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EUCARISTIA OU NADA.
"A
IGREJA FAZ A EUCARISTIA
E A EUCARISTIA FAZ A IGREJA"
Este livro foi escrito em Roma, com a aprovação da
Igreja, em 1994. O autor não deixa de confessar que deseja
suprir ou substituir o silêncio a respeito de tanta
profanação e falta de fé, de forma também confirmar
na fé muitos fiéis, indignados e sobretudo a sofrer com uma
"catequese eucarística" falsamente teológica
ou acertada, que invade todo ambiente, a ponto de levar a
fuga do verdadeiro cristianismo. É na intenção de satisfazer
tantos Sacerdotes e fiéis de hoje, ainda famintos ou
sedentos da verdadeira fé que vos
apresentamos. Demos pois a palavra ao autor:
PREFÁCIO.
Escrevo principalmente para os sacerdotes, na
esperança de fazer bem pelo menos a alguns.
Refiro-me àqueles que, a seu tempo, não puderam
estudar como se deveria, por circunstâncias que os
impediram. A Eucaristia foi por eles compreendida,
apenas segundo os termos essenciais do dogma, tal
como acaba por ser formulado em qualquer e bem singelo texto
catequético para crianças.
Outros, embora tendo estudado regularmente,
conseguiram apenas compreendê-lo bem pouco, ficando
com a sua própria mente escrava de muitas dúvidas;
e, por conseguinte, dispostos a aceitar todas as hipóteses
de explicação, especialmente mais recentes, mais ou menos
tendentes a negar e a rejeitar.
Outros, estudaram seriamente, mas as suas
ocupações, com o passar dos tempos, logo os
impediram de retomar e aprofundar os problemas relacionados
com o dogma, de que conservam apenas vagas
recordações, mais ou menos fragmentárias e confusas.
Outros, à doutrina tradicionalmente ensinada,
julgaram de preferência opor-lhe teses ou opiniões
teológicas, ousadas ou mesmo arriscadas a cair em autênticas
heresias. Ao verdadeiro, logo preferiram o novo
que, no entanto, a este respeito, historicamente, não é de
fato novo, a não ser na sua expressão mais ou menos pessoal
e subjetiva e sugestiva, segundo o temperamento ou
disposição daqueles a quem agradam tais opiniões. Mas a
verdade é que o erro acaba por ser monótono.
Evidentemente que falo de “verdadeiro”
e de “novo”, partindo de uma tomada de posição
a favor do solene magistério da Igreja, fundada na
Tradição Apostólica e na Sagrada Escritura, nas catequeses
dos Santos Padres e na mais acreditada reflexão teológica.
Penso que premissas deste gênero poderão tornar
construtiva a leitura destas páginas a esses sacerdotes,
jovens ou anciãos sinceramente ortodoxos, que vivem como que
mergulhados no tumultuoso alastrar de ideais ou opiniões
defendidas apenas por uma pequena chusma de teólogos,
biblistas e liturgistas, muitas vezes dispostos ao improviso
e ao temerário ou atrevido.
Ao seu tão tristemente suportado silêncio,
desejaria eu responder, até mesmo para confirmar na fé
muitos fiéis agora já indignados, por ter de suportar uma
“catequese” falsamente teológica, que invade já todos os
ambientes, chegando a ameaçar com a mais radical animosidade
ou antipatia pelo Cristianismo.
Roma, 3 de
Janeiro de 1994
O
Autor – E.Z.
I
EUCARISTIA OU A PIOR DAS IMPOSTURAS
O dogma eucarístico começa a empenhar ou interessar
todos os meus recursos intelectuais. Muitas vezes a
preocupação chega mesmo a perturbar-me, particularmente
quando ouço falar de irreverências e sacrilégios,
ou de aberta e obstinada negação do mistério.
Um tal sofrimento tem a sua explicação mais lógica
e séria naquilo que se relaciona com a Eucaristia e a
Igreja, o Cristianismo, a vida humana, a civilização em
geral.
Basta-me pensar que a autoridade com que a Igreja
pode impor-se às consciências deriva da sua constituição de
sociedade visível e hierárquica; que
uma sua tal constituição é fundada na Ordem Sagrada...;
que uma tal Ordem Sagrada torna o batizado participante do
Sacerdócio de Cristo...; que o Sacerdócio de Cristo é
exercido principalmente na oferta do Sacrifício
Eucarístico...; que o sacrifício eucarístico exige
indispensavelmente o prodígio da transubstanciação,
que torna presente, nos nossos sacrários, CRISTO em
PESSOA.
Ora, voltando agora a agir ou pensar às arrecuas,
devo concluir que, se a presença de Cristo, não é real
e substancial, não existe Sacrifício Eucarístico...,
não existe Sacerdócio..., não existe Hierarquia..., não
existe sequer um Magistério objetivo e infalível...; e,
faltando isto, não podemos já acreditar em verdades
indiscutíveis, absolutamente certas, de ordem dogmática e
moral: justamente as que criaram a civilização cristã, a
única solução ou garantia contra os assaltos do laicismo,
que se vai estabelecendo ou fundamentando nos abismos ou
precipícios de um historicismo fatalmente céptico e
anárquico.
Estas, as considerações que me animam a enfrentar o
argumento ou tema considerado como bem mais árduo e
fascinante que outro qualquer.
II
MAS SERÁ ENTÃO MESMO VERDADE
QUE ELE ESTÁ AQUI PRESENTE?
A maior dificuldade que a razão humana
encontra no acreditar que um fragmento de pão contenha o
próprio Deus, o Infinito, o Imenso, é agravado por
sacerdotes e fiéis que O tratam como se realmente Ele não
estivesse lá. Ponho-me no lugar do ateu, do
muçulmano, do judeu, do protestante e, entretanto nas
igrejas católicas muitas vezes, vejo coisas, pessoas e
comportamentos que me obrigam a interrogar-me continuamente
se de fato Cristo estará realmente presente, como sempre
acreditei.
Com efeito, grupos de visitadores, vestidos como
muito bem lhes apetece, quero dizer, para além de todo
o limite da decência e do pudor, passeiam
livremente, como numa galeria ou exposição de arte, olham ou
observam, curiosos e palradores, sem se dignarem sequer
fazer qualquer gesto de respeito e de fé.
Tantas vezes, os próprios fiéis procuram apenas
cômodos bancos para se sentar como numa sala de concertos...
Não há genuflexórios que os levem a humilhar-se, a
recolher-se, a adorar. O altar, praticamente
despido, já não é o Seu trono, porque O
desterraram para um sítio qualquer, como a um qualquer
objeto, que nem sempre é assim tão fácil de
descobrir. Por outro lado, tantas vezes as prescrições do
Direito Canônico são apenas letra morta.
Tudo concorre para fazer, isso sim, que os próprios
fiéis já nem queiram saber d’Ele: eles mesmos
preferem ajoelhar-se diante de estátuas ou imagens, a
ajoelhar-se diante do sacrário. Muitos não sabem sequer
distinguir o que é a consagração e a
benção; esta, se dada por qualquer exorcista de
gritos, é logo preferida à celebração eucarística.
Muitos estão convencidos de que podem comungar,
mesmo em pecado mortal, bastando um ato de contrição:
a misericórdia de Deus supre tudo... A
todos é licito a Eucaristia na mão, mesmo
prevendo que os fragmentos, caídos por terra, possam ser
pisados. “Que importa? Não há motivo para escrúpulos”:
Deus adapta-Se a tudo...
Muitas vezes tenho ouvido repetir que Ele, ao
instituir a Eucaristia, Se ofereceu como o pão das
nossas mesas... Por conseguinte, disposto a ser
tratado sem excessivas atenções... Precisamente como se,
depois da consagração, esse pão se não tornasse ELE
MESMO...
Já não há quase ninguém que não possa distribuir a
Comunhão. A bispos, sacerdotes, diáconos, acólitos,
leitores, religiosos, juntou-se agora um número
indefinido de leigos, homens e mulheres. E todos, como
certos eclesiásticos, vão declarando: estão autorizados
a comungar por eles mesmos. Se a Missa é um mero
banquete, e se à mesa não há hierarquias nem
precedências, qualquer se pode servir por si só, sem
depender de ninguém...
Alguns cânticos, acompanhados por certos
instrumentos musicais, não fazem de modo algum qualquer
apelo à presença de Deus, não convidam ao
recolhimento, à súplica, a chorar as suas próprias culpas ou
ao arrependimento... Judeus, Muçulmanos não poderão
sequer suspeitar que nós acreditamos verdadeiramente na
Sua Presença; e isto, sobretudo se ensurdecidos
pelas contínuas palmas, se a ouvir o enjoado e indiscreto
relato de experiências pessoais, se observam a cena nada
séria de gente que se abraça, se beija e chega a dançar...
Muitos sacerdotes, no altar, parecem
funcionários do culto, não ligando ao respeito pelas
rubricas, mostrando-se expeditos ou desembaraçados,
rotineiros, distraídos, enjoados ou aborrecidos... Preferem
falar do social a falar de Deus; preocupam-se com recolher
fundos para construções ou restaurações, organizar ou reger
messes ou cantinas e acolher estrangeiros, copos de água,
emigrantes, esquecendo tudo o mais, que é bem mais
importante.
Antropologia, psicologia e sociologia interessam mais que a
teologia: o amor do próximo parece que prevalece sobre o
Amor de Deus e a Sua Justiça. Tenho visto irmãs
que, uma vez recebida a Comunhão, logo desaparecem, ocupadas
por uma infinidade de outras coisas, e descurando a
única que é verdadeiramente necessária. Estão de tal
modo despachadas e seguras de si, que se não dignam sequer
fazer a genuflexão diante do Santíssimo... A
sua confiança com Ele quase não tem limites; mas dá para nos
interrogarmos se de fato ainda acreditam.
Eu,
por mim, não tenho dúvidas. Se não fosse católico,
o seu exemplo não me levaria a acreditar, como de fato
escandaliza muitos fiéis que, desmoralizados, vão desertando
das nossas igrejas.
Os Protestantes repetem-nos que, se
estivéssemos convencidos da presença eucarística,
não trataríamos o Senhor como todos o podem
notar e deplorar ou lamentar.
III
QUE LITURGIA CATÓLICA?
Papas e Concílios sempre têm defendido o dogma da
presença real contra a heresia protestante; e
o Vaticano II confirmou de um modo inequívoco o magistério
tradicional.
Mas entre o pensamento oficial da Igreja e a
doutrina que alguns teólogos, escrituristas, liturgistas
propagam – impondo-a aos fiéis – o contraste é bem evidente
e mesmo escandaloso. Alguns fatos, particularmente bem
significativos a este respeito, têm levantado problemas
verdadeiramente angustiantes, nos leigos mais informados e
coerentes.
É
evidente a gradual redução dos sinais de fé, no culto
eucarístico, Tem-se notado, para além da eliminação
do sacrário do altar-mor, até
mesmo a eliminação da balaustrada ou grade
que, separando o presbitério ou altar-mor do corpo da
igreja, indicava a distinção entre Clero e povo,
sacerdócio ministerial e sacerdócio comum dos fiéis.
Foi suprimido o uso da campainha, que anunciava aos fiéis o
momento culminante da liturgia eucarística, para dispô-los a
uma atenção mais intensa e a uma concentração ou
recolhimento interior...
Foi
agora também muito mais reduzido o número de velas, na
exposição solene do Santíssimo Sacramento,
perante o qual não mais seria prescrita a dupla
genuflexão, simultânea, chegando mesmo a ser
proibida. Não se trata de ninharias ou frivolidades e, mesmo
que assim fossem, verdade é que ainda assim e por isso mesmo
convinha e era mesmo de toda a vantagem que se conservassem
os costumes anteriores que, sem prejudicar ninguém
estimulavam a um mais fervoroso comportamento de fé na
presença de Deus... O uso das vestes sagradas (amito,
alva, estola e casula, etc.) é cada vez mais
reduzido e deixado ao capricho do celebrante.
A COMUNHÃO NA MÃO
Paulo
VI não aprovara o uso ou prática da Comunhão na mão
dos fiéis, e por anos se debateu, opondo-se à
petulância de bispos, mais sensíveis à doutrina e ao costume
do mundo protestante, que preocupados com o cultivar a fé do
povo. As suas razões (de Paulo VI) eram e continuam a ser
objetivamente validíssimas, sobretudo porque fundadas
no perigo de multiplicar irreverências e profanações.
