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CARTA ENCÍCLICA
CARITAS IN VERITATE
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
AOS FIÉIS LEIGOS
E A TODOS OS HOMENS
DE BOA VONTADE
SOBRE O DESENVOLVIMENTO
HUMANO INTEGRAL
NA CARIDADE E NA VERDADE
INTRODUÇÃO
1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a
sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição,
é a força propulsora principal para o verdadeiro
desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O
amor — « caritas » — é uma força extraordinária, que
impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e
generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que
tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta.
Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que
Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com
efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si
mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8,
22). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e
convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e
imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, « rejubila com
a verdade » (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o
impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e
verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a
vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada
homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências
humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em
plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida
verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a
caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma
vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na
verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade
(cf. Jo 14, 6).
2. A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja.
As diversas responsabilidades e compromissos por ela
delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus —
a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A
caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus
e com o próximo; é o princípio não só das micro-relações
estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo,
mas também das macro-relações como relacionamentos sociais,
económicos, políticos. Para a Igreja — instruída pelo
Evangelho —, a caridade é tudo porque, como ensina S. João
(cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira
carta encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est):
da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma,
para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus
concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança.
Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a
caridade não cessa de enfrentar com o risco, daí resultante,
de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em todo
o caso, de impedir a sua correcta valorização. Nos âmbitos
social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja,
nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil
ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e
orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de
conjugar a caridade com a verdade, não só na direcção
assinalada por S. Paulo da « veritas in caritate » (Ef
4, 15), mas também na direcção inversa e complementar da «
caritas in veritate ». A verdade há-de ser procurada,
encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta
por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob
a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um
serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também
contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder
de autenticação e persuasão na vida social concreta. Facto
este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social
e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes
negligente senão mesmo refractário à mesma.
3. Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode
ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e
como elemento de importância fundamental nas relações
humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade
é que a caridade refulge e pode ser autenticamente
vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade.
Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através
das quais a inteligência chega à verdade natural e
sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de
doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai
no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que
se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa
cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e
opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e
adulterada chegando a significar o oposto do que é
realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos
do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e
sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e
universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimensão
simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que
é conjuntamente « Agápe » e « Lógos »:
Caridade e Verdade, Amor e Palavra.
4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser
compreendida pelo homem na sua riqueza de valores,
partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é « lógos
» que cria « diá-logos » e, consequentemente,
comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens
das opiniões e sensações subjectivas, permite-lhes
ultrapassar determinações culturais e históricas para se
encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A
verdade abre e une as inteligências no lógos do amor:
tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No
actual contexto social e cultural, em que aparece
generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a
caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos
valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo
indispensável para a construção duma boa sociedade e dum
verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo
de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com
uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência
social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver
verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a
verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e
carecido de relações; fica excluída dos projectos e
processos de construção dum desenvolvimento humano de
alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização
prática.
5. A caridade é amor recebido e dado; é « graça » (cháris).
A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito
Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor
criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos
recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo
13, 1), é « derramado em nossos corações pelo Espírito Santo
» (Rm 5, 5). Destinatários do amor de Deus, os homens
são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se
eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade
de Deus e tecer redes de caridade.
A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar
resposta a doutrina social da Igreja. Tal doutrina é «
caritas in veritate in re sociali », ou seja,
proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade; é
serviço da caridade, mas na verdade. Esta preserva e exprime
a força libertadora da caridade nas vicissitudes sempre
novas da história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da
razão, na distinção e, conjuntamente, sinergia destes dois
âmbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social,
uma solução adequada dos graves problemas sócio-económicos
que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda,
necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem
verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há
consciência e responsabilidade social, e a actividade social
acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com
efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa
sociedade em vias de globalização que atravessa momentos
difíceis como os actuais.
6. « Caritas in veritate » é um princípio à volta do
qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha
forma operativa em critérios orientadores da acção moral.
Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos
especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento
numa sociedade em vias de globalização: a justiça e o bem
comum.
Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius:
cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A
caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer
ao outro do que é « meu »; mas nunca existe sem a justiça,
que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhe
pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar
» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que
lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é,
antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só
não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo
ou paralelo à caridade, mas é « inseparável da caridade »[1],
é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade
ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida mínima » dela[2],
parte integrante daquele amor « por acções e em verdade » (1
Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado,
a caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito
dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Aquela
empenha-se na construção da « cidade do homem » segundo o
direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça
e completa-a com a lógica do dom e do perdão[3].
