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Lectio
Divina de Bento XVI
com os seminaristas da Diocese
de Roma
18.02.2010:
Todos os anos, o Papa visita o Pontifício Seminário Romano
Maior por ocasião da Festa de Nossa Senhora da Confiança,
padroeira da instituição.
Eminências,
Excelências,
queridos amigos,
Todos os anos é, para mim, motivo de grande alegria
estar com os seminaristas da Diocese de Roma, com os jovens
que se preparam para responder ao chamado do Senhor para
serem trabalhadores em sua vinha, sacerdotes do seu
mistério. É a alegria de ver que a Igreja vive, que
o futuro da Igreja está presente também em nossa terra, e
também em Roma.
Neste Ano Sacerdotal, queremos estar particularmente
atento às palavras do Senhor sobre o nosso serviço.
A passagem do Evangelho lido há pouco fala indiretamente,
mas profundamente, de nosso sacramento, de nosso
chamado a estar na vinha do Senhor, a sermos
servidores do seu mistério.
Nesta breve passagem, podemos encontrar algumas
palavras-chave que oferecem uma indicação do anúncio que o
Senhor quer fazer com este texto. "Permanecei":
nesta breve passagem, encontramos dez vezes a palavra
"permanecer"; o novo mandamento: "Amai-vos uns aos
outros, como eu vos amo", "Não mais servos, mas amigos",
"Produzais fruto"; e, finalmente: "Peçais, orai e vos será
dado, vos será dada a alegria". Rezemos ao Senhor
para que nos ajude a entrar no significado de Suas palavras,
para que essas palavras possam penetrar em nossos corações
e, assim, possam ser caminho e vida em nós, com nós e
através de nós.
A primeira palavra é: "Permanecei em mim, no meu amor".
Permanecer no Senhor é fundamental como o primeiro tema
deste trecho. Permanecer: onde? No amor, no amor de Cristo,
no ser amado e no amar o Senhor. Todo o Capítulo 15
concretiza o local da nossa permanência, porque os primeiros
oito versículos expõem e apresentam a parábola da videira:
"Eu sou a videira; vós, os ramos". A videira é
uma imagem que encontramos, no Antigo Testamento, seja nos
Profetas, seja nos Salmos e tem um dúplice significado:
é uma parábola para o povo de Deus, que é a sua vinha.
Ele plantou uma vinha no mundo, cultivou esta vinha,
cultivou a sua videira, protegeu a sua vinha, e com que
intenção? Naturalmente, com a intenção de encontrar fruto,
de encontrar o dom precioso da uva, do bom vinho.
E assim aparece o segundo significado: o vinho é um
símbolo, é uma expressão da alegria do amor. O
Senhor criou o seu povo para encontrar a resposta de seu
amor e, por isso, esta imagem da videira tem um significado
esponsal, é uma expressão do fato de que Deus procura o amor
da sua criatura, Ele quer entrar em uma relação de amor, em
uma relação esponsal com o mundo através de seu povo eleito.
Mas eis que a história concreta é uma história de
infidelidade: ao invés de uvas preciosas, são
produzidas apenas pequenas "coisas não comestíveis",
não oferecem uma resposta a esse grande amor, não
nasce aquela unidade, aquela união incondicional entre homem
e Deus, na comunhão do amor. O homem se retira em si
mesmo, quer ter-se apenas para si próprio, quer ser o seu
próprio Deus, quer ter o mundo para si mesmo. E, assim, a
videira fica devastada, o javali e todos os inimigos vêm e
ela se torna um deserto.
Mas Deus não desiste: Deus encontra uma nova
maneira para chegar até um amor gratuito, irrevogável, ao
fruto desse amor, à uva verdadeira: Deus se faz homem,
e assim Ele próprio se torna a raiz da videira, Ele torna-se
a própria videira e, assim, a videira se torna
indestrutível. Este povo de Deus não pode ser
destruído, porque o próprio Deus entrou, se plantou nesta
terra. O novo Povo de Deus é realmente fundado no próprio
Deus, que se faz homem e, assim, chama-nos a encontrar n'Ele
uma nova vida e nos convida a estar, a permanecer n'Ele.