MAS NÃO FOI OUVIDO
E muitíssimas dioceses do mundo católico – inclusas
as das Conferências Episcopais italiana e portuguesa
– catequistas improvisados, liturgistas sem escrúpulo algum,
bispos condenscentes, sacerdotes superficiais e liberaloides,
não só aceitaram a nova prática, mas tão pouco se
interessaram com o fazer cumprir as normas prescritas,
chegando pelo contrário a obrigar arrogantemente adultos e
crianças a receber a Hóstia na mão, apesar da resistência e
os vivos protestos dos mais perfeitamente informados...
O perigo das previstas e temidas profanações foi-se
traduzindo numa realidade tristemente reconhecida por um sem
numero de testemunhas seculares, infelizmente incapazes de a
impedir. O novo rito – segundo crônicas quase diárias – fez
subir para números impressionantes a quantidade das “missas
negras”, celebradas por toda a parte com Hóstias
consagradas, roubadas ou pagas por suspeitas figuras de
emissários de Satanás.
“Chegam-nos vozes ou noticias sobre casos de
deploráveis faltas de respeito na forma como se tratam as
espécies eucarísticas, faltas que caem não apenas sobre as
pessoas culpadas de um tal comportamento, mas também sobre
os Pastores da Igreja, que terão sido menos ou mesmo nada
vigilantes sobre o comportamento dos fiéis para com a
Eucaristia (...). É difícil não acenar para os dolorosos
fenômenos acima recordados...”. Assim falou desde
1980, João Paulo II (Dominicae cenae II). Mas os seus
lamentos não tiveram eco algum e as profanações continuaram
a multiplicar-se.
A reação oposta ao novo rito, sustentada acima de
tudo pelo pleno conhecimento da disposição de Paulo VI
e pelos verdadeiros responsáveis denunciados pelo próprio
Pontífice, provocou respostas reveladoras das
intenções heréticas de teologastros e liturgistas
libertinos. Tendo-se lamentado o perigo da queda dos
fragmentos do Pão consagrado, o público, em revistas e
jornais, logo ouviu muito bem responder-se com irritante
jactância ou basófia que não havia motivo para preocupações,
porque esses fragmentos, separados das Hóstias
e caídos em terra ou ficados no fundo das nossas píxides sob
a forma de pó branco, perdem as aparências que caracterizam
o pão, pelo que já não são “ o sinal” da
presença de Cristo. Mas foi bem mais fácil refutá-lo,
respondendo ou observando que:
- nenhuma das minúsculas partículas ou simples
fragmentozinhos desse pó muda de natureza, mantendo-se
sempre verdadeiro pão, como não mudam as da pimenta, do
cacau, do açúcar farelado e de qualquer outro corpo reduzido
a pó... Atesta-o, com absoluta certeza, o simples bom senso
de toda a comum dona de casa...;
- mesmo que cada grãozinho ou fragmento do
supradito pó não apresente as dimensões que por norma tornam
o pão comestível, verdade é que ele conserva no entanto
as qualidades sensíveis suficientes para constituir
o “sinal” indiscutível e inequívoco da real
presença de Cristo, como a cor, o sabor, o cheiro, o peso,
as propriedades nutritivas e outras quimicamente
reconhecíveis... De resto, precisamente a qualidade
(objeto próprio de cada um dos sentidos) torna sensível
a quantidade (objeto comum de todos os
sentidos)...;
- além disso, se com o pó das hóstias, recolhido no
fundo das píxides, posso encher uma colher e alimentar-me
realmente com ele (como poderia fazê-lo para dar a Comunhão
a um doente), é sinal de que os grãozinhos que o compõem
permanecem verdadeiro pão: trata-se de “partes
integrantes” de um “todo”
homogêneo...;
- supor que os grãozinhos que compõem o pó
acima referido já não têm valor sacramental
significa levantar o formidável e insolúvel problema dos
limites da grandeza sob os quais cessa ou desaparece a real
presença de Cristo. Quem terá então autoridade para os
fixar?... Qualquer indicação que fosse não poderia passar de
arbitrária e sacrílega...”
- e é verdadeiramente arbitrária e sacrílega
para quem, aceitando o solene magistério da Igreja, continua
a acreditar que, segundo os Concílios ecumênicos de
Florência e de Trento, CRISTO ESTÁ PRESENTE EM TODA A
HÓSTIA CONSAGRADA E EM CADA UMA DAS SUAS PARTES, POR MAIORES
OU MENORES QUE SEJAM.
Presença que supõe, evidentemente, e de um modo
indispensável, essa prodigiosa
TRANSUBSTANCIAÇÃO, exigida com insistência pela
Igreja, pela qual a presença de Cristo NÃO É CONDICIONADA
ÀS DIMENSÕES do pão consagrado, mas sim à sua
SUBSTÂNCIA. Por conseguinte, até que esta apresente as
propriedades que a caracterizam, a transubstanciação
é certa, a presença de Cristo é inegável.
UM SIMPLES BANQUETE?
Alguns novos liturgistas presumem resolver o
problema dos “fragmentos”, calando habilmente
o fato da transubstanciação. E precisamente a
rejeição de um tal dogma está ligado à
concepção ou conceito de uma Missa celebrada como simples
banquete, em que o pão é tomado por cada um com
as suas próprias mãos, e comido tranqüilamente, sem se
preocupar com as migalhas ou fragmentos que, ao cair, são
depois lançadas no caixote do lixo e destinadas a animais.
Ora, negada a transubstanciação, não
se realiza o Sacrifício Eucarístico, e tão
pouco o Sacerdócio que, derivado do Sacramento
da Ordem, distingue essencialmente a Igreja hierárquica do
laicado. Justamente as teses de liturgistas, segundo as
quais a consagração sacerdotal não seria
superior, nem se distinguiria da produzida em cada fiel pelo
Batismo, ou seja, pelo fato de ser inserido no Corpo Místico
como seu membro. Em Cristo, os crentes seriam assim
todos iguais, pelo que todos poderiam celebrar a
Eucaristia, sendo participantes do Seu Sacerdócio.
Uma verdadeira série de absurdos ou disparates, no
âmbito de um dogma repetidamente definido.
O Vaticano II autorizou a concelebração.
Mas o fato de ela – contra toda a previsão e intenção dos
Padres conciliares – ter sido depois apoiada e mesmo
recomendada, a ponto de se transformar em ordinário e
quotidiano exercício do sacerdócio, faz suspeitar
que, por alguns, se pretendia fazer dos concelebrantes
outros tanto comensais, ou seja, transformar a
Missa em banquete, em que todos os participantes são
protagonistas, que têm a mesma dignidade, os mesmos
direitos. E daí, precisamente, a dimensão horizontal
da relação de paridade ou igualdade entre os concelebrantes,
faz passar para segunda ordem a dimensão vertical da
dependência de todos do único Verdadeiro Celebrante que é
Cristo, Sacerdote e Vítima.
A tendência que faz prevalecer (muitas vezes de um
modo exclusivo) o “banquete” sobre o
Sacrifício explica como muitos defendem que a
concelebração é preferível à celebração
individual, como se o Sacrifício de Cristo oferecido
em toda a Missa individual valesse menos que a
Missa concelebrada por cem sacerdotes; como se do
número dos ministros (puras causas instrumentais)
dependesse o valor do Sacrifício de Cristo, única
Causa principal. A importância de um tal assunto irá
obrigar-nos a retomá-lo.
“CREIO, SENHOR!”
Jesus é o primeiro a garantir-me a Sua presença no
Sacrário; e as Suas palavras são tão sublimes, singulares,
peremptórias, que só podem ter sido pronunciadas por
Quem é a Verdade e a Onipotência. Um louco não teria
podido exprimir-se como Ele: por mais desequilibrado que
fosse, ele só poderia fazer uso dos elementos do seu
delírio, apenas daquilo que se costuma pensar e dizer no
mundo. Mas no mundo, quem alguma vez teria podido imaginar o
oferecer carne e sangue do seu próprio corpo, a fim de
conquistar para os outros a vida eterna? E assegurar-lhe a
ressurreição?
Em Cafarnaum, alguns ouviram as Suas palavras com
horror, e muito dos Seus próprios discípulos chegaram
mesmo a abandoná-Lo, absolutamente desiludidos por
um Mestre que já não compreendiam.
Mas Jesus insiste, fala a sério, e as Suas
respostas a tantas insistências dos presentes fazem-se ou
dão-se de forma a cada vez mais deixarem os Seus ouvintes
apavorados: Ele não hesita em apresentar-Se a Si e à Sua
missão, como ninguém alguma vez o poderia ter imaginado. As
Suas afirmações, de fato, instam ou avançam num crescendo
que faz cada vez mais entrever a mais oculta verdade do seu
mistério.
De um modo bem diferente de tudo quanto tinha
acontecido no deserto por meio de Moisés, o PAI, n’Ele, dá
o verdadeiro Pão do Céu. É Pão de Deus, é
Aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo: Ele é o
Pão da Vida. Quem O acolhe não mais tem fome e quem
acredita n’Ele, não mais tem sede. Os pais, que comeram o
maná, morreram; mas quem se alimenta d’Ele viverá
eternamente.
A partir deste momento, o discurso toma o rumo ou
sentido mais surpreendente. Compreende-se que Ele, Verbo de
Verdade, alimenta e sacia por Si Mesmo a inteligência
humana; como é fácil de compreender que a Verdade
é comparada ao pão, como fundamental elemento
alimentício do homem.
Mas Jesus, além disso, insinua que n’Ele o Verbo Se
fez carne, assumindo a natureza humana...; que a Sua carne é
destinada a ser sacrificada pela salvação do mundo...;
carne, a Sua, oferecida a todos sob as aparências do pão;
pão que o homem deve comer, para ser assimilado a Cristo e ,
por Seu intermédio, viver da Sua Verdade:
aquela que procura e dá a Vida ou Bem-Aventurança Eterna.
E, então, quem não come a carne do Filho do Homem e
não bebe o Seu Sangue, não pode ter a vida em si; quem, pelo
contrário, acolhe o Seu convite, tem o privilégio de estar
em Cristo e de ter em si Cristo, sim, de viver por toda a
eternidade.
Linguagem dura, motivo de escândalo? Apenas o é
para quem não tem em si a Luz do Espírito,
apavorado como está com a recordação da carne lançada como
simples pasto aos animais ou consumida por antropófagos...;
enquanto afinal se trata de uma realidade que oferece aos
sentidos nada mais que as propriedades do pão, mesmo se
apenas pão – quanto ao seu ser em si – se
torna o Corpo de Cristo, ou seja, a natureza humana,
assumida pelo Verbo, único e divino Caminho para o Pai.
Precisamente o Pai que revela o mistério do Filho, feito
carne, feito pão, feito vida do mundo.
O discurso que se realizou na sinagoga de Cafrnaum,
não podia dizer mais, como solene anúncio do maior e
mais supremo dos prodígios, realizado na Última
Ceia.
O
relato dos Sinópticos, integrado na catequese de São Paulo
aos Coríntios, descreve a cena que se realizou naquela noite
no Cenáculo com uma sobriedade que leva a supor nos
comensais um certo conhecimento do evento: nenhum deles pede
ao Mestre que explique esse Seu misterioso modo de Se
exprimir. Declarando que o Pão é o Seu Corpo e que o vinho é
o Seu Sangue, Jesus não faz senão retomar e concluir o
discurso feito em Cafarnaum... Os Apóstolos tinham-Lhe
permanecido fiéis e tinham acreditado n’Ele; e, agora,
esperavam d’Ele algo de insolitamente grande.
Precisamente isto: a Sua palavra criadora
transforma inteiramente o pão no Seu Corpo. O adjetivo
demonstrativo “isto” refere-se a tudo quanto
caía ou entrava no domínio dos sentidos dos Apóstolos, ou
seja, às qualidades sensíveis que indicam a realidade
substancial do pão. Ora, o verbo ser conjugado no presente
revela que uma nova substância toma o seu
lugar, sem anular essas qualidades, que
continuam a ser o “o sinal” natural de um
outro Pão: o Corpo de Cristo.
