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A CATEQUESE
DO PAPA.
ESCRITURA E TRADIÇÃO,
eis a
estrutura católica.
Na
Audiência geral de quarta-feira 28 de Janeiro, o Papa fala
das últimas cartas de São Paulo
"Como cristãos, também nós sejamos membros da família de
Deus", disse o Santo Padre no final da Catequese de
quarta-feira 28 de Janeiro, comentando as últimas cartas do
epistolário Paulino.
Queridos irmãos e irmãs
As
últimas cartas do epistolário Paulino, das quais gostaria de
falar hoje, são chamadas Cartas pastorais, porque
foram enviadas a figuras individuais de Pastores da Igreja:
duas a Timóteo e uma a Tito, estreitos colaboradores de São
Paulo. Em Timóteo, o Apóstolo via como que um alter ego;
com efeito, confiou-lhe missões importantes (na
Macedônia: cf. At 19, 22; em Tessalônica: cf. 1
Ts 3, 6-7; em Corinto: cf. 1 Cor 4, 17; 16,
10-11), e depois escreveu dele um elogio lisonjeiro:
"Não tenho nenhum outro tão unido comigo, que, com tão
sincera afeição, se interesse por vós" (Fl 2,
20).
Segundo a História eclesiástica de Eusébio de
Cesareia, do século IV, Timóteo foi depois o primeiro Bispo
de Éfeso (cf. 3, 4). Quanto a Tito, também ele devia ter
sido muito estimado pelo Apóstolo, que o define
explicitamente cheio de zelo... meu companheiro e
colaborador" (2 Cor 8, 17.23), aliás, "meu
verdadeiro filho na fé comum" (Tt 1, 4). Ele
fora encarregado de algumas missões muito delicadas na
Igreja de Corinto, cujo resultado animou Paulo (cf. 2 Cor
7, 6-7.13; 8, 6). Em seguida, daquilo que nos foi
transmitido, Tito uniu-se a Paulo em Nicópolis no Épiro, na
Grécia (cf. Tt 3, 12) e depois foi por ele convidado
a ir à Dalmácia (cf. 2 Tm 4, 10). Segundo a Carta que
lhe foi endereçada, em seguida ele tornou-se Bispo de Creta
(cf. Tt 1, 5).
As
Cartas dirigidas a estes dois Pastores ocupam um lugar
totalmente particular no contexto do Novo Testamento. Hoje,
o parecer da maioria dos exegetas é que estas Cartas não
teriam sido escritas pelo próprio Paulo, mas teria a sua
origem na "escola de Paulo", e refletiriam a sua herança
para uma nova geração, talvez integrando alguns breves
escritos ou palavras do próprio Apóstolo.
Por
exemplo, algumas palavras da segunda Carta a Timóteo parecem
tão autênticas, que só podem vir do coração e da boca do
Apóstolo.
Sem dúvida, a situação eclesial que sobressai destas Cartas
é diferente da dos anos centrais da vida de Paulo. Ele
agora, em retrospectiva, define-se "arauto, apóstolo e
mestre" dos pagãos na fé e na verdade (cf. 1 Tm 2, 7;
2 Tm 1, 11); apresenta-se como alguém que obteve
misericórdia, porque Jesus Cristo como escreve "quis
mostrar, primeiro em mim, toda a sua magnanimidade e para
que assim, servisse de exemplo àqueles que haviam de crer
nele para a vida eterna" (1 Tm 1, 16).
Portanto, o que parece realmente essencial em Paulo,
perseguidor convertido da presença do Ressuscitado, é a
magnanimidade do Senhor, que nos serve de encorajamento,
para nos induzir a esperar e a ter confiança na misericórdia
do Senhor que, não obstante a nossa pequenez, pode realizar
maravilhas. Para além dos anos centrais da vida de Paulo,
vão também os novos contextos culturais aqui pressupostos.
Com
efeito, faz-se alusão ao aparecimento de ensinamentos que se
deviam considerar totalmente errôneos e falsos (cf. 1 Tm
4, 1-2; 2 Tm 3, 1-5), como aqueles de quem
afirmava que o matrimônio não era bom (cf. 1 Tm 4,
3a). Vemos como é moderna esta preocupação, porque também
hoje se lê, por vezes, a Escritura como objeto de
curiosidade histórica, e não como palavra do Espírito Santo,
na qual podemos ouvir a própria voz do Senhor e conhecer a
sua presença na história.
Poderíamos dizer que, com este breve elenco de erros
presentes nas três Cartas, são antecipados alguns trechos
daquela sucessiva orientação errônea que aparece sob o nome
de Gnosticismo (cf. 1 Tm 2, 5-6; 2 Tm 3, 6-8).
