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A CATEQUESE DO PAPA.
Dirigi-me até lá para
confirmar na fé os meus irmãos.
(Lc
22,32)
10.11.10 - Cidade do Vaticano
-
Hoje, quarta-feira, é dia de Audiência Geral e o Papa
encontrou-se com os fiéis e peregrinos, na Sala Paulo VI, no
Vaticano. Bento XVI repercorreu as etapas de sua
viagem apostólica a Santiago de Compostela e Barcelona, na
Espanha, no último fim de semana.
Queridos irmãos e irmãs!
Hoje,
desejo recordar convosco a Viagem Apostólica a Santiago de
Compostela e Barcelona, que tive a alegria de fazer no
sábado e domingo passados.
Dirigi-me até lá para
confirmar na fé os meus irmãos
(cf.
Lc
22,32); fi-lo
como testemunha de Cristo Ressuscitado, como semeador da
esperança que não defrauda e não engana, porque tem a sua
origem no infinito amor de Deus por todos os homens.
A
primeira etapa foi em Santiago. Desde a cerimônia de boas
vindas, pude experimentar o afeto que o povo da Espanha
nutre com relação ao Sucessor de Pedro. Fui acolhido
verdadeiramente com grande entusiasmo e calor. Neste Ano
Santo Compostelano, desejei fazer-me peregrino juntamente
com quantos, numerosíssimos, dirigem-se àquele célebre
Santuário.
Pude
visitar a "Casa
do Apóstolo Tiago o Maior",
o qual continua
a repetir, a quem ali chega necessitado de graça, que, em
Cristo, Deus veio ao mundo para reconciliá-lo consigo, não
imputando aos homens as suas culpas.
Na
imponente Catedral de Compostela, dando, com emoção, o
tradicional abraço ao Santo, pensei em como este gesto de
acolhida e amizade é também um modo de expressas a adesão à
sua palavra e participação na sua missão. Um sinal forte da
vontade de configurar-se à
mensagem apostólica, a qual, de um lado,
compromete-nos a sermos
fiéis guardiões da Boa Nova que os Apóstolos transmitiram,
sem ceder à tentação de alterá-la, diminuí-la ou desviá-la
com outros interesses,
e, por outro, transforma cada um de nós em anunciadores
inestancáveis da fé em Cristo, com a palavra e o testemunho
da vida em todos os campos da sociedade.
Vendo
o número de peregrinos presentes na Santa Missa Solene que
tive a grande alegria de celebrar em Santiago, meditei
sobre o que impele tanta gente a deixar as ocupações
cotidianas e começar o caminho penitencial rumo a Compostela,
um caminho diversas vezes longo e cansativo: é o
desejo de chegar à luz de Cristo, que desejam no profundo do
seu coração, também se frequentemente não o sabem expressar
bem em palavras.
Nos
momentos de desorientação, de busca, de dificuldade, bem
como na aspiração a reforçar a fé e a viver de modo mais
coerente, os peregrinos em Compostela empreendem um profundo
itinerário de conversão em Cristo, que assumiu em si a
debilidade, o pecado da humanidade, as misérias do mundo,
levando-o até onde o mal não tem mais poder, onde a luz do
bem ilumina tudo. Trata-se de um povo de silenciosos
caminhantes, provenientes de toda a parte do mundo, que
descobrem a antiga tradição medieval e cristã da
peregrinação, atravessando vilas e cidades permeadas de
catolicismo.
Naquela solene Eucaristia, vivida por tantíssimos fiéis
presentes com intensa participação e devoção, pedi com
fervor que quantos se dirijam em peregrinação a Santiago
possam receber o dom de tornarem-se verdadeiros testemunhas
de Cristo,
que redescobriram nas encruzilhadas das sugestivas estradas
rumo a Compostela.
Rezei também para que os peregrinos,
seguindo os passos de
numerosos Santos que, ao longo dos séculos, fizeram o
"Caminho de Santiago", continuem a manter vivo o genuíno
significado religioso, espiritual e penitencial, sem ceder à
banalidade, à distração, às modas.
Aquele
caminho, entrelaçado por vias que atravessam vastas terras,
formando uma rede através da península Ibérica e a Europa,
foi e continua a ser lugar de encontro dos homens e mulheres
das mais diversas proveniências, unidos pela busca da fé e
da verdade sobre si mesmos, e suscita experiências profundas
de partilha, fraternidade e solidariedade.
É
exatamente a fé em Cristo que dá sentido a Compostela, um
lugar espiritualmente extraordinário, que continua a ser
ponto de referência para a Europa de hoje nas suas novas
configurações e perspectivas.
Conservar e reforçar a
abertura ao transcendente, assim como um diálogo fecundo
entre fé e razão,
entre política
e religião, entre economia e ética, permitirá construir uma
Europa que, fiel às suas imprescindíveis raízes cristãs,
possa responder plenamente à própria vocação e missão no
mundo. Por isso, certo das
imensas possibilidades do Continente europeu e confiante em
um futuro de esperança, convidei a Europa a abrir-se
sempre mais a Deus, favorecendo assim as
perspectivas de um autêntico encontro, respeitoso e
solidário, com as populações e as civilizações dos outros
Continentes.
Domingo, então, tive a alegria verdadeiramente grande de
presidir, em Barcelona, a Dedicação da Igreja da Sagrada
Família, que declarei Basílica Menor. Ao contemplar a
grandiosidade e a beleza daquele edifício, que convida a
elevar o olhar e a alma para o Alto, para Deus,
recordei as grandes construções religiosas, como as
catedrais da idade média, que assinalaram profundamente a
história e a fisionomia das principais Cidades da Europa.
