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S.S. o
Papa Bento XVI
Homilia
de Sua Santidade
na
canonização de cinco novos Santos.
Queridos irmãos e irmãs!
«O que hei de fazer para herdar a vida eterna?».
Com esta pergunta teve início o breve diálogo que escutamos
na página evangélica, entre um jovem, identificado como
rico, e Jesus (cf. Mc 10, 17-30).
Não
sabemos muitos pormenores acerca desta anônima personagem;
das poucas informações, todavia, conseguimos perceber o seu
desejo sincero de alcançar a vida eterna, conduzindo uma
existência terrena honesta e virtuosa. De fato, conhece os
mandamentos e observa-os fielmente desde a adolescência. E
no entanto tudo isto, que certamente é importante, não basta
- diz Jesus - falta só uma coisa, mas trata-se de algo
essencial. Vendo-o então bem disposto, o divino Mestre,
fitando-o com amor propõe-lhe o salto de qualidade,
chama-o ao heroísmo da santidade, pede-lhe que
abandone tudo e o siga: «Vende o que tens, dá aos
pobres... depois, vem e segue-me!» (v. 21).
«Vem e segue-me!».
Eis a vocação cristã que nasce de uma proposta de amor do
Senhor, e que pode realizar-se só graças a uma nossa
resposta de amor. Jesus convida os seus discípulos ao dom
total da própria vida, sem cálculo e vantagem humana, com
uma confiança sem reservas em Deus. Os santos aceitam
este convite exigente, e põem-se com humilde
docilidade no seguimento de Cristo crucificado e
ressuscitado.
A sua perfeição, na lógica da fé, às vezes humanamente
incompreensível, consiste em não se colocar a si mesmo no
centro, mas em escolher ir contra a corrente, vivendo de
acordo com o Evangelho.
Assim fizeram os cinco santos que hoje, com grande alegria,
são apresentados à veneração da Igreja universal:
Zygmunt Szczesny Felinski, Francisco Coll y Guitart, Jozef
Damiaan de Veuster, Rafael Arnáiz Barón e Marie de la Croix
(Jeanne) Jugan.
Neles
contemplamos realizadas as palavras do Apóstolo Pedro:
«Deixamos tudo e seguimos-te» (v. 28) e a
consoladora garantia de Jesus: «não há ninguém que
tenha deixado casa e irmãos ou irmãs, mãe ou pai, filhos ou
campos, por minha causa e por causa do Evangelho, que não
receba já agora... cem vezes tanto... juntamente com
perseguições, e a vida eterna no tempo que virá»
(vv. 29-30).
Zygmunt Szczęsny Feliński,
Arcebispo de Varsóvia, fundador da congregação das
Franciscanas da Família de Maria, foi uma grande
testemunha da fé e da caridade pastoral, numa época muito
difícil para a nação e para a Igreja na Polônia.
Preocupou-se com zelo do crescimento espiritual dos fiéis,
ajudando os pobres e os órfãos. Na Academia Eclesiástica de
São Petersburgo, dirigiu a sólida formação dos sacerdotes.
Como Arcebispo de Varsóvia, incentivou todos à
renovação interior.
Antes
da insurreição de Janeiro de 1863 contra a anexação russa,
alertou o povo para o inútil derramamento de sangue. Quando,
porém, eclodiu a revolta e houve repressões, defendeu
corajosamente os oprimidos. Por ordem do czar russo, passou
vinte anos no exílio, em Jaroslaw às margens do Volga, sem
poder retornar à sua diocese. Em qualquer situação,
mantinha a inexorável confiança na Divina Providência, e
assim rezava: “Oh Deus, não nos protejas das tribulações e
das preocupações deste mundo... mas multiplica o amor nos
nossos corações e faz que, com a mais profunda humildade,
mantenhamos a infinita confiança na Tua ajuda e na Tua
misericórdia...”. Hoje, o seu doar-se a Deus e aos
homens, plenos de confiança e de amor, torna-se um fúlgido
exemplo para toda a Igreja.
