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IMITAÇÃO DE CRISTO.
EXORTAÇÕES À VIDA INTERIOR
Como o amor-próprio afasta
no
máximo grau do sumo bem
1. Jesus:
Filho, cumpre que dês tudo por tudo, sem reservar-te a
ti mesmo. Fica sabendo que teu amor-próprio te prejudica
mais que qualquer coisa do mundo. Cada objeto mais ou menos
te prende, segundo o amor e afeto que lhe tens. Se teu amor
for puro, simples e bem ordenado, de nenhuma coisa serás
escravo. Não cobices o que não te é lícito possuir, nem
possuas coisa alguma que te possa impedir a liberdade
interior ou dela privar-te. É de estranhar que te não
entregues a mim, do íntimo do teu coração, com tudo que
possas ter ou desejar.
Por que te consomes em vã tristeza? Por que te afanas em
cuidados supérfluos? Conforma-te com a minha vontade e
nenhum dano sofrerás. Se buscares isto ou aquilo, se
desejares estar aqui ou ali, por tua comodidade ou teu
capricho, nunca estarás quieto, nem livre de cuidados,
porque em todas as coisas há algum defeito, e em todo lugar
quem te contrarie.
De nada te serve, pois, adquirir ou acumular bens
exteriores, mas muito te aproveita desprezá-los e
desarraigá-los do coração. Isso não se entende somente do
dinheiro e das riquezas, senão também da ambição das honras,
e do desejo de vãos louvores porque tudo isso passa com o
mundo. Pouco resguarda o lugar, se falta o espírito de
fervor; nem durará muito tempo aquela paz procurada fora, se
faltar ao teu coração o verdadeiro fundamento. Isto é, se
não se firmar em mim. Mudar tu podes, mas não melhorar,
porque, chegada a ocasião, e aceitando-a, encontrarás de
novo aquilo de que fugiste e pior ainda.
2.
Oração para implorar a limpeza do
coração e sabedoria celestial:
3. Confirmai-me Senhor, pela
graça do Espírito Santo. Confortai em mim o homem
interior e livrai meu coração de todo cuidado inútil e de
toda ansiedade, para que não me deixe seduzir pelos vários
desejos das coisas terrenas, sejam vis ou preciosas, mas
para que as considere todas como transitórias, e me lembre
que eu mesmo sou passageiro, como elas: Pois nada há
estável debaixo do sol, onde tudo é vaidade e aflição de
espírito (Ecl 1,14). Como é sábio quem assim pensa!
4. Dai-me, Senhor, sabedoria
celestial, para que aprenda a buscar-vos, e achar-vos, antes
que tudo, a gostar-vos e amar-vos acima de tudo, e a
compreender todas as coisas como são, segundo a ordem de
vossa sabedoria. Dai-me prudência, para afastar-me
do lisonjeiro, e paciência para suportar a quem me
contraria. Porque é grande sabedoria não se deixar mover por
todo sopro de palavras, nem prestar ouvidos aos traiçoeiros
encantos da sereia; pois só deste modo prossegue a alma com
segurança no caminho começado.
Contra as línguas maldizentes
1.
Filho, não te aflijas se alguém fizer de ti mau
conceito ou disser coisas que não gostas de ouvir. Pior
ainda deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais
imperfeito de todos. Se praticares a vida interior, pouco te
importarás de palavras que voam. É grande prudência calar-se
nas horas da tribulação, volver-se interiormente a mim, e
não se perturbar com os juízos humanos.
2.
Não faças depender tua paz da boca dos homens; porque,
quer julguem bem, quer mal de ti, não serás por isso homem
diferente. Onde está a verdadeira paz e a glória verdadeira?
Porventura não está em mim? Quem não procura agradar aos
homens, nem teme desagradar-lhes, esse gozará grande paz. É
do amor desordenado e do vão temor que nascem o desassossego
do coração e a distração dos sentidos.
Como, durante a tribulação,
devemos invocar a Deus e bendizê-lo
1.
A alma: Senhor, bendito seja para sempre
o vosso nome! Pois quisestes que me sobreviesse esta
tentação e este trabalho. Não lhes posso fugir, mas tenho
necessidade de recorrer a vós, para que me ajudeis e tudo
convertais em meu proveito. Eis-me, Senhor, na tribulação,
com o coração aflito; e quanto me atormenta o presente
sofrimento. Pois que direi eu agora, Pai amantíssimo?
Apertado estou entre angústias: "Salvai-me nesta hora. Veio
sobre mim este transe, só para que vós fôsseis glorificado
(Jo 12,17), quando eu estivesse muito abatido e fosse
por vós livrado". "Dignai-vos, Senhor, livrar-me" (Sl
39,14); pois, pobre de mim, que farei e aonde irei,
sem nós? Daí-me, Senhor, paciência ainda por
esta vez.
2.
Socorrei-me, Deus meu, e não temerei, por mais que
seja atribulado. E que direi em tamanha necessidade? Senhor,
seja feita a vossa vontade. Bem mereço ser atribulado e
angustiado. Convém-me sofrer, e oxalá seja com paciência,
até que passe a tempestade e volte a bonança. Bastante
poderosa é, entretanto, vossa mão onipotente para tirar-me
esta tentação, e moderar-lhe a violência, a fim de que não
sucumba de todo; assim como já tantas vezes tendes feito
comigo, ó meu Deus e minha misericórdia. E quanto mais
difícil para mim, tanto mais fácil para vós é esta mudança
da destra do Altíssimo (Sl 76,11).
Como se há de pedir o auxílio divino
e confiar para recuperar a graça
1.
Jesus: Filho, eu sou o Senhor,
que te conforta no dia da tribulação (Na 1,7).
Vem a mim quando te achares aflito. O que mais te impede
de receber a consolação é que tarde recorres à oração. Antes
que ores com atenção, procuras consolar-te, recreando-te com
vários divertimentos exteriores. Daqui vem que pouco
proveito tiras de tudo, até que conheças que sou eu quem
salva do perigo os que em mim esperam, e que fora de mim não
há auxílio valioso, nem conselho útil, nem remédio durável.
Uma vez, porém, que recobraste alento depois da tempestade,
procura readquirir forças à luz das minhas misericórdias;
pois estou perto, diz o Senhor, para tudo restaurar, não só
com integridade, mas também com abundância e profusão.
2.
Porventura há para mim alguma coisa dificultosa
(Jr 32,37), ou sou semelhante àquelas que dizem e não
fazem? Onde está a tua fé? Tem firmeza e segurança!
Mostra-te corajoso e magnânimo, e a seu tempo te virá a
consolação. Espera por mim, espera! Virei e te curarei. É
tentação o que te atormenta, é temor vão o que te assusta.
Que ganhas com a solicitude de um futuro contingente, senão
que tenhas tristeza sobre tristeza? A cada dia basta seu
fardo (Mt 6,34). Coisa vã e inútil é
entristecer-se ou regozijar-se com as coisas futuras, que
talvez nunca venham a realizar-se.
3.
É próprio do homem deixar-se iludir por tais
imaginações, mas é sinal de pouco ânimo ceder tão facilmente
às sugestões do inimigo. A ele pouco importa se é por meios
verdadeiros ou falsos que te seduz e engana, se é com amor
dos bens presentes, ou com o temor dos males futuros que te
deita a perder. "Não se perturbe, pois, teu coração, nem se
amedronte" (Jo 14,27). Crê em mim, e tem
confiança em minha misericórdia. Quando te julgas muito
longe de mim, mais perto estou, às vezes, de ti. Quando
pensas que está tudo quase perdido, muitas vezes está
próxima a ocasião de granjeares maior merecimento. Nem tudo
está perdido, por te acontecer alguma contrariedade. Não
julgues pela impressão do momento, nem te aflijas com
qualquer tribulação, venha donde vier, como se não houvesse
esperança de remédio.
4.
Não te julgues inteiramente desamparado, ainda quando,
de tempos a tempos, te mando alguma tribulação ou te privo
de alguma consolação desejada; porque é este o caminho por
onde se vai ao reino dos céus. E isto, sem dúvida, convém
mais a ti e a todos os meus servos, serdes exercitados nas
adversidades, do que se tudo vos sucedesse à vossa vontade.
Eu conheço os pensamentos escondidos, e sei que muito
importa à tua salvação seres, às vezes, privado de toda
consolação espiritual, para que não te exalte o bom
progresso e te desvaneças do que não és. O que dei posso
tirar, e dar de novo, quando me aprouver.
5.
É sempre meu o que dou, e quando o tiro; não tomo
coisa tua, pois "de mim procede qualquer dádiva boa de todo
dom perfeito" (Tg 1,17). Se eu te enviar
qualquer pena ou contrariedade, não te revoltes nem
desfaleça teu coração; eu posso num momento aliviar-te e
transformar tua mágoa em alegria. Todavia, procedendo eu
assim para contigo, sou justo e digno de louvor.
6.
Se refletires bem e julgares as coisas segundo a
verdade, não deves afligir-te tanto com a adversidade, nem
desanimar, mas, ao contrário, alegrar-te e dar-me graças.
Até deve ser tua única alegria que eu te aflija com dores,
sem poupar-te. Assim como meu Pai me amou, também eu vos amo
a vós (Jo 15,19), disse eu a meus diletos
discípulos, e, entretanto, não os enviei às delícias
temporais, mas às grandes pelejas, não às honras, mas aos
desprezos, não aos passatempos, mas sim a produzir fruto
copioso na paciência. Meu filho, lembra-te bem destas
palavras.
Do desprezo de toda criatura,
para que se possa achar o Criador.
1.
A alma: Senhor, muita graça ainda me é
necessária para chegar a tal ponto, que nenhum homem nem
criatura alguma me possa estorvar.Pois, enquanto me detém
alguma coisa, não posso voar à vós livremente. Aspirava a
esta liberdade o profeta, quando dizia: Quem me dera
asas como a pomba, para poder voar e descansar! (Sl
54,7). Que há de mais sereno que o olhar singelo, e quem é
mais livre que o homem sem desejo terrestre? Por isso
importa elevares-te acima de todas as criaturas, e
renunciares totalmente a ti mesmo, e naquele arroubo da alma
perseverares e compreenderes que o Autor de todas as
coisas não tem semelhança com as criaturas. E quem não
estiver desprendido das criaturas, não poderá livremente
atender às coisas divinas. Por isso se encontram tão
poucos contemplativos, porque raros são os que sabem
desapegar-se de todo das coisas perecedoras.
Para
isso é mister graça poderosa, que levante a alma e a
arrebate acima de si mesma. Enquanto o homem não for elevado
em espírito, livre de todas as criaturas e todo unido a
Deus, pouco vale quanto sabe e quanto possui. Imperfeito
permanecerá por muito tempo e preso à terra quem algo
estimar que não seja o único, imenso e terno Bem. Porque
tudo que não é Deus é nulo, e deve ser tido em conta de
nada. Há grande diferença entre a sabedoria de um homem
iluminado e devoto e a ciência de um letrado e estudioso.
Muito mais nobre é a doutrina que vem do céu, por
inspiração divina, do que aquilo que o engenho humano
adquire à custa de muito esforço.
2.
Muitos há que desejam a vida contemplativa, mas não tratam
de exercitar-se nas coisas que ela exige. O grande
obstáculo é que se detêm nos sinais e coisas sensíveis,
cuidando pouco da perfeita mortificação. Não sei o
que é, nem que espírito nos move, nem que pretendemos nós
que passamos por homens espirituais quando empregamos tanto
trabalho e cuidado nas coisas vis e transitórias, ao passo
que raras vezes nos recolhemos plenamente a considerar nosso
interior.
