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CARTA DE
S.S. O PAPA BENTO XVI
AOS SACERDOTES POR
OCASIÃO DO ANO SACERDOTAL
Amados
irmãos no sacerdócio,
Na
próxima solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus,
sexta-feira 19 de Junho de 2009 – dia dedicado
tradicionalmente à oração pela santificação do clero – tenho
em mente proclamar oficialmente um "Ano Sacerdotal" por
ocasião do 150º aniversário do "dies natalis" de João
Maria Vianney, o Santo Patrono de todos os párocos do mundo.
Tal ano, que pretende contribuir para fomentar o empenho de
renovação interior de todos os sacerdotes para um seu
testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo, terminará na
mesma solenidade, em 2010. "O sacerdócio é o amor do Coração
de Jesus" costumava dizer o Santo Cura d'Ars. Essa tocante
afirmação nos permite, antes de tudo, evocar com ternura e
gratidão, o dom imenso que são os sacerdotes, não só para a
Igreja, mas também para a própria humanidade. Penso em todos
os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos
fiéis cristãos e ao mundo inteiro, as palavras e os gestos
de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, a
vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência.
Como não sublinhar suas fadigas apostólicas, seu serviço
incansável e escondido, sua caridade que, por tendência, era
universal? E o que dizer da fidelidade corajosa de tantos
sacerdotes que − não obstante dificuldades e incompreensões
− continuam fiéis à sua vocação: a de "amigos de Cristo",
por Ele de modo particular chamados, escolhidos e enviados?
Eu
mesmo guardo ainda, no coração, a recordação do primeiro
pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem
sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas
ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte
durante o próprio ato de levar o viático a um doente grave.
Depois, revejo na memória os inumeráveis irmãos que
encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens
pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no
exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a
expressão utilizada pelo Santo Cura d'Ars evoca também o
Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O
envolve. E isso leva o pensamento a se deter nas inumeráveis
situações de sofrimento em que se encontram imersos muitos
sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da
dor na multiplicidade das suas manifestações, ou porque
incompreendidos pelos próprios destinatários do seu
ministério: como não recordar os tantos sacerdotes ofendidos
na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo
perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?
Infelizmente, existem também situações, nunca
suficientemente deploradas, em que é a própria Igreja a
sofrer pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí
advém, então, para o mundo, motivo de escândalo e de
repulsa. O máximo que a Igreja pode extrair de tais casos,
não é o relevar acintosamente as fraquezas dos seus
ministros, quanto tomar uma renovada e consoladora
consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em
figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos
inflamados de amor por Deus e pelas almas, de diretores
espirituais esclarecidos e pacientes. A esse respeito, os
ensinamentos e exemplos de São João Maria Vianney podem
oferecer a todos, um significativo ponto de referência. O
Cura d'Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto
padre, um dom imenso para seu povo: "Um bom pastor, um
pastor segundo o coração de Deus é o maior tesouro que o bom
Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais
preciosos da misericórdia divina." Falava do sacerdócio como
se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e
da tarefa confiados a uma criatura humana: "Oh como é grande
o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo,
morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras
e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa
pequena hóstia." E, ao explicar a seus fiéis a importância
dos sacramentos, dizia: "Sem o sacramento da Ordem, não
teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O
sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do
ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar
a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há
de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela
última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o
sacerdote. E se esta alma chega a morrer (pelo pecado), quem
a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz?
Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo!
(…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no
céu". Essas afirmações nascidas do coração sacerdotal
daquele santo pároco podem parecer excessivas. Nelas, porém,
revela-se a sublime consideração em que ele tinha o
sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação
de responsabilidade sem fim: "Se compreendêssemos bem o que
um padre é, sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de
amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor
não teria servido para nada. É o padre que continua a obra
da Redenção sobre a terra (…) De que valeria termos uma casa
cheia de ouro, se não houvesse ninguém para nos abrir a
porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele
que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador
dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem
padre, e lá se adorarão as bestas. (…) O padre não é padre
para si mesmo, o é para vós."