Tudo fez excluir que o verbo ser possa entender-se
em sentido metafísico, se atribuído ao
Corpo: nessa solene vigília da morte, Jesus não
poderia permitir-Se a Si Mesmo linguagem figurada,
dirigindo-Se a homens rudes, incultos, a quem noutras
circunstancias tinha sentido o dever de explicar o sentido
das parábolas... Poderiam eles agradecer, como supremo dom
do seu Mestre um vazio símbolo do Seu Corpo?
Serão os seus fiéis, amanhã, a descobrir de que
modo o pão pode parecer pão, apenas porque
conserva as qualidades naturais que o tornam capaz de se
comer...; e o Corpo, embora sendo rivalíssimo quando à sua
substância, não apresenta nada daquilo que o tornaria
repugnante aos sentidos. Os Apóstolos, entretanto,
não teriam posto qualquer problema. Acreditaram na palavra
do Mestre, e a Igreja seguiu a esteira da sua tradição,
evitando os dois excessos do realismo
grosseiro e ingênuo e do simbolismo gnóstico.
Ele está verdadeiramente presente, mas sob espécies
que não são Suas: são precisamente as mais adequadas para
fazer-Se comer com toda a avidez do amor.
A FÉ NÃO BASTA
Embora acreditando – não posso renunciar a pensar,
porque só pensando, posso na realidade acreditar. E digo
isto, não porque o pensamento seja capaz de compreender
tudo, mas unicamente porque também o mistério
está contido no horizonte irradiado da luz do ser, que torna
inteligível, a totalidade do real. Aludo a essa margem de
inteligibilidade que torna aceitáveis também as
verdades da fé, justificando-lhes a revelação. De
fato, para que fim serviria esta, se não revelasse nada ao
pensamento humano? Por conseguinte, o dogma
eucarístico é compreensível: se os seus elementos se
perdem no mistério, contudo, este não foge aos
princípios do ser; neste caso, que nos restaria
pretender?
Ouso acrescentar que resta muito pretender de um
Mistério que os resume a todos, mesmo que
justamente por isto levante problemas enormes, que têm
empenhado as mais acutilantes e robustas inteligências do
passado.
Como é possível que um minúsculo fragmento de pão
contenha o Imenso?... Que Jesus esteja presente numa hóstia
inteira e em cada uma das suas partes?... Que a Sua presença
– agora, há já milhares de anos – se realize, sem
multiplicar-se em mais lugares e tempos, contemporânea e
sucessivamente, mantendo-Se ELE sempre
idêntico a Si Mesmo em toda a parte: adorado e ofendido,
celebrado e feito objeto de profanações turpidíssimas, e
mesmo indescritíveis?
A primeira luz começa a brilhar na Idade Média,
pela adoção de um termo que o Magistério não tardou a fazer
seu: a transubstanciação. A qual
porém, não tendo algum verificação na natureza, representa
um fato, não apenas estranho à investigação cientifica, mas
também superior a toda a possível confirmação filosófica.
Com efeito, as transformações do mundo físico são
um dado de primeira experiência: basta pensar naquelas que
condicionam a conservação dos organismos, desde o nascimento
até à morte... Transformações consentidas pela
matéria-prima, sujeito potencial que passa de um
modo de ser para um outro, resultando a
corrupção do primeiro e a geração do
segundo. Na transubstanciação, pelo contrário,
também a matéria-prima do pão consagrado se
converte na do Corpo de Cristo, pelo que a mudança ou
mutação é total e, por conseguinte,
naturalmente impossível.
Portanto, a elaboração teológica do dogma,
embora formando um termo altamente expressivo do processo,
não apenas o não explica, como também lhe faz realçar o
caráter prodigioso, levantando deste modo os
problemas que lhe são conseqüentes e que, como veremos,
acabariam por ser inteiramente insolúveis, se tivesse de
renunciar à metafísica do ser...
Mas os problemas não existem para aqueles que
reduzem “a presença real de Cristo na Eucaristia a um
simbolismo, pelo que as espécies consagradas não seriam
senão sinais eficazes da presença de Cristo e da sua íntima
união, no Corpo Místico, com os membros fiéis” (Pio
XII, Humani generis, 16).
Precisamente a tese protestante, que nega o
Sacrifício Eucarístico e por conseguinte o
sacerdócio ministerial, a Igreja como
sociedade visível, capaz de um magistério infalível, sem o
qual seria absurdo pretender conhecer a única Verdade
verdadeira e certa, que salva do desespero.
“MEU SENHOR E MEU DEUS!”
Se Jesus mo diz e a Igreja mo confirma com cada vez mais
vigor, creio na Sua Presença.
Bem diversa daquela que devo atribuir-Lhe porque imenso,
igual ao Pai.... Por que, como Verbo, vive no “templo”
de cada alma em graça; porque, como Mediador, entre o Céu e
a Terra, enche de Si Mesmo o Universo e a História...;
porque, Cabeça do Corpo Místico, vivifica, com o Seu
Espírito, todos os seus membros, inspira as Escrituras, fala
e opera nos Seus ministros.
Todas as formas de uma presença indiscutível e
indiscutida, como infelizmente não é a eucarística, pela
qual o verbo Incarnado permanece conosco, não menos
realmente de como quando vivia na Palestina: os
Protestantes recusam-se a acreditá-lo.
Para disso estar certo, basta-me aderir ao
Magistério, que fala de transubstanciação,
prodígio que exclui o absurdo em que cairíamos,
se acabasse por supor que pão e vinho passam a ser o
próprio Deus.
A Igreja não afirma sequer que passem a ser a
Pessoa do Verbo e tão pouco a Sua alma,
componente essencial da natureza humana por Ele assumida: a
matéria não poderá nunca sublimar-se, a ponto
de transformar-se no espírito. Com efeito, a
transubstanciação verifica-se ao nível de duas
substâncias materiais: o pão e o Corpo de
Cristo; pelo que, o prodígio está contido na
área do mundo físico, excluindo o salto entre
categorias de gênero diverso.
Isto demonstra a necessidade da Incarnação
que, salva a união hipostática, é humanização
e mesmo materialização de uma Pessoa Divina.
Por conseguinte, pela transubstanciação,
parece que Jesus tenha querido de certo modo continuar a
viver no espaço e no tempo, homem no meio dos homens,
satisfazendo, acima de tudo, a mais fundamental função
biológica do alimento dos corpos, entendida como símbolo da
bem mais vital necessidade das almas, abertas à comunhão de
amor com Deus.
Por
conseguinte, não se realiza a Eucaristia sem a
Incarnação: o pão consagrado pode passar a ser
o Corpo de Cristo, apenas porque “o verbo
Se fez carne”.
Mas não basta comunicar com o Corpo
de Cristo; quem ama deseja comunicar com Ele,
Pessoa Divina, a quem pertence o corpo. Corpo vivificado por
uma alma...; alma e corpo, componentes da Sua natureza
humana...; contudo, natureza humana que não é Ele. Mas no
entanto, não sendo o próprio Verbo (com o qual se quer
encontrar e dialogar)¸esta natureza é Sua e, por ela,
atinge-se esse mesmo Verbo sem nenhuma outra mediação
criada.
Se, portanto, o pão se torna o Corpo de Cristo, e
se Cristo é o Verbo, certamente eu comungo, com o Corpo do
Verbo, com o Corpo de Deus, ou seja, com o
próprio Deus, que torna adorável a carne
concebida no seio da Virgem Maria e sofreu Paixão e
Morte.
Sei que posso comunicar com Deus, adorando-O em
espírito e verdade, e isso, não tanto valendo-me da
abstração metafísica, quanto supondo a graça e o exercício
da fé, como foi o possível aos Patriarcas, aos Profetas, aos
Justos da antiga Lei. Mas tratou-se então de relações com
Deus inteiramente privilegiadas, superiores à psicologia
humana, condicionada ao sensível em todas as conquistas que
transcendiam o nível da experiência.
Ora, o vértice mais sublime de todo o sensível
criado e susceptível de se criar é a humanidade de
Cristo, substancialmente unida à Pessoa do Verbo,
única Via que, iniciando pela Sua componente corpórea,
atinge imediatamente o Seio do Pai.
Precisamente a componente corpórea que, pelo Pão
Eucarístico, nos faz ter acesso ao Deus vivo.
O MAIS ALTO DOS PRODÍGIOS
Ao silêncio e à adoração, prefiro
agora satisfazer a necessidade de entrever a verdade do
mistério eucarístico, tentando-lhe uma interpretação que não
tem a presunção de a prejudicar nos esquemas ou pelos
esquemas da razão, mas tende unicamente a torná-la credível.
Foi sempre esta a especifica função da investigação
teológica que, ao serviço do Magistério, tem atingido a
filosofia do ser, para tornar inteligíveis. Pelo
menos, os termos do dogma.
O primeiro dos quais é a transubstanciação
que, em relação à substância, foi rejeitada
pelo empirismo e pelo fenomenismo, chocando ou combatendo
contra um dos primeiros dados do pensamento humano
espontâneo, universal.
Ao nível da reflexão, ela não pode senão definir-se
como essência ou sujeito que em um próprio ato de ser,
pelo qual existe em si, de um modo autônomo. Se a
substância, por isso, não fosse real, não existiria nada,
incluso quem tem a presunção de a negar.
Ora, a substância é o pão de
trigo, ázimo ou fermentado, mistura de moléculas de
natureza várias, com propriedades especificas e
elemento-base do alimento humano, incluído entre os
alimentos tomados por Jesus e pelos Apóstolos na Última
Ceia.
É precisamente o pão que o Mestre transforma
inteiramente no Seu próprio Corpo, bastando
que Ele o declarasse como tal: a Sua palavra,
que tinha tirado o mundo do nada, agora, realiza a
total conversão da substância do pão na substância do Seu
Corpo. Este, o vivo conteúdo do Mistério
Eucarístico.
Para o não deturpar, é necessário supor que:
- A transubstanciação, segundo o
dogma, não deve entender-se no sentido em que a
natureza do pão seja assumida pela Pessoa do Verbo, como
aconteceu na Incarnação;
- Que o pão, pelo metabolismo, seja assemelhado ao
Corpo de Cristo, como se verifica nos alimentos de que nos
alimentamos:
- Que o mesmo pão receba de Cristo a virtude divina
que santifica os fiéis que comungam; neste caso, a
Eucaristia não se distinguiria dos outros sacramentos
enquanto a verdade é que Ela os transcende a todos:
- E muito menos ainda que o pão, pela
consagração, se torne um símbolo da presença e poder
sobrenatural de Cristo; pelo que não teríamos a
transubstanciação, permanecendo o pão
ontologicamente como era antes.
Estas, as interpretações heréticas, rejeitadas pela
Igreja, que insiste na transubstanciação,
proposta como conversão, que não equivale à
destruição do pão, nem à criação do
Corpo de Cristo: destruição e criação excluídas da
continuidade do processo conversivo de uma substância numa
outra... Muito mais, que do pão ficam os acidentes,
e que o Corpo de Cristo é já real e, sendo ressuscitado, não
sofre alterações.
A unidade do processo agora apresentado, é análoga
àquela pela qual, nas combinações químicas, a
matéria-prima não é destruída mas passa de uma
forma (da substância corrompida) para uma outra
(da substância gerada). Ora, no passar, a passagem da
potência ao ato é sempre imediatamente de alguma coisa
que faz as funções de sujeito: do nada não pode vir
nada.
É precisamente o sujeito que, nas
transformações substanciais, é sempre, e necessariamente, a
matéria-prima, elemento que não se pode
suprimir no composto que precede (o
corrompido) e no que segue (o gerado); na
transubstanciação, a matéria-prima do pão não faz as
funções de sujeito, porque também ela se muda
na matéria-prima do corpo de Cristo. O
prodígio eucarístico consiste precisamente nesta
total conversão da substância do pão na
substância do Corpo de Cristo, contra todas as leis da
natureza.
Mas este fato, embora extraordinário,
não vai contra os princípios do ser, salvos os
quais, tudo é possível, como aliás
credível, se depende imediatamente de Deus,
Ser-por-essência, que domina a série infinita de
todos os seres-por–participação. Tenho de
elevar-me a este nível, para aceitar a possibilidade e o
fato da transubstanciação.
