|

O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XVII.
Dor e propósito
D.
— Padre, é coisa importante sentir a dor dos pecados
cometidos?
M.
— A dor dos pecados é coisa importantíssima, de todo
indispensável mesmo, para cada confissão. Sem ela o
Sacramento não terá lugar. Assim como o Sacramento do
Batismo não se pode realizar sem água, também não é possível
o Sacramento da Penitência sem dor...
D.
— Então todos aqueles cuja principal preocupação é a procura
dos pecados, e que pouco se importam de excitar a dor, não
fazem boas confissões?
M.
— Fazem todos confissões sacrílegas ou nulas;
sacrílegas quando se conhece a própria falta de dor; nula se
se ignora o fato. É verdade que a boa vontade de se
confessar bem, e na diligência em fazer bem o exame a dor
está incluída; portanto não há motivos para sustos.
D.
— Como é que se deve fazer para excitar a dor dos pecados?
M.
— Deitemos um olhar para o inferno, merecido com os
nossos pecados; contemplemos o Paraíso, perdido, com os
nossos pecados. Deitemos um olhar para o crucifixo, onde
Jesus agoniza por causa das nossas culpas. Pensemos que Deus
é tudo e nós nada; que de uma hora para outra pode
abandonar-nos; que muitos, mais moços do que nós, já estão
no inferno e que, se nós ainda estamos aqui, é porque Ele
usa conosco de misericórdia.
Era
uma quinta feira santa. Um oficialzinho elegante chegou ao
confessionário e, sem mais nada, foi dizendo:
—
Padre, desculpe a minha franqueza: sou militar; não vim aqui
para me confessar, mas somente para satisfazer o desejo de
minha mãe e de minhas irmãs, que me observam do banco. Elas
querem que eu comungue na Páscoa, mas eu não creio nisso,
até me rio.
—
Então o senhor se ri da religião e dos Sacramentos?
— Sim,
Padre, eu me rio da religião e dos Sacramentos.
—
Ri-se também da verdade eterna, do inferno e do Paraíso?
— Sim
senhor, Padre, rio disso também.
—
Sendo assim, o senhor mesmo pode compreender que não
posso absolvê-lo, nem mandá-lo para a Comunhão.
— Mas
eu tenho que comungar para contentar à minha mãe e ás minhas
irmãs.
—
Bem, façamos então assim: o senhor trate de temporizar
com sua mãe e com suas irmãs. Diga-lhes que o Confessor lhe
impôs uma penitência antes de Comungar. Enquanto isso, o
senhor, cumprirá a penitência que lhe vou dar e voltará
aqui.
— Quê
penitência vai me dar se não me confessei?
— Quê
importa? O senhor, vindo aqui simula uma confissão. Penso
que não quer fazer caçoada de mim, portanto fará a
penitência: quero que me prometa como bom soldado.
— Seja
como quiser: farei a penitência; mas qual?
—
Nestas três noites o senhor renunciará o clube e os
divertimentos e, assim que se deitar, deverá dizer: Meu
Deus, eu creio em Vós, mas me rio da Vossa Religião e dos
Vossos Sacramentos. Creio em Vós, mas me rio da morte e do
juízo final. Creio... mas me rio do inferno e da eternidade.
Depois disso dormirá tranqüilo; fá-lo-á?
—
Padre eu lho prometo: palavra de soldado, palavra de rei!
Levanta-se e Vai embora.
Sábado
à noite ei-lo de novo no confessionário ajoelha-se, e:
—
Padre, exclama, eu sou o oficial da penitência; eu a cumpri
e venho para dizer-lhe que, pensando seriamente, não sinto
mais vontade de rir de tudo aquilo: pelo contrário, temo
tudo. Tenha a bondade de me ajudar a fazer uma boa
confissão.
O efeito desejado estava obtido. O pensamento dos
"Novíssimos" tinha conseguido o arrependimento do militar,
que, no fundo, ainda conservava a fé, mas uma fé adormecida
pela má vida a que se tinha entregue, e da qual, em face de
Deus, da morte e da eternidade, se tinha envergonhado.
D.
— Padre, de quantas espécies pode ser essa dor?
M.
— Pode ser de duas espécies: dor perfeita também
chamada contrição, e dor imperfeita, também chamada atrição.
