|

CATEQUESE
DO PAPA BENTO XVI.
Na Igreja, Deus fala e passeia conosco.
Na
audiência geral de quarta-feira, 29 de Abril,
na
Praça de São Pedro, o Santo Padre falou sobre o
Patriarca Germano de Constantinopla,
afirmando que na Igreja se torna presente a beleza de Deus
apesar dos pecados dos homens.
Queridos irmãos e irmãs!
O
Patriarca Germano de Constantinopla, do qual gostaria de
falar hoje, não pertence às figuras mais representativas do
mundo cristão oriental de língua grega, mas o seu nome
aparece com uma certa solenidade na lista dos grandes
defensores das imagens sagradas, redigida no Segundo
Concílio de Nicéia (787).
A
Igreja grega celebra a sua festa na liturgia de 12 de Maio.
Ele desempenhou um papel significativo na complexa
história da luta pelas imagens, durante a chamada crise
iconoclasta: soube resistir validamente às pressões de um
Imperador iconoclasta, ou seja, adversário dos ícones, como
foi Leão III.
Durante o patriarcado de Germano (715-730) a capital do
império bizantino, Constantinopla, sofreu um perigosíssimo
assédio por parte dos Sarracenos. Naquela ocasião (717-718)
foi organizada uma solene procissão na cidade com a
exposição da imagem da Mãe de Deus, a Theotokos, e da
relíquia da Santa Cruz, para invocar do Alto a defesa da
cidade. De fato, Constantinopla foi libertada do assédio. Os
adversários decidiram desistir para sempre da idéia de
estabelecer a sua capital na cidade-símbolo do Império
cristão e o reconhecimento pela ajuda divina foi
extremamente grande no povo.
O
Patriarca Germano, depois daquele acontecimento,
convenceu-se de que a intervenção de Deus devia ser
considerada uma aprovação evidente da piedade demonstrada
pelo povo em relação aos santos ícones. De parecer
completamente diverso foi ao contrário o Imperador Leão III,
que precisamente a partir daquele ano (717) se insediou como
Imperador indiscutível na capital, sobre a qual reinou até
741.
Após a
libertação de Constantinopla e depois de uma série de outras
vitórias, o Imperador cristão começou a manifestar cada vez
mais abertamente a convicção de que a consolidação do
Império tivesse que começar precisamente por uma
reorganização das manifestações da fé, com particular
referência ao risco de idolatria ao qual, a seu parecer, o
povo estava exposto por causa do excessivo culto dos ícones.
Foram
em vão as chamadas do Patriarca Germano à tradição da Igreja
e à efetiva eficiência de algumas imagens, que eram
unanimemente reconhecidas como "milagrosas".
O Imperador tornou-se cada vez mais irremovível na aplicação
do seu projeto restaurador, que previa a eliminação dos
ícones. E quando a 17 de Janeiro de 730 ele se declarou
abertamente numa reunião pública contra o culto das
imagens, Germano não quis de modo algum
submeter-se à vontade do Imperador sobre questões por ele
consideradas determinantes para a fé ortodoxa, à qual
segundo ele pertencia precisamente o culto, o amor pelas
imagens.
Como
conseqüência, Germano viu-se obrigado a demitir-se do cargo
de Patriarca, autocondenando-se ao exílio num mosteiro onde
morreu esquecido por quase todos. O seu nome ressurgiu por
ocasião precisamente do Segundo Concílio de Nicéia (787),
quando os Padres ortodoxos decidiram em favor dos ícones,
reconhecendo os méritos de Germano.
O
Patriarca Germano cuidava muito das celebrações litúrgicas
e, durante um certo tempo, foi considerado também o
instaurador da festa do Akatistos. Como se sabe, o Akatistos
é um antigo e famoso hino que surgiu em âmbito bizantino e é
dedicado à Theotokos, a Mãe de Deus.
Mesmo se do ponto de vista teológico não se pode qualificar
Germano como um grande pensador, algumas das suas obras
tiveram uma certa ressonância sobretudo devido a algumas
suas intuições sobre a mariologia.
Dele
foram conservadas, de fato, diversas homilias com tema
mariano e algumas delas marcaram profundamente a piedade de
inteiras gerações de fiéis quer no Oriente quer no Ocidente.
As suas maravilhosas Homilias sobre a Apresentação de
Maria no Templo são ainda hoje testemunhos vivos da
tradição não escrita das Igrejas cristãs. Gerações de
monjas, de monges e de membros de numerosíssimos Institutos
de Vida Consagrada, continuam também hoje a encontrar
naqueles textos tesouros preciosíssimos de espiritualidade.
Ainda
hoje causam admiração alguns textos mariológicos de Germano
que fazem parte das homilias pronunciadas In SS. Deiparae
dormitionem, festividade correspondente à nossa festa da
Assunção. Destes textos o Papa Pio XII extraiu um que
encastoou como uma pérola na Constituição apostólica
Munificentissimus Deus (1950), com a qual declarou dogma de
fé a Assunção de Maria.
O Papa
Pio XII citou este texto na mencionada Constituição,
apresentando-o como um dos argumentos a favor da fé
permanente da Igreja sobre a Assunção corporal de Maria ao
céu. Germano escreve:
"Poderia acontecer, santíssima Mãe de Deus, que o céu e a
terra se sentissem honrados pela tua presença, e tu, com a
tua partida, deixasses os homens privados da tua proteção?
