
Uma esperança firme e fiável
em tempos de crise
Mensagem do Sumo Pontífice para a XXIV Jornada Mundial da
Juventude
O
mundo precisa de "uma esperança firme e fiável"; não de "um
ideal ou de um sentimento, mas de uma pessoa viva, Jesus
Cristo". Escreve o Papa na mensagem para a XXIV Jornada
Mundial da Juventude, que será celebrada nas várias dioceses
a 5 de Abril, Domingo de Ramos.
"Pusemos a nossa esperança em Deus vivo"
(1 Tm 4, 10)
Queridos amigos!
Celebraremos no próximo Domingo de Ramos, a nível diocesano,
a XXIV Jornada Mundial da Juventude. Enquanto nos preparamos
para esta celebração anual, penso de novo com profunda
gratidão ao Senhor no encontro que se realizou em Sidney, em
Julho do ano passado: encontro inesquecível, durante o qual
o Espírito Santo renovou a vida de numerosíssimos jovens que
se reuniram de todo o mundo.
A
alegria da festa e o entusiasmo espiritual, experimentados
durante aqueles dias, foram um sinal eloqüente da presença
do Espírito de Cristo. E agora estamos encaminhados para o
encontro internacional em programa para Madrid em 2011, que
terá como tema as palavras do Apóstolo Paulo: "Enraizados
e edificados em Cristo, firmes na fé" (cf. Cl
2, 7). Em vista deste encontro mundial dos jovens, queremos
realizar juntos um percurso formativo, refletindo em 2009
sobre a afirmação de São Paulo: "Pusemos a nossa
esperança em Deus vivo" (1 Tm 4, 10), e em
2010 sobre a pergunta do jovem rico a Jesus: "Bom
Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?"
(Mc 10, 17).
A juventude tempo da esperança
Em
Sidney, a nossa atenção concentrou-se sobre o que o Espírito
Santo diz hoje aos crentes, e em particular a vós, queridos
jovens. Durante a Santa Missa conclusiva, exortei-vos a
deixar-vos plasmar por Ele para serdes mensageiros do amor
divino, capazes de construir um futuro de esperança para
toda a humanidade.
A
questão da esperança está, na realidade, no centro da nossa
vida de seres humanos e da nossa missão de cristãos,
sobretudo na época contemporânea. Todos sentimos a
necessidade da esperança, não de uma esperança qualquer, mas
sim de uma esperança firme e de confiança,
como eu quis ressaltar na
Encíclica Spe salvi.
Em
particular, a juventude é tempo de esperanças, porque olha
para o futuro com várias expectativas. Quando se é jovem
alimentam-se ideais, sonhos e projetos; a juventude é o
tempo no qual amadurecem opções decisivas para o resto da
vida. E talvez também por isto é a estação da existência na
qual emergem com vigor as perguntas fundamentais: por
que estou na terra? Qual é o sentido do viver? Que será da
minha vida? E ainda: como alcançar a
felicidade? Por que o sofrimento, a doença e a morte? O que
existe depois da morte?
Perguntas que se tornam insuportáveis quando nos devemos
confrontar com obstáculos que por vezes parecem
insuperáveis: dificuldades nos estudos, falta de
trabalho, incompreensões na família, crises nas relações de
amizade ou na construção de um entendimento conjugal,
doenças ou deficiências, carência de recursos adequados como
conseqüência da atual difundida crise econômica e social.
Então
perguntamos: de onde haurir e como manter viva no
coração a chama da esperança?
Na raiz da "grande esperança"
A
experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens
materiais não são suficientes para garantir a esperança da
qual o coração humano está em busca constante. Como escrevi
na citada
Encíclica Spe salvi, a
política, a ciência, a técnica, a economia e qualquer outro
recurso material sozinhos não são suficientes para oferecer
a grande esperança que todos desejamos. Esta
esperança "só pode ser Deus, que abraça o universo e
nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos
conseguir" (n. 31).
