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Do Livro A IMITAÇÃO DE CRISTO.
(Frei Tomás de Kempis)
Devota exortação
à Sagrada Comunhão.
Voz de Cristo:
Vinde a mim todos que penais e estais sobrecarregados, e eu
vos aliviarei, diz o Senhor
(Mt 11,78).
O pão que eu darei é a minha carne, pela vida do mundo
(Jo 6,52).
Tomai e comei, este é o meu corpo, que será entregue por
vós; fazei isto em memória de mim
(Lc 22,19).
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu
nele
(Jo 6,57).
As
palavras que eu vos disse são espírito e vida (Jo 6,64).
Com quanta reverência cumpre receber a Cristo
Voz do discípulo:
1.
São vossas essas palavras, ó Jesus, verdade eterna, ainda
que não fossem proferidas todas ao mesmo tempo, nem escritas
no mesmo lugar. Sendo vossas, pois, essas palavras e
verdadeiras, devo recebê-las todas com gratidão e fé.
São vossas, porque vós as dissestes; e são também minhas,
porque as dissestes para minha salvação. Cheio de alegria as
recebo de vossa boca, para que mais profundamente se me
gravem no coração. Animam-se palavras de tanta ternura,
atemorizam-me os meus pecados, e minha consciência impura me
afasta da participação de tão altos mistérios. Atraime a
doçura de vossas palavras, mas me oprime a multidão de meus
pecados.
2.
Mandais que me chegue a vós com grande confiança, se quero
ter parte convosco; e que receba o manjar da imortalidade,
se desejo alcançar a vida e glória eterna. Vinde, dizeis
vós, vinde a mim todos que penais e estais sobrecarregados,
e eu vos aliviarei. Ó palavra doce e amorosa aos ouvidos do
pecador: vós, Senhor meu Deus, convidais o pobre e
indigente à comunhão de vosso santíssimo corpo, mas quem sou
eu, Senhor, para ousar aproximar-me de vós? Eis que os céus
dos céus não vos pode abranger, e dizeis: Vinde a mim todos!
Que quer dizer essa condescendência tão meiga e esse tão
amoroso convite? Como me atreverei a chegar-me a vós, quando
não conheço em mim bem algum em que me possa confiar? Como
posso acolher-vos em minha morada, eu, que tantas vezes
ofendi a vossa benigníssima face? Tremem os anjos e os
arcanjos, estremecem os santos e os justos, e vós dizeis:
Vinde a mim todos! Se não fosse vossa essa
palavra, quem a teria por verdadeira? Se vós o não
ordenásseis, quem ousaria aproximar-se?
3.
Noé, o varão justo, trabalhou cem anos na construção
da arca para salvar-se com poucos: como me poderei eu
preparar numa hora para receber com reverência o Criador do
mundo? Moisés, vosso grande servo e particular
amigo, fabricou a arca de madeira incorruptível, e
revestiu-a de ouro puríssimo, para guardar nela as tábuas da
lei; e eu, criatura vil, me atreverei a receber-vos com
tanta facilidade, a vós, que sois o autor da lei e o
dispensador da vida?
Salomão, o mais sábio dos reis de Israel, levou sete anos a
edificar o templo magnífico, em louvor de vosso nome, e
celebrou por oito dias a festa de sua dedicação, ofereceu
mil hóstias pacíficas, e ao som das trombetas e com muito
júbilo colocou a arca da aliança no lugar que lhe havia sido
preparado. E eu, o mais miserável de todos os homens, como
poderei receber-vos em minha casa, quando mal sei empregar
meia hora com devoção? E oxalá que uma vez sequer a houvesse
empregado dignamente!
4.
Ó meu Deus, quanto se esforçaram esses vossos servos para
agradar-vos! Ai, quão pouco é o que eu faço! Quão pouco o
tempo que gasto em preparar-me para a comunhão! Raras
vezes estou de todo recolhido, raríssimo livre de toda
distração. E, todavia, na presença salutar de vossa
divindade não me devia ocorrer pensamento algum impróprio,
nem eu me devia ocupar de criatura alguma, pois vou
hospedar, não a um anjo, senão ao Senhor dos anjos.
5.
Demais, há grandíssima diferença entre a arca da aliança com
suas relíquias e vosso puríssimo corpo com suas inefáveis
virtudes; entre aqueles sacrifícios da lei, que eram apenas
figuras do futuro, e o sacrifício verdadeiro de vosso corpo,
que é o cumprimento de todos os sacrifícios antigos.
6.
Por que, pois, se me não acende melhor o meu coração na
vossa adorável presença? Por que me não preparo com maior
cuidado para receber vosso santos mistério, quando aqueles
santos patriarcas e profetas, reis e príncipes, com todo o
povo, mostraram tanta devoção e fervor no culto divino?
7.
Com religioso transporte dançou o piedosíssimo rei Davi
diante da arca da aliança, em memória dos benefícios
concedidos outrora a seus pais; mandou fabricar vários
instrumentos musicais, compôs salmos e ordenou que se
cantassem com alegria, e ele mesmo os cantava muitas vezes
ao som da harpa; ensinou ao povo de Israel a louvar a Deus
de todo o coração e engrandecê-lo e bendizê-lo todos os
dias, a uma voz. Se tanta era, então, a devoção e o fervor
divino diante da arca do testamento, quanta reverência
e devoção devo eu ter agora, e todo o povo cristão, na
presença do Sacramento e na recepção do preciosíssimo corpo
de Cristo!
8.
Correm muitos a diversos lugares para visitar as relíquias
dos santos, e se admiram ouvindo narrar os seus feitos;
contemplam os vastos edifícios dos templos e beijam os
sagrados ossos, guardados em seda e ouro. E eis que
aqui estais presente diante de mim, no altar, vós, meu Deus,
Santo dos santos. Criador dos homens e Senhor dos anjos.
Em tais visitas, muitas vezes é a curiosidade e a novidade
das coisas que move os homens; e diminuto é o fruto de
emenda que recolhem, principalmente quando fazem essas
peregrinações com leviandade, sem verdadeira contrição.
Aqui, porém, no Sacramento do Altar, vós estais todo
presente, Deus e homem, Cristo Jesus; aqui o homem
recebe copioso fruto de eterna salvação, todas as vezes que
vos recebe digna e devotamente. Aí não nos leva nenhuma
leviandade, nem curiosidade ou atrativo dos sentidos, mas
sim a fé firme, a esperança devota e a caridade sincera.
9.
Ó Deus invisível, Criador do mundo, quão maravilhosamente
nos favoreceis, quão suaves e ternamente tratais com vossos
escolhidos, oferecendo-vos a vós mesmo como alimento, neste
Sacramento! Isto transcende todo entendimento, isto
atrai os corações dos devotos e acende o seu amor.
Porque esses teus verdadeiros fiéis, que empregam toda a sua
vida na própria emenda, recebem muitas vezes deste augusto
Sacramento copiosa graça de devolução e amor à virtude.
10.
Ó graça admirável e oculta deste Sacramento, que só
dos fiéis de Cristo é conhecida, mas que os infiéis
e escravos do pecado não podem experimentar! Neste
Sacramento se dá a graça espiritual, recupera a alma a força
perdida, refloresce a formosura deturpada pelo pecado.
Tamanha é, às vezes, esta graça, que, pela abundância da
devoção recebida, não só a alma, mas ainda o corpo fraco
sente-se munido de maiores forças.
11.
É, porém, muito para chorar e lastimar a nossa tibieza
e negligência, o pouco fervor em receber a Jesus Cristo,
em quem reside toda a esperança e merecimento dos que
se hão de salvar. Porque ele é a nossa santificação e
redenção, ele o consolo dos peregrinos e o gozo eterno dos
santos. E assim é muito pra chorar o pouco caso que
tantos fazem deste salutar mistério, sendo ele a alegria do
céu e a conservação de todo o mundo. Ó cegueira e
dureza do coração humano, que tão pouco estima esse dom
inefável, antes, com o uso cotidiano que dele faz,
chega a cair na indiferença!
