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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XVIII.
Da acusação dos pecados da absolvição e penitência
D.
—
Padre, em quê consiste a confissão?
M.
—
A confissão, diz o catecismo, consiste na acusação
distinta dos pecados feita ao Confessor para receber a
absolvição e a penitência.
D.
— O
quê significa a palavra distinta?
M.
—
Quer dizer que acusar os pecados em geral não é o
suficiente, como por exemplo: eu pequei contra a lei de Deus
e da Igreja... Pequei por blasfêmia, por furto, por
impureza, etc... Devemos acusá-los distintamente, como
violações, mais ou menos graves, deste ou daquele
mandamento, manifestando o número deles, e além disso as
circunstâncias que lhes mudam a espécie.
D.
—
Padre, deve-se também dizer o nome das pessoas companheiras
de pecado?
M.
— Não, a confissão deve ser prudente; não devo dar a
conhecer os pecados dos outros; não se diga o nome do
cúmplice, porque nunca é lícito desonrar alguém.
D.
— Nesse caso como é que se pode manifestar certos pecados e
as circunstâncias que lhes mudam a espécie?
M.
— No caso disso não ser possível sem indicar as pessoas com
quem se pecou, deve-se manifestar não o nome, mas a
qualidade, ou o grau de qualidade, ou o grau de parentesco
que se tem com as mesmas. Diga-se por exemplo: irmão, irmã,
primo, um parente próximo, uma pessoa religiosa, etc... E se
o Confessor fizer perguntas, o penitente deve responder com
toda a sinceridade, pois que ele interroga justamente para
suprir a algum esquecimento da parte do penitente, para
conhecer melhor a espécie, o número, e as circunstâncias dos
pecados. Todavia, a regra é sempre a mesma: que nunca
seja revelado o nome do cúmplice do pecado.
D.
— O quê diz dessas mulheres que confessam as culpas do
marido e dos filhos?
M.
— Digo que fazem muito mal!
D.
— Eu ouvi contar que um homem, indo confessar-se logo depois
da mulher recitou o Confiteor e depois se calou. Como o
Confessor o incitava a dizer os seus pecados, respondeu:
— O
senhor já os conhece Padre; a minha mulher já os disse
todos: ouvi-os distintamente!
M.
— Essa mulher merecia a lição dada a esta outra.
Um
dia, uma dessas mulherzinhas que são o tormento dos maridos,
apareceu no confessionário e foi logo dizendo:
—
Padre eu sou uma infeliz: tenho um marido bestial. Ele
berra, impreca, blasfema, profana os dias santificados,
freqüenta botequins!
— E a
senhora ajuntou o Confessor.
— Eu
sou uma pobre mártir, mas ele, meu marido, goza, come, bebe,
passeia e, se alguma vez eu falo, ele logo levanta as mãos
contra mim.
— Mas
a senhora, como se comporta?
— Eu?
Eu não faço nada: o mau exemplo da família é ele; é a ruína
da casa, o meu desespero.
—
Basta! Já entendi; continue a suportar o seu purgatório aqui
na terra e, enquanto isso reze por penitência três
Ave-Marias pelos seus pecados; mas reze também três vezes o
Rosário inteiro, ou seja três vezes os quinze mistérios,
pelos pecados de seu marido.
—
Pelos pecados de meu marido? Se ele os cometeu, que reze a
penitência!
— Ele
os cometeu, mas quem os confessou foi a senhora e a
penitência se dá á pessoa que se confessa!
— E,
fechando a portinhola, foi-se embora, deixando-a a pensar
que não se deve confessar os pecados de outrem.
D.
— O que quer dizer "confissão integral?"
M.
— Quer
dizer que devemos confessar todos os pecados mortais de que
nos lembramos depois de um exame diligente, e também os que
não tínhamos confessado, ou confessado mal nas confissões
passadas.
D.
— Qual a ordem que se deve observar para a acusação?
M.
—
Seria bom confessar antes de tudo os pecados; depois
expor as dúvidas, as penas e temores, tudo aquilo, enfim,
que perturba a consciência. Seria ainda aconselhável
confessar primeiramente os pecados mais graves, os que se
cometem com maior freqüência e que constituem a paixão
predominante. O empenho que demonstrarmos nessa luta contra
o defeito predominante, além de ser um tormento que nos traz
proveito, ajudará o Confessor a nos curar melhor.
