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O SACRAMENTO DA CONFISSÃO.
CONFESSAI-VOS BEM !!!
Parte III.
O demônio mudo
D.
— Padre, o senhor há pouco falou no “demônio mudo”; o quê
vem a ser esse demônio mudo?
M.
— É o demônio da impureza ou desonestidade. O
próprio Jesus chama-o assim no Santo Evangelho.
D.
— Mas o que é essa impureza ou desonestidade?
M.
— São todos os pecados proibidos pelo sexto e nono
mandamentos, isto é, as más ações, os maus olhares, os maus
desejos e as infidelidades e malícias no matrimônio.
D.
— Então a impureza é um pecado muito grave?
M.
— É um pecado gravíssimo e abominável diante de Deus
e dos homens. Abaixa os que o cometem às
condições dos brutos, é causa de muitos pecados e provoca os
maiores e terríveis castigos nesta e na outra vida.
A
Sagrada Escritura chama os pecados de impureza pelos nomes
mais baixos: “crime péssimo, coisa detestável,
horrível infâmia sem nome”. São Paulo então, diz
claramente: "Neque molles, neque fornicarii, neque
adulteri... regnum Dei possidebunt".
"Vida desonesta, morte impenitente".
Isto
quer dizer que nem os moles, que pecam sozinhos; nem os
devassos; nem os adúlteros, que são infiéis no matrimônio,
possuirão o reino de Deus!
D.
— Pobres de nós! Devemos então estar sempre alerta.
M.
— Certamente! Os santos Padres são todos da mesma opinião
quando dizem que a impureza é o pecado que atrai maior
número de almas para o inferno.
D.
— Devéras?
M.
— É isso mesmo! Santo Agostinho afirma que, assim como
a soberba populou o inferno de anjos, a desonestidade
enche-o de homens; e Santo Afonso acrescenta que
todos os cristãos que são condenados, o são por causa
da desonestidade, ou pelo menos, nunca sem ela.
D.
— E qual será o motivo disso?
M.
— Os motivos são especialmente dois:
1.° As desonestidades são pecados fáceis de cometer.
2.° Uma vez cometidos tais pecados, é difícil emendar-se.
D.
— Por quê são pecados bastante fáceis de cometer?
M.
— Porque não devemos crer que os pecados de desonestidade
consistem unicamente nas fornicações, nos adultérios
e outros tantos pecados nefandos; esses são
excessos. Para se pecar mortalmente contra a pureza
bastam os olhares lascivos, as leituras obscenas, as canções
impudicas, os gestos e as conversas maliciosas, os namoros
licenciosos, e até os pensamentos e complacências íntimos e
os desejos impuros quando consentimos neles livremente.
D.
— E por quê são os mais difíceis para corrigir?
M.
— Porque, infelizmente, um pecado chama outro,
até que, pouco a pouco forma-se uma cadeia que depois não
conseguimos mais romper. Neste caso também, ai daquele que
começa!
D.
— Será possível! Mas a confissão não serve de nada? Não
consegue romper a cadeia?
M.
— A confissão é sempre um meio poderosíssimo, quando
bem feita; é aqui no entanto que está o engano; aqui
está toda a força do demônio mudo; ele fecha a boca como já
vimos, e não permite que se confessem bem esses pecados.
D.
— Oh! Mas se, se confessarem bem todas as vezes não
prosseguiriam no caminho da desonestidade, não é mesmo,
Padre? A confissão seria mais forte do que eles.
M.
— Justamente. O demônio mudo gosta das trevas, a
confissão traz a luz, e a luz afugenta os pecados.
D.
— Então, a misericórdia de Deus abandona o pecador
desonesto?
M.
— Não é Deus que abandona o desonesto, mas o desonesto que
abandona a Deus, não se importando mais com Ele, ou pior
ainda, desprezando-O como vimos no capítulo precedente.
Portanto a desonestidade é chamada a mãe da impenitência
final e os Santos dizem: "Vida desonesta, morte
impenitente".
D.
— E por que é a mãe da impenitência final?
M.
— Porque na hora da morte, geralmente esse pecado não se
confessa. Os pecadores não estão dispostos a confessar
e a apagar o pecado com o devido arrependimento.
D.
— Mesmo em ponto de morte?
M.
— Sim, até em ponto de morte! E resignam-se a perder a
Paraíso e ir para o inferno.
Lutero era um frade agostiniano: por um amor impuro deixou o
convento, rebelou-se contra a Igreja,
fundou o protestantismo e entregou-se a uma vida
escandalosa. Uma noite estava ele no terraço de um
hotel ao lado de Catarina Bora sua companheira de pecado.
A temperatura era suave, o céu estava lindo e milhares de
estrelas brilhavam no firmamento. Catarina, cansada talvez
daquela vida de remorso, voltou-se de repente para Lutero e
lhe disse:
—
“Olha Martinho, como é lindo o céu!”
Aquelas palavras, Martinho exclamou com um suspiro profundo:
— Sim,
Catarina, o céu é lindo, mas não é mais para nós!
O
infeliz sentia que ia perder o Paraíso, mas se confessava
incapaz de ressurgir e morria pouco depois naquele mesmo
hotel, dando mostras do mais terrível desespero. “Vida
desonesta, morte impenitente”.
