
Papa anuncia 2012 o Ano da Fé.
16.10.2011 - Cidade do Vaticano:
Bento XVI celebrou, neste domingo, na Basílica de São Pedro,
no Vaticano, o Santo Sacrifício da Missa para a Nova
Evangelização.
Veneráveis irmãos.
Queridos irmãos e irmãs;
Com alegria celebro hoje a Santa Missa a vós que sois
empenhados em muitas partes do mundo nas fronteiras da nova
evangelização.
Esta Liturgia é a conclusão do encontro que ontem vos chamou
a aprofundar-vos sobre os âmbitos de tal missão e a escutar
alguns significativos testemunhos. Eu mesmo quis
apresentar-vos alguns pensamentos, enquanto que hoje parto
com vocês o pão da Palavra e da Eucaristia, na certeza,
partilhada com todos vocês, que
sem Cristo, Palavra e Pão da vida, não podemos fazer nada.
Estou feliz que este Congresso se coloque no contexto do mês
de outubro, exatamente uma semana antes da Jornada
Missionária Mundial: isto nos chama a justa dimensão
universal da nova evangelização, em harmonia com a missão
ad gentes.
Dirijo
uma saudação cordial a todos vós, que acolheram o convite do
Pontifício Conselho para a promoção da Nova evangelização.
Em particular saúdo e agradeço o Presidente deste dicastério
de recente instituição, Dom Salvatores Fisichella e os seus
colaboradores.
Nos dirijamos agora às leituras bíblicas, nas quais hoje o
Senhor nos fala. A primeira, tirada do Livro de Isaías, nos
diz que
Deus é um, é único; não existem outros deuses além do
Senhor,
e fala também do potente Ciro, imperador dos persas, e isto
faz parte de um desígnio maior, que somente Deus conhece e
leva adiante.
Essa leitura nos dá um sentido teológico da história:
os acontecimentos da época, o suceder-se de grandes
potências estão sob o supremo domínio de Deus; nenhum poder
terreno pode colocar-se no seu lugar.
A teologia da história é um aspecto importante, essencial da
nova evangelização, porque os homens do nosso tempo, depois
da sequência de impérios totalitários do XX século, têm
necessidade de reencontrar um olhar reflexivo sobre o mundo
e sobre o tempo, um olhar verdadeiramente livre, pacífico,
aquele olhar que o Concilio Vaticano II transmitiu nos seus
Documentos, e que os meus Predecessores, o Servo de Deus
Paulo VI e o Beato João Paulo II, ilustraram com o
magistério deles.
A segunda leitura é o início da primeira carta aos
Tessalonicenses, e já isto é muito sugestivo, porque se
trata da leitura mais antiga que chega a nós do maior
evangelizador de todos os tempos, o apóstolo Paulo.
Ele nos diz antes de mais nada que não se evangeliza de
maneira isolada, já que, também ele havia os seus
colaboradores Silvano e Timóteo e muitos outros. E logo
acrescenta uma outra coisa muito importante:
que o anúncio dever ser precedido, acompanhado e seguido
pela oração.
Ele escreve de fato:
“O nosso Evangelho, de fato, não se difunde entre vós
somente por meio da palavra, mas também com a potência do
Espírito Santo e com toda a certeza”.
A evangelização, para ser eficaz tem
necessidade da força do Espírito, que anima o anúncio e
infunde em quem o leva a plena certeza da qual fala o
Apóstolo.
Esta palavra “certeza”, “plena certeza”, no original grego
pleroforìa,
é um vocábulo que não exprime tanto o aspecto subjetivo,
psicológico, mais sim a plenitude, a fidelidade, o ápice,
neste caso, do anúncio de Cristo. Anúncio que, para ser
completo e fiel, pede para vir acompanhado pelos sinais,
pelos gestos, como a pregação de Jesus.
Palavra, Espírito e certeza, assim compreendidas, são
portanto inseparáveis e fazem com que a mensagem evangélica
se difunda com eficácia.
Nos deteremos agora sobre o trecho do Evangelho. Se trata do
texto sobre legitimidade do tributo que deve ser pago a
César, que contém a célebre resposta de Jesus:
“Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Mas, antes de chegar a este ponto, existe uma passagem que
pode ser referida a todos que têm a missão de evangelizar.
De fato, os interlocutores de Jesus, discípulos dos fariseus
e herodianos se voltam a Jesus com uma certa consideração
dizendo:
“Sabemos que dizes a verdade e ensinais o caminho de Deus
segundo a verdade, sem te preocupares com ninguém".
É exatamente esta afirmação, que neste caso, é movida pela
hipocrisia, que deve atrair nossa atenção. Os discípulos dos
fariseus e os herodianos não acreditam naquilo que dizem. O
afirmam somente como uma
captatio benevolentiae
para serem ouvidos,
mas o coração deles está bem longe daquela verdade, e mais,
eles querem jogar Jesus em uma armadilha para poderem
acusá-lo.
Para
nós, ao contrário, aquela expressão de Jesus é preciosa e
verdadeira:
Jesus, de fato, é verdadeiro e ensina o caminho de Deus
segundo a verdade sem preocupar-se com ninguém. Ele mesmo é
este “caminho de Deus”, que nós somos chamados a percorrer.
