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IMITAÇÃO DE CRISTO.
EXORTAÇÕES À VIDA INTERIOR
Da vida interior
1.
O reino de deus está dentro de vós, diz o Senhor
(Lc 17,21). Converte-te a Deus de todo o coração,
deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso.
Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te
às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus.
Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito
Santo (Rm 14, 17), que não se dá aos ímpios.
Virá a
ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu
interior digna moradia. Toda a sua glória e formosura
está no interior (Sl 44,14), e só aí o Senhor se
compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce
intretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade
sobremaneira admirável.
2.
Eia, alma fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim
de que se digne vir e morar em ti. Pois assim ele diz:
Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a
ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Dá,
pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se
possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo
será teu provedor e fiel procurador em tudo, de modo que não
hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens
são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo
permanece eternamente (Jo 12,34), e firme nos
acompanha até ao fim.
3.
Não se há de ter grande confiança no homem frágil e mortal,
por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos afligir
com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com
palavras ou obras. Os que hoje estão contigo amanhã talvez
sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como
o vento. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja ele
o teu temor e amor; ele responderá por ti, e fará do melhor
modo o que convier. Não tens aqui morada permanente
(Hb 13,14), e onde quer que estejas, és estranho e
peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres
intimamente unido a Jesus.
4.
Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu
repouso? No céu deve ser a tua habitação, e como de
passagem hás de olhar todas as coisas da terra.
Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma
cuidado para não te apegares a elas, a fim de que não te
escravizem e percam. Ao Altíssimo eleva sempre teus
pensamentos, e a Cristo dirige súplica incessante. Se não
sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na
paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas
chagas. Pois, se te acolheres devotamente às chagas e
preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em
tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e
facilmente sofrerás as suas detrações.
5.
Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens,
e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam
seus conhecidos e amigos. Cristo quis padecer e ser
desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo
teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por
amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência,
se não encontrares alguma adversidade? Se não queres
sofrer alguma contrariedade, como serás amigo de Cristo?
Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
6.
Se uma só vez entrares perfeitamente no Coração de Jesus e
gozaras um pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu
proveito ou dano, ao contrário, te alegrarias com os mesmos
opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem
se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o
homem deveras espiritual e livre de afeições desordenadas,
pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em
espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
Aquele
que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e
estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado
mais por Deus que pelos homens. Quem sabe andar
recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas
exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas
para se dar a exercícios de piedade. O homem
interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de
todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos
externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se
acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o
interior bem disposto e ordenado não se importa com as
façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e
distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
7.
Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se
voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de
todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por
isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações.
Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor
desordenado às criaturas. Se renunciares às
consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu
e gozar a miúdo da alegria interior.
Da humilde submissão
1.
Não te importes muito de saber quem seja por ti ou
contra ti; mas trata e procura que Deus seja contigo em tudo
que fizeres. Tem boa consciência e Deus te
defenderá, pois a quem Deus ajuda não há maldade que o possa
prejudicar. Se souberes calar e sofrer, verás,
sem dúvida, o socorro do Senhor. Ele sabe o tempo e
o modo de te livrar; portanto, entrega-te todo a ele. A Deus
pertence aliviar-nos e tirar-nos de toda a confusão. Às
vezes é muito útil, para melhor conservarmos a humildade,
que os outros saibam os nossos defeitos e no-los repreendam.
2.
Quando o homem se humilha por seus defeitos, aplaca
facilmente os outros e satisfaz os que estão irados contra
ele. Ao humilde Deus protege e salva, ao
humilde ama e consola, ao humilde ele se inclina, dá-lhe
abundantes graças e depois do abatimento o levanta a grande
honra. Ao humilde revela seus segredos e com doçura
a si o atrai e convida. O humilde, ao sofrer afrontas,
conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo. Não
julgues ter feito progresso algum, enquanto te não
reconheças inferior a todos.
Do homem bom e pacífico
1.
Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os
outros.
O homem apaixonado, até o bem converte em mal e facilmente
acredita no mal; o homem bom e pacífico, pelo contrário, faz
com que tudo se converta em bem. Quem está em boa paz
de ninguém desconfia; o descontente e perturbado,
porém, é combatido de várias suspeitas e não sossega, nem
deixa os outros sossegarem. Diz muitas vezes o que não devia
dizer, e deixa de fazer o que mais lhe conviria. Atende às
obrigações alheias, e descuida-se das próprias. Tem, pois,
principalmente zelo de ti, e depois o terás, com direito, do
teu próximo.
2.
Bem
sabes desculpar e cobrir tuas faltas, e não queres aceitar
as desculpas dos outros! Mais justo fora que te acusasses a
ti e escusasses o teu irmão. Suporta os outros, se
queres que te suportem a ti. Nota quão longe estás
ainda da verdadeira caridade e humildade, que não sabe
irar-se ou indignar-se senão contra si própria. Não é grande
coisa conviver com homens bons e mansos, porque isso,
naturalmente, agrada a todos; e cada um gosta de viver em
paz e ama os que são de seu parecer. Viver, porém, em
paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos
contrariam, é grande graça e ação louvável e varonil.
3.
Uns há que têm paz consigo e com os mais; outros que não têm
paz nem a deixam aos demais; são insuportáveis aos outros, e
ainda mais o são a si mesmos. E há outros que têm paz
consigo e procuram-na para os demais. Toda a nossa paz,
porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde
resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor
sabe sofrer maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e
senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.
Da mente pura e da intenção simples
1.
Com duas asas se levanta o homem acima das coisas
terrenas: simplicidade e pureza. A simplicidade há
de estar na intenção e a pureza no afeto. A simplicidade
procura a Deus, a pureza o abraça e frui. Em nenhuma boa
obra acharás estorvo, se estiveres interiormente livre de
todo afeto desordenado. Se só queres e buscas o agrado
de Deus e o proveito do próximo, gozarás de liberdade
interior. Se teu coração for reto, toda criatura te
será um espelho de vida e um livro de santas doutrinas. Não
há criatura tão pequena e vil, que não represente a bondade
de Deus.
2.
Se fosses interiormente bom e puro, logo verias tudo
sem dificuldade e compreenderias bem. O coração puro penetra
o céu e o inferno. Cada um julga segundo seu
interior. Se há alegria neste mundo, é o coração puro que a
goza; se há, em alguma parte, tribulação e angústia, é a má
consciência que as experimenta. Como o ferro metido no
fogo perde a ferrugem e se faz todo incandescente, assim o
homem que se entrega inteiramente a Deus fica livre da
tibieza e transforma-se em novo homem.
3.
Quando o homem começa a entibiar, logo teme o menor trabalho
e anseia as consolações exteriores. Quando, porém, começa
deveras a vencer-se e andar com ânimo no caminho de Deus,
leves lhe parecem as coisas que antes achava onerosas.
Da consideração de si mesmo
1.
Não podemos confiar muito em nós, porque
freqüentemente nos faltam a graça e o critério.
Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por
negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é
nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos
desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e
pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas
leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem
depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos,
mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e
retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os
outros com rigor.
O
homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros
cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente
deixa de falar dos outros. Nunca serás homem
espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a
ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de
Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde
estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo
percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres
ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais
dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.
2.
Portanto, grandes progressos farás, se te conservares
livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a
alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou
agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus.
Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A
alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus.
Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma
e a verdadeira alegria do coração.
Da alegria da boa consciência
1.
A
glória do homem virtuoso é o testemunho da boa consciência.
Conserva pura a consciência, e sempre terás alegria. A
boa consciência pode suportar muita coisa e permanece
alegre, até nas adversidades. A má consciência anda
sempre medrosa e inquieta. Suave sossego gozarás, se de nada
te acusar o coração. Não te dês por satisfeito, senão
quando tiveres feito algum bem. Os maus nunca têm
verdadeira alegria nem sentem a paz interior; pois não
há paz para os ímpios, diz o Senhor (Is 57,21). E se
disserem: Vivemos em paz, não há mal que nos possa
acontecer, e quem ousará ofender-nos? - não lhes dês
crédito, porque de repente levantar-se-á a ira de Deus, e
então as suas obras serão aniquiladas e frustrados seus
intuitos.
2.
A
quem ama não é dificultoso gloriar-se na tribulação; pois
gloriar-se assim é gloriar-se na cruz do Senhor
(Gl 6,14). Pouco dura a glória que os homens dão e recebem.
A glória do mundo anda sempre acompanhada de tristeza. A
glória dos bons está na própria consciência, e não na boca
dos homens. A alegria dos justos é de Deus e em Deus,
a sua alegria procede da verdade. Quem deseja a glória
verdadeira e eterna não faz caso da temporal. E quem
procura a glória temporal ou não a despreza de todo, mostra
que pouco ama a celestial. Grande tranqüilidade do
coração goza aquele que não faz caso de elogios nem de
censuras.
3.
É fácil estar contente e sossegado, tendo a
consciência pura. Não és mais santo porque te
louvam, nem mais ruim porque te censuram. És o que és, nem
te podem os louvores fazer maior do que és aos olhos de
Deus. Se considerares o que és no teu interior, não
farás caso do que te dizem os homens. O homem vê o rosto,
Deus o coração (1Rs 16,7). O homem nota os atos, mas
Deus pesa as intenções. Proceder sempre bem e ter-se em
pequena conta é indício de uma alma humilde. Rejeitar toda
consolação das criaturas é sinal de grande pureza e
confiança interior.
4.
Aquele que não procura o testemunho favorável dos homens
mostra que está todo entregue a Deus. Porque, como diz
S.Paulo, não é aprovado aquele que a si próprio recomenda,
mas aquele que é recomendado por Deus (2Cor 10,18).
Andar recolhido no interior com Deus, sem estar preso
a alguma afeição humana, é próprio do homem espiritual.
Do amor de Jesus sobre todas a coisas
1.
Bem-aventurado aquele que compreende o que seja amar a
Jesus e desprezar-se a si por amor de Jesus. Por esse amor
deves deixar qualquer outro, pois Jesus quer ser amado acima
de tudo. O amor da criatura é enganoso e
inconstante; o amor de Jesus é fiel e inabalável.
Apegado à criatura, cairás com ela, que é instável;
abraçado com Jesus, estarás firme para sempre.
A Ele ama e guarda como amigo que não te desamparará,
quando todos te abandonarem, nem consentirá que pereças na
hora suprema. De todos te hás de separar um dia,
quer queiras, que não.
2.
Conchega-te a Jesus na vida e na morte; entrega-te à
sua fidelidade, que só Ele te pode socorrer, quando todos te
faltarem. Teu Amado é de tal natureza, que não
admite rival: Ele só quer possuir teu coração e nele reinar
como rei em seu trono. Se souberas desprender-te de
toda criatura, Jesus acharia prazer em morar contigo.
Quando confiares nos homens, fora de Jesus, verás que
estás perdido. Não te fies nem te firmes na cana movediça:
porque toda a carne é feno, e toda a sua glória fenece como
a flor do campo (Is 40,6).
3.
Facilmente serás enganado, se só olhares para as aparências
dos homens. Se procuras alívio e proveito nos outros, quase
sempre terás prejuízo. Procura a Jesus em todas as
coisas, e Jesus acharás. Se te buscas a ti mesmo,
também te acharás, mas para a tua ruína. Pois o homem que
não busca a Jesus é mais nocivo a si mesmo que todo o mundo
e seus inimigos todos.
Da familiar amizade com Jesus
1.
Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece
dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna
penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma
consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra,
sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo
Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe
disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo
11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas
para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem
Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa,
fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o
mundo inteiro?
2.
Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é
terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus
estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender.
Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem
superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do
que se perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem
Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.
3.
Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande
prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e
contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus
permanecerá contigo. Depressa podes afugentar
a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas
exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e
a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se
não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e
desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer
outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por
adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os
teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.
4.
Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura
alguma. É mister desprenderes-te de tudo e
ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver
como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não
conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça,
de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só
estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de
Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo
fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda
assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te
na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por
honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da
noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.
Da privação de toda consolação
1.
Não é dificultoso desprezar as consolações humanas,
quando gozamos das divinas. Grande coisa, porém, e mui
meritória, é poder estar sem consolação, tanto divina como
humana, sofrendo de boa mente o desamparo do coração, sem em
nada buscar-se a si mesmo, nem atender ao seu próprio
merecimento. Que maravilha será estares alegre e
devoto, quando te assiste a graça! De todos é almejada esta
hora. E mui suave andar, levado pela graça de Deus. E que
maravilha não sentir a carga aquele que é sustentado pelo
Onipotente e acompanhado do guia supremo!
