
Catequese do Papa Bento XVI
Cristo
ressuscitado dos mortos
é o fundamento da nossa fé.
27.03.2011 - Cidade do Vaticano -
Bento
XVI deixou sua residência de Castelgandolfo, onde está
descansando estes dias, e veio esta manhã ao Vaticano. Na
Praça São Pedro, uma multidão de fiéis o aguardava. A semana
que precede a beatificação de JPII e segue as cerimônias
pascais está trazendo à Cidade Eterna milhares de turistas
que, somados aos peregrinos, lotaram a praça diante da
Basílica.
Após
uma volta com o papamóvel para saudar todos, o papa proferiu
a sua catequese, como faz sempre às quartas feiras, em
várias línguas. Hoje, o pontífice discorreu sobre a
carta de São Paulo aos Colossenses, na qual o Apóstolo
recorda aos cristãos que devem buscar as coisas “do alto” e
defender-se das coisas “da terra”.
Queridos irmãos e irmãs,
Nestes
primeiros dias do Tempo Pascal, que se prolonga até
Pentecostes, estamos ainda preenchidos pelo frescor e
alegria nova que as celebrações litúrgicas trouxeram aos
nossos corações. Portanto, hoje, gostaria de refletir
convosco brevemente sobre a Páscoa, coração do mistério
cristão.
Tudo, de fato, começa a partir daqui:
Cristo ressuscitado dos mortos é o fundamento da nossa
fé.
Da
Páscoa se irradia, como de um centro luminoso,
incandescente, toda a liturgia da Igreja, tirando dessa
conteúdo e significado. A celebração litúrgica da morte e
ressurreição de Cristo não é uma simples comemoração desse
evento, mas é a sua atualização no mistério, para a vida de
cada cristão e de cada comunidade eclesial, para a nossa
vida.
De fato, a fé no Cristo ressuscitado transforma a
existência, operando em nós uma contínua ressurreição,
como escrevia São Paulo aos primeiros fiéis: "Outrora
éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos
como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade,
justiça e verdade" (Ef
5, 8-9).
Como podemos então fazer tornar-se "vida" a Páscoa? Como
pode assumir uma "forma" pascal toda a nossa existência
interior e exterior? Devemos partir da compreensão autêntica
da ressurreição de Jesus:
tal evento não é um simples retorno à vida precedente, como
o foi para Lázaro, para a filha de Jairo ou para o jovem de
Nain, mas é algo de completamente novo e distinto.
A ressurreição de Cristo é a via para uma vida não mais
submetida à caducidade do tempo, mas uma vida imersa na
eternidade de Deus.
Na
ressurreição de Jesus inicia uma nova condição do ser
homens, que ilumina e transforma o nosso caminho de cada dia
e abre um futuro qualitativamente diferente e novo para a
humanidade inteira.
Por isso, São Paulo não somente liga de maneira inseparável
a ressurreição dos cristãos àquela de Jesus (cf.
1Cor
15,16.20), mas indica também como se deve viver o mistério
pascal na cotidianidade da nossa vida.
Na Carta aos
Colossenses, ele diz: "Se, portanto,
ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde
Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às
coisas lá de cima, e não às da terra" (3,1-2). À
primeira vista, lendo esse texto, poderia parecer que o
Apóstolo pretenda favorecer o desprezo às realidades
terrenas, convidando assim a esquecer-se deste mundo de
sofrimentos, de injustiças, de pecados, para viver
antecipadamente em um paraíso celeste.
O
pensamento "céu" seria, em tal caso, uma espécie de
alienação. Mas, para captar o sentido verdadeiro dessas
afirmações paulinas, basta não separá-las do contexto.
O Apóstolo
precisa muito bem aquilo que entende pelas "coisas do alto",
que o cristão deve buscar, e as "coisas da terra", das quais
deve proteger-se.
Eis, antes de mais nada, quais são as
"coisas da terra" que é preciso evitar: "Mortificai,
pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão,
a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma
idolatria" (3, 5). Fazer morrer em nós o desejo
insaciável pelos bens materiais, o egoísmo, raízes de todo o
pecado. Portanto, quando o Apóstolo convida os cristãos a
desapegarem-se decididamente das
"coisas da terra", deseja claramente fazer compreender
aquilo que pertence ao "homem velho" do qual o cristão deve
despir-se, para revestir-se de Cristo.