Podemos citar aqui as palavras do mesmo Jesus, no Evangelho
de João:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
É iluminante, a propósito, o comentário de Santo Agostinho:
“Era necessário que Jesus dissesse: Eu sou o caminho, a
verdade e a vida, porque, uma vez conhecido o caminho,
faltava conhecer a meta. O caminho conduz à verdade, conduz
à vida. E nós, onde vamos, senão com Ele? E por qual via
caminharemos, se não através dEle?".
Os novos evangelizadores são chamados a caminhar por
primeiro neste Caminho que é Cristo, para levar os outros a
conhecer a beleza do Evangelho que dá a vida. E sobre este
Caminho não se caminha nunca sozinho, mas em companhia: uma
experiência de comunhão e de fraternidade que vem ofertada a
quantos encontramos, para que eles participem da nossa
experiência com Cristo e com a sua Igreja. Assim, o
testemunho unido ao anúncio pode abrir o coração de vários
que estão à procura da verdade, a fim que possam atingir o
sentido da própria vida.
Uma
breve reflexão também, sobre a questão central do tributo a
César. Jesus responde com um surpreendente realismo
político, ligado com o teocentrismo da tradição profética.
O tributo a César deve ser pago porque a imagem sobre a
moeda é a sua;
mas o
homem, cada homem, leva consigo uma outra imagem, aquela de
Deus, e portanto é a Ele, e somente a Ele, que cada um é
devedor da própria existência.
Os Padres da Igreja, pegando o gancho do fato que Jesus faz
referência à imagem do imperador impressa na moeda do
tributo, interpretaram este passo à luz do conceito
fundamental
do homem imagem de Deus,
contido no primeiro capítulo do Livro do Gênesis.
Um autor anônimo escreve:
“ A imagem de Deus não está impressa sobre o ouro, mas sobre
o gênero humano.
A
moeda de César é de ouro, a de Deus é a humanidade.
Portanto dê a tua riqueza material a César,
mas
reserves para a Deus a inocência única da tua consciência,
onde Deus é contemplado.
César, de fato, pediu a sua imagem sobre todas as moedas,
mas
Deus
escolheu o homem, que Ele criou para refletir a sua glória”.
E Santo Agostinho utilizou mais vezes esta referência nas
suas homilias:
“Se César pede a própria imagem impressa sobre a moeda,
afirma, não exigirá Deus do homem a imagem divina esculpida
por Ele?”.
E ainda:
“Como se restitui a César a moeda, assim se restitui a Deus
a alma iluminada e impressa da luz da sua face. Cristo, de
fato, habita no homem interior”.
Esta palavra de Jesus é rica de conteúdo antropológico, e
não se pode reduzi-la somente no âmbito político. A Igreja,
portanto, não se limita a recordar aos homens a justa
distinção entre a esfera da autoridade de César e a de Deus,
entre o âmbito político e o religioso.
A missão da Igreja, como a de Cristo, é essencialmente falar
de Deus,
fazer memória da sua soberania, chamar a todos,
especialmente os cristãos que rejeitaram a própria
identidade,
o
direito de Deus sobre aquilo que lhe pertence, isto é a
nossa vida.
Exatamente para dar renovado impulso à missão de toda a
Igreja de conduzir os homens para fora do deserto no qual
geralmente se encontram em direção do lugar da vida,
a amizade com Cristo que nos dá a vida em plenitude,
gostaria de anunciar nesta Celebração Eucarística que decidi
ordenar publicamente o
“Ano
da Fé”,
que ilustrarei com uma explicativa Carta Apostólica.
Este
“Ano
da Fé”
se iniciará em 11 de outubro de 2012, no 50º aniversário de
abertura do Concílio Vaticano II, e terminará em 24 de
novembro de 2013, Solenidade de Cristo Rei do Universo.
Será
um momento de graça e de empenho para uma sempre mais plena
conversão a Deus, para reforçar a nossa fé Nele e para
anuncia-lo com alegria ao homem do nosso tempo.
Caros irmãos e irmãos, vós estais entre os protagonistas da
evangelização nova que a Igreja propõe e leva adiante, com
dificuldades, mas com o mesmo entusiasmo dos primeiros
cristãos.
Em conclusão, faço minhas as expressões do Apóstolo Paulo
que escutamos: agradeço a Deus por todos vocês, e vos
asseguro que vos levo nas minhas orações, lembrando-me do
vosso empenho na fé, do vosso trabalho na caridade e da
vossa constante esperança no Senhor nosso Jesus Cristo.
A Virgem Maria, que não teve medo de responder “sim” à
Palavra do Senhor, e depois de tê-la concebida no ventre, se
colocou em caminho cheia de alegria e de esperança, seja
sempre o vosso modelo e a guia da vossa vida.
Aprendais da Mãe do Senhor e Nossa mãe a ser humildes e ao
mesmo tempo corajosos, simples e prudentes, mansos e fortes,
não com a força do mundo, mas com a da verdade. Amém.
Fonte:
Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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