
Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz 2011.
LIBERDADE RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ
1 DE
JANEIRO DE 2011
1. NO
INÍCIO DE UM ANO NOVO, desejo fazer chegar a todos e cada um
os meus votos: votos de serenidade e prosperidade, mas
sobretudo votos de paz. Infelizmente também o ano que
encerra as portas esteve marcado pela perseguição, pela
discriminação, por terríveis atos de violência e de
intolerância religiosa.
Penso, em particular, na amada terra do Iraque, que, no seu
caminho para a desejada estabilidade e reconciliação,
continua a ser cenário de violências e atentados. Recordo as
recentes tribulações da comunidade cristã, e de modo
especial o vil ataque contra a catedral siro-católica de
«Nossa Senhora do Perpétuo Socorro» em Bagdá, onde, no
passado dia 31 de Outubro, foram assassinados dois
sacerdotes e mais de cinquenta fiéis, quando se encontravam
reunidos para a celebração da Santa Missa. A este ataque
seguiram-se outros nos dias sucessivos, inclusive contra
casas privadas, gerando medo na comunidade cristã e o
desejo, por parte de muitos dos seus membros, de emigrar à
procura de melhores condições de vida. Manifesto-lhes a
minha solidariedade e a da Igreja inteira, sentimento que
ainda recentemente teve uma concreta expressão na Assembleia
Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, a qual
encorajou as comunidades católicas no Iraque e em todo o
Médio Oriente a viverem a comunhão e continuarem a oferecer
um decidido testemunho de fé naquelas terras.
Agradeço vivamente aos governos que se esforçam por aliviar
os sofrimentos destes irmãos em humanidade e convido os
católicos a orarem pelos seus irmãos na fé que padecem
violências e intolerâncias e a serem solidários com eles.
Neste contexto, achei particularmente oportuno partilhar com
todos vós algumas reflexões sobre a liberdade religiosa,
caminho para a paz. De fato, é doloroso constatar que, em
algumas regiões do mundo, não é possível professar e
exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a
vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais
silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra
os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são,
atualmente, o grupo religioso que padece o maior número de
perseguições devido à própria fé. Muitos suportam
diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto
por causa da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus
Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida a
liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque
constitui uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além
disso, é uma ameaça à segurança e à paz e impede a
realização de um desenvolvimento humano autêntico e integral
(cf. BENTO XVI, Carta enc.
Caritas in veritate,
29.55-57).
De
fato, na liberdade religiosa exprime-se a especificidade da
pessoa humana, que, por ela, pode orientar a própria vida
pessoal e social para Deus, a cuja luz se compreendem
plenamente a identidade, o sentido e o fim da pessoa. Negar
ou limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar
uma visão redutiva da pessoa humana; obscurecer a função
pública da religião significa gerar uma sociedade injusta,
porque esta seria desproporcionada à verdadeira natureza da
pessoa; isto
significa tornar impossível a afirmação de uma paz autêntica
e duradoura para toda a família humana.
Por
isso, exorto os homens e mulheres de boa vontade a renovarem
o seu compromisso pela construção de um mundo onde todos
sejam livres para professar a sua própria religião ou a sua
fé e viver o seu amor a Deus com todo o coração, toda a alma
e toda a mente (cf.
Mt 22, 37). Este é o sentimento que inspira e
guia a Mensagem para
o XLIV Dia Mundial da Paz, dedicada ao tema:
Liberdade religiosa,
caminho para a paz.
Direito sagrado à vida e a uma vida espiritual
2.
O direito à liberdade
religiosa está radicado na própria dignidade da pessoa
humana, (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a
liberdade religiosa
Dignitatis humanae, 2.) cuja natureza
transcendente não deve ser ignorada ou negligenciada. Deus
criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (cf.
Gn 1, 27).
Por isso, toda a pessoa é titular do
direito sagrado
a uma vida íntegra, mesmo do ponto de vista espiritual. Sem
o reconhecimento do próprio ser espiritual, sem a abertura
ao transcendente, a pessoa humana retrai-se sobre si mesma,
não consegue encontrar resposta para as perguntas do seu
coração sobre o sentido da vida e dotar-se de valores e
princípios éticos duradouros, nem consegue sequer
experimentar uma liberdade autêntica e desenvolver uma
sociedade justa (Cf. BENTO XVI, Carta enc.