2.
Gostamos de ter qualquer consolação, e é penoso ao
homem despojar-se de si mesmo. O glorioso mártir São
Lourenço venceu o mundo em união com seu pai espiritual,
porque desprezou todos os atrativos do século e sofreu com
paciência, por amor de Cristo, que o separassem do Supremo
Pontífice São Xisto a quem ele muito amava! Assim, com
a amor de Deus, ele subjugou o amor da criatura, e ao alívio
humano preferiu o beneplácito divino. Daí aprende tu a
deixar, às vezes, por amor de Deus, um parente ou amigo
querido. Nem tanto te aflijas se te abandonar algum
amigo, sabendo que todos, finalmente, nos havemos de separar
uns dos outros.
3.
Só com renhido e longo combate interior aprende o
homem a dominar-se plenamente e pôr em Deus todo o seu
afeto. Quando o homem confia em si, facilmente
desliza nas consolações humanas. Mas o verdadeiro amigo de
Cristo e fervoroso imitador de suas virtudes não se inclina
às consolações nem busca tais doçuras sensíveis;
antes, procura exercícios austeros e sofre por Cristo
trabalhos penosos.
4.
Quando, pois, Deus te mandar consolação espiritual,
recebe-a com ações de graças, mas lembra-te sempre que é
mercê de Deus, e não merecimento teu. Com isto,
porém, não te desvaneças, nem te entregues a excessiva
alegria ou a vã presunção; sê antes mais humilde pelo
dom recebido, mais prudente e timorato em tuas ações, pois
passará aquela hora e voltará a tentação.
Quando te for tirada a consolação, não desesperes logo,
aguarda, pelo contrário, com humildade e paciência, a visita
celestial; pois Deus é bastante poderoso para restituir-te
maior graça e consolação. Isto não é novo nem
estranho aos que são experientes nos caminhos de Deus;
porque nos grandes santos e antigos profetas houve muitas
vezes esta mudança.
5.
Por isso um deles, sentindo a presença da graça, exclamava:
Eu disse em minha abundância: não serei abalado jamais
(Sl 29,7-18). Sentindo, porém, retirar-se a graça,
acrescenta: Desviastes de mim, Senhor, o vosso rosto,
e fiquei perturbado (v.8). Entretanto não desespera,
mas com mais instância roga ao Senhor, e diz: A vós,
Senhor, clamarei, e ao meu Deus rogarei (v.9).
Alcança, afinal, o fruto de sua oração e atesta ter sido
atendido, dizendo: Ouviu-me o Senhor, e compadeceu-se
de mim, o Senhor se fez meu protetor (v.11). Mas em
quê? Convertestes, diz ele, meu pranto em gozo, e me
cercastes de alegria (v.12). Se isto sucedeu aos
grandes santos, não devemos desesperar nós outros, fracos e
pobres, por nos sentirmos umas vezes com fervor, outras
vezes com frieza porque vai e vem o espírito de Deus,
segundo lhe apraz. Por isso diz o santo Jó: Senhor,
visitais o homem na madrugada, e logo o provais
(7,18).
6.
Em que posso, pois, esperar ou em que devo confiar,
senão na grande misericórdia de Deus e na esperança da graça
celestial? Porque, ou me assistem homens justos,
irmãos devotos e amigos fiéis, ou livros santos e formosos
tratados, ou cânticos e hinos suaves, tudo isso de pouco me
serve e pouco me agrada, quando estou desamparado da graça e
entregue à minha própria pobreza. Não há então melhor
remédio que Deus.
7.
Nunca encontrei homem tão religioso e devoto, que não
sofresse, às vezes, a subtração da graça e sentisse o
arrefecimento do fervor. Nenhum santo foi tão altamente
arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não fosse
tentado. Porque não é digno da alta contemplação de
Deus quem por Deus não sofreu alguma tribulação.
Costuma vir primeiro a tentação, como sinal precursor da
próxima consolação; porque aos provados pela tentação é
prometido o celeste consolo. A quem tiver vencido, diz o
Senhor, darei a comer o fruto da árvore da vida (Ap
2,7).
8.
Dá Deus a consolação, para fortalecer o homem contra
as adversidades. Segue-se então a tentação, para que
não se desvaneça a felicidade. O demônio não dorme, nem a
carne já está morta; por isso, não cesses nunca de
aparelhar-te para a peleja, porque à direita e à esquerda
estão teus inimigos que nunca descansam.
Do agradecimento pela graça de Deus
1.
Para que buscas repouso se nascestes para o trabalho?
Dispõe-te mais à paciência que à consolação, mais para levar
a cruz que para ter alegria. Quem dentre os mundanos
não aceitaria de bom gosto a consolação e a alegria
espiritual, se a pudesse ter sempre ao seu dispor? As
consolações espirituais excedem todas as delícias do mundo e
todos os deleites da carne. Pois todas as delícias
do mundo ou são vãs ou torpes, e só as do espírito são
suaves e honestas, nascidas que são das virtudes e
infundidas por Deus nas almas puras. Mas ninguém pode
lograr estas divinas consolações à medida de seu desejo,
porque não cessa por muito tempo a guerra da tentação.
2.
Grande obstáculo às visitas celestiais é a falsa liberdade
do espírito e a demasiada confiança em si mesmo. Deus
faz bem dando-nos a graça da consolação; mas o homem faz mal
não retribuindo tudo a Deus, com ação de graças. E
se não se nos infundem os dons da graça, é porque somos
ingratos ao Autor, não atribuindo tudo à fonte original.
Pois sempre Deus concede a graça a quem dignamente se
mostra agradecido e tira ao soberbo o que costuma dar ao
humilde.
3.
Não quero consolação que me tire a compunção, nem desejo
contemplação que me seduz ao desvanecimento; porque nem tudo
que é sublime é santo, nem tudo que é agradável é bom, nem
todo desejo é puro, nem tudo que nos deleita agrada a Deus.
De boa mente aceito a graça, que me faz humilde e timorato e
me dispõe melhor para renunciar a mim mesmo. O homem
instruído pela graça e experimentado com sua subtração não
ousará atribuir-se bem algum, antes reconhecerá sua pobreza
e nudez. Dá a Deus o que é de Deus, e atribui a ti o
que é teu; isto é, dá graças a Deus pela graça, e só a ti
atribui a culpa e a pena que a culpa merece.
4.
Põe-te sempre no ínfimo lugar, e dar-te-ão o supremo,
porque o mais alto não existe sem o apoio do inferior. Os
maiores santos diante de Deus são os que se julgam menores,
e quanto mais glorioso, tanto mais humildes são no seu
conceito. Como estão cheios de verdade e glória
celestial, não cobiçam a glória vã. Em Deus fundados e
firmados, nada os pode ensoberbecer. Atribuindo a Deus
todo o bem que receberam, não pretendem a glória uns dos
outros; só querem a glória que procede de Deus; seu único
fim, seu desejo constante é que ele seja louvado neles e em
todos os santos, acima de todas as coisas.
5.
Agradece, pois, os menores benefícios e maiores
merecerás. Considera como muito o pouco, e o menor
dom por dádiva singular. Se considerarmos a grandeza do
benfeitor, não há dom pequeno ou de pouco valor; porque não
pode ser pequena a dádiva que nos vem do soberano Senhor.
Ainda quando nos der penas e castigos, Lho devemos
agradecer, porque sempre é para nossa salvação quanto
permite que nos suceda. Se desejares a graça de
Deus, sê agradecido quando a recebes e paciente quando a
perdes. Roga que ela volte, anda cauteloso e humilde, para
não vires a perdê-la.
Quão poucos são os que amam a cruz de Jesus
1.
Muitos encontram Jesus agora apreciadores de seu reino
celestial; mas poucos que queiram levar a sua cruz.
Tem muitos sequiosos de consolação, mas poucos da
tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de
sua abstinência. Todos querem gozar com ele,
poucos sofrer por ele alguma coisa. Muitos
seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o
cálice da paixão. Muitos veneram seus milagres, mas poucos
abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus, enquanto
não encontram adversidades. Muitos O louvam e bendizem,
enquanto recebem dEle algumas consolações; se, porém, Jesus
se oculta e por um pouco os deixa, caem logo em queixumes e
desânimo excessivo.
2.
Aqueles, porém, que amam a Jesus por Jesus mesmo e não
por própria satisfação, tanto O louvam nas tribulações e
angústias, como na maior consolação. E posto que
nunca lhes fosse dada a consolação, sempre O louvariam e Lhe
dariam graças.
3.
Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de
interesse ou amor-próprio! Não são porventura mercenários os
que andam sempre em busca de consolações? Não se amam mais a
si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus
cômodos e interesses? Onde se achará quem queira
servir desinteressadamente a Deus?
4.
É raro achar um homem tão espiritual que esteja
desapegado de tudo. Pois o verdadeiro pobre de espírito e
desprendido de toda criatura - quem o descobrirá? Tesouro
precioso que é necessário buscar nos confins do mundo
(Pr 31,10). Se o homem der toda a fortuna, não é nada. E se
fizer grande penitência, ainda é pouco. Compreenda embora
todas as ciências, ainda estão muito longe. E se tiver
grande virtude de devoção ardente, muito ainda lhe falta, a
saber: uma coisa que lhe é sumamente necessária. Que coisa
será esta? Que, deixado tudo, se deixa a si mesmo e saia
totalmente de si, sem reservar amor-próprio algum, e, depois
de feito tudo que soube fazer, reconheça que nada fez.
5.
Não tenha em grande conta o pouco que nele possa ser
avaliado por grande: antes, confesse sinceramente que
é um servo inútil, como nos ensina a Verdade.
Quando tiverdes cumprido tudo que vos for mandado, dizei:
Somos servos inúteis (Lc 17,10). Então, sim, o homem
poderá chamar-se verdadeiramente pobre de espírito e dizer
com o profeta: Sou pobre e só neste mundo (Sl
24,16). Entretanto, ninguém é mais poderoso, ninguém
mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as
coisas e colocar-se no último lugar.
Da estrada real da santa cruz
1.
A muitos parece dura esta palavra: Renuncia a ti
mesmo, toma a tua cruz e segue a Jesus Cristo (Mt
16,24). Muito mais duro, porém, será de ouvir aquela
sentença final: Apartai-vos de mim, malditos, para o
fogo eterno (Mt 25,41). Pois os que agora ouvem e
seguem, docilmente, a palavra da cruz não recearão então a
sentença da eterna condenação. Este sinal da cruz
estará no céu, quando o Senhor vier para julgar. Então todos
os servos da cruz, que em vida se conformam com Cristo
crucificado, com grande confiança chegar-se-ão a Cristo
juiz.
2.
Por que temes, pois, tomar a cruz, pela qual se
caminha ao reino do céu? Na cruz está a salvação, na cruz a
vida, na cruz o amparo contra os inimigos, na cruz a
abundância da suavidade divina, na cruz a fortaleza do
coração, na cruz o compêndio das virtudes, na cruz a
perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem
esperança da vida, senão na cruz. Toma, pois, a tua
cruz, segue a Jesus e entrarás na vida eterna. O Senhor foi
adiante, com a cruz às costas, e nela morreu por teu amor,
para que tu também leves a tua cruz e nela desejes morrer.
Porquanto, se com ele morreres, também com ele viverás. E,
se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória.
3.
Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer
para si mesmo está tudo; não há outro caminho para a vida e
para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa
cruz e da contínua mortificação. Vai para onde
quiseres, procura quanto quiseres, e não acharás caminho
mais sublime em cima nem mais seguro embaixo que o caminho
da santa cruz. Dispõe e ordena tudo conforme teu desejo e
parecer, e verás que sempre hás de sofrer alguma coisa, bom
ou mau grado teu; o que quer dizer que sempre haverás de
encontrar a cruz. Ou sentirás dores no corpo, ou tribulações
no espírito.
4.
Ora serás desamparado de Deus, ora perseguido do
próximo, e o que é pior não raro serás molesto a ti mesmo. E
não haverá remédio e nem conforto que te possa livrar ou
aliviar; cumpre que sofras quanto tempo Deus quiser.
