
Homilia do Papa BENTO XVI.
Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e
Paulo.
Cidade do Vaticano: Terça-feira, 29 de junho de 2010
Queridos irmãos e irmãs!
Os
textos bíblicos desta Liturgia Eucarística da
Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo,
na
sua grande riqueza, ressaltam um tema que se poderia resumir
assim: Deus
está próximo de seus fiéis servidores e os livra de todo o
mal, e livra a
Igreja
das forças
negativas.
É o tema da liberdade da Igreja, que apresenta um aspecto
histórico e um outro mais profundamente espiritual.
Esta temática atravessa toda a Liturgia da Palavra de hoje.
A primeira e a segunda Leitura falam, respectivamente, de
São Pedro e
de
São
Paulo,
salientando exatamente a ação libertadora de Deus sobre
eles. Especialmente o texto dos Atos dos Apóstolos descreve
com abundância de detalhes a intervenção do anjo do
Senhor, que soltou Pedro das correntes e o conduziu para
fora do cárcere de Jerusalém, onde o havia aprisionado, sob
rígida vigilância, o rei Herodes (cf. At 12, 1-11 ).
Paulo, por sua vez, escrevendo
a Timóteo quando sente que está perto o fim de sua vida
terra, faz um balanço final do qual emerge que o
Senhor esteve sempre perto de si, o livrou de muitos perigos
e ainda o libertará, introduzindo-o em seu Reino eterno
(cf. II Tm 4, 6-8.17-18). O tema é reforçado pelo Salmo
Responsorial (Sal 33), e encontra um particular
desenvolvimento também no trecho evangélico da
confissão de Pedro, lá onde Cristo promete que as forças do
inferno não prevalecerão sobre sua Igreja (cf. Mt
16, 18).
Observando-se bem, nota-se, com relação a esta temática, uma
certa progressão. Na primeira Leitura, é narrado um episódio
que mostra a intervenção específica do Senhor para libertar
Pedro da prisão; na segunda, Paulo, com base em sua
extraordinária experiência apostólica, afirma estar
convencido de que o Senhor, que já o havia livrado "da boca
do leão", o livrará de "todo o mal", abrindo-lhe as portas
do Céu; no Evangelho, ao contrário, não se fala mais dos
Apóstolos individualmente, mas da Igreja no seu conjunto e
da sua proteção com relação às forças do mal, entendida em
sentido amplo e profundo.
Desse modo, vemos que a promessa de Jesus
- "as forças do
inferno não prevalecerão" sobre a Igreja
- compreende, sim,
as experiências históricas de perseguição
sofridas por Pedro e Paulo e outras testemunhas do
Evangelho, mas vai além, desejando assegurar a proteção
sobretudo contra as ameaças de ordem espiritual;
segundo o que Paulo escreve na Carta aos Efésios:
"Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de
lutar, mas contra os principados e potestades, contra os
príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças
espirituais do mal (espalhadas) nos ares" (Ef 6,
12).
Com
efeito, se pensamos nos dois milênios de história da Igreja,
podemos observar que -
como havia prenunciado o
Senhor Jesus
(cf. Mt 10, 16-33)
-
nunca faltaram
para os cristãos as provações, que em alguns períodos e
lugares assumiram o caráter de verdadeiras e próprias
perseguições.
Essas, no entanto, apesar do sofrimento que provocam, não
constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior,
de fato, provém daquilo que polui a fé e a vida cristã dos
seus membros e das suas comunidades, afetando a integridade
do Corpo Místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia
e testemunho, manchando a beleza de seu rosto.
Essa realidade é atestada já no epistolário [cartas] paulino.
A Primeira Carta aos Coríntios,
por exemplo, responde exatamente a alguns problemas de
divisões, incoerências, infidelidade ao
Evangelho, que ameaçam
seriamente a Igreja. Mas também a Segunda Carta a Timóteo -
da qual ouvimos uma parte - fala sobre os perigos dos
"últimos tempos", identificando-os com atitudes negativas
que pertencem ao mundo e podem contagiar a comunidade
cristã: egoísmo, vaidade, orgulho, apego ao dinheiro,
etc. (cf. 3, 1-5). A conclusão do Apóstolo é
reconfortante: os homens que fazem o mal - escreve -
"não irão longe, porque será manifesta a todos a sua
insensatez" (3, 9).
Existe, portanto, uma garantia de liberdade assegurada por
Deus à Igreja, liberdade seja dos laços materiais que
procuram impedir ou coagir a missão, seja dos males
espirituais e morais, que podem afetar a autenticidade e
credibilidade.
