
Carta Apostólica Porta Fidei.
A Porta da Fé.
17.10.2011 - Cidade do Vaticano:
– Foi
publicada nesta segunda-feira a Carta Apostólica de Bento
XVI referente ao "Ano da Fé", anunciado neste
domingo pelo Papa durante a Celebração Eucarística na
Basílica Vaticana. Dividida em quinze partes, a Carta
apresenta as intenções pessoais do Sumo Pontífice, sem a
interferência de nenhuma fonte interna ou externa.
Bento XVI começa falando da Porta da Fé, lugar onde acontece
a iniciação da comunhão com Deus, e que está aberta a todos.
1. A
PORTA DA FÉ (cf.
Act
14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite
a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É
possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é
anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que
transforma. Atravessar aquela porta implica embrenhar-se num
caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início com
o Baptismo (cf.
Rm
6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de
Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a
vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com
o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua
própria glória quantos crêem n’Ele (cf.
Jo
17, 22). Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito
Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf.
1 Jo
4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho
para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no
mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que
guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o
regresso glorioso do Senhor.
2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de
Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé
para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e
o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a
homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A
Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo
devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do
deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de
Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude» (Homilia
no início do ministério petrino do Bispo de Roma,
(24 de Abril de 2005):
AAS
97 (2005), 710). Sucede não poucas vezes que os cristãos
sintam maior preocupação com as consequências sociais,
culturais e políticas da fé do que com a própria fé,
considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida
diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas
frequentemente acaba até negado (Cf. Bento XVI,
Homilia da
Santa Missa no Terreiro do Paço
(Lisboa – 11 de Maio de 2010):
L’Osservatore Romano
(ed. port. de 15/V/2010), 3.). Enquanto, no passado, era
possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente
compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores
por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em
grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de
fé que atingiu muitas pessoas.
3. Não
podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique
escondida (cf. Mt
5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo
a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir
Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde
jorra água viva (cf.
Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos
alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela
Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de
quantos são seus discípulos (cf.
Jo 6, 51). De
facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este
ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que
desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida
eterna» (Jo
6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O
escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que
havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo
6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é
esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo
6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se
poder chegar definitivamente à salvação.
4. À
luz de tudo isto, decidi proclamar um
Ano da Fé.
Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário
da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a
24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de
2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do
Catecismo da Igreja
Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor,
o Beato Papa João Paulo II, (Cf. João Paulo II, Const. ap.
Fidei depositum
(11 de Outubro de 1992):
AAS 86
(1994), 113-118) com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis
a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do
Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo
Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao
serviço da catequese (Cf.
Relação final do Sínodo
Extraordinário dos Bispos (7 de Dezembro de
1985), II, B, a, 4:
L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/XII/1985),
650) e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado
da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos
Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de
Outubro de 2012, tendo por tema
A nova evangelização para
a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião
propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num
tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a
primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um
Ano da Fé. O
meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI,
proclamou um semelhante, em 1967, para comemorar o martírio
dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu
supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para
que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera
profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada
de maneira «individual e colectiva, livre e consciente,
interior e exterior, humilde e franca» (Paulo VI, Exort. ap.
Petrum et Paulum
Apostolos, no XIX centenário do martírio dos
Apóstolos São Pedro e São Paulo (22 de Fevereiro de 1967):
AAS 59
(1967), 196). Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exacta
consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar,
confessar» (Ibid.:
o.c.,
198.). As grandes convulsões, que se verificaram naquele
Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal
celebração. Esta terminou com a
Profissão de Fé do Povo
de Deus, (Paulo VI,
Profissão Solene de Fé,
Homilia durante a
Concelebração por ocasião do XIX centenário do martírio dos
Apóstolos São Pedro e São Paulo, no encerramento do «Ano da
Fé» (30 de Junho de 1968):
AAS 60
(1968), 433-445) para atestar como os conteúdos essenciais,
que há séculos constituem o patrimônio de todos os crentes,
necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados
de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles
em condições históricas diversas das do passado.