Tinha
chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes,
precavido pelo bispo de que iria encontrar uma situação
religiosamente precária: "Naquela paróquia, não há muito
amor de Deus; infundi-lo-eis vós." Por conseguinte,
achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a
fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando sua
ternura salvífica: "(Meu Deus), concedei-me a conversão da
minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por
todo o tempo da minha vida!": foi com essa oração que
começou sua missão. E, à conversão da sua paróquia,
dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias,
colocando no ápice de cada uma de suas ideias, a formação
cristã do povo a ele confiado. Amados irmãos no sacerdócio,
peçamos ao Senhor Jesus, a graça de podermos, também nós,
assimilar o método pastoral de São João Maria Vianney. A
primeira coisa que devemos aprender é sua total
identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a
coincidir Pessoa e Missão: toda a sua ação salvífica era e é
expressão do seu "Eu filial" que, desde toda a eternidade,
está diante do Pai, em atitude de amorosa submissão à sua
vontade. Com modesta, mas verdadeira, analogia, também o
sacerdote deve ansiar por essa identificação. Não se trata,
certamente, de esquecer que a eficácia substancial do
ministério permanece, independentemente da santidade do
ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a
extraordinária frutificação gerada do encontro entre a
santidade objetiva do ministério, e a subjetiva do ministro.
O Cura d'Ars principiou, imediatamente, esse humilde e
paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de
ministro e a santidade do ministério que lhe fora confiado,
decidindo "habitar", mesmo materialmente, na sua igreja
paroquial: "Logo que chegou, escolheu a igreja para sua
habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e não saía
de lá senão à tardinha, depois do Angelus. Quando precisavam
dele, deviam procurá-lo lá" − lê-se na primeira biografia.
O
exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer
o fato de que o Santo Cura soube também "habitar"
ativamente, em todo o território da sua paróquia: visitava,
sistematicamente, os doentes e as famílias; organizava
missões populares e festas dos santos patronos; recolhia e
administrava dinheiro para suas obras sociocaritativas e
missionárias; embelezava sua igreja e a dotava de adornos
sagrados; ocupava-se das órfãs do "Providence" (um
instituto fundado por ele) e de suas educadoras;
preocupava-se com a instrução das crianças; fundava
confrarias e chamava os leigos para colaborarem com ele.
Seu
exemplo me induz a evidenciar os espaços de colaboração que
é imperioso estender, cada vez mais, aos fiéis leigos com os
quais os presbíteros formam um único povo sacerdotal e, no
meio dos quais, em virtude do sacerdócio ministerial, se
encontram "para levá-los, todos, à unidade, "amando-se uns
aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros por mais
dignos" (Rm 12, 10)". Nesse contexto, há que recordar o
caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano
II aos presbíteros, para que "reconheçam e promovam
sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos
na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos,
tendo, fraternalmente, em conta, seus desejos, e
reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos
campos da atividade humana, para que, juntamente com eles,
saibam reconhecer os sinais dos tempos".
O
Santo Cura ensinava seus paroquianos, sobretudo, com o
testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a
rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário, para uma
visita a Jesus-Eucaristia. "Para rezar bem – explicava-lhes
o Cura – não há necessidade de falar muito. Sabe-se que
Jesus está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso
coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a
melhor oração." E exortava: "Vinde à comunhão, meus irmãos,
vinde a Jesus. Vinde viver d'Ele para poderdes viver com
Ele. É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!"
Essa educação dos fiéis à presença eucarística e à comunhão
adquiria um eficácia muito particular, quando o viam
celebrar o santo sacrifício da missa. Quem ao mesmo
assistia, afirmava que "não era possível encontrar uma
figura que exprimisse melhor a adoração. (...) Contemplava a
hóstia amorosamente". Dizia ele: "Todas as boas obras
reunidas não igualam o valor do sacrifício da missa, porque
aquelas são obra de homens, enquanto a santa missa é obra de
Deus." Estava convencido de que todo o fervor da vida de um
padre dependia da missa: "A causa do relaxamento do
sacerdote é porque não presta atenção à missa! Meu Deus,
como é de lamentar um padre que celebra (a missa) como se
fizesse um coisa ordinária!" E, ao celebrar, tinha tomado o
costume de sempre oferecer também, o sacrifício da sua
própria vida: "Como faz bem um padre oferecer-se em
sacrifício a Deus todas as manhãs!"