Caritas in veritate,
78).
A
Sagrada Escritura, em sintonia com a nossa própria
experiência, revela o valor profundo da dignidade humana:
«Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as
estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos
lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes?
Fizestes dele quase um ser divino, de honra e glória o
coroastes; destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés» (Sl
8, 4-7).
Perante a sublime realidade da natureza humana, podemos
experimentar a mesma admiração expressa pelo salmista. Esta
manifesta-se como abertura ao Mistério, como capacidade de
interrogar-se profundamente sobre si mesmo e sobre a origem
do universo, como íntima ressonância do Amor supremo de
Deus, princípio e fim de todas as coisas, de cada pessoa e
dos povos (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre as relações
da Igreja com as religiões não-cristãs
Nostra aetate,
1.). A dignidade transcendente da pessoa é um valor
essencial da sabedoria judaico-cristã, mas, graças à razão,
pode ser reconhecida por todos. Esta dignidade, entendida
como capacidade de transcender a própria materialidade e
buscar a verdade, há-de ser reconhecida como um
bem
universal, indispensável na construção duma sociedade
orientada para a realização e a plenitude do homem. O
respeito de elementos essenciais da dignidade do homem, tais
como o direito à vida e o direito à liberdade religiosa, é
uma condição da legitimidade moral de toda a norma social e
jurídica.
Liberdade religiosa e respeito recíproco
3.
A
liberdade religiosa está na origem da liberdade moral.
Com efeito, a abertura à verdade e ao bem, a abertura a
Deus, radicada na natureza humana, confere plena dignidade a
cada um dos seres humanos e é garante do respeito pleno e
recíproco entre as pessoas. Por conseguinte, a liberdade
religiosa deve ser entendida não só como imunidade da coação
mas também, e antes ainda, como capacidade de organizar as
próprias opções segundo a verdade.
Existe
uma ligação indivisível entre liberdade e respeito; de fato,
«cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados,
no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os
direitos alheios e os seus próprios deveres para com os
outros e o bem comum» (CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a
liberdade religiosa
Dignitatis humanae, 7.).
Uma
liberdade hostil
ou indiferente
a Deus acaba por se negar a si mesma e não garante o pleno
respeito do outro. Uma vontade, que se crê radicalmente
incapaz de procurar a verdade e o bem, não tem outras razões
objetivas nem outros motivos para agir senão os impostos
pelos seus interesses momentâneos e contingentes, não tem
uma «identidade» a preservar e construir através de opções
verdadeiramente livres e conscientes. Mas assim não pode
reclamar o respeito por parte de outras «vontades», também
estas desligadas do próprio ser mais profundo e capazes, por
conseguinte, de fazer valer outras «razões» ou mesmo nenhuma
«razão». A ilusão de encontrar no relativismo moral a chave
para uma pacífica convivência é, na realidade, a origem da
divisão e da negação da dignidade dos seres humanos. Por
isso se compreende a necessidade de reconhecer uma dupla
dimensão na unidade da pessoa humana: a
religiosa e a
social. A
este respeito, é inconcebível que os crentes «tenham de
suprimir uma parte de si mesmos – a sua fé – para serem
cidadãos ativos; nunca deveria ser necessário renegar a
Deus, para se poder gozar dos próprios direitos» (BENTO XVI,
Discurso à Assembleia
Geral da Organização das Nações Unidas (18 de
Abril de 2008): AAS
100 (2008), 337).
A família, escola
de liberdade e de paz
4. Se
a liberdade religiosa é caminho para a paz, a
educação religiosa
é estrada privilegiada para habilitar as novas gerações a
reconhecerem no outro o seu próprio irmão e a sua própria
irmã, com quem caminhar juntos e colaborar para que todos se
sintam membros vivos de uma mesma família humana, da qual
ninguém deve ser excluído.