3.
Ai! Que, depois de curto recolhimento, logo nos dissipamos,
sem ponderar nossas ações em rigoroso exame. Não reparamos
para onde se inclinam nossos afetos, nem deploramos quão
defeituoso é tudo em nós. Por ter corrompido toda a
carne o seu caminho (Gn 6,12), veio o grande
dilúvio. Estando, pois, corrompido o nosso afeto
interior, forçosamente se há de corromper a ação que dele se
segue, patenteando bem a fraqueza interior. Só do coração
puro procede o fruto da boa vida.
4.
Muitos indagam quanto fez uma pessoa, mas de quanta virtude
foi animada nem tanto se cura. Com diligência investigam se
alguém é forte, rico, formoso, hábil, bom escritor, bom
cantor, bom artista; mas quão pobre seja de espírito,
quão paciente e manso, quão piedoso e espiritual, disso não
se faz caso. A natureza só considera o exterior do homem,
mas a graça olha o interior. Aquela muitas vezes se
engana, esta espera em Deus, para não ser iludida.
Da abnegação de si mesmo
e abdicação de toda cobiça
1.
Jesus:
Filho, não podes gozar perfeita liberdade, enquanto
não renunciares inteiramente a ti mesmo. Em escravidão vivem
todos os ricos e egoístas, os cobiçosos, curiosos, que
gostam de vaguear, buscando sempre as delícias dos sentidos
e não as de Jesus Cristo, mas só imaginam o que não pode
permanecer e só disso cogitam. Pois tudo que não vem de Deus
perecerá. Conserva em teu coração esta breve e profunda
sentença: Deixa tudo, e terás sossego. Pondera isto, e,
quando o praticares, tudo entenderás.
2.
A alma: Senhor, isto não é obra de um dia, nem
brincadeira de criança, antes nesta breve palavra se
compendia toda a perfeição religiosa.
3.
Jesus: Filho, não deves recear, nem logo
desanimar, ouvindo falar do caminho dos perfeitos, mas antes
esforça-te por um estado mais perfeito, ou pelo menos
almeja-o ardentemente. Oxalá fosses assim e tivesses chegado
a tanto, que não te amasses a ti mesmo, mas estivesses
inteiramente resignado à minha vontade e à daquele que te
dei por diretor. Muito me agradarias, então, e toda a tua
vida passaria em paz e alegria. Ainda tens que desprender-te
de muitas coisas, e se não mas entregares inteiramente, não
alcançarás o que me pedes. "Aconselho-te que me compres o
ouro acrisolado, para te tornares rico" (Ap 3,18),
isto é, a sabedoria celestial, que pisa aos pés todas
as coisas terrenas. Despreza a sabedoria terrena, todo o
humano contentamento e própria complacência.
4.
Eu disse que deves buscar, em lugar das coisas nobres
e preciosas, aquilo que, aos olhos do mundo, é vil e
desprezível. Porque mui vil e desprezível, até quase
esquecida, parece a verdadeira e celestial sabedoria, que
não se tem em grande conta, nem trata de se engrandecer na
terra. Muitos a louvam com a boca, mas afastam-se dela na
vida; contudo é esta a pérola preciosa, conhecida de
poucos.
Da instabilidade do coração e que
a intenção final se há de dirigir a Deus
1.
Jesus: Filho, não te fies nos
teus afetos atuais, que depressa em outros se mudarão.
Enquanto viveres, estarás sujeito ao variável, ainda que não
queiras; ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado
ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já
diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O
sábio, porém, e instruído na vida espiritual, está acima
desta inconstância, não cuidando dos seus sentimentos, nem
de que parte sopra o vento da instabilidade, mas
concentrando todo o esforço de sua alma no devido e almejado
fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo e
inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua
intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.
2.
Quanto mais pura for tua intenção, porém, tanto mais
constante serás durante as diversas tempestades. Mas em
muitos se escurece o olhar da pura intenção, porque depressa
o volvem para qualquer objeto deleitável que se lhes depare.
Poucos há inteiramente livres da pecha do egoísmo. Assim, os
judeus foram um dia a Betânia, em casa de Maria e Marta, não
só por amor de Jesus, mas também para verem a Lázaro
(Jo 12,9). Cumpre, pois, purificar a
intenção, para que seja simples e reta e se dirija a mim
acima de tudo que há de permeio.
Como Deus é delicioso em tudo
e sobretudo a quem o ama.
1.
A alma: Vós sois meu Deus e meu tudo!
Que mais quero eu e que dita maior posso desejar? Ó palavra
suave e deliciosa! Mas só para quem ama a Deus, e
não o mundo nem as suas coisas. Meu Deus e meu tudo! Para
quem a entende basta esta palavra, e quem ama acha delicia
em repeti-la a miúdo. Porque, quando estais presente tudo é
aprazível, mas, se vos ausentais, tudo enfastia. Vós dais ao
coração sossego, grande paz e jubilosa alegria. Vós fazeis
que julguemos bem de todos e em tudo vos bendigamos; nem
pode, sem vós, coisa alguma agradar-nos por muito tempo,
mas, para ser agradável e saborosa, é necessário que lhe
assista a vossa graça e a tempere o condimento da vossa
sabedoria.
2.
A quem saboreia vossa doçura, que coisa não lhe saberá bem?
Mas a quem em vós não se deleita, que coisa lhe poderá ser
gostosa? Diante da vossa sabedoria desaparecem os
sábios do mundo e os amadores da carne, porque nos primeiros
se acha muita vaidade, nos últimos, a morte;
os que, porém, vos seguem pelo desprezo do mundo e pela
mortificação da carne, esses são verdadeiramente sábios,
porque trocam a vaidade pela verdade, e a carne pelo
espírito. Esses acham gosto nas coisas de Deus, e
tudo quanto se acha de bom nas criaturas, referem-no à
glória do seu Criador. Diferente, porém, e mui diferente, é
o gosto que se encontra em Deus e na criatura, na eternidade
e no tempo, na luz incriada e na luz criada.
3.
Ó luz eterna, superior a toda luz criada, lançai do
alto um raio que penetre todo o íntimo do meu coração.
Purificai, alegrai, iluminai e vivificai a minha alma com
todas as suas potências, para que a vós se una em
transportes de alegria. Oh! Quando virá aquela ditosa e
almejada hora, em que haveis de saciar-me com a vossa
presença, e ser-me tudo em todas as coisas? Enquanto isso
não me for concedido, minha alegria não será perfeita. Mas
ai! Que ainda vive em mim o homem velho, não de todo
crucificado nem inteiramente morto. Ainda se revolta
fortemente contra o espírito e move guerras interiores; nem
consente em que reine tranqüilidade na alma.
4.
Mas vós, que dominais a impetuosidade do mar e
aplacais o furor das ondas, levantai-vos e socorrei-me!
Dissipai os poderes que procuram guerras, esmagai-os com o
vosso braço (Sl 88,10; Sl 43,26;Sl 67,31).
Manifestai, Senhor, as vossas maravilhas, e seja
glorificada a vossa destra (Eclo 36,7; Jd 9,11),
pois não tenho outro refúgio senão em vós, meu Senhor
e meu Deus!
Como nesta vida não há segurança contra a tentação.
1.
Jesus: Filho, nunca estarás
seguro nesta vida, mas, enquanto viveres, terás necessidade
de armas espirituais. Andas cercado de inimigos, que à
direita e à esquerda te acometem. Logo, se não te armares
por todos os lados com o escudo da paciência, não estarás
por muito tempo sem ferida. Demais, se não firmares em mim
teu coração, com sincera vontade de sofrer tudo por meu
amor, não poderás suportar tão renhido combate, nem alcançar
a palma dos bem aventurados. Cumpre, pois, caminhar com
ânimo varonil por entre todos os obstáculos, e rebater com a
mão poderosa todos os empecilhos. Pois ao vencedor será dado
o maná (Ap 2,17), e ao covarde aguarda
muita miséria.
2.
Se buscas descanso nesta vida, como chegarás ao
descanso eterno? Não procures muito descanso, mas muita
paciência. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra,
não nos homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus.
Deves, por amor de Deus, aceitar tudo de boa vontade, isto
é, trabalhos e sofrimentos, tentações, vexames, ansiedades,
doenças, injúrias, murmurações, repreensões, humilhações,
afrontas, correções e desprezos. Tudo isto faz progredir na
virtude, prova o novo soldado de Cristo e prepara a coroa
celestial. Eu darei prêmio eterno por breve trabalho, e
glória infinita por humilhação transitória.
3.
Julgas que sempre há de ter consolações espirituais à
medida de teus desejos? Nem sempre as tiveram os meus
santos, passando ao contrário por muitas penas, várias
tentações e grandes angústias. Mas eles suportaram tudo com
paciência, mais confiados em Deus que em si, porque sabiam
"que não têm proporção os sofrimentos desta vida com a
futura glória" que os recompensa (Rm 8,18).
Quereis obter logo o que tantos apenas conseguiram só
depois de copiosas lágrimas e grandes trabalhos? Espera no
Senhor, age varonilmente, e sê firme (Sl 26,14);
não desanimes, não recues, mas expõe generosamente
corpo e alma pela glória de Deus. Eu te recompensarei
plenamente, e estarei contigo em toda tribulação
(Sl 90,15) .
Contra os juízos dos homens
1.
Jesus: Filho põe tua confiança em
Deus e não temas os juízos humanos, enquanto tua consciência
te der testemunho da tua piedade e inocência. É bom e
salutar sofrer deste modo, nem isso será penoso ao coração
humilde, que confia mais em Deus que em si mesmo. Muitos
falam com demasia, e por isso não se lhes deve dar muito
crédito. Mas também não é possível satisfazer a todos. Ainda
que Paulo se empenhasse por agradar a todos no Senhor,
fazendo-se tudo para todos (1Cor 9,22),
contudo, fez pouco caso de ser julgado no tribunal dos
homens (1Cor 4,3).
2.
Fez todo o possível para a edificação e salvação dos
outros, quanto dele dependia; contudo não pôde evitar ser
julgado e desprezado por alguns; por isso pôs tudo nas mãos
de Deus, que tudo conhecia, e defendeu-se com paciência e
humildade contra as línguas maldizentes dos que inventavam
maldades e mentiras e as espalhavam a seu bel-prazer.
Todavia, uma vez ou outra, dava resposta, para que seu
silêncio não fosse causa de se escandalizarem os fracos.
3.
Quem és tu, que temes um homem mortal? (Is
51, 12). Hoje existe e amanhã já não aparece. Teme
a Deus, e não temerás as ameaças dos homens. Que mal te pode
fazer um homem com palavras e afrontas? Mais se prejudica a
si mesmo do que a ti, e, seja quem for, não poderá escapar
ao juízo de Deus. Põe os olhos em Deus, e não contendas com
palavras de queixa. Se agora pareces sucumbir e padecer
injúria não merecida, não fiques contrariado nem diminuas a
tua coroa com a impaciência, mas antes levanta os olhos ao
céu, para mim, que poderoso sou, para te livrar de toda
confusão e injúria e dar a cada um conforme suas obras.
Da pura e completa renúncia de si mesmo
para obter liberdade de coração
1.
Jesus: Filho, deixa-te a ti, e
achar-me-ás a mim. Despe tua vontade e teu amor-próprio, e
sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim
sem reservas, se te acrescentará a graça.