Se a natureza transforma o ferro em óxido,
permanecendo-lhe imutável ou fixa a matéria-prima
ou seja, o sujeito do processo químico...; não vejo por que
razão Deus, Criador e Legislador da própria natureza, não
possa mudar o pão no Corpo de Cristo, permanecendo o ser –
participando por um e pelo outro – o sujeito
da conversão de toda a substância do pão na do Corpo de
Cristo.
Isto é evidente que se verifica porque o pão,
perdendo o seu próprio modo de ser (que o
especifica e diferencia) se muda no modo de ser
próprio do Corpo de Cristo, que permanece imutável ou fixo.
A contradição seria inegável apenas se Deus não
modificasse o modo de ser (= a essência) do
pão. Seria de fato absurdo supor que o pão, permanecendo
essencialmente “pão”, passasse a ser o Corpo
de Cristo. Se, no criar, Deus produz o ser, no
transubstanciar o pão, Ele Mesmo muda o
modo-se-ser do pão; ser que, dominado pela Sua
Onipotência, faz as funções – analogamente à
matéria-prima – de sujeito da passagem
de uma essência para outra.
A ciência não tem nada a opor a tudo isto; e creio
bem que, à mente humana, não seja possível interpretar de
outra forma a transubstanciação e, por
conseguinte, a origem de uma presença de Cristo não
simbólica, mas ontológica, realíssima,
segundo o modo de ser da Sua substância corpórea, único
traço de união entre o mundo físico dos nossos órgãos
sensoriais e a própria Pessoa do Verbo.
PRESENÇA INTEGRAL
Se, quando à substância, a presença
real do Seu Corpo é certíssima, porque devida às
palavras da consagração, pronunciadas sobre o
pão; não posso ter dúvida alguma da Sua presença, como
PESSOA DIVINA. De fato, o Corpo é Seu, e Ele, a
partir do momento em que foi concebido, não poderá nunca
separar-Se desse mesmo Corpo: a união hipostática durará por
toda a eternidade.
Ora, o Seu Corpo é organizado e vivo pela alma
intelectiva que o informa, tornando-o essencialmente humano:
Corpo com a sua estrutura, os seus órgãos, as suas
capacidades operativas, as suas relações com o mundo
exterior. Completa, por conseguinte, é a sua humanidade,
aqui presente em virtude das palavras da consagração; as
quais, porém, por si mesmas, se referem apenas à
substância do Seu Corpo; enquanto, sob o ponto de
vista ontológico, ou seja, por natural concomitância,
a substância fica unida de um modo inseparável, com tudo
quanto objetivamente lhe pertence, constituindo a perfeição
do Verbo Incarnado, como foi gerado por Maria...
E é por isto mesmo que Ele continua a pensar e amar
pela alma que vivifica o Seu Corpo, atualmente ressuscitado
e glorioso... Por conseguinte, conhece tudo quanto
acontece ao Seu redor: dá-lhe conta das nossas adorações e
irreverências, compraz-se com o nosso culto e reprova, sem
porém os suportar, os nossos sacrilégios.
Se, e sempre em virtude das palavras da
consagração, a presença eucarística não comporta as
dimensões do Corpo de Cristo, nem por isso mesmo o
completo dos seus órgãos sensoriais...; é, porém
indiscutível que, por natural concomitância, a
substância do Seu Corpo não fica dessas dimensões,
dispostas segundo a típica estrutura do organismo humano.
Por conseguinte, estrutura presente só à maneira da
substância, ou seja, como é possível a esta que,
oculta aos sentidos, está toda em toda a
hóstia consagrada e toda em cada uma das suas partes.
Precisamente a nível sensível não é
possível qualquer mútua relação entre nós e Cristo. Se Ele,
com os Seus próprios órgãos sensoriais (presentes apenas
à maneira da substância) não pode ver, ouvir,
tocar nada de exterior a Si...; nós, com os nossos sentidos,
podemos apenas colher ou alcançar as naturais propriedades
do pão, e não as do Seu Corpo...
Mas uma tal condição não O impede de estar presente
em nós e nós n’Ele, tratando-se da mais verdadeira presença
possível ao Seu e ao nosso pensamento, fundada na conversão
da substância do Seu Corpo, realmente vivificado para Sua
Alma pensante e amorosa ou amante...
Por isso, se a transubstanciação
se não
realizasse a nível físico, não seria possível
comunicar com Cristo inteiro ou integral. Onde
existe uma hóstia consagrada, está Ele: a substância do Seu
Corpo comporta ou inclui toda a humanidade assumida pelo
Verbo; substância indicada indispensavelmente pelas
propriedades do pão, percebidas pelos sentidos, pelo que o
mistério eucarístico se segue ao da Incarnação.
A PRESENÇA ADMIRÁVEL
A transubstanciação, superando todos os
processos da natureza, por uma extraordinária intervenção da
Onipotência e tornada credível à luz da
metafísica do ser, comporta uma outra
série de prodígios.
O primeiro – que confirma a tese filosófica da real
distinção da quantidade da substância
corpórea – fundamenta a possibilidade, pela qual,
aqui os acidentes do pão existem sem a substância do
mesmo...; enquanto a substância do Corpo de Cristo conserva
todas as suas propriedades, mesmo que não acessíveis aos
nossos sentidos.
Ora, o milagre, diretamente refere-se ou diz
respeito apenas às dimensões do pão,
indispensáveis porque sujeito imediato das qualidades
que as supõem: cor, sabor, gosto, etc... exigem algo
de extenso, incluindo nos limites de um certo
lugar por todos capaz de ser indicado.
É precisamente pelas dimensões que as
qualidades podem ser percebidas pelos
sentidos, e o pão consagrado pode ser partido,
multiplicado, ocupar um lugar, deslocar-se de um lado para o
outro do espaço.
Mas isso não autoriza a pensar que a presença
eucarística, seja comparável à de todas as
substâncias corpóreas. De fato, a presença do Corpo de
Cristo, sendo condicionada às dimensões do pão (e não às
Suas próprias dimensões), não pode dizer-se local,
mas sacramental, miraculoso. Cristo, por
conseguinte, está justamente onde se encontram as dimensões
do pão consagrado, e move-Se de um lugar para o outro, não
por Si Mesmo, mas por estas dimensões. Se adora em muitos
altares, é porque neles está presente, não como em
muitos lugares, mas “como no sacramento”,
ou seja, de um modo sacramental não
local.
A natural localização de uma
substância corpórea é possível apenas pelas dimensões
próprias da mesma: pelo que a idêntica substância individua
não pode ocupar, simultaneamente, mais lugares
circunscritivos.
Se tudo isso é certo, segue-se que o sinal
primário da real presença de Cristo são as
dimensões do pão consagrado, qualquer que seja
a sua grandeza: e isto porque, mesmo prescindindo da
transubstanciação, a substância do pão
conserva a sua própria essência, indiferentemente numa
hóstia inteira e num seu fragmento
dificilmente visível, como no resultado da limadela
de uma moeda de ouro – um grãozinho de pó que dela resulta
não muda de natureza: mantém todas as suas propriedades
organolépticas cientificamente susceptíveis de se verificar.
E por isso, as naturais propriedades do pão
consagrado, mantêm-se imutáveis, revelam-se e comportam-se a
transubstanciação não se tivesse verificado.
Ora, precisamente são a origem próxima de todos os fenômenos
que se lhes seguem, se é certo que toda a substância criada
é, por si mesma, inerte.
Não surpreende, por isso que o pão consagrado, em
particulares condições por irrevogáveis leis da matéria se
corrompa.
Isso não depende da substância mas
das suas qualidades, que se comportam como se
a substância do pão fosse ainda real. Falo de
qualidade mantidas pelas dimensões que
prodigiosamente suprem a matéria do pão,
sujeita a corromper-se, dando origem a novas substâncias,
como por exemplo a cinzas, em caso de incêndio...
E é sempre pela razão agora apontada que pão e
vinho consagrados podem respectivamente saciar e embriagar;
isto, que não depende diretamente das suas substâncias
(transubstanciadas no Corpo e no Sangue de Cristo), mas das
propriedades (ou energias) dos respectivos elementos.
Repito-o: não existe substancia criada que seja ativa por si
mesma...
Se, no culto eucarístico, os nossos sentidos se
deixam arrastar ou prender pelo invólucro sensível das
propriedades naturais do pão, ou seja, não atingem a
substância do Corpo de Cristo, qualquer comportamento humano
deixa inalterada essa mesma substância, tanto para o bem
como para o mal.
Ilude-se, portanto, quem pretende fazer sofrer
Jesus, pisando ou despedaçando uma hóstia consagrada: e
isto, mesmo abstraindo da atual condição de impassibilidade
de Cristo Ressuscitado. Em semelhante caso, o sacrilégio
ultraja apenas a Sua Pessoa, como uma blasfêmia pode ofender
Deus...
Deste modo, a misteriosa presença sacramental de
Jesus, fundada na transubstanciação enquanto
nada tira à Pessoa do Verbo Incarnado, tudo remete para as
situações ou disposições de espírito do homem, o qual da
Eucaristia, poderá fazer tudo o que quiser: honrá-la e
profaná-la... Não há nada mais frágil, modesto, vulnerável,
do que uma partícula consagrada.
Presta-se a todos os usos; está sujeita os riscos e
incidentes; é motivo das celebrações mais solenes e das
manipulações mais torpes e indecentes...; do amor mais
fervoroso e sublime e dos mais diabólicos gestos de desprezo
e ódio...; pode guardar-se em preciosos e artísticos
sacrários, e ser deitada ou abandonada, em armários
carunchosos e repletos de pó...
Todos hoje podem tocá-la, distribuí-la,
transportá-la, roubá-la: sacerdotes santos e leigos
irresponsáveis ou mesmo indecentes...
Quem não acredita, vê nela um fragmento de matéria
inerte, incapaz de se defender, opaca, sem vida, de nenhum
valor. Na Sua Cruz, o Senhor, moribundo, estava ainda
reconhecível como homem: “homem das dores”, mas sempre
homem, insultado por alguns, mas também chorado,
suplicado, bendito por outros...
Aqui, já não vejo nada: a Incarnação entende-se até
perder os Seus limites nos domínios imensos e obscuros da
matéria inorgânica, extremo limite da Onipotência
criadora... E é por ela que, do mundo o Verbo volta a subir
para o Pai, concluindo o ciclo da permanente aventura do
Amor, que Se sujeitou a um total esgotamento de Si Mesmo, o
Infinito.
PÃO E VINHO
Ao tradicional banquete dos judeus não podem faltar
pão e vinho, elementos
essenciais para a instituição do sacramento eucarístico.
Ora, que Jesus diga que o pão é o Seu Corpo,
não pode admirar nenhum dos Apóstolos, depois daquilo que
Ele Mesmo tinha explicado na sinagoga de Carfarnaum. Por
outro lado, motivo de surpresa, pelo menos num primeiro
momento, foi a peremptória declaração de que o vinho é
o Seu próprio sangue. Mas toda a dúvida foi
resolvida, não apenas por eles terem recordado que o Mestre
tinha acrescentado que o Seu Sangue é verdadeira
bebida, mas também o fato de lhes ter afirmado que
quem, além de comer a Sua Carne, beber também o Seu Sangue,
permanece n’Ele por uma inefável compenetração de amor.
Por isso, à distinta menção do pão e
do vinho corresponde a da carne
e do sangue. Por que razão, pois, distinguir
os dois elementos, como depois o afirmará São Paulo, ao
voltar a recordar e evocar a Última Ceia? E porque Jesus
ordena que repitam o mesmo rito, distinguindo a consagração
do vinho? Qual o significado desta liturgia?
É o que os Apóstolos, antes do Pentecostes, não
conseguiram compreender, apesar de o Mestre ter predito
muitas vezes a Sua Paixão e Morte e, em Cafarnaum, ter
declarado que a Sua Carne iria ser sacrificada pela salvação
do mundo.
