
A Catequese
do Papa Bento XVI.
Mudança de vida radical
a exemplo de Santo Odon de Cluny
O Papa
dedicou a catequese da audiência geral de quarta-feira 2 de
Setembro, à reflexão sobre a figura e o exemplo do abade
beneditino de Cluny, Santo Odon.
Queridos irmãos e irmãs
Depois
de uma longa pausa, gostaria de retomar a apresentação dos
grandes Escritores da Igreja do Oriente e do Ocidente da
época medieval porque, como num espelho, nas suas vidas e
nos escritos vemos o que quer dizer ser cristão.Hoje
proponho-vos a figura luminosa de Santo Odon, abade de Cluny:
ela insere-se naquela idade média monástica que viu o
surpreendente difundir-se na Europa da vida e da
espiritualidade inspiradas na Regra de São Bento.
Naqueles séculos houve um prodigioso surgir e multiplicar-se
de claustros que, ramificando-se no continente, difundiram
amplamente o espírito e a sensibilidade cristã. Santo Odon
leva-nos, em particular, a um mosteiro, Cluny, que na
idade média foi um dos mais ilustres e celebrados, e ainda
hoje revela através das suas ruínas majestosas os
sinais de um passado glorioso pela intensa dedicação à
ascese, ao estudo e, de modo especial, ao culto
divino, repleto de decoro e de beleza.
Odon
foi o segundo abade de Cluny. Nascera por volta de 880, nos
confins entre o Maine e a Touraine, na França. O seu pai
consagrou-o ao santo bispo Martinho de Tours, sob cujas
sombra benéfica e memória, depois, Odon passou toda a sua
vida, concluindo-a no final junto do seu túmulo. Nele, a
escolha da consagração religiosa foi precedida pela
experiência de um momento de graça especial, do qual ele
mesmo falou a outro monge, João, o Italiano, que depois foi
seu biógrafo.
Odon
era ainda adolescente, tinha cerca de 16 anos quando,
durante uma vigília de Natal, sentiu subir espontaneamente
aos lábios esta oração à Virgem: "Minha Senhora, Mãe
de misericórdia, que nesta noite deste à luz o Salvador,
intercede por mim. Ó Piedosíssima, o teu parto glorioso e
singular seja o meu refúgio" (Vita sancti Odonis,
i 9: pl 133, 747).
O
apelativo "Mãe de misericórdia", com que então
o jovem Odon invocou a Virgem, será aquele com que depois
gostará de se dirigir a Maria, chamando-lhe também
"única esperança do mundo... graças à qual nos foram abertas
as portas do paraíso" (In veneratione S. Mariae
Magdalenae: pl 133, 721). Nessa época, encontrou a
Regra de São Bento e começou algumas das
suas observâncias, "carregando, quando ainda não era monge,
o jugo leve dos monges" (ibid., i, 14: pl
133, 50). Num dos seus sermões, Odon celebrará Bento como
"lâmpada que resplandece no estádio tenebroso desta vida"
(De sancto Benedicto abbate: pl 133, 725), e
qualificá-lo-á como "mestre de disciplina espiritual"
(ibid.: pl 133, 727). Com afeto, relevará que a
piedade cristã "com maior docilidade faz memória" dele, na
consciência de que Deus o elevou "entre os sumos e eleitos
Padres na santa Igreja" (ibid.: pl 133, 722).
Fascinado pelo ideal beneditino, Odon deixou Tours e entrou
como monge na abadia beneditina de Baume, e depois passou
para a de Cluny, da qual se tornou abade em 927. Daquele
centro de vida espiritual pôde exercer uma vasta influência
sobre os mosteiros do continente. Da sua guia e da sua
reforma beneficiaram também na Itália diversos cenóbios,
entre os quais o de São Paulo fora dos Muros. Odon visitou
Roma várias vezes, chegando também a Subiaco, Montecassino e
Salerno. Foi precisamente em Roma que, no Verão de 942,
adoeceu. Sentindo-se próximo do fim, com todos os esforços
quis regressar depressa junto do seu São Martinho, em Tours,
onde faleceu no oitavário do Santo, no dia 18 de Novembro de
942.