12.
Pois, se esse augusto Sacramento se celebrasse num só
lugar e fosse consagrado por um só sacerdote no mundo, com
quanto desejo imaginas que acudiriam os homens a visitar
aquele lugar e aquele sacerdote a fim de assistir à
celebração dos divinos mistérios? Agora, porém, há
muitos sacerdotes, e em muitos lugares Cristo é oferecido,
para que tanto mais se manifeste a graça e o amor de Deus
para com os homens, quanto mais largamente é difundida pelo
mundo a sagrada comunhão. Graças vos sejam dadas, bom
Jesus Pastor eterno, que vos dignais sustentar-nos a
nós, pobres e desterrados, com vosso precioso corpo e
sangue, e até convidar-nos, com palavras de vossa própria
boca, à participação desses mistérios, dizendo: Vinde a mim
todos que penais e estais sobrecarregados, e eu vos
aliviarei.
Como neste Sacramento se mostra ao homem a grande bondade e
caridade de Deus
A Voz do discípulo
1.
Confiado, Senhor, na vossa bondade e grande misericórdia, a
vós me chego, qual enfermo ao médico, faminto
e sequioso à fonte da vida, indigente ao Rei do céu, servo
ao Senhor, criatura ao Criador, desconsolado ao meu piedoso
Consolador. Mas donde me vem a graça de virdes a mim? Quem
sou eu, para que vós mesmos vos ofereçais a mim? Como ousa o
pecador aparecer diante de vós? e vós, como vos dignais vir
ao pecador?
Conheceis vosso servo e sabeis que nenhum bem há nele para
que lhe presteis esse benefício. Confesso, pois, minha
vileza, reconheço vossa bondade, louvo vossa misericórdia e
dou-vos graças por vossa excessiva caridade. Por vós mesmos
fazeis isso, não por meus merecimentos, mas para que vossa
bondade me seja mais manifesta, maior caridade me seja
infundida e a caridade me seja mais perfeitamente
recomendada. Pois que assim vos apraz e assim ordenastes, a
mim também me agrada vossa condescendência, e oxalá não
ponham estorvo meus pecados!
2.
Ó dulcíssimo e benigníssimo Jesus! louvor vos devo
pela participação do vosso sacratíssimo corpo, cuja
existência ninguém pode explicar! Mas que hei de
pensar nesta comunhão, chegando-me a meu Senhor, a quem não
posso devidamente honrar, e todavia desejo receber com
devoção? Que coisa melhor e mais salutar posso pensar, senão
humilhar-me totalmente diante de vós e exaltar vossa
infinita bondade para comigo? Eu vos louvo, Deus meu, e vos
engrandeço para sempre. Desprezo-me e a vós me submeto no
abismo de minha vileza.
3.
Vós sois o Santo dos santos, e eu a escória dos
pecadores. Vós baixais para mim, que não sou digno de
levantar os olhos para vós. Vindes a mim, quereis
estar comigo, convidais-me ao vosso banquete. Quereis
dar-me o alimento espiritual e o pão dos anjos, que outro,
na verdade, não é senão vós mesmos, pão vivo, que descestes
do céu e dais a vida ao mundo.
4.
Eis a fonte do amor, donde resplandece a vossa
misericórdia! Que ações de graças vos são
devidas por este benefício! Oh! quão salutar e
proveitoso foi o vosso desígnio, em instituir este
Sacramento! Quão suave e delicioso banquete, em que a vós
mesmos vos destes em alimento! Quão admiráveis, Senhor, são
vossas obras, quão inefável vossa verdade! Porque dissestes
- e tudo se fez, e fez-se aquilo que ordenastes.
5.
Coisa maravilhosa e digna de fé e acima de toda
compreensão humana é que vós, Senhor, meu Deus, verdadeiro
Deus e homem, estejais todo inteiro debaixo das
insignificantes espécies de pão e vinho, e, sem serdes
consumido, alimentais aquele que vos recebe. Vós,
Senhor do universo, que não precisas de coisa alguma,
quisestes morar em nós por vosso Sacramento; conservai meu
coração e meu corpo sem mancha, para que com alegre e pura
consciência possa muitas vezes celebrar e receber vossos
mistérios, para minha eterna salvação, visto que os
instituístes e ordenastes principalmente para vossa honra e
perpétua lembrança.
6.
Regozija-te, minha alma, e agradece a Deus tão excelente
dádiva e singular consolação, que ele te deixou neste vale
de lágrimas. Porque todas as vezes que celebrares este
mistério e receberes o corpo de Cristo, renovas a obra de
tua redenção e te tornas participante de todos os
merecimentos de Cristo. Pois a caridade de Cristo nunca se
diminui, nem se esgota jamais a grandeza de sua propiciação.
Por isso te deves preparar sempre para este ato pela
renovação do espírito, e considerar com atenção este grande
mistério de salvação. Tão grande, novo e
delicioso se te deve afigurar, quando celebras ou ouves a
Missa, como se Cristo no mesmo dia descesse pela primeira
vez ao seio da Virgem e se fizesse homem, ou como se,
pendente da cruz, padecesse e morresse pela salvação dos
homens.
Da utilidade da comunhão freqüente
Voz do discípulo
1.
Eis que venho a vós, Senhor, para aproveitar-me de vossa
munificência, e deliciar-me neste sagrado banquete, que vós,
Deus meu, preparastes, na vossa ternura, para o pobre. Em
vós se acha tudo o que posso e devo desejar; vós sois minha
esperança, fortaleza honra e glória. Alegrai, pois, hoje, a
alma de vosso servo, porque a vós, Senhor Jesus, levantei a
minha alma. Desejo receber-vos agora com devoção e
reverência; desejo hospedar-vos em casa, para que, com
Zaqueu, mereça ser abençoado e contado entre os filhos de
Abraão. Minha alma suspira por vosso corpo; meu coração
deseja ser convosco unido.
2.
Dai-vos a mim e estou satisfeito; porque sem vós nada me
pode consolar. Sem vós não posso estar, e sem vossa visita
não posso viver. Por isso muitas vezes devo achegar-me
a vós e receber-vos para remédio de minha salvação, a fim de
não desfalecer no caminho quando estiver privado deste
alimento celestial. Assim vós mesmo o dissestes uma
vez, misericordiosíssimo Jesus, quando pregáveis e curáveis
diversas enfermidades: "Não os quero despedir em
jejum, para que não desfaleçam no caminho"(Mt 15,
32). Fazei também do mesmo modo comigo, pois ficastes neste
Sacramento para consolação dos fiéis. Vós sois a suave
refeição da alma, e quem dignamente vos receber se tornará
participante e herdeiro da glória eterna. A mim, que tantas
vezes caio e peco, tão depressa afrouxo e desfaleço,
mui necessário me é que, com a oração, confissão e comunhão
freqüente, me renove, purifique e afervore, para não
abandonar meus santos propósitos, abstendo-me da comunhão
por mais tempo.
3.
Pois
"os sentidos do homem estão inclinados para o mal
desde a sua adolescência" (Gn 8,21), e se não
o socorre o remédio celestial, logo cai o homem de mal em
pior.
Porque,
se agora, comungando ou celebrando, sou tão negligente e
tíbio, que seria se não tomasse este remédio e não buscasse
tão poderoso conforto? E ainda que não esteja, todos os
dias, preparado, nem bem disposto para celebrar, contudo me
quero esforçar para, nos tempos convenientes, receber os
sagrados mistérios e tornar-me participante de tanta graça.
Porque, enquanto a alma fiel, longe de vós, peregrina neste
corpo mortal, a única e principal consolação para ela é -
que muitas vezes se lembre do seu Deus e receba devotamente
o seu Amado.