A « cidade do homem » não se move apenas por relações feitas
de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações
de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta
sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor
teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.
7. Depois, é preciso ter em grande consideração o bem
comum. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar
eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um
bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem
daquele « nós-todos », formado por indivíduos, famílias e
grupos intermédios que se unem em comunidade social[4].
Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que
fazem parte da comunidade social e que, só nela, podem
realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer
o bem comum e trabalhar por ele é exigência de
justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é,
por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto
de instituições que estruturam jurídica, civil, política e
culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de
pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo,
quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê
resposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é
chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as
possibilidades que tem de incidência na pólis. Este é
o caminho institucional — podemos mesmo dizer político — da
caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a
caridade que vai directamente ao encontro do próximo, fora
das mediações institucionais da pólis. Quando o
empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma
valência superior à do empenho simplesmente secular e
político. Aquele, como todo o empenho pela justiça,
inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no
tempo, prepara o eterno. A acção do homem sobre a terra,
quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui
para a edificação daquela cidade universal de Deus
que é a meta para onde caminha a história da família
humana. Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum
e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as
dimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade
dos povos e das nações[5],
para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e
torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade
de Deus sem barreiras.
8. Ao publicar a encíclica
Populorum progressio em 1967, o meu venerado
predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do
desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a
luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o anúncio de
Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento
[6] e deixou-nos a recomendação de caminhar pela estrada
do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a
nossa inteligência[7],
ou seja, com o ardor da caridade e a sapiência da verdade. É
a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida
— que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num
« desenvolvimento do homem todo e de todos os homens »[8],
numa passagem « de condições menos humanas a condições mais
humanas »[9],
que se obtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se
encontram ao longo do caminho.
Passados mais de quarenta anos da publicação da referida
encíclica, pretendo prestar homenagem e honrar a memória do
grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos
sobre o desenvolvimento humano integral e
colocando-me na senda pelos mesmos traçada para os
actualizar nos dias que correm. Este processo de
actualização teve início com a encíclica Sollicitudo rei
socialis do Servo de Deus João Paulo II, que desse modo
quis comemorar a
Populorum progressio no vigésimo aniversário da sua
publicação. Até então, semelhante comemoração tinha-se
reservado apenas para a
Rerum novarum. Passados outros vinte anos, exprimo a
minha convicção de que a
Populorum progressio merece ser considerada como « a
Rerum novarum da época contemporânea », que ilumina o
caminho da humanidade em vias de unificação.
9. O amor na verdade — caritas in veritate — é um
grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e
incisiva globalização. O risco do nosso tempo é que, à real
interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a
interacção ética das consciências e das inteligências, da
qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente
humano. Só através da caridade, iluminada pela luz da
razão e da fé, é possível alcançar objectivos de
desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e
humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva
o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples
progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas
pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm
12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das
liberdades.
A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer
[10] e não pretende « de modo algum imiscuir-se na
política dos Estados »[11];
mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em
todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à
medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem
verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida,
incapaz de se elevar acima da acção porque não está
interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer
os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A
fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a
única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8,
32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano
integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia
incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se
apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade
é irrenunciável. A sua doutrina social é um momento singular
deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à
verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a
doutrina social da Igreja acolhe-a, compõe numa unidade os
fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de
medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos
povos[12].
CAPÍTULO I
A MENSAGEM
DA POPULORUM PROGRESSIO
10. A releitura da
Populorum progressio, mais de quarenta anos depois
da sua publicação, incita a permanecer fiéis à sua mensagem
de caridade e de verdade, considerando-a no âmbito do
magistério específico de Paulo VI e, mais em geral, dentro
da tradição da doutrina social da Igreja. Depois há que
avaliar os termos diferentes em que hoje, diversamente de
então, se coloca o problema do desenvolvimento. Por isso, o
ponto de vista correcto é o da Tradição da fé apostólica[13],
património antigo e novo, fora do qual a
Populorum progressio seria um documento sem raízes e
as questões do desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente
a dados sociológicos.
11. A publicação da
Populorum progressio deu-se imediatamente depois da
conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II. A própria
encíclica sublinha, nos primeiros parágrafos, a sua relação
íntima com o Concílio[14].
Vinte anos depois, era João Paulo II que destacava, na
Sollicitudo rei socialis, a fecunda relação daquela
encíclica com o Concílio, particularmente com a constituição
pastoral
Gaudium et spes[15].
