|

O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XV.
Obediência ao confessor, respeito e gratidão.
D.
— Padre, e da obediência ao Confessor o senhor não diz nada?
M.
— A obediência ao confessor é virtude tão necessária
ao proveito da alma, que se ela faltar ou for defeituosa,
todos os esforços serão inúteis. Ela, diz o Beato
Cafasso, não conhece nem inferno, nem purgatório, mas só o
Paraíso.
D.
— Em quê consiste essa obediência?
M.
— Consiste em estar-se sinceramente disposto a fazer, omitir
tudo e logo, o que o Confessor mandar.
D.
— Dizer é fácil! Mas quando não se consegue?
M.
— Quanto a conseguir, isto é questão de tempo e
depende da graça de Deus, o qual dará o seu auxílio em
proporção aos esforços e à obediência de cada um.
Ninguém fica santo em um dia! O Confessor sabe disso, e não
perde a coragem, apesar das caídas repetidas, certo de que
dentro de um tempo - mais ou menos breve — ele e o penitente
serão consolados pelo êxito mais satisfatório.
Você se lembra que São Felipe Néri trabalhou durante mais de
um ano ás voltas com a alma daquele rapaz, sujeito a pecados
de impureza, e conseguiu curá-lo inteiramente e fazer dele
um anjo de pureza, só com a imposição de voltar á confissão
a cada recaída?
D.
— Lembro-me muito bem! De modo que, Padre, não convém ficar
desgostoso nem desanimar quando não se consegue logo essa
obediência?
M.
— Pelo contrário; convém humilhar-se sempre mais e
renovar confiante os bons propósitos. Esta é a
história de quase todos os santos célebres que afinal eram
feitos de carne e osso como nós e sujeitos ás mesmas
misérias.
D.
— Padre, encontram-se almas dóceis como crianças para com o
confessor?
M.
— Encontram-se e não poucas, elas desejariam que a sua
consciência fosse como um livro sempre aberto e um espelho
sempre preso nas mãos do Confessor, afim de que ele pudesse
ter e ver nelas claramente. Longe de temerem que as conheça
demais, tem medo, pelo contrário, de não saberem revelar-se
quanto é necessário, mas fazem isso sem inquietações nem
escrúpulos. Com estas almas basta um sim ou um não, uma
única palavra, e elas se fiam no que ele julga, sempre
prontas para acreditá-lo e obedecer-lhe em tudo.
D.
— Qual não será o prazer do pobre Confessor quando encontra
essas almas dóceis e obedientes; não é Padre?!
M.
— Elas são como místicos oásis no meio do seu trabalho
duro e monótono, sem as quais, dizia o Santo Cura de Ars,
ele não poderia suportar a sua vida quase que exclusivamente
devotada ao confessionário.
D.
— Mas esses resultados requerem um tempo muito longo?
M.
— Para as almas constantes e de boa vontade bastam poucos
meses e mesmo poucas semanas. O contrário se dá com as almas
que, mesmo sendo boas e bem intencionadas são cegadas pelo
amor próprio, e teimosas nos seus ideais. Com essas obtémse
o mesmo resultado que o professor, quando tem que repetir
todos os dias as mesmíssimas coisas aos alunos, sem nenhum
proveito.
D.
— Quais são essas almas tão pouco afortunadas?
M.
— São as que, mesmo se capazes de se abrirem ao
Confessor, não o fazem candidamente como dissemos.
São as que discutem frequentemente com ele para desviar o
curso da conversa. São as que exigem argumentações mais
persuasivas, sermõezinhos elegantes para acabarem concluindo
como bem lhes parece. Eis aqui uma amostra de certos
diálogos, não muito raros por infelicidade, durante os quais
o confessor é posto a provas bem duras:
Uma
senhora acusava-se de ser um tanto arrogante e soberba com o
marido, de discutir frequentemente com ele, de não procurar
agradá-lo, e mesmo de responder-lhe com maus modos etc.
O
Confessor procurava persuadi-la de que a esposa deve ser
humilde, paciente, dócil, submissa porque, dizia ele:
— O
homem afinal é o pai da família.
E ela
respondia prontamente:
— Está
bem, eu compreendo, mas a mulher é a mãe.
— O
homem deve ser o rei.
— Sim,
Padre, mas a mulher deve ser a rainha.
— O
homem deve ser a "coroa"
— Sim,
Padre, mas a mulher deve ser a cruz, que fica sobre a coroa.
M.
—
Agora, diga-me, o que é que se pode obter de tais
penitentes?
D.
— Mas,
Padre, essa mulher ou é louca ou então bem arrogante.
M.
—
Do mesmo modo arrogantes e presunçosos são os que
prosseguem nos diálogos, para continuar a namorar, a
freqüentar bailes, etc.. .
D.
— Obrigado, já entendi plenamente. E é só o que tem a dizer
a respeito do confessor?
M.
— Ao confessor devemos ainda três coisas importantíssimas:
respeito, caridade e gratidão. E, antes de
tudo, respeito e caridade, seja quanto ao segredo da
confissão, seja quanto ao modo de nos comportarmos com ele,
seja quanto às nossas preces pelo seu ministério.
D.
— O quê vem a ser respeito e caridade, quanto ao segredo da
confissão?
M.
