
Discurso do Papa Bento XVI
à Penitenciária Apostólica.
12.03.10:
O
sacerdote precisa "habitar com mais
freqüência" o confessionário, indicou Bento XVI a
membros do Tribunal da Penitenciária Apostólica que
participam do Curso anual sobre Foro Interno.
O encontro aconteceu na Sala Clementina do Palácio
Apostólico Vaticano na manhã de ontem quinta-feira, (11.03).
Queridos amigos,
Tenho o prazer de encontrar-vos e dirigir a cada um de
vós as minhas boas-vindas, por ocasião do Curso anual sobre
o Foro Interno, organizado pela Penitenciaria Apostólica.
Saúdo cordialmente o Arcebispo Fortunato Baldelli,
que, pela primeira vez, como Penitenciário Maior, guiou as
vossas sessões de estudo e agradeço-lhe pelas palavras que
me dirigiu. Com ele, saúdo o Bispo Gianfranco Girotti,
Regente, o pessoal da Penitenciária e a todos vós que, pela
participação nesta iniciativa, expressam a forte necessidade
de aprofundar um tema essencial para o ministério e a vida
dos presbíteros.
O vosso curso se coloca, providencialmente, no Ano
Sacerdotal, que proclamei devido ao 150º aniversário do
nascimento para o Céu de São João Maria Vianney, que
exerceu, de modo heróico e fecundo, o ministério da
Reconciliação. Como afirmei na
Carta
de proclamação: "Todos nós, sacerdotes,
deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente estas palavras
que ele colocava na boca de Cristo: 'Encarregarei os meus
ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto
a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita'. Do Santo
Cura d’Ars, nós, sacerdotes, podemos aprender não só uma
inexaurível confiança no sacramento da Penitência que nos
instigue a colocá-lo no centro das nossas preocupações
pastorais, mas também o método do 'diálogo de salvação' que
nele se deve realizar".
Onde estão fundadas as raízes da heroicidade e da
fecundidade, com as quais São João Maria Vianney viveu o
próprio ministério de confessor? Antes de tudo, em uma
intensa dimensão penitencial pessoal.
A consciência dos
próprios limites e a necessidade de recorrer à Divina
Misericórdia para pedir perdão, para converter o coração e
para ser sustentado no caminho de santidade, são
fundamentais na vida do sacerdote: somente quem primeiro
experimentou a grandeza maior pode ser convicto anunciador e
administrador da Misericórdia de Deus.
Todo sacerdote torna-se ministro da Penitência pela
configuração ontológica a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote,
que reconcilia a humanidade com o Pai; todavia, a fidelidade
no administrar o Sacramento da Reconciliação está confiada à
responsabilidade do sacerdote.
Vivemos em um
contexto cultural marcado por uma mentalidade hedonista e
relativista, que procura eliminar Deus do horizonte da vida,
não favorece a aquisição de um quadro claro de valores de
referência e não ajuda a discernir o bem do mal e a
desenvolver um justo senso de pecado. Essa situação torna
mais urgente o serviço de administrador da Misericórdia
Divina. Não
devemos esquecer, de fato, que existe um tipo de círculo
vicioso entre o ofuscamento da experiência de Deus e a perda
do senso de pecado.
No
entanto, se olharmos para o contexto cultural em que viveu
São João Maria Vianney, vemos que, em muitos aspectos, não
era assim tão diferente do nosso. Mesmo no seu tempo,
de fato, existia uma mentalidade hostil à fé, expressa por
forças que cercavam e tentavam impedir o exercício do
ministério. Em tais circunstâncias, o Santo Cura d'Ars
fez "da igreja a sua casa", para conduzir os homens a Deus.
Ele viveu com radicalidade o espírito de oração, a
relação pessoal e íntima com Cristo, a celebração da Santa
Missa, a Adoração eucarística e a pobreza apostólica,
tornando-se, para seus contemporâneos, um sinal evidente da
presença de Deus, conduzindo muitos penitentes para a escuta
em seu confessionário.
Nas
condições de liberdade em que, hoje, podemos exercer o
ministério sacerdotal, é necessário que os padres vivam de
modo "muito mais intenso" a sua resposta à
vocação, porque
somente aqueles que se
tornam no dia a dia presença viva e clara do Senhor podem
suscitar nos fiéis um senso de pecado, dar coragem e fazer
nascer o desejo do perdão de Deus.
Queridos
irmãos, é necessário retornar para o confessionário, como
lugar no qual celebrar o Sacramento da Reconciliação, mas
também como lugar em que "habitar" com mais freqüência, para
que o fiel possa encontrar misericórdia, conselho e
conforto, sentir-se amado e compreendido por Deus e
experimentar a presença da Misericórdia Divina, ao lado da
Presença real na Eucaristia.
A
"crise" do sacramento da Penitência, de que muitas vezes se
fala,
interpela, acima de tudo, ao padre e sua grande
responsabilidade de educar o Povo de Deus às radicais
exigências do Evangelho.
Em
particular, peço que vos dediqueis generosamente à escuta da
confissão sacramental; que guiem com coragem o rebanho, para
que ele mesmo não se conformem com este mundo
(cf. Rm 12, 2), mas saiba fazer escolhas também contra a
corrente, evitando a acomodação ou compromissos com ela.
Para isso, é
importante que o sacerdote tenha uma permanente tensão
ascética, nutrida na comunhão com Deus, e se dedique a uma
atualização constante no estudo da teologia e das ciências
humanas.
São João Maria Vianney sabia estabelecer com os penitentes
um verdadeiro e genuíno "diálogo de salvação",
mostrando a beleza e a grandeza da bondade do Senhor e
suscitando o desejo de Deus e do Céu, de que os santos são
os primeiros portadores. Ele afirmava: "O Bom Deus
sabe tudo. Mesmo antes de vos confessar, ele sabe que ainda
há pecados e ainda assim te perdoa. Como é grande o Amor de
nosso Deus, que vai tão longe a ponto de esquecer
voluntariamente o futuro, justamente para nos perdoar"
(Monnin A., Il Curato d’Ars.
Vita di Gian-Battista-Maria Vianney, vol. I, Torino 1870, p.
130).
É
tarefa do sacerdote favorecer aquela experiência do "diálogo
de salvação", que, nascendo da certeza de ser amado por
Deus, ajuda o homem a reconhecer o próprio pecado e a
introduzir-se, gradualmente, naquela estável dinâmica de
conversão do coração, que leva à radical renúncia do mal e a
uma vida de acordo com Deus
(cf.
Catecismo da Igreja Católica, n. 1431).
Queridos sacerdotes, que extraordinário ministério o
Senhor confiou a nós! Como na Celebração Eucarística Ele se
coloca nas mãos do sacerdote, para continuar a estar
presente em meio a seu Povo, analogamente, no Sacramento da
Reconciliação, Ele se confia ao padre para que os homens
façam a experiência do abraço com que o Pai recebe de volta
o filho pródigo, devolvendo-lhe a dignidade filial e
reconstituindo plenamente sua herança (cf. Lc 15,
11-32).
A Virgem Maria e o Santo Cura d'Ars nos ajudem a
experimentar, em nossas vidas, a largura, o comprimento, a
altura e a profundidade do Amor de Deus (cf. Ef 3,
18-19), para sermos fiéis e generosos administradores.
Agradeço a todos de coração e, de bom grado, vos concedo a
minha Bênção.
Fonte:
Boletim da sala de imprensa da Santa Sé.
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