4.
Ó maravilhosa condescendência de vossa bondade para
convosco, que vós, Senhor Deus, Criador e vivificador de
todos os espíritos, vos dignais de vir à minha pobre alma e
saciar-lhe a fome com toda a vossa divindade e humanidade! Ó
ditoso coração, ó alma bem-aventurada, que merece
receber-vos com devoção a vós, seu Deus e Senhor, e nesta
união encher-se de gozo espiritual! Oh! que grande Senhor
recebe, que amável hóspede agasalha, que agradável
companheiro acolhe, que fiel amigo aceita, que formoso e
nobre esposo abraça, mais digno de ser amado que tudo o que
se
ama e
deseja! Dulcíssimo Amado meu, emudeçam diante de vós o
céu e a terra com todos os seus ornatos; porque tudo o que
têm de brilho e beleza é dom de vossa liberalidade e não
chega a igualar a glória de vosso nome, "cuja sabedoria não
tem medida" (Sl 146,5).
Dos admiráveis frutos colhidos
pelos que comungam devotamente
1.
Senhor, meu Deus! Preveni vosso servo com as bênçãos de
vossa doçura, para que mereça digna e devotamente chegar-me
a vosso augusto Sacramento. Despertai meu coração
para
vós e tirai-me deste profundo entorpecimento.
"Visitai-me com vossa graça salutar" (Sl 105,4),
para que goze em espírito vossa doçura, que com abundância
está oculta neste Sacramento, como em sua fonte.
Iluminai também meus olhos para contemplar tão alto
mistério, e fortalecei-me para crer nele com fé inabalável.
Porque é obra vossa e não de poder humano, sagrada
instituição vossa, não invenção dos homens.
Ninguém, com efeito, se si mesmo é capaz de conceber e
compreender este mistério, que transcende à própria
inteligência dos anjos. Que, pois,
poderei eu, pecador indigno, pó e cinza, investigar e
compreender de tão alto e sagrado mistério?
2.
Senhor, na simplicidade do meu coração, com firme e sincera
fé, e obedecendo a vosso mandado, me aproximo de vós com
esperança e reverência e creio verdadeiramente que estais
presente aqui no Sacramento, Deus e homem. Pois quereis que
vos receba e me uno convosco em caridade. Por isso imploro
vossa clemência e vos suplico a graça particular de que todo
me desfaleça em vós e me consuma em amor, sem mais cuidar de
nenhuma outra consolação. Porque este altíssimo e
diviníssimo Sacramento é a saúde da alma e do corpo, remédio
de toda enfermidade espiritual; cura os vícios, reprime as
paixões, vence ou enfraquece as tentações, comunica maior
graça, corrobora a virtude nascente, confirma a fé,
fortalece a esperança, inflama e dilata a caridade.
3.
Muitos bens condedestes e concedeis ainda a miúdo aos vossos
amigos, neste Sacramento, quando devotamente comungam, ó
Deus meu, amparo da minha alma, reparador da humana fraqueza
e dispensador de toda consolação interior. Porque lhes
infundis abundantes consolações contra várias tribulações e
os levantais do abismo do próprio abatimento à esperança da
vossa proteção e os recreais e iluminais interiormente com a
nova graça, de sorte que os mesmos que antes da comunhão se
sentiam inquietos e sem afeto, depois de recreados com o
manjar e a bebida celestiais se sentem melhorados e
fervorosos.
Tudo isso prodigalizais aos vossos escolhidos, para que
verdadeiramente conheçam e evidentemente experimentem quanta
fraqueza têm em si mesmos e quanta bondade e graça alcançam
de vós. Pois de si mesmos são frios, tíbios e insensíveis;
por vós, porém, tornam-se fervorosos, alegres e devotos.
Quem, porventura, se chegará humilde à fonte da suavidade,
que não receba dela alguma doçura? Ou quem, junto de um
grande fogo, deixará de sentir algum calor? E vós sois a
fonte sempre cheia e abundante; o fogo que sempre arde sem
jamais se apagar.
4.
Por isso, se me não é dado haurir da plenitude desta fonte,
nem beber até me saciar, chegarei, todavia, meus lábios ao
orifício do canal celeste, a fim de que receba daí ao menos
uma gota, para refrigerar minha sede e não morrer de secura.
E se não posso ainda ser todo celestial, nem tão abrasado
como os querubins e serafins, contudo me empenharei por
permanecer na devoção e dispor meu coração, para que pela
recepção humilde deste vivificante Sacramento receba ao
menos uma tênue faísca do divino incêndio. O que me falta,
porém, ó bom Jesus, Salvador santíssimo, supri-o pela vossa
bondade e graça, pois vos dignastes chamar-nos todos a vós,
dizendo: Vinde a mim todos que penais e estais
sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
5.
Na verdade, eu trabalho com o suor do meu rosto, sou
atormentado com angústias do coração, estou carregado de
pecados, molestado de tentações, embaraçado e oprimido com
muitas paixões e não há ninguém que me ajude, livre ou
salve, senão vós, Senhor Deus, Salvador meu, a quem me
entrego, com tudo o que me pertence, para que me guardeis e
leveis à vida eterna. Recebei-me para honra e glória de
vosso nome, pois me preparastes para a comida e bebida
o vosso corpo e sangue. Concedei-me, Senhor Deus,
Salvador meu, que com a frequência de vosso mistério se me
aumente o fervor da devoção.
Da dignidade do Sacramento e do estado sacerdotal
Voz do Amado
1.
Ainda que tiveras a pureza dos anjos e a santidade de
São João Batista, não serias digno de receber ou administrar
este Sacramento. Porque não é devido a merecimento algum
humano que o homem pode consagrar e administrar o Sacramento
de Cristo e comer o pão dos anjos.
Sublime mistério e grande dignidade dos sacerdotes, aos
quais é dado o que aos anjos não foi concedido! Porque só os
sacerdotes legitimamente ordenados na Igreja têm o poder de
celebrar a Missa e consagrar o corpo de Cristo, porquanto é
tão somente o ministro de Deus que usa das palavras de Deus,
por ordem e instituição de Deus; Deus, porém, é o autor
principal e invisível agente, a cujo aceno tudo obedece.
2.
Neste augustíssimo Sacramento deves, pois, mais crer
em Deus onipotente que em teus próprios sentidos ou em
qualquer sinal visível. Por isso deves aproximar-te deste
mistério com temor e reverência. Olha para ti e
considera que ministério te foi confiado pela imposição das
mãos do bispo. Foste ordenado sacerdote e consagrado
para o serviço do altar; cuida agora em oferecer a Deus o
sacrifício em tempo oportuno, com fé e devoção, e de levar
uma vida irrepreensível. Não se te diminui o
encargo, ao contrário, estás agora mais apertadamente ligado
aos vínculos de disciplina e obrigado a maior perfeição e
santidade. O sacerdote deve ser ornado de todas as
virtudes de dar aos outros o exemplo de vida santa.
Ele não deve trilhar os caminhos vulgares e comuns dos
homens, mas a sua convivência seja com os anjos do céu ou
com os varões perfeitos na terra.
3.
O sacerdote, revestido das vestes sagradas, faz as
vezes de Cristo, para rogar devota e humildemente a Deus por
si e por todo o povo. Traz o sinal da cruz do Senhor no
peito e nas costas, para que continuamente se recorde da
paixão de Cristo. Diante de si, na casula, traz a
cruz, para que considere, com cuidado, os passos de Cristo,
e se empenhe de os seguir com fervor. Nas costas também está
assinalado com a cruz, para que tolere com paciência, por
amor de Deus, qualquer injúria que outros lhe fizeram.
