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IMITAÇÃO DE CRISTO.
Da prudência nas ações.
1.
Não se há de dar crédito a toda palavra nem a qualquer
impressão, mas cautelosa e naturalmente se deve, diante de
Deus, ponderar as coisas. Mas, ai! Que mais
facilmente acreditamos e dizemos dos outros o mal que o bem,
tal é a nossa fraqueza. As almas perfeitas, porém, não
crêem levianamente em qualquer coisa que se lhes conta, pois
conhecem a fraqueza humana inclinada ao mal e fácil de pecar
por palavras.
2.
Grande sabedoria é não ser precipitado nas ações, nem
aferrado obstinadamente à sua própria opinião; sabedoria é
também não acreditar em tudo que nos dizem, nem comunicar
logo a outros o que ouvimos ou suspeitamos. Toma
conselho com um varão sábio e consciencioso, e procura antes
ser instruído por outrem, melhor que tu, que seguir teu
próprio parecer. A vida virtuosa faz o homem sábio
diante de Deus e entendido em muitas coisas. Quanto mais
humilde for cada um em si e mais sujeito a Deus, tanto mais
prudente será e calmo em tudo.
Da leitura das Sagradas Escrituras
1.
Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e
não a eloqüência. Todo livro sagrado deve ser lido
com o mesmo espírito que o ditou. Nas Escrituras devemos
antes buscar nosso proveito que a sutileza da linguagem.
Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e
piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te
mova a autoridade do escritor, se é ou não de grandes
conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor a
verdade. Não procures saber quem o disse; mas considera o
que se diz.
2.
Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece
eternamente (Sl 116,2). De vários modos
nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa
curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das
Escrituras; porque queremos compreender e discutir o que se
devia passar singelamente. Se queres tirar proveito,
lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do
renome de letrado. Pergunta de boa vontade e
ouve calado as palavras dos santos; nem te
desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam
sem razão.
Das afeições desordenadas
1.
Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa
desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo
e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o humilde
de espírito vivem em muita paz. O homem que não é
perfeitamente mortificado facilmente é tentado e vencido,
até em coisas pequenas e insignificantes. O
homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à
sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos
os desejos terrenos. Daí a sua freqüente tristeza, quando
deles se abstém, e fácil irritação, quando alguém o
contraria.
2.
Se, porém, alcança o que desejava, sente logo o
remorso da consciência, porque obedeceu à sua paixão,
que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em
resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do
coração, e não em segui-las.
Não
há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem no do
homem entregue às coisas exteriores, mas somente no
daquele que é fervoroso e espiritual.
Como se deve fugir à vã esperança e presunção
1.
Insensato é quem põe sua esperança nos homens ou nas
criaturas. Não te envergonhes de servir a
outrem por Jesus Cristo, e ser tido como pobre neste mundo.
Não confies em ti mesmo, mas põe em Deus tua esperança. Faze
de tua parte o que puderes, e Deus ajudará tua boa vontade.
Não confies em tua ciência, nem na sagacidade de qualquer
vivente, mas antes na graça de Deus, que ajuda os humildes e
abate os presunçosos.
2.
Se tens riquezas, não te glories delas, nem dos amigos, por
serem poderosos, senão em Deus, que dá tudo, além de tudo,
deseja dar-se a si mesmo. Não te desvaneças com a airosidade
ou formosura de teu corpo, que com pequena enfermidade se
quebranta e desfigura. Não te orgulhes de tua
habilidade ou de teu talento, para que não desagrades a
Deus, de quem é todo bem natural que tiveres.
3.
Não te reputes melhor que os outros para não seres
considerado pior por Deus, que conhece tudo que há no homem.
Não te ensoberbeças pelas boas obras, porque os juízos dos
homens são muito diferentes dos de Deus, a quem não raro
desagrada o que aos homens apraz. Se em ti houver
algum bem, pensa que ainda melhores são os outros, para
assim te conservares na humildade. Nenhum mal te fará se te
julgares inferior a todos; muito, porém, se a
qualquer pessoa te preferires. De contínua paz goza o
humilde; no coração do soberbo, porém, reinam inveja e iras
sem conta.
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