|

O brasileiro dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de
Aparecida.
Consistório Ordinário Público.
Ordenação
de 24 novos cardeais.
20.11.10 -
Cidade do Vaticano:
"O critério da grandeza e da primazia de Deus não é o
domínio, mas o serviço" – disse o Santo Padre, neste
sábado, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante o
Consistório Ordinário Público onde foram criados 24 novos
cardeais.
Senhores Cardeais,
veneráveis Irmãos no
Episcopado e no Sacerdócio,
caros irmãos e irmãs!
O senhor me doa a alegria de
cumprir, agora mais uma vez, este solene ato, mediante o
qual o Colégio Cardinalício se enriquece de novos Membros,
escolhidos das diversas partes do mundo: tratam-se de
Pastores que governam com zelo importantes comunidades
diocesanas, dos departamentos da Cúria Romana, ou que
serviram com exemplar fidelidade à Igreja e à Santa Sé.
De agora em diante, eles se
tornam parte do
coetus peculiaris,
que presta ao Sucessor de Pedro uma colaboração mais
imediata e assídua, sustentando-o no serviço de seu
ministério universal.
Para eles, em primeiro lugar,
dirijo a minha afetuosa saudação, renovando a expressão da
minha estima e do minha viva apreciação pelo testemunho que
rendem à Igreja e ao mundo. Em particular, saúdo o Arcebispo
Ângelo Amato e o agradeço pelas gentis expressões que me
direcionou.
Ofereço, então, as minhas
calorosas boas-vindas para as delegações oficiais de vários
países, e a todos que estão aqui reunidos para participar
neste evento, no qual esses veneráveis e caros Irmãos
recebem o sinal da dignidade cardinalícia, com a imposição
do barrete e atribuição do título de uma igreja em Roma.
O vínculo de especial comunhão e afeto, que liga esses novos
Cardeais ao Papa,
os tornam únicos e preciosos colaboradores do
alto mandato confiada por Cristo a Pedro, de pastorar o seu
rebanho
(Cf. Jo 21,15-17),
para
reunir os povos com a solicitude da caridade de Cristo.
É próprio deste amor que nasceu a Igreja, chamada a viver e
caminhar segundo o mandamento do Senhor, no qual se reassume
toda a Lei e as profecias. Estar unidos a Cristo na fé
e em comunhão com Ele, significa estar “arraigados e
alicerçados em amor” (Ef 3:17), o tecido que une
todos os membros do Corpo de Cristo.
A palavra de Deus há pouco
proclamada ajuda-nos a meditar sobre este aspecto tão
crucial. No Evangelho (Mc 10,32-45) coloca diante de
nossos olhos o ícone de Jesus como o Messias, profetizado
por Isaías (cf. Isaías 53), que não veio para
ser servido, mas para servir: o seu estilo de
vida se torna a base dos novos relacionamentos ao interno da
comunidade cristã e de um modo de exercer a autoridade.
Jesus está no caminho para
Jerusalém e anuncia pelo terceira vez,
indicando aos discípulos a rota pela qual se pretende
implementar o trabalho dado pelo Pai:
é o
caminho da humildade, dom de si para o sacrifício da vida,
caminho da Paixão, caminho da Cruz.
No entanto, mesmo após este
anúncio, assim como foi anunciado por seus antecessores, os
discípulos revelam toda a sua fadiga em compreender, em
operar o necessário “êxodo” de uma mentalidade humana
à uma mentalidade de Deus.
Neste caso estão os dois
filhos de Zebedeu, Tiago e João, que pedem a Jesus de sentar
nos primeiros lugares ao lado dele em sua “glória”,
manifestando expectativas e projetos de grandeza, de
autoridade, de honras segundo o mundo. Jesus, que conhece o
coração do homem, não fica perturbado com esse pedido, mas
logo coloca em luz o fluxo de profundidade: “vocês não
sabem o que pedem”; depois guia os dois irmãos a
compreender o que comporta segui-lo.
Qual é então o caminho que
deve percorrer quem quer ser discípulo? É o caminho do
Mestre, é o caminho da total obediência a Deus. Por isso,
Jesus pede a Tiago e João: estão dispostos a partilhar a
minha escolha para fazer a vontade plena do Pai? Estão
dispostos a percorrer esta estrada que passa pelo
humilhação, sofrimento e morte por amor? Os dois discípulos,
com suas respostas seguras, “podemos”, mostrando, mais uma
vez, não terem entendido o sentido real daquilo que promete
seu Mestre.
E de novo, Jesus, com
paciência, os faz dar um passo além: nem mesmo podem
tomar do cálice do sofrimento e do batismo da morte dá o
direito aos primeiros lugares, porque este é “para aquele
que está preparado”, está nas mãos do Pai Celeste;
o homem não deve calcular, deve simplesmente
abandonar-se em Deus, sem pretender, conformar-se a sua
vontade.
