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S.S.
BENTO XVI:
Visita
as relíquias de São Bento e de Santa Escolástica.
Nos ideais cristãos
a riqueza cultural e espiritual da Europa
Na tarde de domingo, 24 de Maio, o Papa presidiu à
celebração das Vésperas da Ascensão na basílica de
Montecassino, na presença de abades, monges e monjas
beneditinos de todo o mundo. No final o Pontífice venerou as
relíquias de São Bento e de Santa Escolástica. Foi esta a
homilia de Bento XVI.
Queridos irmãos e irmãs da grande família beneditina!
Na
conclusão da hodierna visita, é-me particularmente grato
deter-me neste lugar sagrado, nesta Abadia, quatro vezes
destruída e reconstruída, a última vez depois dos
bombardeamentos da II Guerra Mundial de há 65 anos. "Succisa
virescit": as palavras do seu novo brasão indicam bem a
sua história.
Montecassino, como secular sobreiro plantado por São Bento,
foi "devastado" pela violência da guerra, mas ressurgiu mais
vigoroso. Também eu tive a ocasião várias vezes de gozar da
hospitalidade dos monges, e nesta Abadia transcorri momentos
inesquecíveis de tranqüilidade e de oração. Esta tarde
entramos nela cantando as Laudes regiae para celebrar
juntos as Vésperas da solenidade da Ascensão de Jesus.
A cada
um de vós manifesto a alegria de partilhar este momento de
oração, saudando-vos a todos com afeto, grato pelo
acolhimento que me dedicastes e a quantos me acompanham
nesta peregrinação apostólica. Saúdo em particular o Abade
Dom Pietro Vittorelli, que se fez intérprete dos vossos
comuns sentimentos. Faço a minha saudação extensiva aos
Abades, às Abadessas e às comunidades beneditinas aqui
presentes.
Hoje a
liturgia convida-nos a contemplar o mistério da Ascensão do
Senhor. Na breve leitura, tirada da Primeira Carta de
Pedro, fomos exortados a fixar o olhar no nosso
Redentor, que morreu "de uma vez para sempre pelos pecados"
a fim de nos reconduzir a Deus, à cuja direita se encontra
"depois de ter subido ao céu e ter obtido a soberania sobre
os anjos, os Principados e os Poderes" (cf. 1 Pd 3,
18.22).
"Elevado ao alto" e tornado invisível aos olhos dos seus
discípulos, contudo Jesus não os abandonou: de fato, "tendo
morrido no corpo, mas não no espírito"
(1 Pd 3, 18), Ele está agora presente de modo novo,
interior nos crentes, e n'Ele a salvação é oferecida a cada
ser humano sem diferença de povo, língua nem cultura.
A
Primeira Carta de Pedro contém referências claras aos
acontecimentos cristológicos fundamentais da fé cristã. A
preocupação do Apóstolo é a de frisar o alcance universal da
salvação em Cristo. Encontramos uma idéia análoga em São
Paulo, do qual estamos a celebrar o bi-milênio do
nascimento, que escreveu à comunidade de Corinto: "Ele
(Cristo) morreu por todos a fim de que aqueles que vivem não
vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e
ressuscitou por eles" (2 Cor 5, 15).
Não
mais viver para si mesmos, mas para Cristo: eis o que dá
sentido pleno à vida de quem se deixa conquistar por Ele.
Manifesta-o claramente a vicissitude humana e espiritual de
São Bento, que, tendo deixado tudo, se pôs no fiel
seguimento de Jesus Cristo. Encarnando o Evangelho na
própria existência, tornou-se iniciador de um vasto
movimento de renascimento espiritual e cultural no Ocidente.
Gostaria de fazer aqui menção a um acontecimento
extraordinário da sua vida, referido pelo biógrafo São
Gregório Magno e que vós certamente conheceis bem.
Poder-se-ia quase dizer que também o santo Patriarca foi
"elevado ao alto" numa experiência mística indescritível. Na
noite de 29 de Outubro de 540 lê-se na biografia enquanto,
estando à janela, "com os olhar fixo nalgumas estrelas
absorvia-se na contemplação divina, o santo sentia que o
coração se lhe inflamava... Para ele o firmamento estrelado
era como a cortina bordada que revelava o Santo dos Santos.
A um certo ponto a sua alma sentia-se transportada para a
outra parte do véu, para contemplar manifestamente o rosto
d'Aquele que habita numa luz inacessível" (cf. a. i.
Schuster, Storia di san Benedetto e dei suoi tempi,
Ed. Abbazia di Viboldone, Milão, 1965, p. 11 e ss.).
Sem
dúvida, analogamente a quanto aconteceu com Paulo depois do
seu arrebatamento ao céu, também para São Bento,
precisamente depois desta extraordinária experiência
espiritual, teve que iniciar uma vida nova. De fato, se a
visão foi passageira, os efeitos permaneceram, a sua própria
fisionomia referem os biógrafos foi modificada, o seu
aspecto permaneceu sempre sereno e de aspecto sempre
angélico e, mesmo vivendo na terra, compreendia-se que com o
coração já estava no Paraíso.