D.
— Em quê consiste a sinceridade?
M.
— A
sinceridade consiste em manifestar singelamente tudo o que
interessa à própria alma, sem esconder nada por temor ou por
vergonha, sem diminuir o número das faltas, sem calar as
circunstâncias que revelam toda a nossa miséria, mesmo em se
tratando somente de culpas veniais e imperfeições.
Não é
preciso, porém, cair no exagero e fazer como alguns homens e
rapazes que, chegando-se para o Confessor desencadeiam uma
chuva de blasfêmias e palavrões grosseiros e por mais que o
Confessor procure refreá-los continuam imperturbáveis a
repeti-los todos sem exceção.
Nem se
deve proceder como certas mulheres que repetem as
imprecações que costumam lançar contra o marido, as crianças
ou os animais.
Também
não devemos imitar aquela moça simples demais que, tendo-se
acusado de ter cantado uma canção, e, tendo o confessor
perguntado que canção era, se pôs a cantá-la em voz alta no
confessionário, estando a Igreja repleta de gente!
D.
— Oh, que simplória! Porém é preferível exagerar para mais
do que para menos, não é Padre?
M.
— Isso é que não! Não devemos agravar propositadamente
a nossa culpabilidade, nem acusando culpas não cometidas,
nem assegurando as que são duvidosas.
D.
— Eu não me importo de parecer mais culpado do que realmente
sou, contanto que esteja certo de estar fazendo uma boa
confissão.
M.
— Isso é zelo exagerado, meu caro, e que não merece
aprovação. Será que você age dessa forma com o médico,
quando se trata de tomar remédios ou de se submeter a uma
operação?...
Vamos sempre para a frente com a sinceridade tão recomendada
por Jesus Cristo!
D.
— Finalmente, Padre, o quê significa: a confissão deve ser
humilde?
M.
— Significa que à integridade e à sinceridade na
acusação devemos acrescentar a humildade. Humilhar-nos o
mais possível deve até ser o nosso principal empenho, porque
quanto mais alguém se acusa, mais Deus o escusa. Por isso
mesmo a confissão é chamada a sacramento da humildade, o
patíbulo do amor próprio.
D.
— E o quê devemos fazer para nos humilharmos sempre mais?
M.
— Não nos devemos limitar a expor só o que é pecado;
tratemos de especificar as causas secretas das faltas
costumeiras, as intenções e desejos ocultos que nos passam
pela cabeça e a negligência em afugentá-los; as pequenas
afeições ou agarramentos, que, mesmo se não consentimos
neles plenamente, nos causam pesar quando somos obrigados a
deixálos.
Digamos, em suma, bem claramente o que mais custa à nossa
soberba e nos causa maior humilhação, mesmo que os nossos
lábios se ruborizem, mesmo que os suores e calafrios nos
percorram o corpo. A medida que expelirmos o veneno
sentiremos alívio enorme: o sangue de Jesus Cristo,
espargido sobre as nossas chagas assim descobertas poderá
curá-las mais rapidamente e com mais perfeição.
Um dos
mais célebres oradores franceses, Henrique João Batista
Lacordaire, dominicano, nos dá um exemplo de confissão
profundamente humilde. O eloqüente pregador dirigia-se lá
pelos fins do outono de 1852, para Tolosa para fundar ali
uma nova casa para a sua ordem. Passando por Dijon, entrou
na sacristia da Igrejinha da Visitação, cujo capelão era o
jovem abade de Bougaud. Este voltava do altar onde tinha
celebrado, e, assim que acabou de despir os paramentos, o
Padre Lacordaire chegou-se para ele e disse:
—
"Quer ter a bondade de me ouvir em confissão?"
— Eu,
conta Bougaud, reconheci logo o célebre pregador mas, antes
que eu pudesse oferecer-lhe um genuflexório, ele já se tinha
ajoelhado no chão, aos meus pés e me disse: "Peço-lhe
que ouça não só a minha confissão semanal, mas a confissão
de todas as culpas da minha vida desde a infância".