Aquele que se arrepende dos pecados só por medo dos castigos
nesta e na outra vida, ou seja, movido por amor interessado,
tem só atrição, essa dor é moeda legal, mas é cobre. Aquele
que pelo contrário, se arrepende porque ofende a Deus, nosso
Pai, ou seja, movido por um amor filial, tem a contrição
perfeita, que é moeda de ouro.
D.
— É importante ter-se a contrição perfeita?
M.
— É importantíssimo, porque, aliada ao propósito nos
confessarmos assim que for possível, ela obtém a remissão
mesmo antes da confissão: se alguém morresse em tal estado
salvar-se-ia.
D.
— E pode-se comungar?
M.
— Não, para a comunhão, a confissão prévia é
indispensável.
D.
— Mas, Padre, se depois a gente mudar de propósito e não
confessar, esses pecados revivem?
M.
— Não, um pecado perdoado não revive mais; mas a
pessoa comete uma grave omissão pela qual será sempre
responsável.
Portanto, cada vez que por desgraça você cometer um pecado
mortal, faça logo o ato de contrição perfeita com o
propósito de se confessar o mais breve possível, afim de
tranqüilizar a sua consciência.
D.
— Padre, é necessário sentir a dor dos pecados?
M.
— Não, não é necessário sentir essa dor como se sente
dor de cabeça ou de dentes; basta tê-la no coração.
— O
quê está fazendo, menino? Perguntou o confessor a um garoto
que, enquanto esperava para a confissão dava com a cabeça na
parede.
— Oh,
Padre, estou tratando de sentir a dor dos meus pecados!
D.
—
Coitadinho... talvez era ainda inocente!... E o quê é
propósito?
M.
—
É a vontade resoluta de não cometer o pecado e fugir das
ocasiões. É uma conseqüência da dor sendo impossível
conceber-se uma verdadeira dor dos pecados, sem se estar, ao
mesmo tempo resolvido a não mais os cometer.
D.
— Como deve ser o propósito?
M.
— Deve ser eficaz, ou seja, devemos desligar-nos por
completo e a todo o custo de cometê-lo novamente; e isto sem
protestos nem rodeios ou intenções pouco honestas.
Um tal confessava que tinha roubado uns feixes de lenha.
—
Quantos? perguntou o confessor.
—
Padre, eu tirei cinco, mas o senhor pode calcular sete.
—
Como! são cinco ou sete?
— Eu
explico Padre. Dos sete feixes que encontrei tirei cinco,
mas hoje à noite irei buscar os outros dois. Confesso-me
antecipadamente; por isso o senhor pode calcular sete.
Uma
moça que tinha acabado de se confessar, perguntou depois de
receber a absolvição:
—
Padre, posso comungar hoje?
— Pode
sim, e não só hoje como amanhã e nos dias seguintes.
— Ah,
amanhã já não poderei mais porque marquei um encontro no
baile hoje á noite e não posso faltar.
— Você
falou em baile? Mas você não acabou agora mesmo de
prometer a Jesus que não O ofenderia mais e que evitaria as
ocasiões?
—
Padre, eu prometi para o passado e não para o futuro!
Eis
aí. A maior parte das vezes promete-se para o passado,
isto é, não se promete nada, e assim, a história se repete
sempre: confissões e pecados, pecados e confissões. Mas,
confessar-se sem se emendar é o caminho certo para a
perdição.
D.
— De quê modo podemos manter esse propósito?
M.
— 1) Não devemos confiar muito nas nossas próprias
forças, mas devemos pedir constantemente a Deus o auxílio da
sua graça.
2) Devemos impor-nos, a cada recaída, uma penitência que,
além de contribuir para a expiação do pecado, servirá também
para conservar-nos vigilantes.
3) Devemos voltar à confissão o mais breve e freqüentemente
possível para enfraquecermos o demônio e sairmos vitoriosos
sobre ele no futuro.
