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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XIV.
Docilidade para com o confessor
D.
— Padre, devemos, além do mais, ser dóceis para com o
Confessor.
M.
— Tudo o que foi dito quanto à confiança, pode
aplicar-se ao que diz a respeito á docilidade; em outras
palavras, devemos crer no Confessor, ter confiança nele,
deixar que nos julgue, pôr em prática as suas ordens,
proibições e conselhos.
D.
— Padre, alguma vez acontece que o Confessor diz: "basta, eu
compreendi". E então?
M.
— Então, devemos calar-nos no mesmo instante e passar
a falar de outra coisa.
D.
— Mas se temos a impressão de não ter dito tudo!
M.
— Quando o Confessor fala assim, é sinal de que, desde as
primeiras palavras, teve a intuição do estado da alma e pôde
conhecer o que ainda não dissemos ou que não soubemos
explicar.
D.
— Portanto, não fazem bem os que, quando o Confessor os
interrompe, ou para fazer uma pergunta ou para pedir uma
explicação, no lugar de prestarem atenção no que ele lhes
diz, pensam nas faltas ainda não confessadas para não as
esquecerem?
M.
— Não, não fazem bem. Devemos prestar toda a atenção
ao Confessor, mesmo que seja para esquecer as culpas
que ainda não foram ditas, estas poderão ser acrescentadas
mais tarde, quando o Confessor nos convidar a fazê-lo.
D.
— E se as esquecermos?
M.
— Se isso acontecer paciência. Confessá-las-emos nas
confissões seguintes.
D.
— E tal confissão é considerada bem feita?
M.
— É, porque quando, sem ser propositalmente, omitimos
uma ou mais faltas, mesmo graves, a confissão vale
igualmente, e podemos ir para a Comunhão, até diariamente;
somente ficamos obrigados a confessar as culpas esquecidas
na primeira vez que voltarmos a Confissão.
D.
— Padre, todos indistintamente, mesmo os mais instruídos do
que o Confessor, devem-lhe atenção e obediência?
M.
— Sim, todos, porque devem lembrar-se de que quem fala
naquele momento é Jesus, oculto na pessoa do Confessor.
D.
— Quê me diz, Padre, dos que pretendem, todas as vezes,
longas explicações, sermões e muitos palavras bonitas?
M.
— Tal pretensão é uma vaidade. O
confessionário não é um púlpito, nem uma cátedra
escolástica. Mas, se o Confessor achar necessário
uns conselhos ou umas explicações, devemos prestar-lhe toda
a atenção. E que não lhes aconteça o mesmo que a um menino
que, enquanto o Confessor falava, ia contando os furinhos da
portinhola, e, em certo ponto exclamou: — "Cento e dois,
Padre!" — Ou então o que aconteceu com uma velhinha que
adormeceu no confessionário e obrigou o confessor a sair
para acordá-la.
D.
— Diga-me mais uma coisa, Padre, é preciso também acreditar
no Confessor?
M.
— Certamente. Como o Confessor pelo seu ofício tem a
obrigação estrita de acreditar no penitente, e só no
penitente, quando se trata do que ele lhe confia assim o
penitente é obrigado a acreditar candidamente no confessor;
e no entanto, muitas vezes se dá o contrário. Não são
poucos os que, se na hora confiam plenamente o seu coração
ao Confessor para receberem o remédio e o conforto,
não pensam depois em recolher o fruto dessa confiança.
Muitas vezes o Confessor diz a um penitente:
— A
causa do seu mal é aquela certa coisa, ou aquela pessoa, ou
aquela ocupação, ou aquele lugar, etc. E o penitente:
— Oh,
não! Aquela coisa, aquela ocupação, aquela pessoa é
necessária para mim... Não posso passar sem ela. A um outro
diz:
— Tome
cuidado que aquela leitura, ou aquele passa-tempo, ou aquela
relação é perigosa... E o penitente:
—
Nunca, Padre; eu sei o que faço... tenho juízo... A um
terceiro diz:
—
Aquela aversão, ou aquele ciúme, ou aquela inveja lhe
prejudica. E o penitente:
— Mas
Padre, são os outros que me odeiam, que me invejam...
E assim, vai-se recusando a correção, como se o fato de não
se querer ser doente, bastasse para ser são.
D.
— Não é assim que se procede com o médico do corpo, não é
Padre?
M.
— Pelo contrário, cremos nele cegamente, renunciamos
logo à nossa opinião, na escolha da cura e dos remédios
seguimos à risca o que ele receita.
