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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte XI.
Com quê freqüência?
D.
— E agora, Padre, tenha a bondade de me dizer: com que
freqüência é bom chegar-se à Confissão?
M.
— Com a máxima freqüência possível. Os Santos
foram os primeiros a dar-nos o exemplo, tanto que pode
parecer exagero a freqüência com a qual se chegavam à
Confissão.
Citarei alguns deles: São Francisco no seu regulamento de
vida, escrevia: Confessarme-ei de dois em dois e, no
máximo, cada três dias. São Vicente de Paula confessava-se
duas vezes por semana, São Felipe Néri um dia sim e outro
não, e o mesmo queria que fizessem os seus religiosos. São
Vicente Ferrer, São Carlos Borromeu, Santo Inácio de Loiola,
São Luiz Bertrando, Santo André Avelino e muitos outros se
confessavam diàriamente.
D.
— Mas, Padre, isso é exagero; talvez o fizeram por
passatempo ou por escrúpulo.
M.
— Nada disso. Todos eles eram trabalhadores, bem longe
estavam, de se deixarem dominar pelos escrúpulos. Faziam-no
para se manterem numa grande pureza de consciência, e para
poderem gozar das inúmeras vantagens deste Sacramento.
São
Leonardo de Porto Maurício, o infatigável apóstolo italiano,
depois de ter tido o belo hábito de se confessar diariamente
com constância, chegando aos quarenta e dois anos, pensou em
duplicar a dose e escreveu no seu regulamento particular:
"De agora em diante confessar-me-ei duas vezes por dia,
para aumentar a graça que espero tornar maior com uma única
confissão do que com muitas boas obras, de qualquer
espécie".
D.
— Padre, creio que aqui podemos aplicar provérbio: o apetite
vem comendo!
M.
— É mesmo! Quando se trata de confissão freqüente é
assim mesmo. Felizes daqueles que sentem essa fome e essa
sede espiritual, enquanto que aqueles que ficarem afastados
morrerão de inanição.
D.
— Diga-me, Padre, esses Santos usavam esse remédio divino só
para uso próprio?
M.
— Pelo contrário! Inculcavam-no constantemente nos outros, e
se tornavam seus dispenseiros generosos à custa dos maiores
sacrifícios. S. Felipe Néri costumava pregar que, se ele
estivesse com um pé no Paraíso, e se alguém o chamasse para
confessar, teria voltado para ouvi-lo.
Santo Antônio pregava ao seu povo: Mesmo que eu esteja
descansando venham, batam a porta, acordem-me para que eu os
possa confessar.
São Francisco de Sales interrompeu uma viagem para confessar
um pobre velho. Quê direi então do Beato Sebastião
Volfré, do Beato Cafasso, São João Borco e outros tantos
sacerdotes que passavam noites inteiras no confessionário,
até mesmo nos hospitais e nas prisões?
D.
— Isto prova que a confissão é tudo, não é Padre?
M.
— Justamente! É com isto que conseguiam sanear cidades e
nações corrompidas pelos maus costumes. É por este
ministério que se distinguem os verdadeiros artífices do
Evangelho.
D.
— Quanto a mim, Padre, quanto mais eu me confesso, pior eu
fico... tenho sempre mais defeitos.
M.
— Isso não é verdade! São defeitos que você já tinha e
não conhecia. A confissão o ilumina para que você os
deteste, os combata e os corrija. "Cada absolvição,
diz-nos o admirável Santo que foi S. Francisco de Sales,
cada absolvição é um novo sol que ilumina a câmara escura da
consciência".
D.
— Se assim é, todo o cristão devia chegar-se a confissão o
mais possível. Todavia não haverá uma regra para as diversas
classes de pessoas?
M.—
Há sim; e é esta: Para viver uma "vida cristã" basta
confessar-se tantas vezes quantas forem necessárias para
evitar o pecado mortal, porque com o pecado mortal, nossa
alma está morta, e não somos filhos nem apóstolos de Jesus.
Para levar uma vida piedosa, o mínimo que podemos
fazer é ao menos uma confissão por mês, digo ao menos
porque, podendo, seria preferível que nos confessássemos
mais a miúdo, não deveríamos conciliar uma devoção sincera
com a negligência de um tal meio de santificação.
Para
almas realmente fervorosas, que aspiram a uma união íntima
com Deus, é indispensável a Confissão semanal, pois
que a confissão é não só o remédio, mas também um
fortificante, e precisamos freqüentá-la com curtos
intervalos de tempo, afim de que o seu efeito não sofra
interrupções.