A
família fundada sobre o matrimônio, expressão de união
íntima e de complementaridade entre um homem e uma mulher,
insere-se neste contexto como a primeira escola de formação
e de crescimento social, cultural, moral e espiritual dos
filhos, que deveriam encontrar sempre no pai e na mãe as
primeiras testemunhas de uma vida orientada para a busca da
verdade e para o amor de Deus. Os próprios pais deveriam ser
sempre livres para transmitir, sem constrições e
responsavelmente, o próprio patrimônio de fé, de valores e
de cultura aos filhos. A família, primeira célula da
sociedade humana, permanece o âmbito primário de formação
para relações harmoniosas a todos os níveis de convivência
humana, nacional e internacional. Esta é a estrada que se
há-de sapientemente percorrer para a construção de um tecido
social robusto e solidário, para preparar os jovens à
assunção das próprias responsabilidades na vida, numa
sociedade livre, num espírito de compreensão e de paz.
Um
patrimônio comum
5.
Poder-se-ia dizer que,
entre os direitos e as
liberdades fundamentais radicados na dignidade da pessoa, a
liberdade religiosa goza de um estatuto especial.
Quando se reconhece a liberdade religiosa, a dignidade da
pessoa humana é respeitada na sua raiz e reforça-se a índole
e as instituições dos povos. Pelo contrário, quando a
liberdade religiosa é negada, quando se tenta impedir de
professar a própria religião ou a própria fé e de viver de
acordo com elas, ofende-se a dignidade humana e,
simultaneamente, acabam ameaçadas a justiça e a paz, que se
apoiam sobre a reta ordem social construída à luz da Suma
Verdade e do Sumo Bem.
Neste sentido, a liberdade religiosa é também uma aquisição
de civilização política e jurídica.
Trata-se de um bem essencial: toda a pessoa deve poder
exercer livremente o direito de professar e manifestar,
individual ou comunitariamente, a própria religião ou a
própria fé, tanto em público como privadamente, no ensino,
nos costumes, nas publicações, no culto e na observância dos
ritos. Não deveria encontrar obstáculos, se quisesse
eventualmente aderir a outra religião ou não professar
religião alguma. Neste âmbito, revela-se emblemático e é uma
referência essencial para os Estados o ordenamento
internacional, enquanto não consente alguma derrogação da
liberdade religiosa, salvo a legítima exigência da justa
ordem pública (Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decl. sobre a
liberdade religiosa
Dignitatis humanae, 2). Deste modo, o
ordenamento internacional reconhece aos direitos de natureza
religiosa o mesmo
status do direito à vida e à liberdade pessoal,
comprovando a sua pertença ao
núcleo essencial
dos direitos do homem, àqueles direitos universais e
naturais que a lei humana não pode jamais negar.
A
liberdade religiosa não é patrimônio exclusivo dos crentes,
mas da família inteira dos povos da terra.
É elemento imprescindível de um Estado de direito; não pode
ser negada, sem ao mesmo tempo minar todos os direitos e as
liberdades fundamentais, pois é a sua síntese e ápice. É «o
papel de tornassol para verificar o respeito de todos os
outros direitos humanos» (JOÃO PAULO II,
Discurso aos
participantes na Assembleia Parlamentar da Organização para
a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) (10
de Outubro de 2003), 1:
AAS 96
(2004), 111). Ao mesmo tempo que favorece o exercício das
faculdades humanas mais específicas, cria as premissas
necessárias para a realização de um
desenvolvimento integral,
que diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em
cada uma das suas dimensões (Cf. BENTO XVI, Carta enc.
Caritas in veritate,
11.).
A
dimensão pública da religião
6.
Embora movendo-se a
partir da esfera pessoal, a liberdade religiosa – como
qualquer outra liberdade – realiza-se na relação com os
outros. Uma liberdade sem relação não é liberdade perfeita.
Também a liberdade religiosa não se esgota na dimensão
individual, mas realiza-se na própria comunidade e na
sociedade, coerentemente com o ser relacional da pessoa e
com a natureza pública da religião.
O
relacionamento
é uma componente decisiva da liberdade religiosa, que impele
as comunidades dos crentes a praticarem a solidariedade em
prol do bem comum. Cada pessoa permanece única e irrepetível
e, ao mesmo tempo, completa-se e realiza-se plenamente nesta
dimensão comunitária.
