
DESPEDIDA DO PAPA BENTO XVI DE PORTUGAL.
14.05.10: Cidade do Porto – Portugal.
A 15ª
Viagem Apostólica do Pontificado de Bento XVI terminou após
quatro dias de intensa programação, que incluiu Santas
Missas, Discursos, Orações e uma série de encontros.
"O meu desejo é que a minha visita se torne incentivo
para um renovado impulso espiritual e apostólico. Que o
Evangelho seja acolhido na sua integridade e testemunhado
com paixão por todos os discípulos de Cristo, a fim de que
se revele como fermento de autêntica renovação de toda a
sociedade!", pediu.
A Cerimônia de despedida aconteceu no aeroporto
internacional do Porto, às 13h30min (em Portugal - 9h30min
em Brasília) desta sexta-feira, 14.
O Santo Padre fez seu discurso após as honras militares, a
execução dos hinos e o discurso do presidente da República
de Portugal, Aníbal Cavaco Silva.
"Para todos os portugueses, fiéis católicos ou não,
aos homens e mulheres que aqui vivem, mesmo sem aqui terem
nascido, vai a minha saudação na hora da despedida. Não
cesse entre vós de crescer a concórdia, essencial para uma
sólida coesão, caminho necessário para enfrentar com
responsabilidade comum os desafios com que vos debateis",
complementou o Papa

Homilia de Bento XVI durante a Missa na
cidade do Porto.
Amados Irmãos e Irmãs,
"Está escrito no Livro dos Salmos: […] receba outro o
seu cargo. É necessário, portanto, que […] um se torne
conosco testemunha da ressurreição" (At 1, 20-22).
Assim falou Pedro, lendo e interpretando a palavra de Deus
no meio de seus irmãos, reunidos no Cenáculo depois da
Ascensão de Jesus ao Céu. O escolhido foi Matias, que tinha
sido testemunha da vida pública de Jesus e do seu triunfo
sobre a morte, permanecendo-Lhe fiel até ao fim, não
obstante a debandada de muitos.
A
"desproporção" de forças em campo, que hoje nos espanta, já
há dois mil anos admirava os que viam e ouviam a Cristo. Era
Ele apenas, das margens do Lago da Galileia às praças de
Jerusalém, só ou quase só nos momentos decisivos: Ele
em união com o Pai, Ele na força do Espírito.
E
todavia aconteceu que por fim, pelo mesmo amor que criou o
mundo, a novidade do Reino surgiu como pequena semente que
germina na terra, como centelha de luz que irrompe nas
trevas, como aurora de um dia sem ocaso:
É Cristo ressuscitado.
E apareceu aos
seus amigos, mostrando-lhes a necessidade da cruz para
chegar à ressurreição.
Uma testemunha de tudo isto, procurava Pedro naquele dia.
Apresentadas duas, o Céu designou "Matias, que foi
agregado aos onze Apóstolos" (At 1, 26). Hoje
celebramos a sua memória gloriosa nesta "Cidade Invicta",
que se vestiu de festa para acolher o Sucessor de Pedro. Dou
graças a Deus por me trazer até ao vosso meio,
encontrando-vos à volta do altar.
A
minha cordial saudação para vós, irmãos e amigos da cidade e
diocese do Porto, vindos da província eclesiástica do norte
de Portugal e mesmo da vizinha Espanha, e quantos mais estão
em comunhão física ou espiritual com esta nossa assembléia
litúrgica. Saúdo o Senhor Bispo do Porto, Dom Manuel
Clemente, que desejou com grande solicitude a minha visita,
me acolheu com grande afeto e se fez intérprete dos vossos
sentimentos no início desta Eucaristia. Saúdo seus
Predecessores e demais Irmãos no episcopado, os sacerdotes,
os consagrados e consagradas, e os fiéis leigos, com um
pensamento particular para quantos estão envolvidos na
dinamização da Missão Diocesana e, mais concretamente, na
preparação desta minha Visita. Sei que a mesma pôde contar
com a real colaboração do Presidente da Câmara do Porto e de
outras Autoridades públicas, muitas das quais me honram com
a sua presença, aproveitando este momento para as saudar e
lhes desejar, a elas e a quantos representam e servem, os
melhores sucessos a bem de todos.