D.
— Padre, o que vem a ser essa união íntima com Deus?
M.
— É o que os teólogos chamam de "vida íntima", o Santo
Vianney, cura de Ars, a descreve assim: "A vida
interior é um banho de amor no Sangue de Jesus Cristo no
qual a alma mergulha e fica como afogada. Deus sustém estas
almas como uma mãe sustém a cabeça de seu filho entre as
mãos para cobri-la de beijos e carícias".
D.
— Como são felizes essas almas! E a confissão semanal é
necessária para elas?
M.
— É, e não devemos deixá-la por negligência porque todos os
outros meios não seriam bastantes sem constância na
confissão.
D.
— Padre, não seria bom se nos confessássemos até mais de uma
vez por semana, como os Santos?
M.
— Tratando-se de sacerdotes, respondo afirmativamente,
segundo o conselho e a prática dos Santos. Sendo eles os
dispenseiros quotidianos do Sangue de Jesus Cristo na
confissão, quem ousaria limitar-lhes o uso?
Tratando-se de outras pessoas, contanto que não estejam em
estado de pecado mortal, a melhor regra é a de se
confessarem uma vez por semana.
D.
— Por quê?
M.
— Porque uma longa experiência nos mostrou de perto que,
salvo poucas exceções, a confissão mais freqüente que de
oito em oito dias, principalmente quando se trata de
mulheres, não forma almas santas, ruas as torna escrupulosas
e egoístas. Quem sentir maior desejo de absolvição recorra à
absolvição espiritual.
D.
— Absolvição espiritual?!... Eu nunca ouvi falar nisso,
Padre.
M.
— Entretanto, assim como há a Comunhão espiritual há
também a absolvição espiritual. Nem isso deve causar-lhe
admiração: se a "contrição perfeita" com o desejo da
confissão, é capaz de cancelar da nossa alma os pecados
mortais, também pode certamente produzir o mesmo efeito com
os veniais.
D.
— Assim, não é só uma absolvição por semana que podemos
obter, mas quantas quisermos, mesmo mais de uma por dia?
M.
— Justamente!
D.
— Mas, se estivermos em estado de pecado mortal e se houver
possibilidade de nos confessarmos?
M.
— Então vão se confessar quantas vezes for necessário,
e o mais cedo possível, quanto a mim, devo dizer que sempre
me arrependi todas as vezes que adiei a confissão.
Até bom que ponham em prática a conselho de São Felipe Néri
e do seu digno imitador D. Bosco: "Nunca te vás deitar
para dormir com um pecado mortal na alma".
Monsenhor de Ségur conta que um menino tinha justamente
prometido a Jesus que nunca haveria de ir dormir com pecado
na alma. Ora, aconteceu que, tendo ele um dia cometido um
pecado, quis cumprir a promessa. Apesar de ser já noite,
criou coragem, foi confessar-se e voltou agradecendo a Deus
de coração pelo que fizera. Bom para ele Assim que se deitou
adormeceu e, dormindo sonhou com Jesus e Maria Santíssima;
ouviu as melodias celestiais e voou, voou pelo espaço
infinito do Paraíso. De manhã, sua mãe, vendo que ele
demorava muito para se levantar, foi acordá-lo; chamou-o e
ele não respondeu, sacudiu-o e ele não se mexeu. Estava
morto! E, no seu rosto, cândido como um lírio brilhava a
auréola dos santos!
D.
— Feliz criança! A confissão livrou-a do pecado e do
inferno.
M.
— Justamente! Podemos pois chegar à conclusão de que,
se a confissão é muitas vezes penosa, o seu fruto é sempre
doce e suave, que a inocência, a castidade, a felicidade, o
dever, a vida cristã e por conseguinte a verdadeira alegria
e a paz, são frutos da confissão freqüente; que da mão
direita do confessor, derivam sempre vantagens infinitas;
que ela é um meio poderoso de educação e que podemos temer
tudo da parte de quem não se confessa.
Um
ministro inglês, desejando conhecer Dom Bosco, do qual tanto
ouvia falar, e, para aprender o seu método de educação, foi
para Turim e pediu licença para visitar o Oratório Salesiano,
Dom Bosco acolheu-o com benevolência e acompanhou-o na
visita daquela casa enorme. A maravilha do ministro
aumentava à medida que atravessava laboratórios e
repartições, e ele elogiava a ordem e a disciplina perfeita
que ali reinava. Mas quando foi introduzido na sala enorme,
onde estudavam, com a máxima seriedade, e no meio do mais
perfeito silêncio, mais de quinhentos jovens, vigiados
somente por dois seminaristas, a surpresa transformou-se em
estupor e, virando-se para D. Bosco exclamou:
—
Senhor Abade, não sabe que isto é um espetáculo magnífico?
