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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte VI.
Terno PAI.
D.
— E agora, diga-me Padre: ao ouvir certos pecados, será que
o confessor não se surpreende, não fica ofendido, não perde
a estima... não nega a absolvição?
M.
— Mas como é que ele deve ficar surpreendido? Qualquer que
seja o confessor, ele já conhece o mundo. Os mesmos pecados
que você cometeu, ele já os ouviu mil vezes; por mais que
você lhe diga, não lhe dirá nada de novo. Além disso, ele
está ali para ouvir misérias e não para ouvir milagres. Nem
se ofende se você lhe disser coisas graves, porque, com os
pecados, não foi ele que você ofendeu; pelo contrário,
como um terno pai, ficará mais comovido, terá mais
compaixão de você; alegrar-se-á, pensando que, perdoando
muito, aumentará a alegria e a glória de Deus. Será que os
pescadores se sentem ofendidos quando puxam na rede peixes
enormes?
D.
— Nunca, pelo contrário, ficam satisfeitíssimos.
M.
— Pois bem, o mesmo acontece com o Confessor. Ouça o que lhe
vou contar:
Um
dia, um pecador que tinha culpas bem graves foi confessar-se
com S. Luiz Bertrano. Apesar de intensamente arrependido,
tinha ainda muito medo e muita vergonha, por isso a cada
pecado deitava uma olhadela para o confessor para ver qual a
impressão que causavam as suas culpas.
Tendo observado que o Santo não mostrava nem um sinal de
espanto, criou coragem e confessou até os pecados mais feios
e enormes, e então, muito admirado viu passar pelos lábios
do Santo um sorriso muito doce.
Como o Padre lhe perguntasse se ainda tinha mais coisa a
dizer, respondeu tristonho:
—
Padre; ainda tenho mais uma coisa a dizer, mas me falta a
coragem...
—
Como é que não ousas, se já disseste tantas e com tamanha
bravura?
—
Porque cometi essa falta neste momento.
—
Tanto melhor; assim ela será morta agora mesmo, enquanto
está fresca.
— Mas,
Padre, eu a cometi contra o Senhor...
—
Contra mim? Pois bem, quê importa? Se eu devo perdoar os
pecados cometidos contra Deus, por que, não perdoarei um
pecado contra mim?
—
Padre, quando eu estava confessando aqueles pecados enormes
o vi sorrir e disse comigo mesmo "Este certamente ainda os
cometeu maiores do que eu..." A estas palavras, São Luiz
Bertrano respondeu sorrindo:
—
Não, por graça de Deus, não cometi esses graves pecados,
apesar de ter podido cometê-los se o Senhor não me tivesse
ajudado. Sabes por quê eu sorria?

A confissão é o principal meio de santificação
Porque à medida que dolorosa e sinceramente, confessavas as
tuas culpas, eu via afastar-se de ti o demônio e entrar em
ti a graça de Deus.
Eis
aqui meu caro, quais são os sentimentos do confessor.
Ele não repara nos pecados mas nas disposições e na coragem
do penitente.
Quando eu ainda não era sacerdote, não podia convencer-me
disso: mas tive depois cem mil provas desta realidade, na
prática do ministério. É justamente por isso que, nos meus
sermões, falo com freqüência na sinceridade da confissão, e
sempre falarei com muito prazer. Oh! quantos corações eu já
consegui consolar com este meio e quantas vezes eu mesmo me
senti cheio de consolações.
D.
— E o confessor não perderá a estima que tem pelo penitente?
M.
— Aumenta-a pelo contrário, pensando no esforço feito
para se confessar bem, pensando na boa vontade que tem de se
emendar, pensando que Jesus o encherá de favores e de
graças. O confessor é como o médico.
Como um bom médico que tem predileção pelos doentes
mais graves, assim é o Confessor.
Um
dia, apresentou-se a São Francisco de Sales uma senhora que
fez uma confissão geral durante a qual confessou muitas
misérias, depois da absolvição, antes de sair, interrogou-o:
— E
agora, Padre, o que pensa de mim?
—
Penso que a senhora é uma santa.
—
Desculpe, Padre, mas o senhor está caçoando comigo?
—
Não, absolutamente não estou caçoando, penso que é uma
santa desde que teve a coragem e a graça de fazer uma
confissão tão dolorosa e sincera.
O confessor, portanto, repito não perde a estima, aumenta-a
pelo contrário, quanto mais graves e numerosos são os
pecados que se confessam e se perdoam, quanto mais sincera e
dolorosa é a confissão.
D.
— Padre, nunca se nega a absolvição?
M.
— Em casos raríssimos: isto é, quando o
penitente não está mesmo disposto a deixar o pecado, ou a
ocasião próxima de pecar; quando não se está disposto a
reparar na medida do possível, os danos, o escândalo dado,
ou quando tem intenções de continuar no pecado. Em todos
esses casos, a absolvição seria inútil, danosa mesmo, porque
cometer-se-ia um sacrilégio, confessor e penitente
comprometer-se-iam ao mesmo tempo.
O
Padre Fusignano conta que um senhor tinha um mau costume
havia muito tempo, e não obstante achava sempre algum
confessor que o absolvia. Sua mulher chorava, rezava e não
deixava de fazer-lhe notar o seu péssimo estado. Mas ele
sorrindo dizia-lhe: "Você é bem louca para se aborrecer
tanto por minha causa. Se fosse uma coisa assim tão má, o
confessor não me absolveria".
E assim continuou até à morte com a sua desonestidade.