Essa sintonia pessoal com o sacrifício da Cruz levava-o –
por um único movimento interior – do altar ao
confessionário. Os sacerdotes jamais deveriam resignar-se a
ver seus confessionários desertos, nem limitar-se a
constatar o menosprezo dos fiéis por esse sacramento. Na
França, no tempo do Santo Cura d'Ars, a confissão não era
mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a
tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática
religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a
pregação e o conselho persuasivo, fazer com que seus
paroquianos redescobrissem o significado e a beleza da
Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência
íntima da presença eucarística. Pôde, assim, dar início a um
círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto
do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo,
indo até lá visitar Jesus, e, ao mesmo tempo, estivessem
seguros de que lá encontrariam seu pároco disponível para
ouvi-los e perdoá-los. Em seguida, a multidão crescente dos
penitentes provenientes de toda a França, haveria de retê-lo
no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se, então, que
Ars se tornara "o grande hospital das almas". "A graça que
ele obtinha (para a conversão dos pecadores) era tão forte,
que aquela ia procurá-los sem lhes deixar um momento de
trégua!": diz o primeiro biógrafo. E, assim o pensava o
Santo Cura d'Ars, quando afirmava: "Não é o pecador que
regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus
que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele. Este bom
Salvador é tão cheio de amor, que nos procura por todo o
lado."
Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam
pessoalmente essas palavras que ele colocava na boca de
Cristo: "Encarregarei os meus ministros de anunciarem aos
pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha
misericórdia é infinita." Do Santo Cura d'Ars, nós,
sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível
confiança no sacramento da Penitência, que nos instigue a
colocá-lo no centro das nossas preocupações pastorais, mas
também o método do "diálogo de salvação" que nele se deve
realizar. O Cura d'Ars tinha maneiras diversas de
comportar-se, segundo os vários penitentes. Quem vinha ao
seu confessionário atraído por uma íntima e humilde
necessidade do perdão de Deus, encontrava nele o
encorajamento para mergulhar na "torrente da misericórdia
divina" que, no seu ímpeto, tudo arrasta e depura. E se
aparecia alguém angustiado com o pensamento de sua
debilidade e inconstância, temeroso de futuras quedas, o
Cura d'Ars revelava-lhe o segredo de Deus, com um discurso
de comovente beleza: "O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de
vos confessardes, já sabe que voltareis a pecar e, todavia,
vos perdoa. Como é grande o amor do nosso Deus, que vai até
o ponto de esquecer voluntariamente o futuro, só para poder
perdoar-nos!" Diversamente, a quem se acusava de forma
indolente e quase indiferente, expunha, através de suas
próprias lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão
"abominável" fosse aquele comportamento. "Choro, porque vós
não chorais" − exclamava ele. "Se ao menos o Senhor não
fosse assim tão bom! Mas é assim bom! Só um bárbaro poderia
comportar-se assim diante de um Pai tão bom!" Fazia brotar o
arrependimento no coração dos indolentes, forçando-os a
verem com os próprios olhos, o sofrimento de Deus, causado
pelos pecados, quase "encarnado" no rosto do padre que os
atendia na confissão. Entretanto, a quem se apresentava já
desejoso e capaz de uma vida espiritual mais profunda,
abria-lhe de par em par as profundidades do amor, explicando
a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na sua
presença: "Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo
para agradar a Deus. (...) Como é belo!" E ensinava-lhes a
rezar assim: "Meu Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto
quanto é possível que eu Vos ame!"