Devemos lembrar também que, no capítulo 6 do Evangelho de
João, encontramos o discurso sobre o pão, que se torna o
grande discurso sobre o mistério eucarístico. Neste capítulo
15, temos o discurso sobre o vinho: o Senhor não fala
explicitamente da Eucaristia, mas, naturalmente,
dentro do mistério de vinho está a realidade de que Ele se
faz fruto e vinho para nós, que seu sangue é o fruto do amor
que nasce da terra para sempre e, na Eucaristia, o seu
sangue se torna nosso sangue. Assim, somos colocados
em relação com Deus no Filho e, na Eucaristia, torna-se
concreta aquela grande realidade da vida em que nós somos os
ramos unidos com o Filho e, assim, unidos com o amor eterno.
"Permanecei": permanecer neste grande
mistério, permanecer neste novo dom do Senhor, que nos fez
povo em Si mesmo, em Seu Corpo e em Seu Sangue. Parece-me
que é preciso meditar muito este mistério, o de que Deus se
fez corpo, um conosco; Sangue, um conosco; que podemos
permanecer - permanecendo neste mistério - em comunhão
com Deus, nesta grande história de amor, que é a história da
verdadeira felicidade. Meditando sobre este dom -
Deus tornou-se um com todos nós e, ao mesmo tempo, faz-nos
todos um só, uma videira - também temos de começar a
rezar para que esse mistério penetre mais e mais em nossas
mentes, nossos corações e cada vez mais sejamos capazes de
ver e experimentar a grandeza do mistério e, assim,
começar a realizar este imperativo: "Permanecei".
Se continuarmos a ler esta passagem do Evangelho de João,
encontramos também um segundo imperativo: "Permanecei"
e "Observai os meus mandamentos". "Observai" é
apenas o segundo nível; o primeiro é aquele de "permanecer",
o nível ontológico, de que estejamos unidos com Ele, que se
deu, por antecipação, a si próprio, deu-nos o seu amor, o
fruto. Não somos nós que temos de produzir o grande fruto;
o Cristianismo não é um moralismo, não somos
nós que devemos fazer o que Deus espera do mundo, mas
devemos, antes de tudo, entrar neste mistério ontológico:
Deus se dá a Si mesmo. Seu ser, seu amar precede as nossas
ações e, no contexto de seu Corpo, no contexto de estar n'Ele,
identificarmo-nos com Ele, sermos cobertos por seu Sangue,
possamos também nós agir com Cristo.
A ética é conseqüência do ser: primeiro o
Senhor nos dá um novo ser, esse é o grande dom; o ser
precede o agir e deste ser segue o agir, como uma
realidade orgânica, para que aquilo que somos, possamos
sê-lo também em nossa atividade. Assim, agradeçamos ao
Senhor porque nos tirou do puro moralismo; não podemos
obedecer a uma lei que está diante de nós, mas devemos agir
de acordo com a nossa nova identidade. Assim, já não é mais
uma obediência, uma coisa externa, mas uma realização do dom
do novo ser.
Digo mais uma vez: agradeçamos ao Senhor porque Ele nos
precede, dá o que precisamos para que possamos nos dar e
ser, na verdade e na força de nosso novo ser, atores de sua
realidade. Permenecer e observar: o observar é o sinal da
permanência e o permanecer é o dom que Ele nos dá, mas que
deve ser renovado todos os dias em nossas vidas.
Segue, pois, este novo mandamento: "Amai-vos uns aos
outros, como eu vos amo". Nenhum amor é maior do que
este: "dar a vida por seus amigos". O que
significa dizer isso? Aqui também não se trata de um
moralismo. Se poderia dizer: "Não é um novo
mandamento; o mandamento de amar o próximo como a si mesmo
já existe no Antigo Testamento". Alguns dizem: "Tal
amor é agora mais radicalizado; este amar o outro deve
imitar a Cristo, que deu a si mesmo por nós; deve ser um
amor heróico, até o dom de si mesmo". Neste caso, porém, o
cristianismo seria um moralismo heróico. É verdade que
devemos chegar até esta radicalidade do amor, que Cristo nos
mostrou e doou, mas também aqui a verdadeira novidade não é
o que nós fazemos, a verdadeira novidade é o que Ele fez:
o Senhor deu a si próprio, o Senhor nos deu a verdadeira
novidade de sermos membros seus no seu próprio corpo, de
sermos ramos da videira que é Ele. Então, a novidade
é o dom, o grande dom, e do dom, da novidade do dom, segue
então, como eu disse, a nova lei.