São
Bento recebeu este dom divino certamente não para satisfazer
a sua curiosidade intelectual, mas antes porque o carisma do
qual Deus o tinha dotado tivesse a capacidade de reproduzir
no mosteiro a própria vida do céu e restabelecer nele a
harmonia da criação mediante a contemplação e o trabalho.
Portanto, justamente, a Igreja o venera como "eminente
mestre de vida monástica" e "doutor de sabedoria espiritual
no amor à oração e ao trabalho"; "guia brilhante de
povos à luz do Evangelho" que "elevado ao céu por um caminho
luminoso" ensina aos homens de todos os tempos a procurar
Deus e as riquezas eternas por Ele preparadas (cf.
Prefácio do Santo no suplemento monástico no mr, 1980,
153).
Sim,
Bento foi exemplo luminoso de santidade e indicou aos monges
Cristo como único grande ideal; foi mestre de civilização
que, propondo uma equilibrada e adequada visão das
exigências divinas e das finalidades últimas do homem, teve
sempre muito presentes também as necessidades e as razões do
coração, para ensinar e suscitar uma fraternidade autêntica
e constante, para que no conjunto dos relacionamentos
sociais não se perdesse de vista uma unidade de espírito
capaz de construir e alimentar sempre a paz.
Não
ocasionalmente é a palavra Pax que recebe os
peregrinos e os visitadores nas portas desta Abadia,
reconstruída depois da imane tragédia do segundo conflito
mundial; ela eleva-se como silenciosa admoestação a rejeitar
qualquer forma de violência para construir a paz: nas
famílias, nas comunidades, entre os povos e em toda a
humanidade. São Bento convida cada pessoa que sobe a este
Monte a procurar a paz e a segui-la: "inquire pacem et
sequere eam (Ps. 33, 14-15)" (Regra, Prefácio,
17).
Na sua
escola os mosteiros tornaram-se, ao longo dos séculos,
fervorosos centros de diálogo, de encontro e de benéfica
fusão entre povos diversos, unificados pela cultura
evangélica da paz. Os monges souberam ensinar com a palavra
e com o exemplo a arte da paz atuando de modo concreto os
três "vínculos" que Bento indica como necessários para
conservar a unidade do Espírito entre os homens: a Cruz,
que é a própria lei de Cristo; o livro, isto é, a cultura; e
o arado, que indica o trabalho, o senhorio sobre a matéria e
sobre o tempo.
Graças
à atividade dos mosteiros, desempenhada no tríplice
compromisso quotidiano da oração, do estudo e do
trabalho, povos inteiros do continente europeu
conheceram um autêntico resgate e um benéfico
desenvolvimento moral, espiritual e cultural, educando-se no
sentido da continuidade com o passado, na ação concreta pelo
bem comum, na abertura a Deus e à dimensão transcendente.
Rezemos para que a Europa saiba sempre valorizar este
patrimônio de princípios e de ideais cristãos que constitui
uma imensa riqueza cultural e espiritual.
Porém, isto só é possível se acolhermos o constante
ensinamento de São Bento, ou seja, o "quaerere Deum",
procurar Deus, como compromisso fundamental do homem. O ser
humano não se realiza plenamente a si mesmo, não pode ser
deveras feliz sem Deus.
Compete sobre tudo a vós, queridos monges, ser exemplos
viventes desta interior e profunda relação com Ele,
realizando sem sujeições o programa que o vosso Fundador
sintetizou no "nihil amori Christi praeponere", "nada
antepor ao amor de Cristo" (Regra 4, 21). Consiste
nisto a santidade, proposta válida para cada cristão, e mais
do que nunca na nossa época na qual se sente a necessidade
de ancorar a vida e a história em firmes referências
espirituais. Por isso, queridos irmãos e irmãs, é atual como
nunca a vossa vocação e é indispensável a vossa missão de
monges.
Deste
lugar, onde repousam os seus despojos mortais, o santo
Padroeiro da Europa continua a convidar todos a prosseguir a
sua obra de evangelização e de promoção humana. Encoraja em
primeiro lugar a vós, queridos monges, a permanecer fiéis ao
espírito das origens e a ser intérpretes autênticos do seu
programa de renascimento espiritual e social.
Que o
Senhor vos conceda este dom, por intercessão do vosso Santo
Fundador, da irmã Santa Escolástica e dos Santos e Santas da
Ordem. E a celeste Mãe do Senhor, que hoje invocamos como
"Ajuda dos cristãos", vele sobre vós e proteja esta Abadia e
todos os vossos mosteiros, assim como a comunidade diocesana
que vive nos arredores de Montecassino. Amém!
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