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S. S. PAPA BENTO XVI.
Mensagem e Bênção "Urbi et Orbi"
04.04.10: Domingo de Páscoa.
Queridos irmãos e irmãs!
Transmito-vos o anúncio da Páscoa com estas palavras da
Liturgia, que repercutem o antiquíssimo hino de louvor dos
hebreus depois da travessia do Mar Vermelho.
Conta o Livro do Êxodo (cf. 15, 19-21) que, depois de
atravessarem o mar enxuto e terem visto os egípcios
submersos pelas águas, Miriam – a irmã de Moisés e Aarão – e
as outras mulheres entoaram, dançando, este cântico de
exultação: «Cantai ao Senhor que Se revestiu de
glória. Precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro!»
Por
todo o mundo, os cristãos repetem este cântico na Vigília
Pascal, cujo significado é depois explicado na respectiva
oração; uma oração que agora, na plena luz da Ressurreição,
jubilosamente fazemos nossa: «Também em nossos dias,
Senhor, vemos brilhar as vossas antigas maravilhas: se
outrora manifestastes o vosso poder libertando um só povo da
perseguição do Faraó, hoje assegurais a salvação de todas as
nações fazendo-as renascer pela água do Batismo: fazei que
todos os povos da terra se tornem filhos de Abraão e membros
do vosso povo eleito».
O
Evangelho revelou-nos o cumprimento das figuras antigas: com
a sua morte e ressurreição, Jesus Cristo libertou o homem da
escravidão radical, a do pecado, e abriu-lhe a estrada para
a verdadeira Terra Prometida, o Reino de Deus, Reino
universal de justiça, de amor e de paz. Este «êxodo»
verifica-se, antes de mais nada, no íntimo do próprio
homem e consiste num novo nascimento no Espírito Santo,
efeito do Batismo que Cristo nos deu precisamente no
mistério pascal. O homem velho cede o lugar ao homem novo; a
vida anterior é deixada para trás, pode-se caminhar numa
vida nova (cf. Rm 6, 4). Mas o «êxodo» espiritual é
princípio duma libertação integral, capaz de renovar toda a
dimensão humana, pessoal e social.
Sim,
irmãos, a Páscoa é a verdadeira salvação da
humanidade! Se Cristo – o Cordeiro de Deus – não tivesse
derramado o seu Sangue por nós, não teríamos qualquer
esperança, o destino nosso e do mundo inteiro seria
inevitavelmente a morte. Mas a Páscoa inverteu a
tendência: a Ressurreição de Cristo é uma nova
criação, como um enxerto que pode regenerar toda a planta.
É um acontecimento que modificou a orientação profunda da
história, fazendo-a pender de uma vez por todas para o lado
do bem, da vida, do perdão. Somos livres, estamos salvos!
Eis o motivo por que exultamos do íntimo do coração:
«Cantemos ao Senhor: é verdadeiramente glorioso!»
O povo
cristão, saído das águas do Batismo, é enviado por todo o
mundo a testemunhar esta salvação, a levar a todos o fruto
da Páscoa, que consiste numa vida nova, liberta do pecado e
restituída à sua beleza original, à sua bondade e verdade.
Continuamente, ao longo de dois mil anos, os cristãos
– especialmente os santos – fecundaram a história com a
experiência viva da Páscoa. A Igreja é o povo do êxodo,
porque vive constantemente o mistério pascal e espalha a sua
força renovadora em todo o tempo e lugar. Também em
nossos dias a humanidade tem necessidade de um «êxodo», não
de ajustamentos superficiais, mas de uma conversão
espiritual e moral. Necessita da salvação do Evangelho, para
sair de uma crise que é profunda e, como tal, requer
mudanças profundas, a partir das consciências.
Peço
ao Senhor Jesus que, no Médio Oriente e de modo particular
na Terra santificada pela sua morte e ressurreição, os Povos
realizem um verdadeiro e definitivo «êxodo» da guerra e da
violência para a paz e a concórdia. Às comunidades cristãs
que conhecem provações e sofrimentos, especialmente no
Iraque, repita o Ressuscitado a frase cheia de consolação e
encorajamento que dirigiu aos Apóstolos no Cenáculo: «A paz
esteja convosco!» (Jo 20,21).
Para
os países da América Latina e do Caribe que experimentam uma
perigosa recrudescência de crimes ligados ao narcotráfico, a
Páscoa de Cristo conceda a vitória da convivência pacífica e
do respeito pelo bem comum. A dileta população do Haiti,
devastado pela enorme tragédia do terremoto, realize o seu
«êxodo» do luto e do desânimo para uma nova esperança, com o
apoio da solidariedade internacional.
Os
amados cidadãos chilenos, prostrados por outra grave
catástrofe mas sustentados pela fé, enfrentem com tenacidade
a obra de reconstrução.
Na força de Jesus ressuscitado, ponha-se fim em África aos
conflitos que continuam a provocar destruição e sofrimentos
e chegue-se àquela paz e reconciliação que são garantias de
desenvolvimento. De modo particular confio ao Senhor o
futuro da República Democrática do Congo, da Guiné e da
Nigéria.
O
Ressuscitado ampare os cristãos que, pela sua fé, sofrem a
perseguição e até a morte, como no Paquistão. Aos países
assolados pelo terrorismo e pelas discriminações sociais ou
religiosas, conceda Ele a força de começar percursos de
diálogo e serena convivência. Aos responsáveis de todas as
Nações, a Páscoa de Cristo traga luz e força para que a
atividade econômica e financeira seja finalmente orientada
segundo critérios de verdade, justiça e ajuda fraterna.
A força salvífica da ressurreição de Cristo invada a
humanidade inteira, para que esta supere as múltiplas e
trágicas expressões de uma «cultura de morte» que tende a
difundir-se, para edificar um futuro de amor e verdade no
qual toda a vida humana seja respeitada e acolhida.
Queridos irmãos e irmãs! A Páscoa não efetua qualquer magia.
Assim como, para além do Mar Vermelho, os hebreus
encontraram o deserto, assim também a Igreja, depois da
Ressurreição, encontra sempre a história com as suas
alegrias e as suas esperanças, os seus sofrimentos e as suas
angústias. E todavia esta história mudou, está marcada por
uma aliança nova e eterna, está realmente aberta ao futuro.
Por isso, salvos na esperança, prosseguimos a nossa
peregrinação, levando no coração o cântico.
Fonte:
Rádio Vaticano.
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