Inegável é a contribuição que as religiões prestam à
sociedade. São numerosas as instituições caritativas e
culturais que atestam o papel construtivo dos crentes na
vida social. Ainda mais importante é a contribuição ética da
religião no âmbito político. Tal contribuição não deveria
ser marginalizada ou proibida, mas vista como válida ajuda
para a promoção do bem comum. Nesta perspectiva, é preciso
mencionar a dimensão religiosa da cultura, tecida através
dos séculos graças às contribuições sociais e sobretudo
éticas da religião. Tal dimensão não constitui de modo algum
uma discriminação daqueles que não partilham a sua crença,
mas antes reforça a coesão social, a integração e a
solidariedade.
Liberdade
religiosa, força de liberdade e de civilização:
os perigos da sua
instrumentalização
7.
A instrumentalização da
liberdade religiosa para mascarar interesses ocultos, como
por exemplo a subversão da ordem constituída, a apropriação
de recursos ou a manutenção do poder por parte de um grupo,
pode provocar danos enormes às sociedades. O
fanatismo, o fundamentalismo, as práticas contrárias à
dignidade humana não se podem jamais justificar, e menos
ainda o podem ser se realizadas em nome da religião. A
profissão de uma religião não pode ser instrumentalizada,
nem imposta pela força. Por isso, é necessário que os
Estados e as várias comunidades humanas nunca se esqueçam
que a liberdade
religiosa é condição para a busca da verdade e que a verdade
não se impõe pela violência mas pela «força
da própria verdade» (Cf. CONC. ECUM. VAT. II,
Decl. sobre a liberdade religiosa
Dignitatis humanae,
1). Neste sentido, a religião é uma força
positiva e propulsora
na construção da sociedade civil e política.
Como
se pode negar a contribuição das grandes religiões do mundo
para o desenvolvimento da civilização? A busca sincera de
Deus levou a um respeito maior da dignidade do homem. As
comunidades cristãs, com o seu patrimônio de valores e
princípios, contribuíram imenso para a tomada de consciência
das pessoas e dos povos a respeito da sua própria identidade
e dignidade, bem como para a conquista de instituições
democráticas e para a afirmação dos direitos do homem e seus
correlativos deveres.
Também
hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, os cristãos
são chamados – não só através de um responsável empenhamento
civil, econômico e político, mas também com o testemunho da
própria caridade e fé – a oferecer a sua preciosa
contribuição para o árduo e exaltante compromisso em prol da
justiça, do desenvolvimento humano integral e do reto
ordenamento das realidades humanas. A exclusão da religião
da vida pública subtrai a esta um espaço vital que abre para
a transcendência. Sem esta experiência primária, revela-se
uma tarefa árdua orientar as sociedades para princípios
éticos universais e torna-se difícil estabelecer
ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os
direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente
reconhecidos e realizados, como se propõem os objetivos –
infelizmente ainda menosprezados ou contestados – da
Declaração Universal dos
direitos do homem de 1948.
Uma questão de
justiça e de civilização:
o fundamentalismo e a
hostilidade contra os crentes prejudicam
a laicidade positiva
dos Estados
8. A
mesma determinação, com que são condenadas todas as formas
de fanatismo e de fundamentalismo religioso, deve animar
também a oposição a todas as formas de hostilidade contra a
religião, que limitam o papel público dos crentes na vida
civil e política.
Não se
pode esquecer que o
fundamentalismo religioso e o laicismo são formas
reverberadas e extremas de rejeição do legítimo pluralismo e
do princípio de laicidade. De fato, ambas
absolutizam uma visão redutiva e parcial da pessoa humana,
favorecendo formas, no primeiro caso, de integralismo
religioso e, no segundo, de racionalismo.
A sociedade, que quer
impor ou, ao contrário, negar a religião por meio da
violência, é injusta para com a pessoa e para com Deus, mas
também para consigo mesma. Deus chama a Si a humanidade
através de um desígnio de amor, o qual, ao mesmo tempo que
implica a pessoa inteira na sua dimensão natural e
espiritual, exige que lhe corresponda em termos de liberdade
e de responsabilidade, com todo o coração e com todo o
próprio ser, individual e comunitário. Sendo
assim, também a sociedade, enquanto expressão da pessoa e do
conjunto das suas dimensões constitutivas, deve viver e
organizar-se de modo a favorecer a sua abertura à
transcendência. Por isso mesmo, as leis e as instituições
duma sociedade não podem ser configuradas ignorando a
dimensão religiosa dos cidadãos ou de modo que prescindam
completamente da mesma; mas devem ser comensuradas – através
da obra democrática de cidadãos conscientes da sua alta
vocação – ao ser da pessoa, para o poderem favorecer na sua
dimensão religiosa. Não sendo esta uma criação do Estado,
não pode ser manipulada, antes deve contar com o seu
reconhecimento e respeito.
