|

A Catequese do Papa Bento XVI.
Deus encontra-se mais facilmente
com a oração do que com o
debate.
A audiência geral de quarta-feira, 21 de Outubro, com os
fiéis na Praça de São Pedro, foi dedicada ao ensinamento de
São Bernardo de Claraval.
Queridos irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado
"o último dos Padres" da Igreja, porque no século XII,
mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia
dos Padres.
Não conhecemos os pormenores os anos da sua infância;
sabemos contudo que ele nasceu em 1090 em Fontaines
na França, numa família numerosa e discretamente abastada.
Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes
liberais especialmente da gramática, da retórica e da
dialética na escola dos Cônegos da igreja de Saint-Vorles,
em Châtillon-sur-Seine e amadureceu lentamente a
decisão de entrar na vida religiosa.
Por volta dos vinte anos entrou em Cîteaux, uma
fundação monástica nova, mais ativa em relação aos antigos e
veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais
rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos
mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estevão
Harding, terceiro Abade de Cîteaux, para fundar o
mosteiro de Claraval (Clairvaux). Aqui o jovem Abade,
tinha apenas vinte e cinco anos, pôde apurar a própria
concepção da vida monástica, e empenhar-se em pô-la em
prática.
Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo
recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e
comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios
monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos
pobres. Entretanto a comunidade de Claraval
tornava-se cada vez mais numerosa, e multiplicava as suas
fundações.
Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma
ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes
quer de modestas condições sociais. Às muitas Cartas
deste período é preciso acrescentar numerosos Sermões,
assim como Sentenças e Tratados. Remonta sempre a
este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade
de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux,
figuras entre as mais importantes do século XII. A
partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves
questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo
teve que sair cada vez mais do seu mosteiro, e por vezes da
França.
Fundou também alguns mosteiros femininos, e foi
protagonista de um vivaz epistolário com Pedro o Venerável,
Abade de Cluny, sobre o qual falei na quarta-feira passada.
Dirigiu sobretudo os seus escritos polêmicos contra
Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de
fazer teologia, introduzindo sobretudo o método
dialético-filosófico na construção do pensamento teológico.
Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a
heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o
corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador.
Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa
dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo
cada vez mais difundidas. Devido a este aspecto da sua ação
apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim,
rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem.
Naquele mesmo período o santo Abade escreveu as suas obras
mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o
Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua
vida a sua morte verificou-se em 1153 Bernardo teve que
limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente.
Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das
Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Merece
ser mencionado um livro bastante particular, que ele
terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu
aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de
Efigênio III.
Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual,
escreveu a este seu filho espiritual o texto De
Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser
um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura
conveniente para os Papas de todos os tempos,
Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de
Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da
Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na
contemplação do mistério de Deus trino e uno:
"Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não
é bastante procurado", escreve o santo Abade
"mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais
facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então
aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa" (xiv,
32: pl 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.
Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais
da rica doutrina de Bernardo: eles referem-se a Jesus
Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua
solicitude pela participação íntima e vital do cristão no
amor de Deus em Jesus Cristo não contribui com novas
orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de
modo mais do que decidido, o Abade de Clairvaux
configura o teólogo com o contemplativo e com o místico.
Só Jesus insiste Bernardo diante dos complexos
raciocínios dialéticos do seu tempo só Jesus é "mel para os
lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração"
(mel in ore, in aure melos, in corde iubilum)".
Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela
tradição, de Doctor mellifluus: de fato, o seu
louvor de Jesus Cristo "escorre como o mel".
Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas duas
correntes filosóficas da época o Abade de Claraval não se
cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré.
"Todo o alimento da alma é árido", confessa,
"se não for aspergido com este óleo; insípido, se não
for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não
tem sabor, se nisso eu não ler Jesus". E conclui:
"Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se
eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus" (Sermones
in Cantica Canticorum xv, 6: pl 183, 847).
De fato, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus
consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e
do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para
cada cristão: a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo
com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua
amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo
cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais.
Que isto se verifique com cada um de nós!
Noutro célebre Sermão no domingo entre a oitava da
Assunção, o santo Abade descreve em termos apaixonados a
íntima participação de Maria no sacrifício redentor do
Filho. "Ó santa Mãe exclama ele deveras uma espada
trespassou a tua alma!... A violência da dor trespassou de
tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais
do que mártir, porque em ti a participação na paixão do
Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do
martírio" (14: pl 183, 437-438).
Bernardo não tem dúvidas: "per Mariam ad Iesum",
através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha
com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os
fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do
Sermone documenta também o lugar privilegiado da Virgem
na economia da salvação, após a particularíssima
participação da Mãe (compassio) no sacrifício do
Filho.
Não por acaso, um século e meio depois da morte de
Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina
Comédia, colocará nos lábios do "Doutor melífluo" a sublime
oração a Maria: "Virgem Mãe, filha do teu Filho, /
humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo
do eterno conselho,..." (Paraíso 33, vv.
1 ss.).
Estas reflexões, características de um apaixonado por
Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo
saudável não só os teólogos, mas todos os crentes.
Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais
sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as
forças da razão. São Bernardo, ao contrário,
solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja,
recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela
oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o
Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos
correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e
perdem a sua credibilidade.
A teologia remete para a "ciência dos santos",
para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua
sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de
referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo
de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem
procura melhor e encontra mais facilmente Deus
"com a oração do que com o debate".
No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada
evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua
cabeça no coração do Mestre.
Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com
as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia.
"Nos perigos, nas angústias, nas incertezas diz ele pensa
em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus
lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua
oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues,
não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar;
se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais;
se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te
cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta..."
(Hom. ii super "Missus est", 17: pl 183, 70-71).
Ao saudar em várias línguas os fiéis presentes, o
Papa disse aos de expressão portuguesa:
Amados brasileiros do Rio de Janeiro e demais peregrinos de
língua portuguesa, com afeto a todos saúdo e abençôo,
desejando que a vossa peregrinação até junto do túmulo dos
Apóstolos Pedro e Paulo reforce, em cada um, a sua fé. Esta
é, antes de tudo, encontro íntimo e pessoal com Jesus
Cristo. Que esta experiência vos leve a conhecê-Lo, amá-Lo e
segui-Lo cada vez mais! Ide com Deus!
|