São Tomás de Aquino o diz de uma forma muito precisa quando
escreve: "A nova lei é a graça do Espírito Santo"
(Summa theologiae, i-iiae, q. 106, a. 1). A nova lei não é
um outro comando mais difícil que os outros: a nova lei é um
dom, a nova lei é a presença do Espírito Santo que nos foi
dado no Sacramento do Batismo, na Confirmação, e nos é dado
todos os dias na Santíssima Eucaristia. Os Padres aqui
distinguiram "Sacramentum" e "exemplum". "Sacramentum"
é o dom do novo ser, e este dom também se torna um
exemplo para o nosso agir, mas o "sacramentum"
precede, e nós vivemos do sacramento. Aqui vemos a
centralidade do sacramento, que é a centralidade do dom.
Prossigamos em nossa reflexão. O Senhor diz: "Eu não
vos chamo mais servos, o servo não sabe aquilo que faz o seu
patrão. Vos chamo de amigos, porque tudo o que eu ouvi de
meu Pai vos dei a conhecer". Não mais servos, que
obedecem ao comando, mas amigos que se conhecem, que estão
unidos na mesma vontade, no mesmo amor. A novidade
então é que Deus se fez conhecer, que Deus se mostrou, que
Deus não é mais o Deus desconhecido, procurado, mas não
encontrado ou apenas adivinhado à distância. Deus se deixou
ver: no rosto de Cristo, vemos Deus, Deus faz-se "conhecido"
e, assim, se fez amigo.
Pensemos em como, na história da humanidade, em todas as
religiões arcaicas, sabe-se que há um Deus. Este é um
conhecimento imerso no coração do homem, que Deus é um, os
deuses não são "o" Deus. Mas este Deus permanece muito
longe, parece que não se deixa conhecer, não se deixa amar,
não é amigo, mas está longe. Por isso, as religiões se
ocupam pouco deste Deus, a vida concreta se encarrega dos
espíritos, da realidade concreta que enfrentamos todos os
dias e com a qual temos de fazer as contas cotidianamente.
Deus continua distante.
Então nós vemos o grande movimento da filosofia: pensamos em
Platão, Aristóteles, que começam a intuir como este Deus é o
agathòn, a Bondade em si, é o eros que move o mundo, mas
isto continua a ser um pensamento humano, é uma idéia de
Deus que se aproxima da verdade, mas é uma idéia nossa e
Deus continua a ser o Deus escondido.
Não muito tempo atrás, me escreveu um professor de
Regensburg, um professor de Física, que tinha lido com
grande atraso o meu discurso à Universidade de Regensburg,
para dizer que ele não poderia concordar com a minha lógica
ou só poderia fazê-lo em parte. Ele disse: "Claro, me
convence a idéia de que a estrutura racional do mundo exija
uma razão criadora, a qual fez essa racionalidade que não
pode ser explicada por si mesma". E continuou: "Mas se pôde
existir um demiurgo - assim ele se exprime -, um demiurgo me
parece seguro do que Ele diz, não vejo que haja um Deus
amoroso, bom, justo e misericordioso. Eu posso ver que há
uma razão que precede a racionalidade do cosmo, mas o resto
não". E assim Deus lhe permanece oculto. É uma razão que
precede as nossas razões, nossa racionalidade, a
racionalidade do ser, mas não é um amor eterno, não é a
grande misericórdia que nos dá a vida.
E aqui, em Cristo, Deus se manifestou na sua verdade
plena, mostrou que é razão e amor, que a razão eterna é amor
e por isso cria. Infelizmente, ainda hoje
muitos vivem longe de Cristo, não conhecem o seu rosto
e, assim, a eterna tentação do dualismo, que se esconde
também na carta deste professor, é sempre renovada, o qual
defende que não haja apenas um princípio bom, mas também um
princípio cativo, um princípio do mal; que o mundo está
dividido e são duas realidades igualmente fortes: e que o
Deus bom é apenas uma parte da realidade. Mesmo na teologia,
incluindo aquela católica, se difunde atualmente esta tese:
Deus não é onipotente. Deste modo, se oferece uma apologia
de Deus, que, assim, não seria responsável pelo mal que
existe amplamente no mundo. Mas que apologia pobre! Um Deus
não onipotende! O mal não está em suas mãos! E como podemos
nós confiar neste Deus? Como poderíamos estar seguros no seu
amor se esse amor termina onde começa o poder do mal?