Desejo, também eu, lembrar aqui a importância que o Concílio
Vaticano II teve na encíclica de Paulo VI e em todo o
sucessivo magistério social dos Sumos Pontífices. O Concílio
aprofundou aquilo que desde sempre pertence à verdade da fé,
ou seja, que a Igreja, estando ao serviço de Deus, serve o
mundo em termos de amor e verdade. Foi precisamente desta
perspectiva que partiu Paulo VI para nos comunicar duas
grandes verdades. A primeira é que a Igreja inteira, em
todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e actua na
caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do
homem. Ela tem um papel público que não se esgota nas
suas actividades de assistência ou de educação, mas revela
todas as suas energias ao serviço da promoção do homem e da
fraternidade universal quando pode usufruir de um regime de
liberdade. Em não poucos casos, tal liberdade vê-se impedida
por proibições e perseguições; ou então é limitada, quando a
presença pública da Igreja fica reduzida unicamente às suas
actividades sócio-caritativas. A segunda verdade é que o
autêntico desenvolvimento do homem diz respeito
unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas
dimensões[16].
Sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste
mundo fica privado de respiro. Fechado dentro da história,
está sujeito ao risco de reduzir-se a simples incremento do
ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de permanecer
disponível para os bens mais altos, para as grandes e
altruístas iniciativas solicitadas pela caridade universal.
O homem não se desenvolve apenas com as suas próprias
forças, nem o desenvolvimento é algo que se lhe possa dar
simplesmente de fora. Muitas vezes, ao longo da história,
pensou-se que era suficiente a criação de instituições para
garantir à humanidade a satisfação do direito ao
desenvolvimento. Infelizmente foi depositada excessiva
confiança em tais instituições, como se estas pudessem
conseguir automaticamente o objectivo desejado. Na
realidade, as instituições sozinhas não bastam, porque o
desenvolvimento humano integral é primariamente vocação e,
por conseguinte, exige uma livre e solidária assunção de
responsabilidade por parte de todos. Além disso, tal
desenvolvimento requer uma visão transcendente da pessoa,
tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou é
negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que
cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um
desenvolvimento desumanizado. Aliás, só o encontro com Deus
permite deixar de « ver no outro sempre e apenas o outro »[17],
para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a
descobrir verdadeiramente o outro e a maturar um amor que «
se torna cuidado do outro e pelo outro »[18].
12. A ligação entre a
Populorum progressio e o Concílio Vaticano II não
representa um corte entre o magistério social de Paulo VI e
o dos Pontífices seus predecessores, visto que o Concílio
constitui um aprofundamento de tal magistério na
continuidade da vida da Igreja[19].
Neste sentido, não ajudam à clareza certas subdivisões
abstractas da doutrina social da Igreja, que aplicam ao
ensinamento social pontifício categorias que lhe são
alheias. Não existem duas tipologias de doutrina social —
uma pré-conciliar e outra pós-conciliar —, diversas entre
si, mas um único ensinamento, coerente e simultaneamente
sempre novo[20].
É justo evidenciar a peculiaridade de uma ou outra
encíclica, do ensinamento deste ou daquele Pontífice, mas
sem jamais perder de vista a coerência do corpus
doutrinal inteiro[21].
Coerência não significa reclusão num sistema, mas sobretudo
fidelidade dinâmica a uma luz recebida. A doutrina social da
Igreja ilumina, com uma luz imutável, os problemas novos que
vão aparecendo[22].
Isto salvaguarda o carácter quer permanente quer histórico
deste « património » doutrinal[23],
o qual, com as suas características específicas, faz parte
da Tradição sempre viva da Igreja[24].
A doutrina social está construída sobre o fundamento que foi
transmitido pelos Apóstolos aos Padres da Igreja e, depois,
acolhido e aprofundado pelos grandes Doutores cristãos. Tal
doutrina remonta, em última análise, ao Homem novo, ao «
último Adão que Se tornou espírito vivificante » (1 Cor
15, 45) e é princípio da caridade que « nunca acabará » (1
Cor 13, 8). É testemunhada pelos Santos e por quantos
deram a vida por Cristo Salvador no campo da justiça e da
paz. Nela se exprime a missão profética que têm os Sumos
Pontífices de guiar apostolicamente a Igreja de Cristo e
discernir as novas exigências da evangelização. Por estas
razões, a
Populorum progressio, inserida na grande corrente da
Tradição, é capaz de nos falar ainda a nós hoje.