São
Paulo recorda-nos na segunda leitura que «a Palavra de
Deus é viva e eficaz» (Hb 4,12). Nela, o Pai que
está no céu, conversa amorosamente com seus filhos de todos
os tempos (cf. Dei Verbum, 21), dando-lhes a conhecer seu
infinito amor e, deste modo, encorajá-os, consolá-os e
oferecer-lhes o seu desígnio de salvação para a humanidade e
para cada pessoa. Consciente disto, São Francisco Coll
dedicou-se com afinco a propagá-la, cumprindo assim
fielmente a sua vocação na Ordem dos Pregadores, na qual
realizou a profissão.
A sua paixão foi pregar,
em grande parte de modo itinerante e seguindo a forma de
«missões populares», com a finalidade de anunciar e reavivar
pelos povoados e cidades da Catalunha a Palavra de Deus,
ajudando assim as pessoas ir ao encontro profundo com Ele.
Um encontro que leva à conversão do coração, a receber
com alegria a graça divina e a manter um diálogo constante
com Nosso Senhor através da oração. Por isso, a sua
atividade evangelizadora incluía uma grande entrega ao
sacramento da Reconciliação, uma ênfase
destacada na Eucaristia e uma insistência constante na
oração.
Francisco Coll chegava até ao coração das pessoas porque
transmitia o que ele mesmo vivia com paixão no seu interior,
o que ardia no seu coração: o amor de Cristo, a sua entrega
a Ele. Para que a semente da Palavra de Deus encontrasse
terra boa, Francisco fundou a congregação das Irmãs
Dominicanas da Anunciação, com a finalidade de dar uma
educação integral a crianças e jovens, de modo que pudessem
descobrir a riqueza insondável que é Cristo, esse amigo fiel
que nunca nos abandona nem se cansa de estar ao nosso lado,
animando nossa esperança com a sua Palavra de vida.
Jozef De Veuster, que na Congregação dos Sagrados Corações
de Jesus e de Maria recebeu o nome Damiaan,
em 1863, quando tinha 23 anos, deixou o seu país natal, os
Flandres, para anunciar o Evangelho do outro lado do mundo,
no Arquipélago do Havaí. A sua atividade missionária, que
lhe deu tanta alegria, alcançou o seu ápice na caridade. Não
sem temor e repulsa, escolheu ir à Ilha de Molokai ao
serviço dos leprosos que lá se encontravam abandonados por
todos; assim expôs-se à doença da qual eles sofriam.
Juntamente com eles, sentiu-se em casa. O servidor da
Palavra tornou-se assim um servidor sofredor, leproso com os
leprosos, durante os últimos quatro anos da sua vida.
Para seguir Cristo, o Padre Damiaan não só deixou a sua
pátria mas colocou em risco inclusive a sua saúde:
por isso ele - como diz a palavra de Jesus que nos foi
proclamada no Evangelho de hoje - recebeu a vida eterna (cf.
Mc 10, 30).
No
vigésimo aniversário da canonização de outro santo belga,
Fratel Mutien-Marie, a Igreja na Bélgica reúne-se
mais uma vez para dar graças a Deus por um dos seus filhos,
reconhecido como um autêntico servidor de Deus. Diante desta
nobre personalidade, recordamos que é a caridade a fazer a
unidade: gera-a e torna-a desejável. Seguindo São Paulo, São
Damião faz-nos optar pelos bons combates (cf. 1 Tm 1, 18),
não por aqueles que provocam divisões, mas pelos que unem. E
convida-nos a abrir os olhos para as lepras que desfiguram a
humanidade dos nossos irmãos, e pedem mais do que a nossa
generosidade, a caridade da nossa presença de servidores.
À
figura do jovem que apresenta a Jesus o seu desejo de ser
algo mais do que um bom cumpridor dos deveres que impõe a
lei, retornando ao Evangelho de hoje, faz de contraluz
o Irmão Rafael, hoje canonizado, falecido aos
vinte e sete anos como Oblato na Trapa de San Isidro de
Dueñas. Ele também era de uma família abastada e, como
ele mesmo disse, de “alma um pouco sonhadora”, cujos sonhos
porém não se desvaneceram diante do apego aos bens materiais
e a outras metas que a vida do mundo propõe às vezes com
grande insistência.