5. Sob
alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano
como uma «consequência e exigência pós-conciliar» (Paulo VI,
Audiência Geral
(14 de Junho de 1967):
Insegnamenti
V (1967), 801), bem ciente das graves dificuldades daquele
tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira
fé e da sua recta interpretação. Pareceu-me que fazer
coincidir o início do
Ano da Fé com
o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia
ser uma ocasião propícia para compreender que os textos
deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as
palavras do Beato João Paulo II, «não
perdem o seu valor nem a sua beleza. É
necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser
conhecidos e assimilados como textos qualificados e
normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja.
Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o
Concílio como a
grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX:
nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no
caminho do século que começa» (João Paulo II, Carta ap.
Novo millennio ineunte
(6 de Janeiro de 2001), 57:
AAS 93
(2001), 308). Quero aqui repetir com veemência as palavras
que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da
minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e
recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio
pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a
renovação sempre necessária da Igreja» (Discurso
à Cúria Romana, (22 de Dezembro de 2005):
AAS 98
(2006), 52).
6. A renovação da Igreja realiza-se também através do
testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os
cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria
vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos
deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática
Lumen Gentium,
afirma: «Enquanto Cristo “santo, inocente, imaculado” (Heb
7, 26), não conheceu o pecado (cf.
2 Cor 5, 21),
mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf.
Heb 2, 17), a
Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio,
simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação,
exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja
“prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do
mundo e das consolações de Deus”, anunciando a cruz e a
morte do Senhor até que Ele venha (cf.
1 Cor 11,
26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de
modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas
aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a
revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por
fim se manifeste em plena luz» (Conc. Ecum. Vat. II, Const.
dogm. sobre a Igreja
Lumen Gentium, 8).
Nesta
perspectiva, o Ano da
Fé é convite para uma autêntica e renovada
conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da
sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que
salva e chama os homens à conversão de vida por meio da
remissão dos pecados (cf.
Act 5, 31).
Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida
nova: «Pelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para
que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos
pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm
6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a
existência humana segundo a novidade radical da
ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os
pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do
homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados,
ao longo de um itinerário jamais completamente terminado
nesta vida. A «fé, que actua pelo amor» (Gl
5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de acção,
que muda toda a vida do homem (cf.
Rm 12, 2;
Cl 3, 9-10;
Ef 4,
20-29; 2 Cor
5, 17).
7. «Caritas
Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele»
(2 Cor 5,
14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos
impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos
pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a
todos os povos da terra (cf.
Mt 28, 19).
Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada
geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe
o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo.
Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais
convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de
novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de
comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha
força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que
jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida
como experiência de um amor recebido e é comunicada como
experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos,
porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer
um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração
e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a
aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos.
Os crentes – atesta Santo Agostinho – «fortificam-se
acreditando» (De
utilitate credendi, 1, 2). O Santo Bispo de
Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a
sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o
seu coração não encontrou descanso em Deus (Cf.
Confissões,
1, 1). Os seus numerosos escritos, onde se explica a
importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos
nossos dias como um património de riqueza incomparável e
consentem ainda a tantas pessoas à procura de Deus de
encontrarem o justo percurso para chegar à «porta da fé».
Por
conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora;
não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a
própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos
de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a
sua origem em Deus.
8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos
Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de
Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos
oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos
celebrar este Ano
de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão
sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a
tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao
Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como
este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de
confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e
nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das
nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a
exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações
futuras a fé de sempre. Neste
Ano, tanto as
comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e
todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão
forma de fazer publicamente profissão do
Credo.
9. Desejamos que este
Ano suscite,
em cada crente, o anseio de
confessar a
fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e
esperança. Será uma ocasião propícia também para
intensificar a
celebração da fé na liturgia, particularmente na
Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção
da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (Conc.
Ecum. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum
Concilium, 10). Simultaneamente esperamos que o
testemunho
de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir
novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e
rezada (Cf. João Paulo II, Const. ap.
Fidei depositum
(11 de Outubro de 1992):
AAS 86
(1994), 116) e reflectir sobre o próprio acto com que se
crê, é um compromisso que cada crente deve assumir,
sobretudo neste Ano.