13. Além da sua importante ligação com toda a doutrina
social da Igreja, a
Populorum progressio está intimamente conexa com o
magistério global de Paulo VI e, de modo particular, com
o seu magistério social. De grande relevo foi, sem dúvida, o
seu ensinamento social: reafirmou a exigência imprescindível
do Evangelho para a construção da sociedade segundo
liberdade e justiça, na perspectiva ideal e histórica de uma
civilização animada pelo amor. Paulo VI compreendeu
claramente como se tinha tornado mundial a questão social[25]
e viu a correlação entre o impulso à unificação da
humanidade e o ideal cristão de uma única família dos povos,
solidária na fraternidade comum. Indicou o
desenvolvimento, humana e cristãmente entendido, como o
coração da mensagem social cristã e propôs a caridade
cristã como principal força ao serviço do desenvolvimento.
Movido pelo desejo de tornar o amor de Cristo plenamente
visível ao homem contemporâneo, Paulo VI enfrentou com
firmeza importantes questões éticas, sem ceder às
debilidades culturais do seu tempo.
14. Depois, com a carta apostólica
Octogesima adveniens de 1971, Paulo VI tratou o tema
do sentido da política e do perigo de visões utópicas e
ideológicas que prejudicavam a sua qualidade ética e
humana. São argumentos estritamente relacionados com o
desenvolvimento. Infelizmente as ideologias negativas
florescem continuamente. Contra a ideologia tecnocrática,
hoje particularmente radicada, já Paulo VI tinha alertado[26],
ciente do grande perigo que era confiar todo o processo do
desenvolvimento unicamente à técnica, porque assim ficaria
sem orientação. A técnica, em si mesma, é ambivalente. Se,
por um lado, há hoje quem seja propenso a confiar-lhe
inteiramente tal processo de desenvolvimento, por outro,
assiste-se à investida de ideologias que negam in toto
a própria utilidade do desenvolvimento, considerado
radicalmente anti-humano e portador somente de degradação.
Mas, deste modo, acaba-se por condenar não apenas a maneira
errada e injusta como por vezes os homens orientam o
progresso, mas também as descobertas científicas que
entretanto, se bem usadas, constituem uma oportunidade de
crescimento para todos. A ideia de um mundo sem
desenvolvimento exprime falta de confiança no homem e em
Deus. Por conseguinte, é um grave erro desprezar as
capacidades humanas de controlar os extravios do
desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem está
constitutivamente inclinado para « ser mais ». Absolutizar
ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia
duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza
são dois modos opostos de separar o progresso da sua
apreciação moral e, consequentemente, da nossa
responsabilidade.
15. Outros dois documentos de Paulo VI, embora não
estritamente ligados com a doutrina social — a encíclica
Humanæ vitæ, de 25 de Julho de 1968, e a exortação
apostólica
Evangelii nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975 —, são
muito importantes para delinear o sentido plenamente
humano do desenvolvimento proposto pela Igreja. Por isso
é oportuno ler também estes textos em relação com a
Populorum progressio.
A encíclica
Humanæ vitæ sublinha o significado conjuntamente
unitivo e procriativo da sexualidade, pondo assim como
fundamento da sociedade o casal de esposos, homem e mulher,
que se acolhem reciprocamente na distinção e na
complementaridade; um casal, portanto, aberto à vida[27].
Não se trata de uma moral meramente individual: a
Humanæ vitæ indica os fortes laços existentes
entre ética da vida e ética social, inaugurando uma
temática do Magistério que aos poucos foi tomando corpo em
vários documentos, sendo o mais recente a encíclica
Evangelium vitæ de João Paulo II[28].
A Igreja propõe, com vigor, esta ligação entre ética da vida
e ética social, ciente de que não pode « ter sólidas bases
uma sociedade que afirma valores como a dignidade da pessoa,
a justiça e a paz, mas contradiz-se radicalmente aceitando e
tolerando as mais diversas formas de desprezo e violação da
vida humana, sobretudo se débil e marginalizada »[29].
Por sua vez, a exortação apostólica
Evangelii nuntiandi tem uma relação muito forte com
o desenvolvimento, visto que « a evangelização — escrevia
Paulo VI — não seria completa, se não tomasse em
consideração a interpelação recíproca que se fazem
constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e
social, do homem »[30].
« Entre evangelização e promoção humana — desenvolvimento,
libertação — existem de facto laços profundos »[31]:
partindo desta certeza, Paulo VI ilustrava claramente a
relação entre o anúncio de Cristo e a promoção da pessoa na
sociedade. O testemunho da caridade de Cristo através de
obras de justiça, paz e desenvolvimento faz parte da
evangelização, pois a Jesus Cristo, que nos ama,
interessa o homem inteiro. Sobre estes importantes
ensinamentos, está fundado o aspecto missionário
[32] da doutrina social da Igreja como elemento
essencial de evangelização[33].