Eis
por que uma das conseqüências principais do esquecimento de
Deus é a evidente desorientação que marca as nossas
sociedades, com conseqüências de solidão e violência, de
insatisfação e perda de confiança que não raro terminam no
desespero. É clara e forte a chamada que nos vem da Palavra
de Deus: "Maldito o homem que confia noutro, que da
carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do
Senhor. Assemelha-se ao cardo do deserto, que, mesmo que lhe
venha algum bem, não o sente" (Jr 17, 5-6).
A
crise de esperança atinge mais facilmente as novas gerações
que, em contextos socioculturais privados de certezas, de
valores e de sólidos pontos de referência, encontram-se a
enfrentar dificuldades que são maiores do que as suas
forças. Penso, queridos amigos, em tantos coetâneos vossos,
feridos pela vida, condicionados por uma imaturidade pessoal
que muitas vezes é conseqüência de um vazio familiar, de
opções educativas permissivas e libertárias e de
experiências negativas e traumáticas.
Para
alguns e infelizmente não são poucos a saída quase
obrigatória é uma fuga alienante com comportamentos de
risco e violentos, na dependência de drogas e álcool, e
em muitas outras formas de mal-estar juvenil. Contudo,
também em quem se vem a encontrar em condições difíceis por
ter seguido conselhos de "maus mestres", não se apaga o
desejo de amor verdadeiro e de autêntica felicidade. Mas
como anunciar a esperança a estes jovens? Nós sabemos
que só em Deus o ser humano encontra a sua verdadeira
realização.
O
compromisso primário que interpela todos é portanto o
de uma nova evangelização, que ajude as novas gerações a
redescobrir o rosto autêntico de Deus, que é Amor.
A vós,
queridos jovens, que estais em busca de uma esperança firme,
dirijo as mesmas palavras que São Paulo dirigia aos cristãos
perseguidos na Roma de então: "Que o Deus da
esperança vos encha plenamente de alegria e de paz na vossa
crença, para que abundeis na esperança pela virtude do
Espírito Santo" (Rm 15, 13). Durante este ano
jubilar dedicado ao Apóstolo das Nações, por ocasião do
bi-milênio do seu nascimento, aprendamos dele a tornar-nos
testemunhas credíveis da esperança cristã.
São Paulo testemunha da esperança
Encontrando-se imerso em dificuldades e provações de vários
tipos, Paulo escrevia ao seu fiel discípulo: "Pusemos
a nossa esperança em Deus vivo" (1 Tm 4, 10).
Como
tinha nascido nele esta esperança?
Para
responder a esta pergunta devemos partir do seu encontro com
Jesus ressuscitado no caminho de Damasco. Nessa época Saulo
era um jovem como vós, com cerca de vinte ou vinte e cinco
anos, seguidor da Lei de Moisés e decidido a combater com
todos os meios quantos ele considerava inimigos de Deus (cf.
Act 9, 1).
Quando
estava a caminho de Damasco para prender os seguidores de
Cristo, foi envolvido por uma luz misteriosa e ouviu chamar
pelo nome: "Saulo, Saulo, por que me persegues?".
Caindo por terra, perguntou: "Quem és Tu, Senhor?". E
aquela voz respondeu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues!"
(cf. Act 9, 3-5).
Depois
daquele encontro, a vida de Paulo mudou radicalmente:
recebeu o Batismo e tornou-se apóstolo do Evangelho. No
caminho de Damasco, ele foi interiormente transformado pelo
Amor divino que encontrou na pessoa de Jesus Cristo. Um dia
escreverá: "A vida que agora vivo na carne, vivo-a na
fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo
por mim" (Gl 2, 20). De perseguidor,
tornou-se portanto testemunha e missionário: fundou
comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia, percorrendo
milhares de quilômetros e enfrentando toda a espécie de
peripécias, até ao martírio em Roma. Tudo por amor a Cristo.