Pois Deus quer ensinar-te a sofrer a tribulação sem
alívio, para que de todo te submetas a ele e mais humilde te
faças pela tribulação. Ninguém sente tão vivamente a paixão
de Cristo como quem passou por semelhantes sofrimentos.
A
cruz, pois, está sempre preparada e em qualquer lugar te
espera. Não lhe podes fugir, para onde quer que te voltes,
pois em qualquer lugar a que fores, te levarás contigo e
sempre encontrarás a ti mesmo. Volta-te para cima ou para
baixo, volta-te para fora ou para dentro, em toda parte
acharás a cruz; e é necessário que sempre tenhas paciência,
se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.
5.
Se levares a cruz de boa vontade, ela te há de levar e
conduzir ao termo desejado, onde acaba o sofrimento, posto
que não seja neste mundo. Se a levares de má vontade,
aumenta-lhe o peso e fardo maior te impões; contudo é
forçoso que a leves. Se rejeitares uma cruz, sem
dúvida acharás outra, talvez mais pesada.
6.
Pensas tu escapar àquilo de que nenhum mortal pôde
eximir-se? Que santo houve no mundo sem tribulação? Nem
Jesus Cristo, Senhor Nosso, esteve uma hora, em toda a sua
vida, sem dor e sofrimento. Convinha, disse ele, que Cristo
sofresse e ressurgisse dos mortos, e assim entrasse na sua
glória (Lc 24,26). Como, pois, buscas tu outro
caminho que não seja o caminho real da santa cruz?
7.
Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio; e tu
procuras só descanso e gozo? Andas errado, e muito
errado, se outra coisa procuras e não sofrimentos e
tribulações; pois toda esta vida mortal está cheia de
misérias e assinalada de cruzes. E quanto mais uma
pessoa faz progressos na vida espiritual, tanto maiores
cruzes encontra, muitas vezes, porque o amor lhe torna o
exílio mais doloroso.
8.
Mas, apesar de tantas aflições, o homem não está sem o
alívio da consolação, porque sente o grande fruto que lhe
advém à alma pelo sofrimento da cruz. Pois, quando
de bom grado a toma às costas, todo o peso da tribulação se
lhe converte em confiança na divina consolação. E
quanto mais a carne é cruciada pela aflição, tanto mais se
fortalece o espírito pela graça interior. E, às
vezes, tanto se fortalece, pelo amor das penas e tribulações
que, para conformar-se com a cruz de Cristo, não quisera
estar sem dores e sofrimentos, pois julga ser tanto mais
aceito a Deus, quanto mais e maiores males sofre por seu
amor. Não é isto virtude humana, mas graça de Cristo, que
tanto pode e realiza na carne frágil, que o espírito com
ardor abraça e ama o que a natureza aborrece e foge.
Não é conforme à inclinação humana levar a cruz, amar a
cruz, castigar o corpo e impor-lhe sujeição, fugir às
honras, aceitar as injúrias, desprezar-se a si mesmo e
desejar ser desprezado, suportar as aflições e desgraças e
não almejar prosperidade alguma neste mundo.
Se olhares somente a ti, reconheces que de nada disso és
capaz. Mas, se confiares em Deus, do céu te será concedida a
fortaleza, e sujeitar-se-ão ao teu mando o mundo e a carne.
Nem o infernal inimigo temerás, se andares escudado na
fé e armado com a cruz de Cristo.
9.
Portanto, como bom e fiel servo de Cristo, dispõe-te a levar
a cruz do teu Senhor, por teu amor crucificado. Prepara-te a
sofrer muitos contratempos e incômodos nesta vida miserável,
pois
em toda a parte, onde quer que estiveres, ou te esconderes,
os encontrarás. Convém que assim seja e não há outro
remédio contra a tribulação da dor e dos males senão
sofrê-los com paciência. Bebe, generoso, o
cálice do Senhor, se queres ser seu amigo e ter parte com
ele. Entrega a Deus as consolações, para ele dispor
delas como lhe aprouver. Tu, porém, dispõe-te a
suportar as tribulações e considera-as como as consolações
mais preciosas, porquanto não têm proporção as
penas do tempo com a glória futura (Rm 8,18) que
havemos de merecer, ainda que tu só as devesses sofrer
todas.
10.
Quando
chegares a tal ponto que a tribulação te seja doce e amável
por amor de Cristo, dá-te por feliz, pois achaste o paraíso
na terra.
Enquanto o padecer te é molesto e procuras fugir-lhe, andas
mal, e em toda parte te persegue o medo da tribulação. Se te
resolveres ao que deves, isto é, a padecer e morrer, logo te
sentirás melhor e acharás paz. Ainda que fosses
arrebatado, com S.Paulo, ao terceiro céu, nem por isso
estarias livre de sofrer alguma contrariedade. Eu, diz
Jesus, mostrar-lhes-ei quanto terá de sofrer por meu nome
(At 9,16). Não te resta, pois, senão sofrer se
pretendes amar e servir a Jesus para sempre.
Oxalá fosses digno de sofrer alguma coisa pelo nome de
Jesus! Que grande glória resultaria para ti, que alegria
para os santos de Deus, e que edificação para o próximo!
Pois todos recomendam a paciência, ainda que poucos queiram
praticá-la. Com razão devias padecer, de bom grado, este
pouco por amor de Cristo, quando muitos sofrem pelo mundo
coisas incomparavelmente maiores.
Fica sabendo e tem por certo que tua vida deve ser uma morte
contínua, e quanto mais cada um morre a si mesmo, tanto mais
começa a viver para Deus. Só é capaz de compreender as
coisas do céu quem por Cristo se resolve a sofrer toda
adversidade.
Nada neste mundo é mais agradável a Deus nem mais proveitoso
a ti, que o sofrer, de bom grado, por Cristo. E se te
dessem a escolha, antes deverias desejar sofrer adversidade,
por amor de Cristo, do que ser recreado com muitas
consolações porque assim serias mais conforme a Cristo, e
mais semelhante a todos os santos. Porquanto não
consiste nosso merecimento e progresso espiritual em ter
muitas doçuras e consolações, mas em sofrer grandes
angústias e tribulações.
Se houvera coisa melhor e mais proveitosa para a salvação
dos homens do que o padecer, Cristo, de certo, o teria
ensinado com palavras e exemplo.
Pois claramente exorta seus discípulos e quantos o desejam
seguir a que levem a cruz, dizendo: Quem quiser vir
após mim renuncie a si mesmo, tome sua cruz, e siga-me
(Lc 9,23). Seja, pois, de todas as lições e estudos este
o resultado final: Cumpre-nos passar por muitas
tribulações, para entrar no reino de Deus (At
14,21).
Da comunicação íntima de Cristo com a alma fiel
1.
Ouvirei o que em mim disser o Senhor meu Deus
(Sl 84,9). Bem-aventurada a alma que ouve em si a voz
do Senhor e recebe de seus lábios palavras de consolação!
Benditos os ouvidos que percebem o sopro do divino sussurro
e nenhuma atenção prestam às sugestões do mundo!
Bem-aventurados, sim, os ouvidos que não atendem às vozes
que atroam lá fora, mas à Verdade que os ensina lá dentro!
Bem-aventurados os olhos que estão fechados para as coisas
exteriores e abertos para as interiores! Bem-aventurados
aqueles que penetram as coisas interiores e se empenham, com
exercícios contínuos de piedade, em compreender, cada vez
melhor, os celestes arcanos. Bem aventurados os que com
gosto se entregam a Deus e se desembaraçam de todos os
empenhos do mundo.
Considera bem isso, ó minha alma, e fecha as portas dos
sentidos, para que possas ouvir o que em ti falar o Senhor
teu Deus. Eis o que te diz o teu Amado:
2.
Eu sou tua salvação, tua paz e tua vida. Fica comigo e
acharás paz. Deixa todas as coisas transitórias e busca as
eternas. Que é todo o temporal, senão engano
sedutor? E de que te servem todas as criaturas, se o Criador
te abandonar? Renuncia, pois, a tudo, entrega-te dócil
e fiel a teu Criador, para que possas alcançar a verdadeira
felicidade.
Que a verdade fala dentro de nós,
sem estrépito de palavras
1.
Falai, Senhor, que o vosso servo escuta: Vosso servo
sou eu, dai-me inteligência para que conheça os vossos
ensinamentos. Inclinai meu coração às palavras de vossa
boca; nele penetre, qual orvalho, vosso discurso
(1Rs 3,10; Sl 118,36; Sl 118,125; Dt 32,2).
Diziam, outrora, os filhos de Israel a Moisés:
Fala-nos tu e te ouviremos; não nos fale o Senhor, para que
não morramos (Ex 20,19). Não assim, Senhor, não
assim, vos rogo eu; antes, como o profeta Samuel, humilde e
ansioso, vos suplico: Falai, Senhor, que o vosso servo
escuta. Não fale Moisés, nem algum dos profetas, mas
falai-me de vós, Senhor, Deus, que inspirastes e iluminastes
todos os profetas, porque vós podeis, sem eles, me ensinar
perfeitamente, ao passo que eles, sem vós, de nada me
serviriam.
2.
Podem muito bem proferir palavras, mas não conseguem dar o
espírito; falam com muita elegância, mas, se vós vos calais,
não inflamam o coração. Ensinam a letra; vós, porém,
explicais o sentido. Propõem os mistérios, mas vós descobris
a significação das figuras. Proclamam os mandamentos, mas
vós ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho, mas vós dais
força para segui-lo. Eles regam a superfície, mas vós dais a
fecundidade. Eles clamam com palavras, mas vós dais a
inteligência ao ouvido.
3.
Não me
fale, pois, Moisés, mas vós, Senhor meu Deus, Verdade
eterna, para que não morra sem ter alcançado fruto algum, se
só for admoestado por fora e não abrasado interiormente; e
não seja minha condenação a palavra ouvida e não praticada,
conhecida e não amada, criada e não observada. - Falai,
pois, Senhor, que o vosso servo escuta; porque possuís
palavras de vida eterna
(1Rs 3,10; Jo 6,69). Falai-me para consolação de minha alma
e emenda de minha vida, também para louvor, glória e
perpétua honra vossa.
Como as palavras de Deus devem ser ouvidas com humildade e
como muitos não as ponderam.
1.
Jesus: Ouve, filho, as minhas palavras, palavras
suavíssimas que excedem toda a ciência dos filósofos e
sábios deste mundo. As minhas palavras são espírito e vida
(Jo 6,64), e não se devem interpretar humanamente.
Não devem ser abusadas para vã complacência, mas devem
ser ouvidas em silêncio e recebidas com máxima humildade e
grande afeto.
2.
A alma: E disse eu: Bem-aventurado o homem a quem
instruís, Senhor, e lhe ensinais a vossa lei, para
suavizar-lhe os dias maus e dar-lhe consolo neste mundo
(Sl 93,12-13).
3.
Jesus: Eu, diz o Senhor, desde o princípio ensinei aos
profetas e ainda agora não cesso de falar a todos; mas
muitos são insensíveis e surdos à minha voz. A muitos agrada
mais a voz do mundo que a de Deus; mais facilmente seguem os
apetites da carne que o preceito divino. O mundo promete
apenas coisas temporais e mesquinhas e é servido com grande
ardor; eu prometo bens sublimes e eternos, e só encontro
frieza nos corações dos mortais. Quem há que me sirva e
obedeça em tudo com tanto empenho como se serve ao mundo e
aos seus senhores?
Envergonha-te, Sidon, diz o mar
(Is 23,4). E se queres saber por que, ouve o motivo: Por um
pequeno salário se empreendem grandes viagens, e pela vida
eterna muitos nem dão um passo sequer. Busca-se o lucro vil;
por um vintém, às vezes, há torpes brigas; por uma ninharia
e promessa mesquinha não se teme a fadiga, nem de dia, nem
de noite. Mas que vergonha! Pelo bem imutável, pelo
prêmio inestimável, para honra suprema e pela glória sem
fim, o menor esforço nos cansa.
Envergonha-te, pois, servo preguiçoso e murmurador, por
serem os mundanos mais solícitos para a perdição que tu para
a salvação. Procuram eles com mais gosto a vaidade que tu a
verdade. Entretanto, não raro, sua esperança os engana;
mas minha promessa a ninguém falta, nem despede com as
mãos vazias ao que em mim confia. Darei o que
prometi, cumprirei o que disse, contanto que se persevere
fiel no meu amor até ao fim. Eu sou quem remunera todos os
bons e sujeita a provas duras todos os devotos.