Diante de si traz a cruz para chorar os próprios pecados;
atrás de si, para deplorar também os alheios, por compaixão,
e para que saiba que é constituído medianeiro entre
Deus e o pecador. Também não cesse de orar e
oferecer o santo sacrifício, até que mereça alcançar graça e
misericórdia. Quando o sacerdote celebra a Santa Missa,
honra a Deus, alegra os anjos, edifica a Igreja, ajuda os
vivos, proporciona descanso aos defuntos e faz-se
participante de todos os bens.
Pergunta concernente ao exercício
antes da comunhão
Voz do discípulo
1.
Senhor, quando considero vossa dignidade e minha baixeza,
tremo de medo e me envergonho diante de mim mesmo. Porque,
se me não chego a vós, fujo da vida, e se me apresento
indignamente, incorro em vossa indignação. Que farei, pois,
Deus meu, meu auxílio e conselheiro em meu apuros?
2.
Ensinai-me vós o caminho direto, mostrai-me algum
breve exercício. Porque me é útil saber de que modo devo,
com devoção e respeito, preparar o meu coração para receber
com fruto vosso Sacramento ou celebrar tão grande e divino
sacrifício.
Do exame da própria consciência
e propósito de emenda
A Voz do Amado
1.
Antes de tudo cumpre ao sacerdote de Deus, para
celebrar, administrar e receber este Sacramento, que se
aproxime com grandíssima humildade de coração e profundo
respeito, com viva fé e piedosa intenção de honrar a Deus.
Examina diligentemente a tua consciência, procura limpá-la e
purificá-la, quanto puderes, com sincera contrição e humilde
confissão, de sorte que nada tenhas ou saibas que te pese na
consciência, que te cause remorsos e te estorve o livre
acesso. Detesta todos os teus pecados em geral, e lamenta
mais em particular as faltas cotidianas. E, se o tempo o
permite, confessa a Deus, no recôndito de teu coração, toda
a miséria de tuas paixões.
2.
Aflige-te e geme por seres ainda tão carnal e mundano, tão
pouco mortificado nas paixões, tão cheio de movimentos de
concupiscência, tão pouco recatado nos sentidos exteriores,
tão amaranhado em muitas vãs ilusões, tão inclinado às
coisas exteriores, tão descurado das interiores; tão dado ao
riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e a
compunção; tão pronto para os regalos e cômodos da carne;
tão indolente para as austeridades e o fervor; tão curioso
por ouvir novidades e ver coisas bonitas; tão remisso em
abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de possuir
muito; tão parco em dar; tão tenaz em guardar; tão
indiscreto no falar; tão insofrido no calar; tão desregrado
nos costumes; tão precipitado nas orações; tão sôfrego no
comer; tão surdo à palavra de Deus; tão ligeiro para o
descanso; tão vagaroso para o trabalho; tão atento para
conversas fúteis; tão sonolento para as sagradas vigílias;
tão pressuroso por chegar ao fim; tão vago na atenção; tão
negligente na recitação do ofício divino; tão tíbio na
celebração da missa; tão seco na comunhão; tão depressa
distraído; tão raramente bem recolhido; tão precipitado à
ira; tão fácil de melindrar os outros; tão propenso a
julgar; tão rigoroso em repreender; tão alegre nas
prosperidades, tão abatido nas adversidades; tão fecundo em
boas resoluções, tão preguiçoso em executá-las.
3.
Confessados e chorados estes e outros defeitos, com
pesar e vivo sentimento de tua própria fraqueza, toma o
firme propósito de emendar tua vida e melhorá-la
continuamente. Depois, com plena resignação e
inteira vontade, oferece-te a ti mesmo como perpétuo
holocausto em honra do meu nome, sobre o altar do teu
coração, entregando-me confiadamente teu corpo e tua alma,
para que assim mereças oferecer dignamente a Deus o
sacrifício e receber com fruto o Sacramento do meu corpo.
4.
Pois não há oblação mais digna, nem maior satisfação para
expiar os pecados, que oferecer-se a si mesmo a Deus, pura e
inteiramente, unido à oblação do corpo de Cristo, na Missa e
na comunhão. Se o homem fizer o que está em seu poder, e se
arrepender verdadeiramente de seus pecados, quantas vezes a
mim vier pedir graça e perdão, sempre
dirá o
Senhor: Por minha vida juro, não quero a morte do
pecador, mas que se converta e viva; não mais me lembrarei
dos seus pecados, mas todos lhe serão perdoados (Ez
18,22; Ez 33,11).
Da oblação de Cristo na cruz
e da própria resignação
Voz do Amado
1.
Assim como eu a mim mesmo ofereci espontaneamente ao Pai
eterno, com os braços estendidos e o corpo nu, de modo que
nada restasse em mim que não fosse oferecido em sacrifício
de reconciliação divina: assim também deves tu de coração
oferecer-te voluntariamente a mim todos os dias na Santa
Missa, em oblação pura e santa, com todas as tuas potências
e afetos. Que outra coisa exijo de ti senão que te
entregues inteiramente a mim? De tudo que me deres fora de
ti, não faço caso; porque não busco teus dons, mas a ti
mesmo.
2.
Assim como não te bastariam todas as coisas sem mim, assim
me não pode agradar o que sem ti me ofereces. Oferece-te a
mim, dá-te todo a Deus, e será aceita a tua oblação. Olha
como me ofereci todo ao Pai por ti, e dei-te todo o meu
corpo e sangue em alimento, para ser todo teu e para que tu
te tornasses meu. Se, porém, te apegares a ti mesmo, e não
te ofereceres espontaneamente à minha vontade, não será
completa tua oblação, nem perfeita a união entre nós.
Portanto, a todas as tuas
obras
deve preceder o voluntário oferecimento de ti mesmo nas mãos
de Deus, se desejas alcançar a liberdade e a graça. O motivo
de haver tão poucos interiormente esclarecidos e livres é
que muitos não sabem abnegar-se de todo a si mesmos. É
imutável minha sentença: Quem não renunciar a tudo não
poderá ser meu discípulo (Lc 14,33). Se
desejas, pois, ser meu discípulo oferece-te a mim com todos
os teus afetos.
Que devemos com tudo quanto é
nosso oferecer-nos a Deus, e orar por todos
Voz do discípulo
1.
Senhor, vosso é tudo quanto existe no céu e na terra.
Desejo oferecer-me a vós em oblação voluntária e ser vosso
para sempre. Senhor, na simplicidade do meu coração
me ofereço hoje a vós por servo perpétuo em obséquio e
eterno sacrifício de louvor. Recebei-me com este santo
sacrifício de vosso precioso corpo, que vos ofereço hoje na
presença dos anjos, que a ele invisivelmente assistem, a fim
de que sirva para minha salvação e de todo o povo.
2.
Senhor, ofereço-vos sobre vosso altar de propiciação todos
os meus pecados e delitos que tenho cometido em vossa
presença e de vossos santos anjos, desde o dia em que pela
primeira vez pequei até à hora presente, para que os
consumais e queimeis no fogo de vossa caridade, também
apagueis todas as manchas de meus pecados e purifiqueis
minha consciência de toda a culpa e me restituais a vossa
graça, que perdi pelo pecado, perdoando-me tudo plenamente e
admitindo-me na vossa misericórdia ao ósculo da paz.
3.
Que posso eu fazer em expiação dos meus pecados, senão
confessá-los humildemente e chorá-los, implorando
incessantemente vossa misericórdia? Rogo-vos, meu
Deus, ouvi-me propício, aqui onde estou em vossa presença!
Detesto sumamente todos os meus pecados, e proponho nunca
mais cometê-los; arrependo-me deles e me hei de arrepender
enquanto viver; pronto estou a fazer penitência e satisfazer
conforme as minhas forças. Perdoai-me, meu Deus, perdoai me
os meus pecados pelo vosso santo nome; salvai minha alma que
remistes com vosso precioso sangue. Eis que me abandono à
vossa misericórdia, e me entrego em vossas mãos. Tratai-me
segundo a vossa bondade, não segundo a minha iniqüidade e
malícia.