O autor compara estas doutrinas com duas referências de
base. Uma consiste na evocação de uma leitura espiritual da
Sagrada Escritura (cf. 2 Tm 3, 14-17), ou seja, de
uma leitura que a considera realmente como que "inspirada" e
proveniente do Espírito Santo, de tal forma que por ela se
pode ser "instruído para a salvação".
Lê-se
a Escritura, justamente, pondo-se em diálogo com o Espírito
Santo, de modo a haurir a sua luz "para ensinar, para
convencer, para corrigir e para instruir na justiça"
(2 Tm 3, 16). Neste sentido, a Carta acrescenta:
"A fim de que o homem de Deus seja perfeito e apto
para toda a boa obra" (2 Tm 3, 17). A outra
evocação consiste na referência ao bom "depósito" (parathéke):
é uma palavra especial das Cartas pastorais, com que se
indica a tradição da fé apostólica que se deve conservar com
a ajuda do Espírito Santo que habita em nós.
Portanto, este chamado "depósito" deve ser considerado como
que a soma da Tradição apostólica e critério de fidelidade
ao anúncio do Evangelho. E aqui temos que ter presente o
fato de que nas Cartas pastorais, como em todo o Novo
Testamento, o termo "Escrituras" significa explicitamente o
Antigo Testamento, porque os escritos do Novo Testamento
ainda não existiam, ou ainda não faziam parte de um cânone
das Escrituras.
Por
conseguinte a Tradição do anúncio apostólico, este
"depósito", é a chave de leitura para compreender a
Escritura, o Novo Testamento. Neste sentido, Escritura e
Tradição, Escritura e anúncio apostólico como chave de
leitura aproximam-se e quase se fundem, para formar em
conjunto o "sólido fundamento lançado por Deus" (2
Tm 2, 19).
O
anúncio apostólico, ou seja a Tradição, é necessário para se
introduzir na compreensão da Escritura e aí ouvir a voz de
Cristo. Com efeito, é necessário estar "firmemente apegado à
palavra fiel, tal como ela foi ensinada" (Tt 1, 9).
Na base de tudo está, precisamente, a fé na revelação
histórica da bondade de Deus, que em Jesus Cristo manifestou
concretamente o seu "amor pelos homens", um amor que no
texto original grego é significativamente qualificado como
filanthropía (Tt 3, 4; cf. 2 Tm 1,
9-10); Deus ama a humanidade.
No
conjunto, vê-se bem que a comunidade cristã se vai
configurando em termos muitos claros, segundo uma identidade
que não só se afasta de interpretações incôngruas, mas
sobretudo afirma a própria ancoragem nos pontos essenciais
da fé, que aqui é sinônimo de "verdade" (1 Tm 2, 4.7;
4, 3; 6, 5; 2 Tm 2, 15.18.25; 3, 7.8; 4, 4; Tt
1, 1.14).
Na fé
aparece a verdade essencial de quem nós somos, de quem é
Deus, como devemos viver. E desta verdade (a verdade da fé),
a Igreja é definida "coluna e sustentáculo"
(1 Tm 3, 15). De qualquer modo, ela permanece uma
comunidade aberta, de visão universal, que reza por todos os
homens de todas as ordens e graus, para que cheguem ao
conhecimento da verdade: "Deus deseja que todos os
homens se salvem e conheçam a verdade", porque
"Jesus Cristo se entregou em resgate por todos" (1
Tm 2, 4-5).
Portanto, o sentido da universalidade, embora as comunidades
ainda sejam pequenas, é forte e determinante para estas
Cartas. Além disso, esta comunidade cristã "não fala mal de
ninguém" e é "cheia de doçura para com todos os homens" (Tt
3, 2). Este é um primeiro componente importante destas
Cartas: a universalidade e a fé como verdade, como chave de
leitura da Sagrada Escritura, do Antigo Testamento, e é
assim que se delineia uma unidade de anúncio e de Escritura,
e uma fé viva e aberta a todos e testemunha do amor de Deus
por todos.
Outro
componente típico destas Cartas é a sua reflexão sobre a
estrutura ministerial da Igreja. São elas que, pela primeira
vez, apresentam a tríplice subdivisão de bispos, presbíteros
e diáconos
(cf. 1 Tm 3, 1-13; 4, 13; 2 Tm 1, 6; Tt
1, 5-9). Nas Cartas pastorais podemos observar o confluir de
duas estruturas ministeriais diversas, e assim a
constituição da forma definitiva do ministério na Igreja.