Grava minhas palavras em teu coração e medita-as
atentamente, porque te serão muito necessárias na hora da
tentação.
Coisas que agora não entendes quando lês, entenderás quando
eu te visitar. De dois modos costumo visitar meus
eleitos: pela tentação e pela consolação. E duas
lições lhes dou cada dia: numa repreendo-lhes os
vícios e noutra exorto-os ao progresso na virtude. Quem ouve
a minha palavra e a despreza, por ela será julgado no último
dia.
Oração para implorar a graça da devoção
4.
A alma: Meu Senhor e meu Deus! Vós sois todo o meu bem. E
quem sou eu para me atrever a falar-vos? Eu sou vosso
paupérrimo servo, um vil vermezinho, muito mais pobre e
desprezível do que sei e ouso dizer. Lembrai-vos,
Senhor, de que sois bom, justo e santo; vós tudo podeis,
tudo dais, tudo encheis, e só ao pecador deixais vazio.
Lembrai-vos de vossas misericórdias (Sl 24,6) e
enchei meu coração com a vossa graça, pois não quereis que
sejam infrutuosas vossas obras.
5.
Como poderei eu, nesta miserável vida, suportar-me a mim
mesmo, se não me confortar vossa graça e misericórdia?
Não desvieis de mim a vossa face, não demoreis a vossa
visita, não me tireis o vosso consolo, para que não fique a
minha alma diante de vós qual terra sem água (Sl142,
6). Ensinai-me, Senhor, a fazer vossa vontade
(Sl 142, 10), ensinai-me a andar em vossa presença,
digna e humildemente; pois vós sois minha sabedoria, que em
verdade me conheceis antes de ser feito o mundo, e antes de
eu nascer na terra.
Como devemos andar perante Deus em verdade e humildade?
1.
Jesus: Filho, anda diante de mim em
verdade e procura-me sempre com simplicidade de coração.
Quem anda diante de mim na verdade será defendido dos
ataques inimigos, e a verdade o livrará dos enganos e das
murmurações dos maus. Se te libertar a verdade, serás
verdadeiramente livre e não farás caso das vãs palavras dos
homens.
2.
A alma: Verdade é, Senhor, o que dizeis; peço-vos que
assim se faça comigo. A vossa verdade me ensine, me
defenda e me conserve até meu fim salutar. Ela me livre de
toda má afeição e amor desregrado e assim poderei andar
convosco, com grande liberdade de coração.
3.
Jesus: Eu te ensinarei, diz a Verdade, o que é justo e
agradável a meus olhos. Relembra teus pecados com grande dor
e pesar e jamais te desvaneças por tuas boas obras. Com
efeito, és pecador, sujeito a muitas paixões e preso em seus
laços. De ti pendes sempre para o nada;
depressa cais, logo és vencido, logo perturbado, logo
desanimado. Nada tens de que possas gloriar-te; muito,
porém, para te humilhar; pois és muito mais fraco do que
podes imaginar.
4.
Nada, pois, do que fazes te pareça grande, nada
precioso e admirável, nada digno de apreço, nada nobre, nada
verdadeiramente louvável e desejável, senão o que é eterno.
Acima de tudo te agrade a eterna verdade, e te desagrade a
tua extrema vileza. Nada temas, nada vituperes
e fujas tanto como os teus vícios de pecados, que te devem
entristecer mais do que quaisquer prejuízos materiais.
Alguns não andam diante de mim com simplicidade, mas,
curiosos e arrogantes, pretendem saber meus segredos e
compreender os sublimes mistérios de Deus, descurando-se de
si próprios e de sua salvação. Estes, por sua soberba e
curiosidade, não raro caem em grandes tentações e pecados,
porque me afasto deles.
5.
Teme os juízos de Deus, treme da ira do Onipotente.
Não queiras discutir as obras do Altíssimo; examina antes as
tuas iniqüidades, quanto mal cometestes e quanto bem
deixastes de fazer por negligência. Alguns põem toda a sua
devoção nos livros, outros nas imagens, outros em sinais e
exercícios exteriores. Alguns me trazem na boca, mas mui
pouco no coração.
Outros há, porém, que, alumiados no entendimento e
purificados no afeto, sempre suspiram pelos bens eternos;
não gostam de ouvir das coisas da terra e com repugnância
satisfazem as exigências da natureza; estes percebem o que
lhe diz o Espírito da Verdade. Pois lhes ensina a desprezar
as coisas terrenas e amar as celestiais, a esquecer o mundo
e almejar o céu dia e noite.
Dos admiráveis efeitos do amor divino
1.
A alma: Bendigo-vos, Pai celestial, Pai de meu Senhor
Jesus Cristo, por vos terdes dignado lembrar-vos de mim,
pobre criatura. Ó Pai de misericórdia e Deus de toda
consolação! (2Cor
1,3), graças vos dou porque,
apesar de minha indignidade, me recreais às vezes com vossa
consolação. Sede para sempre bendito e glorificado,
com vosso Filho unigênito e o Espírito Santo consolador, por
todos os séculos. Ah! Senhor Deus, santo amigo de minha
alma, tanto que entrais em meu coração, exulta de alegria o
meu interior. Vós sois a minha glória e o júbilo de
meu coração; vós sois a minha esperança e meu refúgio no dia
da tribulação.
2.
Mas, como ainda sou fraco no amor e imperfeito na
virtude, necessito ser consolado e confortado por vós; por
isso visitai-me mais vezes e instruí-me com santas
doutrinas. Livrai-me das más paixões e curai meu
coração de todos os afetos desordenados, para que eu, sanado
e purificado interiormente, seja apto para amar, forte
para sofrer e constante para perseverar.
3.
Jesus: Grande coisa é o amor! E um bem verdadeiramente
inestimável que por si só torna suave o que é difícil e
suporta sereno toda a adversidade. Porque leva a carga sem
lhe sentir o peso e torna o amargo doce e saboroso. O amor
de Jesus é generoso, inspira grandes ações e nos excita
sempre à mais alta perfeição. O amor tende sempre para as
alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores. O
amor deseja ser livre e isento de todo apego mundano, para
não ser impedido no seu afeto íntimo nem se embaraçar com
algum incômodo. Nada mais doce do que o amor, nada mais
forte, nada mais delicioso, nada mais perfeito ou melhor no
céu e na terra; porque o amor procede de Deus, e em Deus só
pode descansar, acima de todas as criaturas.
4.
Quem ama, voa, corre, vive alegre, é livre e sem
embaraço. Dá tudo por tudo e possui tudo em
todas as coisas, porque sobre todas as coisas descansa no
Sumo Bem, do qual dimanam e procedem todos os bens. Não olha
para as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens até
Àquele que os concede. O amor muitas vezes não
conhece limites, mas seu ardor excede a toda medida. O amor
não sente peso, não faz caso das fadigas e quer empreender
mais do que pode; não se escusa com a impossibilidade, pois
tudo lhe parece lícito e possível. Por isso de tudo é capaz
e realiza obras, enquanto o que não ama desfalece e cai.
5.
O amor vigia sempre, e até no sono não dorme.
Nenhuma fadiga o cansam nenhuma angústia o aflige,
nenhum temor o assusta, mas qual viva chama a ardente
labareda irrompe para o alto e passa avante. Só quem ama
compreende o que é amar. Bem alto soa aos ouvidos de Deus o
afeto da alma que diz: Meu Deus, meu amor! Vós sois todo
meu, e eu todo vosso!
A alma: Dilatai-me o amor, para que possa, no âmago do
coração, saborear quão doce é amar, no amor desmanchar-me e
nadar. Prenda-me o amor, e eleve-me acima de mim, num
transporte de fervor excessivo. Cante eu o cântico do amor,
siga-vos ao alto, ó meu Amado, desfaleça minha alma no nosso
louvor, no júbilo do amor. Amar-vos quero mais que a mim, e
a mim só por amor de vós, e em vós a todos que deveras vos
amam, conforme ordena a lei do amor que de vós dimana.
O amor é pronto, sincero, piedoso, alegre e amável; forte,
sofredor, fiel, prudente, longânime, viril e nunca busca a
si mesmo. Pois, logo que alguém procura a si mesmo, perde o
amor. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é frouxo,
não é leviano, nem cuida de coisas vãs; é sóbrio, casto,
constante, quieto, recatado em todos os seus sentidos. O
amor é submisso e obediente aos superiores, mas aos próprios
olhos é vil e desprezível; devoto e agradecido para com
Deus, confia e espera sempre nele, ainda quando está
desconsolado, porque no amor não se vive sem dor.
Quem não está disposto a sofrer tudo e fazer a vontade do
Amado não é digno de ser chamado amante. Àquele que ama
cumpre abraçar por seu Amado, de boa vontade, tudo o que for
duro e amargo e dele não se apartar por nenhuma
contrariedade.
Da prova do verdadeiro amor
1.
Jesus: Filho, não és ainda forte nem prudente no amor.
- A alma: Por que, Senhor?
- Jesus: Porque por qualquer contrariedade deixas o começado
e com ânsia excessiva procuras a consolação. O homem forte
no amor permanece firme nas tentações e não dá crédito às
astuciosas sugestões do inimigo. Assim como lhe agrado na
prosperidade, não lhe desagrado nas tribulações.
2.
Quem ama discretamente não considera tanto a dádiva de
quem ama, como o amor de quem dá. Atende mais à intenção que
ao valor do dom, e a todas as dádivas estima menos que o
Amado. Quem ama nobremente não repousa no dom, mas em mim
acima de todos os dons. Nem tudo está perdido, se sentires,
às vezes, menos devoção, a mim ou meus santos, do que
desejaras. Aquele sentimento terno e doce que experimentas,
às vezes, é efeito da graça presente, um como que antegosto
da pátria celestial; nele não te deves firmar muito,
porquanto vai e vem. Mas pelejar contra os maus movimentos
do coração e desprezar as sugestões do demônio é sinal de
virtude e grande merecimento.
3.
Não te perturbem, pois, estranhas imaginações,
oriundas de matéria qualquer. Guarda firme teu propósito, e
tua reta intenção fixa em Deus. Não é ilusão o seres, alguma
vez, subitamente arrebatado em êxtase, e logo depois caíres
de novo nos costumados desvarios do coração. Porque mais os
padeces contra a vontade do que és causa deles, e enquanto
te desagradarem e os repelires, serão para ti ocasião de
merecimento e não de perdição.
4.
Fica sabendo que o antigo inimigo de todos os modos se
esforça por impedir-te os bons desejos e apartar-te de todos
os exercícios devotos, nomeadamente da veneração dos santos,
da devota memória de minha paixão, da salutar lembrança dos
pecados, da vigilância sobre o próprio coração e do firme
propósito de aproveitar na virtude. Sugere-te muitos maus
pensamentos para te causar tédio e horror e arredar-te da
oração e leitura espiritual. Desagrada-lhe muito a confissão
humilde e, se pudesse, far-te-ia abandonar a comunhão. Não
lhes dês crédito, nem faças caso dele, posto que muitas
vezes te arme laços e enganos. Leva à sua conta os
pensamentos maus e desonestos que te sugere.
Dize-lhe: Retira-te, espírito imundo, desgraçado,
sem-vergonha; muito perverso deves ser para me insinuares
tais coisas! Vai-te daqui, malvado sedutor, não terás em mim
parte alguma, que Jesus estará comigo, qual guerreiro
invencível, e tu ficarás confundido. Antes quero morrer e
sofrer todos os tormentos, que te fazer a vontade; cala-te e
emudece; não te escutarei, por mais que me molestes. O
Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei.
Levante-se embora contra mim um exército, não temerá meu
coração. O Senhor é meu socorro e meu Salvador
(Sl
26, 1-6; Sl 18,17).
5.
Peleja como bom soldado e, se alguma vez caíres por
fraqueza, torna a cobrar maiores forças que as anteriores,
tendo certeza que receberás mais copiosa graça; acautela-te,
porém, muito contra a vã complacência e a soberba. Por falta
desta vigilância andam muitos enganados e caem, às vezes, em
cegueira incurável. A ruína destes soberbos, que loucamente
presumem de si próprios, sirva-te de cautela e te conserve
na virtude da humildade.