O
ordenamento jurídico a todos os níveis, nacional e
internacional, quando consente ou tolera o fanatismo
religioso ou anti-religioso, falta à sua própria missão, que
consiste em tutelar e promover a justiça e o direito de cada
um. Tais realidades não podem ser deixadas à mercê do
arbítrio do legislador ou da maioria, porque, como já
ensinava Cícero, a justiça consiste em algo mais do que um
mero ato produtivo da lei e da sua aplicação. A justiça
implica reconhecer a
cada um a sua dignidade (Cf. CÍCERO,
De inventione,
II, 160), a qual, sem liberdade religiosa garantida e vivida
na sua essência, fica mutilada e ofendida, exposta ao risco
de cair sob o predomínio dos ídolos, de bens relativos
transformados em absolutos. Tudo isto expõe a sociedade ao
risco de totalitarismos políticos e ideológicos, que
enfatizam o poder público, ao mesmo tempo que são
mortificadas e coartadas, como se lhe fizessem concorrência,
as liberdades de consciência, de pensamento e de religião.
Diálogo entre instituições civis e religiosas
9. O
patrimônio de princípios e valores expressos por uma
religiosidade autêntica é uma riqueza para os povos e
respectivas índoles: fala diretamente à consciência e à
razão dos homens e mulheres, lembra o imperativo da
conversão moral, motiva para aperfeiçoar a prática das
virtudes e aproximar-se amistosamente um do outro sob o
signo da fraternidade, como membros da grande família humana
(Cf. BENTO XVI,
Discurso aos Representantes de outras Religiões do Reino
Unido (17 de Setembro de 2010):
L’Osservatore Romano
(ed. portuguesa de 25/IX/2010), 6-7).
No
respeito da laicidade positiva das instituições estatais, a
dimensão pública da religião deve ser sempre reconhecida.
Para isso, um diálogo
sadio entre as instituições civis e as religiosas
é fundamental para o desenvolvimento integral da pessoa
humana e da harmonia da sociedade.
Viver
no amor e na verdade
10. No
mundo globalizado, caracterizado por sociedades sempre mais
multiétnicas e pluriconfessionais, as grandes religiões
podem constituir um fator importante de unidade e paz para a
família humana. Com base nas suas próprias convicções
religiosas e na busca racional do bem comum, os seus membros
são chamados a viver responsavelmente o próprio compromisso
num contexto de liberdade religiosa. Nas variadas culturas
religiosas, enquanto há que rejeitar tudo aquilo que é
contra a dignidade do homem e da mulher, é preciso, ao
contrário, valer-se daquilo que resulta positivo para a
convivência civil.
O
espaço público, que a comunidade internacional torna
disponível para as religiões e para a sua proposta de «vida
boa», favorece o aparecimento de uma medida compartilhável
de verdade e de bem e ainda de um consenso moral, que são
fundamentais para uma convivência justa e pacífica. Os
líderes das grandes religiões, pela sua função, influência e
autoridade nas respectivas comunidades, são os primeiros a
ser chamados ao respeito recíproco e ao diálogo.
Os cristãos, por sua
vez, são solicitados pela sua própria fé em Deus, Pai do
Senhor Jesus Cristo, a viver como irmãos que se encontram na
Igreja e colaboram para a edificação de um mundo,
onde as pessoas e os povos «não mais praticarão o mal nem a
destruição (...), porque o conhecimento do Senhor encherá a
terra, como as águas enchem o leito do mar» (Is
11, 9).
Diálogo como busca
em comum
11.
Para a Igreja, o diálogo entre os membros de diversas
religiões constitui um instrumento importante para colaborar
com todas as comunidades religiosas para o bem comum. A
própria Igreja nada rejeita do que nessas religiões existe
de verdadeiro e santo. «Olha com sincero respeito esses
modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que,
embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria
segue e propõe, todavia refletem não raramente um raio da
verdade que ilumina todos os homens» (CONC. ECUM. VAT. II,
Decl. sobre as relações da Igreja com as religiões
não-cristãs Nostra
aetate, 2).