Não. É impossível pensar estas coisas. De fato, assim como
quando estavas no mundo não te sentias alheia às realidades
do céu, assim também depois de teres emigrado deste mundo
não te alheastes minimamente da possibilidade de comunicar
em espírito com os homens... Não abandonastes absolutamente
aqueles aos quais garantistes a salvação... de fato, o teu
espírito vive eternamente e a tua carne não sofreu a
corrupção do sepulcro. Tu, ó Mãe, estás próxima de todos e a
todos proteges, não obstante os nossos olhos estejam
impedidos de te ver, contudo sabemos, ó Santíssima, que tu
habitas entre todos nós e te tornas presente nos modos mais
diversos... Tu (Maria) revelas-te toda, como está escrito,
na tua beleza. O teu corpo virginal é totalmente santo, todo
casto, todo casa de Deus de modo que, também por isso, é
absolutamente refratário a qualquer redução em pó. Ele é
imutável, do momento em que o que nele era humano foi
assumido na incorruptibilidade, permanecendo vivo e
absolutamente glorioso, incólume e partícipe da vida
perfeita. De fato, era impossível que fosse fechada no
sepulcro dos mortos aquela que se tinha tornado vaso de Deus
e templo vivo da santíssima divindade do Unigênito. Por
outro lado, nós cremos com certeza que tu continuas a
caminhar conosco"
(pg 98, col. 344b-346b, passim).
Foi
dito que para os Bizantinos o decoro da forma retórica na
pregação, e ainda mais nos hinos ou composições poéticas que
eles chamam tropários, é tão importante na celebração
litúrgica como a beleza do edifício sagrado no qual ela se
realiza. O Patriarca Germano foi reconhecido, naquela
tradição, como um dos que contribuíram muito para manter
viva esta convicção, ou seja, que a beleza da palavra, da
linguagem, do edifício e da música devem coincidir.
Cito,
para concluir, as palavras inspiradas com as quais Germano
qualifica a Igreja no início desta sua pequena obra prima:
"A
Igreja é templo de Deus, espaço sagrado, casa de oração,
convocação de povo, corpo de Cristo... É o céu na terra,
onde Deus transcendente habita como em sua casa e nela
passeia, mas é também marca realizada (antitypos) da
crucifixão, do túmulo e da ressurreição... A Igreja é a casa
de Deus na qual se celebra o sacrifício místico vivificante,
e ao mesmo tempo parte mais íntima do santuário e gruta
santa. De fato, encontram-se no seu interior o sepulcro e a
mesa, alimentos para a alma e garantia de vida. Por fim,
encontram-se nela aquelas verdadeiras pérolas preciosas que
são os dogmas divinos do ensinamento oferecido diretamente
pelo Senhor aos seus discípulos"
(pg
98, col. 384b-385a).
No
final permanece a pergunta: o que tem para nos dizer hoje
este Santo, cronológica e também culturalmente muito
distante de nós? Penso substancialmente em três coisas.
A
primeira: há uma certa visibilidade de Deus no mundo,
na Igreja, que devemos aprender a compreender. Deus
criou o homem à sua imagem, mas esta imagem foi coberta por
tanta sujidade do pecado, em conseqüência da qual Deus já
não transparecia. Assim, o Filho de Deus fez-se
verdadeiro homem, imagem perfeita de Deus: desta maneira,
em Cristo podemos contemplar também o rosto de Deus e
aprender a sermos nós próprios verdadeiros homens,
verdadeiras imagens de Deus. Cristo convida-nos a imitá-LO,
a tornarmo-nos semelhantes a Ele, de modo que transpareça de
novo em cada homem o rosto de Deus, a imagem de Deus.
Na
verdade, Deus tinha proibido no Decálogo que se fizessem
imagens de Deus, mas isto era por causa das tentações
de idolatria às quais o crente podia estar exposto num
contexto de paganismo.
Mas quando Deus se fez visível em
Cristo mediante a encarnação, tornou-se legítimo reproduzir
o rosto de Cristo. As santas imagens
ensinam-nos a ver Deus na representação do rosto de Cristo.
Depois da encarnação do Filho de Deus, tornou-se portanto
possível ver Deus nas imagens de Cristo e também no rosto
dos Santos, no rosto de todos os homens nos quais
resplandece a santidade de Deus.
O
segundo aspecto é a beleza e a dignidade da liturgia.
Celebrar a liturgia conscientes da presença de Deus,
com aquela dignidade e beleza que faça ver um pouco do seu
esplendor, é o compromisso de cada cristão formado na sua
fé.
O
terceiro aspecto é amar a Igreja. Precisamente
a propósito da Igreja, nós homens propendemos para ver
sobretudo os pecados, o negativo; mas com a ajuda da
fé, que nos torna capazes de ver de modo autêntico, podemos
também, hoje e sempre, redescobrir nela a beleza divina.
É na Igreja que Deus se torna presente, se oferece a
nós na Santa Eucaristia e permanece presente para a
adoração. Na Igreja Deus fala conosco, na Igreja
"Deus passeia conosco", como dizia
São Germano. Na Igreja recebemos o perdão de Deus e
aprendemos a perdoar.
Peçamos a Deus para que nos ensine a ver na Igreja a
sua presença, a sua beleza, a ver a sua presença no mundo,
e nos ajude a ser, também nós, transparentes à sua
luz.
No
final da audiência o Santo Padre saudou os peregrinos
presentes, dizendo aos de expressão portuguesa:
Amados
peregrinos de língua portuguesa, uma saudação afetuosa para
todos, especialmente para os grupos do Brasil e de Portugal!
Que a vossa amorosa adesão a Cristo e à Sua Igreja se
robusteça ao professardes a fé nestes lugares santificados
pelo testemunho dos Apóstolos Pedro e Paulo, que serviram
Cristo e amaram a Igreja até ao martírio. A todos sirva
de estímulo e conforto a Bênção que vos dou a vós, aos
vossos familiares e comunidades eclesiais.
|