Como se há de ocultar a graça
sob a guarda da humildade
1.
Jesus: Filho, muito útil e seguro te é encobrir a
graça da devoção, sem te desvanceceres ou te preocupares
muito com ela; convindo antes desprezar-te a ti mesmo e
temer que não sejas digno da graça recebida. Importa não
estares muito apegado a tais sentimentos, que bem depressa
podem mudar-se nos contrários. Com a graça presente, pondera
quão miserável e pobre és sem ela. O progresso na vida
espiritual não consiste tanto em teres a graça da
consolação, mas em suporta-lhe com humildade, abnegação e
paciência a privação, de sorte que então não afrouxes no
exercício da oração, nem deixes de todo as demais boas obras
que costumas praticar. Antes faze tudo de boa vontade, como
melhor puderes e entenderes, nem te descuides totalmente de
ti por causa das securas e ansiedades espirituais.
2.
Muitos há que se deixam levar pela impaciência e pelo
desalento, logo que as coisas não correm como desejam. Pois
nem sempre está nas mãos do homem o seu caminho (Jr
10,23), mas a Deus pertence
consolar e dar a graça quando quiser, e quanto quiser, a
quem quiser, tudo como lhe apraz, nem mais nem menos.
Perderam-se alguns imprudentes por causa da graça da
devoção, porque quiseram fazer mais do que podiam, não
ponderando a fraqueza das suas forças e seguindo mais o
impulso do coração que os ditames da razão.
E porque presumiram de si coisas bem depressa perderam a
graça. Caíram maiores do que Deus havia determinado, na
pobreza e no abatimento os que pretendiam pôr seu ninho no
céu, para assim, humilhados e empobrecidos, aprenderem a não
voar com suas próprias asas, mas a esperar à sombra das
minhas.
Os novos e principiantes no caminho do Senhor
facilmente se podem enganar e perder, se não se aconselharem
com homens experientes.
3.
Estes, se quiserem antes seguir seu próprio parecer,
que confiar no conselho de pessoas experimentadas, põem em
grande risco sua salvação, se continuarem aferrados à sua
opinião. Os que se têm por sábios raro se
deixam dirigir pelos outros. É melhor saber e
entender pouco, humildemente, que possuir tesouros de
ciência e presumir de si. Melhor te é ter menos do que
muito, se com o muito te vem o orgulho. Não é bastante
prudente quem se entrega todo à alegria, esquecido da antiga
pobreza e do casto temor de Deus que sempre receia perder a
graça concedida. Nem tampouco muita virtude denota
entregar-se a nímio desânimo em tempo de adversidade e por
qualquer contratempo, sem pôr em mim a confiança devida.
4.
Quem se dá por muito seguro no tempo de paz, muitas
vezes se revela tímido e covarde em tempo de guerra. Se te
souberes conservar sempre humilde e pequeno no teu conceito,
e governar com moderação teu espírito, não cairás tão
depressa na tentação e no pecado. É de aconselhar,
quando sentes fervor de espírito, meditar no que será de ti,
retirando-se esta graça. E quando isto de fato
acontecer, pensa que a luz pode voltar, que ta tirei por
algum tempo, para tua cautela e minha glória.
5.
Tal provação, muitas vezes, te é mais proveitosa do
que se tudo te saísse à medida de teu desejo. Pois não se
devem avaliar os merecimentos do homem pelas muitas visões e
consolações, nem pela perícia nas Escrituras, nem pela
elevação do cargo. Mas, para conhecer o valor de
cada um, considera: se está fundamentado na verdadeira
humildade e vive cheio de amor de Deus; se sempre busca a
honra de Deus com pura e reta intenção; se se despreza a si
mesmo, nem faz caso algum de si, e se gosta mais de ser
desprezado e humilhado do que estimado pelos homens.
Da vil estima de si próprio ante os olhos de Deus
1.
A alma: Ao meu Senhor falarei, ainda que seja
pó e
cinza
(Gn
18,27). Se eu me tiver em maior conta, eis que vos ergueis
contra mim, e ao testemunho verdadeiro que dão meus pecados,
não posso contradizer. Mas se me tiver por vil e me
aniquilar, deixando toda a vã estima de mim mesmo,
e me reduzir a pó, que sou na verdade, ser-me-à propícia a
vossa graça, e a vossa luz há de vir em meu coração, e todo
sentimento de amor-próprio, por mínimo que seja, perder-se-á
no abismo do meu nada e perecerá para sempre. Ali me dais a
conhecer o que sou, o que fui, a que ponto cheguei; porque
sou nada - e não o sabia. Abandonado a mim mesmo, sou
um puro nada e a mesma fraqueza; tanto, porém, que lançais
um olhar sobre mim, logo me sinto forte e cheio de nova
alegria. E é grande maravilha que tão sabiamente me
levantais e tão benigno me abraçais, a mim, que pelo próprio
peso pendo sempre para a terra.
2.
Isto é obra do vosso amor, que me previne
gratuitamente, socorrendo-me em mil necessidades,
guardando-me de males, para bem dizer, infindos. Perdi-me,
amando-me desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente,
e amando com puro amor, a mim me achei e a vós também, e
este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada.
Porque vós, ó dulcíssimo Senhor, me tratais além do meu
merecimento, e mais do que ouso esperar ou pedir.
3.
Bendito sejais, meu Deus, pois conquanto eu seja
indigno de todo bem, ainda assim não cessa vossa
liberalidade e bondade infinita de fazer bem até aos
ingratos e aos que de vós andam apartados. Convertei-nos a
vós, para que sejamos gratos, humildes e devotos, pois vós
sois nossa salvação, nossa virtude e fortaleza.
Tudo se deve referir a Deus como ao fim último
1.
Jesus: Filho, eu devo ser o teu
supremo e último fim, se desejas ser verdadeiramente feliz.
Esta intenção purificará teu coração, tantas vezes apegado
desregradamente a si mesmo e às criaturas. Porque se em
alguma coisa te buscas a ti mesmo, logo desfaleces e
afrouxas. Refere, pois, tudo a mim, principalmente porque eu
sou quem te deu tudo. Considera todos os bens como dimanados
do Sumo Bem, e por isso refere tudo a mim como sua origem.
2.
De mim, como de fonte de vida, tiram água viva o
pequeno e o grande, o rico e o pobre, e os que me servem
voluntária e livremente receberão graça sobre graça. Mas
quem, fora de mim, quiser gloriar-se, ou deleitar-se em
algum bem particular, jamais poderá firmar-se na verdadeira
alegria, nem se lhe dilatará o coração, mas sempre andará
perturbado e angustiado de mil maneiras. Não te atribuas,
pois, bem algum, nem a pessoa alguma atribuas virtude, mas
refere tudo a Deus, sem o qual nada tem o homem. Eu dei
tudo, eu quero tudo reaver, e com estrito rigor exijo as
devidas ações de graças.
3.
É esta a verdade que afugenta toda a vanglória. E se
entrar em teu coração a graça
celestial e a verdadeira caridade, não sentirás mais inveja
alguma, nem aperto de coração, nem haverá mais lugar para o
amor-próprio. Porque tudo vence a divina caridade, e
multiplica as forças da alma. Se és verdadeiramente sábio,
só em mim te alegrarás e porás a tua confiança; porque
ninguém é bom senão Deus
(Mt 19,17), só Ele cumpre seja louvado e bendito em
tudo, acima de todas as coisas.
Como, desprezando o mundo, é doce servir a Deus.
1.
A alma: De novo, Senhor, vos falarei, e não me calarei;
direi aos ouvidos de meu Deus, meu Senhor e meu Rei, que
está nas alturas: Quão grande, Senhor, é a abundância
da doçura que reservastes aos que vos temem! (Sl
30,20). Mas que será para os que vos amam e de todo o
coração vos servem? É verdadeiramente inefável a doçura da
contemplação que concedeis aos que vos amam. Nisto
particularmente me manifestastes a doçura de vosso amor:
quando não era, vós me criastes e quando andava longe de
vós, perdido no erro, me reconduzistes a vos servir e me
destes o preceito de vos amar.
2.
Ó fonte perene de amor, que direi de vós? Como
poderia eu esquecer-me que vos dignastes lembrar-vos de mim,
ainda depois de depravado e perdido? Além de toda esperança,
usastes de misericórdia para com vosso servo, e acima de
todo mérito me prodigalizastes vossa graça e amizade. Com
que poderei agradecer-vos tal mercê? Porque nem a todos é
dado deixar tudo, renunciar ao mundo e abraçar a vida
religiosa.
Será porventura mérito que eu vos sirva, quando toda
criatura tem obrigação de vos servir? Não me deve parecer
grande coisa que eu vos sirva; antes devo considerar grande
e digno de admiração que vos digneis receber-me, pobre e
indigno como sou, em vosso serviço e associar-me aos vossos
servos prediletos.
3.
Vede, é vosso, Senhor, tudo que possuo e com que vos sirvo;
entretanto, mais me servis vós a mim, do que eu a vós. Aí
estão o céu e a terra, que criastes para uso do homem, e
estão atentos a vosso aceno, a fazer cada dia o que lhes
mandais. Mais ainda: os próprios anjos destinastes ao
serviço do homem. Mas, acima de tudo isso, vós mesmos vos
dignais servir ao homem, e prometestes ser a sua recompensa.
4.
Que vos darei eu por esses benefícios sem conta, Oh! se
pudera servir-vos todos os dias da minha vida! Se pudera,
ainda que um só dia, prestar-vos condigno serviço! Na
verdade, sois digno de todo serviço, de toda honra e glória
eterna. Vós sois verdadeiramente meu Senhor, eu vosso pobre
servidor, obrigado a servir-vos com todas as minhas forças,
sem me cansar jamais de vos dar louvores. Assim o quero,
assim o desejo: dignai-vos, Senhor, suprir o que me
falta.
5.
Grande honra e glória é servir-vos e desprezar tudo
por vosso amor. Porque copiosa graça alcançarão os que
livremente se sujeitam ao vosso santíssimo serviço.
Encontrarão suavíssima consolação do Espírito Santo os que
por vós desprezam todos os deleites carnais. Conseguirão
grande liberdade da alma os que por vosso nome entram na
vereda estreita e se apartam de todos os cuidados mundanos.
6.
Ó doce e amável servidão de Deus, que torna o homem
verdadeiramente livre e santo! Ó sagrada servidão do estado
religioso, que faz o homem igual aos anjos, agradável a
Deus, terrível aos demônios e recomendável a todos os fiéis!
Ó ditoso e nunca assaz desejado serviço, que nos mereceu o
Bem soberano e adquire o gozo que há de durar para sempre!
Como devemos examinar
e moderar os desejos do coração
1.
Jesus: Filho, muitas coisas deves ainda aprender, que
não sabes bem.
2.
A alma: Que coisas são estas, Senhor?
3.
Jesus: Que conformes completamente teu desejo a meu
beneplácito e não sejas amante de ti mesmo, mas zeloso
cumpridor de minha vontade.
Muitas vezes se inflamam teus desejos, e com veemência te
impelem; examina, porém, o que mais te move, se minha honra
ou teu próprio interesse. Se for eu o motivo, ficarás bem
contente, qualquer que seja o sucesso do empreendimento;
mas, se lá se ocultar algum interesse próprio, eis que isto
logo te embaraça e aflige. Guarda-te, pois, de confiar
demasiadamente em preconcebidos desejos que tens sem me
consultar, para que não suceda que te arrependas e te
desagrade o que primeiro te agradou e procuraste com zelo,
por te haver parecido melhor. Porém nem todo desejo que
pareça bom logo devemos seguir, nem tampouco a todo
sentimento contrário logo havemos de fugir. Convém, às
vezes, refrear mesmo os bons empenhos e desejos, para que as
preocupações não te distraiam o espírito; para que não dês
escândalo por falta de discrição; para que, enfim, não te
perturbe a resistência dos outros e desfaleças.
Outras vezes, ao contrário, é preciso usar de violência e
rebater varonilmente os apetites dos sentidos sem atender ao
que a carne quer ou não quer, mas trabalhando por sujeitá-la
ao espírito, ainda que se revolte. Cumpre castigá-la e
curvá-la à sujeição, a tal ponto, que esteja disposta para
tudo, sabendo contentar-se com pouco e deleitar-se com a
simplicidade, sem resmungar por qualquer incômodo.
