. O C, de joelhos no meio do altar, a tira,
beija e entrega ao D. Em seguida recebem as velas os MM,
ajoelhados no bordo
do
supedâneo,
beijando
primeiro a vela, depois a mão do C. Entregam a vela aos AAc
e sobem para os seus lugares, onde o D passa as velas ao C,
e o S, à direita, sustenta o pluvial. A distribuição
principia sempre do lado da epístola.
295.
Para receber as velas os clérigos vêm dois a dois
(Cu'r.
Ep.
II,
17
n.°
2; 3), ajoelham-se no bordo do supedâneo, beijando primeiro
a vela, depois a mão do C. O povo recebe as velas na
balaustrada do mesmo modo. As velas pedem ser distribuídas
acesas ou apagadas. Assim que o C recebe a vela, os cantores
entoam a antífona: Lumen, etc., que é continuada pelo
coro. Depois da distribuição o C lava as mãos no supedâneo,
se distribuiu as velas só no altar; se não, diante dos
degraus no lado da epístola. Os
MM
erguem o pluvial. O C sobe entre o D e o
vai para o lado da epístola e reza a antífona e a oração Se fôr
depois da setuagésima, mas não num domingo,
MM,
tomando a posição da oração por detrás do C cantam
Electamus; Levate.
296. 3.
Procissão. Ainda no lado da epístola (d. 4198 ad
I
),
u C põe o incenso no turíbulo. O S vai receber a cruz da
procissão (o crucifixo olha para onde o S olha) e coloca-se
no
meio dos AAc em frente do altar. O D entrega a vela acesa ao
C com ósculos, pega na sua, pousa a mão esquerda
no
peito, volta-se para o povo e canta no tom de versículo:
Procedamos in pace. O coro responde: In nomine
Christi,
imen.
O C e o D
descem ao fundo dos degraus, fazem
genuflexão
e põem o barrete. A procissão põe-se em marcha. Na frente
vai o turiferário, em seguida o S acompanhado de leis Ac com
castiçais, o clero, no último lugar o C e o D (não é preciso
elevar a fimbria do pluvial). Durante a procissão cantam-se
as antífonas do missal.
297.
Ao voltar
a procissão o D entrega a sua vela ao Mestre de cerimônias,
recebe a do C e a entrega ao M. de C.. O S entretanto coloca
a cruz no seu lugar e põe-se à esquerda do C. Todos
genufletem, põem o barrete e vão para
a sacristia
ou feita a genuflexão no degrau, para o banco.
Depois do
canto da epístola, o clero e os fiéis acendem as suas velas.
Logo que o C tem feito o sinal da cruz, às palavras:
Sequentia, etc., recebe a vela com os devidos ósculos.
Depois do evangelho todos apagam as velas. Acendem-nas de
novo ao Sanctus e as conservam acesas até depois da
comunhão, porém só se
a
missa é da purificação.
CERIMONIAL SIMPLES
298. 1. A
bênção das velas.
O C.
paramentado (n. 292), sobe ao altar, beija-o no meio, vai ao
missal e lê as orações todas, conservando sempre, também ao
Oremus, as mãos juntas, e com as inclinações
respectivas à cruz. Enquanto a mão direita benze, a esquerda
pousa no altar. Ao pôr o incenso reza-se: Ab illo,
etc., à aspersão: Asperges, etc., sem salmo. Depois
de incensar, o C. vai ao meio e, de joelhos, toma a vela
colocada no altar por um ajudante, beija-a e entrega-a ao
ajudante, ou se estiver presente um sacerdote, recebe-a
dele, beija-a e entrega-a ao ajudante. Se os cantores
entoam: Lumen, etc., o C. distribui as velas. Se não
houver cantores, o C. depois de entregar a sua vela, vai ao
missal e recita a antífona e o salmo. A distribuição
efetua-se como no cerimonial solene. Antes de ir à
balaustrada, faz inclinação à cruz. Depois de ter lavado as
mãos no supedâneo, se distribuiu as velas, só no altar; se
não, diante dos degraus, recita: Exsurge, etc.