Diga-me, por favor, qual é o seu segredo para obter tanto
silêncio e tanta disciplina?
—
Senhor Ministro, respondeu Dom Bosco, o meu segredo não
serve para os senhores.
— E
por quê?
—
Porque pertence aos católicos, e os senhores são
protestantes. O meu segredo é a confissão freqüente e
semanal.
—
Sendo assim, falta-nos realmente esse poderoso meio de
educação; mas não o poderíamos suprir por outros?
— Eh!
não! Quando não se usa esse elemento de religião, é preciso
recorrer à bengala.
—
Então, Padre, ou bem a religião, ou bem a bengala?
— Sim,
ou religião ou bengala.
—
Muito bem, muito bem! Ou religião, ou bengala: compreendo,
quero contar isso em Londres.
Ângelo
Brofferio, grande advogado e insigne poeta piemontês, tendo
perdido a velha e fiel criada, tomou a seu serviço uma moça
de vinte anos, natural de Castelnuovo Calces, sua pátria.
Depois de poucos dias, a empregada chega-se ao patrão, e
chorando lhe diz:
—
Desculpe-me, patrão, mas eu não posso continuar trabalhando
para o senhor.
— Por
quê?
—
Porque o senhor não é muito de Igreja e naturalmente não me
deixará assistir à Missa nos dias de festa e nem tão pouco
que eu me confesse.
— E
quem foi que lhe disse isso?
—
Todos o dizem, fornecedores e inquilinos.
— Pois
bem, você ficará trabalhando aqui e irá a missa todas as
manhãs e irá confessar-se todos os domingos, porque acho que
tudo se pode esperar de quem se confessa.
D.
— Então, Padre, mesmo os que não são católicos praticantes
acreditam na confissão e a exaltam?
M.
— É justamente o que acontece!
D.
— Mas por quê não fazem uso dela então?
M.
— Porque têm medo de serem vencidos por ela. Eles sabem
muito bem que a confissão é a varinha mágica, o anel
encantado que faz prodígios, sabem que seria a
alavanca poderosa que os levantaria acima dos vícios nos
quais estão submersos, e justamente por isso a exaltam, mas
fogem dela.
D.
— Coitados! São como os doentes que se recusam a sarar de
pena de deixar o hospital.
M.
— Aqui, porém, não se trata de hospital, mas do perigo, da
quase certeza de uma morte má, de um inferno eterno.
Falando nisso, lembro-me da anedota do menino teimoso:
Dois
irmãozinhos foram mandados à escola para aprender a ler. O
professor recebeuos com carinho e, começou pelo primeiro,
fazendo-o repetir o alfabeto. Quando o pequeno acabou,
elogiou e lhe deu um prêmio pela lição bem recitada.
Preparou-se em seguida para fazer o mesmo com o segundo, e,
com o livro na mão disse-lhe: "Vamos, agora é a sua vez". O
rapazito olhou de esguelha para o professor e não abriu a
boca. “Vamos diga a, você quer que pensem que seu irmão é
mais aplicado do que você”? Será que é tão custoso dizer: a?
O menino continuou mudo. "Por favor, não me faça perder a
paciência, do contrário, logo no primeiro dia as coisas
acabarão mal".
Foi
tudo inútil: nem prêmios, nem ameaças, nem promessas, nem
castigos, conseguiram induzir o cabeçudo a proferir uma
única sílaba. Mais tarde, quando interrogado pelos colegas
sobre a razão de teima, explicou: "Se eu disser a,
tenho que dizer b e depois c e aprender a ler, e a escrever,
e depois vem a gramática e outras tantas complicações de
ciências, e essa embrulhada não acabará senão no fins de
muitos anos".
D.
— Ah! que espertalhão. Nem queria começar para não ter que
continuar!
M.
— É assim mesmo! E no nosso caso então!
Quantos são aqueles para os quais é um aborrecimento começar
a viver como bons cristãos, pela simples e única razão que,
uma vez começado, é preciso continuar. E assim os coitados,
vivendo numa espécie de Paraíso aqui na terra, deverão,
depois de poucos anos, apresentar-se diante de Deus com as
mãos vazias, e, o que ainda é pior, com a alma carregada de
pecados, de remorsos e talvez até de escândalos, pelos quais
serão condenados eternamente!
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Continua na parte XII.
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