Da escola da paciência e luta contra as concupiscências
1.
A alma: Deus e Senhor meu, pelo que vejo, a paciência
me é muito necessária; pois são muitas as contrariedades
desta vida. Por mais que se procure a paz, não há viver sem
combate e sofrimento.
2.
Jesus: Assim é, filho, e não quero que busques uma paz
isenta de tentações e contrariedades, mas que julgues ter
achado a paz, ainda quando fores molestado de muitas
atribulações e provado em muitas contrariedades. Se dizes
que não podes sofrer tanta coisa, como suportarás, então, o
purgatório? De dois males sempre se deve escolher o menor.
Para escapar dos suplícios futuros, trata de sofrer com
paciência os males presentes, por amor de Deus. Julgas,
acaso, que nada ou pouco sofrem os homens do mundo? Tal não
encontrarás, nem entre os mais regalados.
3.
Dirás, talvez, que eles têm muitos deleites e seguem a
sua própria vontade, e por isso pouco lhes pesa a
tribulação.
4.
Seja embora assim, e tenham eles quanto desejam, mas
quanto tempo achas que há de durar isso: Eis qual fumo se
desvanecerão os abastados do século, nem lembrança restará
de seus prazeres passados. E mesmo, enquanto vivem, não os
fruem sem amargura, tédio e temor. Porquanto do próprio
objeto de seus deleites muitas vezes lhes vem a dor que os
castiga. E é justo que assim lhes suceda que encontrem
amargura e confusão nos gozos que buscam e perseguem
desordenadamente.
5.
E quão breves, quão falsos, quão desordenados e torpes
são todos os deleites do mundo! Mas os homens, na embriaguez
e cegueira do espírito, não o compreendem; antes, como
irracionais, por um diminuto prazer, nesta vida corruptível,
dão a morte à sua alma. Tu, pois, filho, não sigas teus
apetites, renuncia à própria vontade
(Ecl
18,30); deleita-te no Senhor, e ele te dará o que teu
coração anela (Sl 36,4).
6.
Pois, se queres verdadeiras delícias e receber de mim
consolação abundante, despreza todas as coisas mundanas e
renuncia a todos os prazeres inferiores, e por recompensa
terás copiosa consolação. Quanto mais te apartares do prazer
que encontras nas criaturas, tanto mais suaves e eficazes
consolações em mim acharás. Não o conseguirás, a princípio,
sem alguma tristeza e trabalho na peleja, opor-se-á o
costume inveterado, mas será vencido por outro melhor.
Revoltar-se-á a carne, mas o fervor de espírito lhe porá
freio. Perseguir-te-á a serpente antiga e te molestará, mas
tu a afugentarás com a oração e, com o trabalho proveitoso,
lhe trancarás a principal entrada.
Da obediência e humilde sujeição,
a exemplo de Jesus Cristo
1.
Filho, quem procura subtrair-te à obediência aparta-se
também da graça; e quem procura favores particulares perde
os comuns. Aquele que não se sujeita pronta e de boa mente a
seu superior, mostra que sua carne não lhe obedece ainda
prontamente, mas muitas vezes se revolta e resmunga.
Aprende, pois, a sujeitar-te prontamente a teu superior, se
queres subjugar a própria carne, porque facilmente se vence
o inimigo exterior quando o homem interior não está
assolado. Pior inimigo e mais perigoso não tem a alma, que
tu mesmo, quando não obedeces ao espírito. Se queres vencer
a carne e o sangue, deves compenetrar-te do sincero e
absoluto desprezo de ti mesmo. Mas porque ainda te amas
desordenadamente, por isso te repugna sujeitar-te de todo à
vontade dos outros.
2.
Ora, que muito é que tu, que és pó e nada, te sujeites
a um homem, por amor de Deus, quando eu, o Todo-poderoso e
Altíssimo, que criei do nada todas as coisas, me sujeitei
humilde ao homem, por amor de ti? Fiz-me o mais humilde e o
último de todos para que venças, com a minha humildade, a
tua soberba. Aprende, pó, a obedecer; aprende, terra e limo,
a humilhar-te e curvar-te aos pés de todos. Aprende a
quebrantar tua vontade e a submeter-te a todos em tudo.
3.
Indigna-te contra ti mesmo; não toleres em ti
desvanecimento algum; mas torna-te tão humilde e submisso,
que todos te possam pisar e calcar aos pés, qual lama da
rua. Em que podes, vil pecador, contradizer os que te
repreendem, tu, que ofendeste a Deus tantas vezes e tantas
vezes mereceste o inferno? Pouparam-te, porém, meus olhos,
porque tua alma é preciosa diante de mim, para que conheças
meu amor e te conserves grato aos meus benefícios; para que
te dês continuamente à verdadeira sujeição e humildade,
sofrendo com paciência o desprezo dos outros.
Que se devem considerar os altos juízos de Deus, para não
nos desvanecermos na prosperidade.
1.
Trovejam sobre mim, Senhor, vossos juízos, temem e
tremem meus ossos abalados e minha alma fica de todo
espavorida. Estou assombrado ao considerar que nem os céus
são puros à vossa vista. Se nos anjos achastes maldade e não
lhes perdoastes, que será de mim? Caíram as estrelas do céu,
e eu, pó, de que hei de presumir? Aqueles cujas obras
pereciam louváveis precipitaram-se no abismo, e vi os que
comiam o pão dos anjos deleitarem-se com o alimento dos
animais imundos.
2.
Não há, pois, santidade, Senhor, se retirais vossa
mão. Não há sabedoria que aproveite, se deixais de a
governar. Não há fortaleza que valha, se deixais de a
conservar. Não há castidade segura, se deixais de a
defender. Não é proveitosa a própria vigilância, se falta
vossa santa guarda. Desamparados, afundamos logo e
perecemos, mas visitados por vós nos reerguemos e vivemos.
Somos, com efeito, inconstantes mas por vós somos
confirmados; somos tíbios, mas vós nos afervorais.
3.
Oh! Quão humilde e baixo conceito devo formar de mim
próprio! Em quão pouca conta devo ter o bem que possa haver
em mim! Quão profunda deve ser a minha submissão a vossos
insondáveis juízos, Senhor, se outra coisa não sou que nada
e puro nada! Ó peso imenso! Ó pélago insondável, onde não
acho outra coisa em mim senão um puro nada! Onde se
refugiará, pois, a minha soberba? Onde a presunção de alguma
virtude? Sumiu-se toda vanglória na profundeza dos vossos
juízos.
4.
Que é toda carne em vossa presença? Porventura
gloriar-se-á o barro contra quem o formou? Como se pode
desvanecer com vãos louvores aquele cujo coração está
deveras sujeito a Deus? Nem o mundo todo é capaz de
ensoberbecer aquele a que a Verdade subjugou. Nem os
louvores de todos os lisonjeiros poderão mover aquele em que
Deus põe toda a sua esperança. Porque todos que falam não
são nada, e se esvaecem como som das palavras; ao passo que
a verdade do Senhor permanece para
sempre
(Sl 116,2).
Como se deve haver e falar
cada um em seus desejos
1.
Jesus: Filho, dize assim em todas as coisas:
Senhor, se for do vosso agrado, faça-se isto assim. Senhor,
se for para vossa honra, suceda isto em vosso nome. Senhor,
se vos parecer que me é proveitosa e útil tal coisa,
concedei-ma para que dela use para vossa glória; mas, se
conheceis que me seria nociva e sem proveito para minha
salvação, tirai-me tal desejo; porque nem todo desejo
procede do Espírito Santo, ainda que nos pareça bom e justo.
É dificultoso discernir se te move espírito bom ou mau, a
desejar isto ou aquilo, ou se te move tua própria vontade.
Muitos se acharam no fim enganados, que a princípio pareciam
animados de bom espírito.
2.
Qualquer coisa, pois, que se te afigura desejável,
deves sempre desejá-la e pedir com temor de Deus e humildade
de coração, particularmente encomendar-me tudo com sincera
resignação, dizendo: Vós sabeis, Senhor, o que é melhor;
faça-se isto ou aquilo, conforme vossa vontade. Dai-me o que
quiserdes, quanto e quando quiserdes. Disponde de mim como
entendeis, como mais vos agradar e para maior glória vossa.
Ponde-me onde quiserdes e disponde de mim livremente em
tudo; estou em vossas mãos, virai-me e revirai-me segundo
vos parecer. Eis aqui vosso servo, pronto para tudo; pois
não desejo viver para mim, mas para vós, oxalá com dignidade
e perfeição.
2. Oração para cumprir a vontade de Deus:
1.
Concedei-me, benigníssimo Jesus, que a vossa graça
esteja comigo, comigo trabalhe e persevere comigo até ao
fim. Dai-me que deseje e queira sempre o que mais vos for
aceito e agradável. Vossa vontade seja a minha, e a minha
acompanhe sempre a vossa e se conforme em tudo com ela.
Tenha eu convosco o mesmo querer e não querer, de modo que
não possa querer ou não querer, senão o que vós quereis ou
não quereis.
2.
Fazei que eu morra a tudo que é do mundo, e que deseje
ser desprezado e esquecido neste século, por vosso amor.
Daí-me que descanse em vós acima de todos os bens
desejáveis, e repouse em vós o meu coração. Vós sois a
verdadeira paz do coração e seu único descanso; fora de vós
tudo é inquietação e desassossego. Nesta paz verdadeira, que
sois vós, sumo e eterno bem, quero dormir e descansar. Amém.
Que só em Deus se há de
buscar a verdadeira consolação
1.
Tudo que posso desejar ou procurar para meu consolo
não o espero nesta vida, mas na futura, porque ainda que eu
tivesse todas as consolações do mundo e pudesse fruir todas
as suas delícias, certo é que não poderiam durar muito
tempo. Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás
achar consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que
consola os pobres e agasalha os humildes. Espera um pouco, ó
minha alma, espera a divina promessa, e no céu terás todos
os bens em abundâncias. Se desordenadamente desejares os
bens presentes, perderás os eternos e celestes. Usa das
coisas temporais, mas deseja as eternas. Não te podes
satisfazer bem algum temporal, porque não foste criada para
gozá-los.
2.
Ainda que possuísses todos os bens criados, não
poderias ser feliz e estar contente, porque só em Deus,
criador de tudo, consiste tua bem-aventurança e felicidade;
não qual a entendem e louvam os amadores do mundo, mas como
a esperam os bons servos de Cristo, e às vezes antegozam as
pessoas espirituais e limpas de coração, cuja conversação
está nos céus (Fp 3,20). Curto e vão é todo
consolo humano; bendita e verdadeira a consolação que a
verdade nos comunica interiormente. O homem devoto em toda
parte traz consigo seu consolador, Jesus, e lhe diz:
Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. Seja, pois,
esta a minha consolação: o carecer voluntariamente de toda
consolação humana. E se me faltar também vosso consolo, seja
para mim vossa vontade, que justamente me experimenta, a
suprema consolação. Porque não dura sempre a vossa ira, nem
nos ameaçareis eternamente (Sl 102,9).
Que todo o nosso cuidado
devemos entregar a Deus
1.
Jesus: Filho, deixa-me fazer contigo o que quero; eu
sei o que te convém. Tu pensas como homem, e julgas em
muitas coisas consoante te persuade o afeto humano.
2.
A alma: Senhor, verdade é o que dizeis. Maior é vossa
solicitude por mim, que todo o cuidado que eu comigo possa
ter. Está em grande perigo de cair quem não entrega a vós
todos os seus cuidados. Fazei de mim, Senhor, tudo o que
quiserdes, contanto que permaneça em vós, reta e firme, a
minha vontade. Pois não pode deixar de ser bom tudo o que
fizerdes de mim. Se quereis que esteja nas trevas, bendito
sejais; e se quereis que esteja na luz, sede também bendito.
Se quereis que esteja consolado, sede bendito, e se quereis
que esteja tribulado, sede
igualmente para sempre bendito.
3.
Jesus: Filho, assim deves pensar, se desejas andar
comigo. Tão pronto deves estar para sofrer como para gozar;
para a pobreza e indigência, como para a riqueza e
abundância.
4.
A alma: Por ti Senhor, sofrerei de bom grado tudo que
quiserdes que me sobrevenha. De vossa mão quero aceitar,
indiferentemente, o bem e o mal, as doçuras e as amarguras,
as alegrias e as tristezas, e quero dar-vos graças por tudo
que me suceder. Livrai-me de todo pecado, e não temerei nem
morte nem inferno. Contanto que não me rejeiteis
eternamente, não me fará mal qualquer tribulação que me
sobrevenha.