Mas Deus não é mais desconhecido: no rosto de Cristo
crucificado vemos Deus e vemos a verdadeira onipotência, não
o mito da onipotência. Para nós, homens de poder, o
poder é sempre idêntico à capacidade de destruir, de fazer o
mal. Mas o verdadeiro conceito de onipotência que aparece em
Cristo é exatamente o contrário: n'Ele, a verdadeira
onipotência é amar até o ponto em que Deus possa sofrer:
aqui ele mostra sua verdadeira onipotência, que pode chegar
ao ponto de um amor que sofre nós. Assim, vemos que Ele é o
verdadeiro Deus e o verdadeiro Deus, que é amor, é poder: o
poder do amor. E nós podemos confiar-nos ao seu amor
onipotente e viver nele, com este amor onipotente.
Penso que devemos sempre meditar de novo sobre essa
realidade, agradecer a Deus porque se mostrou a nós, porque
conhecemos o seu rosto, face a face; não é mais como
Moisés, que podia ver apenas o dorso do Senhor. Essa é
também uma bela idéia, da qual São Gregório de Nissa diz:
"Ver apenas o dorso significa que devemos sempre voltar a
Cristo". Mas, ao mesmo tempo, Deus mostrou com
Cristo a sua face, o seu rosto. O véu do templo é rasgado, é
aberto, o mistério de Deus se torna visível. O
primeiro mandamento, que exclui as imagens de Deus, porque
essas só poderiam diminuir a realidade, mudou, é renovado,
adquire outra forma. Podemos agora, no homem Cristo, ver o
rosto de Deus, podemos ter ícones de Cristo e, assim, ver
quem é Deus.
Eu penso que quem compreendeu isso, quem se deixou tocar por
esse mistério, o de que Deus se revelou, rasgou o véu do
templo, mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria
permanente. Nós podemos dizer apenas: "Obrigado. Sim,
agora sabemos quem Tu és, quem é Deus e como responder a Ti".
E penso que esta alegria de conhecer a Deus, que se revelou,
mostrou o mais íntimo de seu ser, implica também na alegria
de comunicá-Lo: quem compreendeu isso, vive tocado por esta
realidade, deve fazer como fizeram os primeiros discípulos,
que vão a seus amigos e irmãos dizendo: "Achamos
aquele de quem os profetas falam. Ele está aqui". A
missionariedade não é algo externo acrescentado à fé, mas é
o dinamismo da própria fé. Quem o viu, quem encontrou Jesus,
deve andar ao encontro dos amigos e dizer a eles: "O
encontramos, é Jesus, o Crucificado por nós".
A seguir, o texto do Evangelho diz: "Eu vos escolhi e
vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso
fruto permaneça". Com isto, retornamos ao início, à
imagem, à parábola da videira: ela existe para dar frutos. E
qual é o fruto? Como dissemos, o fruto é o amor. No Antigo
Testamento, com a Torá como a primeira etapa da
auto-revelação de Deus, o fruto era compreendido como a
justiça, aquele que vive segundo a Palavra de Deus, vive na
vontade de Deus, e assim vive bem.
Isso permanece, mas ao mesmo tempo é transcendido:
a verdadeira justiça não consiste em uma obediência a certas
regras, mas é o amor, o amor criativo, em que se
encontra a riqueza, a abundância do bem. A
abundância é uma das palavras-chave do Novo Testamento,
Deus sempre dá a si mesmo em abundância.
Para
criar o homem, cria esta abundância de um cosmo imenso;
para redimir o homem dá a si mesmo, na Eucaristia dá
a si mesmo. E quem está unido com Cristo, que é ramo
na videira, vive por essa lei, não pergunta: "Posso agora
fazer isso ou não?", "Devo fazer isso ou não?", mas vive no
entusiasmo do amor, que não pergunta: "isto é ainda
necessário, ou proibido", mas, simplesmente, na criatividade
do amor, deseja viver com Cristo e por Cristo e dar tudo de
si para Ele e, assim, entrar na alegria de produzir frutos.
Tenhamos também em mente o que o Senhor diz: "Eu vos
escolhi e vos constituí para que vades": é o
dinamismo que vive no amor de Cristo; ir, isto é, não
permanecer sozinho para mim, ver a minha perfeição, garantir
para mim a felicidade eterna, mas esquecer de mim mesmo, ir
como Cristo andou, andar como Deus andou, de Sua Majestade
imensa até a nossa pobreza, para encontrar frutos, para
ajudar-nos, para nos dar a oportunidade de portar o fruto do
amor verdadeiro. Quanto mais nós somos preenchidos com
essa alegria de ter descoberto a face de Deus, tanto mais o
entusiasmo do amor será real em nós e produzirá frutos.