No seu
tempo, o Cura d'Ars soube transformar o coração e a vida de
muitas pessoas, porque conseguiu fazer-las sentir o amor
misericordioso do Senhor. Também hoje, é igualmente urgente
o anúncio e o testemunho da verdade do Amor: Deus caritas
est (1 Jo 4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu
Jesus, João Maria Vianney sabia instruir seu povo, ainda que
frequentemente suspirasse, convencido da sua pessoal
inaptidão, a ponto de ter desejado, diversas vezes,
subtrair-se às responsabilidades do ministério paroquial, do
qual se sentia indigno. Mas, com exemplar obediência, ficou
sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão apostólica
pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à
própria vocação e missão, por meio de uma severa ascese:
"Para nós, párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é
entorpecer-se a alma", entendendo, com isso, o perigo de o
pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em
que vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns,
freava o corpo, para evitar que opusesse resistência à sua
alma sacerdotal. E não se esquivava a mortificar-se a si
mesmo, para bem das almas que lhe estavam confiadas e para
contribuir para a expiação dos muitos pecados ouvidos em
confissão. Explicava a um colega sacerdote: "Dir-vos-ei qual
é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência pequena,
e o resto faço-o eu, no lugar deles." Independentemente das
penitências concretas a que se sujeitava o Cura d'Ars,
continua válido para todos, o núcleo do seu ensinamento: as
almas custam o sangue de Cristo e o sacerdote não pode
dedicar-se à sua salvação, se se recusa a contribuir com a
sua parte, para pagar o "alto preço" da redenção.
No
mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d'Ars,
é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se
distingam por um vigoroso testemunho evangélico. Paulo VI
observou, justamente, que "o homem contemporâneo escuta com
melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou
então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas".
Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique
comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não
cessar de nos interrogarmos: "Somos verdadeiramente
permeados pela palavra de Deus? É verdade que ela é o
alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as
coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la?
Ocupamos interiormente desta palavra, de modo que a mesma
dê, realmente. um timbre à nossa vida e uma forma ao nosso
pensamento?" Assim como Jesus chamou os Doze para estarem
com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a
pregarem, assim também nos nossos dias, os sacerdotes são
chamados a assimilar aquele "novo estilo de vida" que foi
inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos apóstolos.
Foi
precisamente a adesão sem reservas a esse "novo estilo de
vida" que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d'Ars.
O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri
primordia – publicada em 1959, centenário da morte de
São João Maria Vianney – apresentava sua fisionomia
ascética, referindo-se de modo especial ao tema dos "três
conselhos evangélicos" considerados necessários também para
os presbíteros: "Embora, para alcançar esta santidade de
vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado
clerical, a prática dos conselhos evangélicos, entretanto
esta representa para ele, como para todos os discípulos do
Senhor, o caminho regular da santificação cristã." O Cura d'Ars
soube viver os "conselhos evangélicos" segundo modalidades
apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, sua
pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas
a requerida a um padre: embora manejasse muito dinheiro
(dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se
interessar por suas obras sociocaritativas), sabia que tudo
era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos,
as meninas do seu "Providence", e as suas famílias
mais indigentes. Por isso, ele "era rico para dar aos outros
e era muito pobre para si mesmo". Explicava: "Meu segredo é
simples: dar tudo e não guardar nada." Quando se encontrava
de mãos vazias, dizia contente aos pobres que lhe se
dirigiam: "Hoje sou pobre como vós, sou um de vós." Desse
modo, pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade:
"Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamar-me quando
quiser!" Também sua castidade era aquela que se requeria a
um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a
castidade conveniente a quem deve, habitualmente, tocar a
Eucaristia e que, habitualmente, a fixa com todo o
entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá a seus
fiéis. Dele se dizia que "a castidade brilhava no seu olhar"
e os fiéis apercebiam-se disso, quando ele se voltava para o
sacrário, fixando-o com os olhos de um enamorado. Também a
obediência de São João Maria Vianney foi toda encarnada na
dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É
sabido como o atormentava o pensamento de sua própria
inaptidão para o ministério paroquial, e o desejo que tinha
de fugir "para chorar sua pobre vida, na solidão". Somente a
obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a
continuar no seu lugar. A si próprio e a seus fiéis
explicava: "Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há
apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido." A regra de
ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta:
"Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus."