A alma:
Senhor, em que devo renunciar-me, e quantas vezes?
Jesus:
Sempre e a toda hora tanto no muito como no pouco.
Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra
sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres,
exterior e interiormente, desapegado de toda vontade
própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor
te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu
sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.
Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva,
porque não têm plena confiança em Deus, e por isso tratam de
prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo
oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, volvem-se
novamente às próprias comodidades, e eis por que quase não
progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira
liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce
familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos,
oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não
há nem pode haver união deliciosa comigo.
2.
Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer:
deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás grande paz
interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa
alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me
possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão
oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser
despojado de todo amor próprio, para que possas seguir nu a
Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente.
Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas
pertubações e supérfluos cuidados. Logo também desaparecerá
o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado.
Do bom procedimento exterior,
e do recurso a Deus nos perigos
1.
Jesus:
Filho, nisto deves empenhar toda a diligência, que em
todo lugar, ação ou ocupação exterior estejas interiormente
livre e senhor de ti mesmo, dominando todas as coisas, e a
nenhuma sujeito. Deves ser o senhor e diretor de tuas ações
e não servo ou escravo; cumpre sejas livre e verdadeiro
israelita, que chega à condição de liberdade dos filhos de
Deus. Esses elevam-se acima das coisas presentes e
contemplam as eternas; só de relance olham para as coisas
transitórias, e têm a vista presa nas celestiais. Não se
deixam atrair e prender pelas coisas temporais, mas
servem-se delas conforme o fim para que foram ordenadas por
Deus e destinadas pelo supremo Artífice, que nada deixou sem
ordem nas suas criaturas.
2.
Se,
além disso, em qualquer acontecimento, não te demorares na
aparência exterior, nem considerares com os olhos carnais o
que vês e ouves, mas em qualquer negócio entrares logo com
Moisés no tabernáculo e consultar o Senhor; ouvirás às
vezes, a sua divina resposta, e sairás instruído a respeito
de muitas coisas presentes e futuras. Sempre recorria Moisés
ao tabernáculo para resolver suas dúvidas e dificuldades,
valia-se da oração para triunfar dos perigos e das maldades
dos homens. Do mesmo modo deves tu te refugiar no mais
recôndito do teu coração, para, com mais instância, implorar
o divino auxílio. Por isso - como está escrito - Josué e os
filhos de Israel foram enganados pelos gabaonitas "porque
não consultaram primeiro ao Senhor", mas, dando crédito
demasiado às suas doces palavras, deixaram-se enganar por
fingida piedade.
Que o homem não seja
impaciente nos seus negócios
1.
Jesus: Filho, confia-me sempre
teus negócios, eu disporei tudo bem a seu tempo. Espera
minha determinação, e disso tirarás proveito.
2.
A
alma:
Senhor, de mui boa vontade vos confio todas as coisas,
porque pouco adianta o meu cuidado. Oxalá não me perturbasse
com os conhecimentos futuros, mas me oferecesse sem demora
ao vosso beneplácito!
Jesus:
Filho, muitas vezes procura o homem com ânsia uma
coisa que deseja; logo, porém, que a alcança, muda de
parecer, porque as afeições não persistem muito ao mesmo
objeto, mas facilmente passam de um para outro. Pelo que,
não é pouco renunciar-se o homem a si mesmo, ainda nas
coisas pequenas.
3.
O verdadeiro progresso do homem consiste na abnegação
de si mesmo, e quem assim se abnegou, goza grande liberdade
e segurança. Contudo, o antigo inimigo, o adversário de todo
o bem não desiste da tentação, armando dia e noite perigosas
ciladas, para ver se pode precipitar algum incauto no laço
do seu engano. Vigiai e orai, diz o Senhor, para que não
entreis em tentação (Mt 26, 41).
Que o homem por si mesmo
nada tem de bom e de nada se pode gloriar
1.
A alma: Senhor, que é o homem, para que
vos lembreis dele, ou o filho do homem, para que o visiteis?
(Sl 8,5). Por onde mereceu o homem que lhe deis a vossa
graça? Como me posso queixar, se me desamparais, ou que
posso justamente opor, se não me concedeis o que peço?
Decerto, com verdade posso pensar e dizer: Senhor, nada sou,
nada posso, nada de bom tenho de mim mesmo, mas falta-me
tudo, e sempre pendo para o nada. E se vós não me ajudais e
ensinais, fico de todo tíbio e relaxado.
Vós, porém, Senhor, sempre sois o mesmo e permaneceis
eternamente bom, justo e santo, e boas são vossas obras
todas, e justas e santas, e dispondes tudo com sabedoria.
Mas eu, que sou mais inclinado à negligência que ao
aproveitamento espiritual, não sei conservar-me no mesmo
estado, porque mudo sete vezes por dia. Mas logo me vai
melhor, quando vos apraz estender-me a mão para me socorrer;
porque só vós, sem auxílio humano, me podeis ajudar e dar-me
firmeza, de tal modo que jamais se mude meu rosto, mas só a
vós se converta meu coração e em vós descanse.
2.
Por isso, se eu soubesse rejeitar toda humana consolação,
fosse por adquirir a devoção, fosse pela necessidade que me
obriga a buscar-vos, então poderia com razão esperar a vossa
graça e alegrar-me com o favor de uma nova consolação.
3.
Graças vos sejam dadas, Senhor, porque de vós procede
todo o bem que me sucede. Mas eu sou vaidade e nada, diante
de vós, sou homem frágil e inconstante. De que posso, pois,
gloriar-me, ou por que desejo ser estimado?
Porventura do meu nada? Isso seria o cúmulo da vaidade.
Verdadeiramente a vanglória é peste maligna e a pior das
vaidades, porque nos aparta da glória verdadeira e nos priva
da graça celestial. Porquanto, desde que o homem agrada a
si, desagrada a vós, e quando aspira aos humanos louvores,
perde as verdadeiras virtudes.
4.
Glória verdadeira, porém, e alegria santa é gloriar-se cada
um em vós e não em si, deleitar-se em vosso nome e não na
sua própria virtude, não achar deleite em criatura alguma,
senão por amor de vós. Seja louvado o vosso nome e não o
meu; sejam glorificadas vossas obras e não as minhas;
exaltado seja o vosso santo nome, e a mim nada se atribua
dos louvores humanos. Vós sois minha glória e a
alegria do meu coração. Em vós me gloriarei e exaltarei todo
dia, mas, quanto à minha pessoa, de nada me ufano, a não ser
das minhas fraquezas (2Cor 12,5).
5.
Busquem os judeus a glória uns dos outros, eu busco
aquela que vem só de Deus (Jo 5,44). Pois toda
glória humana, toda glória temporal e toda grandeza mundana,
comparada com a vossa eterna glória, não passa de vaidade e
loucura. Ó verdade e misericórdia minha, Deus meu,
Trindade bem-aventurada! A vós só seja dado louvor, honra,
virtude e glória por todos os séculos.
Do desprezo de toda honra temporal
1.
Jesus: Filho, não te entristeças por
veres os outros honrados e exaltados, ao passo que tu és
desprezado e humilhado. Ergue a mim o teu coração até ao
céu, e não te entristecerá o desprezo humano na terra.
A alma:
Senhor, vivemos na cegueira, e facilmente nos engana a
vaidade. Se bem me examino, nunca recebi injúria de criatura
alguma; não tenho, pois, motivo de justa queixa contra vós.
2.
Mas, porque cometi tantos pecados, e tão graves, contra vós,
é justo que contra mim se armem todas as criaturas. A mim,
pois, com muita razão, cabe confusão e desprezo, a vós,
porém, louvor, honra e glória. E enquanto não estiver
disposto a querer de bom grado ser desprezado e abandonado
de todas as criaturas, e ser tido absolutamente em nada, não
haverá em mim paz e tranqüilidade interior, nem serei
espiritualmente iluminado, nem perfeitamente unido a
vós.
Como não se deve procurar a paz nos homens
1.
Jesus: Filho se puseres tua paz em alguma
pessoa, por conviver contigo e ser de teu parecer,
achar-te-ás inconstante e embaraçado. Mas, se recorreres à
verdade sempre viva e permanente, não te entristecerás pela
ausência e morte de um amigo. Em mim se há de fundar o amor
do amigo, e por mim se há de amar todo aquele que nesta vida
te parecer bom e amável. Sem mim não vale nada, nem durará a
amizade; nem é puro e verdadeiro o amor cujos laços eu não
tenha dado. De tal modo deves estar morto para semelhantes
afeições dos amigos que, quanto depender de ti, desejes
viver sem relações humanas. Quanto mais se chegar o homem
para Deus, tanto mais se afastará de todo alívio terreno. E
tanto mais alto sobe para Deus, quanto mais baixo desce na
sua estimação, e mais vil se reputa.
2.
Mas quem a si mesmo se atribui algum bem impede que a
graça venha à sua alma; porque a graça do Espírito Santo
sempre busca o coração humilde. Se te souberas perfeitamente
aniquilar e desprender de todo amor criado, então viria a ti
com a abundância de minhas graças. Quando olhas para as
criaturas, perdes a contemplação do Criador. Aprende a
vencer-te em tudo por teu Criador, e então poderás chegar ao
conhecimento divino. Qualquer coisa, por pequena que seja,
se a amas e aprecias desordenadamente, mancha a alma e te
separa do sumo bem.
Contra a vã ciência do século
1.
Jesus: Não te deixes cativar pela elegância e
sutileza dos dizeres humanos, porque o reino de Deus não
consiste em palavras, mas na
virtude
(1Cor 2,4). Atende às minhas palavras, que inflamam o
coração, iluminam o espírito, levam
à compunção e produzem muitas consolações. Nunca leias minha
palavra com o fim de pareceres mais douto ou sábio.
Aplica-te a mortificar teus vícios, porque isso te traz mais
proveito que o conhecimento das mais difíceis questões.
2.
Por muito que estudes e aprendas, terás que referir
tudo sempre ao único princípio. Sou eu que ensino ao homem a
ciência, e dou aos pequeninos mais clara compreensão, do que
os homens são capazes de ensinar. Aquele a quem eu ensinar,
depressa será sábio e muito aproveitará espiritualmente. Ai
daqueles que indagam dos homens muitas coisas curiosas, e
tratam pouco dos meios de me servir. Tempo virá em que
aparecerá o Mestre dos mestres, Cristo, Senhor dos anjos,
para tomar lições de todos, isto é, para examinar a
consciência de cada um. E com a lâmpada na mão perscrutará
então Jerusalém, e revelará o segredo das trevas, fazendo
calar as objeções das línguas humanas.
3.
Eu sou o que levanta num instante o espírito humilde,
de maneira que compreenda melhor as razões das verdades
eternas, do que se houvera estudado dez anos nas escolas. Eu
ensino sem ruído de palavras, sem confusão de opiniões, sem
espalhafato, sem contenda de argumentos. Eu sou o que ensina
a desprezar as coisas terrenas, a aborrecer as coisas
presentes, a buscar e apreciar as eternas, a fugir às
honras, sofrer as injúrias, pôr em mim toda esperança, a não
desejar coisa alguma fora de mim e amar só a mim, com todo
fervor, acima de tudo.
4.
Alguns, amando-me inteiramente, aprenderam com isso
coisas divinas e falavam coisas maravilhosas. Mais
aproveitaram em deixar tudo, do que em estudar questões
sutis. A uns, porém, falo coisas comuns, a outros, mais
particulares; a alguns revelo-me docemente em sinais e
figuras, a outros descubro os meus mistérios com muita luz.