***
Teodoro Beza, sucessor de Calvino e chefe da reforma
protestante, atingido por uma enfermidade mortal, foi
visitado por São Francisco de Sales. Este com o seu
zelo ardente tentou todos os meios possíveis para induzi-lo
a abjurar o erro, voltar para o seio da Igreja Católica, e
preparar-se para uma morte cristã. “Impossível” repetia,
suspirando, o doente de quando em quando "impossível". Por
fim, como o Santo insistia para saber o porquê daquela
palavra “impossível”, Teodoro com esforço, apoiou-se num
cotovelo, puxou uma cortina que fechava uma alcova, e,
mostrando uma mulher ali escondida: Eis aí,
exclamou, a razão da impossibilidade de me converter e de me
salvar!
Preferiu a morte e o inferno, mas não deixou o pecado. Aqui
também: “Vida desonesta, morte impenitente.”
***
Na
cidade de Spoleto, vivia uma jovem dissoluta, cuja
existência era unicamente dedicada à vaidade e aos
bailes. Aconselhada mais de uma vez a corrigir-se
desprezava com soberba os avisos e fazia pouco caso deles.
Sua
própria mãe, orgulhosa da beleza e do brio da filha, sentia
imenso prazer em vêla cortejada por um bom número de
amantes, e deixava as coisas correrem na esperança de
encontrar um bom partido; de mais a mais acreditava que,
passado o ardor da mocidade, ela acabaria sossegando.
Oh, mães cegas e imprudentes, que não só não se preocupam,
mas ainda traem suas filhas, quando não são elas próprias
que as arrastam à desonra e à ruína!
E o
que aconteceu?
A
infeliz moça caiu gravemente enferma. Pessoas sérias e
respeitáveis da vizinhança aconselharam-na a chamar o
sacerdote, a receber os sacramentos, preparar-se para a
morte, enfim. Mas a pobre teimava:
—
“Qual, repetia, é impossível, que eu tão moça e bela, morra;
eu não devo, não devo morrer!” Por fim, veio o Sacerdote;
este por sua vez suplicava-lhe que tivesse juízo, que
rezasse a Maria Santíssima porque a morte poderia
surpreendê-la.
Qual
morte, qual nada! Eu devo é viver! Eu não posso, não quero
morrer!
Como a
insistência aumentasse, por fim, percebendo que as forças
começavam a faltar-lhe, com um esforço supremo, exclamou com
ira:
—
“Pois bem, se assim, se é que eu vou mesmo morrer, vem tu,
Satanás, e toma a minha alma ti!” E, cobrindo o rosto com o
lençol, entregou no demônio a alma desesperada. “Vida
desonesta, morte impenitente”.
Ouça
mais este exemplo, que o encherá de pavor:
Um
cavalheiro vivia com uma moça de maus costumes. Aos que o
aconselhavam abandoná-la ele respondia sempre com um
desdenhoso “não posso”. Mas a morte chegou para desuní-los.
O
infeliz cavalheiro adoeceu gravemente, e, como estava nas
últimas, chamaram um sacerdote para prepará-lo para dar o
passo terrível. Tão caridoso e paciente foi o padre que o
enfermo, humildemente, respondeu:
— Com
prazer! Apesar de ter levado uma vida má, desejo ter uma boa
morte com uma santa confissão.
— O
senhor quererá receber também os Sacramentos como um bom
cristão?
— É
com prazer que os receberei, se vos dignardes de mos
administrar.
—
Mas isto não será possível se o senhor não despedir
primeiro aquela moça.
— Ah,
isso, Padre, eu não posso fazer.
— E
por que não pode? Pode e deve fazê-lo, meu caro senhor, se
quiser salvar-se.
— Mas
eu repito não posso!
— Mas
o senhor não vê que, com a morte, tão próxima, será obrigado
a deixá-la por força?
— Não
posso, Padre, não posso!
—
Mas assim, eu não o absolvo, não lhe administro os
Sacramentos e o senhor perderá o paraíso, será precipitado
no inferno!
— Não
posso!
— Será
possível que eu não posso obter do senhor outra palavra?
Pense na sua honra, na sua estima se morrer excomungado.
— Não
posso, repetiu o infeliz pela última vez. E, agarrando
a moça por um braço, puxou-a para si apertando-a com força
ao peito, e assim, nos braços daquela mulher indigna,
expirou.
D.
— São tremendos, mas justos os castigos de Deus. Será
possível, Padre, que não se pode mesmo abandonar o pecado?
M.
— Na maioria dos casos, não se quer abandoná-lo,
eis tudo!
Santo
Agostinho conta que um certo homem, não ouvia nem os
conselhos nem as súplicas dos que procuravam convencê-lo a
abandonar uma casa que freqüentava com grande escândalo. Não
quis saber de nada, dizendo que absolutamente não podia.
Aconteceu que um dia, naquela mesma casa lhe deram uma carga
de pauladas das mais respeitáveis.
Acredite que ele abandonou no mesmo instante a casa: a
impossibilidade toda desapareceu.
“Quod
non fecit Dominus”
acrescenta o Santo “fecit baculus”: aquilo que Deus e
o amor da alma não conseguiram, conseguiu-o a bengala.
> Continua na Parte IV.
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