Ao
sublinhar em Odon a "virtude da paciência", o
biógrafo oferece um longo elenco de outras suas virtudes,
como o desprezo pelo mundo, o zelo pelas almas e o
compromisso pela paz das Igrejas. Grandes aspirações do
abade Odon eram a concórdia entre os reis e os príncipes, a
observância dos mandamentos, a atenção aos pobres, o
emendamento dos jovens, o respeito pelos idosos (cf. Vita
sancti Odonis, i 17: pl 133, 49). Gostava da
pequena cela onde residia, "subtraído aos olhos de
todos, solícito em agradar somente a Deus" (ibid.,
i 14: pl 133, 49). Porém, não deixava de exercer
também, como "fonte superabundante", o ministério da palavra
e do exemplo, "chorando este mundo como imensamente
miserável" (ibid., i 17: pl 133, 51).
Num só
monge, comenta o seu biógrafo, encontravam-se reunidas as
diversas virtudes existentes de forma espalhada nos outros
mosteiros: "Jesus na sua bondade, haurindo dos vários
jardins dos monges, formava num pequeno lugar um paraíso,
para irrigar a partir da sua fonte os corações dos fiéis"
(ibid., i 14: pl 133, 49).
Num
trecho de um sermão em honra a Maria de Magdala, o abade de
Cluny revela-nos como ele concebia a vida monástica:
"Maria que, sentada aos pés do Senhor, com espírito atento
ouvia a sua palavra, é o símbolo da docilidade da vida
contemplativa cujo gosto, quanto mais é saboreado, tanto
mais induz a alma a desapegar-se das coisas visíveis e dos
tumultos das preocupações do mundo" (In ven. S.
Mariae Magd., pl 133, 717).
É uma
concepção que Odon confirma e desenvolve nos outros seus
escritos, dos quais transparecem o amor pela interioridade,
uma visão do mundo como de uma realidade frágil e precária
da qual desarraigar-se, uma inclinação constante ao desapego
das coisas sentidas como fontes de inquietação, uma
sensibilidade perspicaz pela presença do mal nas várias
categorias de homens e uma íntima aspiração escatológica.
Esta visão do mundo pode parecer bastante distante da nossa,
todavia a de Odon é uma concepção que, vendo a
fragilidade do mundo, valoriza a vida interior aberta ao
outro, ao amor pelo próximo, e precisamente assim transforma
a existência e abre o mundo à luz de Deus.
Merece
particular menção a "devoção" ao Corpo e ao Sangue de
Cristo que Odon, diante de uma difundida negligência
por ele vivamente deplorada, sempre cultivou com convicção.
Com efeito, estava firmemente persuadido da presença
real, sob as espécies eucarísticas, do Corpo e do Sangue do
Senhor, em virtude da conversão "substancial" do pão e do
vinho. Escrevia: "Deus, o Criador de tudo, tomou o pão,
dizendo que era o seu Corpo, e que o teria oferecido pelo
mundo, e distribuiu o vinho, chamando-lhe seu Sangue";
pois bem, "é lei de natureza que se verifique a
mudança segundo o mandamento do Criador", e eis,
portanto, que "imediatamente a natureza muda a sua
condição habitual: sem hesitação, o pão torna-se carne, e o
vinho torna-se sangue"; à ordem do Senhor, "a substância
transforma-se" (Odonis Abb. Cluniac. occupatio,
ed. A. Swoboda, Leipzig 1900, pág. 121).
Infelizmente, anota o nosso abade, este "sacrossanto
mistério do Corpo do Senhor, no qual consiste toda a
salvação do mundo" (Collationes, xXVIii:
pl 133, 572), é celebrado com negligência. "Os
sacerdotes, ele admoesta, que acedem ao altar indignamente,
mancham o pão, ou seja, o Corpo de Cristo" (ibid.:
pl 133, 572-573). Só quem está unido
espiritualmente a Cristo pode participar de modo digno no
seu Corpo eucarístico: caso contrário, comer a sua carne e
beber o seu sangue não seria um benefício, mas uma
condenação (cf. ibid., xxx: pl 133,
575). Tudo isto nos convida a crer com nova força e
profundidade na verdade da presença do Senhor.
