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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XII.
Escolha importantíssima
D.
— Padre, estou admirado com tantas coisas bonitas que ouvi
até agora sobre a confissão, porém, para dizer a verdade, de
minha parte, apesar de me confessar freqüentemente há já
alguns anos, quase não percebi esses efeitos admiráveis e
extraordinários.
M.
— E você quer saber por quê? Porque aqui, como em qualquer
outro trabalho, há modos diferentes de fazer as coisas.
Isto é, não basta confessar-se com freqüência, de
qualquer jeito e com qualquer confessor, é preciso escolher
um verdadeiro pai e confessar-se com ele humilde e
devotamente, comportando-se como verdadeiros filhos.
D.
— Então é importante saber escolher um bom confessor?
M.
— É importantíssimo! Assim como, para os nossos
negócios, nós escolhemos pessoas de maior confiança, assim
também é preciso fazer quando se trata da escolha de um
confessor; a ele devemos confiar a santificação e a salvação
de nossa alma, o que é bem mais importante do que os outros
interesses.
D.
Bosco conta como foi bom para ele o ter encontrado quando
moço, na pessoa de D. Calosso, o seu primeiro Diretor
espiritual, e nas suas Memórias escreve: "Cada
palavra, cada pensamento, cada ação, era-lhe prontamente
referida... Desse modo, ele podia guiar-me com fundamento no
caminho do temporal e do espiritual, e eu conheci então o
que significa um verdadeiro guia estável, um fiel amigo da
alma".
D.
— Padre, os que vão à procura de um confessor indulgente
procedem mal?
M.
— Muito mal! Agem ainda pior do que os doentes que
procuram um médico caridoso, ou melhor, cruel, que os
engane. Você se lembra daquele infeliz que anda pelo
inferno gritando: "Eu estou condenado por não ter
deixado a ocasião de pecado, e este que me carrega nas
costas é o meu confessor, que me absolvia apesar de eu ser
indigno?"
D.
— Lembro-me muito bem! O senhor não quererá dizer com isso,
que não se possa trocar de confessor?!
M.
— Apesar de ser coisa excelente e muito aconselhável ter-se
um confessor fixo, digo-lhe todavia:
1) Que
não importa se o trocarmos cada vez que as circunstâncias o
exigem;
2) Que
convém trocá-lo de vez em quando, por ocasião de exercícios,
missões, e outras festas como estas;
3) Que
devemos trocá-lo quando Jesus nos mostrar ser essa a sua
divina vontade;
4)
Antes trocá-lo cem vezes do que cometer um sacrilégio, ou
por medo, ou por vergonha, ou por qual outro motivo.
D.
— Padre, a escolha do confessor é livre?
M.
— É das mais livres, mas deve ser a mais ajuizada.
Só um santo pode formar santos. Achado o padre, ou seja, o
confessor que nos convém, devemos abrir-lhe de par em par
todas as portas do nosso coração, para que nos possa
conhecer bem e, pouco a pouco, cortar e extirpar com seus
conselhos ou proibições, tudo o que houver de ruim na nossa
alma. Tal trabalho, porém, seria impossível, sem a máxima
confiança e docilidade.
Para o
conseguirmos são necessárias três coisas:
1)
Viva fé em quem o confessor representa, ou pensar e crer que
representa o próprio Jesus;
2)
Grande pureza de intenção, ou seja, não ter outro desejo
senão o de se santificar;
3)
Vontade sincera de se emendar, e isto, mesmo à custa de
sacrifícios.
D.
— Padre, tenha a bondade de me explicar estas coisas, uma de
cada vez. Antes de tudo, quem é o confessor?
M.
— O confessor é o homem externo e visível sob o qual
Jesus se oculta. É o instrumento divino, pelo qual Deus quer
dar-nos o seu perdão, fazer-nos ouvir os seus conselhos e
conhecer as suas proibições. É como uma ponte de ouro pela
qual nós vemos a Jesus e Ele vem a nós.
D.
— Então, Padre, não é só na pessoa do confessor que devemos
reparar?
M.
— Assim como, quando recebemos a água nem sequer pensamos no
tubo ou no canal que a traz da colina ou da montanha, assim
também não devemos reparar na pessoa do confessor, no
"homem", mas em Jesus, que é o único de quem esperamos a
nossa santificação.
Um
dia, perguntou-se a alguém: "Quê diferença há entre Jesus e
o teu confessor?"
—
Nenhuma, respondeu sem hesitação.
E
disse bem, porque o mesmo Jesus, que, para que o possamos
comer na Comunhão, se veste com as espécies sacramentais da
hóstia, toma a forma do nosso confessor para se tornar nosso
médico.
D.
— Isso quer dizer, Padre, que, como não reparamos na espécie
do pão quando recebemos a Comunhão, mas pensamos unicamente
em Jesus, devemos pensar só em Jesus oculto no
sacerdote, quando nos confessamos?
M.
— Isso mesmo!
D.
— E agora, por favor, o quê quer dizer: pureza de intenção?
M.
— Quer dizer que, quando nos vamos confessar não
devemos pensar senão no bem de nossa própria alma.
Devemos pois suprimir toda e qualquer idéia de vaidade, de
interesse material, todo e qualquer medo do que o confessor,
possa pensar ou julgar de nós. O confessor, que
representa Jesus Cristo, nunca deixará de nos estimar, nunca
ficará mal humorado, seja qual for a confidência que se lhe
fizer: Pelo contrário, a sua estima, e seu interesse, serão
sempre maiores por aquele que, animado por maior boa
vontade, usar de maior sinceridade e simplicidade nas coisas
mais humilhantes.
D.
— Acho que isso é natural. O confessor é como o médico, que
cura com mais amor os doentes que conhece melhor, e os que
têm nele maior confiança. Finalmente, o que significa
vontade sincera e instante, Padre?