A doutrina social da Igreja é anúncio e testemunho de fé; é
instrumento e lugar imprescindível de educação para a mesma.
16. Na
Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes
de mais nada, que o progresso é, na sua origem e na sua
essência, uma vocação: « Nos desígnios de Deus, cada
homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é
vocação »[34].
É precisamente este facto que legitima a intervenção da
Igreja nas problemáticas do desenvolvimento. Se este tocasse
apenas aspectos técnicos da vida do homem, e não o sentido
do seu caminhar na história juntamente com seus irmãos, nem
a individuação da meta de tal caminho, a Igreja não teria
título para falar. Mas Paulo VI, como antes dele Leão XIII
na
Rerum novarum[35],
estava consciente de cumprir um dever próprio do seu serviço
quando iluminava com a luz do Evangelho as questões sociais
do seu tempo[36].
Dizer que o desenvolvimento é vocação equivale a
reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo
transcendente e, por outro, que é incapaz por si mesmo de
atribuir-se o próprio significado último. Não é sem motivo
que a palavra « vocação » volta a aparecer noutra passagem
da encíclica, onde se afirma: « Não há, portanto, verdadeiro
humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma
vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana »[37].
Esta visão do desenvolvimento é o coração da
Populorum progressio e motiva todas as reflexões de
Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no
desenvolvimento. É também a razão principal por que tal
encíclica ainda aparece actual nos nossos dias.
17. A vocação é um apelo que exige resposta livre e
responsável. O desenvolvimento humano integral supõe a
liberdade responsável da pessoa e dos povos: nenhuma
estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e
sobrepondo-se à responsabilidade humana. Os « messianismos
fascinantes, mas construtores de ilusões »[38]
fundam sempre as próprias propostas na negação da dimensão
transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem
inteiramente à sua disposição. Esta falsa segurança
converte-se em fraqueza, porque implica a sujeição do homem,
reduzido à categoria de meio para o desenvolvimento,
enquanto a humildade de quem acolhe uma vocação se
transforma em verdadeira autonomia, porque torna a pessoa
livre. Paulo VI não tem dúvidas sobre a existência de
obstáculos e condicionamentos que refreiam o
desenvolvimento, mas está seguro também de que « cada um,
sejam quais forem as influências que sobre ele se exerçam,
permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu
fracasso »[39].
Esta liberdade diz respeito não só ao desenvolvimento que
usufruímos, mas também às situações de subdesenvolvimento,
que não são fruto do acaso nem de uma necessidade histórica,
mas dependem da responsabilidade humana. É por isso que « os
povos da fome se dirigem hoje, de modo dramático, aos povos
da opulência »[40].
Também isto é vocação, um apelo que homens livres dirigem a
homens livres em ordem a uma assunção comum de
responsabilidade. Viva era, em Paulo VI, a percepção da
importância das estruturas económicas e das instituições,
mas era igualmente clara nele a noção da sua natureza de
instrumentos da liberdade humana. Somente se for livre é que
o desenvolvimento pode ser integralmente humano; apenas num
regime de liberdade responsável, pode crescer de maneira
adequada.
18. Além de requerer a liberdade, o desenvolvimento
humano integral enquanto vocação exige também que se
respeite a sua verdade. A vocação ao progresso impele os
homens a « realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais
»[41].
Mas aqui levanta-se o problema: que significa « ser mais »?
A tal pergunta responde Paulo VI indicando a característica
essencial do « desenvolvimento autêntico »: este « deve ser
integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem
todo »[42].
Na concorrência entre as várias concepções do homem,
presentes na sociedade actual ainda mais intensamente do que
na de Paulo VI, a visão cristã tem a peculiaridade de
afirmar e justificar o valor incondicional da pessoa humana
e o sentido do seu crescimento. A vocação cristã ao
desenvolvimento ajuda a empenhar-se na promoção de todos os
homens e do homem todo. Escrevia Paulo VI: « O que conta
para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se
chegar à humanidade inteira »[43].
A fé cristã ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a
privilégios nem posições de poder nem mesmo aos méritos dos
cristãos — que sem dúvida existiram e existem, a par de
naturais limitações[44]
—, mas contando apenas com Cristo, a Quem há-de fazer
referência toda a autêntica vocação ao desenvolvimento
humano integral. O Evangelho é elemento fundamental do
desenvolvimento, porque lá Cristo, com « a própria
revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a
si mesmo »[45].
Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos
tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo « o que possui
como próprio: uma visão global do homem e da humanidade »[46].
