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SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR
HOMILIA DE S. S. O PAPA BENTO XVI
25.12.2010 – Cidade do Vaticano – Basílica.
- Deus se fez frágil
como uma criança para mostrar ao mundo a sua fortaleza e vem
ao mundo para instituir ilhas de paz. Foi o premente
pensamento expresso por Bento XVI na noite desta sexta-feira
(24), na Missa do Galo celebrada na Basílica de São Pedro.
Amados irmãos e
irmãs!
"Tu és
meu filho, Eu hoje te gerei"
– com estas palavras do
Salmo
segundo, a Igreja dá início à liturgia da Noite Santa. Ela
sabe que esta frase pertencia, originariamente, ao rito da
coroação do rei de Israel. O rei, que por si só é um ser
humano como os outros homens, torna-se "filho de Deus"
por meio do chamamento e entronização na sua função:
trata-se de uma espécie de adoção por parte de Deus, uma ata
da decisão, pela qual Ele concede a este homem uma nova
existência, atraindo-o para o seu próprio ser.
De
modo ainda mais claro, a leitura tirada do profeta Isaías,
que acabamos de ouvir, apresenta o mesmo processo numa
situação de tribulação e ameaça para Israel: "Um
menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o
poder sobre os ombros" (9, 5).
A
entronização na função régia é como um novo nascimento. E,
precisamente como recém-nascido por decisão pessoal de Deus,
como menino proveniente de Deus, o rei constitui uma
esperança. O futuro assenta sobre os seus
ombros. É o detentor da promessa de paz.
Na
noite de Belém, esta palavra profética realizou-se de um
modo que, no tempo de Isaías, teria ainda sido inimaginável.
Sim, agora Aquele sobre cujos ombros está o poder é
verdadeiramente um menino. N’Ele aparece a nova realeza que
Deus institui no mundo. Este menino nasceu verdadeiramente
de Deus. É a Palavra eterna de Deus, que une mutuamente
humanidade e divindade.
Para este menino, são válidos os títulos de dignidade que
lhe atribui o cântico de coroação de Isaías:
Conselheiro admirável, Deus forte, Pai para sempre, Príncipe
da paz (9, 5). Sim, este rei não precisa de
conselheiros pertencentes aos sábios do mundo. Em Si mesmo
traz a sapiência e o conselho de Deus.
Precisamente na fragilidade de menino que é, Ele é o Deus
forte e assim nos mostra, face aos pretensiosos poderes do
mundo, a fortaleza própria de Deus.
Na
verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não
passavam de palavras rituais de esperança, que de longe
previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum
dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de
tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação
de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o
domínio das terras distantes (Sal
2, 8) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se
fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações
apontando para um futuro que então era ainda inconcebível.
Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de
Belém,
é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do
mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava
intuir.
É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus,
é verdadeiramente "Deus de Deus, Luz da Luz, gerado,
não criado, consubstancial ao Pai".
Fica
superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não
Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os
Salmos; Ele
"desceu" verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de
nós para nos atrair a todos para Si.
Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus conosco.
O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da
terra.
Na
imensidão universal da Sagrada Eucaristia,
Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado
onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que
é própria de Deus.
Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes
a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração,
Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do
coração. Mas é verdade também que "o bastão do opressor" não
foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos
soldados e temos ainda incessantemente a "veste manchada de
sangue" (Is
9, 3-4).
Assim
faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus.
Damos graças
porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por
assim dizer mendiga o nosso amor,
infunde a sua paz no nosso coração.
Mas
este júbilo é também uma prece:
Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o
bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com
que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe.
Realizai a promessa de "uma paz sem fim" (Is
9, 6).
Nós
Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também:
mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa
verdade, do vosso amor
– o "reino da justiça, do amor e da
paz".
"Maria
deu à luz o seu filho primogênito"
(Lc 2,
7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente
sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas,
na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado.
Lucas designa o menino como "primogênito". Na linguagem que
se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança,
"primogênito" não significa o primeiro de uma série de
outros filhos. A palavra "primogênito" é um título de honra,
independentemente do fato se depois se seguem outros irmãs e
irmãs ou não.
Assim,
no Livro do Êxodo,
Israel é chamado por Deus "o meu filho primogênito"
(Ex 4,
22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade
única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente
sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em
Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a
Israel. Assim a Carta
aos Hebreus chama Jesus "o primogênito"
simplesmente para O qualificar, depois das preparações no
Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf.
Heb 1,
5-7).
O
primogênito pertence de maneira especial a Deus, e por isso
– como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de
modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de
substituição, como São Lucas narra no episódio da
apresentação de Jesus no templo.