A mesma voz fala em todos os livros, mas não ensina a todos
da mesma maneira; pois eu sou o que interiormente ensina a
verdade, perscruta o coração, penetra os pensamentos.
Inspira as ações, distribuindo a cada um segundo me apraz.
Que se não devem tomar a peito as coisas exteriores
1.
Jesus: Filho, convém fazeres-te
ignorante em muitas coisas, e reputares-te como que morto
sobre a terra, para que todo o mundo te esteja crucificado.
Importa também que te faças surdo a muitas coisas, cuidando
antes do que serve à tua paz. Mais útil é desviares os olhos
do que não te agrada e deixares a cada um seu parecer, do
que entrares em discussões. Se estiveres bem com Deus e
considerares seus juízos, não te será custoso dares-te por
vencido.
2.
A
alma:
Ah! Senhor, a que chegamos? Eis que choramos uma perda
temporal, trabalhamos e corremos para ganhar mesquinho
lucro, mas do dano espiritual nos esquecemos e mal nos
lembramos, ou tarde. Olha-se muito pelo que pouco ou nada
vale, e não se faz caso do que é sumamente necessário,
porque o homem inteiramente se entrega às coisas exteriores,
e, se prontamente não se recolher, nela descansa com prazer.
Que se não deve dar crédito a todos,
e quão facilmente faltamos nas
palavras
1.
Socorrei-nos, Senhor, na tribulação, porque é vão o
auxílio humano (Sl 59,3). Oh! Quantas vezes procurei
em vão fidelidade, onde cuidava que a havia! Ah! Quantas
vezes a encontrei onde menos a esperava! Vã é, pois, a
esperança que se põe nos homens; em vós, meu Deus, está a
salvação dos justos. Bendito sejais, Senhor meu Deus, em
tudo que nos sucede. Nós somos fracos e inconstantes,
facilmente nos enganamos e mudamos.
Que
haverá tão cauteloso e vigilante em todas as coisas, que
alguma vez não caia em perturbação ou engano? Mas
aquele que em vós, Senhor, confia, e vos procura de coração
sincero, não cai tão facilmente. E se vier a cair em
alguma tribulação, de qualquer sorte que esteja embaraçado
nela, prontamente será por vós libertado ou consolado,
porquanto não desamparais para sempre a quem em vós espera.
Raro é o amigo fiel que persevera em todas as tribulações de
seu amigo. Vós, Senhor, sois o único amigo fidelíssimo
e não se acha outro igual.
2.
Oh! bem o soube aquela alma santa (Santa Águeda) que disse:
"Meu coração está firmado e fundado em Cristo!"
Se assim fora comigo, não me perturbaria tão facilmente o
temor humano, nem me abalariam as flechas das más palavras.
Quem pode prever tudo e precaver-se contra os males futuros?
Se os males previstos já ferem tanto, quanto mais os
imprevistos causarão feridas dolorosas! Mas por que motivo,
sendo eu tão miserável, não me acautelei melhor? Por que tão
facilmente dei créditos aos outros? Entretanto - somos
homens e nada mais que homens fracos, ainda que muitos se
julguem e chamem anjos. A quem hei de crer, Senhor? a quem
senão a vós? Vós sois a verdade que não engana nem pode ser
enganada. Ao passo que está escrito: "Todo homem é
mentiroso (Sl 115,2), fraco, inconstante, inclinado
a pecar, mormente em palavras, de sorte que mal se deve logo
acreditar o que, à primeira vista, parece verdadeiro".
3.
Quão prudentemente nos aconselhastes que nos acautelássemos
dos homens, e nos dissestes que "os inimigos do homem
são os que com ele moram" (Mt 10,36), que não
devemos dar crédito se alguém nos disser: Aqui está Cristo!
Ou está acolá! À minha custa aprendi esta verdade, e queira
Deus que me sirva de maior cautela e não para dar provas de
maior insensatez! Toma cuidado, diz-me alguém, e guarda para
ti o que te digo. E enquanto me calo e guardo segredo, não
pode guardar silêncio aquele que me pediu segredo, senão
logo descobre a si e a mim e lá se vai. De homens tais,
palradores e desacautelados, livrai-me, Senhor, para que não
caia em suas mãos nem cometa semelhantes faltas. Ponde em
minha boca palavras sérias e sinceras, e apartai de mim o
embuste da língua. A todo custo devo evitar o que não quero
aturar dos outros.
4.
Oh! Como é bom, para viver em paz, calar dos outros, não
crer tudo indiferentemente, nem repeti-lo logo a outrem;
abrir-se a poucos e buscar sempre a vós, o perscrutador do
coração; não se mover com qualquer sopro de palavra, mas
desejar que todas as coisas exteriores e interiores se façam
conforme o beneplácito da vossa vontade. Que meio seguro
para conservar a divina graça, fugir do que cai na vista dos
homens, e não desejar o que possa granjear-nos a admiração
dos homens, antes procurar, com toda solicitude, o que serve
para emenda da vida e fervor da alma! A quantos prejudicou a
virtude divulgada e prematuramente elogiada! Quanto
proveito, porém, traz conservar a graça do silêncio, durante
esta vida tão frágil, que não é mais que contínua tentação e
peleja!
Da confiança que havemos de ter em Deus
quando se nos dizem palavras afrontosas
1.
Jesus: Filho conserva-te firme e espera
em mim, pois palavras são palavras; ferem os ares, mas não
quebram a pedra. Se és culpado, trata logo de emendar-te; se
a consciência de nada de acusa, faze o propósito de sofrer
isso de boa vontade, por amor de Deus. Não é
muito sofreres, às vezes, más palavras, já que me não podes
ainda suportar mais pesados golpes. E por que razão te ferem
tão leves coisas senão porque és ainda carnal e fazes ainda
mais caso dos homens do que convém? Temes ser desprezado, e
por isso não queres ser repreendido de tuas faltas e
procuras defender-te com desculpas.
2.
Mas examina-te melhor e verá que vive ainda em ti o mundo e
o vão desejo de agradar aos homens. Pois, já que foges
de ser abatido e confundido por causa dos teus defeitos,
mostras claramente que não és verdadeiramente humilde, nem
inteiramente morto ao mundo, e que o mundo não está de todo
crucificado para ti (Gl 6,14). Mas ouve a minha
palavra e não farás caso de dez mil palavras humanas. Mesmo
que dissessem contra ti quanto pode inventar a mais negra
malícia, que mal te faria, se o deixasses passar, não
fazendo mais caso daquilo que duma palha? Porventura poderia
arrancar-te um só cabelo?
3.
Mas quem não domina o coração, nem tem a Deus, diante dos
olhos, facilmente fica aborrecido com uma palavra de
repreensão. Aquele, porém, que confia em mim, e não se
aferra à sua própria opinião, viverá sem temor dos homens.
Eu sou o juiz e conheço todos os segredos, sei como se
passou tudo, quem fez a injúria e quem a sofre. De mim saiu
esta palavra, por minha permissão te sucedeu isso,
"para que fossem revelados os pensamentos de muitos
corações" (Lc 2,35). Julgarei o culpado e o
inocente: primeiro, porém, quis provar ambos por oculto
juízo.
4.
Engana, muitas vezes, o testemunho dos homens; meu juízo é
verdadeiro e não será revogado. As mais das vezes é oculto e
poucos lhe conhecem todas as particularidades, mas nunca
erra, nem pode errar, posto que pareça menos reto aos olhos
dos néscios. A mim, pois, deves recorrer em todo juízo e não
te ater ao teu próprio parecer. Pois o justo não se
perturbará, seja o que for que lhe suceda, por permissão de
Deus. Não se afligirá com as palavras que contra ele
disserem injustamente. Mas também não se encherá de vã
alegria, quando outros o justificarem com razões. Ele
pondera que "eu sou o perscrutador dos corações e dos
rins" (Sl 7,10), e não julgo segundo o
exterior e as aparências humanas. Porque
muitas vezes é culpável a meus olhos o que é tido por
louvável na opinião dos homens.
5.
A
alma:
Senhor, "Deus, juiz justo, forte e paciente" (Sl
7,12), que conheceis a fraqueza e malícia dos homens, sede
minha fortaleza e toda a minha confiança, porque não me
basta a consciência da própria força. Vós sabeis o que eu
não sei, por isso devia ter recebido qualquer repreensão com
humildade e mansidão. Perdoai-me, portanto, por todas as
vezes que assim o não o fiz, e dai-me de novo mais graça
para sofrer. Portanto, mais valiosa me é vossa abundante
misericórdia para alcançar o perdão dos pecados do que minha
pretensa justiça em defesa do que está oculto na
consciência. E mesmo que ela de nada me acuse, nem por isso
sou justificado; porque sem a vossa misericórdia
"nenhum vivente haverá justo a vossos olhos" (Sl
142,2).
Que todas as coisas graves se
devem suportar para ganhar a vida eterna.
1.
Jesus: Filho não te deixes quebrantar
pelos trabalhos empreendidos por meu amor, nem desanimes nas
tribulações; mas em tudo que te suceder, te consolem e
fortifiquem minhas promessas. Sou assaz poderoso para te
recompensar além de todo limite e medida. Não lidarás aqui
muito tempo, nem sempre estarás acabrunhado de dores. Espera
um pouco e verás em breve o fim de teus males. Hora virá em
que cessará todo trabalho e inquietação. É de pouco valor e
duração o que passa com o tempo.
2.
Faze o que podes fazer, trabalha fielmente em minha
vinha, e "eu serei tua recompensa" (Gn 15,1).
Escreve, lê, canta, geme, cala, ora e sofre varonilmente
toda adversidade; a vida eterna é digna dessas e outras
maiores pelejas. Virá a paz um dia que o Senhor sabe, e não
haverá mais nem dia nem noite, como no presente, mas luz
perpétua, claridade infinita, paz firme e seguro repouso.
Não dirás então: Quem me livrará deste corpo de morte?
(Rm 7,24), nem exclamarás: Ai de mim, que se tem
prolongado o meu desterro! (Sl 119,5). Porque a
morte será destruída e a salvação será eterna; livre
de toda ansiedade gozarás deliciosa alegria, em meio de
agradável e brilhante companhia.
3.
Oh! se visses as coroas imarcescíveis dos santos no
céu, e a glória em que já exultam aqueles que outrora, aos
olhos do mundo, eram desprezados e reputados quase indignos
da vida; com certeza, logo te humilharias até ao pó e
desejarias antes obedecer a todos que a um só a mandar.
Nem cobiçarias os dias felizes desta vida, mas antes te
alegrarias de ser atribulado por amor de Deus, e
considerarias grande vantagem o ser tido por nada entre os
homens.
4.
Oh! Se achasses gosto nessas coisas e elas penetrassem
profundamente no coração, como poderias ousar proferir uma
só queixa? Porventura haverá pena que não se deva sofrer
pela vida eterna? Certo que não é pouco perder ou
ganhar o reino de Deus. Ergue, pois, os olhos ao céu. Eis-me
aqui com todos os meus santos; eles, que neste mundo
sustentaram grandes combates, ora se rejubilam, ora estão
consolados e estão seguros, ora gozam o repouso e
permanecerão para sempre comigo no reino de meu Pai.
Do dia da eternidade e das angústias desta vida
1.
