
Papa Bento XVI.
Caridade
não exclui a Justiça,
diz Papa a tribunal eclesiástico
30.01.10: Papa se reúne com membros do
Tribunal da Rota Romana, no Vaticano.
"Todos
os que atuam no campo do direito deve ser guiados pela
justiça",
disse o Papa Bento XVI nesta sexta-feira, 29, aos membros do
Tribunal da Rota Romana, para dar início ao Ano Judiciário,
no Vaticano.
O Papa
disse que mesmo "o juiz, que deseja ser justo,
experimenta uma grave responsabilidade diante de Deus e dos
homens (...), e os advogados, devem evitar cuidadosamente
assumir o patrocínio de causas que, segundo a sua
consciência, não sejam objetivamente sustentáveis".
Tendo
como pano de fundo a sua Encíclica "Caritas in
veritate", Bento XVI teceu diversas considerações
aprofundando as relações entre justiça, caridade e
verdade, começando por chamar a atenção para a tendência,
"difusa e radicada", de contrapor a justiça à caridade, como
se uma excluísse a outra. Desvaloriza-se
assim, por vezes, o Direito Canônico, como se fosse mero
instrumento técnico ao serviço de qualquer interesse
subjetivo, mesmo não assente na verdade. Ora, qualquer que
seja a situação, o processo e a sentença estão de algum modo
fundamentalmente ligados à justiça, ao seu serviço.
A
abordagem das pessoas (envolvidas num processo canônico)
deve, portanto, ter presente o caso concreto, até para
ajudar as partes, com delicadeza e solicitude, no contato
com o competente tribunal. Por outro lado, "nunca se
esqueça que qualquer obra de autêntica caridade compreende a
indispensável referência à justiça", observou o
Papa.
Por
outro lado, prosseguiu Bento XVI, a ação de quem administra
a justiça não pode prescindir da caridade. "O amor
para com Deus e para com o próximo deve modelar cada
atividade, mesmo a que aparentemente é mais técnica e
burocrática. O olhar e a medida da caridade ajudarão a não
esquecer que se está sempre diante de pessoas marcadas por
problemas e sofrimentos".
"Quem
ama com caridade os outros é antes de mais justo com eles.
Não só a justiça não é alheia à caridade, não só não é uma
via alternativa ou paralela à caridade: a justiça é
inseparável da caridade, intrínseca a ela.
Caridade sem justiça não é caridade,
mas mera contrafacção, porque a própria caridade requer
aquela objetividade típica da justiça, que não há que
confundir com frieza desumana".
Neste
contexto, o Papa citou o seu predecessor João Paulo II, que
falando, há 20 anos, das relações entre pastoral e direito,
advertia os juízes quanto ao "risco de uma compaixão
mal entendida que caísse em sentimentalismo". Só
aparentemente seria pastoral.
"Há
que não se dar ouvidos aos apelos de pseudopastorais que
colocam as questões num plano meramente horizontal, no qual
a única coisa que conta é satisfazer as solicitações
subjetivas, para chegar a todo o custo à declaração de
nulidade, para superar, nomeadamente, os obstáculos à
recepção dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia".
Ora –
considerou Bento XVI – "o altíssimo bem da readmissão
à Comunhão Eucarística depois da reconciliação sacramental
exige que se considere o autêntico bem das pessoas, que não
se pode separar da verdade da sua situação canônica. Seria
um bem fictício, e uma grande falta de justiça e de amor,
aplanar-lhes de um modo qualquer o caminho para a recepção
dos sacramentos, com o risco de as fazer viver em contraste
objetivo com a verdade da sua condição pessoal".
“Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e
testemunhá-la na vida são formas exigentes e insubstituíveis
de caridade. Esta compraz-se com a verdade. Só na verdade se
pode viver autenticamente a caridade. Sem verdade a caridade
descamba em sentimentalismo. O amor torna-se uma casca
vazia, a encher arbitrariamente. É o fatal risco do amor
numa cultura sem verdade. Acaba por ficar abandonado às
emoções e opiniões contingentes dos sujeitos, palavra
abusada e distorcida, acabando por significar o contrário".
Fonte:
Rádio Vaticano.
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