A
estrada indicada não é a do relativismo nem do sincretismo
religioso.
De fato, a Igreja «anuncia, e tem mesmo a obrigação de
anunciar incessantemente Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo
14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida
religiosa e no qual Deus reconciliou consigo mesmo todas as
coisas» (Ibid.,
2). Todavia isto não exclui o diálogo e a busca comum da
verdade em diversos âmbitos vitais, porque, como diz uma
expressão usada frequentemente por São Tomás de Aquino,
«toda a verdade, independentemente de quem a diga, provém do
Espírito Santo» (Super
evangelium Joannis, I, 3).
Em
2011, tem lugar o 25º aniversário da
Jornada Mundial de Oração
pela Paz, que o Venerável Papa João Paulo II
convocou em Assis em 1986. Naquela ocasião, os líderes das
grandes religiões do mundo deram testemunho da religião como
sendo um fator de união e paz, e não de divisão e conflito.
A recordação daquela experiência é motivo de esperança para
um futuro onde todos os crentes se sintam e se tornem
autenticamente obreiros de justiça e de paz.
Verdade moral na
política e na diplomacia
12. A
política e a diplomacia deveriam olhar para o patrimônio
moral e espiritual oferecido pelas grandes religiões do
mundo, para reconhecer e afirmar verdades, princípios e
valores universais que não podem ser negados sem, com os
mesmos, negar-se a dignidade da pessoa humana. Mas, em
termos práticos, que significa promover a verdade moral no
mundo da política e da diplomacia? Quer dizer agir de
maneira responsável com base no conhecimento objetivo e
integral dos fatos; quer dizer desmantelar ideologias
políticas que acabam por suplantar a verdade e a dignidade
humana e pretendem promover pseudovalores com o pretexto da
paz, do desenvolvimento e dos direitos humanos; quer dizer
favorecer um empenho constante de fundar a lei positiva
sobre os princípios da lei natural (Cf. BENTO XVI,
Discurso às Autoridades
civis e ao Corpo Diplomático em Chipre (5 de
Junho de 2010): L’Osservatore
Romano (ed. portuguesa de 12/VI/2010), 4;
COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL,
À procura de uma ética
universal: um olhar sobre a lei natural (Cidade
do Vaticano 2009)). Tudo isto é necessário e coerente com o
respeito da dignidade e do valor da pessoa humana,
sancionado pelos povos da terra na
Carta da Organização das
Nações Unidas de 1945, que apresenta valores e
princípios morais universais de referência para as normas,
as instituições, os sistemas de convivência a nível nacional
e internacional.
Para além do ódio
e do preconceito
13.
Não obstante os ensinamentos da história e o compromisso dos
Estados, das organizações internacionais a nível mundial e
local, das organizações não governamentais e de todos os
homens e mulheres de boa vontade que cada dia se empenham
pela tutela dos direitos e das liberdades fundamentais,
ainda hoje no mundo se registram perseguições,
descriminações, atos de violência e de intolerância baseados
na religião. De modo particular na Ásia e na África, as
principais vítimas são os membros das minorias religiosas, a
quem é impedido de professar livremente a própria religião
ou mudar para outra, através da intimidação e da violação
dos direitos, das liberdades fundamentais e dos bens
essenciais, chegando até à privação da liberdade pessoal ou
da própria vida.
Temos depois, como já disse, formas mais sofisticadas de
hostilidade contra a religião, que nos países ocidentais se
exprimem por vezes com a renegação da própria história e dos
símbolos religiosos nos quais se refletem a identidade e a
cultura da maioria dos cidadãos. Frequentemente tais formas
fomentam o ódio e o preconceito e não são coerentes com uma
visão serena e equilibrada do pluralismo e da laicidade das
instituições, sem contar que as novas gerações correm o
risco de não entrar em contacto com o precioso patrimônio
espiritual dos seus países.
