|

O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte VIII.
Quem manda, faz leis
D.
— E agora, Padre, tenha a bondade de esclarecer ainda mais
alguns pontos. Antes de tudo, a Confissão é mesmo
necessária para apagar os pecados?
M.
— Sim, a confissão é indispensável.
Assim como a água é necessária para lavar as manchas, não
podemos lavar e destruir os pecados sem a confissão.
Foi estabelecida por Deus, e Jesus Cristo a confirmou.
D.
— Não lhe teria sido possível estabelecer as coisas
diferentemente?
M.
— Sim, podia tê-lo feito, sendo Ele Deus, mas desde que
achou preferível proceder assim, não nos resta senão
obedecer. De mais a mais haveria uma maneira mais fácil?
Não!
Suponhamos que, por exemplo, para cada pecado tivesse
ordenado uma esmola grande: quantas não a achariam penosa e
impossível? Suponhamos ainda que tivesse estabelecido um
jejum; quantos não poderiam ou não quereriam fazê-lo?
Suponhamos ainda que tivesse exigido uma longa peregrinação;
quantos nesse caso, mesmo querendo, não a poderiam realizar?
Mas com a confissão não há nada disso, para quem quer que
seja, por qualquer pecado e número de vezes, só é necessária
uma coisa: confessar-se a um Ministro, cuja escolha é livre,
no modo mais secreto e tudo está perdoado.
Ah! diga-me: se a lei humana ou civil agisse da mesma
maneira, se bastasse apresentar-se a um juiz e confessar a
culpa para receber o perdão, haveria ainda prisões e
penitenciárias?
D.
— Absolutamente não! Todos se confessariam, mesmo os mais
velhacos.
M.
— Por que, então, achamos penosa a confissão sacramental?
D.
— Pois seja: mas não chegaria uma confissão feita
diretamente a Deus? Quê necessidade há de se, correr ao
Sacerdote, pondo-o ao corrente dos nossos interesses?
M.
— Quem manda faz leis! Ouça: O Presidente e o
governo mandam que paguemos impostos; pois bem, faça uma
experiência; vá ao Rio de Janeiro para pagar diretamente ao
Presidente e ao Governo. Dir-lhe-iam: vá ter com o nosso
encarregado, o coletor e pague a ele, você poderia protestar
à vontade que a situação não mudaria. Querem que paguemos,
mas ao coletor. O mesmo dá-se com a confissão. Deus
perdoa, mas por meio dos seus encarregados, que são os
confessores.
D.
— É mesmo! E eu que nunca tinha pensado nisso!
M.
— Quanto ao pormos outra pessoa a par dos nossos interesses,
tenha paciência; de que negócios se trata nesse caso?
Trata-se de pecados e não de interesses. Quando você sente
uma forte dor de cabeça ou de dentes será que você, para não
pôr ninguém ao par dos seus casos, não corre ao médico ou ao
dentista, para se ver livre dela?
E
quando o acusam será que você não procura um advogado para
que o salve de uma condenação?
D.
— Oh! Eu corro logo ao médico ou ao advogado e conto tudo;
procuro até explicar as coisas direitinho.
M.
— Então só no que diz respeito à Confissão, que é segredo
impenetrável, divino, é que receamos dar a conhecer os
nossos interesses? Ora! Essas são desculpas muito
magras que denunciam má vontade!
D.
— Todavia Padre, o senhor deve reconhecer que é duro
manifestar misérias...
M.
— Reconheço que realmente é bastante duro, porque o
nosso amor próprio fica um pouco humilhado, mas devemos
pensar que isso é um dever, uma necessidade. E ao
médico, será que não se confessam certas misérias?
D.
— Ah! contanto que ele nos cure...
M.
— Pois bem, ou queremos receber a graça e voltar a ser
filhos de Deus, ou queremos ficar sendo filhos do demônio,
escravos do inferno: não há outra saída, e para nos
conseguirmos livrar é indispensável que nos confessemos, sem
o que não pode haver nem paz, nem perdão, nem Paraíso.
Quem manda faz leis. Eis a prova dos fatos.
São
Bento conta nas suas crônicas que um religioso chamado
Pelágio, tendo por infelicidade cometido um pecado grave na
mocidade, deliberou não o confessar.
Passava assim os meses e os anos numa aflição enorme,
atormentado sempre pelo remorso. Um peregrino, passando por
lá, disse-lhe como se Deus o iluminasse: "Pelágio,
confessa-te; Deus conceder-te-á o perdão e terás sossego".
Mas
ele teimou em não falar, e iludindo-se que poderia obter o
perdão sem a confissão, resolveu fazer grandes penitencias.
Entrou num convento; e ali pela humildade, pela obediência,
pelos jejuns e mortificações, conquistou a admiração de
todos, e foi sepultado com muito pesar nos túmulos da
Igreja, conforme o hábito da época. Na manhã seguinte o
Sacristão achou o corpo em cima do túmulo e o enterrou de
novo. Mas, também nos dias que se seguiram, achou-o
novamente fora da sepultura. Avisou então o abade: este
correu para junto do cadáver com os outros monges, e disse:
—
Pelágio, foste sempre obediente em vida, obedece também
depois da morte. Dizeme, estás por acaso no purgatório?
Tens necessidade de sufrágios ou é desejo divino que sejas
posto num lugar mais digno?
