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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI.
QUARESMA DE 2010.
Cidade do Vaticano, 04.02.10
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Foi apresentada esta manhã, na Sala de Imprensa da Santa Sé,
a Mensagem do Santo Padre para a Quaresma, com o tema:
“A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em
Jesus Cristo”. Participaram da coletiva à imprensa o
Cardeal Paul Josef Cordes, Presidente do Pontifício Conselho
Cor Unum; o Prof. Dr. Hans-Gert Pöttering, Presidente
emérito do Parlamento europeu e Presidente da Fundação
Konrad Adenauer; e Mons. Giampietro Dal Toso,
Vice-Secretário do Pontifício Conselho Cor Unum.
A justiça de Deus está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21–22)
Queridos irmãos e irmãs,
Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos
a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos
evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões
sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação
Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a
fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 – 22 ).
Justiça: “dare cuique suum”
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra
“justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada
um o que é seu – dare cuique suum”, segundo a
conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século
III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa
em que é que consiste aquele “suo” que se deve
assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não
lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência
em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe pode ser
concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o
homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar,
tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente
úteis e necessários os bens materiais – no fim de contas o
próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar
a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a
indiferença que também hoje condena centenas de milhões de
seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de
medicamentos -, mas a justiça distributiva não restitui ao
ser humano todo o “suo” que lhe é devido. Como e mais do que
o pão ele de fato precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se
“a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é
seu…não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao
verdadeiro Deus” (De civitate Dei, XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus,
que se inserem no debate de então acerca do que é puro e
impuro: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o
possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o
torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens,
que saem os maus pensamentos” (Mc
7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao
alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma
tentação permanente do homem: individuar a origem do mal
numa causa exterior.
Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este
pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que
reine a justiça é suficiente remover as causas externas que
impedem a sua atuação: Esta maneira de pensar - admoesta
Jesus – é ingênua e míope. A injustiça, fruto
do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem
origem no coração do homem, onde se encontram os germes de
uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com
amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa, e a
minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7).
Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o
mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro.
Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte
dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a
dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra
os outros: é o egoísmo, conseqüência do pecado
original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de
Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade
divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da
suspeita e da competição; á lógica do receber, da espera
confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer
sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado
uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o
homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah
No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço
profundo entre fé em Deus que “levanta do pó o
indigente (Sl 113,7) e justiça em relação ao
próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica
a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem.
De fato sedaqah significa, dum lado a aceitação plena
da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação
ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao
pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt
10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o
dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a
retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria
do seu povo.
Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no
monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar
Vermelho. Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a
fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo
e desceu para o libertar do poder do Egito (cfr
Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em
resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o
pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o
estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo
( cfr Dt 15,12-18).
Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela
ilusão de auto – suficiência , daquele estado profundo de
fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras
palavras, é necessário um “êxodo” mais profundo do que
aquele que Deus efetuou com Moisés, uma libertação do
coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a
realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O anuncio cristão responde positivamente á sede de justiça
do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos
Romanos: “Mas agora, é sem a lei que está
manifestada a justiça de Deus… mediante a fé em Jesus
Cristo, para todos os crentes. De fato não há distinção,
porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus,
sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da
redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou
como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante
a fé” (3,21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo?
É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o
homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O fato de
que a “expiação” se verifique no
“sangue” de Jesus significa que não são os
sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas,
mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao
extremo, até fazer passar em si “a maldição” que
toca ao homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que
toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta
imediatamente uma objeção: que justiça existe lá onde o
justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a
bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o
contrário do que é “seu”? Na realidade, aqui
manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da
justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o
preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante.
Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque
ele põe em evidencia que o homem não é um ser autárquico,
mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo.
Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo
significa precisamente isto: sair da ilusão da auto
suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência –
indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e
da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo,
obvio: é necessário humildade para aceitar que se
precisa que um Outro me liberte do “meu”, para me dar
gratuitamente o “seu”. Isto acontece
particularmente nos sacramentos da Penitencia e da
Eucaristia. Graças á ação de Cristo, nós podemos
entrar na justiça “maior”, que é aquela do amor (cfr Rom
13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre
mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que
aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é
levado a contribuir para a formação de sociedades justas,
onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria
dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo
Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça
divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação.
Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de
autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de
Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes
sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção
Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009
BENEDICTUS PP. XVI
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