Flectamus genua, etc., só se diz, quando o dia 2 de
fevereiro incidir num dia da semana depois da setuagésima.
299. 2. A
procissão.
Incenso
não há. O C (Mem. Rit. novo) recebe no lado da epístola a
vela, vira-se para o povo e diz ou canta: Procedamus in
pace; respondem os ajudantes: In nomine
Christi. Amen. Na frente vai a
cruz,
depois o C. tendo feito genuflexão no plano, rezando as
antífonas respectivas, com o barrete posto. Todos, menos o
Ac que vai com a cruz, têm velas acesas, levando-as sempre
na mão exterior, portanto, quem vai à esquerda, na esquerda.
A procissão pode-se fazer dentro ou fora da igreja. Depois
da procissão, o C. faz genuflexão ao altar e ajoelhado no
degrau inferior termina as antífonas, entrega a vela ao
ajudante e vai vestir-se para a Missa. Põem-se as flores no
altar. Durante a Missa, os ajudantes têm as velas acesas ao
evangelho e ao Sanctus até à comunhão, porém só se a
Missa é da purificação.
Para a
bênção de S. Brás (03 de fev.), as velas devem-se benzer
segundo o Ritual Romano
(Bened. non reserv. n. 7);
a fórmula prescrita é: Per intercessionem Beati Blasü
Episcopi et Martyris liberei te Deus a mato gutturis
et a quolibet alio mato. In nomine P'atris et Filii
et
Spiritus Sancti. Amen.
(d. 4387
ad
2.) A eniola
é
incarnada.
Pode-se
dar também no próximo domingo seguinte, não só depios
da
missa,
mas durante todo o dia,
com
ou
sem velas acesas.
(S. R. C. Brunen. 3-3-1936.)
Segundo
alguns
autores (Falise, Kieffer, Müller-Umberg) as procissões
no dia
2 de fev. e no domingo de ramos em rigor não estão
prescritas nas
igrejas, onde não
há
obrigação de côro. Com isto concorda a decisão da
I H.
C. (d. 26 ad 9) que tal procissão se possa omitir em
circunstâncias
especiais. Benzer as velas comuns não está prescrito.
Podem-se benzer nas festas da purificação ou fora deste dia
com a fórmula do ritual.
Artigo II. O ciclo pascal
§ 74.
O
TEMPO ANTEQUARESMAL
300.
O mais antigo ciclo do ano eclesiástico é o ciclo pascal.
O
seu centro é a festa da páscoa. Começa no domingo
da
setuagésima e termina no sábado depois de pentecostes.
O tempo antes da páscoa tem o caráter de penitência, que
se
mostra gradualmente, cada vez com mais rigor. Começa
modestamente nos três domingos antequaresmais, aumenta
na quaresma, cresce no tempo da paixão, torna-se mais
intenso
no
domingo de ramos e alcança o auge no tríduo sacro
da
semana santa.
1.
O tempo antequaresmal abrange os domingos da
septuagésima, sexagésima e qüinquagésima. Setuagésima é
propriamente o dia setuagésimo; mas designa também toda a
época de 70 dias. Dominica in septuagésima (Missal)
significa o primeiro domingo na época de 70 dias. No rito
grego são realmente 10 semanas, portanto 70 dias de
preparação para a festa da ressurreição. Na Igreja romana o
nome não corresponde ao número, pois que são só 63 dias até
à páscoa. Talvez o nome setuagésima tenha sido adotado do
Oriente ou tenha sido formado por analogia com quadragésima,
primeiro qüinquagésima, depois sexagésima e setuagésima,
para designar o respectivo aumento de urna ou duas ou três
semanas de jejum. Estes três domingos já existiam no século
VI.
301.
2.