Ele disse sim à proposta de seguir Jesus, de maneira
imediata e decidida, sem limites nem condições.
Deste modo, iniciou um caminho que, a partir do momento em
que se deu conta no Mosteiro de que “não sabia rezar”, o
levou em poucos anos ao ápice da vida espiritual, que ele
retrata com grande simplicidade e maturidade em numerosos
escritos. O Irmão Rafael, ainda muito próximo
de nós, continua a oferecer-nos com o seu exemplo e as suas
obras um percurso atrativo, especialmente para os jovens que
não se conformam com pouco, mas que aspiram à plena verdade,
à mais indizível alegria, que se alcançam através do amor de
Deus. “Vida de amor... Está aqui a única razão de
viver”, diz o novo Santo. E insiste: “Do amor
de Deus nasce tudo”.
Que o
Senhor ouça benigno uma das últimas orações de São Rafael
Arnáiz, quando lhe entregava toda a sua vida, suplicando:
“Toma-me a mim e doa-Te a Ti ao mundo”. Que se
doe para reanimar a vida interior dos cristãos de hoje. Que
se doe para que os seus Irmãos da Trapa e os centros
monásticos continuem a ser esse farol que faz descobrir o
íntimo anseio de Deus que Ele pôs em cada coração humano.
Através da sua admirável obra ao serviço das pessoas idosas
mais carentes, Santa Maria da Cruz é também uma luz para
guiar as nossas sociedades, que devem sempre redescobrir o
lugar e a contribuição única deste período da vida. Nascida
em 1792 em Cancale, na Bretanha, Joana Jugan
zelou pela dignidade dos seus irmãos e irmãs de humanidade,
vulneráveis em função da idade, reconhecendo neles a própria
pessoa de Cristo. “Olhai ao pobre com compaixão -
dizia - e Jesus vos olhará com bondade no vosso último dia”.
“Seu serviço alegre e abnegado, realizado com
docilidade e humildade de coração, ao fazer-se pobre entre
os pobres, era marcado por este olhar de compaixão às
pessoas idosas, recebido da sua profunda comunhão com Deus”.
Joana Jugan
viveu o mistério do amor ao aceitar, com serenidade, o
escondimento e o despojamento, até a morte. O seu
carisma é sempre atual, visto que muitas pessoas idosas
sofrem por vários tipos de pobreza e de solidão, por vezes
até abandonadas por suas famílias. O espírito de
hospitalidade e de amor fraterno, fundado na confiança
ilimitada na Providência, na qual Joana Jugan encontrava a
fonte nas Beatitudes, iluminou toda a sua existência. Tal
entusiasmo evangélico persiste hoje, em todo o mundo, com a
Congregação das Pequenas Irmãs dos Pobres, que ela fundou e
que testemunha, seguindo o seu exemplo, a misericórdia de
Deus e o amor de compaixão do Coração de Jesus pelos
pequenos. Que Santa Joana Jugan seja, para todas as
pessoas idosas, uma fonte vida de esperança e para as
pessoas que se põem generosamente ao seu serviço, um
poderoso estímulo para prosseguir e desenvolver a sua obra!
Queridos irmãos e irmãs, demos graças ao Senhor pelo dom da
santidade, que hoje resplandece na Igreja com singular
beleza. Enquanto com afeto saúdo cada um de vós - Cardeais,
Bispos, Autoridades civis e militares, sacerdotes,
religiosos e religiosas, fiéis leigos de várias
nacionalidades que participais nesta solene celebração
eucarística - gostaria de dirigir a todos o convite a
deixar-se atrair pelos exemplos luminosos desses Santos, a
deixar-se guiar pelos seus ensinamentos, para que toda a
nossa existência se torne um cântico de louvor ao amor de
Deus. Obtenha-nos esta graça a sua celeste intercessão e,
sobretudo, a materna proteção de Maria, Rainha dos Santos e
Mãe da humanidade. Amém.
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