Ó mansão beatíssima da celestial cidade! Ó dia
claríssimo da eternidade, que a noite não obscurece, mas a
Verdade soberana sempre ilumina; dia sempre festivo, sempre
seguro, que nunca muda no contrário! Oh! se já amanhecera
aquele dia e acabaram todas as coisas temporais! Para os
santos, sim, brilha este dia com o fulgor de sua perpétua
claridade; para nós, peregrinos da terra, só de longe se
mostra e como por espelho.
2.
Sabem os cidadãos do céu quão ditoso é aquele dia; sentem os
desterrados filhos de Eva quão triste e amargo é este da
vida presente. Os dias deste tempo são curtos e maus, cheios
de dores e angústias. Neles se vê o homem manchado de muitos
pecados, enredado de muitas paixões, angustiado de muitos
temores, inquietado com muitos cuidados, distraído com
muitas curiosidades, emaranhado em muitas vaidades, cercado
de muitos erros, oprimido de muitos trabalhos, acossado por
tentações, enervado pelas delícias, atormentado pela
penúria.
3.
Oh! Quando virá o fim de todos estes males?
Quando me verei livre da triste escravidão dos vícios?
Quando me lembrarei somente de vós, Senhor?
Quando em vós plenamente me alegrarei? Quando viverei em
perfeita liberdade, sem nenhum impedimento, sem aflição da
alma e do corpo? Quando gozarei a paz sólida, imperturbável
e segura, paz interna e externa, paz de toda parte estável?
Ó bom Jesus, quando estarei diante de vós para nos ver?
Quando contemplarei a glória do vosso reino? Quando me
sereis tudo em todas as coisas? Oh! Quando estarei convosco
no reino que preparastes desde toda a eternidade para os que
vos amam? Pobre e desterrado estou, em terra de inimigos,
onde há guerras contínuas e misérias extremas!
4.
Consolai-me no meu desterro, mitigai-me a dor, para vós se
dirige todo o meu desejo. Tudo quanto o mundo oferece de
consolo é para mim tormento. Desejo gozar-vos intimamente,
mas não o consigo. Desejo aplicar-me às coisas do céu, mas
as coisas temporais e as paixões imortificadas me abatem.
Com o espírito desejava elevar-me acima de todas as coisas,
mas a carne me obriga a sujeitar-me a elas contra a minha
vontade. Assim eu, homem desgraçado, pelejo comigo e
"sou a mim mesmo pesado" (Jó 7,20), pois o espírito
aspira às alturas, mas a carne às baixezas.
5.
Oh! Quanto padeço interiormente, quando, ao meditar nas
coisas celestiais, logo uma multidão de idéias carnais vêm
perturbar-me a oração! Deus meu, em vossa ira, não vos
aparteis de vosso servo! (Sl 26,9). Lançai os
vossos raios e dissipai estes pensamentos! (Sl
143,6). Despedi vossas flechas, e se desfarão todos esses
fantasmas do inimigo. Concentrai e recolhei em vós meus
sentidos; fazei-me esquecer todas as coisas do mundo;
concedei-me a graça de logo rebater e desprezar todas as
imaginações do pecado. Socorrei-me, Verdade eterna,
para que nenhuma vaidade me possa seduzir. Vinde, doçura
celestial, e diante de vós fuja toda impureza.
Perdoai-me também e relevai-me, pela vossa misericórdia,
todas as vezes que, na oração, penso em outra coisa, fora de
vós.
Confesso sinceramente que costumo ser muito distraído. Pois
muitas vezes não estou onde tenho o corpo, mas onde me levam
os pensamentos. Estou onde está o meu pensamento, e meu
pensamento está, de ordinário, onde está o que amo.
Ocorre-me com facilidade o que naturalmente me deleita ou
por costume me agrada.
6.
Por isso vós, Verdade eterna, dissestes claramente:
Onde está teu tesouro, aí se acha também teu coração
(Mt 6,21). Se amo o céu, gosto de pensar nas coisas
celestiais. Se amo o mundo, alegro-me com seus deleites e
entristeço-me com suas adversidades. Se amo a carne, com
gosto me ocupo dos pensamentos carnais. Se amo o espírito,
deleita-me o pensar nas coisas espirituais. Porque, seja
qual for o objeto do meu amor, dele falo e ouço falar com
gosto e trago comigo a sua imagem. Mas bem-aventurado
o homem que por amor de vós, Senhor, abre mão de todas as
criaturas, faz violência à natureza e crucifica a
concupiscência da carne com o fervor do espírito, para, de
consciência serena, oferecer-vos uma oração pura e,
desprendido interior e exteriormente de tudo que é terreno,
merecer entrar no coro dos anjos.
Do desejo da vida eterna e quantos bens
estão prometidos aos que combatem
1.
Jesus: Filho, quando sentires que o céu
te inspira saudades da bem-aventurança e o desejo de deixar
o tabernáculo do corpo para contemplar minha glória sem
sombra de mudanças, alarga o teu coração e recebe esta santa
inspiração com todo afeto. Dá muitas graças à
Bondade soberana, que usa de tanta liberdade para contigo,
com tanta clemência te visita, tanto te anima, tão
poderosamente te levanta, para que teu próprio peso não te
arraste para as coisas terrenas. Pois isto não te vem por
teus pensamentos ou esforços, mas só pela mercê da graça
celeste e do beneplácito divino para que te adiantes nas
virtudes, sobretudo na humildade, e te prepares para futuras
pelejas; para que te entregues a mim com todo o afeto do teu
coração e me sirvas com ardente amor.
2.
Filho, muitas vezes arde o fogo, mas não sobe a chama sem
fumo. Assim também os desejos de alguns se abrasam
pelas coisas celestiais, e, contudo, não estão livres da
tentação e dos afetos carnais. Por isso não fazem
unicamente pela glória de Deus o que, aliás, com tanto
desejo lhe pedem. Tal é também muitas vezes teu desejo, que
manifestastes com tanta ansiedade; pois não é puro nem
perfeito o que está contaminado de algum interesse próprio.
3.
Pede-me, não o que te é agradável e cômodo, senão o que a
mim me é aceito e honroso; pois, se julgares retamente,
deves preferir minha lei a todos os teus desejos e
cumpri-la. Conheço teus desejos e ouvi teus freqüentes
gemidos. Quiseras já agora estar na gloriosa liberdade dos
filhos de Deus, já te deleita o pensamento da morada eterna,
na pátria celestial repleta de gozo; - mas não é ainda
chegada essa hora, outro é o tempo atual, tempo de guerra,
trabalho e provação. Desejas gozar a plenitude do Sumo Bem,
mas por enquanto ainda não o podes conseguir. Sou eu esse
Bem supremo; espera-me, diz o Senhor, até que venha o reino
de Deus.
4.
Hás de passar ainda por muitas provações na terra e ser
exercitado em muitas coisas. Consolações se te darão de vez
em quando, mas plena satisfação não podes receber.
Esforça-te, pois, e tem coragem, para fazer e sofrer o que
repugna à natureza. Importa que te revistas do homem
novo e te transformes em outro homem. Cumpre-te
fazer muitas vezes o que não queres e deixar o que queres. O
que agrada aos outros terá bom sucesso; o que te agrada não
se fará. O que os outros dizem está atendido; o que tu dizes
será desprezado. Pedirão os outros e receberão; tu pedirás,
e não alcançarás.
Serão grandes os outros na boca dos homens; mas de ti nem se
dirá palavra. Os outros serão encarregados de diversas
comissões, e tu não serás julgado capaz de coisa alguma. Com
isto se contristará, às vezes, a natureza; mas muito
ganharás, se o sofreres calado. Nessas e noutras coisas
semelhantes costuma ser aprovado o servo fiel do Senhor,
para ver como sabe negar-se e mortificar em tudo.
Dificilmente haverá coisa em que mais te seja preciso morrer
a ti mesmo, do que em ver e sofrer o que é contrário à tua
vontade, mormente quando te mandam fazer coisas que te
parecem inúteis ou desarrazoadas. E porque não ousas
resistir à autoridade do superior, sob cujo governo estás,
duro te parece andar à vontade de outrem e deixar de todo o
teu próprio parecer.
5.
Mas considera, filho, o fruto destes trabalhos, o fim
breve e o prêmio excessivamente grande, e não te serão
molestos, mas acharás neles consolo para teus sofrimentos.
Pois, por um pequeno desejo que agora sacrificas, tua
vontade será sempre satisfeita no céu onde acharás tudo que
quiseres, tudo o que podes desejar. Ali possuirás todo o
bem, sem medo de o perder. Ali tua vontade,
sempre unida com a minha, nada desejará fora de mim, nada
que te seja próprio. Ali ninguém te fará oposição ou de ti
se queixará, ninguém te causará estorvo ou contrariedades;
antes, tudo quanto desejares já estará presente, para
preencher e satisfazer plenamente todos os teus desejos. Ali
te darei a glória pela injúria padecida, uma túnica de honra
pela tristeza, e, pela escolha do ínfimo lugar, um trono em
meu reino para sempre. Ali brilhará o fruto da obediência,
alegrar-se-á a austera penitência e será gloriosamente
coroada a sujeição humilde.
6.
Sujeita-te, pois, agora, humildemente à vontade de
todos, sem te importar quem foi que tal disse ou mandou. Mas
cuida muito em acolher de bom grado qualquer pedido ou
aceno, seja de teu superior, ou embora de teu igual ou
inferior, e trata de o cumprir com sincera vontade.
Busque um isto, outro aquilo; glorie-se este numa coisa,
aquele em outra, e receba mil louvores; tu, porém, não te
deleites numa nem noutra coisa, mas só no desprezo de ti
mesmo e na minha vontade e glória. Este deve ser o teu
desejo: que tanto na vida como na morte Deus seja sempre por
ti glorificado.
Como o homem angustiado
se deve entregar nas mãos de Deus
1.
Senhor Deus, Pai santo! Bendito sejais agora e sempre;
porque como quisestes assim se fez, e bom é quanto fazeis.
Alegre-se em vós o vosso servo, não em si, nem em algum
outro, porque só vós sois a verdadeira alegria, vós a minha
esperança e coroa; só vós, Senhor, minha delícia e glória.
Que tem vosso servo, senão o que de vós recebeu, ainda
sem o merecer? Vosso é tudo o que destes e fizestes. Pobre
sou e vivo em trabalho desde a juventude (Sl 87,16),
e minha alma se entristece algumas vezes até às lágrimas, e
outras se perturba pelos sofrimentos que a ameaçam.
Desejo a alegria da paz, suplico a paz de vossos filhos, a
que apascentais na luz da consolação. Se vós me derdes a
paz, se vós me infundirdes santa alegria, será a alma de
vosso servo cheia de júbilo, entoando devotamente vossos
louvores.
Mas se vos afastardes, como muitas vezes fazeis, não poderá
ele trilhar o caminho dos vossos mandamentos, mas antes se
prostará de joelhos, para bater no peito, porque não lhe vai
como nos dias passados, "quando resplandecia vossa luz
sobre sua cabeça" (Gn 31,2), e encontrava refúgio
contra as tentações violentas debaixo da sombra de vossas
asas.
2.
Pai justo e sempre digno de louvor! Chegada é
a hora em que será provado o vosso servo. Pai amoroso! Justo
é que nesta hora sofra alguma coisa o vosso servo por vosso
amor. Pai sempre adorável, chegou a hora que de toda a
eternidade prevíeis havia de vir, que por pouco tempo
sucumba vosso servo exteriormente, mas vivendo interiormente
sempre unido a vós. Por pouco tempo seja desprezado
e humilhado, abatido diante dos homens e oprimido de
sofrimentos e enfermidades, para que ressuscite convosco na
aurora de uma nova luz e seja glorificado no céu. Pai santo!
foi esta vossa ordem e vontade, fez-se o que ordenastes.