Precisamente porque Deus pronuncia o maior « sim » ao homem[47],
este não pode deixar de se abrir à vocação divina para
realizar o próprio desenvolvimento. A verdade do
desenvolvimento consiste na sua integralidade: se não é
desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, não é
verdadeiro desenvolvimento. Esta é a mensagem central da
Populorum progressio, válida hoje e sempre. O
desenvolvimento humano integral no plano natural, enquanto
resposta a uma vocação de Deus criador[48],
procura a própria autenticação num « humanismo
transcendente, que leva [o homem] a atingir a sua maior
plenitude: tal é a finalidade suprema do desenvolvimento
pessoal »[49].
Portanto, a vocação cristã a tal desenvolvimento compreende
tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por
que, « quando Deus fica eclipsado, começa a esmorecer a
nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o
‘‘bem'' »[50].
19. Finalmente, a concepção do desenvolvimento como vocação
inclui nele a centralidade da caridade. Paulo VI
observava, na encíclica
Populorum progressio, que as causas do
subdesenvolvimento não são primariamente de ordem material,
convidando-nos a procurá-las noutras dimensões do homem. Em
primeiro lugar, na vontade, que muitas vezes descuida os
deveres da solidariedade. Em segundo, no pensamento, que nem
sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso,
para a prossecução do desenvolvimento, servem « pensadores
capazes de reflexão profunda, em busca de um humanismo novo,
que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo »[51].
E não é tudo; o subdesenvolvimento tem uma causa ainda mais
importante do que a carência de pensamento: é « a falta de
fraternidade entre os homens e entre os povos »[52].
Esta fraternidade poderá um dia ser obtida pelos homens
simplesmente com as suas forças? A sociedade cada vez mais
globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A
razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens
e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não
consegue fundar a fraternidade. Esta tem origem numa vocação
transcendente de Deus Pai, que nos amou primeiro,
ensinando-nos por meio do Filho o que é a caridade fraterna.
Ao apresentar os vários níveis do processo de
desenvolvimento do homem, Paulo VI colocava no vértice,
depois de ter mencionado a fé, « a unidade na caridade de
Cristo que nos chama a todos a participar como filhos na
vida do Deus vivo, Pai de todos os homens »[53].
20. Abertas pela
Populorum progressio, estas perspectivas permanecem
fundamentais para dar amplitude e orientação ao nosso
compromisso a favor do desenvolvimento dos povos. E a
Populorum progressio sublinha repetidamente a
urgência das reformas[54],
pedindo para que, à vista dos grandes problemas da injustiça
no desenvolvimento dos povos, se actue com coragem e sem
demora. Esta urgência é ditada também pela caridade na
verdade. É a caridade de Cristo que nos impele: «
caritas Christi urget nos » (2 Cor 5, 14). A
urgência não está inscrita só nas coisas, não deriva apenas
do encalçar dos acontecimentos e dos problemas, mas também
do que está em jogo: a realização de uma autêntica
fraternidade. A relevância deste objectivo é tal que exige a
nossa disponibilidade para o compreendermos profundamente e
mobilizarmo-nos concretamente, com o « coração », a fim de
fazer avançar os actuais processos económicos e sociais para
metas plenamente humanas.
CAPÍTULO II
O DESENVOLVIMENTO HUMANO
NO NOSSO TEMPO
21. Paulo VI tinha uma visão articulada do
desenvolvimento. Com o termo « desenvolvimento », queria
indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os
povos da fome, da miséria, das doenças endémicas e do
analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista económico,
a sua participação activa e em condições de igualdade no
processo económico internacional; do ponto de vista social,
a sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do
ponto de vista político, a consolidação de regimes
democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz.
Depois de tantos anos e enquanto contemplamos, preocupados,
as evoluções e as perspectivas das crises que foram
sucedendo neste período, interrogamo-nos até que ponto as
expectativas de Paulo VI tenham sido satisfeitas pelo
modelo de desenvolvimento que foi adoptado nos últimos
decénios. E reconhecemos que eram fundadas as preocupações
da Igreja acerca das capacidades do homem meramente
tecnológico conseguir impor-se objectivos realistas e saber
gerir, sempre adequadamente, os instrumentos à sua
disposição. O lucro é útil se, como meio, for orientado para
um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e
utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal
produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se
a destruir riqueza e criar pobreza. O desenvolvimento
económico desejado por Paulo VI devia ser capaz de produzir
um crescimento real, extensivo a todos e concretamente
sustentável. É verdade que o desenvolvimento foi e continua
a ser um factor positivo, que tirou da miséria milhões de
pessoas e, ultimamente, deu a muitos países a possibilidade
de se tornarem actores eficazes da política internacional.