Neste tempo a penitência é moderada. Só o canto
de
aleluia
emudece como também o Te Deum e o Gloria da
missa. A leitura do ofício tira-se do primeiro livro da
sagrada escritura, porque o pecado de Adão tornou necessário
o Redentor e porque em março principiava
o
ano civil, ao qual se acomodava a Igreja.
302. 3.
Durante o tempo antequaresmal multiplicam-se os
divertimentos de carnaval, muitas vezes ofensivos à
religião. Para reparar ao divino Coração de Jesus as
muitas injúrias, é permitido celebrar um tríduo
eucarístico no domingo da qüinquagésima e nos
dois dias seguintes, ou nos domingos da setuagésima
ou sexagésima e dias seguintes. Quem visitar o SS.
Sacramento nesta ocasião, comungar e rezar na intenção do
papa, pode ganhar uma indulgência plenária.
(Bened. XIV.)
4.
A quarta-feira de cinzas. Nome e
história. O nome tem o seu fundamento na bênção da
cinza, feita de ramos do ano anterior. A distribuição da
cinza tem a sua origem no antigo rito de impor neste dia
cinza aos penitentes públicos. Tornou-se, porém, geral para
todos os fiéis desde o fim do século XI, e é uma lembrança
da humildade e da morte. Começa neste dia o jejum
eclesiástico da quaresma.
(Fer. IV in capite jejunii.)
§ 75. BÊNÇÃO DA CINZA
303. 1.
Na bênção da cinza, que deve ser seca, e não misturada com
qualquer líquido (d. 130), procede se em geral como na
bênção das velas (n. 289). O C. recita de pé a antífona
Exaudi nos. Vai ao meio do altar e voltado para o povo
recebe de pé a cinza do dignior do clero, que se põe
no segundo degrau. Se não estiver nenhum sacerdote, o C.
volta-se para o altar e de pé (Missale novum)
impõe-se a cinza a si mesmo, sem nada dizer. Depois recita a
antífona Immutemur, etc., e impõe a cinza aos outros,
dizendo: Memento homo, quia pulvis es et in
pulverem reverteris. Para isso a deixa cair sobre a
cabeça, aos clérigos sobre a coroa, às mulheres no cabelo
que aparece na fronte perto do véu, às religiosas sobre o
véu, de nenhuma maneira na testa.
(Sarmento, p. 15.)
As razões
são:
a). A
cruz pintada na testa ocasiona facilmente, riso (experientia
teste);
b). O
contato mediato não diminui a eficácia do sacramento da
ordem, nem da água benta, portanto nem da cinza). No fim
lava as mãos. (Cf. Kieffer, Solans.) Outro sacerdote
revestido de sobrepeliz e estola pode ajudar o C. a impor a
cinza.
Além do
modo solene e simples da bênção das cinzas, é permitido,
conforme a sentença comum dos autores, o modo privado,
por conseguinte sem se fazer a bênção necessariamente no
altar. A distribuição das cinzas já bentas depois de
qualquer missa ou no domingo seguinte é uma como aprovação
desse modo privado. O sacerdote começa neste caso pelo
Dominus vob., reza as 4 orações do Missal e borrifa as
cinzas com água benta, omitindo
no
antífonas e o incenso.
(Solans II, n. 515, que cita Cavaglieri, Telruno, Falise e Appeltern.)
Pode impô-la a si mesmo. Sobre o lugar
e
os
paramentos os autores não prescrevem nada, Mas por causa
dessa bênção particular não se pode omitir a bênção solene
nas
igrejas, em que é obrigatória. (Solans, De Herdt.)
Depois da
missa privada qualquer sacerdote, revestido dos santos
paramentos, pode distribuir as cinzas aos fiéis, porém não
impor
a si mesmo (d.
2704, 5.)