D.
— E por que com o médico espiritual não usamos da mesma
docilidade?
M.
— Não sei, é um mistério. Com outros
penitentes dá-se o contrário. O confessor diz-lhe, por
exemplo: Não pensem mais na vida passada, não confessem mais
tais pecados ou então não façam caso desses temores, dessas
dúvidas, não se preocupem com tais tentações.
Com palavras assim tão claras, com afirmações tão precisas,
deviam ficar plenamente seguros e tranqüilos,
mas não! Vão repetindo: de certo eu não expliquei bem... O
confessor com certeza não me compreendeu... Talvez eu não
sinta o devido pesar... e não percebem, essas pobres
almas, que, continuando assim, viverão sempre inquietas.
Uma
senhora, dessas como há muitas, vai ao médico para expor-lhe
uma fileira de doenças. O doutor, depois de ouvi-la
pacientemente, acaba por receitar-lhe uns pós para serem
tomados em horas certas. A boa senhora não parece muito
satisfeita, contudo, vai à farmácia, manda aviar a receita,
espera por ela, paga e vai para casa. Ali chegando, em lugar
de tomar sem mais o remédio, diz consigo mesma: E se o
médico não tiver compreendido bem? Se eu não tiver explicado
claramente o que sinto?!... E se a receita não for
exata?!... Eu tive a impressão de que o farmacêutico estava
hesitante!... E se ele, por acaso, tivesse errado a dose?!
Ai de mim!... Estaria tudo acabado... Eu, tomar esse
pozinho? Nunca!
Na
manhã seguinte vai a outro médico, torna a contar a história
dos seus males, desta vez com maior cuidado e precisão. O
médico ouve com atenção, e depois receita uma poção para
tomar às colheradas. A senhora agradece, paga e sai
apressada. Chega a uma farmácia, apresenta a receita e,
depois de servida, volta toda satisfeita para casa. Mas,
antes de tomar o remédio, torna a cogitar e diz: — Como é
que o outro receitou um pó e este um líquido? Por ai já
se vê que não estão de acordo, que não conhecem
suficientemente a minha doença, que provavelmente receitam
ao acaso... e eu tenho que ser a infeliz vítima da
ignorância deles?! Não, isso não! E guarda o remédio,
resolvida a não tomá-lo porque está convencida de que lhe
causará a morte.
No
entanto, vai consultar um terceiro médico, e repete a mesma
cantoria dos dias precedentes, sempre com maior exatidão e
abundância de detalhes precisos. Este também a ouve com
muito interesse e depois receita umas pílulas para serem
tomadas de manhã e à noite. A doente, convencida de que
encontrou quem é realmente capaz de curá-la, corre a um
terceiro farmacêutico e retira as pílulas. Mas, chegando em
casa, o caso foi ainda pior do que das outras vezes. — Por
que é que tenho que tomar pílulas, e não o pó? e por que não
o líquido? Os médicos não sabem nada. Será que eu tenho
mesmo que morrer, sem achar quem me compreenda? Pobre de
mim!
E ela
se aflige, chora, de tal modo desesperada, que causa dó, nem
criados, nem vizinhos, nem amigos, e todos que a conhecem
não conseguem consolá-la e persuadi-la. Ela não ouve nada,
segundo a sua opinião, ninguém a compreende, ela tem que
morrer. Coitada: os seus males são mais imaginários do
que reais.
D.
— Coitada! Daria vontade de chorar, se não fosse tão cômico.
M.
— Pois bem, igualmente infelizes são os penitentes que
não se querem adaptar: não querem ser dóceis para com o
confessor, nem acreditar nele cegamente, no que diz respeito
ao que interessa à alma.
D.
— Quando o confessor se responsabiliza pelas coisas da nossa
consciência, é sinal que conhece o nosso íntimo, e sabe
avaliar melhor do que nós nossas próprias misérias, tal como
um médico, depois de cuidadosas visitas, conhece melhor do
que nós nossos males; não é mesmo Padre?
M.
— "Justamente! Como pode alguém pensar que ele queira ir
para o inferno por querer tirar de lá os outros?
D.
— Isso também não!
M.
— Pois então, assim como acreditamos no médico,
acreditemos no confessor. Só a alma que
renuncia à opinião própria e aceita ingenuamente da parte do
confessor, seja a correção, seja o conforto, poderá
sentir-se sempre tranqüila e segura.
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Continua na parte XV.
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