A grande esperança está em Cristo
Para
Paulo a esperança não é só um ideal ou um sentimento, mas
uma pessoa viva: Jesus Cristo, Filho de Deus. Persuadido
intimamente desta certeza, poderá escrever a Timóteo:
"Pusemos a nossa esperança em Deus vivo" (1 Tm
4, 10). O "Deus vivo"
é Cristo ressuscitado e presente no mundo. É Ele a
verdadeira esperança: Cristo que vive conosco e em nós e
que nos chama a participar na sua própria vida eterna. Se
não estamos sozinhos, se Ele está conosco, aliás, se é Ele o
nosso presente e o nosso futuro, por que temer? A esperança
do cristão é portanto desejar "o Reino dos céus e a
vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a confiança
nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas
forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo"
(Catecismo
da Igreja Católica, 1817).
O caminho rumo à grande esperança
Assim
como um dia encontrou o jovem Paulo, Jesus deseja encontrar
também cada um de vós, queridos jovens. Sim, antes de ser um
nosso desejo, este encontro é um desejo profundo de Cristo.
Mas alguns de vós poderiam perguntar: como posso eu, hoje,
encontrá-LO? Ou também, de que modo Ele se aproxima de mim?
A Igreja ensina que o desejo de encontrar o Senhor já é
fruto da sua graça?
Quando
na oração expressamos a nossa fé,
também na obscuridade já O encontramos porque Ele se oferece
a nós. A oração perseverante abre o coração para O
acolher, como explica Santo Agostinho: "O
Senhor nosso Deus quer que nas orações se exercite o nosso
desejo, de modo que nos tornemos capazes de receber o que
Ele pretende dar-nos" (Cartas 130, 8, 17).
A oração é dom do Espírito, que
nos torna homens e mulheres de esperança, e rezar mantém o
mundo aberto a Deus (cf.
Enc. Spe salvi, 34).
Dai
espaço à oração na vossa vida! Rezar sozinho é bom, mas
ainda melhor e mais proveitoso é rezar juntos, porque o
Senhor garantiu que está presente onde estiverem dois ou
três reunidos no seu nome
(cf. Mt 18, 20). Existem muitas formas de se
familiarizar com Ele; existem experiências, grupos e
movimentos, encontros e itinerários para aprender assim a
rezar e a crescer na experiência da fé. Participai na
liturgia nas vossas paróquias e alimentai-vos abundantemente
da Palavra de Deus e da participação ativa nos Sacramentos.
Como
sabeis, ápice e centro da existência e da missão de
cada crente e comunidade cristã é a Eucaristia, sacramento
de salvação na qual Cristo se faz presente e doa como
alimento espiritual o seu próprio Corpo e Sangue para a vida
eterna. Mistério
deveras inefável! Em volta da
Eucaristia nasce e cresce a Igreja, a grande família dos
cristãos, na qual se entra com o Batismo e nos renovamos
constantemente graças ao sacramento da Reconciliação.
Depois, os batizados, mediante a Crisma, são confirmados
pelo Espírito Santo para viver como autênticos amigos e
testemunhas de Cristo, enquanto os Sacramentos da Ordem e do
Matrimônio os tornam preparados para realizar as suas
tarefas apostólicas na Igreja e no mundo. A Unção dos
enfermos, por fim, faz-nos experimentar o conforto divino na
doença e no sofrimento.
Agir em sintonia com a esperança cristã
Queridos jovens, se vos alimentardes de Cristo e
viverdes imersos n'Ele como o apóstolo Paulo, não podereis
deixar de falar d'Ele, de O fazer conhecer e amar
por tantos vossos amigos e coetâneos. Tendo-vos tornado seus
fiéis discípulos, sereis assim capazes de contribuir para
formar comunidades cristãs impregnadas de amor como aquelas
das quais fala o livro dos Atos dos Apóstolos. A
Igreja conta convosco para esta empenhativa missão:
não vos desencorajem as dificuldades e as provas que
encontrardes. Sede pacientes e perseverantes,
vencendo a natural tendência dos jovens para a pressa, para
querer tudo e já.