3.
Pois é uma graça que concedeis ao vosso amigo: o sofrer e
penar neste mundo por vosso amor, quantas vezes e de quem o
permitireis. Sem o vosso desígnio, sem a vossa
providência, ou sem causa, nada acontece na terra. É bom
para mim, Senhor, que me tenhais humilhado para que aprenda
vossos justos juízos (Sl 118,71), e deponha toda a
soberba e toda presunção. Proveitoso é para mim "ter o
rosto coberto de confusão" (Sl 68,8), para que
busque a consolação em vós e não nos homens. Também aprendi
por este meio a temer vossos insondáveis juízos; pois
afligis o justo com o ímpio, mas sempre com eqüidade e
justiça.
4.
Graças vos dou, Senhor, que não poupastes minhas
maldades, antes me castigais com duros açoites,
enviando-me dores e afligindo-me exterior e interiormente de
angústias. De tudo quanto existe debaixo do sol, nada
há capaz de me consolar, senão vós, Senhor meu Deus, médico
celestial das almas, que feris e sanais, pondes em grandes
tormentos e deles livrais (1Rs 2,6; Tb 13,2).
Vosso castigo está sobre mim, e vossa disciplina me ensinará
(Sl 17,36).
5.
Pai querido, em vossas mãos estou e me inclino debaixo
da vara de vossa correção. Feri-me as costas e o
pescoço, para que sujeite minha vontade teimosa à vossa.
Fazei-me discípulo devoto e humilde, como sabeis fazer, para
que obedeça ao vosso menor aceno. Entrego-me, com tudo que é
meu, à vossa correção; pois é melhor ser castigado
neste mundo que no outro.
Vós sabeis tudo e todas as coisas e nada se vos esconde da
consciência humana. Vós sabeis o futuro antes que se
realize, e não precisais de quem vos ensine ou advirta das
coisas que se fazem na terra. Vós sabeis o que serve para
meu progresso e quanto vale a tribulação, para limpar a
ferrugem dos vícios.
Disponde de mim segundo o vosso beneplácito e não olheis
para a minha vida pecaminosa, de ninguém melhor e mais
claramente conhecida do que de vós. Concedei-me,
Senhor, que eu saiba o que devo saber, ame o que devo amar;
fazei-me louvar o que mais vos agrada, estimar o que vós
apreciais, desprezar o que a vossos olhos é abjeto.
Não me deixeis julgar pelas aparências exteriores, nem
criticar pelo que ouço de homens inexperientes, mas
dai-me o discernimento certo das coisas visíveis e das
espirituais, e sobretudo, o desejo de conhecer sempre vossa
vontade.
Enganam-se, freqüentemente, os homens em seus juízos, e não
menos se enganam os mundanos, porque só amam as coisas
visíveis. Porventura ficará melhor o homem porque outro o
louva? O mentiroso engana ao mentiroso, o vaidoso ao
vaidoso, o cego ao cego, o doente ao doente, em lhe fazendo
elogios; e na verdade, antes o confunde em lhe tecendo vãos
louvores. Porque, quanto cada um é aos olhos de Deus, tanto
é e nada mais, diz o humilde S. Francisco.
Que devemos praticar as obras humildes
quando somos incapazes para as mais altas
1.
Jesus: Filho, não podes conservar-te sempre no
desejo fervoroso de todas as virtudes, nem perseverar no
mais alto grau de contemplação; mas às vezes te é
necessário, por causa de tua natureza viciada, descer a
coisas humildes e carregar, em que te pese, o fardo desta
vida corruptível. Enquanto viveres neste corpo mortal,
sentirás tédio e angústias do coração. Convém, pois,
que na carne gemas muitas vezes debaixo do seu peso, porque
não podes ocupar-te dos exercícios espirituais e da
contemplação das coisas divinas, sem interrupção.
2.
Então te convém recorrer a humildes ocupações exteriores e
recrear-te nas boas obras; esperar, com firme
confiança, minha vinda e visita celestial; levar com
paciência o teu desterro e secura de espírito, até que de
novo venha a visitar-te e te livre de todas as penas.
Porque eu te farei esquecer os trabalhos e gozar do sossego
interior. Abrir-te-ei o jardim delicioso das Sagradas
Escrituras, para que, com o coração dilatado,
comeces a correr pelo caminho dos meus mandamentos. E então
dirás: Não têm proporção as penas desta vida com a
futura glória que se nos há de revelar (Rm 8,18).
Que o homem se não repute digno
de consolação, mas merecedor de castigo
1.
A alma: Senhor, eu não sou digno da vossa
consolação, nem de visita alguma espiritual, e por isso me
tratais com justiça, quando me deixais pobre e desconsolado.
Porque, mesmo que pudesse derramar um mar de lágrimas, ainda
assim não seria digno de vossa consolação. Outra coisa
não mereço, pois, senão ser flagelado e punido por tantas
ofensas e tão graves delitos que cometi.
Assim, portanto bem considerado tudo, não sou digno nem da
menor consolação. Vós, porém, Deus clemente e
misericordioso, que não quereis que pereçam vossas obras,
para manifestar as riquezas de vossa bondade nos vasos de
misericórdia, vos dignais de consolar vosso servo, sem
merecimento algum, de todo sobre-humano. Porque vossas
consolações não são como as consolações humanas.
2.
Que fiz eu, Senhor, para que me désseis alguma consolação
celestial? Não me lembra ter feito bem algum, mas antes fui
sempre inclinado a pecados, e tardio na emenda. É esta a
verdade, não há negá-lo. Se dissesse outra coisa, vós
estaríeis contra mim e não haveria quem me defendesse.
Que outra coisa mereci pelos meus pecados, senão o
inferno e o fogo eterno? Confesso com sinceridade
que sou digno de todo escárnio e desprezo, e que não mereço
ser contado no número de vossos servos. E ainda que ouça
isso muito a contragosto, por amor à verdade, acusarei
contra mim os meus pecados, para alcançar mais facilmente a
vossa misericórdia.
Que direi eu, coberto de culpa e confusão? Não posso abrir
a boca senão para dizer esta palavra: Pequei, Senhor,
pequei; tende piedade de mim, perdoai-me! Deixai-me um pouco
de tempo para desafogar a minha dor, antes de descer para a
terra tenebrosa, coberta das sombras da morte ( Jó
10,20-21). Que mais exigis do culpado e mísero pecador senão
que se humilhe e tenha contrição dos seus pecados?
Pela contrição sincera e humilde do coração nasce a
esperança do perdão, reconcilia-se a consciência perturbada,
recupera-se a graça perdida, preserva-se o homem da ira
futura, em ósculo santo une-se Deus à alma arrependida.
A humilde contrição dos pecados é para vós, Senhor,
sacrifício muito aceito, que rescende mais suave em vossa
presença do que o perfume do incenso. É este também o
precioso bálsamo que quisestes ver derramado em vosso pés
sagrados, pois nunca desprezastes o coração contrito e
humilhado
(Sl 50,
19). Lá se encontra o refúgio contra o furor do inimigo, ali
se emendam e lavam as manchas algures contraídas.
Que a graça de Deus não se comunica
aos que gostam das coisas terrenas
1.
Jesus: Filho, preciosa é a minha graça;
não sofre mistura de coisas estranhas, nem de consolações
terrenas. Cumpre, pois, remover todos os impedimentos da
graça, se desejas que te seja infundida. Busca lugar
retirado, gosta de viver só contigo, e não procures conversa
com os outros, mas a Deus dirige tua oração fervorosa, para
que te conserve na compunção de espírito e pureza da
consciência. Avalia em nada o mundo todo; antepõe o
serviço de Deus a todas as coisas exteriores. Pois não podes
há um tempo tratar comigo e deleitar-te nas coisas
transitórias. Cumpre apartares-te dos conhecidos e amigos, e
desprenderes teu coração de toda consolação temporal. Assim
exorta também instantemente o apóstolo São Pedro que
os fiéis cristãos vivam neste mundo como estrangeiros e
peregrinos (1Pd 2,11).
Oh! Quanta confiança terá aquele moribundo que não tem
afeição a coisa alguma do mundo. Mas desprender assim o coração de tudo, não o compreende o
espírito ainda enfermo, bem como o homem carnal não conhece
a liberdade do homem interior. Entretanto, se quiser
ser verdadeiramente espiritual, cumpre-lhe renunciar aos
estranhos como aos parentes e de ninguém mais se guardar do
que de si mesmo. Se te venceres perfeitamente a ti mesmo,
tudo o mais sujeitarás com facilidade. Pois a
perfeita vitória é triunfar de si mesmo. Porque aquele que
se domina a tal ponto, que os sentidos obedeçam à razão e a
razão lhe obedeça em todas as coisas, este é realmente
vencedor de si mesmo e senhor do mundo.
2.
Se aspiras a galgar estas alturas, cumpre-te começar
varonilmente e pôr o machado à raiz, para que arranque e
cortes o secreto e desordenado apego que tens a ti mesmo, e
a todo bem particular e sensível. Deste vício do
amor excessivo e desordenado que o homem tem a si mesmo
provém quase tudo que radicalmente se há de vencer; vencido
este e subjugado, logo haverá grande paz e tranqüilidade
estável. Mas já que poucos tratam de morrer a si mesmos e
desapegar-se de si, por isso ficam presos em si mesmos e não
se podem erguer em espírito acima de si. A quem, todavia,
deseja livremente seguir-me, cumpre-lhe mortificar todos os
seus maus e desordenados afetos, e não se prender, com amor
apaixonado, a criatura alguma.
Dos diversos movimentos
da natureza e da graça
1.
Jesus: Filho, observa com diligência os
movimentos da natureza e da graça: pois são muito opostos
uns aos outros e tão sutis que só a custo podem ser
discernidos, mesmo por um homem espiritual e interiormente
iluminado. Todos, sim, desejam o bem e intentam algum bem
nas suas palavras e obras; por isso se enganam muitos com a
aparência do bem. A natureza é astuta; a muitos atrai,
enreda e engana, e não tem outra coisa em mira senão a si
mesma. Mas a graça anda com simplicidade, evita a
menor aparência do mal, não usa de enganos, e tudo faz
puramente por Deus, no qual descansa como em seu último fim.
A natureza tem horror à mortificação, não quer ser
oprimida, nem vencida, nem sujeita, nem submeter-se
voluntariamente a outrem.
A graça, porém, aplica-se à mortificação própria,
resiste à sensualidade, quer estar sujeita, deseja ser
vencida e não quer usar da própria liberdade: gosta de estar
sob a disciplina, não cobiça dominar sobre outrem, mas quer
viver, ficar e permanecer sempre debaixo da mão de Deus,
sempre pronta, por amor de Deus, a se curvar humildemente a
toda criatura humana.
A natureza trabalha por seu próprio interesse e só atenta
no lucro que de outrem lhe pode advir. A graça, porém,
pondera não o que lhe seja útil ou cômodo, mas o que a
muitos seja proveitoso. A natureza gosta de receber honras e
homenagens; a graça, porém, refere fielmente a Deus
toda honra e glória.
2.