Todavia há que reconhecer que o próprio desenvolvimento
económico foi e continua a ser molestado por anomalias e
problemas dramáticos, evidenciados ainda mais pela
actual situação de crise. Esta coloca-nos improrrogavelmente
diante de opções que dizem respeito sempre mais ao próprio
destino do homem, o qual aliás não pode prescindir da sua
natureza. As forças técnicas em campo, as inter-relações a
nível mundial, os efeitos deletérios sobre a economia real
duma actividade financeira mal utilizada e maioritariamente
especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com
frequência provocados e depois não geridos adequadamente, a
exploração desregrada dos recursos da terra, induzem-nos
hoje a reflectir sobre as medidas necessárias para dar
solução a problemas que são não apenas novos relativamente
aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas também e sobretudo
com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade.
Os aspectos da crise e das suas soluções bem como de um
possível novo desenvolvimento futuro estão cada vez mais
interdependentes, implicam-se reciprocamente, requerem novos
esforços de enquadramento global e uma nova síntese
humanista. A complexidade e gravidade da situação
económica actual preocupa-nos, com toda a justiça, mas
devemos assumir com realismo, confiança e esperança as novas
responsabilidades a que nos chama o cenário de um mundo que
tem necessidade duma renovação cultural profunda e da
redescoberta de valores fundamentais para construir sobre
eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projectar de
novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar
novas formas de empenhamento, a apostar em experiências
positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se
ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação.
Com esta chave, feita mais de confiança que resignação,
convém enfrentar as dificuldades da hora actual.
22. Actualmente o quadro do desenvolvimento é
policêntrico. Os actores e as causas tanto do
subdesenvolvimento como do desenvolvimento são múltiplas, as
culpas e os méritos são diferenciados. Este dado deveria
induzir a libertar-se das ideologias que simplificam, de
forma frequentemente artificiosa, a realidade, e levar a
examinar com objectividade a espessura humana dos problemas.
Hoje a linha de demarcação entre países ricos e pobres já
não é tão nítida como nos tempos da
Populorum progressio, como aliás foi assinalado por
João Paulo II[55].
Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam
as desigualdades. Nos países ricos, novas categorias
sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em áreas mais
pobres, alguns grupos gozam duma espécie de
superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta,
de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria
desumanizadora. Continua « o escândalo de desproporções
revoltantes »[56].
Infelizmente a corrupção e a ilegalidade estão presentes
tanto no comportamento de sujeitos económicos e políticos
dos países ricos, antigos e novos, como nos próprios países
pobres. No número de quantos não respeitam os direitos
humanos dos trabalhadores, contam-se às vezes grandes
empresas transnacionais e também grupos de produção local.
As ajudas internacionais foram muitas vezes desviadas das
suas finalidades, por irresponsabilidades que se escondem
tanto na cadeia dos sujeitos doadores como na dos
beneficiários. Também no âmbito das causas imateriais ou
culturais do desenvolvimento e do subdesenvolvimento podemos
encontrar a mesma articulação de responsabilidades: existem
formas excessivas de protecção do conhecimento por parte dos
países ricos, através duma utilização demasiado rígida do
direito de propriedade intelectual, especialmente no campo
sanitário; ao mesmo tempo, em alguns países pobres,
persistem modelos culturais e normas sociais de
comportamento que retardam o processo de desenvolvimento.
23. Temos hoje muitas áreas do globo que — de forma por
vezes problemática e não homogénea — evoluíram, entrando na
categoria das grandes potências destinadas a jogar um papel
importante no futuro. Contudo há que sublinhar que não é
suficiente progredir do ponto de vista económico e
tecnológico; é preciso que o desenvolvimento seja, antes
de mais nada, verdadeiro e integral. A saída do atraso
económico — um dado em si mesmo positivo — não resolve a
complexa problemática da promoção do homem nem nos países
protagonistas de tais avanços, nem nos países economicamente
já desenvolvidos, nem nos países ainda pobres que, além das
antigas formas de exploração, podem vir a sofrer também as
consequências negativas derivadas de um crescimento marcado
por desvios e desequilíbrios.
Depois da queda dos sistemas económicos e políticos dos
países comunistas da Europa Oriental e do fim dos chamados «
blocos contrapostos », havia necessidade duma revisão global
do desenvolvimento. Pedira-o João Paulo II, que em 1987
tinha indicado a existência destes « blocos » como uma das
principais causas do subdesenvolvimento[57],
enquanto a política subtraía recursos à economia e à cultura
e a ideologia inibia a liberdade. Em 1991, na sequência dos
acontecimentos do ano 1989, o Pontífice pediu que o fim dos
« blocos » fosse seguido por uma nova planificação global do
desenvolvimento, não só em tais países, mas também no
Ocidente e nas regiões do mundo que estavam a evoluir[58].