Queridos amigos, como Paulo, testemunhai o Ressuscitado!
Fazei-O conhecer a quantos, vossos coetâneos ou adultos,
estão em busca da "grande esperança" que dê sentido à sua
existência. Se Jesus se tornou a vossa esperança, dizei-o
também aos outros com a vossa alegria e com o vosso
compromisso espiritual, apostólico e social.
Habitados por Cristo, depois de ter posto n'Ele a vossa fé e
de lhe ter dado toda a vossa confiança, difundi esta
esperança ao vosso redor. Fazei escolhas que
manifestem a vossa fé; mostrai que compreendestes as
insídias da idolatria do dinheiro, dos bens materiais, da
carreira e do sucesso, e não vos deixeis atrair por estas
quimeras falsas. Não cedais à lógica do interesse
egoísta, mas cultivai o amor ao próximo e esforçai-vos por
colocar a vós mesmos e as vossas capacidades humanas e
profissionais ao serviço do bem comum e da verdade, sempre
prontos a responder "a quem vos perguntar a razão da
vossa esperança!" (1 Pd 3, 15).
O
cristão autêntico nunca está triste, mesmo quando tem que
enfrentar provas de vários tipos, porque a presença de Jesus
é o segredo da sua alegria e da sua paz.
Maria Mãe da Esperança
Modelo
deste itinerário de vida apostólica seja para vós São Paulo,
que alimentou a sua vida de fé e esperança constantes
seguindo o exemplo de Abraão, do qual escreve na Carta aos
Romanos: "Ele mesmo, contra o que podia esperar,
acreditou que havia de ser pai de muitas nações"
(Rm 4, 18).
Por
estas mesmas pegadas do povo da esperança formado pelos
profetas e pelos santos de todos os tempos nós prosseguimos
rumo à realização do Reino, e no nosso caminho acompanhe-nos
a Virgem Maria, Mãe da Esperança. Aquela que encarnou
a esperança de Israel, que doou ao mundo o Salvador e
permaneceu, firme na esperança, aos pés da Cruz, é para nós
modelo e amparo. Sobretudo, Maria intercede por nós
e guia-nos na escuridão das nossas dificuldades para o
alvorecer radioso do encontro com o Ressuscitado.
Gostaria de concluir esta mensagem, queridos jovens amigos,
fazendo minha uma bela e conhecida exortação de São Bernardo
inspirada no título de Maria Stella maris, Estrela do
mar: "Tu que na instabilidade contínua da vida
presente, te vês mais a flutuar entre as tempestades do que
a caminhar na terra, mantém fixo o olhar no esplendor desta
estrela, se não quiseres ser aniquilado pelos furacões. Se
insurgem os ventos das tentações e te encalhas entre as
rochas das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria...
Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensa em
Maria, invoca Maria... Seguindo os seus exemplos não te
perderás; invocando-a não perderás a esperança; pensando
nela não cairás no erro. Amparado nela não escorregarás; sob
a sua proteção nada recearás; com a sua guia não te
cansarás; com a sua proteção alcançarás a meta"
(Homilias em louvor da Virgem Mãe, 2, 17).
Maria,
Estrela do mar, sê tu a guiar os jovens do mundo inteiro ao
encontro com o teu Filho divino Jesus, e sê ainda tu a
celeste guarda da sua fidelidade ao Evangelho e da sua
esperança.
Ao
garantir a minha recordação quotidiana na oração por todos
vós, queridos jovens, abençôo de coração a vós e às pessoas
que vos são queridas.
Vaticano, 22 de Fevereiro de 2009.
BENEDICTUS PP XVI.
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