E, finalmente, chegamos à última palavra desta passagem:
"Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto
pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda".
Uma breve reflexão sobre a oração, que sempre nos
surpreende de novo. Por duas vezes, neste capítulo
15, o Senhor diz: "O que pedirdes, vos dou", e
mais uma vez também no capítulo 16. E nós desejaríamos
dizer: "Mas não, senhor, não é verdade." Tantas orações boas
e profundas das mães que rezam para o filho que está
morrendo e não são atendidas, tantas orações para que
aconteça uma coisa boa e o Senhor não responde. O que dizer
dessa promessa? No capítulo 16, o Senhor nos oferece a chave
para compreender: ele nos diz o quanto nos dá, o que é
este tudo: a alegria - se alguém encontrou a alegria,
encontrou tudo e vê tudo à luz do amor divino. Como
São Francisco, que compôs o grande poema sobre a criação em
uma situação desoladora, mas exatamente ali, ao lado do
Senhor sofredor, redescobriu a beleza do ser, a
bondade de Deus, e escreveu este grande poema.
Vale lembrar, ao mesmo tempo, também alguns versículos do
Evangelho de Lucas, onde o Senhor, em uma parábola, fala de
oração, dizendo: "Se vós, que sois mal, dais coisas
boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai do Céu dará
aos seus filhos o Espírito Santo". O Espírito Santo
- no Evangelho de Lucas - é a alegria, no Evangelho de
João é a mesma realidade: a alegria é o Espírito Santo e o
Espírito Santo é a alegria, ou, em outras palavras,
de Deus não invocamos qualquer coisa, pequena ou grande, de
Deus invocamos o dom divino, o próprio Deus; esse é o grande
dom que Deus nos dá: o próprio Deus.
Neste
sentido, temos de aprender a rezar,
rezar para a grande realidade, a realidade divina,
porque Ele nos dá a Si próprio, dá-nos o Seu Espírito para
que possamos responder às exigências da vida e ajudar os
outros no seu sofrimento. Evidentemente, o Pai Nosso
nos ensina isso. Podemos orar por muitas coisas, em todas as
nossas necessidades podemos rezar: "Ajude-me".
Isso é muito humano e Deus é humano, como vimos; por
isso é justo rezar a Deus para as pequenas coisas na nossa
vida quotidiana.
Mas, ao mesmo tempo, a oração é um caminho, eu diria
que uma escada: devemos aprender mais e mais para
que coisas podemos rezar e para que coisas não podemos,
porque são expressões do nosso egoísmo. Eu não posso orar
por coisas que são nocivas aos outros, eu não posso orar por
coisas que ajudam o meu egoísmo, minha soberba. Assim,
o orar, diante dos olhos de Deus, torna-se um processo de
purificação de nossos pensamentos, nossos desejos.
Como disse o Senhor na parábola da videira: devemos
ser podados, purificados, a cada dia; viver com Cristo, em
Cristo, permanecer em Cristo, é um processo de purificação,
e somente neste processo de lenta purificação, de libertação
de nós mesmos e da vontade de ter somente para si, está o
caminho verdadeiro da vida, se abre o caminho da alegria.
Como já mencionei, todas estas palavras do Senhor têm um
pano de fundo sacramental. O pano de fundo fundamental
para a parábola da videira é o Batismo: somos implantados em
Cristo; e a Eucaristia: somos um pão, um corpo, um sangue,
uma vida com Cristo. E também este processo de
purificação tem um pano de fundo sacramental: o
sacramento da Penitência, da Reconciliação, em que
aceitamos esta pedagogia divina, que dia a dia, ao longo de
uma vida, nos purifica e nos torna mais e mais verdadeiros
membros de seu corpo. Deste modo, podemos aprender que
Deus responde às nossas orações, muitas vezes responde com a
sua bondade também às pequenas orações, mas muitas
vezes também as corrige, as transforma e as guia para que
sejamos finalmente e verdadeiramente ramos de seu
Filho, da videira verdadeira, membros de seu Corpo.
Agradeçamos a Deus pela grandeza de seu amor, rezemos para
que Ele nos ajude a crescer em seu amor, para que
permaneçamos realmente em seu amor.
Fonte:
Serviço de informação do Vaticano.
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