Depois, começou, e eu não faltarei ao segredo da confissão
dizendo que ele me contou a história de toda a sua vida;
fez a acusação de todas as faltas que cometeu em criança,
quando moço, como sacerdote e como religioso, com uma
humildade, um arrependimento, um ardor, realmente
singulares.
Ao fim
dessa confissão extraordinária, logo depois da absolvição,
beijou-me os pés repetidas vezes, e acrescentou:
—
Agora peço-lhe ainda uma graça, que o senhor com certeza não
me negará.
— O
quê poderia eu negar-lhe? Respondi. E enquanto eu esperava
que desse explicações, tirou debaixo da túnica um açoite
formado por sólidas tiras de couro e me disse:
— A
graça que eu lhe peço agora, é de me dar cem açoitadas de
disciplina.
—
Jamais! disse eu perplexo.
— O
senhor recusa-me então essa caridade? Aquele olhar, o acento
daquelas palavras, eu jamais o esquecerei; aceitei pois a
contra-gosto o encargo.
O
Padre Lacordaire era muito sensível; logo no décimo quinto
ou vigésimo golpe começou a gemer profunda mas docemente, e
continuou assim até o fim. Eu queria parar, mas ele não o
permitiu e eu tive que continuar no meu sangrento ofício.
Quando
acabei, ele se levantou, abraçou-me e, desobrigando-me do
segredo da confissão, me deu licença de lhe lembrar todos os
próprios pecados e de os contar a quem quer que fosse.
Não
posso descrever em que estado eu me achava. Quem não é capaz
de se sentir comovido até o mais profundo das entranhas, não
é digno de assistir a cenas como esta. É assim, meu caro,
que os grandes homens sabem humilhar-se: saibamos aproveitar
tais exemplos!
D.
— Oh, Padre, quantas coisas admiráveis! Se todos os que
freqüentam a confissão fizesse assim, ficaríamos logo
santos.
M.
— Mesmo que não ficássemos santos evitar-mos-ia pelo menos a
rotina estereotipada que não traz proveito algum e não opera
a transformação que esse sacramento deveria efetuar.
D.
— Padre, o senhor disse que é bom acusar também os pecados
da vida passada: de quê modo podemos fazê-lo?
M.
— A acusação não deve ser geral, como é costume de
muitos. Devemos procurar especificar as culpas de modo que
possamos, provar-lhes verdadeiramente a matéria e a dor.
Digamos, por exemplo: confesso ainda iodos os pecados da
minha vida passada, principalmente os que cometi
contra a obediência, a caridade, a pureza e os deveres do
meu estado ou então de todos os maus exemplos e escândalos
dados durante a minha vida.
D.
— E os que têm pecados que absolutamente não ousam
confessar?
M.
— Que digam logo ao Confessor: “Padre, eu cometi
pecados que não ouso confessar", que se entreguem à sua
caridade e prudência e respondam com toda a sinceridade e
confiança às perguntas que ele fizer.
D.
— E se alguém se vir atrapalhado por causa de más confissões
feitas no passado?
M.
— Esse vá logo dizendo: Padre, tenho atrapalhações na
consciência, preciso da sua caridade; ajude-me porque há
algum tempo ou há muito tempo que me confesso mal. O
Confessor saberá esclarecê-lo e livrá-lo; a paz e a
consolação lhe inundarão a alma, que ficará surpreendida por
ter podido comprar a sua felicidade, por tão baixo, preço.
D.
— Agradecido, Padre; diga-me ainda: o quê é a absolvição?
M.
— A absolvição é a sentença pela qual o sacerdote, em
nome de Jesus, remete os pecados. É o ponto culminante do
Sacramento, a panacéia infalível, o remédio divino que
penetra nas almas, cicatrizando-lhes as feridas,
curando-lhes desde a raiz as mais graves enfermidades;
ressuscita-as, quando mortas pela culpa; dá-lhes força e
vigor para que possam viver bem e lhes abre as portas do
Paraíso.
Ao
recebermos a santa absolvição, façamos de conta que estamos
abraçados aos pés de Jesus e que ELE nos lava com o seu
sangue.