Como, a exemplo de Cristo, se hão de sofrer
com igualdade de ânimo as misérias temporais
1.
Jesus: Filho, desci do céu para tua salvação; tomei
tuas misérias, não levado pela necessidade, mas pelo amor,
para ensinar-te a paciência e a suportar com resignação as
misérias temporais. Porque, desde a hora do meu nascimento
até à morte na cruz, nunca estive um instante sem sofrer.
Padeci grande penúria dos bens terrestres: ouvi muitas vezes
grandes queixas de mim; sofri com brandura injúrias e
opróbrios; recebi, pelos benefícios, ingratidões, pelos
milagres, blasfêmias, pela doutrina, repreensões.
2.
A
alma:
Senhor, já que fostes tão paciente em vossa vida, cumprindo
nisso principalmente a vontade de vosso Pai, justo é que eu,
mísero pecador, me sofra a mim com paciência, conforme
quereis, e suporte por minha salvação o fardo desta vida
corruptível. Porque, se bem que a vida presente seja pesada,
torna-se, contudo, com a vossa graça, muito meritória e, com
vosso exemplo e o de vossos santos, mais tolerável e leve
para os fracos.
É também muito mais consolada do que outrora, na lei antiga,
quando a porta do céu estava fechada, e bem poucos tratavam
de buscar o reino dos céus. Nem os justos sequer e
predestinados podiam entrar no reino celeste antes da vossa
paixão e resgate da vossa sagrada morte.
3.
Oh! Quantas graças vos devo render, por vos terdes dignado
mostrar a mim e a todos os fiéis o caminho direito e seguro
para vosso reino eterno! Porque vossa vida é o nosso caminho
e pela santa paciência caminhamos para vós, que sois nossa
coroa. Sem vosso exemplo e ensino, quem cuidaria de vos
seguir? Ah! Quantos ficariam atrás, bem longe, se não vissem
vossos luminosos exemplos! E se ainda andamos tíbios, com
tantos prodígios e ensinamentos, que seria se não tivéssemos
tantas luzes para vos seguir?
Do sofrimento das injúrias e quem é provado
verdadeiro paciente
1.
Jesus:
Filho, que é o que estás dizendo? Deixa de te queixar,
em vista da minha paixão e dos sofrimentos dos santos. Ainda
não tens resistido até derramar sangue. Pouco é o que sofres
em comparação do muito que padeceram eles em tão fortes
tentações, tão graves tribulações, tão várias provações e
angústias. Convém, pois que te lembres dos graves trabalhos
dos outros, para que mais facilmente sofras os teus, que são
mais leves. E se te não parecem tão leves, olha, não venha
isso de tua impaciência. Contudo, sejam graves ou leves,
procura levá-los todos com paciência.
2.
Quanto melhor te dispões para padecer, tanto mais
paciente serás em tuas ações e maiores merecimentos
ganharás; com a resignação e a prática torna-se também mais
suave o sofrimento. Não digas: não posso sofrer isto daquele
homem, nem estou para aturar tais coisas, pois me fez grave
injúria e me acusa de coisas que jamais imaginei; de outros
sofreria facilmente, quanto julgasse que devia sofrer.
Insensato é semelhante pensar, pois não considera a virtude
da paciência nem olha àquele que há de coroá-la, mas só
atende às pessoas e às ofensas recebidas.
3.
Não é verdadeiro sofredor quem só quer sofrer quanto
lhe parece e de quem lhe apraz. O verdadeiro paciente também
não repara em quem exercita a paciência; se for seu
superior, ou igual, ou inferior, se for homem bom e santo,
ou mau e perverso. Mas, sem diferença de pessoa, sempre que
lhe sucede qualquer adversidade, aceita-a gratamente da mão
de Deus e a considera um grande lucro para sua alma. Porque
aos olhos de Deus qualquer coisa, por insignificante que
seja, que soframos por amor dele terá seu merecimento.
4.
Aparelha-te, pois, para o combate, se queres a
vitória. Sem peleja não podes chegar à coroa da vitória. Se
não queres sofrer, renuncia à coroa; mas, se desejas ser
coroado, luta varonilmente e sofre com paciência. Sem
trabalho não se consegue o descanso e sem combate não se
alcança a vitória.
5.
A
alma:
Tornai-me, Senhor, possível, pela graça, o que me parece
impossível pela natureza. Vós bem sabeis quão pouco sei
sofrer, e que logo fico desanimado com a menor
contrariedade. Tornai-me amável e desejável qualquer prova e
aflição, por vosso amor, porque o padecer e penar por vós é
muito proveitoso à minha alma.
Da confissão da própria fraqueza,
e das misérias desta vida
1.
A alma: Confesso contra mim mesmo minha
maldade (Sl 31,5), confesso, Senhor, minha
fraqueza. Muitas vezes a menor coisa basta para me abater e
entristecer. Proponho agir valorosamente, mas assim que me
sobrevém uma pequena tentação, vejo-me em grandes apuros. Às
vezes é de uma coisa mesquinha que me vem grave aflição. E
quando me julgo algum tanto seguro, vejo-me, não raro,
vencido por um sopro, quando menos o penso.
2.
Olhai, pois, Senhor, para esta minha baixeza e
fragilidade, que conheceis perfeitamente. Compadecei-vos de
mim e tirai-me da lama, para que não fique atolado (Sl
68,18) e arruinado para sempre. É isto que a
miúdo me atormenta e confunde em vossa presença: o ser eu
tão inclinado a cair, e tão fraco a resistir às paixões. E
embora não me levem ao pleno consentimento, muito me
molestam e afligem seus assaltos, e muito me enfastia o
viver sempre nesta peleja. Nisto conheço minha fraqueza, que
mais depressa me vem do que se vão essas abomináveis
fantasias da imaginação.
3.
Ó poderosíssimo Deus de Israel, zelador das almas
fiéis, olhai para os trabalhos e dores de vosso servo, e
assisti-lhe em todos os seus empreendimentos! Confortai-me
com a força celestial, para que não me vença e domine o
homem velho, a mísera carne, ainda não inteiramente sujeita
ao espírito, contra a qual será necessário pelejar enquanto
estiver nesta miserável vida. Ai! que vida é esta,
em que nunca faltam as tribulações e misérias, em que tudo
está cheio de inimigos e ciladas! Porque mal acaba uma
tribulação ou tentação, outra já se aproxima, e até antes de
acabar um combate, muitos outros já sobrevêm, e inesperados.
4.
E como se pode amar uma vida cheia de tantas
amarguras, sujeita a tantas calamidades e misérias? Como se
pode chamar vida o que gera tantas mortes e desgraças? E,
não obstante, muitos amam e procuram nela deleitar-se.
Muitos acoimam o mundo de enganador e vão, e ainda assim
lhes custa deixá-lo, porque se deixam dominar pelos apetites
da carne. Muitas coisas nos inclinam a amar o mundo, outras
a desprezá-lo. Fazem amar o mundo a concupiscência
da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida;
mas as penas e as misérias que estas coisas se seguem geram
o ódio e aborrecimento do mundo.
5.
Infelizmente, o vil deleite vence a alma mundana, que
julga delícia o estar em meio dos espinhos (Jó
30,7), porque nunca viu nem provou a doçura de Deus,
nem a intrínseca suavidade da virtude. Mas aqueles que
perfeitamente desprezam o mundo e procuram viver para Deus,
em santa disciplina, experimentam a doçura divina, e mais
claramente conhecem os erros grosseiros do mundo e seus
vários enganos.
Como se deve descansar em Deus
sobre todos os bens e dons
1.
A alma: Ó minha alma, em tudo e acima
de tudo descansa sempre no Senhor, porque ele é o eterno
repouso dos santos. Dai-me, ó dulcíssimo e amantíssimo
Jesus, que eu descanse em vós mais que em toda criatura;
mais que na saúde e formosura; mais que na glória e honra,
no poder e dignidade; mais que em toda ciência e sutileza;
mais que em todas as riquezas e artes; mais que na alegria e
no divertimento; mais que na fama e no louvor; mais que nas
doçuras e consolações, esperanças e promessas, desejos e
méritos; mais que em todos os dons e dádivas que me podeis
dar e infundir; mais que em todo gozo e alegria que minha
alma possa experimentar e sentir; finalmente, mais que nos
anjos e arcanjos e todo o exército celeste; acima de todo o
visível e invisível, acima, enfim, de tudo aquilo que vós,
meu Deus, não sois.
2.
Porquanto vós, meu Deus, sois bom acima de todas as coisas.
Só vós sois altíssimo, só vós poderosíssimo, só vós
suficientíssimo e pleníssimo, só vós suavíssimo e verdadeiro
consolador, só vós formosíssimo e amantíssimo, só vós
nobilíssimo e gloriosíssimo sobre todas as coisas, em quem
se olham, a um tempo e plenamente, todos os bens passados,
presentes e futuros. Por isso é mesquinho e insuficiente
tudo quanto fora de vós mesmo me dais, revelais ou
prometeis, enquanto vos não vejo e possuo inteiramente;
porque meu coração não pode descansar verdadeiramente, nem
estar totalmente satisfeito a não ser em vós, acima de todos
os dons e de todas as criaturas.
3.
Ó meu Jesus, esposo diletíssimo, amante puríssimo, senhor
absoluto de toda a criação, quem me dera às asas da
verdadeira liberdade para voar e repousar em vós! Oh!
Quando me será concedido ocupar-me totalmente de vós e
experimentar vossa doçura, Senhor meu Deus! Quando estarei
tão perfeitamente recolhido em vós, que não me sinta a mim
mesmo por vosso amor, mas só a vós, acima de toda sensação e
medida, que nem todos conhecem! Agora, porém, não
cesso de gemer, e levo, cheio de dor, o peso de minha
infelicidade; pois neste vale de lágrimas sucedem tantos
males, que muitas vezes me perturbam, entristecem e anuviam
a alma; outras vezes me embaraçam, distraem, atraem e
emaranham, para me impossibilitar vosso acesso e me privar
das doces carícias, que gozam sempre os espíritos bem
aventurados! Deixai-vos enternecer por meus suspiros e
tantas amarguras que padeço nesta terra.
4.
Ó Jesus, esplendor da eterna glória, consolo da alma
desterrada, diante de vós emudece minha boca e meu silêncio
vos fala: Até quando tardará a vir o meu Senhor? Venha a
este seu servo pobrezinho, trazer-lhe alegria; estenda-lhe a
mão e livre este miserável de toda angústia. Vinde, vinde,
porque sem vós não posso ter nem um dia, nem uma hora feliz,
pois vós sois minha alegria, e sem vós está vazio meu
coração. Miserável sou, como que preso e carregado de
grilhões, enquanto me não recreeis com a luz de vossa
presença e me deis a liberdade, mostrando-me benigno
semblante.
5.
Busquem outros o que quiserem em lugar de vós, a mim nenhuma
coisa me há de agradar jamais, senão, vós, meu Deus, minha
esperança e salvação eterna. Não calarei, nem cessarei de
orar, até que volte vossa graça, e vós me faleis no
interior.
6.
Jesus: Aqui me tens, venho a ti,
porque me chamaste. Moveram-me tuas lágrimas e os desejos de
tua alma; a humildade e a contrição do teu coração me
trouxeram a ti.
7.
A
Alma:
Eu disse: Chamei-vos, Senhor, e desejei gozar-vos, disposto
a desprezar tudo por vosso amor, que vós primeiro me
inspirastes buscar-vos. Sede, pois, bendito, Senhor, pela
bondade que usais para com vosso servo, segundo vossa
infinita misericórdia. Que mais pode fazer vosso servo
em vossa presença, senão humilhar-se profundamente diante de
vós, e lembrar-se sempre de sua maldade e vileza?
Pois nada há semelhante a vós, entre todas as maravilhas do
céu e da terra. Vossas obras são perfeitíssimas, vossos
juízos verdadeiros, e vossa providência governa todas as
coisas. Louvor e glória, pois, a vós, ó Sabedoria do Pai,
minha boca vos louva e minha alma vos engrandece, juntamente
com todas as criaturas.
Da recordação dos inumeráveis benefícios de Deus
1.