—
Ai de mim! Eu estou no inferno por causa de um pecado
omitido desde muitos anos e pelo qual esperava obter
misericórdia por outros meios. Tirem-me daqui, e
enterremme em campo aberto, como um jumento.
Conta-se que uma freira, tendo cometido um pecado desde sete
anos, nunca o quis confessar, na esperança de alcançar o
perdão igualmente. Para esse fim, fechou-se em um convento e
se tornou religiosa. Devido à sua vida austera e a prática
de todas as virtudes, foi eleita abadessa, cargo que
desempenhou com escrúpulo exemplar. Mas, depois de morta
apareceu às religiosas, toda rodeada de chamas, e, gritando
desesperadamente dizia: "Não rezem por mim que estou
condenada por causa de um pecado que nunca confessei desde
"sete anos".
D.
— Pobres! E uma só palavra na confissão teria chegado
para os tornar felizes, não é Padre?
M.
— Justamente! E dessa maneira vivem num inferno quando
em vida, e vão para ele depois de mortos. E no entanto,
creia-me, não é pequeno o número desses infelizes que não
querem convencer-se de que, para eliminar os pecados é
indispensável a confissão, da qual, além disso, o coração
sente necessidade.
D.
— Como é que o coração sente necessidade dela?
M.
— Vou prová-lo.
Não há
muito, os jornais da Itália divulgavam a notícia de que um
sapateiro da cidade de Bassano, no Vêneto, num ímpeto de
cólera tinha arremessado um ferro contra um netinho de
poucos anos, matando-o. Apavorado, escondeu o cadáver, e,
durante a noite, foi enterrá-lo num bosque. Por muitos dias
procuraram o pequeno desaparecido, cada qual fazia as mais
estranhas conjeturas, mas nem pensavam no sapateiro, cujo
crime ninguém presenciara. Podia, pois ficar tranqüilo e
sossegado e viver alegremente. Mas, no entanto, desde
o dia fatal, não cantou mais as suas alegres canções, não
bateu mais o martelo com ânimo, se tornou triste e
pensativo. Vendeu a casa, os apetrechos da profissão
e fugiu para a América.
Lá
estava completamente salvo; podia, pois esquecer tudo e ser
feliz. Qual nada! Depois de dois anos voltou, apresentou-se
diretamente ao juiz e confessou o crime. A justiça indagou,
procuraram-se no bosque os míseros restos da vítima, fez se
o processo. Antes de pronunciar a sentença que o condenaria
definitivamente, o juiz virou-se para o assassino e
perguntou:
—
Diga-me, ó desgraçado, como é que o senhor, que tinha
enganado a todos e podia ficar sossegado na América, vem
entregar-se à justiça e obrigar-nos a condená-lo?
—
Senhor juiz, respondeu o réu, não é verdade que enganei a
todos. Só enganei aos homens, o mesmo não se deu com Deus.
Desde aquele dia não tive mais sossego, a sombra do menino
perturba-me o sono, vejo sempre a minha mão escorrendo
sangue. Condene-me à prisão, condene-me à morte, mas que
esta vida de remorso acabe para sempre.
O
coitado tinha tomado o caminho errado, se, em lugar de ter
tomado o rumo da América, do tribunal, do cárcere, da
desonra, tivesse corrido aos pés do confessor, ah! Não
teria visto a sombra de sua vítima, nem a mão pingando
sangue; mas, recebendo a absolvição, teria tranqüilizado
incontinente a consciência.
D.
— É verdade, Padre; a Confissão é uma necessidade do
coração.
M.
— Tanto melhor para nós se nos servirmos dela em todas
as ocasiões para qualquer eventualidade. Quando um espinho
se nos enterra no pé ou quando um cisco nos entra nos olhos,
não achamos mais sossego enquanto não nos livrarmos do
espinho ou do grãozinho de pó. O mesmo se dá com o pecado;
não nos deixa em paz enquanto não o extirparmos com a
confissão. Deus assim o quis e quem manda, faz leis!
D.
— Como deve ser consolador o perdão de Deus depois de anos e
anos de remorsos, não padre?
M.
— Ah, sim! E nenhuma alegria no mundo se lhe pode
comparar. A confissão, além de ser uma necessidade do
coração, é ainda o maior consolo das almas aflitas.
O fato seguinte bem o demonstra:
O
Padre Bridaine, grande missionário francês, pregava durante
as missões, numa cidade dos Alpes. Um velho oficial da
cavalaria foi ouvi-lo por curiosidade, porque já ouvira
falar naquele orador famoso. Deus quis, que, naquela
noite, o Missionário falasse justamente na necessidade da
confissão. A palavra simples, mas quente e persuasiva do
servo de Deus, penetrou até o coração do militar, que
resolveu confessar-se.
De
fato, foi à sacristia, atirou-se aos pés do Padre Bridaine
que o acolheu com bondade e amor. Depois de feita a
confissão levantou-se, e beijando a mão do Padre, exclamou
bem alto, para que todos o ouvissem: "Sinceramente, na
minha vida nunca senti tamanha consolação e nem uma alegria
tão grande como agora que tenho comigo a graça de Deus. Acho
que nem o próprio rei, que sirvo há trinta anos pode ser
mais feliz do que eu!"
As palavras que o velho oficial francês pronunciou, poderiam
pronunciá-las todos os que, depois de vencidas todas as
dificuldades, vão confessar-se, e se confessam bem.
Aqui também não é demais repetir Quem manda, faz leis, mas
as leis de Deus são tão doces e suaves!
> Continua na Parte IX
|