Mas, depois de morto, apareceu à mulher, rodeado de chamas,
nas costas de outro, também horrivelmente atormentado e com
gritos desesperados disse: "Estou condenado por não
ter deixado a ocasião de pecar e este que me carrega nas
costas, é o meu confessor que me absolvia, apesar de eu ser
indigno".
D.
— Coitados!... Em caso contrário, Padre, isto é, quando o
penitente está arrependido e tem boas disposições, o
confessor absolve sempre?
M.
— Sim, sempre absolve e perdoa, mesmo quando se trata
de alguma culpa enorme e gravíssima.
O
muito douto teólogo francês João Gaume contava que um dos
perversos que, durante a revolução francesa, se tinha
manchado com os mais terríveis crimes e mais de uma vez
tinha feito correr sangue dos sacerdotes, tinha caído
gravemente enfermo. Esse homem tinha jurado que nenhum
sacerdote teria posto os pés no seu quarto e que, se
entrasse, dali não sairia. Tendo-se agravado a doença, um
bom padre ofereceu a vida, contanto que pudesse salvar o
infeliz. Ao vê-lo, o homem encolerizou-se e, juntando todas
as forças gritou:
— O
quê? Um sacerdote na minha casa? As minhas armas, depressa!
—
O quê quer fazer com elas? Perguntou-lhe com muita doçura
o sacerdote.
—
Quero matar-te, tu que ousas aparecer na minha frente! Não
sabes que com estas mãos já degolei doze padres?
—
Engana-se,meu irmão; para esse número ainda falta um; o
décimo segundo não morreu; o décimo segundo sou eu. Deus
conservou-me a vida para que eu o salvasse.
— Para
salvar-me? E quem poderá salvar-me depois de tantos crimes?
—
O seu arrependimento e a minha absolvição.
Mas o
senhor ainda não sabe de tudo; se eu lhe contasse tudo o
senhor me amaldiçoaria.
—
Amaldiçoá-lo?! absolutamente nunca!
— E o
senhor ainda me dará a absolvição?
—
Sim, porque Jesus Cristo assim o quer.
E,
muito caridosamente, começou a instruí-lo e a prepará-lo
para uma boa morte.
D.
— Que heróico e santo Sacerdote! Mas será que todos os
confessores são assim?
M.
— Sim, todos eles são assim porque todos representam
Jesus Cristo, que ordenou que perdoássemos sempre.
D.
— Pois então, se o confessor absolve sempre, não devemos ter
medo, não é mesmo?
M.
— Não, nada de medo, nunca! Ele é sempre um pai
carinhoso.
Francisco Renato, visconde de Chateaubriand, celebérrimo
escritor francês, escreve nas suas "Memórias de
Além-túmulo": "Aproximava-se a época da minha
primeira Comunhão. (Na França fazia-se naquele tempo a
primeira Comunhão aos quatorze anos). A minha piedade
parecia sincera; eu edificava todos os meus companheiros.
Tinha eu um confessor de aspecto um tanto rígido; cada vez
que me apresentava ao tribunal da Penitência, ele me
interrogava com ansiedade surpreendido com a insignificância
das minhas culpas, não sabia explicar o meu embaraço diante
da pouca importância dos segredos que eu lhe confiava.
Quanto mais perto íamos chegando da Páscoa, mais insistentes
se tornavam as suas perguntas. "Você não esconde nada?",
perguntava ele. E eu respondia: "Não, Padre..."
— Você
não cometeu este ou aquele pecado?
— Não,
Padre... E sempre "Não, Padre". Ele me dispensava duvidoso,
suspirando, procurando ler no fundo da minha alma, e eu
voltava do confessionário pálido e desfigurado como um
culpado. Escondia pecados.
Chegou
a tarde de quarta-feira santa, véspera da Comunhão Pascoal.
Chegando à igreja, prostrei-me diante do altar e ali fiquei
como se estivesse aniquilado. Quando me levantei para ir à
Sacristia, onde o Confessor me esperava, meus joelhos
tremiam, atirei-me aos pés do Sacerdote, e, com a voz mais
alterada do que nunca, fiz a confissão de sempre.
— Você
não se esqueceu de nada? Perguntou-me o Ministro de Deus.
Eu
calei-me. Às suas perguntas recomeçaram e o fatal "Não,
Padre" saiu de novo dos meus lábios. Ele recolheu-se, rezou,
e, fazendo um esforço, preparou-se para dar-me a absolvição.
Se naquele instante um raio tivesse caído em cima de mim o
meu pavor teria sido menor e eu gritei:
— Eu
não disse tudo!
Aquele
juiz tão temido, aquele Ministro de Deus cujo rosto me
inspirava tanto temor, tornou-se o pai mais carinhoso,
abraçou-me chorando, e:
—
Coragem, meu filho, tenha coragem! Um momento
como aquele, nunca mais viverei. Eu chorava de alegria,
depois da primeira palavra, o resto não me custou mais
esforço algum. O sacerdote, erguendo a mão pronunciou as
palavras da absolvição. Esta segunda vez, a sua mão fez
descer sobre a minha cabeça o orvalho celeste e abaixei a
fronte para recebê-la. Eu participava da felicidade dos
anjos.
No dia
seguinte, quando a Hóstia Santa pousou nos meus lábios,
senti-me iluminado por uma luz vivíssima. “Senti então
em mim a coragem dos mártires, naquele instante, eu teria
sido capaz de confessar a minha fé em Cristo sobre o acúleo
ou no meio dos leões...” Eis aí, meu filho, quem é o
Confessor, na opinião dos maiores entre os grandes homens.
Ele é sempre, repito, "o pai mais carinhoso".
> Continua na Parte VII.
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