"É necessário que um se torne conosco testemunha da
ressurreição": dizia Pedro. E o seu Sucessor atual
repete a cada um de vós:
Meus irmãos e irmãs, é
necessário que vos torneis comigo testemunhas da
ressurreição de Jesus. Na realidade, se não fordes vós as
suas testemunhas no próprio ambiente, quem o será em vosso
lugar? O cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário
de Cristo enviado ao mundo.
Esta é a missão inadiável de cada comunidade eclesial:
receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado,
para que todas as situações de definhamento e morte se
transformem, pelo Espírito, em ocasiões de crescimento e
vida.
Para
isso, em cada celebração eucarística, ouviremos mais
atentamente a Palavra de Cristo e saborearemos assiduamente
o Pão da sua presença. Isto fará de nós testemunhas e, mais
ainda, portadores de Jesus ressuscitado no mundo, levando-O
para os diversos setores da sociedade e quantos neles vivem
e trabalham, irradiando aquela "vida em abundância"
(Jo,
10, 10)
que Ele nos
ganhou com a sua cruz e ressurreição e que sacia os mais
legítimos anseios do coração humano.
Nada impomos, mas sempre propomos,
como
Pedro nos recomenda numa das suas cartas: "Venerai
Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder
a quem quer que seja sobre a razão da esperança que há em
vós» (1 Ped 3, 15). E todos afinal no-la pedem,
mesmo quem pareça que não.
Por
experiência própria e comum, bem sabemos que é por Jesus que
todos esperam. De fato, as expectativas mais profundas do
mundo e as grandes certezas do Evangelho cruzam-se na
irrecusável missão que nos compete, pois
"sem Deus, o ser
humano não sabe para onde ir e não consegue sequer
compreender quem seja.
Perante os enormes problemas do
desenvolvimento dos povos, que quase nos levam ao desânimo e
à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus
Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: 'Sem
Mim, nada podeis fazer' (Jo 15, 5), e
encoraja: 'Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo'
(Mt 28, 20)" (Bento XVI, Carta Encíclica
Caritas in veritate,
78).
Mas, se esta certeza nos consola e tranqüiliza, não
nos dispensa de ir ao encontro dos outros.
Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda
temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a
prazo, enquanto presença de Igreja no mundo, que aliás só
pode ser missionária, no movimento expansivo do Espírito.
Desde as suas
origens, o povo cristão advertiu com clareza a importância
de comunicar a Boa Nova de Jesus a quantos ainda não a
conheciam.
Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico,
cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é
chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar
com culturas e religiões diversas, procurando construir
juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica
convivência dos povos. O campo da missão ad gentes
apresenta-se hoje notavelmente alargado e não definível
apenas segundo considerações geográficas; realmente aguardam
por nós não apenas os povos não cristãos e as terras
distantes, mas também os âmbitos sócioculturais e sobretudo
os corações que são os verdadeiros destinatários da
atividade missionária do povo de Deus.
Trata-se de um mandato cuja fiel realização "deve seguir o
mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da
obediência, do serviço e da imolação própria até à morte, de
que Ele saiu vencedor pela sua ressurreição"
(Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto
Ad gentes,
5). Sim! Somos
chamados a servir a humanidade do nosso tempo, confiando
unicamente em Jesus, deixando-nos iluminar pela sua Palavra:
"Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e
destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto
permaneça" (Jo 15, 16).
Quanto
tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência
deste ponto! Tudo se define a partir de Cristo, quanto à
origem e à eficácia da missão: a missão recebemo-la sempre
de Cristo, que nos deu a conhecer o que ouviu a seu Pai, e
somos nela investidos por meio do Espírito na Igreja. Como a
própria Igreja, obra de Cristo e do seu Espírito, trata-se
de renovar a face da terra a partir de Deus, sempre e só de
Deus!
Queridos irmãos e amigos do Porto, levantai os olhos para
Aquela que escolhestes como padroeira da cidade, Nossa
Senhora da Conceição. O Anjo da anunciação saudou
Maria como "cheia de graça", significando com
esta expressão que o seu coração e a sua vida estavam
totalmente abertos a Deus e, por isso, completamente
invadidos pela sua graça. Que Ela vos ajude a fazer de vós
mesmos um "sim" livre e pleno à graça de Deus, para poderdes
ser renovados e renovar a humanidade pela luz e a alegria do
Espírito Santo.
Fonte:
Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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