Como
ficou claro no citar de quais são as coisas pelas quais não
se precisa fixar o coração, com igual clareza São Paulo
indica-nos quais são as
"coisas do alto", que o
cristão deve, ao contrário, buscar e apreciar. Essas dizem
respeito àquilo que pertence ao "homem novo", que
revestiu-se de Cristo uma vez por todas no Batismo, mas que
tem sempre necessidade de renovar-se "à imagem d'Aquele que
o criou" (Col
3,10).
Eis
como o Apóstolo dos Gentios descreve estas "coisas do alto":
"Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos,
revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade,
humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e
perdoai-vos mutuamente [...]. Mas, acima de
tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição"
(Col
3,12-14). São Paulo está, portanto, bem distante de convidar
os cristãos, cada um de nós, a fugir do mundo no qual Deus
nos colocou. É verdade que nós somos cidadãos de uma outra
"cidade", onde encontra-se a nossa verdadeira pátria, mas
o caminho rumo
a essa meta devemos percorrê-lo cotidianamente sobre essa
terra.
Participando desde agora da vida de Cristo ressuscitado,
devemos viver como homens novos neste mundo, no coração da
cidade terrena.
E esse
é o caminho não somente para transformar a nós mesmos, mas
para transformar o mundo, para dar à cidade terrena um rosto
novo que favoreça o desenvolvimento do homem e da sociedade
segundo a lógica da solidariedade, da bondade, no profundo
respeito pela dignidade própria de cada um. O Apóstolo
recorda-nos quais são as virtudes que devem acompanhar a
vida cristã; no vértice está a caridade, à qual todas
as outras estão relacionadas como à fonte e à matriz.
Essa resume e compendia "as coisas do céu": a caridade
que, com a fé e a esperança, representa a grande regra de
vida do cristão e define sua natureza profunda.
A
Páscoa, portanto, traz a novidade de uma passagem profunda e
total de uma vida sujeita à escravidão do pecado a uma vida
de liberdade, animada pelo amor, força que abate toda
barreira e constrói uma nova harmonia no próprio coração e
na relação com os outros e com as coisas.
Cada cristão, assim como
cada comunidade, se vive a experiência dessa passagem de
ressurreição, não pode deixar de ser fermento novo no mundo,
doando-se sem reservas para as causas mais urgentes e mais
justas, como demonstram os testemunhos dos Santos em cada
época e em cada lugar.
São
tantas também as expectativas do nosso tempo:
nós,
cristãos, crendo firmemente que a ressurreição de Cristo
renovou o homem sem retirá-lo do mundo em que constrói a sua
história, devemos ser as testemunhas luminosas dessa vida
nova que a Páscoa trouxe. A Páscoa é,
portanto, dom a se acolher sempre mais profundamente na fé,
para poder agir em cada situação, com a graça de Cristo,
segundo a lógica de Deus, a lógica do amor.
A
luz da ressurreição de Cristo deve penetrar este nosso
mundo, deve chegar como mensagem de verdade e de vida a
todos os homens através do nosso testemunho cotidiano.
Queridos amigos, Sim, Cristo verdadeiramente ressuscitou!
Não podemos reter somente para nós a vida e a alegria que
Ele nos deu na sua Páscoa, mas devemos doá-la a quantos nos
são próximos.
É o
nosso objetivo e a nossa missão:
fazer ressurgir no coração do próximo a esperança onde há
o desespero, a alegria onde há tristeza, a vida onde há
morte. Testemunhar a cada dia a alegria
do Senhor ressuscitado significa viver sempre de "modo
pascal" e fazer ressoar o alegre anúncio de que Cristo não é
uma idéia ou uma recordação do passado, mas uma Pessoa
que vive conosco, por nós e em nós, e com Ele, por e n'Ele
podemos fazer novas todas as coisas (cf.
Ap 21,5).
Ao final da
Catequese, o Papa dirigiu aos peregrinos de língua
portuguesa a seguinte saudação:
Queridos peregrinos de língua portuguesa,
particularmente os portugueses vindos de Lisboa e da Sertã e
os brasileiros de Poços de Caldas, a minha saudação, com
votos duma boa continuação de santa Páscoa! Não podemos
guardar só para nós a vida e a alegria que Cristo nos deu
com a sua Ressurreição, mas devemos transmiti-la a quantos
se aproximam de nós. Assim, fareis surgir no coração dos
outros a esperança, a felicidade e a vida! Sobre vós e
vossas famílias, desça a minha Bênção Apostólica.!
Fonte:
Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.
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