
Epifania do Senhor.
"A verdadeira Estrela-guia é o próprio Cristo"
06.01.2012 -
Cidade do Vaticano:
Bento XVI celebrou esta manhã na Basílica de São Pedro a
Missa
da solenidade da Epifania do Senhor,
durante a qual conferiu a ordenação episcopal aos
presbíteros Mons. Charles John Brown, Núncio apostólico na
Irlanda, e Mons. Marek Solczyński, Núncio apostólico na
Geórgia e na Armênia.
Queridos irmãos e irmãs!
A
Epifania é uma festa da luz. "Ergue-te, Jerusalém, e
sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor
está sobre ti" (Is
60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja
descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que
é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam
luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf.
Jo
1, 9.12).
Para a liturgia,
o
caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande
procissão que continua ao longo da história inteira.
Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade
rumo a
Jesus Cristo:
rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz
e, Ressuscitado, permanece conosco todos os dias até
ao fim do mundo (cf.
Mt
28, 20).
A Igreja lê a narração do Evangelho de Mateus juntamente com
a visão do profeta Isaías, que escutamos na primeira
leitura: o caminho destes homens é só o início. Antes,
tinham vindo os pastores – almas simples que habitavam
mais perto de Deus feito menino, podendo mais facilmente "ir
até lá" (cf.
Lc
2, 15) ter com Ele e reconhecê-Lo como Senhor. Mas agora vêm
também os sábios deste mundo.
Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as
culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os
primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos.
Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da
Carta
aos Efésios
exprime, de modo muito sóbrio e simples, a mesma idéia:
os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6).
Eis como o formulara o
Salmo
2: "Eu te darei as nações por herança, e os confins da
terra para teu domínio" (v. 8).
Os
Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos
para Cristo. Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação
Episcopal a dois sacerdotes, consagrá-los-ei Pastores do
povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à
frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf.
Jo 10,
4). Por isso naqueles personagens, que foram os primeiros
pagãos a encontrar o caminho para Cristo, talvez possamos –
não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações e
tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos.
Que
tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que
pertenciam à grande tradição astronômica que se fora
desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era
então florescente. Mas esta informação, por si só, não é
suficiente. Provavelmente haveria muitos astrônomos na
antiga Babilônia, mas poucos, apenas estes Magos, se
puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham
reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que
indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador.
Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no
sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo
mais. Queriam entender o que é que conta no fato de sermos
homens.
Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um
profeta pagão: "Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se
levanta de Israel" (Nm
24, 17).
Eles
aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração
inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a
rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à
procura de Deus. Eram homens vigilantes,
capazes de discernir os sinais de Deus, a sua
linguagem sutil e insistente. Mas eram também homens
corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as
zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a
caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando
canseiras sem número.
Mas,
não
consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo
pelas pessoas influentes e inteligentes.
Para eles o que contava era a própria verdade, não a
opinião dos homens. Por isso,
enfrentaram as privações e o cansaço de um caminho longo e
incerto. Foi a
sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante de
um menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei
prometido,
cuja
busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho
exterior e interior.
Queridos amigos, em tudo isto é possível ver alguns traços
essenciais do ministério episcopal.
Também o Bispo deve ser um homem de coração inquieto,
que não se satisfaz com as coisas rotineiras deste mundo,
mas segue a inquietação do coração que o impele
interiormente a aproximar-se sempre mais de Deus, a procurar
o seu Rosto, a conhecê-Lo cada vez melhor, para poder amá-Lo
sempre mais.
Também o Bispo deve ser um homem de coração vigilante que
percebe a linguagem sutil de Deus e sabe discernir a verdade
da aparência.
Também o Bispo deve estar repleto da coragem da humildade,
que não se interessa do que a opinião dominante diz dele,
mas por critério toma a medida da verdade de Deus,
comprometendo-se com ela
"opportune – importune".
Deve ser capaz de ir à frente indicando o caminho.
Deve ir à frente seguindo Aquele que a todos nos precedeu,
porque é o verdadeiro Pastor, a verdadeira estrela da
promessa: Jesus Cristo.
E
deve ter a humildade de prostrar-se diante daquele Deus que
Se tornou tão concreto e tão simples que contradiz o nosso
orgulho insensato, que não quer ver Deus assim perto e
pequenino. Deve viver a adoração do Filho de Deus feito
homem, aquela adoração que lhe indica sem cessar o caminho.
A
liturgia da Ordenação Episcopal exprime o essencial deste
ministério em oito perguntas dirigidas aos Ordenandos, que
começam sempre com a palavra:
"Vultis? –
Quereis?". As perguntas orientam a vontade e indicam-lhe o
caminho a tomar.
Gostaria de mencionar aqui, brevemente, algumas das
palavras-chave desta orientação, nas quais se concretiza
aquilo que há pouco refletimos a partir dos Magos que
aparecem na festa de hoje. A missão dos Bispos é
"praedicare Evangelium
Christi", "custodire", "dirigere"", pauperibus se
misericordes praebere", "indesinenter orare".
O anúncio do
Evangelho de Jesus Cristo, guardar o depósito sagrado da
nossa fé, ir à frente e guiar, a misericórdia e a caridade
para com os necessitados e os pobres nas quais se reflete o
amor misericordioso de Deus para conosco e, finalmente, a
oração contínua são características fundamentais do
ministério episcopal.
A
oração contínua significa nunca perder o contato com Deus,
deixar-se tocar sempre por Ele no íntimo do nosso coração e
deste modo sermos permeados pela sua luz. Só quem conhece a
Deus pessoalmente é que pode guiar os outros para Deus. E só
quem guia os homens para Deus é que os guia pela estrada da
vida.
O
coração inquieto, de que falamos
inspirando-nos em Santo Agostinho,
é o coração que, em
última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus
e é, precisamente assim, que se torna um coração que ama.
O nosso coração vive inquieto relativamente a Deus, e não
pode ser de outro modo, embora hoje se procure, com
"narcóticos" muito eficazes, libertar o homem desta
inquietação.
Mas
não
somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos
relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto
relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa
procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver
encontrado. O
coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a
caminho até junto de nós – até Belém,
até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins
do mundo.
Deus vive inquieto conosco, anda à procura de pessoas que se
deixem contagiar por esta sua inquietação,
pela sua paixão por nós;
pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao
mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a
nosso respeito.
Queridos amigos, foi esta a missão dos Apóstolos: acolher a
inquietação de Deus pelo homem e levar o próprio Deus aos
homens. E, seguindo os passos dos Apóstolos, esta é a vossa
missão: deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de
que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.
Os
Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação,
encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da
criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de
Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia
indicar-lhes definitivamente o caminho.
Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para
nos conduzirem ao Deus vivo.
Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os
Magos.
Pensa-se numa conjunção de planetas, numa
Supernova, ou
seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que,
na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo
um imenso esplendor, num cometa, etc.
Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A
grande estrela, a verdadeira
Supernova
que nos guia é o próprio Cristo.
Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz
brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração.
E
podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados
no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco
tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos
indicam o caminho.
Em
todas estas pessoas, o contato com a Palavra de Deus
provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da
qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos
indica o caminho.
Os Santos são estrelas de
Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o
nosso ser anseia.
Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo,
quando dissestes o vosso "sim" ao sacerdócio e ao ministério
episcopal.
E
certamente brilharam para vós também estrelas menores, que
vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos,
invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem
sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho.
Com a
Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a ser estrelas
de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à
verdadeira Luz: Cristo.
Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais
corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens
a luz de Deus. Amém!
Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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