A indignação dos outros
discípulos se torna ocasião para estender o ensinamento a
toda comunidade. Antes de tudo, Jesus “chamou a si
mesmo”: é o gesto da vocação original, no qual se
convida a voltar.
É muito significativo este referir-se
ao momento constitutivo da vocação dos Dez em “estar com
Jesus", para serem enviados, porque recorda com clareza que
cada
ministério eclesial é sempre resposta a um chamado de Deus.
Não é jamais fruto de um projeto próprio ou de uma ambição
própria, mas é conformar a própria vontade àquela do Pai que
está no Céu,
como Cristo em Getsêmani (Cfr Lc 22,42).
Na
Igreja nenhum é patrão, mas todos são chamados, todos são
convidados,
todos são alcançados e guiados pela graça divina.
E esta é também a nossa segurança!
Basta
ouvir novamente a palavra de Jesus que pede “vem e
segue-me”, somente recordando a vocação original é
possível entender a própria presença e a própria missão na
Igreja, como autênticos discípulos.
O pedido de Tiago e João e a
indicação dos outros dez Apóstolos levantam uma questão
central na qual querem que Jesus responda: quem é
grande, quem é o primeiro para Deus?
Primeiro, olhe para o
comportamento que pode ser tomado por "aqueles que são
considerados os líderes das nações": "dominar e oprimir".
Jesus indica aos discípulos um modo completamente diferente:
“Entre vós, não é assim”. A sua comunidade
segue uma outra regra, uma outra lógica, um outro modelo:
“Quem quiser ser grande entre vós será o
vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós será
escravo de todos”.
O critério da
grandeza e primazia, segundo Deus, não é o domínio, mas o
serviço.
O diaconato é a lei fundamental do discípulo e da comunidade
cristã, e permite-nos intuir algo da
“soberania de Deus”.
E Jesus indica também o ponto de referência:
O Filho do homem, que veio
para servir, sintetizando assim a sua missão sobre a
categoria do serviço, compreendida não no sentido genérico,
mas naquele concreto da Cruz, na doação total da vida como
“resgate”, como redenção para muitos, e o indica como
condição para o seguir.
É a mensagem que vale aos Apóstolos, vale para toda a
Igreja, vale, sobretudo, para aqueles que têm a tarefa de
guiar o povo de Deus.
Não é a lógica do domínio, do poder segundo os critérios
humanos, mas a lógica de inclinar-se para lavar os pés, a
lógica do serviço, a lógica da Cruz que é a base de cada
serviço de autoridade. Em cada tempo, a Igreja se compromete
a cumprir esta lógica e testemunhá-la a fim de refletir a
“verdadeira
soberania de Deus”,
aquela do amor.
Venerados Irmãos eleitos à
dignidade cardinalícia, a missão, a qual Deus vos chama hoje
e que vos permite um serviço eclesial agora mais carregado
de responsabilidade, requer uma vontade sempre maior de
assumir o modelo do Filho de Deus, que veio em meio a nós
como aquele que serve (Cfr Lc 22:25-27). Se trata de
segui-lo na sua doação de amor humilde e total à Igreja, sua
esposa, sua Cruz: é sobre essa madeira que o grão de trigo,
deixado cair do Pai sob o campo do mundo, morre para se
tornar fruto maduro.
Por isso, requer um
enraizamento ainda mais profundo e firme em Cristo.
O
relacionamento íntimo com Ele, que transforma sempre mais a
vida de modo a poder dizer como São Paulo
“não sou eu quem vive, mas Cristo em mim”
(Gl 2,20); constitui a exigência primária para que o nosso
serviço seja sereno e feliz e possa dar o fruto que espera
Deus de nós.
Queridos irmãos e irmãs,
rezem pelos novos Cardeais! Amanhã, nesta
Basílica, durante a concelebração na solenidade de Cristo
Rei do Universo, lhes consentirei seus anéis. Será uma nova
ocasião para “louvar o Senhor, que permanece fiel para
sempre” (Sl 145), como respondemos no Salmo
Responsorial.
O seu Espírito sustenta os
novos portadores no empenho do serviço à Igreja, segundo o
Cristo da Cruz também, se necessário
usque ad effusionem
sanguinis,
prontos sempre – como nos dizia São Pedro na leitura
proclamada – a responder a qualquer um que nos
pergunte a razão da esperança que está em nós (cf 1
Pd 3:15). À Maria, Mãe da Igreja, confio os novos Cardeais e
seus serviços eclesiais, afim que, com ardor apostólico,
possam proclamar a todos os povos o amor misericordioso de
Deus. Amém.
Fonte: Boletim da Sala de
Imprensa da Santa Sé.
|