Nas Cartas paulinas dos anos centrais da sua vida, Paulo
fala de "bispos" (Fl 1, 1) e de "diáconos": esta é a
estrutura típica da Igreja, que se formou nessa época no
mundo pagão. Portanto, permanece predominante a figura do
próprio Apóstolo, e por isso só gradualmente se desenvolvem
os outros ministérios.
Se,
como se disse, nas Igrejas formadas no mundo pagão dispomos
de bispos e de diáconos, e não de presbíteros, nas Igrejas
que se formaram no mundo judaico-cristão os presbíteros
constituem a estrutura predominante. No final das Cartas
pastorais, as duas estruturas unem-se: agora aparece "o
episcopo" (o bispo) (cf. 1 Tm 3, 2; Tt 1,
7), sempre no singular, acompanhado pelo artigo definido
"o episcopo". E ao lado de "o episcopo"
encontramos os presbíteros e os diáconos. Parece ser ainda
determinante a figura do Apóstolo, mas as três Cartas, como
eu já disse, são dirigidas não já a comunidades, mas a
pessoas: Timóteo e Tito, que por um lado aparecem como
Bispos, por outro começam a ocupar o lugar do Apóstolo.
Assim,
nota-se inicialmente a realidade que mais tarde se há de
chamar "sucessão apostólica". Paulo diz a
Timóteo, com tom de grande solenidade: "Não descuides
o dom espiritual que recebeste e que te foi concedido por
uma intervenção profética, com a imposição das mãos dos
presbíteros" (1 Tm 4, 14). Podemos
dizer que nestas palavras aparece inicialmente também o
caráter sacramental do ministério. E assim temos o
essencial da estrutura católica: Escritura e
Tradição, Escritura e anúncio formam um conjunto, mas a esta
estrutura, por assim dizer doutrinal, deve acrescentar-se a
estrutura pessoal, os sucessores dos Apóstolos, como
testemunhas do anúncio apostólico.
Enfim,
é importante observar que nestas Cartas a Igreja se
inclui a si mesma em termos muito humanos, em analogia com a
casa e a família. Particularmente em 1 Tm 3, 2-7,
lêem-se instruções muito pormenorizadas sobre o bispo, como
estas: ele deve ser "irrepreensível, que se tenha
casado uma só vez, que seja sóbrio, prudente, hospitaleiro,
capaz de ensinar. Não deve ser dado ao álcool, nem violento,
mas condescendente, pacífico e desinteressado; que saiba
governar bem a casa, tenha os seus filhos submissos e com
perfeita honestidade. Pois se alguém não souber governar a
sua casa, como cuidará da Igreja de Deus? [...]
Importa também que goze de boa fama entre os estranhos".
Aqui é
necessário observar sobretudo a importante atitude relativa
ao ensino (cf. também 1 Tm 5, 17), do qual se
encontram ecos inclusive noutros trechos (cf. 1 Tm 6,
2c; 2 Tm 3, 10; Tt 2, 1), e depois uma
especial característica pessoal, a da "paternidade".
Com efeito, o bispo é considerado pai da comunidade cristã
(cf. também 1 Tm 3, 15). De resto, a idéia de Igreja
como "casa de Deus" mergulha as suas raízes no Antigo
Testamento (cf. Nm 12, 7) e encontra-se reformulada
em Hb 3, 2.6, enquanto alhures se lê que todos os
cristãos não são mais estrangeiros nem hóspedes, mas
concidadãos dos santos e membros da família de Deus (cf.
Ef 2, 19).
Oremos
ao Senhor e a São Paulo para que também nós, como cristãos,
possamos caracterizar-nos cada vez mais, em relação à
sociedade em que vivemos, como membros da "família de Deus".
E rezemos ainda para que os Pastores da Igreja adquiram
sentimentos cada vez mais paternos e ao mesmo tempo ternos e
fortes, na formação da Casa de Deus, da comunidade, da
Igreja.
No
final da Audiência geral, realizada na Sala Paulo VI, Bento
XVI dirigiu as tradicionais saudações aos fiéis presentes,
proferindo estas palavras em português:
A
todos os peregrinos de língua portuguesa, especialmente aos
brasileiros provindos de diversas partes do País,
envio uma afetuosa saudação, rogando a Deus que este
encontro com o Sucessor de Pedro vos leve a um sempre maior
compromisso com a Igreja reunida na caridade e, como
"membros da família de Deus", saibam servi-la com
generosidade para a edificação do Reino de Deus neste mundo.
Com a minha Bênção Apostólica.
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