Não
foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram
obrigados a aprender de memória o
Credo. É que
este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o
compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras
densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa
homilia sobre a
redditio symboli (a entrega do
Credo): «O
símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que
hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais
está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe,
apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós
recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre
presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos
leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as
refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração
continue de vigília por ele» (Sermo 215,
1).
10. Queria agora delinear um percurso que ajude a
compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e,
juntamente com eles, também o acto pelo qual decidimos, com
plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto,
existe uma unidade profunda entre o acto com que se crê e os
conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo
permite entrar dentro desta realidade quando escreve:
«Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão
de fé» (Rm
10, 10). O coração indica que o primeiro acto, pelo qual se
chega à fé, é dom de Deus e acção da graça que age e
transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
A este
respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São
Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num
sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre
elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para
aderir ao que Paulo dizia» (Act
16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São
Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve
acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico
sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente
de ter olhos para ver em profundidade e compreender que o
que foi anunciado é a Palavra de Deus.
Por
sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um
testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode
jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é
decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este
«estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas
quais se acredita. A fé, precisamente porque é um acto da
liberdade, exige também assumir a responsabilidade social
daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja
manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer
e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom
do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o
nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
A
própria profissão da fé é um acto simultaneamente pessoal e
comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja.
É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Baptismo,
sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a
salvação. Como atesta o
Catecismo da Igreja
Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja,
professada pessoalmente por cada crente, principalmente por
ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja,
confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo
mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu
creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus
pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”»
(Catecismo da Igreja
Católica, 167).
Como
se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é
essencial para se dar o próprio
assentimento,
isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a
vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da
fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por
Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando
se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé,
porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se
revela e permite conhecer o seu mistério de amor (Cf. Conc.
Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica
Dei Filius,
cap. III: DS
3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a
Revelação divina Dei
Verbum, 5)
Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto
cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em
si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do
sentido último e da verdade definitiva acerca da sua
existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro
«preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que
conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do
homem traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que
vale e permanece sempre» (Bento XVI,
Discurso no «Collège
des Bernardins» (Paris, 12 de Setembro de 2008):
AAS 100
(2008), 722). Esta exigência constitui um convite
permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para
se pôr a caminho ao encontro d’Aquele que não teríamos
procurado se Ele não tivesse já vindo ao nosso encontro (Cf.
Santo Agostinho,
Confissões, 13, 1). É precisamente a este
encontro que nos convida e abre plenamente a fé.
11. Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos
podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no
Catecismo da Igreja
Católica. Este constitui um dos frutos mais
importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição
Apostólica Fidei
depositum – não sem razão assinada na passagem
do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II
– o Beato João Paulo II escrevia: «Este catecismo dará um
contributo muito importante à obra de renovação de toda a
vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da
fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da
comunhão eclesial» (João Paulo II, Const. ap.
Fidei depositum (11
de Outubro de 1992):
AAS 86 (1994), 115 e 117).
É
precisamente nesta linha que o
Ano da Fé
deverá exprimir um esforço generalizado em prol da
redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé,
que têm no Catecismo
da Igreja Católica a sua síntese sistemática e
orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina
que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus
dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos
Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos
que atravessaram os séculos, o
Catecismo
oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a
Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar
certeza aos crentes na sua vida de fé.
Na sua
própria estrutura, o
Catecismo da Igreja Católica apresenta o
desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida
diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se
apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa
que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé,
vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está
presente e operante, continuando a construir a sua Igreja.
Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria
eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho
dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do
Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu
significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia
e a oração.
12. Assim, no Ano
em questão, o
Catecismo da Igreja Católica poderá ser um
verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para
quantos têm a peito a formação dos cristãos, tão
determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade,
convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de
comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma
Nota,
através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas
indicações para viver, nos moldes mais eficazes e
apropriados, este Ano
da Fé ao serviço do crer e do evangelizar.
De
facto, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se
sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma
diversa mentalidade que, particularmente hoje, reduz o
âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas
e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que
não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência
autêntica, porque ambas tendem, embora por caminhos
diferentes, para a verdade (Cf. João Paulo II, Carta enc.
Fides et ratio
(14 de Setembro de 1998), 34.106:
AAS 91
(1999), 31-32.86-87).