M.
— Significa que não devemos proceder como as crianças
inexperientes e caprichosas, que querem e não querem,
mas devemos absolutamente querer emendar-nos. Não possuem
essa vontade os que, com palavras querem tornar-se bons e
santos, mas não querem que isso lhes custe esforços e
fadigas, aqueles que, só de pensar em mudar de vida,
sentem-se aborrecidos e não querem ouvir toda a verdade.
D.
— Esses são como os doentes que não querem ouvir falar
de cortes quando a sua doença já é gangrena, não é, Padre?
M.
— Justamente! E por falar em doentes ouça o
que eu vou contar:
Um
senhor meio caprichoso caiu gravemente enfermo. O médico
chegou, e depois de tomar o pulso disse ao doente:
— Meu
amigo, a febre é valente; preciso tirar-lhe um pouco de
sangue.
—
Tirar sangue? Eu queria mais é injetá-lo nas veias e o
senhor fala em tirá-lo?
—
Então, tome um purgante.
— Um
purgante? Isso nunca! Eu não quero estragar o meu estômago.
—
Nesse caso faça uma dieta rigorosa.
— Qual
dieta, qual nada! Eu preciso é de me fortificar e não de me
enfraquecer.
—
Feche aquela janela, um golpe de ar seria o suficiente para
mandá-lo para o outro mundo.
— Mas
doutor, o senhor quer fazer-me morrer asfixiado?
"Não!
não..." Que me diz desse doente?
D.
— Digo
que é louco e que quer morrer.
M.
— Pois
bem! Assim como para sarar é preciso confiar na
experiência e decisão do médico, assim também, para nos
emendarmos e nos santificarmos, é indispensável que nos
abandonemos nas mãos de um bom confessor; e devemos nos
comportar com ele com a máxima confiança e docilidade.
D.
— E será possível achar tal confessor, Padre?
M.
—
Por que não, se o pedirmos a Deus com a oração e com a
humildade?! Jesus está sempre à disposição de quem o
procura de boa vontade. Do mesmo modo que fez com que
Madalena o encontrasse na chácara disfarçado em chacareiro,
fará com que o encontremos na Confissão, na pessoa do
Confessor.
D.
— O
senhor me enche de coragem, Padre, e eu vou começar desde já
a procurar um confessor que seja um Jesus disfarçado.
M.
—
Porém, se isso não fosse inteiramente possível, devido à
escassez de sacerdotes, seu confessor seja aquele que,
provavelmente o confessará na hora da morte, tenha
sempre confiança nele, cada vez, como se você estivesse
realmente em ponto extremo. Por falar nisso, ouça o
que se lê na história da vida de Dom Bosco, que foi
publicado no "Boletim Salesiano" de Setembro de 1922:
Um
dia, foram chamar Dom Bosco para um jovem, que freqüentava
assiduamente o Oratório, e que estava muito mal. Dom Bosco
estava ausente: voltou a Turim só dois dias mais tarde, e
foi somente às quatro horas da tarde do dia seguinte que
pode ir à casa do enfermo. Quando chegou, viu pregados às
portas, os panos negros de praxe, com o nome do rapaz que
ele vinha visitar. Apesar disso D. Bosco subiu para
cumprimentar e confortar os desditosos pais. Achou-os em
pranto e soube por eles que o filho morrera naquela mesma
manhã. Pediu que o introduzissem no quarto do morto para
poder vê-lo ainda uma vez. Um criado conduziu-o. Entretanto
- conta D. Bosco — passou-me pela cabeça a idéia que o rapaz
não estava morto; aproximei-me da cama e chamei-o pelo nome:
Carlos! Então ele abriu os olhos e me cumprimentou com
acento de profundo espanto: — Óh Dom Bosco! O senhor me
despertou de um pesadelo amedrontador! — Ao som daquela voz,
várias pessoas que estavam no quarto fugiram aterrorizadas,
aos gritos, derrubando velas, o rapaz no entanto continuava
a dizer: — Eu tinha a impressão de que me empurravam
para uma caverna escura, tão estreita a abafada, que eu me
sentia sem fôlego. No fundo, num espaço mais vasto e melhor
iluminado, grande número de almas eram submetidas ao juízo:
e eu via, com terror sempre crescente, que muitas delas eram
condenadas. Chegou por fim a minha vez eu já estava para ter
a mesma e horrível sorte, por ter feito mal a minha última
confissão, justamente no momento em que o senhor me acordou.
Enquanto isso os pais do rapaz, sabendo que ele estava vivo,
tinham chegado, alegres e felizes. Ele os cumprimentou
afetuosamente, mas logo lhes disse que não deviam ter
esperanças de que recuperasse a saúde. Abraçou-os e
beijou-os, e contou à D. Bosco que, por infelicidade, tinha
cometido um pecado que — ele bem o sabia — era mortal e, que
tinha firme vontade de se confessar. Para esse fim, sentindo
que o mal piorava, tinha mandado chamar Dom Bosco, mas como
o não tinham encontrado, lhe haviam trazido outro padre, um
desconhecido, ao qual não tinha tido coragem de contar
a falta cometida.
Deus
quis mostrar-lhe como, por causa de uma confissão sacrílega,
tinha merecido o inferno.
Confessou-se, portanto com sincero arrependimento e vivo
pesar e, recebida a absolvição, fechou os olhos e expirou
serenamente.
Como você pode ver, a confiança é indispensável para uma boa
confissão.
D.
— Mas qual será a pessoa que quer ir para o inferno,
por causa de um pouco de medo, de um pouco de vergonha, que,
por fim se transforma numa consolação muito grande?
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Continua na parte XIII.
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