A natureza teme a confusão e desprezo; mas a graça
alegra-se de sofrer injúrias pelo nome de Jesus. A
natureza aprecia a ociosidade e o bem estar do corpo;
a graça, porém, não pode estar ociosa e abraça com prazer o
trabalho. A natureza gosta de possuir coisas
esquisitas e lindas e aborrece as vis e grosseiras;
mas a graça se compraz nas simples e modestas, não despreza
as ásperas, nem recusa vertir-se de hábito velho. A
natureza cuida dos bens temporais, alegra-se por um lucro
pequeno, entristece-se por um prejuízo e irrita-se com uma
palavrinha injuriosa. A graça, porém, cuida das coisas
eternas, não se apega às temporais, não se perturba com a
sua perda, nem se ofende com palavras ásperas; porquanto pôs
o seu tesouro e sua glória no céu onde nada perece.
3.
A natureza é cobiçosa, antes quer receber do que dar; gosta
de ter coisas próprias e particulares. Mas a graça é
generosa e liberal, foge de singularidades, contenta-se com
pouco e considera "maior felicidade o dar que o receber"
(At 20,35). A natureza inclina-se para as criaturas, para a
própria carne, para as vaidades e passatempos. Mas a
graça nos conduz a Deus e às virtudes, renuncia às
criaturas, foge do mundo, detesta os apetites carnais,
restringe as vagueações e peja-se de aparecer em público.
A natureza gosta de ter qualquer consolação exterior com que
deleite os sentidos. A graça, porém, só em Deus
procura seu consolo e se delicia no sumo bem, mais que em
todas as coisas visíveis.
4.
A natureza tudo faz para seu próprio interesse e proveito,
nada sabe fazer de graça, mas espera sempre, pelo bem que
faz, receber outro tanto ou melhor em elogios ou favores e
deseja que se faça grande caso de seus efeitos e dons.
A graça, porém, não busca nenhuma coisa temporal, nem
deseja outro prêmio, senão Deus só, e do temporal não deseja
mais do que quanto lhe possa servir para conseguir a vida
eterna.
5.
A natureza preza-se de muitos amigos e parentes, ufana-se de
sua posição elevada e linhagem ilustre, procura agradar aos
poderosos, lisonjeia os ricos, aplaude os seus iguais.
A graça, porém, ama os próprios inimigos, não se gaba do
grande número de seus amigos, não faz caso de posição e
nobreza, se lhes não vê unida maior virtude. Favorece mais
ao pobre que ao rico, tem mais compaixão do inocente do que
do poderoso, alegra-se com o sincero, e não com o mentiroso.
Estimula sempre os bons e maiores progressos, para que se
assemelhem, pelas virtudes, ao Filho de Deus. A
natureza logo se queixa da penúria e do trabalho. A
graça sofre com paciência a pobreza.
6.
A natureza atribui tudo a si, em proveito seu peleja a
porfia. A graça, porém, atribui tudo a Deus, de quem
tudo dimana como de sua origem; nenhum bem atribui a si com
arrogante presunção, não questiona, nem prefere a sua
opinião à dos outros, mas em todo juízo e parecer se sujeita
à sabedoria eterna e ao divino exame. A natureza
deseja saber segredos e ouvir novidades, quer exibir-se em
público e experimentar muitas coisas pelos sentidos; deseja
ser conhecida e fazer aquilo donde lhe resultem louvor e
admiração.
A graça não cuida de novidades e curiosidades, porque tudo
isso nasce da corrupção antiga, pois nada há de novo e
estável sobre a terra. Ensina, pois, a refrear os sentidos,
a evitar a vã complacência e ostentação, a ocultar
humildemente o que provoque admiração e louvor, busca em
todas as coisas e ciências proveito espiritual e a honra e
glória de Deus. Não quer que a louvem, nem às suas obras,
mas que Deus seja bendito em seus dons, que ele prodigaliza
a todos por mera bondade.
7.
A
graça é uma luz sobrenatural e um dom especial de Deus; é
propriamente o sinal dos escolhidos e o penhor da salvação
eterna, pois eleva o homem das coisas terrenas ao amor das
celestiais, e de carnal o torna espiritual. Quanto mais,
pois, é oprimida e dominada a natureza, tanto maior graça é
infundida, e tanto mais cada dia é renovado o homem
interior, conforme a imagem de Deus.
Da corrupção da natureza
e da eficácia da graça divina
1.
A alma: Senhor, meu Deus, que me criastes à
vossa imagem e semelhança, concedei-me a graça que
declarastes ser tão importante e necessária para a salvação:
que eu vença minha péssima natureza, que me arrasta ao
pecado e à perdição. Porque sinto em minha carne a
lei do pecado, que é contrária à lei do espírito e me
cativa, querendo me levar a obedecer, em muitas coisas, à
sensualidade; nem poderei resistir às paixões, se não me
assistir vossa santíssima graça, e me inflamar o coração.
2.
É necessária vossa graça, e grande graça, para vencer
a natureza, propensa sempre ao mal desde a infância.
Porque, viciada pelo primeiro homem, Adão, e corrompida pelo
pecado, transmite a todos os homens a pena desta mancha, de
sorte que a mesma natureza, por vós criada boa e reta, agora
deve ser considerada como enferma e enfraquecida pela
corrupção, visto que seus movimentos, abandonados a si
mesmos, a arrastam ao mal e às coisas baixas, Porque a
módica força que lhe ficou é como uma centelha oculta
debaixo da cinza. Esta centelha é a razão natural, que,
embora envolta em densas trevas, discerne ainda o bem do
mal, a verdade do erro, mas não é capaz de fazer tudo que
aprova, já que não possui a plena luz da verdade, nem a
primitiva pureza de seus afetos.
3.
Daí vem, ó meu Deus, que "segundo o homem interior me
deleito em vossa lei" (Rm 7, 22), sabendo que vosso
mandato é bom, justo e santo, que reprova todo mal e ensina
que se deve fugir ao pecado. Segundo a carne, porém, estou
escravizado à lei do pecado, pois obedeço mais à
sensualidade que à razão. Daí vem que "tenho vontade
de fazer o bem, mas não sei realizá-lo" (Rm 7, 18).
Por isso faço muitos bons propósitos, mas faltando-me vossa
graça que auxilie minha fraqueza, com o menor obstáculo
desfaleço e desisto. Assim sucede que bem conheço o caminho
da perfeição e vejo claramente o que devo fazer.
Entretanto, oprimido com o peso da corrupção, não me elevo
ao que é mais perfeito.
Oh! Como me é necessária, Senhor, vossa graça, para
começar, continuar e completar o bem. Porque sem ela nada posso fazer, mas tudo posso em
vós, se me confortar vossa graça, Ó graça verdadeiramente
celestial, sem a qual nada valem os próprios merecimentos,
nem apreço merecem os dons naturais! Nada valem diante de
vós, Senhor, as artes e a riqueza, a formosura e a
fortaleza, o engenho e a eloqüência - sem a graça. Porque os
dons da natureza são comuns aos bons e aos maus; mas a
graça ou caridade é peculiar dos escolhidos, porque os torna
dignos da vida eterna. Tão excelente é esta graça,
que nem o dom da profecia, nem o poder de fazer milagres,
nem a mais alta contemplação tem valor algum sem ela. Nem
mesmo a fé, nem a esperança, nem as outras virtudes vos
agradam, sem a graça e sem a caridade.
Ó graça beatíssima, que fazes rico de virtudes o pobre de
espírito e tornas humilde de coração o rico dos bens de
fortunas: vem, desce sobre mim e enche minha alma de tua
consolação, para que não desfaleça, de cansaço e aridez, meu
espírito. Suplico-vos, Senhor, que eu ache graça em
vossos olhos, porque me basta a vossa graça, embora me falte
tudo que deseja a natureza. Ainda que seja tentado e
vexado com muitas tribulações, nada temerei, enquanto
estiver comigo a vossa graça. Ela é a minha fortaleza, me dá
conselho e amparo. Ela é mais poderosa que todos os inimigos
e mais sábia que todos os sábios.
Ela é a mestra da verdade e da disciplina, a luz do coração
e o alívio nas tribulações; ela afugenta a tristeza, dissipa
o temor, nutre a devoção, gera santas lágrimas. Que sou eu
sem a graça, senão um lenho seco e um tronco inútil, que se
atira ao fogo? Previna-me, pois, Senhor, a vossa graça e me
acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das
boas obras, por Jesus Cristo, vosso Filho. Amém.
Que devemos renunciar a nós mesmos
e seguir a Cristo pela cruz
1.
Jesus: Quanto mais saíres de ti mesmo,
tanto mais poderás chegar-te a mim. Assim como o não
desejar coisa alguma exterior produz paz interior, assim o
desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus.
Quero que aprendas a perfeita abnegação de ti mesmo,
submetendo-te, sem resistência e sem queixa, à minha
vontade. Segue-me, eu sou o caminho, a verdade e a vida
(Jo 14,6). Sem caminho não se anda, sem verdade não se
conhece, sem vida não se vive. Eu sou o caminho que deves
seguir, a verdade que deves crer, a vida que deves esperar.
Eu sou o caminho seguro, a verdade infalível, a vida
interminável. Eu sou o caminho direito, a verdade suprema, a
vida verdadeira, a vida ditosa, a vida incriada. Se
perseverares no meu caminho, conhecerás a verdade, e a
verdade te livrará (Jo 8,32), e alcançarás a vida
eterna.
2.
Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos
(Mt 19,17). Se queres conhecer a verdade, crê em mim.
Se queres ser perfeito, vende tudo (Mt 19,21). Se
queres ser meu discípulo, renuncia a ti mesmo. Se queres
possuir a vida bem aventurada, despreza a presente. Se
queres ser exaltado no céu, humilha-te na terra. Se
queres reinar comigo, carrega comigo a cruz, porque só os
servos da cruz acham o caminho da bem-aventurança e da luz
verdadeira.
3.
A
alma:
Senhor, Jesus Cristo! Porque vossa vida foi tão
oprimida e desprezada no mundo, concedei-me o imitar-vos com
o desprezo do mundo. Pois o servo não é maior que seu
senhor, nem o discípulo mais do que o mestre (Mt
10,24). Trabalhe vosso servo por conformar-me à vossa vida,
porque nela está a minha salvação e a verdadeira santidade.
Tudo quanto fora dela leio ou ouço não me pode recrear ou
deleitar plenamente.
4.
Jesus: Filho, pois que sabes e lês todas
estas coisas, bem-aventurado serás se as puseres em prática.
Quem conhece os meus mandamentos e os guarda, esse é o que
me ama; também eu o amarei e me manifestarei a ele (Jo
14,21), e o farei assentar comigo no reino de meu Pai.
A alma:
Senhor Jesus! Faça-se em mim segundo vossa palavra e
promessa, e seja-me dado merecê-lo. Recebi a cruz,
da vossa mão a recebi; hei de carregá-la, carregar até à
morte, como vós ma impusestes. Na verdade, a vida do bom
religioso é uma cruz, mas o conduz ao Paraíso. O começo está
feito; não posso voltar atrás sem desistir.
5.
Eia, irmãos! Marchemos unidos, Jesus está conosco, por Jesus
abraçamos a cruz, por Jesus queremos nela perseverar. Ele,
que é nosso chefe e guia, será também nosso auxílio. Eis o
nosso Rei, que marcha à nossa frente, Ele por nós combaterá.
Varonilmente queremos segui-lo, ninguém se espante;
estejamos prontos para morrer, com denodo, no combate, e não
manchemos nossa glória, desertando da cruz.
Que o homem não se desanime em demasia,
quando cai em algumas faltas
1.