4.
Ofereço-vos todas as minhas boas obras, por poucas e
imperfeitas que sejam, para que vós as emendeis e
santifiqueis, e as façais agradáveis a vós e as aperfeiçoeis
cada vez mais, e para que me leveis a mim, servo indolente e
inútil, a um fim glorioso e bem-aventurado.
5.
Ofereço-vos também todos os santos desejos das almas
devotas, as necessidades de meus pais, amigos, irmãos,
parentes e de todos os que me são caros, ou me fizeram bem a
mim e a outros, por vosso amor; também daqueles que me
encomendaram e pediram orações e Missas por si e para todos
os seus, sejam vivos ou defuntos, para que todos sintam o
auxílio da vossa graça, o socorro da vossa consolação, a
proteção nos perigos, o alívio das penas e que, livres de
todos os males, vos rendam jubilosos, muitas graças.
6.
Ofereço-vos, finalmente, todas as orações e a hóstia de
propiciação particularmente por aqueles que de qualquer modo
me ofenderam, contristaram, censuraram, prejudicaram ou
molestaram. Enfim, por todos a quem eu tenha afligido,
perturbado, contrariado ou escandalizado, com palavras ou
obras, por ignorância ou com advertência, a fim de que a
todos nos perdoeis os nossos pecados e mútuas ofensas.
Apartai, Senhor, dos nossos corações toda suspeita,
indignação, e ira e contenda e tudo que possa ofender a
caridade e diminuir o amor fraternal. Compadecei-vos,
Senhor, compadecei-vos de todos os que imploram vossa
misericórdia; daí graças aos que dela necessitam, e
fazei-nos tais, que sejamos dignos de gozar a vossa graça e
alcançar a vida eterna. Amém.
Que não se deve deixar por leve
motivo a sagrada comunhão.
Voz do Amado
1.
A miúdo deves recorrer à fonte da graça e divina
misericórdia, à fonte de bondade e de toda pureza, para que
possas ser curado de tuas paixões e vícios, e merecer ficar
mais forte e vigilante contra todas as tentações e enganos
do demônio. Sabendo o inimigo qual é o fruto e
o eficacíssimo remédio que se encerra na santa comunhão,
procura por todos os modos e em qualquer ocasião impedir e
afastar dela, quanto pode, as almas fiéis e piedosas.
2.
Pois a muitos sucede que, quando tratam de preparar-se para
a santa comunhão, sofrem as piores sugestões de Satanás.
Esse espírito maligno (como está escrito no livro de Jó 1,6)
mete-se entre os filhos de Deus, para, com sua costumada
malícia, perturbá-los ou torná-los demasiadamente tímidos e
escrupulosos, a fim de lhes
diminuir a devoção ou com suas investidas arrancar-lhes a
fé, para que deixem de todo a comunhão ou só se lhe
aproximem com tibieza. Mas não se há de fazer caso algum das
suas manhas e sugestões, por mais torpes e horríveis que
sejam; ao contrário, todas essas fantasias se hão de
rechaçar sobre a sua cabeça. Desprezo e irrisão merece
esse malvado, e por causa de suas investidas ou inquietações
não se há de deixar a comunhão.
3.
Muitas vezes também causa embaraço a demasiada preocupação a
respeito da devoção ou certo receio da necessária confissão.
Procede nisto conforme o conselho dos entendidos, e deixa a
ânsia e escrúpulos, porque estorvam a graça de Deus e
impedem a devoção da alma. Não deixes a sagrada
comunhão por qualquer pequena tribulação ou contrariedade,
mas vai logo confessar-te e perdoa generosamente aos outros
todas as ofensas. Se tu, porém, ofendeste a alguém, pede
humildemente perdão, e Deus te perdoará de boa vontade.
4.
Que aproveita demorar por muito tempo a confissão ou
adiar a sagrada comunhão? Purifica-te quanto antes, expele
já o veneno, apressa-te em tomar o remédio e achar-te-ás
melhor que se por muito tempo o diferes. Se deixas
hoje a comunhão, por este ou aquele motivo, talvez que
amanhã te sobrevenha outro maior, e assim te podias afastar
por muito tempo da comunhão e tornar-te cada vez menos apto.
O mais cedo que possas, sacode de ti essa inércia e tibieza,
porque nada te aproveita viver muito tempo nessa ânsia e
perturbação e privar-te dos divinos mistérios por cotidianos
embaraços. Antes prejudica por muito adiar a comunhão por
largo tempo; porque isto costuma produzir grave frouxidão.
Infelizmente, alguns tíbios e relaxados folgam com os
pretextos de adiar a confissão e desejam a demora da
comunhão, para não serem obrigados a maior vigilância sobre
si mesmos.
5.
Ai! Que pouco amor e fraca devoção têm aqueles que tão
facilmente deixam a sagrada comunhão! Quão feliz,
porém, e quão agradável a Deus é quem vive tão santamente e
guarda a sua consciência em tal pureza, que todos os dias
estaria preparado e disposto a comungar, se lhe fosse
permitido e o pudesse fazer sem causar reparo!
Quando alguém, por humildade ou algum legítimo impedimento,
se abstém de comungar uma vez ou outra, merece louvor por
tanta reverência. Insinuando-se-lhe, porém, a tibieza, deve
reanimar-se a si mesmo e fazer o que puder, e Deus auxiliará
o seu desejo, atendendo à boa vontade, que especialmente
aprecia.
Quando for, porém, legitimamente impedido, conserve ao menos
a boa vontade e piedosa intenção de comungar, e deste modo
não ficará privado do fruto do Sacramento. Porque todo
cristão piedoso pode cada dia e a cada hora, sem embaraço e
com proveito, comungar espiritualmente.
Contudo, em certos dias e tempo determinado, deve receber
com afetuosa reverência o corpo de seu Redentor no
Sacramento, e nisto ter em vista mais a honra e glória de
Deus, que sua própria consolação. Porque
espiritualmente comunga e invisivelmente é recreado, todas
as vezes que medita devotamente no mistério da encarnação de
Cristo e da sua paixão, e se acende em seu amor.
Quem se prepara somente quando uma festa se aproxima ou o
costume o obriga, muitas vezes se achará mal preparado.
Bem-aventurado aquele que se oferece a Deus em holocausto,
todas as vezes que celebra a Santa Missa ou comunga! Não
sejas, ao celebrar, nem demasiadamente demorado, nem
apressado, mas guarda o uso comum e regular daqueles com
quem vives. Não deves causar incômodo ou enfado aos demais;
mas seguir o caminho traçado pela instituição dos maiores e
atender antes ao proveito alheio que à tua própria devoção e
afeto.
Que o corpo de Cristo e a Sagrada Escritura são sumamente
necessários à alma fiel
Voz do discípulo
1.
Ó dulcíssimo Senhor Jesus, quão grande é a doçura de
uma alma devota que toma parte no vosso banquete, no qual
outro manjar não há que se lhe ofereça, senão vós mesmo, seu
único amado, suprema aspiração de todos os desejos de seu
coração! Também a mim seria doce derramar em vossa
presença lágrimas do mais terno amor e com a piedosa
Madalena banhar os vossos pés com meu pranto; mas onde está
essa devoção, onde essa copiosa efusão de santas lágrimas?
Por certo, na vossa presença e na dos santos anjos,
meu coração devia inteiramente ficar abrasado e chorar de
alegria, pois vos tenho verdadeiramente presente no
Sacramento, embora oculto sob estranhas espécies.
2.
Contemplar-vos na vossa própria e divina claridade - não
poderiam suportar meus olhos; nem o mundo todo poderia
subsistir perante o fulgor de vossa majestade. Por
isso
viestes em socorro à minha fraqueza, em vos ocultando
debaixo do Sacramento.