Oh, quantos prodígios operou e opera continuamente essa
fórmula sagrada que Jesus, pela boca do sacerdote, pronuncia
sobre nós! De quantas manchas já limpou as almas. Quantas,
já envelhecidas no vício, foram por fim restabelecidas e
salvas. É pois com a confiança ilimitada, que a devemos
receber, como um remédio inteligente de efeito infalível; e
choremos de consolação todas as vêzes que a recebemos.
Um
condenado à morte tinha tido a boa sorte de ter sido
preparado para o passo terrível por um sacerdote zeloso e
cheio de caridade. Quando subiu ao patíbulo, pouco antes que
o laço fatal o enforcasse, e o Confessor que o
assistia renovou a absolvição de todas as culpas, ele
desatou em copioso pranto. Perguntaram-lhe a razão:
"Eu não choro, disse, pela sorte que me toca, nunca
chorei na minha vida; nem quando a justiça me alcançou, nem
quando leram a minha sentença de morte: se agora choro é
pensando que Deus me perdoou!" A comoção foi geral: grande
parte dos milhares de espectadores enxugaram as lágrimas.
Nós
também deveríamos chorar assim, depois de cada absolvição,
ao pensarmos que Deus nos perdoou.
D.
— E se no momento da absolvição não pensamos nisso, ou não
nos sentimos comovidos?
M.
— Não nos devemos perturbar com isso. Os sacramentos
operam ex opere operato, ou seja, por si próprios. Mesmo se
não ouvíssemos nem sequer o som das palavras da absolvição,
o seu efeito seria o mesmo.
D.
— Padre, a absolvição cancela sempre os pecados?
M.
— Sim, cancela-os todos e sempre, quando a confissão é
bem feita, isto é, quando dissemos todos os pecados de que
nos lembramos, quando sentimos pesar, e quando fizemos firme
propósito de fugir até das ocasiões; em caso contrário não
cancela nada, mesmo que fosse repetida cem vezes.
D.
— Então procedem mal, os que, não tendo boas disposições,
vão à procura de um Confessor indulgente de quem possam
arrancar a absolvição.
M.
— Malíssimo! Coitados, cavam a própria cova, obrigando
Deus a condená-los.
D.
— Mesmo quando conseguem enganar o confessor, não
podem enganar a Deus que lê nos corações, não é mesmo,
Padre? "Sempre confessados, sempre perdoados, No fundo do
inferno, fomos sepultados".
M.
— Justamente! Eles terão a mesma sorte daquele
querelante que, tendo-se arruinado com querelas reduzido à
extrema miséria, magro, esquelético, maltrapilho, deixou aos
seus herdeiros os seus retratos com este escrito:
Sempre
briguei, sempre ganhei:
Eis
aqui como fiquei.
E eles
deverão exclamar:
Sempre
confessados e sempre perdoados. o fundo do inferno seremos
sepultados.
D.
— Quando e como se deve fazer a penitência dada pelo
confessor?
M.
— É bom fazê-lo o mais depressa possível, e mesmo logo
depois de deixarmos o confessionário; e deve ser feita com
pontualidade e precisão.
No
tempo que ainda se impunham penitências rigorosas, dois
homens de bem, culpados talvez pelas mesmas faltas, deviam
fazer a pé, por penitência, uma peregrinação a um santuário
distante.
Andam
durante duas horas em boa marcha, mas depois um deles diz:
— Ande
mais devagar, amigo: eu não posso mais! Doem-me os pés!
Saiba que o confessor ordenou como penitência, que eu
pusesse grãos de bico no sapato.
— Ora,
a mim também deu a mesma ordem.
— E
você não os pôs?
— Pus,
sim.
— E os
seus pés não doem?
— Nem
um pouco! Eu até sinto alívio com isso! — Mas como?!
— Eu
os pus cozidos.
D.
— O
homem era bem esperto!
M.
—
Esperto sim, ou pelo menos, nada tolo... Mas no
entanto, você compreende que ele não estava cumprindo a
penitência com precisão, pois a intenção do confessor era
outra.
>
Continua na parte XIX.
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