Dados bíblicos de supremo interesse, de que a
Igreja primitiva intuiu muito bem o sentido, repetindo o
rito da Última Ceia, para celebrar sacramentalmente o
Sacrifício da Cruz, ou seja, a imolação do verdadeiro
Cordeiro que tira os pecados do mundo.
Como, pois, a Última Ceia é a antecipação
sacramental da Oferta cruenta do Calvário, assim também esta
é representada sacramentalmente em cada
celebração da Missa chamada precisamente Sacrifício
Eucarístico. Sacrifício que, reconciliado o homem
com Deus, não pode deixar de se concluir com essa
consumação da Vitima imolada símbolo da recuperada
amizade de Deus por parte dos fiéis, obtida pelos méritos da
Paixão expiadora e redentora.
Por isso, a Eucaristia compreende ou inclui
inseparavelmente o dúplice aspecto sacrificial
e convivial, no sentido de que um tem
valor primário absoluto, porque supremo ato de
culto referido a Deus que ofendido pelo pecado exige a
reparação oferecida pela Paixão de Cristo. Mediador-Chefe da
humanidade pecadora.
Pelo contrário, o valor do outro é relativo,
porque depende da eficácia do primeiro e refere-se ao bem do
homem: a redenção que o reabilita é
indispensavelmente condicionada à expiação
satisfaz a Justiça de Deus, muito embora a satisfação da
Justiça de Deus esteja por Ele liberalmente subordinada à
revelação da Sua Misericórdia, a quem compete a iniciativa
de tudo.
Deus não pode ser misericordioso com o homem, se o
homem, acima de tudo, não é justo com Deus no reafirmar o
sentido absoluto do Seu primado, de quem depende todo o seu
bem.
Que reduzisse a liturgia eucarística a um
convívio fraterno, privá-la-ia da eficácia redentora
que deriva do seu caráter essencialmente sacrificial.
Tudo se desenvolveria precisamente segundo a tendência
horizontalista que humaniza o rito, baixando-o ou
reduzindo-o ano nível de um fato ou acontecimento
social (comunitário) na exclusão da sua referencia à
Transcendência, à obra expiadora de Cristo, à realidade
histórica do pecado, ao sacerdócio ministerial da Igreja
hierárquica.
É tudo quanto está subentendido na distinta
consagração do pão e do vinho, elementos de um
banquete que não oferece outro alimento nem outra bebida
senão a carne e o sangue da Vítima sacrificada pela salvação
do mundo.
O QUE É, POIS, A SANTA MISSA?
É o momento de entregar-se e responder a esta
pergunta, para entender o sentido da escolha do pão e do
vinho, feita por Jesus, na instituição da Eucaristia: Só na
Missa temos a explicação de tudo.
Ela
“é algo mais que uma festa da união fraterna; é muito
mais que um banquete de amigos ou que uma mesa para pobres.
Não é pouco o momento de celebrar a dignidade humana, as
reivindicações ou esperanças puramente terrenas. É o
SACRIFÍCIO que torna Cristo realmente presente no
Sacramento” (João Paulo II. 20.3.1990. aos Bispos
brasileiros, na sua visita ad sacra limina).
Por isso, é a celebração sacramental do
Sacrifício do Calvário: o mesmo Sacrifício da Cruz,
celebrado por Jesus, mediante o Seu ministro, autorizado por
Ele a representá-Lo invisivelmente, sim, a agir em Seu Nome,
na Sua Própria Pessoa.
Sacrifício dito incruento, não porque
diverso do cruento, mas porque é o mesmo,
de que difere apenas na medida em que é oferecido sob as
espécies do pão e do vinho, elementos que,
distintamente consagrados, evidenciam simbolicamente a
violenta separação do sangue do corpo da vítima imolada.
Não é, porém, uma pura representação
simbólica-comemorativa de quanto aconteceu há mais
de vinte séculos, em Jerusalém. Certamente, é uma
representação, mas o seu simbolismo não resolve em
si ou só por si a realidade do SACRIFÍCIO:
compreendemo-lo ou abrangemo-lo, refletindo em que a
distinta consagração do pão e do vinho é o sinal da REAL
e ATUAL MORTE DA VITIMA. Os dois elementos consagrados,
de fato, já não são PÃO e VINHO, mas o próprio Cristo,
com o Seu Corpo morto e o Seu Sangue derramado. Por outro
lado, Cristo, como Mediador universal, não realizou
o Seu Sacrifício, mas REALIZA-O, porque EXPIA os pecados
cometidos da primeira à última geração humana, a respeito
das quais Ele mesmo é contemporâneo, não
podendo ser nunca, nem futuro nem
passado para nenhuma delas.
Três, pois, segundo o Magistério, são os
pressupostos fundamentais, e entre si inseparavelmente
ligados, do Sacrifício Eucarístico: o pecado de todos
os tempos, a transcendência do Verbo Incarnado,
a transubstanciação.
A Missa não é a assembléia dos fiéis.
Estes participam nela, mas não a
celebram. E tanto isto é verdade, que a Missa é
validíssima por si mesma, mesmo quando não esteja presente
nenhum fiel. Nem qualquer presidente pode
fazer de celebrante: mas apenas o SACERDOTE
que, em virtude do Sacramento da Ordem, representa Cristo
como Seu ministro.
Representando Cristo diante do Pai, ele representa
a Igreja. Seu Corpo Místico e, por conseguinte, também os
fiéis que são os Seus membros. É em Cristo,
pois, que é necessário fixar a atenção, uma vez que é Ele o
único verdadeiro Celebrante, principal oferente ou
oferecedor, como é a única verdadeira Vítima
principal oferecida.
Jesus é o próprio Verbo que, assumindo a natureza
humana, lhe participa, com o Seu próprio ato de ser –
filial- a infinita dignidade e poder que Lhe são próprios,
como Pessoa Divina que é. Dignidade e poder que a todas as
ações do HOMEM-JESUS conferem um valor imenso: precisamente
aquele que é necessário para fazer de mediador capaz de
reunir e conter em Si tudo quanto é criado, ou seja, de
transcender e compreender ou incluir todo o curso das
gerações humanas, e ser por isso o CENTRO a que todas e cada
uma delas convergem, podendo assim perceber os frutos da Sua
Mediação expiadora.
Por conseguinte, se, incarnando, Ele Mesmo Se
insere no tempo e Se reveste da natureza humana, sujeita-Se
às suas leis e experimenta-lhes as misérias...; continua,
porém, a salientar-Se e a dominar, pelo que é
contemporâneo de cada indivíduo que, pecando, O faz agonizar
na alma e no corpo. Portanto, a causa mais real da Sua
Paixão é todo o pecador, enquanto, segundo o plano da
Providência, a obra de juízes iníquos e de velhacos
fanáticos tem sido apenas o instrumento e como
que o símbolo das culpas humanas que,
ofendendo a Deus, não tem cessado nem cessarão de trespassar
o Coração de Cristo.
Conclui-se assim, que o delito dos Judeus é como
que o “signum” (sinal) de todos os pecados
que, cometidos ao longo de todos os séculos, são os
verdadeiros responsáveis de uma Paixão sempre em ato,
ou seja, nem futura para alguns, nem
passada para outros, mas sempre presente, a par da
mediação do Verbo Incarnado, no centro de todos os tempos:
Ele é Primeiro e Último, Alfa e Ômega, Princípio e Fim da
História.
Mais claramente: a Paixão não precede
o pecado, mas segue-o, sendo este a sua causa.
Não pode dizer-se que Cristo já sofreu pelas culpas do
gênero humano (pelo que eu ficarei livre de pecar), porque
sou precisamente eu, com as minhas culpas cometidas de um
momento para o outro, que O firo. Perfeito é o sincronismo
entre mim-pecador e Ele-morimbundo
Jesus deixará de morrer, com o último pecado do homem.
Para quê o
Sacrifício Eucarístico?
É
simples: para tornar possível à Igreja de todos os lugares e
tempos, a participação na Oferta cruenta da Cruz. Ou seja,
para que o pecador de todos os lugares e tempos, porque o
ofender a Deus, se torne responsável da Paixão de Cristo, de
forma a poder também fazer sua esta mesma Paixão, ou seja,
expiar as suas culpas e deste modo se redimir ou salvar. E
ele pode fazê-lo não apenas recordando uma
Paixão sofrida há milhares de séculos: mas, sobretudo,
instruindo ou compreendendo, à luz da fé, uma Paixão que,
quanto ao seu conteúdo de mistério, perdura para
além do rolar dos tempos num presente meta-histórico:
precisamente a Paixão que o homem provoca em Cristo, todas
as vezes que peca; aquela pela qual ele, fazendo-a sua, se
reconcilia com Deus.
A realidade dos fatos resume-se no pecado
do homem e no Sacrifício de Cristo
Sacrifício que o crente conhece pelo relato
evangélico, em que está descrito tudo o que se refere aos
seus elementos empíricos, conhecidos pelas testemunhas
oculares da Paixão e, sobretudo, pela fé que o faz intuir ou
compreender o seu sentido profundo, a sua finalidade
altíssima, a sua eficácia infinita.
Justamente aquilo que interessa à humanidade
inteira, que pode elevar-se a contemplar o Mistério, apenas
partindo do sensível; e daí, a necessidade de
um rito externo que o revele. E eis então o
SACRIFÍCIO EUCARÍSTICO. O qual, enquanto ou na medida em que
renova a Última Ceia, celebra o idêntico Sacrifício da Cruz
que, perfeito em si e por si irrepetível, é oferecido aos
sentidos do crente pela distinta consagração
do pão e do vinho, transubstanciados no Corpo e no
Sangue de Cristo.
Deste modo, a idêntica Imolação da Cruz oferece
duas vertentes: uma constituída pela humanidade do Salvador,
que sofre sob as aparências da natureza passível assumida
pelo Verbo, tal como os Seus contemporâneos puderam
observar, recordar e descrever, a nível do fenômeno ou da
crônica (sub epecie própria – sob as Suas
próprias espécies). A outra, sobrenatural, objeto de fé,
consiste no mistério do Verbo Incarnado, Vítima de
satisfação e redenção, velada sob as espécies sacramentais,
ou seja, sob as naturais propriedades do pão e do vinho,
distintamente consagrados (sub specie alienta
– sob espécies alheias).
E delas resulta portanto a única, intemporal,
REALIDADE do Mistério sob dois diferentes sinais
sensíveis e temporais:
- as carnes a jorrar Sangue de Cristo moribundo na
Cruz;
- as distintas espécies consagradas do pão e do
vinho, símbolo da violenta separação do Sangue, do Corpo do
Salvador.
Trata-se, portanto, de dois sinais: o
primeiro é NATURAL, perceptível pelos sentidos; o segundo é
SACRAMENTAL, inteligível pela fé, que abre o crente à
transcendente verdade de Cristo, Sacerdote-Vítima.
Só para ele a Missa é SACRAMENTO DO SACRIFÍCIO.
Ora, se a Imolação de Cristo apareceu uma só vez
sob as espécies da Sua natureza humana dolorosa, tendo
depois ressuscitado e passando a ser impassível...; verdade
é que são infinitas as vezes que ela pode apresentar-se sob
as espécies sacramentais, isto é, tantas quantas são as
celebrações eucarísticas, permanecendo sempre:
- idêntico o sacerdote,
- idêntica a Vítima,
- idêntica a oferta que Ele faz de Si.
Por conseguinte, se é certo que podem celebrar-se
inúmeras Missas único ficará sendo sempre o Sacrifício
por elas significado. Ou seja: a Muitas Missas
corresponde um só Sacrifício. Portanto, a
Missa, Sacramento do Sacrifício, foi
instituída para que os crentes pudessem participar no
Sacrifício,
mediante o Sacramento, e isto em virtude da
transubstanciação, pela qual o próprio Jesus,
corporalmente presente (como na Cruz) Se oferece, tanto ao
Pai como Vítima de expiação, como a nós, como Alimento de
vida eterna, significado pelas espécies sacramentais.
Segue-se que, faltando a transubstanciação,
a Oferta cruenta do Calvário acabaria por ser uma
simples recordação e um artigo de fé
na qualidade de Mistério: o qual não revelado aos sentidos
se não prestaria a culto externo nem à
Comunhão Eucarística sinal de unidade entre os
membros do Corpo Místico, necessitados do sensível para se
reconhecerem, se amarem e viverem juntos.