— Quer dizer que, assim como o Confessor está ligado
ao mais inviolável silêncio em torno dos segredos que lhes
são confiados, o penitente por sua vez deve uma certa
correspondência. Tudo quanto se passa entre o confessor e
penitente forma um todo sacramental com o Sacramento da
Penitência, e tudo o que diz respeito à confissão merece
estima, respeito e veneração. Trata-se aqui de
íntima relação com o representante de Jesus Cristo, e o
abaixamento dessas relações ao nível das relações humanas, é
verdadeira profanação.
D.
— Então, Padre, não fica bem e não se pode falar das coisas
ouvidas no confessionário?
M.
— Não, não fica bem e não se pode! Tudo que um
confessor diz a uma alma em seguida às suas acusações e
manifestações, é um alimento e um remédio preparado grão a
grão, gota a gota para ela, e não é lícito dissipá-lo e
fazer dele matéria de conversações. O Confessor nunca abre a
boca sobre aquilo que lhe é confiado na confissão, nem sobre
as respostas que dá aos penitentes, estes por sua vez, não
devem falar do que eles próprios dizem ao Confessor, nem do
que ele lhes diz.
D.
— O hábito de falar de tais coisas pode trazer
conseqüências?
M.
— Pode trazer conseqüências funestíssimas:
1)
Pode ser causa de mal entendidos, isto é, fazer crer que o
Confessor disse o que ele nunca pensou em dizer.
2)
Pode criar para ele embaraços na direção das almas, devendo
ele ocupar-se um por um, dos penitentes, sem se preocupar
com outras pessoas.
3)
Pode faltar à caridade para com ele, que não tem em mira
senão a maior glória de Deus, e a saúde das almas.
4)
Pode ser nocivo ao próprio proveito e ao dos outros, criando
rivalidades, invejas, e antipatias, pode mesmo fazer nascer
suspeitas sem fundamento na mente de alguns, que tendo o
coração cheio de lama, não sabem avaliar as coisas santas.
Oh,
quantos, pela leviandade de suas línguas comprometem o
respeito devido ao Sacerdote e ao Sacramento. Eles repetem
as palavras, os avisos, as interrogações do Confessor, mas,
separando do resto da conversa aquelas palavras e
despindo-as das circunstâncias que as tornavam necessárias,
lhes dão um sentido inteiramente diferente do que tinham na
confissão, tornam-se falsos e mentirosos. Que
responsabilidade diante de Deus... Adotemos, portanto a
regra inflexível de não falar, nem pouco nem muito, das
coisas da confissão. Se você soubesse quantos desgostos e
quantas humilhações causaram ao Santo Cura de Ars umas
devotas de falsa consciência e de falsa piedade!...
D.
— E os que falam de seu confessor, ou para criticá-lo ou
para elogiá-lo?
M.
— Esses também fazem mal. Devemos deixá-lo velado no seu
confessionário, onde Jesus Cristo o escondeu. Se o
julgarem como um verdadeiro Pai Espiritual, aceitem os seus
conselhos e pratiquem-nos; se pelo contrário acharem que ele
não possua todos os dotes que desejariam encontrar nele,
não só podem, mas devem abandoná-lo para procurar outro,
mais de acordo com os seus ideais sublimes.
D.
— O quê me diz, Padre, dos que trocam frequentemente de
confessor, no intento de acharem um melhor?
M.
— Digo que tais pessoas são o martírio dos pobres
Confessores. Chegam a impacientá-los todos um por
um, continuando sempre na prática da própria vontade e dos
próprios hábitos e defeitos.
Podemos aplicar-lhes a palavras do Arcebispo de Paris,
falando de uma abadessa que acabou abandonando o convento,
tornando-se jansenista: "Era o tipo mais completo
dessas virgens, as quais, sendo puras como anjos, ficam
orgulhosas como demônios".
Essas
pessoas fazem como certos tipos briguentos que, à procura de
um advogado que lhes dê razão, causam a própria ruína, ou
como muitos doentes crônicos incuráveis que procuram um
médico que, piedosamente os engane.
D.
— Padre, o senhor disse que devemos gratidão ao Confessor;
de quê modo?
M.
— Francamente, se há quem mereça todo o nosso reconhecimento
pela qualidade e o número de benefícios que nos traz, essa
pessoa é o Confessor, o qual, pelo puro dever do seu
ministério sagrado, gratuitamente, sacrifica suas
comodidades, os próprios interesses, todo o seu ser em
benefício e proveito de nossas almas.
Porém,
a recompensa, ele a espera de Deus, as únicas coisas que
pede a nós são a correspondência ao bem da alma e as nossas
preces para ele, seja durante a sua vida, seja depois da
morte. Ele leva sempre no coração apreensivo o temor de que,
depois de ter salvo os outros, possa ele próprio
encontrar-se entre os réprobos.
D.
— Portanto, todo o nosso reconhecimento, mas nada de
agarramento, não é Padre?
M.
— Justamente, obediência, respeito, gratidão,
mas, nenhum agarramento. Pelo contrário devemos pôr de lado
tudo o que pode haver, mesmo só de imperfeito, nas relações
humanas. As partes sobrenaturais nada têm de comum com a
landes mundanas da terra.
>
Continua na parte XVI.
|