A defesa da religião passa pela defesa dos direitos e
liberdades das comunidades religiosas. Assim, os líderes das
grandes religiões do mundo e os responsáveis das nações
renovem o compromisso pela promoção e a tutela da liberdade
religiosa, em particular pela defesa das minorias
religiosas; estas não constituem uma ameaça contra a
identidade da maioria, antes, pelo contrário, são uma
oportunidade para o diálogo e o mútuo enriquecimento
cultural. A sua defesa representa a maneira ideal para
consolidar o espírito de benevolência, abertura e
reciprocidade com que se há-de tutelar os direitos e as
liberdades fundamentais em todas as áreas e regiões do
mundo.
Liberdade
religiosa no mundo
14.
Dirijo-me, por fim, às comunidades cristãs que sofrem
perseguições, discriminações, atos de violência e
intolerância, particularmente na Ásia, na África, no Médio
Oriente e de modo especial na Terra Santa, lugar escolhido e
abençoado por Deus. Ao mesmo tempo em que lhes renovo a
expressão do meu afeto paterno e asseguro a minha oração,
peço a todos os responsáveis que intervenham prontamente
para pôr fim a toda a violência contra os cristãos que
habitam naquelas regiões. Que os discípulos de Cristo não
desanimem com as presentes adversidades, porque
o testemunho do Evangelho
é e será sempre sinal de contradição.
Meditemos no nosso coração as palavras do Senhor Jesus:
«Felizes os que choram, porque hão-se ser consolados. (...)
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão
saciados. (...) Felizes sereis quando, por minha causa, vos
insultarem, vos perseguirem e, mentido, vos acusarem de toda
a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos
Céus a vossa recompensa» (Mt
5, 4-12). Por isso, renovemos «o compromisso por nós
assumido no sentido da indulgência e do perdão – que
invocamos de Deus para nós, no “Pai-nosso”
– por havermos posto, nós próprios, a condição e a medida da
desejada misericórdia: “perdoai-nos as nossas ofensas
assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido”(Mt
6, 12)» (PAULO VI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1976:
AAS 67
(1975), 671). A violência não se vence com a violência. O
nosso grito de dor seja sempre acompanhado pela fé, pela
esperança e pelo testemunho do amor de Deus. Faço votos
também de que cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a
hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo fato
de estes pretenderem orientar a própria vida de modo
coerente com os valores e os princípios expressos no
Evangelho. Mais ainda, que a Europa saiba reconciliar-se com
as próprias raízes cristãs, que são fundamentais para
compreender o papel que teve, tem e pretende ter na
história; saberá assim experimentar justiça, concórdia e
paz, cultivando um diálogo sincero com todos os povos.
Liberdade
religiosa, caminho para a paz
15. O
mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade de valores
éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a
religião pode oferecer uma contribuição preciosa na sua
busca, para a construção de uma ordem social justa e
pacífica a nível nacional e internacional.
A
paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projeto a
realizar, nunca totalmente cumprido.
Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz,
que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do
predomínio militar ou econômico, e menos ainda de astúcias
enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz
é o resultado de um processo de purificação e elevação
cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual
a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos
aqueles que desejam tornar-se obreiros de paz e sobretudo os
jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para
encontrar em Deus a referência estável para a conquista de
uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o
mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do
passado. Como ensina o Servo de Deus Papa Paulo VI, a cuja
sabedoria e clarividência se deve a instituição do Dia
Mundial da Paz, «é preciso, antes de mais nada, proporcionar
à Paz outras armas, que não aquelas que se destinam a matar
e a exterminar a humanidade. São necessárias sobretudo as
armas morais, que dão força e prestígio ao direito
internacional; aquela arma, em primeiro lugar, da
observância dos pactos» (Ibid.:
o.c.,
668). A liberdade religiosa é uma autêntica arma da paz, com
uma missão histórica
e profética. De fato, ela valoriza e faz
frutificar as qualidades e potencialidades mais profundas da
pessoa humana, capazes de mudar e tornar melhor o mundo;
consente alimentar a esperança num futuro de justiça e de
paz, mesmo diante das graves injustiças e das misérias
materiais e morais. Que todos os homens e as sociedades aos
diversos níveis e nos vários ângulos da terra possam
brevemente experimentar a
liberdade religiosa,
caminho para a paz!
Vaticano, 8 de
Dezembro de 2010.
Fonte:
Vatican.va
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