A presença do Criador no meio de nós, que se entrega nas
nossas mãos e nos transforma como transforma o pão e o
vinho, assim transforma o mundo.
Santo
Odon foi um verdadeiro guia espiritual, quer para os monges
quer para os fiéis do seu tempo. Diante da "vastidão
dos vícios" difundidos na sociedade, o remédio que
ele propunha com decisão era o de uma mudança de vida
radical, fundada sobre a humildade, a austeridade, o
desapego das coisas efêmeras e a adesão às eternas (cf.
Collationes, xxx: pl 133, 613). Não obstante o
realismo do seu diagnóstico a respeito da situação da sua
época, Odon não se abandona ao pessimismo: "Não dizemos
isto esclarece ele para fazer precipitar no desespero
quantos quiserem converter-se. A misericórdia divina está
sempre disponível; ela espera a hora da nossa conversão" (ibid.:
pl 133, 563). E exclama: "Ó inefáveis vísceras da
piedade divina! Deus persegue as culpas e todavia protege os
pecadores" (ibid.: pl 133, 592).
Fortalecido por esta convicção, o abade de Cluny
gostava de se deter na contemplação da misericórdia de
Cristo, o Salvador que sugestivamente ele qualificava como
"amante dos homens": "amator hominum Christus"
(ibid., liii: pl 133, 637). Jesus assumiu
sobre si os flagelos que seriam reservados a nós observa
para salvar assim a criatura, que é sua obra e que Ele ama
(cf. ibid.: pl 133, 638).
Aqui
aparece uma característica do santo abade, à primeira vista
quase escondida sob o rigor da sua austeridade de
reformador: a profunda bondade da sua alma.
Era austero, mas sobretudo bom, um homem de grande
bondade, uma bondade que provém do contacto com a bondade
divina. Odon, assim nos dizem os seus coetâneos,
difundia ao seu redor a alegria da qual estava repleto. O
seu biógrafo testemunha que jamais ouviu sair da boca de um
homem "tanta docilidade de palavra" (ibid.,
i, 17: pl 133, 31).
O
biógrafo recorda que ele costumava convidar para o canto as
crianças que encontrava ao longo do caminho, para depois
lhes oferecer um pequeno dom, e acrescenta: "As suas
palavras eram cheias de exultação... a sua hilaridade
infundia no nosso coração uma alegria íntima" (ibid.,
ii, 5: pl 133, 63). Deste modo, o vigoroso e ao
mesmo tempo amável abade medieval, apaixonado pela
reforma, com uma ação incisiva, alimentava nos monges, como
também nos fiéis leigos do seu tempo, o propósito de
progredir com passo diligente ao longo do caminho da
perfeição cristã.
Esperamos que a sua bondade, a alegria que provém da fé,
unidas à austeridade e à oposição aos vícios do mundo,
sensibilizem inclusive o nosso coração, a fim de que também
nós possamos encontrar a fonte da alegria que jorra da
bondade de Deus.
No
final da audiência geral, Bento XVI saudou os vários grupos
de peregrinos e fiéis presentes na Sala Paulo vi, proferindo
as seguintes expressões em português:
Saúdo
com amizade e gratidão todos os peregrinos de língua
portuguesa, nomeadamente os grupos do Brasil. Viestes a Roma
para fortalecer os vínculos de fé, esperança e amor que unem
a todos os batizados na Igreja, que Jesus quis fundar sobre
Pedro. Que as vossas vidas, iluminadas pela fé, e
perseverantes na esperança, possam sempre testemunhar o amor
de Deus. Que as suas bênçãos desçam abundantes sobre vós e
vossas famílias.
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