Os
missionários da África contam que, naquele continente, há um
animal pouco maior do que o gato comum; justamente por isso
é chamado gato selvagem. Esse animal é continuamente
assaltado pelas serpentes que abundam na região; muitas
vezes trava combates com elas, mas sai quase sempre
vencedor. É que ele tem o seu segredo: conhece uma
erva cujas virtudes contra a mordedura de cobra são
extraordinárias. Assim que se sente mordido, corre para se
esfregar nessa erva e volta pronto para a luta. Ferido uma,
duas, três vezes, recorre sempre ao mesmo remédio e sara
sempre. Dessa maneira, continua a lutar até arrancar a
cabeça do inimigo.
Nós também estamos em luta contínua com a serpente infernal
que, por todos os meios e com todos os gêneros de pecados
nos tenta e nos impele para o mal. Queremos a vitória? O
remédio infalível é a confissão freqüente. O demônio não
terá então mais nenhum poder sobre nós.
D.
Padre, e os que prometem sempre e nunca mantêm?
M.
— São pobres infelizes cujo fim será certamente bem
triste, porque com Deus não se brinca!
Havia
muito tempo que uma mãe amorosa, que vivia no temor de Deus,
exortava o filho, malandro e viciado, a mudar de vida. Ele
prometia sempre, mas eram promessas ao vento.
Da
última vez que a pobre mãe, mais com lágrimas do que com
palavras, lhe suplicou que se convertesse o filho disse:
—
"Pois bem, estou resolvido a seguir os seus conselhos; eu
também estou envergonhado e cansado desta minha vida tão má;
tenha paciência por mais estes 3 dias de carnaval, e depois
farei penitência". O infeliz jovem pensava que dessa maneira
podia ajustar contas com Deus, preparando-se, com novos
pecados, para se confessar e se converter.
Mas com Deus não se brinca. Passaram-se os três dias
ocupados em pagodes e vícios. Na noite da terça-feira ele
volta para casa a altas horas da madrugada, cansado do longo
baile. Poucos instantes depois, ouvem barulho no seu quarto;
entram apressados e acham-no estendido no chão sufocado por
uma golfada de sangue. Assim se acabaram os seus projetos de
conversão e os seus propósitos falazes.
O
inferno está cheio dessas pessoas que prometem emendar-se
sem nunca cumprir a promessa.
D.
— E os que dizem: não posso, não posso?!
M.
— Esses são ainda mais infelizes: isso é sinal de que
já são escravos das mais vergonhosas paixões.
D.
— Parece-me que quem deseja ardentemente sempre pode; não é
mesmo, Padre?
M.
— É verdade, porque Deus nunca nega a sua graça aos
que a procuram sinceramente, e porque a potência do nosso
querer também é grande. Posso prová-lo com um fato
histórico.
O
General Cambronne morto como um herói em 1842, durante a
batalha de Waterloo, quando ainda era simples soldado,
estando embriagado, esbofeteou um capitão. Julgado pelo
conselho de guerra foi condenado à morte.
O
Coronel, que lhe conhecia a bravura como soldado, interveio
em seu favor e obteve-lhe a graça: porém, chamando-o para
uma conversa particular, o fez prometer que nunca mais se
embriagaria. Cambronne disse, então:
—
Coronel, devo-lhe a vida; o que me pede é pouco, e, para
fazer um propósito eficaz juro que nunca mais provarei nem
vinho nem licores.
Passaram-se vinte e dois anos; o soldado era agora general,
e, tendo acompanhado Napoleão de Canes à Paris, foi
convidado para jantar pelo seu Coronel, que já estava
aposentado. Aceitou o convite, mas durante: o jantar, não
provou vinho. O Coronel que já tinha esquecido o que se
passara havia tantos anos, perguntou a razão. Cambronne
lembroulhe então a promessa feita há vinte e dois anos e à
qual se tinha conservado escrupulosamente fiel.
Oh, se no propósito da confissão imitássemos a fidelidade de
Cambronne! E se se cumprem as promessas feitas aos homens,
por que não cumprir as que se fazem a Deus?
D.
— Então, as confissões e as absolvições sem o propósito
firme e eficaz de fugir do pecado e das ocasiões, são nulas?
M.
— São nulas porque, mesmo que o Confessor diga cem
vezes: "eu te absolvo", Jesus Cristo que lê nos corações
dirá cem vezes: "eu te condeno".
D.
— Então é certo o provérbio que diz: Confessar-se vale menos
do que nada, se a confissão feita não refaz a gente.
>
Continua na parte XVIII.
|