A alma:
Abri, Senhor, meu coração à vossa lei, e ensinai-me o
caminho de vossos preceitos. Fazei-me compreender a vossa
vontade, e com grande reverência e diligente consideração
rememorar os vossos benefícios, gerais ou particulares, para
assim render-vos por eles as devidas graças. Bem sei e
confesso que nem pelo menor benefício vos posso render
condignos louvores e agradecimentos. Eu me reconheço
inferior a todos os bens que me destes, e quando considero
vossa majestade, abate-se meu espírito com o peso de vossa
grandeza.
2.
Tudo o que temos, na alma e no corpo, todos os bens
que possuímos, internos e externos, naturais e
sobrenaturais, todos são benefícios vossos, e outras tantas
provas de vossa bondade, liberalidade e muníficência, que de
vós todos os bens recebemos. E ainda que este receba
mais e outros menos, tudo é vosso, e sem vós ninguém pode
alcançar a menor coisa. E aquele que recebeu mais não
pode gloriar-se de seu merecimento, nem elevar-se acima dos
outros, nem desprezar o menor; porque só é maior e melhor
aquele que menos atribui a si, e é mais humilde e fervoroso
em vos agradecer. E quem se considera mais vil e se julga o
mais indigno de todos é o mais apto para receber maiores
dons.
3.
O que, porém, recebeu menos não deve afligir-se, nem
queixar-se, nem ter inveja do mais rico; olhará, ao
contrário, para vós, e louvará vossa bondade, que tão
copiosa e liberalmente prodigalizais vossas dádivas, sem
acepção de pessoas. De vós nos vêm todas as coisas;
por todas, pois, deveis ser louvado. Vós sabeis o que é
conveniente dar a cada um, e não nos pertence indagar por
que este tem menos, aquele mais; só vós podeis avaliar os
merecimentos de cada um.
4.
Por isso, Senhor meu Deus, considero como grande benefício o
não ter eu muitas coisas que trazem a glória exterior e os
humanos louvores. Portanto, ninguém, à vista de sua pobreza
e da vileza de sua pessoa, deve conceber, por isso,
desgosto, tristeza ou desalento, senão grande alegria e
consolo, porque vós, Deus meu, escolheste por vossos
particulares e íntimos amigos os pobres, os humildes e os
desprezados deste mundo. Testemunho disto são vossos
apóstolos, a quem constituístes príncipes sobre a terra.
Todavia, viveram neste mundo tão sem queixa, tão
humildes e com tanta singeleza da alma, tão sem malícia ou
dolo, que se alegravam de sofrer contumélias por vosso nome,
e com grande afeto abraçavam o que o mundo aborrece.
5.
Nada, pois, deve alegrar tanto aquele que vos ama e
reconhece vossos benefícios, como ver executar-se a seu
respeito vossa vontade e o beneplácito de vossas eternas
disposições. Tanto deve com isto estar contente e
satisfeito, que queira de tão boa vontade ser o menor, como
outro desejaria ser o maior; e tão sossegado e contente deve
estar no último como no primeiro lugar, tão satisfeito em
ser desprezado e abatido, sem nome nem reputação, como se
fosse o mais honrado e estimado no mundo. Porque a vossa
vontade e o amor de vossa honra deve ser anteposto a tudo, e
deve consolar e agradar mais ao vosso servo, que todos os
dons presentes ou futuros.
Das quatro coisas que produzem grande paz
1.
Jesus: Filho, vou agora te
ensinar o caminho da paz e da verdadeira liberdade.
2.
A
alma:
Fazei, Senhor, o que dizeis, que muito grato me é ouvi-lo.
Jesus: Filho, trata de fazer antes a
vontade alheia que a tua. Prefere sempre ter menos que mais.
Busca sempre o último lugar e sujeita-te a todos. Deseja
sempre e roga que se cumpra plenamente em ti a vontade de
Deus. O homem que assim procede penetra na região da paz e
do descanso.
3.
A
alma:
Senhor, este vosso discurso é breve, mas encerra muita
perfeição. Poucas são as palavras, cheias, porém, de
sabedoria e de copioso fruto. Se eu as praticasse fielmente,
não me deixaria perturbar com tanta facilidade. Pois, todas
as vezes que me sinto inquieto e aflito, verifico que me
desviei desta doutrina. Vós, porém, que tudo podeis e
desejais sempre o progresso da alma, aumentai em mim a
graça, para que possa guardar vossos ensinamentos e levar a
efeito minha salvação.
4.
Oração contra os maus
pensamentos:
Senhor, meu Deus, não vos aparteis de mim, meu Deus
dignai-vos socorrer-me
(Sl
70,13). Pois me invadem vários pensamentos, e grandes
temores afligem minha alma. Como escaparei ileso, como
poderei vencê-los?
Diante de ti, são palavras vossas, irei eu e humilharei os
soberbos da terra
(Is 14,1); abrir-te-ei as portas do cárcere e te
revelarei mistérios recônditos.
Fazei Senhor, conforme dizeis e dissipe vossa presença todos
os maus pensamentos. Esta é a minha única esperança e
consolação: a vós recorrer em toda tribulação, em vós
confiar, invocar-vos de todo o coração e com paciência
aguardar a vossa consolação.
Amém.
5. Oração para pedir o esclarecimento do espírito:
Iluminai-me,
ó bom Jesus, com a claridade da luz interior e dissipai
todas as trevas que reinam em meu coração. Refreai as
dissipações nocivas e rebatei as tentações, que me fazem
violência. Pelejai valorosamente por mim, e afugentai as más
feras, essas traiçoeiras concupiscências, para que se faça a
paz por vossa virtude, e ressoe perene louvor no templo
santo, que é a consciência pura. Mandai aos ventos e às
tempestades; dizei ao mar: aplaca-te, e ao tufão: não
sopres; e haverá grande bonança.
6.
Enviai vossa luz e vossa verdade (Sl 42,3),
para que resplandeçam sobre a terra; porque sou terra
vazia e estéril, enquanto não me iluminais. Derramai sobre
mim vossa graça e banhai o meu coração com o orvalho
celestial; abri as fontes de devoção, que reguem a face da
terra, para que produza frutos bons e perfeitos. Erguei meu
espírito abatido pelo peso dos pecados e dirigi meus desejos
paras as coisas do céu, para que, antegozando a doçura da
suprema felicidade, me aborreça em pensar nas coisas da
terra.
7.
Desprendei-me e arrancai-me de toda transitória
consolação das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode
consolar-me plenamente ou satisfazer meus desejos. Uni-me
convosco pelo vínculo indissolúvel do amor, porque só vós
bastais a quem vos ama, e sem vós tudo o mais é vaidade.
Amém.
Como se deve evitar a
curiosa inquirição da vida alheia
1.
Jesus: Filho, não sejais curioso, nem te preocupes
com cuidados inúteis. Que tens tu com isto ou aquilo?
Segue-me. Pois que te importa saber se fulano é assim ou
assim ou se sicrano procede e fala deste ou daquele modo? Tu
não és responsável pelos outros, mas de ti mesmo deves dar
conta; por que, pois, te intrometes naquilo? Eu conheço a
todos e vejo tudo que se faz debaixo do sol; sei como cada
um procede, o que pensa e quer, e a que fim tende sua
intenção. Deixa, pois, tudo ao meu cuidado, conserva-te em
santa paz e deixa o inquieto agitar-se quando quiser. Sobre
ele recairá tudo o que fizer ou disser, porque não me pode
enganar.
2.
Não te preocupes da sombra dum grande nome, nem da
familiaridade de muitos, nem de amizade particular dos
homens. Pois tudo isso gera distrações e grande perplexidade
ao coração. Eu não duvidaria falar-te e descobrir-te os meus
segredos, se atento esperasses minha chegada e me abrisses a
porta de teu coração. Sê cauteloso, vigia na oração, e
humilha-te em todas as coisas.
Em que consiste a firme paz do coração
e o verdadeiro aproveitamento
1.
Jesus: Filho, eu disse a meus
discípulos: Eu vos deixo a paz; dou-vos a minha paz; não
vo-la dou como a dá o
mundo
(Jo 14,27). Todos desejam a paz, mas nem todos buscam
as coisas que produzem a verdadeira
paz. A minha paz está com os humildes e mansos de coração.
Na muita paciência encontrarás a tua paz. Se me ouvires e
seguires a minha voz, poderás gozar grande paz.
2.
A
alma:
Que hei de fazer, pois, Senhor?
3.
Jesus: Em tudo olha bem o que
fazes e dizes, e dirige toda a tua intenção só para meu
agrado, sem desejar ou buscar coisa alguma fora de mim. Não
julgues temerariamente das palavras e obras dos outros, nem
te intrometas em coisas que não te dizem respeito; deste
modo poderá ser que pouco ou raras vezes te perturbes.
4.
Nunca sentir, porém, inquietação, nem sofrer moléstia
alguma do corpo ou do espírito, não é próprio da vida
presente, senão do estado do eterno descanso. Não julgues,
pois, ter achado a verdadeira paz, se não sentires nenhuma
aflição; nem que tudo está bem, se não tiveres nenhum
adversário, ou tudo perfeito, se tudo correr a teu gosto.
Nem penses que és grande coisa ou singularmente amado por
Deus, se sentes muita devoção e doçura, porque não são estes
os sinais pelos quais se conhece o verdadeiro amante da
virtude, nem consiste nisso o aproveitamento e a perfeição
do homem.
5.
A
alma:
Em que consiste, pois, Senhor?
6.
Jesus: Em te ofereceres de todo o
teu coração à divina vontade, sem buscares o teu próprio
interesse em coisa alguma, nem eterna; de sorte que com
igualdade de ânimo dês graças a Deus na ventura e na
desgraça, pesando tudo na mesma balança. Se fores tão forte
e constante na esperança que, privado de toda consolação
interior, disponhas teu coração para maiores provações, sem
te justificares, como se não deveras sofrer tanto, e antes
louvares a santidade e a justiça em todas as minhas
disposições, então andarás no verdadeiro e reto caminho da
paz e poderás ter certíssima esperança de contemplar
novamente minha face com júbilo. E, se chegares ao perfeito
desprezo de ti mesmo, fica sabendo que então gozarás da
abundância da paz, no grau possível nesta peregrinação
terrestre.
A Excelência da liberdade espiritual, à qual
se chega antes pela oração humilde que pela leitura.
1.
A alma: Senhor, é próprio do varão perfeito:
nunca perder de vista as coisas celestiais, e passar
pelos mil cuidados, como que sem cuidado, não por
indolência, mas por um privilégio duma alma livre, que não
se apega, com desordenado afeto, a criatura alguma.
2.
Peço-vos, ó meu benigníssimo Deus! Preservai-me dos
cuidados desta vida, para que não me embarace demasiadamente
neles; das muitas necessidades do corpo, para que não me
escravize a sensualidade; e de todas as perturbações da
alma, para que não me desalente sob o peso das angústias.
Não falo das coisas que a vaidade humana busca tão
empenhadamente, mas das misérias que, pela maldição comum de
todos os mortais, penosamente oprimem a alma de vosso servo,
e a impedem de elevar-se à liberdade perfeita de espírito,
sempre que o quiser.
3.
Ó meu Deus, doçura inefável! Convertei-me em amargura
toda consolação carnal, que me aparta do amor das coisas
eternas e me fascina pelo encanto de um prazer momentâneo.
Não me vença, Deus meu, não me vença a carne e o sangue; não
me seduza o mundo, com sua glória passageira; não me faça
cair o demônio, com sua astúcia. Dai-me força para resistir,
paciência para sofrer, constância para perseverar. Dai-me,
em lugar de todas as consolações do mundo, a suavíssima
unção do vosso espírito e, em lugar do amor terrestre,
infundi-me o amor de vosso nome!
4.
O comer, o beber, o vestir e outras coisas necessárias ao
corpo são um peso para a alma fervorosa. Concedei-me
usar com moderação de tais lenitivos, sem me prender a eles
com demasiado afeto. Não é lícito rejeitar tudo,
pois devemos sustentar a natureza; mas buscar as coisas
supérfluas e o que mais delicia, proíbe-o vossa santa lei,
porque de outro modo a carne se rebelará contra o espírito.
Entre estes dois extremos, Senhor, peço-vos que me dirijas e
governes na vossa mão, para que não pratique algum excesso.
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