Possuo realmente e adoro aquele a quem os anjos do céu
adoram; mas eu, por enquanto, só pela fé, eles, porém, com
clara visão e sem véu. Eu me devo contentar com a luz da
verdadeira fé e nela caminhar, até que amanheça o dia da
claridade eterna e desapareçam as sombras das figuras.
"Mas, quando vier o que é perfeito" (1Cor 13,10),
cessará o uso dos sacramentos; porque os
bem-aventurados na glória celeste
não necessitam do remédio sacramental.
Gozam sem fim da presença de Deus, contemplando a sua
glória face a face, e, transformados de claridade em
claridade no abismo da divindade, fruem a visão do Verbo de
Deus encarnado, como foi no princípio e permanecerá para
sempre.
3.
Ao lembrar-se dessas maravilhas, qualquer consolação me
causa tédio; porque, enquanto não vejo claramente o meu
Senhor em sua glória, em nada estimo tudo o que neste mundo
vejo e ouço. Vós, meu Deus, me sois testemunha de que
nenhuma coisa me pode consolar, nem criatura alguma me
sossegar, senão vós, meu Deus, a quem desejo contemplar
eternamente. Mas isso não é possível enquanto vivo nesta
vida mortal.
Por isso me convém ter grande paciência e submeter-me a vós
em todos os meus desejos. Porque também os vossos santos,
Senhor, que exultam agora convosco no reino dos céus,
esperavam durante a sua vida terrestre, com muita fé e
paciência, a vinda da vossa glória. O que eles creram, eu o
creio também; o que eles esperaram, eu o espero; aonde eles
chegaram, espero que hei de chegar também, pela vossa graça.
Até então, caminharei na fé, confortado com os exemplos dos
santos. Terei ainda os livros santos para consolo e espelho
de minha vida e, sobretudo terei vosso corpo sagrado como
singular remédio e excelente refúgio.
4.
Reconheço que neste mundo duas coisas me são,
sobretudo necessárias, sem as quais me seria suportável esta
miserável vida. Confesso que, enquanto estou detido no
cárcere deste corpo, necessito de duas coisas:
alimento e luz. Por isso me destes, Senhor, a mim,
fraco, o vosso sagrado corpo, para sustento da alma e do
corpo, e "pusestes a vossa palavra qual cadeia diante
de meus pés" (Sl 118,105). Sem estas duas coisas não
poderia bem viver; porque a palavra de Deus é a luz da
minha alma e vosso Sacramento o pão da vida. Podem
ser chamadas duas mesas, colocadas de um e outro lado do
tesouro da Santa Igreja. Uma é a
mesa do santo altar, onde está o pão sagrado, isto é, o
corpo de Cristo. A outra é a mesa da lei divina, que contém
a doutrina santa, nos ensina a verdadeira fé e nos conduz
com segurança atrás do véu do santuário, onde está o Santo
dos santos. Graças vos dou, Senhor Jesus, luz da luz
eterna, pela mesa da sagrada doutrina que nos ministrastes
por vossos servos, os profetas, apóstolos e outros santos
doutores.
5.
Graças vos dou, Criador e Redentor dos homens que, para dar
a todo o mundo uma prova do vosso amor, preparastes uma
grande ceia, onde oferecestes em comida, não já o cordeiro
figurativo, senão vosso santíssimo corpo e sangue, enchendo
de alegria todos os fiéis com este sagrado banquete, e
inebriando-os com o cálice da salvação, onde se encerram
todas as delícias do paraíso e juntamente convosco se
banqueteiam os santos e anjos, mas com mais suaves delícias.
6.
Oh! Quão grande e venerável é o ministério dos
sacerdotes, aos quais é dado consagrar com palavras santas o
Senhor de majestade, bendizê-lo com os lábios, tocá-lo com
as mãos, recebê-lo em suas bocas e distribuí-lo aos outros!
Oh! como lhes devem ser limpas as mãos, pura a boca, santo o
corpo, imaculado o coração, em que tantas vezes entra o
Autor da pureza! Da boca do sacerdote, que tantas vezes
recebe o Sacramento de Cristo, palavra não deve sair que não
seja santa, honesta e útil.
7.
Seus olhos, que costumam contemplar o corpo de Cristo, devem
ser modestos e castos. Puras e erguidas aos céus sejam
também suas mãos, que tantas vezes tocam o Criador do céu e
da terra. Especialmente aos sacerdotes se diz, na lei:
Sede santos, que também eu, o Senhor vosso Deus, sou
santo (Lv 19,2; 1Pd 1,16).
8.
Assista-nos vossa graça, ó Deus onipotente, para que
nós, que assumimos o ministério sacerdotal, possamos digna e
devotamente servir-vos, com toda pureza e boa consciência.
E, se não podemos viver com tanta inocência, como devemos,
concedei-nos ao menos a graça de chorar devidamente os
pecados cometidos e doravante vos servir com mais fervor, no
espírito de humildade, com firme propósito e boa vontade.
Que a alma se deve preparar com
grande diligência para a sagrada comunhão.
Voz do Amado
1.
Sou amigo da pureza e dispensador de toda santidade.
Busco um coração puro, e este é o lugar do meu repouso.
Prepara-me
um cenáculo grande e bem ornado, e nele celebrarei a Páscoa
com meus discípulos
(Lc 22,12; Mt 26,18). Se queres que eu venha a ti e
fique contigo, lança fora o velho fermento e limpa a morada
do teu coração. Desterra dele o mundo todo e o
tumulto dos vícios; assenta-te, qual passarinho solitário,
no telhado, e relembra teus pecados na amargura de tua alma
(Sl 101,8). Porque todo amante prepara para o seu
amado o melhor e mais belo aposento, porque nisto se conhece
o amor de quem acolhe o amado.
Sabe, porém, que não podes chegar a uma digna preparação com
aquilo que fazes, ainda que empregasses nela um ano inteiro,
sem cuidar em mais nada. Mas só por minha bondade e graça te
é permitido chegar à minha mesa, como se um mendigo fora
convidado à mesa de um rico e não tivera outra coisa com que
pagar os benefícios recebidos, senão humilde agradecimento.
Faze o que podes, e faze-o com diligência; não por costume
ou por necessidade, mas por temor, respeito e amor, recebe o
corpo do teu amado Senhor e Deus, que se digna de te
visitar. Sou eu quem te chamou e mandou que assim se
fizesse; eu suprirei o que te falta; vem receber-me.
2.
Quando te concedo a graça da devoção, dá graças a teu
Deus, não que sejas digno, mas porque tive pena de ti.
Se não tens
devoção, mas te sentes muito seco, persevera na oração,
suspira, bate à porta e não cesses até que mereças receber
uma migalha ou uma gota de minha graça salutar. Tu
necessitas de mim, e não eu de ti. Não vens tu me
santificar, mas sou eu quem te venho santificar e fazer
melhor. Tu vens para que, santificado por mim e a mim unido,
recebas nova graça e de novo te afervores para a emenda.
"Não desprezes esta graça" (1Tm 4,14); mas dispõe
com toda diligência teu coração e recebe nele o teu Amado.
3.
Importa, porém, que não só te prepares para a devoção
antes da comunhão, mas também que a conserves cuidadosamente
depois da recepção do Sacramento.
Não é menor a vigilância que se exige depois da comunhão, do
que a fervorosa preparação antes de recebê-la. Pois
essa boa vigilância posterior é novamente a melhor
preparação para alcançar maior graça; ao contrário,
muito indisposto se torna quem logo depois se dissipa com
recreações exteriores. Guarda-te de falar muito,
retira-te na solidão e goza do teu Deus; pois possuis aquele
que o mundo todo te não pode roubar. A mim te deves entregar
inteiramente, de sorte que já não vivas em ti, mas em mim,
sem mais cuidado algum.
Que a alma devota deve aspirar, de todo o coração, à união
com Cristo no Sacramento
Voz do discípulo
1.