MESA CELESTE
“A Eucaristia, sentencia João Paulo
II, é, sobretudo, um sacrifício (...) O mistério
eucarístico, separado e sacramental, deixa simplesmente de
existir como tal” (Domin. Cenae 9.8).
O Papa sintetiza um cúmulo de definições do
Magistério, de catequeses dos Padres da Igreja e dos
comentários bíblicos da mais autorizada teologia católica.
Quando se repete que a Missa é o mesmo sacrifício da
Cruz, diferindo dele apenas porque o apresenta sob
as espécies do pão e do vinho distintamente consagrados, não
se faz mais do que afirmar que nela se não dá uma
imolação nova e tão pouco uma nova imolação
e da Oblação da Cruz: a liturgia eucarística não faz
senão pôr o Calvário no nosso altar.
Isto quer dizer mesmo que a Igreja não oferece um
“seu” Sacrifício distinto do de Cristo,
limitando-se a participar na Imolação do Calvário, a única
que na realidade expia e redime. De si própria
ela oferece apenas tudo quanto é necessário para a sua
participação, que é depois a liturgia eucarística
instituída pelo próprio Jesus naquilo que se refere ao
essencial do rito.
Ora, confundir-se-ia a verdade do dogma
eucarístico, supondo que a Missa fosse apenas SACRIFÍCIO: a
Igreja, seguindo a Tradição Apostólica, ensina que é também
e necessariamente, BANQUETE. Trata-se, porém, de um banquete
apenas comparado aos banquetes humanos por
analogia: no banquete eucarístico é oferecida ao crente uma
MESA CELESTE, porque “o pão” de que se
alimenta é o pão “VIVO DESCIDO DO CÉU”; “Pão”
que passou a ser o próprio Corpo de Cristo, sacrificado pela
salvação do mundo.
Por isso, “o sacrifício e o sagrado banquete
pertencem ao mesmo mistério, a ponto de estarem ligados um
ao outro por um estreitíssimo vínculo” (Paulo VI,
Euchar, Myser, 3/b).
Uma vez admitido isto, a unidade do mistério
“Sacrifício-Mesa” consente o precisar-se que a
Mesa brota do Sacrifício porque
imagem da comunhão de graça entre a alma e Deus,
restabelecida pela Oferta da Cruz celebrada por Cristo como
supremo ato de amor ao Pai e à humanidade pecadora. Por
outras palavras: a consumação das espécies eucarísticas é o
SINAL (símbolo) da sobrenatural assimilação
dos fiéis a Cristo Crucificado, sua Cabeça, e é neste
misterioso processo vital eu eles tornam a gozar (ou
confirmar) a sua própria intimidade com o Pai.
Por isso, apenas pela participação no Sacrifício de
Cristo (celebrado sob as espécies do pão e do vinho)
e pela conseqüente transformação mística n’Ele, é possível
realizar a comunhão com Deus, prelúdio de vida eterna.
“Mesa celeste”, por conseguinte,
essencialmente diversa da mesa “terrena”.
Nela, o “alimento” é o Corpo e o Sangue de
Cristo, ambos realíssimos, mesmo num simples fragmento
de pão e numa gota de vinho consagrados.
“Alimento” insuficiente para alimentar o
corpo, mas mais que abundante para saciar a
alma, realizando a inefável comunhão de amor com
Deus, em Cristo.
Comunhão de amor iluminada pela fé, por sua vez
sustentada pelos sentidos, pelos quais o fiel percebe as
naturais propriedades do pão transubstanciado no Corpo de
Cristo.
É pela transubstanciação, de fato,
que a Comunhão Eucarística é Comunhão com Cristo, Comunhão
com Deus, Comunhão com o mistério da Sua Vida. O crente,
pois, não se fica ou firma nas espécies sacramentais, objeto
dos sentidos porque, na realidade, o impulso do seu
pensamento atinge a Pessoa de Jesus. Se, comendo o pão
comum, me alimento da sua substância, assimilada pelo
organismo, através da percepção das suas qualidades
sensíveis, não vejo por que razão não possa alimentar a
minha alma, consumindo um “pão” que, apesar
das aparências, já não é pão,mas o Corpo de
Cristo...
É evidente que o discurso apenas tem este sentido
segundo a lógica da fé. Por conseguinte, negada a
transubstanciação, a Comunhão Eucarística, que é
comunhão com o Verbo-feito-carne, seria
impossível; pelo que, falar de Mesa Celeste,
não teria sentido algum. É intoleravelmente reduzido que
alguém se firme apenas em alimentar-se espiritualmente de um
pão-símbolo-de Cristo, e não de um
pão-tornado-Corpo de Cristo...
Este pressuposto pão-símbolo poderia
ser alimento apenas para um homem que, em
virtude da fé, prescinde do sensível;
precisamente para aquele que não seria verdadeiro homem, que
não viveria segundo as necessidades da sua natureza
composta, essencialmente, também de um corpo, com as
exigências e hábitos da vida humana e as suas
insubstituíveis relações sociais...
Jesus, segundo o dogma católico, preferiu ficar
conosco segundo a Sua própria natureza humana integral
que, pela transubstanciação, se oferece a
todos, através do sublime simbolismo do “pão”.
Que quer, pois, dizer receber a Comunhão? Como
pode verificar-se o encontro dos fiéis com
Cristo-Eucarístico?
a)
–
Recebe-a só materialmente¸ aquele que é espiritualmente
indigno dela, porque vive em pecado mortal. Ele, se
realmente recebe Cristo, é também certo que O ofende, porque
a Eucaristia foi por Ele instituída como sinal de amizade
dos crentes com Ele e entre si...;
b)
–
A Comunhão é recebida apenas espiritualmente, quando o
encontro é realizado apenas pela fé e pelo desejo dos fiéis,
que acreditam na presença real de Cristo e não podem
recebê-Lo também materialmente, apenas porque impedidos por
circunstâncias involuntárias;
c)
–
Comunhão verdadeira e completa é apenas a sacramental,
que corresponde a todo o homem, alma e corpo,
entendimento e sentidos, estado de graça e efetiva
participação na Mesa Eucarística, precisamente como a ele
mesmo Se oferece todo-o-Cristo, na totalidade
ou integridade da Sua constituição ontológica, ou seja, como
VEBRO INCARNADO.
Precisando um pouco melhor: receber a Eucaristia
não significa fazer a comunhão, mas sim
entrar em Comunhão com Cristo-Sacramentado; o que
exige o concurso de TODO O CRISTO, acolhido por TODO O
HOMEM:
- de todo-o-Cristo sacramentado, ou
seja, da realidade da Sua substância corpórea, com tudo
quanto ela comporta por natural concomitância;
- por todo-o-homem, ou seja,
principalmente pela sua alma, pela sua inteligência, pelo
seu amor e, consequentemente, pelo seu corpo, que inclui o
conteúdo externo, como cordial adesão a uma liturgia que
exige palavra e canto, auscultação e atenção, gesto de
súplica e de adoração...; a psicologia humana obriga a uma
tal interdependência entre a alma e o corpo,
entendimento e sentidos... Ilude-se quem presume
elevar-se apenas com a alma; reduz-se a uma marionete quem
limita o culto ao comportamento do corpo... Evidentemente
que a reciprocidade destas relações é inteiramente em
benefício da alma, porque a Comunhão sacramental é encontro
do espírito, contemplação do pensamento, abandono do amor.
O culto externo deve servir,
ou seja, subordinar-se ao interior, virado
para a Pessoa do Verbo: e é por isto que o banquete
eucarístico é mesa celeste, antecipação da
Bem–Aventurança Eterna.
Se esta “mesa” abre para a comunhão
com Deus em cristo, e se a comunhão é diálogo da alma com
Ele, que poderá então dizer a alma a Deus e Deus à alma? A
Deus, não lhe resta dizer mais nada, uma vez que chegou ao
ponto de fazer-se possuir por Cristo, segundo a Verdade do
Seu Verbo e a física realidade da Sua Carne.
Carne que envolve todo o mistério
cristão, sendo Carne do Verbo gerado pelo Pai, e com Ele, a
soprar ou exalar o Amor: a Eucaristia contém a
Trindade. Com Jesus, está também Maria, que Lhe
concebeu a natureza humana; está o coro imenso dos Anjos, a
indeterminada multidão dos bem-aventurados, o inteiro
universo dos corpos semeados pelo espaço infinito, com a sua
história, com o seu mistério. Porventura não é Ele a
Síntese pessoal de todo o criado e o criável?
Mas o crente que O recebe pode e deve lançar-se
para além do invólucro das espécies sacramentais até atingir
e perder-se no “seio do Pai” e participar na
Sua Bem-Aventurança.
Por conseguinte, é com todo o Seu próprio Ser que
Deus fala á alma, cuja correspondência ou resposta é
formulada segundo todos os graus da vida interior.
É o “Creio, Senhor!”, possível à
criança e ao adulto, ao convertido e ao místico... Todos, no
silêncio, podem recolher as capacidades da alma e ficar
absorvidos num comportamento de feliz admiração, de
adoração, de gratidão, de oferta.
A Hóstia consagrada é a prova tangível e mais
extasiante do Amor de Deus que, no Verbo, para além de Se
fazer “carne”, se oferece como Vítima no
Sacrifício que, sob as espécies sacramentais, atingiu os
extremos confins da matéria bruta: a Eucaristia realiza a
mediação contemplativa mais poderosa que todas as outras,
porque as reassume a todas. Na Hóstia consagrada, o
Tudo fez-Se nada...
E é por este misterioso aniquilamento
que mesmo o último dos fiéis pode sentir-se animado ou
estimulado a abrir-se com Ele: conversar sobre a Sua
vivencia terrena, relembrar triunfos e rejeições, bênçãos e
ultrajes, alegrias inefáveis e tristezas morais...
Qualquer poderá reconhecer e meditar no Seu
agradável e misterioso olhar, no timbre da Sua voz, na
amável ou amorosa majestade dos Seus gestos, nos sublimes
momentos de intimidades vividos com Sua Mãe, com os
discípulos, com os amigos...
E poderemos também espiá-Lo, enquanto, de noite,
mergulha na adoração ao Pai, no mais absorvido e solene
silêncio da natureza.
Penso que Ele Mesmo Se compraz em ouvir-Se
relembrar, por quem Lhe recorda os Seus discursos, os
prodígios, as controvérsias com os Fariseus, as
horas de angústia, a suprema desolação da Cruz, como também
a Sua vitória sobre o pecado e a morte...
Comungar com Ele significa também contar-Lhe, com
inteira liberdade, as nossas desventuras, os problemas, os
erros, as esperanças... como teríamos feito, se tivéssemos
tido o privilégio de O encontrar e viver com Ele na Terra,
acolhê-Lo em casa...
Porém, talvez com a nossa fé de hoje, teríamos
mudos, com o coração cheio de comoções, absorvidos no
contemplar simplesmente o Seu Rosto, fixar-Lhe o olhar, para
depois desatar a chorar e confessar-Lhe a nossa imensa
ternura de pobres criaturas, apenas necessitadas da Sua
Infinita Misericórdia.
Mas, com mais razão ainda, esquecendo-nos de nós
mesmos, com tudo quanto nos diz respeito e tudo quanto por
Ele Mesmo foi criado, admirados ou maravilhosos com o
possuir o Imenso e o Eterno, abstraindo ou esquecendo-nos de
todas as sombras e imagens, preferimos perder-nos no
“Seio do Pai”. Contemplar o mistério da Sua Vida,
mergulhar no abismo das razões pelas quais criou o mundo e
lhe dirige ou governa a história. Na inefável intimidade com
Ele, no Verbo feito carne e pão, preferimos adorar, calar,
gozar.
E tudo isto, antes que nos levantemos da Sua
“mesa”, para retomar o caminho, neste desolado
deserto da vida.
“Ficai conosco Senhor!”
Vítima sacrificada pelos pecados do mundo e oferecida como
alimento de vida eterna, Jesus fica conosco, Hóspede, Amigo,
Confidente, Fonte de Graça, fiel à promessa de nos não
deixar órfãos. Contra a heresia protestante, a Comunhão
Eucarística não exclui que Ele prolongue a Sua presença real
no Sacrário.