O primogênito pertence a
Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao
sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de
uma forma única o destino do primogênito. Em Si mesmo, Jesus
oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma
maneira tal que Deus seja tudo em todos.
Paulo,
nas Cartas aos
Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou
a ideia de Jesus como primogênito: Jesus – dizem-nos as
referidas Cartas – é o primogênito da criação, o verdadeiro
arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem.
O homem pode
ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a
verdadeira imagem de Deus e do homem.
Ele é o primogênito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas
Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por
todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na
comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogênito
de muitos irmãos.
Sim,
agora Ele também é o primeiro de uma série de irmãos, isto
é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com
Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade,
deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rômulo e Remo, mas
a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus.
Esta nova família de Deus começa no momento em que
Maria envolve o "primogênito" em faixas e O reclina na
manjedoura.
Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como
o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira
fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós.
Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim,
naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os
homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como
irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa
família.
No
fim, o Evangelho de Natal narra-nos que uma multidão de
anjos do exército celeste louvava a Deus e dizia:
"Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que
Ele ama" (Lc
2, 14). A Igreja ampliou este louvor que os anjos entoaram à
vista do acontecimento da Noite Santa, fazendo dele um hino
de júbilo sobre a glória de Deus. "Nós Vos damos
graças por vossa imensa glória". Nós Vos damos
graças pela beleza, pela grandeza, pela bondade de Deus,
que, nesta noite, se tornam visíveis para nós.
A
manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que
devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. A glória de
Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o
deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente
alegria; e, nesta noite, vemos algo da sua luz.
Mas a
mensagem dos anjos na Noite Santa também fala dos homens:
"Paz aos homens que Ele ama". A tradução latina
desta frase, que usamos na Liturgia e remonta a São
Jerônimo, interpreta diversamente: "Paz aos homens de
boa vontade". Precisamente nos últimos decênios,
esta expressão "os homens de boa vontade" entrou de modo
particular no vocabulário da Igreja. Mas qual é a tradução
justa? Devemos ler, juntas, as duas versões; só assim
compreendemos retamente a frase dos anjos.
Seria
errada uma interpretação que reconhecesse apenas o agir
exclusivo de Deus, como se Ele não tivesse chamado o homem a
uma resposta livre e amorosa. Mas seria errada também uma
resposta moralizante, segundo a qual o homem com a sua boa
vontade poder-se-ia, por assim dizer, redimir a si próprio.
As
duas coisas andam juntas:
graça e liberdade;
o amor de Deus, que nos precede e sem o qual não O poderemos
amar, e a nossa resposta, que Ele espera e até no-la suplica
no nascimento do seu Filho.
O entrelaçamento de graça
e liberdade, o entrelaçamento de apelo e resposta não
podemos dividi-lo em partes separadas uma da outra.
Ambas estão indivisivelmente entrançadas entre si.
Assim esta frase é simultaneamente promessa e apelo. Deus
precedeu-nos com o dom do seu Filho. E, sempre de novo e de
forma inesperada, Deus nos precede.
Não
cessa de nos procurar, de nos levantar todas as vezes que o
necessitamos. Não abandona a ovelha extraviada no deserto,
onde se perdeu. Deus não se deixa confundir pelo nosso
pecado. Sempre de novo recomeça conosco. Todavia espera que
amemos juntamente com Ele.
Ama-nos para que nos seja possível tornarmo-nos pessoas que
amam juntamente com Ele e, assim, possa haver paz na terra.
Lucas
não disse que os anjos cantaram. Muito sobriamente, escreve
que o exército celeste louvava a Deus e dizia: "Glória
a Deus nas alturas…" (Lc
2, 13-14). Mas desde sempre os homens souberam que o falar
dos anjos é diverso do dos homens; e que, precisamente nesta
noite da jubilosa mensagem, tal falar foi um canto no qual
brilhou a glória sublime de Deus. Assim, desde o
início, este canto dos anjos foi entendido como música vinda
de Deus, mais ainda, como convite a unirmo-nos ao canto com
o coração em júbilo pelo fato de sermos amados por Deus.
Diz
Santo Agostinho:
Cantare amantis est – cantar é próprio de
quem ama. Assim ao longo dos séculos, o canto dos
anjos tornou-se sempre de novo um canto de amor e de júbilo,
um canto daqueles que amam. Nesta hora, associemo-nos,
cheios de gratidão, a este cantar de todos os séculos, que
une céu e terra, anjos e homens. Sim, Senhor, nós Vos damos
graças por vossa imensa glória. Nós Vos damos graças pelo
vosso amor. Fazei que nos tornemos cada vez mais
pessoas que amam juntamente convosco e, consequentemente,
pessoas de paz. Amém.
Fonte:
Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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