13. Será decisivo repassar, durante este
Ano, a
história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da
santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe
em evidência a grande contribuição que homens e mulheres
prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com
o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos
uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a
misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos.
Ao
longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus
Cristo, «autor e consumador da fé» (Heb
12, 2): n’Ele encontra plena realização toda a ânsia e
anélito do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao
drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face
à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da
morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da
sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco
a fragilidade humana para a transformar com a força da sua
ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa
salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram
estes dois mil anos da nossa história de salvação.
Pela
fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio
de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf.
Lc 1,
38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao
Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se
confiavam (cf. Lc
1, 46-55). Com alegria e trepidação, deu à luz o seu Filho
unigénito, mantendo intacta a sua virgindade (cf.
Lc 2, 6-7).
Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egipto a
fim de O salvar da perseguição de Herodes (cf.
Mt 2, 13-15).
Com a mesma fé, seguiu o Senhor na sua pregação e permaneceu
a seu lado mesmo no Gólgota (cf.
Jo 19,
25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de
Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf.
Lc 2, 19.51),
transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para
receberem o Espírito Santo (cf.
Act 1, 14; 2,
1-4).
Pela
fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf.
Mc 10, 28).
Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de
Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf.
Lc 11, 20). Viveram em comunhão de vida com
Jesus, que os instruía com a sua doutrina, deixando-lhes uma
nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos
como seus discípulos depois da morte d’Ele (cf.
Jo 13,
34-35). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao
mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf.
Mc 16, 15) e,
sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da
ressurreição, de que foram fiéis testemunhas.
Pela
fé, os discípulos formaram a primeira comunidade reunida à
volta do ensino dos Apóstolos, na oração, na celebração da
Eucaristia, pondo em comum aquilo que possuíam para acudir
às necessidades dos irmãos (cf.
Act 2,
42-47).
Pela
fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade
do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de
chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus
próprios perseguidores.
Pela
fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo,
deixando tudo para viver em simplicidade evangélica a
obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de
quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos
cristãos se fizeram promotores de uma acção em prol da
justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio
anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para
todos (cf. Lc
4, 18-19).
Pela
fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as
idades, cujo nome está escrito no Livro da vida (cf.
Ap 7, 9; 13,
8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos
lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser
cristão: na família, na profissão, na vida pública, no
exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados.
Pela
fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e
presente na nossa vida e na história.
14. O
Ano da Fé
será uma ocasião propícia também para intensificar o
testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem
estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a
maior de todas é a caridade» (1
Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas –
que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o
apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga
que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá
salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem
de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em
paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes
dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?
Assim também a fé: se ela não tiver obras, está
completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar
sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me
então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te
mostrarei a minha fé”» (Tg
2, 14-18).
A fé
sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um
sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade
reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra
de realizar o seu caminho. De facto, não poucos cristãos
dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho,
marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a
quem atender e o mais importante a socorrer, porque é
precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo.
Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o
nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que
fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim
mesmo o fizestes» (Mt
25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não
se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele
amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer
Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo
sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida.
Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço
no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde
habite a justiça» (2
Ped 3, 13; cf.
Ap 21, 1).
15. Já
no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo
Timóteo que «procure a fé» (cf.
2 Tm 2, 22)
com a mesma constância de quando era novo (cf.
2 Tm 3, 15).
Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que
ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de
vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as
maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar
os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada
um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado
no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular
necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados
na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de
abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus
e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.
Que «a
Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2
Ts 3, 1)! Possa este
Ano da Fé
tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado
que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a
garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes
palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz
sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que,
por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas
provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé –
muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo
também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de
glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus
Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda,
credes n’Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e
irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação
das almas» (1 Ped
1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da
alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na
solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados
pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir!
As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o
mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf.
Cl 1, 24)
, são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz:
«Quando sou fraco, então é que sou forte» (2
Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que
o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança
segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós,
vence o poder do maligno (cf.
Lc 11, 20); e
a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece
n’Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.
À Mãe
de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf.
Lc 1, 45),
confiamos este tempo de graça.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Outubro do
ano 2011, sétimo de Pontificado.
Benedictus PP XVI.
Fonte:
vatican.va
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