Os
termos do dogma são inequívocos:
essa presença dura, até que as espécies sacramentais se
mantenham inalteradas e, por conseguinte, elas mesmas são
seu “sinais” mais certo para os crentes. Comprova-o a
própria impiedade dos profanadores que, embora não podendo
prejudicar fisicamente a pessoa de Cristo, ofendem, no
entanto, a Sua Pessoa, que está justamente presente, onde
quer que as propriedades de pão indiquem presença do Seu
Corpo.
Corpo
ressuscitado, glorioso, impassível, mas permanecido numa
condição de morte, porque sacramentalmente
separado do Seu Sangue: a Vítima, morta, prolonga
virtualmente o Sacrifício celebrado. No sacrário, de fato,
em virtude do sinal, não temos o Ressuscitado,
mas o Crucificado. Se Ele nos redimiu, morrendo (e
não já ressuscitado), convinha que ficasse como nós,
sob as aparências dessa Sua Morte que continua a gerar-nos
para a Vida, aplicando-nos os méritos da Sua Oferta cruenta;
e não cessa de ensinar-nos a levar a nossa Cruz, a morrer
para nós próprios.
Atualmente, na Sua condição de “ressuscitado”
o Seu Corpo (por natural concomitância), vive
e sente. Corpo informado pela alma racional que pensa e ama,
como o exige a eminente perfeição da natureza humana feita
Sua própria pelo Verbo. Por isso, o Homem – Cristo -
Jesus, no Sacrário, está inteiro ou completo como quando
vivia na Palestina, e está presente para nós, como já o
estava para Seus familiares e amigos. Não importa se
não Se vê: os sentidos não são critério absoluto de verdade:
infinitas coisas são realíssimas, muito embora não sendo por
eles percebidas.
Como quer
que seja, nenhum entendimento criado poderia alguma vez dar
- se conta da presença eucarística: os acidentes do
pão, naturalmente, autorizam-nos a supor apenas a
substância do mesmo, como único sujeito capaz de o fazer
existir, comunicando-lhes o próprio ato de ser ou
existir. Pela transubstanciação, de fato,
não falta toda a relação ontológica entre propriedades
do pão e substância do Corpo de Cristo,
permanecendo apenas a Palavra de Deus a assegurar-me de que
esta é real, mesmo sob acidentes que Lhe não são
próprios. Não vejo, aliás, porque razão Deus, Causa
Primeira, com a Sua Onipotência, não possa suprir a
virtude da substância do pão (causa segunda),
fazendo-o de maneira que existissem as propriedades deste
sem o seu natural sujeito. É este um dos aspectos essenciais
do mistério eucarístico.
Por
isso, onde está uma hóstia incorrupta, aí mesmo descubro e
adoro todo o Cristo, com Seu Corpo, a Sua Alma, a Sua
Divindade.
Divindade do Verbo a quem pertence o mesmo poder realizador
do Pai, e que opera mediante o instrumento da
Sua humanidade.
Trata-se
de uma presença, não simbólica, mas real
e substancial, condicionada, quanto à Sua
localização sensível, às dimensões do pão, feitas subsistir
prodigiosamente para tornar possível o culto eucarístico.
Culto de
adoração, se devo acreditar que a hóstia consagrada é
adorável, não pelas espécies sacramentais, mas
pela sustância do Corpo de Cristo, que veio
substituir a do pão. Adoro-O a Ele, Pessoa divina
subsistente na natureza humana, e não os acidentes
do pão e do vinho, que permanecem realmente distintos de
Cristo como entidades criadas, pelo que pecaria por
idolatria quem as adorasse por si mesmas.
Mostraria
ignorar os próprios termos do dogma, quem supusesse que a
teologia católica identifica a Pessoa com o
sinal. O mais humilde dos catequistas sabe que a
identificação da Pessoa de Cristo com o
sinal sacramental, autorizaria a atribuir-Lhe a Ele
Mesmo as qualidades do pão, contra tudo quanto de há séculos
tem sido demonstrado sobre a impossibilidade que os
acidentes do pão se tornem acidentes
do Corpo de Cristo, por eucarístico ou glorioso que seja.
É por
isso que, como acima se notou o Corpo de Cristo não pode ser
alcançado ou atingido por agentes externos: enquanto é
certo que, tal como os atos de amor Lhe são agradáveis,
assim também os comportamentos hostis O ofendem.
E daqui o
dever da adoração e da reparação,
praticada sobretudo depois das aparições do Sagrado
Coração a Santa Margarida Maria Alacoque: foi enorme o seu
contributo para a vida da Igreja destes últimos séculos.
Precisamente a reparação lembrou ao mundo o
significado mais sublime da Oferta cruenta da Cruz, tornada
bem evidente pela liturgia eucarística. Ela mesma constitui
a finalidade fundamental da mediação redentora de Cristo, em
que Maria Santíssima participou num grau eminente; única de
fato, foi a Sua compreensão da gravidade do pecado,
como ofensa a Deus, que exige a reparação como via
exclusiva da salvação...
Especialmente a partir do ano 600, a espiritualidade
reparadora afirmou-se deveras, estimulando a procura
ou investigação teológica, iluminando a vida pastoral,
promovendo a fundação de Institutos religiosos, inspirando o
próprio Magistério... A história documenta um especial
florescimento de iniciativas reveladoras de uma
surpreendente tomada de consciência do ministério
Eucarístico, que abre as almas mais vigilantes a essa
compaixão – expiadora, o aspecto mais profundo da
vitalidade do Corpo Místico...
Refere-se
ao Ministério Eucarístico a habitual linguagem dos Santos,
absortos até a loucura, pela Sua realidade, indicada (não
constituída) pelas espécies consagradas... É
justamente a linguagem da Igreja docente que, elabora pela
mais prudente e ajuizada ou penetrante teologia de todos os
tempos, foi feita justamente pelo atual Pontífice, o mais
autorizado intérprete da Tradição eclesial (Estamos nesse
momento em 1994)
“ A
visita ao Santíssimo Sacramento
(havia
declarado João Paulo II, no dia 29 de setembro de 1979)
é um grande tesouro da Igreja Católica. Ela mesma
alimenta o amor social e oferece-nos a possibilidade de
adorar, de agradecer, de reparar e de suplicar. A benção com
o Santíssimo Sacramento, as Horas Santas e as Procissões
Eucarísticas são outros tantos e bem preciosos elementos da
(nossa) herança, em pleno acordo com os
ensinamentos do Concílio Vaticano II (...).
Cada ato de reverência, cada genuflexão que fazemos diante
do Santíssimo Sacramento é importante, porque é um ato de fé
em Cristo, um ato de amor a Cristo. “E cada sinal da cruz,
todo gesto de respeito feito cada vez que passamos diante de
uma igreja, é também um ato de fé...”.
E como
poderia justificar-se um tal culto, se a presença
eucarística não fosse real e adorável? Só
atuando com uma tal presença Jesus nos pôde ter prometido
que nos não iria deixar órfãos. Presença pela
qual Se fez “alimento” e “bebida” das almas,
realizando entre Si e nós essa inefável simbiose de graça,
desejada e cobiçada por todos quantos O amam...
De resto,
só uma presença devida à transubstanciação do pão e
do vinho sob as distintas espécies dos dois elementos pôde
tornar-nos participantes do Seu Sacrifício... Só a
instituição do Sacramento, culme da
super-Realidade de Cristo nos consentiu conviver com Ele,
contempla-Lo nos nossos Sacrários, e devolver-Lhe amor pelo
AMOR.
Primeira Conclusão:
A EUCARISTIA É TUDO
A afirmação corresponde rigorosamente à
verdade objetiva do dogma.
Se a Eucaristia é o próprio Jesus na condição sacramental
que atinge ou resume o seu mistério, é fácil intuir que o
Cristianismo tira dela a consistência ontológica e histórica
que o faz evidenciar ou sobrepor a todas as religiões do
mundo.
Na realidade, a Eucaristia compendia ou
reassume todas as verdades reveladas, é a única
fonte da graça, é a antecipação da bem-aventurança,
recapitulação ou sumário de todos os prodígios da
Onipotência.
Como na encarnação, o Verbo Se não separou do Pai,
nem do Espírito Santo; assim também, sob as espécies
sacramentais, a vida trinitária arde em toda a sua
misteriosa riqueza. Na hóstia Consagrada está todo o
Paraíso. A solidão e o abandono de inúmeros Sacrários da
Terra é compensada desmesuradamente pela adoração dos Anjos,
pelo amor dos bem-aventurados. No gelado silêncio das
nossas igrejas, com Jesus, permanecem inseparavelmente a
Virgem Maria e São José, exultam os Patriarcas e os
Profetas, rejubilam os Apóstolos e os Mártires, cantam em
coro os Santos e a multidão incontável dos justos.
Seria verdadeiramente absurdo supor que o Rei não
fosse acompanhado e louvado pela Sua corte...; que no
Mediador não convergissem os seres do Universo inteiro...
Ele embora sob as dimensões de um fragmento de matéria é o
Arquétipo, o Fim de toda a Criação.
E é justamente a Sua condição sacramental que,
velando o poder e a Glória de Cristo Ressuscitado, que
evidencia a Sua Imolação, qual milagre dos milagres do Amor
de Deus: na Eucaristia, “está encerrado todo o bem
espiritual da Igreja” ( Presbit. Ordinis, 5). Ela é
“o culme e fonte de todo o culto e da vida cristã”
( Código do Directo Canônico, Cân. 897); “é como
que a soma e o Centro da Sagrada Liturgia”
(Pio XII, Méd. Dei, 57).
Por isto, “entre todos os Sacramentos, é a
Santíssima Eucaristia que leva a plenitude, a iniciação do
cristão” (João Paulo II. Dominicae Cenae, 7);
é por ela que este se insere plenamente no Corpo Místico
(Presbit. Ordinis, 5). Por isso, “fim e perfeição de
todos os Sacramentos”, é a Eucaristia:
eles conferem a graça que torna os fiéis dignos de a
receber” (São Tomás de Aquino, Summa Theológica,
q.73, art. 3, c).
Por outro lado, Fonte de Graça distribuída pelos
Sacramentos, é a vítima sacrificada na Cruz e
tomada evidente pelas espécies eucarísticas do
Sacramento dos Sacramentos. Por conseguinte,
“a Eucaristia constrói a Igreja” (João Paulo
II, Dominicae Cenae, 4), é o Centro da comunidade dos
cristãos” (Presbit. Ordinis, 5); representa e produz
“a unidade dos fiéis que constituem um só Corpo em
Cristo” (Lumen Gentium, 3)
Segue-se que “não é possível que se forme
uma comunidade cristã, a não ser tendo como raiz e como
fundamento ou base, a celebração da Sagrada Eucaristia, da
qual deve pois tomar as ações ou iniciativas qualquer
educação tendentes a formar o espírito de comunidade”
(Presbit. Ordinis, 6).
Se para a Igreja, é isto mesmo a Eucaristia, a
eficácia da atividade missionária está necessariamente
condicionada à sua influência, sendo “Fonte e Cume de
toda a evangelização” (iv. 5). Por isso, a fé no
mistério eucarístico, considerado em toda a sua riqueza que
faz dele a síntese da Revelação Cristã, inclui uma tal
ortodoxia que, ao católico, a seu respeito, não lhe resta
nada mais que acreditar em nada a esperar senão dela.
Em suma, “A Eucaristia tem força ou virtude
de síntese na nossa religião; síntese doutrinal porque,
sendo ela quase um prolongamento da Incarnação do Verbo de
Deus no meio de nós, e sendo uma renovação sacramental do
Sacrifício Redentor de Cristo, TODA A REVELAÇÃO SE CONCENTRA
NESTE PONTO FOCAL, o mais misterioso e o mais luminoso da
nossa fé, e síntese existencial, porque neste Sacramento do
Pão do Céu, toda a realidade, toda a virtude, toda a
derivação da vida cristã encontra a sua referência e o seu
alimento...” (Paulo VI, Catechesi, 21.8.1968,
para o XXXIX Congresso Eucarístico Internacional de Bogotá,
em 18 a 25 de Agosto de 1968).