O tema da liberdade da Igreja, garantida por Cristo a Pedro,
tem também uma relevância específica para o rito da
imposição do pálio, que hoje renovamos para trinta e oito
Arcebispos Metropolitanos, aos quais dirijo a minha mais
cordial saudação, estendendo-a com afeto àqueles que
quiseram acompanhá-los nesta peregrinação.
A comunhão com Pedro e seus sucessores, de fato, é garantia
de liberdade para os pastores da Igreja e para a própria
Comunidade a eles confiada.
E isso em ambos os planos destacados nas reflexões
precedentes.
No
plano histórico, a união com a Sé Apostólica assegura às
Igrejas particulares e às Conferências Episcopais a
liberdade com relação aos poderes locais, nacionais ou
supranacionais, que podem, em certos casos, obstaculizar a
missão da Igreja.
Além disso, e mais
essencialmente, o ministério petrino é garantia de liberdade
no sentido da plena adesão à verdade, à autêntica tradição,
de tal forma que o Povo de Deus seja preservado de erros
concernentes à fé e à moral. Daí que o
fato de, todo o ano, os novos Metropolitanos virem a Roma
para receber o Pálio das mãos do Papa deva ser compreendido
no seu significado próprio, como gesto de comunhão,
e o tema da liberdade da Igreja nos oferece uma chave de
leitura particularmente importante. Isso aparece de modo
evidente no caso das Igrejas marcadas pela perseguição, ou
sujeitas a interferências políticas ou outras duras
provações.
Mas isso não é menos relevante
no caso de Comunidades que padecem a influência de doutrinas
enganadoras, ou de tendências ideológicas e práticas
contrárias ao Evangelho. O pálio, assim, torna-se, neste
sentido, um compromisso de liberdade, analogamente ao "jugo"
de Jesus, que Ele convida a tomar, cada um sobre seus
próprios ombros (cf. Mt 11, 29-30).
Como
o mandamento de Cristo - embora exigente - é
"doce e leve"
e, ao invés de pesar sobre quem o leva, o levanta, assim o
vínculo com a Sé Apostólica - embora desafiador - sustenta o
Pastor e a porção da Igreja confiada aos seus cuidados,
tornando-lhes mais livres e mais fortes.
Uma última indicação gostaria de trazer da Palavra de Deus,
em particular da
promessa de Cristo de que os poderes do inferno não
prevalecerão sobre sua Igreja. Essas palavras podem ter
também um significativo valor ecumênico, a partir do momento
que, como citei há pouco, um dos efeitos típicos da ação do
Maligno é exatamente a divisão no interior da comunidade
eclesial. As
divisões, de fato, são sintomas da força do pecado, que
continua a agir nos membros da Igreja mesmo após a redenção.
Mas a palavra de Cristo é
clara: "Non
praevalebunt - não
prevalecerão" (Mt 16, 18).
A
unidade da Igreja está enraizada na sua união com Cristo, e
a causa da plena unidade dos cristãos - sempre a se buscar e
renovar, de geração em geração - é, então, sustentada pela
sua oração e sua promessa.
Na luta contra o espírito do mal, Deus nos doou em Jesus
o "advogado" defensor, e, depois da sua Páscoa, "um outro
Paráclito" (cf. Jo
14, 16),
o Espírito Santo, que permanece conosco para sempre e
conduz a Igreja rumo à plenitude da verdade
(cf. Jo 14,16; 16, 13),
que é também a plenitude da caridade e da unidade.
Com esses sentimentos de
confiante esperança, tenho o prazer de saudar a Delegação do
Patriarcado de Constantinopla, que, segundo o belo costume
das visitas recíprocas, participa nas celebrações dos Santos
Patronos de Roma. Juntos, rendamos graças a Deus pelos
progressos nas relações ecumênicas entre católicos e
ortodoxos, e renovemos o compromisso de corresponder
generosamente à graça de Deus, que nos conduz à plena
comunhão.
Queridos amigos, saúdo cordialmente a cada um de vós:
Senhores Cardeais, Irmãos nos Episcopado, Senhores
Embaixadores e Autoridades civis, em particular o Prefeito
de Roma, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos. Obrigado
pela vossa presença. Os santos Apóstolos Pedro e Paulo
alcancem para vós um amar sempre mais e mais a Santa Igreja,
corpo místico de Cristo o Senhor e mensageira de unidade e
de paz para todos os homens. Vos alcancem também o oferecer
com alegria para a própria santidade e missão as fadigas e
sofrimentos suportados pela fidelidade ao Evangelho.
A Virgem Maria, Rainha
dos Apóstolos e Mãe da Igreja, assista sempre a vós,
em particular sobre o ministério dos Arcebispos
Metropolitanos. Com o seu celeste auxílio, possais sempre
viver e agir naquela liberdade que Cristo nos conquistou.
Amém.
Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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