Jesus: Filho, mais me agradam a
paciência e humildade nos reveses que a muita consolação e
fervor nas prosperidades. Por que te entristece uma
coisinha que contra ti disseram? Ainda que fosse maior, não
te devias ter perturbado. Deixa passar isso agora, não é
novidade; não é a primeira vez, nem será a última, se muito
tempo viveres. Mas valoroso és, enquanto te não sucede
alguma adversidade. Sabes até dar bons conselhos e acalentar
os outros com tuas palavras; mas quando bate, de improviso,
à tua porta a tribulação, logo te falta conselho e
fortaleza. Considera tua grande fraqueza, que tantas
vezes experimentas nas pequenas coisas; todavia, é para tua
salvação que isso e semelhantes coisas acontecem.
2.
Procura esquecer isso como melhor souberes, e, se te
impressionou, não te abale nem te perturbe muito tempo.
Sofre ao menos com paciência o que não podes sofrer com
alegria. Ainda que te custe ouvir esta ou aquela
palavra e te sintas indignado, modera-te, e não deixes
escapar da tua boca alguma expressão despropositada, com que
os pequenos se poderiam escandalizar. Logo se acalmará a
tempestade em teu coração, e a dor se converterá em doçura,
com a volta da graça. Eu ainda vivo, diz o Senhor, pronto
para te ajudar e consolar, mais do que nunca, se em mim
confiares e me invocares com fervor.
3.
Sê mais corajoso, e prepara-te para suportar coisas maiores.
Nem tudo está perdido por te sentires a miúdo tribulado e
gravemente tentado. Homem és e não Deus; carne és e não
anjo. Como poderás tu perseverar sempre no mesmo estado de
virtude, se tal não pôde o anjo no céu, nem o primeiro homem
no paraíso? Eu sou que levanto os aflitos e os salvo,
elevo à minha divindade os que conhecem as suas fraquezas.
4.
A alma: Senhor, bendita seja a vossa palavra,
mais doce na minha boca que um favo de mel (Sl
18,11; Sl 118,103). Que seria de mim em tantas tribulações e
angústias, se vós me não confortásseis com vossas santas
palavras? Contanto que chegue afinal ao porto de salvação,
que importa o que e quanto tiver sofrido? Concedei-me bom
fim, ditoso trânsito deste mundo. Lembrai-vos de mim,
meu Deus, e conduzi-me pelo caminho reto ao vosso reino!
Amém.
Que não devemos escrutar
as coisas mais altas e os
ocultos juízos de Deus
1.
Jesus: Filho, guarda-te de disputar sobre
assuntos altos e os ocultos juízos de Deus; não queiras
investigar por que este é deixado em tal estado, aquele
elevado a tanta graça, este tão oprimido, aquele tão
exaltado. Isso excede o alcance humano, e não há
raciocínio nem discussão que possam escrutar os desígnios de
Deus. Quando, pois, o inimigo te sugere tais
pensamentos, ou os curiosos questionarem sobre eles,
responde com o profeta: Justo sois, Senhor, e justo é
o vosso juízo (Sl 118,37), ou, também: Os
juízos do Senhor são verdadeiros e justificados em si mesmos
(Sl 19, 10). Meus juízos devem se temer, e não
discutir, porque são incompreensíveis ao entendimento
humano.
2.
Não queiras também inquirir ou disputar sobre os méritos dos
santos, qual seja o mais santo ou o maior no reino dos céus.
Daí nascem muitas controvérsias e contendas inúteis, que
nutrem a soberba e a vanglória, donde procedem invejas e
discórdias, porque este prefere soberbamente um santo,
aquele quer dar a preeminência a outro. Querer saber e
investigar tais coisas não traz proveito algum, antes
desagrada aos santos, porque "eu não sou Deus de
discórdia e sim da paz" (1Cor 14,33), e esta paz
consiste antes na verdadeira humildade que na própria
exaltação.
3.
Alguns, por um zelo de predileção, se afeiçoam mais a este
ou àquele santo, mas este afeto é antes humano que divino.
Sou eu que fiz todos os santos; eu lhes dei a graça,
eu lhes outorguei a glória. Eu sei os merecimentos de cada
um, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura (Sl
20,4). Eu conheci os meus amados antes dos séculos, eu
os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei por
minha graça e os atraí por minha misericórdia: eu os fiz
passar por várias provações. Eu os inundei de maravilhosas
consolações, dei-lhes a perseverança e coroei a sua
paciência.
4.
Eu conheço o primeiro e o último e abraço a todos com
inestimável amor. Eu devo ser louvado em todos os meus
santos, bendito sobre todas as coisas e honrado em cada um
deles, que eu tão gloriosamente exaltei e predestinei, sem
prévio merecimento algum de sua parte. Quem
desprezar, pois, um dos menores dos meus deixa também de
honrar o maior, porque fui eu que fiz o pequeno e o grande.
E quem menospreza a todos os mais que estão no reino dos
céus. Porquanto todos são um belo veículo da caridade; todos
têm o mesmo parecer, o mesmo querer, e se amam mutuamente
com o mesmo amor.
5.
Além disso, - o que é mais sublime ainda - eles me
amam mais a mim que a si e seus merecimentos. Porque,
arrebatados acima de si mesmos e desprendidos de todo
amor-próprio, se transformaram inteiramente no meu amor, no
qual descansam com sumo gozo. Nada há que os possa
desviar ou deprimir, porque, repletos da eterna verdade,
ardem no fogo inestinguível da caridade. Calem-se, pois, os
homens carnais e sensuais, e não discutam sobre o estado dos
santos, porque não sabem amar senão seus próprios gozos.
Eles diminuem ou acrescentam conforme a sua inclinação, e
não como agrada à eterna Verdade.
6.
Em muitos é isso ignorância, mormente naqueles que, pouco
iluminados, raramente sabem amar um santo com amor puramente
espiritual. Leva-os ainda muito a natural afeição e a
amizade humana, que os inclina a este ou àquela, e, como se
portam nas coisas terrenas, assim se lhes afiguram também as
celestiais. Há, porém, incomparável distância entre o que
pensam os imperfeitos e o que alcançam os homens espirituais
pela revelação superior.
7.
Guarda-te, pois, filho, de discorrer curiosamente
sobre coisas que excedem teu entendimento; cuida antes e
trata de seres ainda o ínfimo no reino de Deus. E
dado que alguém soubesse quem seja deles o mais santo ou o
maior no reino dos céus, que lhe aproveitaria esse
conhecimento, se dele não tomasse motivo de humilhar-se
diante de mim e louvar mais fervorosamente o meu nome?
Muito mais agrada a Deus quem cuida na grandeza dos seus
pecados, na escassez das virtudes e na grande distância que
o separa da perfeição dos santos, do que aquele que disputa
sobre a maior ou menor glória deles. Melhor é
implorar os santos com devotas orações e lágrimas,
suplicar-lhes com humildade de coração sua gloriosa
intercessão, que perscrutar, com vã curiosidade, seus
segredos.
8.
Os santos estão bem contentes e satisfeitos; oxalá também os
homens soubessem estar contentes e refrear suas vãs
palavras. Não se gloriam dos próprios merecimentos, pois
nenhum bem atribuem a si mesmos, mas tudo referem a mim que
lhes dei tudo por infinita caridade. Tão cheios estão do
amor da divindade e de abundantíssima alegria, que nada
falta à sua glória, nem pode faltar à sua bem-aventurança.
Quanto mais elevados estão os santos na glória, tanto
mais humildes são em si mesmos e mais perto de mim e de mim
amados. Por isso lês na Escritura que depunham suas coroas
diante de Deus e se prostavam diante do Cordeiro e adoravam
aquele que vive nos séculos dos séculos (Ap 4,10).
9.
Muitos perguntam qual seja o maior no reino de Deus e não
sabem se serão dignos de ser contados entre os menores.
Grande coisa é ser ainda o menor no céu, onde todos são
grandes, porque serão chamados filhos de Deus, e, na
verdade, o são. O menor valerá por mil, e o pecador de
cem anos morrerá (Is 60,22; Is 65,20). Pois, quando
os discípulos perguntaram quem era o maior no reino dos
céus, receberam esta resposta: Se vos não converterdes
e vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos
céus (Mt 18,3-4).
10.
Ai daqueles que recusam humilhar-se espontaneamente
com os pequenos; porque é baixa a porta do reino
celeste e não lhes dará entrada. Ai também dos ricos, que
têm neste mundo suas consolações, porque, quando os pobres
entrarem no reino de Deus, eles ficarão de fora, chorando.
Regozijai-vos, humildes, e "exultai, pobres, porque
vosso é o reino de Deus" (Lc 6,20) contanto que
andeis no caminho da verdade.
Que só em Deus devemos firmar
toda esperança e confiança
1.
A alma: Senhor, que confiança posso eu ter nesta vida
ou qual é minha maior consolação de tudo quanto existe
debaixo do sol? Não o sois vós, Senhor, Deus meu, cuja
misericórdia é infinita? Onde me achei bem sem vós, ou
quando passei mal, estando vós presente? Antes quero ser
pobre por vós, que rico sem vós. Prefiro peregrinar convosco
na terra, que sem vós possuir o céu. Onde vós estais, aí
está o céu; e lá existe a morte e o inferno, onde vós não
estais. Vós sois o alvo de meus desejos, por isso por vós
devo gemer, clamar e orar.
Em ninguém, finalmente, posso plenamente confiar que me dê
auxílio oportuno em minhas necessidades, senão em vós só,
meu Deus. Vós sois minha esperança, vós minha
confiança, vós meu consolador fidelíssimo em todas as
coisas. Todos buscam os seus interesses; vós, porém,
só tendes em vista minha salvação e aproveitamento, e tudo
converteis em bem para mim. Ainda quando me sujeitais
a várias tentações e adversidades, tudo isso ordenais para
meu proveito, pois de mil modos costumais provar os vossos
amigos. E nessas provações não menos vos devo amar e
louvar, como se me enchêsseis de celestiais consolações.
2.
Em vós, portanto, Senhor meu Deus, é que ponho toda a
minha esperança e refúgio; a vós entrego todas as minhas
tribulações e angústias; porque tudo quanto vejo
fora de vós acho fraco e inconstante. Nada me aproveitam os
muitos amigos, nem me poderão ajudar os homens, nem os
prudentes conselheiros me darão conselho útil, nem os livros
dos sábios me poderão consolar, nem qualquer tesouro
precioso me poderá salvar, nem algum retiro delicioso me
proteger, se vós mesmo não me assistis, ajudais, confortais,
consolais, instruís e defendeis.
3.
Pois tudo que parece próprio para alcançar a paz e a
felicidade nada é sem vós, nem pode trazer-nos a verdadeira
felicidade. Vós sois, pois, o remate de todos os bens, a
plenitude da vida, o abismo da ciência; esperar em vós acima
de tudo é a maior das consolações dos vossos servos. A
ti, Senhor, levanto os meus olhos, em vós confio, Deus meu,
Pai de misericórdia! Abençoai e santificai
minha alma com a bênção celestial para que seja vossa santa
morada, o trono de vossa eterna glória, e nada se encontre
nesse tempo da vossa divindade que possa ofender os olhos de
vossa majestade. Olhai para mim segundo a grandeza
de vossa bondade e a multidão de vossas misericórdias e ouvi
a oração do vosso pobre servo desterrado tão longe, na
sombria região da morte. Protegei e conservai a alma do
vosso mísero servo entre os muitos perigos desta vida
corruptível, e com a assistência de vossa graça guiai-o pelo
caminho da paz à pátria da perpétua claridade. Amém.
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