“Encontrareis tudo na Eucaristia: a palavra
de fogo, a ciência e os milagres!”, respondia São P.
G Eymard, a quem se lhe dirija, para obter graças.
“NÃO
TENHO MAIS NADA A DAR-VOS. TENDES A EUCARISTIA: QUE MAIS
QUEREIS?”. “DEPOIS DELA, NÃO HÁ MAIS QUE O CÉU!”
Segunda conclusão:
EUCARISTIA OU NADA
Uma
afirmação destas só tem sentido para os crentes, que não
são, nem os ateus que não crêem em Deus, nem os
Hebreus e os Muçulmanos, que não crêem em Cristo, nem os
Protestantes, que não crêem na Igreja Católica,
Apostólica, Romana.
Dirijo-me, pois, aos membros desta, eclesiásticos
e leigos, para concluir, com uma série de considerações
radicais, próprias para fazer pensar a sério, para decidir
de uma vez para sempre, qual deve ser o comportamento de
cada um nos seus confrontos com o Cristianismo, de adesão ou
de rejeição.
O dogma eucarístico, tal como é
proposto, explicado, definido e vivido na Igreja, desde a
sua origem, implica a fé na
verdadeira, real e substancial PRESENÇA DE CRISTO.
É este o ponto de que parto. Trata-se do dogma
mais conhecido e discutido, tendo empenhado a reflexão
teológica há mais de um milênio... Para o mesmo convergem
todos os atos de culto. Verdade é que ele é o fundamento
insuprimível da vida espiritual dos fiéis, o Centro de
que irradiam todas as iniciativas e formas do dinamismo
eclesial.
E então: se a presença de Cristo nos nossos
sacrifícios não é real, no sentido defendido pelo Magistério
contra o Protestantismo, A Igreja Católica não tem nenhuma
razão de existir. Nas hipóteses, esta seria o produto da
mais colossal impostura.
- Aludindo à presença real, derivada
unicamente da transubstanciação, o pão
consagrado reduzir-se-ia a um símbolo
de Cristo e o pão ficaria apenas pão, mesmo que as palavras
da consagração lhe tivessem conferido um significado e
uma virtude que ele antes não tinha.
- Negada a transubstanciação, não se
daria a real presença de Cristo, COMO PRINCIPAL
SACERDOTE OFERENTE A PRINCIPAL VÍTIMA OFERCIDA. A
Missa, por isso, não seria a celebração sacramental do
único, perfeito e irrepetível Sacrifício da Cruz.
Através do simbolismo do pão consagrado, a
Missa não seria senão a memória daquilo que aconteceu no
Calvário. O rito, nessa hipótese, não seria celebrado por
Cristo-Cabeça; mas pela Igreja-Corpo,
que se limita a recordar aquilo que fez
Cristo-Cabeça.
- A Missa, se não é idêntico Sacrifício da Cruz,
sacramentalmente oferecido, não exige nenhum sacerdote que a
celebre na Pessoa de Cristo... concluir-se-ia que todos os
fiéis seriam ou estariam autorizados a reevocá-lo, mesmo que
sob a direção de alguém, digno e capaz de fazer as
funções de presidente da assembléia.
- Na Igreja Católica, a Hierarquia é
fundada no Sacerdócio Ministerial. Todos os
seus poderes, de fato brotam daquilo que, em virtude do
Sacramento da Ordem, torna o presbítero capaz de
realizar ou atualizar a obra expiadora e redentora realizada
por Cristo com o Sacrifício da Cruz, suprema fonte de todo o
bem, ou seja, de toda a luz da verdade e de
toda a graça necessária para viver santamente e salvar-se: a
faculdade de ensinar e de
governar não tende para outra coisa.
- Por conseguinte, se não se desse O SACERDÓCIO
MINISTERIAL, não se daria sequer Hierarquia: aquela que, na
Igreja, para além de dirigir, resolve infalivelmente, em
nome de Cristo, todos os fundamentais problemas da fé e da
moral.
- Em tal hipótese, à supressão do sacerdócio e da
hierarquia, seguir-se-ia o toldar ou apagar-se
a luz da Revelação positiva, desde sempre
interpretada e proposta pelo magistério infalível da Igreja,
assistida pelo Espírito de Sua Cabeça invisível, Cristo,
Sacerdote e Vítima, Pastor e Mestre da Verdade.
- Faltando o magistério da Igreja,
termos o verdadeiro ocaso da civilização cristã, pelo que o
mundo voltaria à condição espiritual em que vivia antes de
Cristo, e na qual, depois, se veio a encontrar, sempre que
tem rejeitado a Sua mediação redentora, contando apenas
consigo, ou seja, esbracejando na escuridão, na ignorância e
na angústia da dúvida, que têm gerado interpretações, as
mais contraditórias e absurdas, dos máximos problemas da
existência... Ficando inteiramente subjugado ou esmagado sob
a tempestade de paixões que o aviltam, até ao próximo
embrutecimento, o exaltam até a loucura e à violência, que
tudo desagrega e aniquila.
Estas reflexões são destinadas a todos os fiéis,
mas, sobretudo ao Clero: aquilo que costuma fazer boa figura
na teologia protestante, que invade os centros
católicos de estudo, propaga-se através de revistas e
jornais, incarna-se numa prática litúrgica que
insensivelmente, por culpa de pastores desprevenidos, vai
cada vez mais escurecendo a consciência do povo, ao redor do
mais sublime de todos os mistérios cristãos. Escrevi, não
tanto como crente e teólogo,
mas como historiador devidamente informado de
dados absolutamente certos e definidos pela lógica que os
coordena de um modo irrefutável.
Dirijo-me, repito, sobretudo aos sacerdotes:
- Que tratam Cristo-Eucarístico como um
objeto, reduzindo-lhe a realidade substancial e
pessoal a um vazio “símbolo”;
- Que rejeitam o caráter sacrificial
da Missa, para celebrar triunfalisticamente uma
Ressurreição de Cristo que é apenas efeito da Sua
morte;
- Que
jamais compreenderam nem apreciaram o seu próprio
sacerdócio, cuja dignidade os faz salientar-se ou elevar-se
acima de todos os fiéis, com os quais, pelo contrário,
demagogicamente, se comprazem em apresentar-se como sendo do
mesmo nível; não aceitam a Hierarquia Eclesiástica, fundada
na Ordem sagrada, pela qual os seus membros são autorizados
a representar, como Seus ministros, Cristo-Cabeça do Corpo
Místico e continuar assim a Sua obra redentora, ensinado,
santificando e governando.
A todos estes, digo:
“Vós,
não acreditando no vosso sacerdócio, não tendes
autoridade alguma sobre os fiéis, pelo que deveis renunciar
ao vosso ministério e deixar assim de enganar o povo que vos
segue, apenas porque vos considera ministros de Cristo,
membros da Hierarquia. Se, não acreditando no vosso
sacerdócio, vos pondes ao nível de todos os comuns crentes e
por isso mesmo não podeis constituir uma categoria de
pessoas de respeito, com privilégios e isenções perante o
Estado, sem que vos distingas dos outros cidadãos, ou de
seguidores ou sequazes de outras confissões religiosas...”.
Se não estais conscientes, nem ciosos do vosso
sacerdócio ministerial, o estudo da
teologia como ciência de Deus que é, não é um dever
para vós; pelo que podeis e deveis procurar uma outra via de
cultura, pelo menos para salvar o vosso decoro pessoal e
assim encontrardes com que descortinardes um outro meio de
subsistência, como todos os honestos e honrados cidadãos.
“Vós, se presumis ensinar em nome da Igreja
Católica, ficai sabendo que as vossas convicções
podem apenas arruína-la ou destruí-la, fazendo-a atacar como
a mais iníqua sociedade humana, que há milênios, abusando da
ignorância e da boa fé de milhões de criaturas, teria
humilhado a todos, a ponto de impor que se preste um culto
de latria a humildes alimentos da mesa humana.
Foi por isso que a Igreja, por culpa vossa,
sofreu, no decurso dos séculos, a repressão dos Governos,
decididos a atingir-vos principalmente a vós, como os mais
ignóbeis charlatães e parasitas da sociedade civil. Se vós
disserdes, ou fizerdes compreender, ao público, que no
Sacramento do altar, não está ninguém,
todos ficarão autorizados a condenar-vos como os mais ímpios
mistificadores da história.
DESPEDIDA
Termino
um livro de estudo, não de caráter devocional, mesmo que o
assunto me tenha obrigado às vezes a deter-me para refletir
e adorar.
Mas isso foi deveras provocado pela persistente
ação agressiva atirada contra o Ministério Eucarístico, por
alguns pretensos teólogos e liturgistas católicos, seguidos
por uma corrente do Clero que contagia fiéis menos avisados
ou informados e feverosos, defendendo a pior interpretação e
aplicação da reforma litúrgica.
O tom francamente decidido do escrito, corresponde
à sua obra subversiva, o mais possível insidiosa ou astuta,
insinuante e gradual, aparentemente respeitadora e delicada.
Para torná-la mais eficaz junto da opinião
pública, costumam ou escolheram eles mesmos classificar de
tendências direitistas, tradicionalistas e lefebristas,
todos quantos os contestam, presumindo ser apenas eles os
únicos sábios, moderados, abertos ao espírito do Vaticano
II, informados do seu ecumenismo.
Mesmo que o Concílio, de índole prevalentemente
pastoral, se tenha limitado a confirmar a anterior
magistério solene e ordinário da Igreja, os novos
profetas mostram não saber que, na área da única
verdade autêntica, não se dá, nem direita
nem esquerda... Mas sim que a Tradição por nós
invocada é fonte da Palavra de Deus... Que verdadeiro
ecumenismo é apenas abertura aos não crentes orientada
no sentido de propagar a fé sempre propagada pela Igreja
Católica..., e que a pessoa e obra de Mons. Lefebre
não tem nada senão a ver com uma exposição doutrinal
empenhada unicamente a defender a Verdade e a sintonizar com
a Tradição.
De todos aceito e agradeço apenas a indicação de
algum involuntário desvio da via indicada pelo Magistério, à
luz de uma documentação de tal modo conhecida, que me
pareceu até supérfluo citar uma vez ou outra.
E não menos agradecerei algum revelo crítico a
respeito da elaboração especulativa do dogma. Não me bastou
acreditar, tendo também querido
compreender, pelo menos quanto basta para não
embater ou chocar contra evidentes princípios da razão.
É precisamente a “fides quaerenes intelectun”,
em que Santo Agostinho me precedeu (Sermão 43,c.7,n.9
PL38,258). O seu mesmo ardor na procura da verdade me
estimulou a enfrentar problemas particularmente árduos:
“Rapinur amoe indagandar veritatis” (De Trinit.
I c.5, n.8, PL42, 825).
E na fadiga, ás vezes duríssima, ajudaram-me as
grandes asas da autoridade e da razão:
“Nulli autem dubium est gemino pondere nos impelli ad
discendum, AUCTORITATIS ATQUERATIONIS”. (Contra
Academ. III c. 20, PL 32 957).
Finalmente, não hesito em declarar que, para
conduzir a investigação com a devida seriedade no sulco da
tradição patrística, preferi manter-me fiel ao mais genuíno
tomismo, segundo a recomendação do Vaticano
II.
A falta de citações de São Tomás, em preciosos
textos que lhe são bem próprios, mas que teriam alongado e
sobrecarregado a exposição, é substituída pelas notas
acrescentadas a este texto, que seguidamente publico a jeito
de apêndice, oferecendo aos mais motivados e
empenhados a possibilidade de ampliar e aprofundar a
investigação.
O sóbrio e límpido estilo de São Tomás consentirá
a todos a surpresa de descer ao próprio CORAÇÃO do Corpo
Místico, e perder-se na dimensão infinita do seu amor:
“Ó pastor e pastagem,
Sacerdote e Sacrifício,
Alimento e Bebida dos eleitos,
Pão e Vinho, alimento do espírito,
Remédio na Enfermidade quotidiana,
Mesa suavíssima!...”.
(Sermão
da festa do Corpo de Cristo)
Não surpreende que os adversários do dogma
eucarístico sejam ainda, na pista de Lutero, sobretudo os
teólogos mais irredutivelmente hostis a São Tomás.
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