No
contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos
conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos
sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite
particular, a fim de que saibam acolher a nova Primavera
que, em nossos dias, o Espírito suscita na Igreja, através,
particularmente, dos movimentos eclesiais e das novas
comunidades. "O Espírito é multiforme nos seus dons. (…) Ele
sopra onde quer. E o faz de maneira inesperada, em lugares
imprevistos, e segundo formas precedentemente inimagináveis
(…); mas nos demonstra também, que Ele age em vista do único
Corpo e na unidade do único Corpo." A propósito disso, vale
a indicação do decreto Presbyterorum ordinis:
"Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, (os
presbíteros) perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com
alegria e promovam com diligência os multiformes carismas
dos leigos, tanto os humildes como os sublimes." Esses dons
que impelem não poucos para uma vida espiritual mais
elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos,
mas também para os próprios ministros. Com efeito, da
comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar
"um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja,
no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da
caridade, em todos os recantos do mundo". Queria ainda,
acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores
dabo vobis, do Papa João Paulo II, que o ministério
ordenado tem uma radical "forma comunitária" e pode ser
cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu bispo.
É preciso que essa comunhão entre os sacerdotes e com seus
respectivos bispos, baseada no sacramento da Ordem e
manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas
diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal
efetiva e afetiva. Só desse modo é que os sacerdotes poderão
viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de
fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os
prodígios da primeira pregação do Evangelho.
O Ano
Paulino, que está chegando ao fim, encaminha o nosso
pensamento também para o Apóstolo dos Gentios, em quem
refulge aos nossos olhos um modelo esplêndido de sacerdote,
totalmente "entregue" a seu ministério. "O amor de Cristo
nos impele – escrevia ele – ao pensarmos que um só morreu
por todos e que todos, portanto, morreram" (2 Cor 5, 14). E
acrescenta: Ele "morreu por todos, para que os vivos deixem
de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu
e ressuscitou por eles" (2 Cor 5, 15). Que programa melhor
do que esse poderia ser proposto a um sacerdote empenhado em
avançar pela estrada da perfeição cristã?
Amados
sacerdotes, a celebração dos 150 anos da morte de São João
Maria Vianney (1859) segue-se, imediatamente, às celebrações
− há pouco encerradas − dos 150 anos das aparições de
Lourdes (1858). Já em 1959, o bem-aventurado Papa João XXIII
anotara: "Pouco antes que o Cura d'Ars concluísse sua longa
carreira cheia de méritos, a Virgem Imaculada aparecera,
noutra região da França, a uma menina humilde e pura, para
lhe transmitir uma mensagem de oração e penitência, cuja
imensa ressonância espiritual, há um século, é bem
conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja
comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração
das grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de
Massabielle. Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da
Santíssima Virgem uma vivíssima devoção, ele que, em 1836,
havia consagrado sua paróquia a Maria concebida sem pecado,
e acolheria com tanta fé e alegria, a definição dogmática de
1854." O Santo Cura d'Ars sempre recordava a seus fiéis que
"Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo que nos
podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem
de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe".
À
Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe
para suscitar no ânimo de cada presbítero, um generoso
relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à
Igreja, que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura
d'Ars. Com sua fervorosa vida de oração e seu amor
apaixonado, por Jesus crucificado, João Maria Vianney
alimentou sua cotidiana doação sem reservas a Deus e à
Igreja. Possa o seu exemplo suscitar, nos sacerdotes, aquele
testemunho de unidade com o bispo, entre eles próprios e com
os leigos, que é tão necessário hoje, como sempre o foi. Não
obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a
palavra de Cristo a seus apóstolos, no Cenáculo: "No mundo,
sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o
mundo" (Jo 16, 33). A fé no Divino Mestre dá-nos a força
para olhar com confiança, para o futuro. Amados sacerdotes,
Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d'Ars,
deixai-vos conquistar por Ele e sereis, também vós, no mundo
atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.
Com a
minha bênção.
Vaticano, 16 de Junho de 2009.
Benedictus PP. XVI
Fonte: Rádio Vaticano.
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