Quem me dera, Senhor, achar-me só convosco, para vos abrir
todo o meu coração e vos gozar como deseja a minha alma a
ponto que já ninguém em mim reparasse, nem criatura alguma
se preocupasse comigo ou olhasse para mim, mas que só vós me
falásseis e eu a vós, como costuma falar o amante com seu
amado, e conversar o amigo com seu amigo! Isto peço, isto
desejo: ser unido todo a vós e desprender o meu
coração de todas as coisas criadas, e pela sagrada comunhão
e freqüente celebração da Santa Missa achar cada vez mais
gosto nas coisas celestiais e eternas. Ah! Senhor
meu Deus, quando estarei todo unido a vós, absorto em vós, e
completamente esquecido de mim?
Vós em
mim e eu em vós; concedei que fiquemos assim unidos!
2.
Vós sois na verdade "meu amado, escolhido entre
milhares" (Ct 5,10), no qual deseja a minha alma
morar todos os dias de sua vida. Vós sois verdadeiramente
meu rei pacífico; em vós está a suma paz e o verdadeiro
descanso, e fora de vós só há trabalho, dor e infinita
miséria. "Vós sois verdadeiramente um Deus escondido"
(Is 45,15), e vosso conselho não é com os ímpios, mas com os
humildes, e simples é vossa conversação. "Quão suave,
Senhor, é vosso espírito". Para mostrardes a vossa
doçura aos vossos filhos, vos dignais saciá-los com o pão
suavíssimo quem desceu do céu. "Na verdade, não há
outra nação tão grande que tenha seus deuses tão perto de
si, como vós, nosso Deus, estais perto de todos os fiéis"
(Dt 4,7), aos quais vos dais em alimento delicioso, para
consolá-los diariamente e erguer seus corações ao céu.
3.
Que nação há tão ilustre como o povo cristão, ou que
criatura debaixo do céu recebe tanto amor como a alma devota
a quem Deus se une para nutri-la com a sua gloriosa carne?
Ó graça inefável, ó admirável condescendência, ó amor
imenso, prodigalizado singularmente ao homem. Mas
que darei ao Senhor por esta graça e tão exímia caridade?
Oferta mais agradável não posso fazer a meu Deus, que lhe
entregar meu coração todo inteiro, para que o una
intimamente consigo. Então exultarão de alegria todas as
minhas entranhas, quando minha alma estiver perfeitamente
unida com Deus. Então me dirá ele: Se tu queres estar
comigo, eu também quero estar contigo. E eu lhe responderei:
Dignai-vos, Senhor, ficar comigo, pois eu de bom grado quero
estar convosco. Este é meu desejo supremo, que meu coração
esteja unido convosco.
Do ardente desejo que têm alguns devotos
de receber o corpo de Cristo
Voz do discípulo
1.
Oh! Como é
grande, Senhor, a abundância da vossa doçura, que
reservastes para os que vos temem!
(Sl 30,20). Quando me lembro, Senhor, de alguns devotos que
se aproximam do vosso Sacramento com o maior fervor e afeto,
fico muitas vezes confuso e envergonhado de mim mesmo, por
chegar tão tíbio e frio ao vosso altar e à mesa da sagrada
comunhão; por ficar tão seco e sem fervor de coração; por
não estar de todo abrasado diante de vós, meu Deus, nem tão
veementemente atraído e comovido, como estavam muitos
devotos, que, pelo grande desejo de sagrada comunhão e amor
sensível do seu coração, não podiam reprimir as lágrimas,
mas com a boca da alma e do corpo ao mesmo tempo suspiravam
ardentemente por vós, a fonte viva, não podendo mitigar nem
saciar essa fome doutro modo, senão recebendo vosso corpo
com toda alegria e ânsia espiritual.
2.
Oh! Esta fé verdadeira e ardente é prova manifesta de
vossa sagrada presença! Estes verdadeiramente
reconhecem seu Senhor ao partir do pão, porque seu coração
está em companhia deles. Longe está de mim tal devoção e
ternura, tão vivo amor e fervor. Sede-me propício, ó bom, ó
doce, ó benigno Jesus, e concedei a este vosso pobre mendigo
que sinta ao menos alguma vez na sagrada comunhão um pouco
do afeto cordial do vosso amor, para que se fortaleça minha
fé, cresça minha esperança em vossa bondade, a minha
caridade, uma vez bem acesa e acostumada ao celestial maná,
jamais desfaleça.
3.
Vossa misericórdia é bastante poderosa para me dar a graça
desejada, e visitar-me em vossa clemência, no dia que vos
aprouver, com o espírito de fervor. Pois ainda que não
esteja acendido de tão ardentes desejos, como vossos
privilegiados devotos, sinto, todavia, com a vossa graça, o
desejo de seus abrasados desejos, e peço e rogo o favor de
participar do fervor de todos esses vossos amigos e ser
agregado à sua santa companhia.
Que a graça da devoção se alcança
pela humildade e abnegação de si mesmo
Voz do Amado
1.
Com perseverança deves buscar a graça da devoção,
pedi-la com instância, esperá-la com paciência e confiança,
recebê-la com agradecimento, guardá-la com humildade, com
diligência aproveitá-la, cometendo a Deus o tempo e o modo
da celestial visita, até que se digne visitar-te.
Deves principalmente humilhar-te quando pouca ou nenhuma
devoção sentes em teu interior, sem, todavia, ficar abatido
ou entristecer-te demasiadamente. Muitas vezes dá Deus num
momento o que negou por largo tempo, e às vezes concede no
fim da oração o que no princípio diferiu.
2.
Se a graça fora sempre prontamente outorgada e
oferecida à vontade, tanto não podia suportar o homem fraco.
Por isso a deves esperar com firme confiança e humilde
paciência. Mas atribui a culpa a ti e aos teus
pecados, quando te for negada ou ocultamente retirada. Às
vezes é bem pouco o que impede ou oculta a graça, se é que
se pode chamar pouco e não muito, o que priva de tão grande
bem. E se removeres este pequeno ou grande
impedimento, e se te venceres perfeitamente, terás o que
pediste.
Porque logo que de todo o teu coração te entregares a Deus e
não buscares coisa alguma a teu gosto e desejo, mas
inteiramente te puseres em suas mãos, achar-te-ás unido a
ele e sossegado, e nada te será tão delicioso e agradável
como o beneplácito da divina vontade. Todo aquele, pois, que
com coração singelo dirige a sua intenção a Deus e se
desprende de todo amor ou aversão desordenada a qualquer
coisa criada, está bem disposto para receber a graça e digno
de alcançar a devoção, porque o Senhor dá a sua bênção onde
encontra o coração vazio. E quanto mais perfeitamente
alguém renuncia às coisas terrenas e morre a si pelo
desprezo de si mesmo, tanto mais depressa lhe advém a graça,
mais copiosamente se lhe infunde e mais alto lhe
ergue
o coração livre.
3.
Então verá, terá alegria abundante e estará
maravilhoso; o coração se lhe dilatará, porque a mão do
Senhor está com ele (Is 60,5), e em suas mãos ele
inteiramente se entregou para sempre. Eis como será
abençoado o homem que busca a Deus de todo o seu coração, e
não deixa sua alma se apegar às vaidades (Sl 23,5).
Esse é que na recepção da sagrada Eucaristia merece a
graça inefável da união com Deus, porque não olha para
a sua devoção e consolação, mas, sobretudo busca a honra e
glória de Deus.
Como devemos descobrir nossas
necessidades a Cristo e pedir sua graça.
Voz
do discípulo
1.
Ó dulcíssimo e amabilíssimo Senhor, a quem desejo
agora devotamente receber, vós conheceis minha fraqueza e a
necessidade que sofro; sabeis em quantos males e vícios
estou emaranhado, quantas vezes estou oprimido, tentado,
perturbado e manchado! A vós peço consolação e alívio.