Aquela
esplêndida obra – riquíssima de simbologia religiosa,
preciosa no entrelaçamento das formas, fascinante no jogo
das luzes e das cores -, quase uma imensa escultura em
pedra, fruto da fé profunda, da sensibilidade espiritual e
do talento artístico de Antonio Gaudí, refere ao verdadeiro
santuário, o lugar do culto real, o Céu, onde Cristo entrou
para se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus
(cf. Hb
9,24). O genial arquiteto, naquele magnífico tempo, soube
representar admiravelmente o mistério da Igreja, à qual os
fiéis são incorporados com o Batismo como pedras vivas para
a construção de um edifício espiritual (cf.
1 Pe 2,5).
A Igreja da Sagrada Família foi concebida e projetada por
Gaudí como uma grande catequese sobre Jesus Cristo, como um
cântico de louvor ao Criador. Naquele edifício tão
imponente, ele colocou a própria genialidade ao serviço do
belo. De fato, a extraordinária capacidade expressiva e
simbólica das formas e dos motivos artísticos, bem como as
inovadoras técnicas arquitetônicas e de escultura, evocam a
Fonte suprema de toda a beleza.
O
famoso arquiteto considerou esse trabalho como uma missão na
qual foi envolvida toda a sua pessoa. Desde o momento em que
aceitou o encargo da construção daquela igreja, a sua vida
foi marcada por uma transformação profunda. Começou
assim uma intensa prática de oração, jejum e pobreza,
advertindo para a necessidade de preparar-se espiritualmente
para expressar na realidade material o mistério insondável
de Deus. Pode-se dizer que, enquanto Gaudí
trabalhava na construção do templo, Deus construía nele o
edifício espiritual (cf.
Ef 2, 22),
reforçando-o na fé e aproximando-o sempre mais à intimidade
de Cristo.
Inspirando-se continuamente na natureza, obra do Criador, e
dedicando-se com paixão em conhecer a Sagrada Escritura e a
liturgia, ele soube realizar no coração da cidade um
edifício digno de Deus e, por isso mesmo, digno do homem.
Em Barcelona, visitei também a Obra do "Nen Déu", uma
iniciativa ultracentenária, muito vinculada àquela
Arquidiocese, onde são cuidados, com profissionalismo e
amor, crianças e jovens
deficientes. As
suas vidas são preciosas aos olhos de Deus e nos convidam
constantemente a sair do nosso egoísmo.
Naquela casa, fui participante da alegria e
da caridade profunda e incondicional das irmãs Franciscanas
dos Sagrados Corações, do generoso trabalho de médicos, de
educadores e de tantos outros profissionais e voluntários,
que trabalham com louvável dedicação naquela Instituição.
Também abençoei a primeira pedra de uma nova Residência que
será parte desta Obra, onde tudo fala de caridade, de
respeito da pessoa e da sua dignidade, de alegria profunda,
porque o ser humano vale por aquilo que é, e não somente por
aquilo que faz.
Enquanto estive em Barcelona, rezei intensamente pelas
famílias, células vitais e esperança da sociedade e da
igreja.
Recordei também aqueles que sofrem, em particular nestes
momentos de sérias dificuldades econômicas. Tive presente,
ao mesmo tempo, os jovens – que me acompanharam em toda a
visita a Santiago e Barcelona com o seu entusiasmo e a sua
alegria -, para que descubram a beleza, o valor e o
compromisso do matrimônio, no qual um homem e uma mulher
formam uma família, que, com generosidade, acolhe a vida e a
acompanha da sua concepção até o seu fim natural.
Tudo aquilo
que se faz para sustentar o matrimônio e a família, para
ajudar as pessoas mais necessitadas, tudo isso que acresce a
grandeza do homem e a sua inviolável dignidade, contribui
para o aperfeiçoamento da sociedade.
Nenhum esforço é vão nesse sentido.
Queridos amigos, dou graças a Deus pelos dias intensos que
transcorri em Santiago de Compostela e Barcelona. Renovo o
meu agradecimento ao Rei e à Rainha da Espanha, aos
Príncipes das Astúrias e a todas as Autoridades. Destino
ainda uma vez mais o meu pensamento de reconhecimento e
afeto aos queridos irmãos Arcebispos daquelas duas Igrejas
particulares a aos seus colaboradores, bem como a quantos
generosamente se prodigalizaram para que a minha visita
naquelas duas maravilhosas Cidades fosse frutuosa.
Foram
dias inesquecíveis, que permanecem impressos no meu coração!
Em particular, as duas Celebrações eucarísticas,
cuidadosamente preparadas e intensamente vividas por todos
os fiéis, também através dos cantos, tirados tanto da grande
tradição musical da Igreja quanto da genialidade de autores
modernos, foram momentos de verdadeira alegria interior.
Deus recompense a todos, como somente Ele sabe fazê-lo; a
Santíssima Mãe de Deus e o Apóstolo São Tiago continuem a
acompanhar com a sua proteção o seu caminho.
O
próximo ano, a Deus aprazendo, irei novamente à Espanha, a
Madri, para a Jornada Mundial da Juventude. Confio desde
agora à vossa oração essa próvida iniciativa, a fim de que
seja ocasião de crescimento na fé para tantos jovens.
Ao
final da Catequese, o Papa dirigiu aos peregrinos de língua
portuguesa a seguinte saudação:
Queridos peregrinos de língua portuguesa,
particularmente os fiéis vindos do Rio de Janeiro: sede bem
vindos! Que essa peregrinação a Roma vos ajude a crescer na
esperança, que nasce do amor infinito de Deus pelos homens,
e assim possais dar um eloqüente testemunho cristão na
sociedade. Ide em paz! Obrigado!
Fonte: Boletim da Sala de
Imprensa da Santa Sé
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