2. A
cinza pode ser distribuída também no primeiro domingo da
quaresma depois da missa ou independentemente dela, nas
Igrejas paroquiais e (com licença do ordinário, para cada
caso) nos oratórios das pias uniões, capelas rurais, ou
outras, em que haja retiro para operários, sob duas
condições:
1.°
que
na quarta-feira de cinzas se cumpra todo o rito da
bênção e imposição da cinza;
2.° que a
cinza distribuída no domingo seja tomada
da
mesma cinza, empregada
naquele dia (d.
4373; 4387 ad 1).
§ 76. A QUARESMA
304. 1.
A quaresma (dia quadragésimo) significa primeiro, o último
de 40 dias; depois da época de 40 dias, desde a quarta feira
de cinzas até o meio dia do sábado santo.
Origem.
A quaresma, segundo a doutrina dos santos padres foi
instituída pela Igreja para imitar o exemplo do divino
Redentor, que jejuou 40 dias no deserto. Começava
antigamente no primeiro domingo da Quaresma, cuja secreta
ainda guarda a lembrança disso dizendo: Sacrificium
quadragesimelis initil solemniler immolamus. Como porém
nos domingos não se jejua, no século VII acrescentaram-se 4
dias para se completar o número de 40 dias de Jejum.
Assim o jejum e a quaresma principiam na quarta-feira de
cinzas.
2.
O fim da quaresma é indicado pelo Papa Leão Magno
(2. Noet. I. Dom).
1º
Celebrar o Sagrado Mistério da paixão e ressurreição com
pureza de alma e de corpo;
2º Fazer
penitência pelas culpas de outros tempos cometidas;
3º
Exercer obras de piedade;
4º Atrair
sobre si a misericórdia divina, avivar a confiança e renovar
todo o homem interior.
305. 3.
A preparação dos catecúmenos para o batismo era
antigamente costume geral. Na quarta-feira depois do quarto
domingo da quaresma recebiam o símbolo (Credo in
Deum) para decorá-lo. O evangelho deste dia alude ao
antigo costume. Conta como o cego curado por Jesus Cristo
professou a sua fé com a mesma palavra: Credo, Domine.
O quarto
domingo Laetare tem o seu nome da alegria, Ela Igreja
por causa dos muitos filhos (Epístola: Multi filii;
evangelho: 5000 homens nutridos, pela Igreja) que lhe
nascerão no sábado santo, pelo santo sacramento do batismo.
A casula cor de rosa permitida neste domingo tira a sua
origem provavelmente da bênção da "rosa de ouro" em Roma.
A
reconciliação dos penitentes públicos se fazia na
quinta-feira santa. Na segunda, quarta e sexta-feira de toda
a quaresma estavam obrigados a penitência mais rigorosa. Por
isso se reza ainda nestes dias o trato: Domine non
seeundum peccata nostra, com genuflexão.
306. 4.
Um costume particular de Roma eram as estações (statio).
Significa esta palavra:
a) O
serviço de sentinela militar;
b) A
reunião litúrgica dos cristãos, que se consideravam como soldados de Cristo;
c) Desde
o século IV o culto divino solene celebrado com
assistência das freguesias romarias. O clero
reunia-se numa igreja determinada (collecta) e ia em
procissão, cantando ladainhas, para a Igreja da
estação. Estas procissões serviam para aumentar uma
solenidade, p. ex., na páscoa; mas, as mais das vezes,
tinham o caráter de penitência, como na quaresma ou
nas quatro têmporas. O papa Gregório Magno mandou
marcar no sacramentário (hoje missal) os dias e
lugares das estações.
5. Leis litúrgicas:
a) Da
quarta-feira de cinza até à quarta-feira da semana santa nas
missas de féria diz se Oratio super populum, do modo
seguinte: Terminadas as orações do Postcommunio, o C
diz pela terceira vez: Oremos, como de costume;
depois, sem se endireitar, conservando as mãos postas e a
inclinação profunda à cruz: Humiliate capita vestra Deo;
em seguida, terminada a inclinação, a oração com as mãos
estendidas. (Rit.
celeb. t. XI, n. 2.)
b) As
outras regras litúrgicas como no advento
(n. 271).
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