Convosco falo, meu Deus, que sabeis todas as coisas e a quem
são manifestos todos os segredos do meu coração; vós sois o
único que me pode perfeitamente consolar e socorrer. Sabeis
os bens de que mais necessito e quão pobre sou em virtudes.
2.
Eis-me aqui, diante de vós, pobre e nu, a pedir graça
e implorar misericórdia. Fartai este vosso pobre
mendigo, aquecei minha frieza com o fogo de vosso amor,
iluminai minha cegueira com a claridade de vossa presença.
Fazei que me seja amargo tudo o que é terreno, que leve com
paciência as penas e contrariedades, e que despreze e
esqueça todas as coisas caducas e criadas. Levantai o meu
coração a vós no céu, não me deixeis vaguear na terra. Só
vós, desde hoje para sempre, me sereis doce e agradável,
porque só vós sois minha comida e bebida, meu amor e minha
alegria, delícia minha e meu único bem.
3.
Oh! se me inflamásseis todo com a vossa presença e me
abrasásseis e transformásseis em vós, a ponto de tornar-me
um só espírito convosco pela graça da união interior e a
força do ardente amor! Não me deixeis sair de vossa presença
seco e faminto, mas usai para comigo de vossa misericórdia,
como tantas vezes admiravelmente fizestes com vossos santos.
E que maravilha fora se todo me abrasasse em vós e me
consumisse, sendo vós o fogo que sempre arde e nunca se
apaga, o amor que purifica os corações e ilumina o
entendimento?
Do ardente amor e veemente
desejo de receber a Cristo
Voz do discípulo
1.
Com suma devoção e abrasado amor, com todo o afeto e
fervor do coração, desejo receber-vos, Senhor, como
muitos santos e pessoas devotas o desejaram, os quais vos
agradaram principalmente pela santidade de sua vida e pela
ardentíssima devoção que os animava. Ó Deus meu, amor
eterno, meu único bem, bem-aventurança interminável! Desejo
receber-vos com o mais ardente afeto e a mais digna
reverência que jamais sentiu ou pôde sentir santo algum!
2.
E ainda que seja indigno de todos esses sentimentos de
devoção, ofereço-vos, todavia, o afeto do meu coração, como
se eu só tivera todos aqueles gratíssimos e inflamados
desejos. Mas tudo quanto pode conceber e desejar um coração
piedoso, eu vo-lo dou e ofereço com profunda reverência e
íntimo fervor. Nada quero reservar para mim, mas a mim, e
tudo que é meu quero sacrificar-vos espontaneamente, de boa
vontade, Senhor, Deus
meu,
Criador e Redentor meu! desejo receber-vos hoje com tal
afeto e reverência, com tal louvor e honra, com tal
agradecimento, dignidade e pureza, com tal fé, esperança e
amor, como vos desejou e recebeu vossa Mãe Santíssima, a
gloriosa Virgem Maria, quando, ao anjo que lhe anunciou o
mistério da encarnação, humilde e devotamente respondeu:
Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa
palavra! (Lc 1,38).
E como
vosso bem-aventurado precursor João Batista, o mais
excelente dos santos, quando ainda estava nas entranhas
maternas, exultou de alegria na vossa presença por impulso
do Espírito Santo, e vendo-vos, meu Jesus, depois andar
entre os homens com profunda humildade e devoto afeto dizia:
O amigo do Esposo que está perto dele e o ouve
regozija-se ouvindo a voz do Esposo (Jo 3,29); assim
também eu quisera ser inflamado de veementes e santos
desejos e entregar-me a vós de todo o meu coração. Por
isso vos ofereço o júbilo de todas as almas devotas, seus
abrasados afetos de amor, os êxtases de seu espírito, suas
iluminações sobrenaturais e visões celestiais, e vo-las
apresento com todas as virtudes e
louvores que vos tributaram ou hão de tributar todas as
criaturas do céu e na terra, por mim e por todos os que se
recomendaram às minhas orações, para que sejais por todos
dignamente louvado e para sempre glorificado.
3.
Aceitai, Senhor, Deus meu, os votos e desejos de infinitos
louvores e imensas ações de graças, que vos são justamente
devidas, segundo a vossa inefável grandeza. Isso vos
ofereço, e desejo oferecer cada dia e a cada momento, e
convido com minhas súplicas e rogos todos os espíritos
celestes e todos os vossos fiéis a vos agradecerem comigo e
louvarem.
4.
Louvem-vos todos os povos, tribos e línguas; com suma
alegria e ardente devoção glorifiquem o vosso santo e
dulcíssimo nome. E todos aqueles que com devoção e
reverência consagram vosso augusto Sacramento e com viva fé
o recebem, mereçam achar graça e misericórdia diante de vós
e peçam a Deus humildemente por mim, pecador. E quando
tiverem conseguido e desejada devoção e o gozo da união
convosco e voltarem da mesa sagrada, consolados e
maravilhosamente recreados, dignem-se lembrar-se também
deste pobre.
Que o homem não seja curioso escrutador do Sacramento, mas
humilde imitador de Cristo, sujeitando sua razão à santa fé.
Voz do Amado
1.
Foge do desejo curioso e inútil de investigar este
profundíssimo mistério, se não te queres afogar num
abismo
de dúvidas. Quem quer perscrutar a majestade será oprimido
por sua glória
(Pr
25,27). Mais pode Deus fazer, que o homem compreender.
Contudo é permitida uma piedosa e humilde investigação da
verdade, que sempre está inclinada a ser instruída e segue a
sã doutrina dos Santos Padres.
2.
Bem-aventurada a simplicidade, que deixa os caminhos
dificultosos das discussões, para andar no caminho plano e
firme dos mandamentos de Deus! Muitos perderam a devoção,
porque quiseram investigar coisas muito altas. O que
se exige de ti é fé e inocência, não sublime inteligência,
nem profundo conhecimento dos mistérios de Deus. Se não
entendes, nem compreendes as coisas que estão abaixo de ti,
como alcançarás as que estão acima? Sujeita-te a Deus e
submete teu juízo à fé, e se te dará a luz da ciência,
conforme te for útil e necessário.
3.
Alguns são gravemente tentados acerca da fé nesse
Sacramento; mas isso não se deve imputar a eles, senão ao
inimigo. Não te importes, nem disputes com teus próprios
pensamentos, nem respondas às dúvidas que o demônio te
sugere, mas crê nas palavras de Deus, crê nos seus
santos e profetas, e fugirá de ti o malvado inimigo.
Muitas vezes é de grande proveito ao servo de Deus
passar por tais provações, porque o demônio não tenta aos
infiéis e pecadores, que já tem seguros: aos fiéis devotos,
porém, ele tenta e molesta de vários modos.
4.
Persevera, pois, na fé, firme e simples, e chega-te ao
Sacramento com profunda reverência. E quanto ao que
não podes compreender, encomenda-o tranqüilamente a Deus
onipotente. Deus não te engana; mas se engana quem
demasiadamente confia em si mesmo. Deus anda com os simples,
revela-se aos humildes, dá inteligência aos pequenos, abre o
sentido às almas puras e esconde sua graça aos curiosos e
soberbos. A razão humana é fraca e pode enganar-se,
mas a fé verdadeira não se pode enganar.
5.
Toda razão e pesquisa natural deve seguir a fé, não
precedê-la, nem enfraquecê-la, porque a fé e o amor aqui
dominam e operam ocultamente nesse santíssimo e diviníssimo
Sacramento. "Deus eterno, imenso e infinitamente
poderoso faz coisas grandes e incompreensíveis no céu e na
terra" (Jó 5,9), e ninguém pode penetrar as
maravilhas de suas obras. Se fossem tais as obras de Deus,
que facilmente as compreendesse a razão humana, não deveriam
ser chamadas maravilhosas, nem inefáveis.
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