Isto, porém, realizou-se apenas parcialmente, continuando a
ser uma obrigação real que precisa de ser satisfeita, talvez
aproveitando-se precisamente das opções necessárias para
superar os problemas económicos actuais.
24. O mundo, que Paulo VI tinha diante dos olhos, registava
muito menor integração do que hoje, embora o processo de
sociabilização se apresentasse já tão adiantado que ele pôde
falar de uma questão social tornada mundial. Actividade
económica e função política desenrolavam-se em grande parte
dentro do mesmo âmbito local e, por conseguinte, podiam
inspirar recíproca confiança. A actividade produtiva tinha
lugar prevalentemente dentro das fronteiras nacionais e os
investimentos financeiros tinham uma circulação bastante
limitada para o estrangeiro, de tal modo que a política de
muitos Estados podia ainda fixar as prioridades da economia
e, de alguma maneira, governar o seu andamento com os
instrumentos de que ainda dispunha. Por este motivo, a
Populorum progressio atribuía um papel central, embora
não exclusivo, aos « poderes públicos »[59].
Actualmente, o Estado encontra-se na situação de ter de
enfrentar as limitações que lhe são impostas à sua soberania
pelo novo contexto económico comercial e financeiro
internacional, caracterizado nomeadamente por uma crescente
mobilidade dos capitais financeiros e dos meios de produção
materiais e imateriais. Este novo contexto alterou o poder
político dos Estados.
Hoje, aproveitando inclusivamente a lição resultante da
crise económica em curso que vê os poderes públicos
do Estado directamente empenhados a corrigir erros e
disfunções, parece mais realista uma renovada avaliação
do seu papel e poder, que hão-de ser sapientemente
reconsiderados e reavaliados para se tornarem capazes, mesmo
através de novas modalidades de exercício, de fazer frente
aos desafios do mundo actual. Com uma função melhor
calibrada dos poderes públicos, é previsível que sejam
reforçadas as novas formas de participação na política
nacional e internacional que se realizam através da acção
das organizações operantes na sociedade civil; nesta linha,
é desejável que cresçam uma atenção e uma participação mais
sentidas na res publica por parte dos cidadãos.
25. Do ponto de vista social, os sistemas de segurança e
previdência — já presentes em muitos países nos tempos de
Paulo VI — sentem dificuldade, e poderão senti-la ainda mais
no futuro, em alcançar os seus objectivos de verdadeira
justiça social dentro de um quadro de forças profundamente
alterado. O mercado, à medida que se foi tornando global,
estimulou antes de mais nada, por parte de países ricos, a
busca de áreas para onde deslocar as actividades produtivas
a baixo custo a fim de reduzir os preços de muitos bens,
aumentar o poder de compra e deste modo acelerar o índice de
desenvolvimento centrado sobre um maior consumo pelo próprio
mercado interno. Consequentemente, o mercado motivou novas
formas de competição entre Estados procurando atrair centros
produtivos de empresas estrangeiras através de variados
instrumentos tais como impostos favoráveis e a
desregulamentação do mundo do trabalho. Estes processos
implicaram a redução das redes de segurança social em
troca de maiores vantagens competitivas no mercado global,
acarretando grave perigo para os direitos dos trabalhadores,
os direitos fundamentais do homem e a solidariedade actuada
nas formas tradicionais do Estado social. Os sistemas de
segurança social podem perder a capacidade de desempenhar a
sua função, quer nos países emergentes, quer nos
desenvolvidos há mais tempo, quer naturalmente nos países
pobres. Aqui, as políticas relativas ao orçamento com os
seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas
próprias instituições financeiras internacionais, podem
deixar os cidadãos impotentes diante de riscos antigos e
novos; e tal impotência torna-se ainda maior devido à falta
de protecção eficaz por parte das associações dos
trabalhadores. O conjunto das mudanças sociais e económicas
faz com que as organizações sindicais sintam maiores
dificuldades no desempenho do seu dever de representar os
interesses dos trabalhadores, inclusive pelo facto de os
governos, por razões de utilidade económica, muitas vezes
limitarem as liberdades sindicais ou a capacidade
negociadora dos próprios sindicatos. Assim, as redes
tradicionais de solidariedade encontram obstáculos cada vez
maiores a superar. Por isso, o convite feito pela doutrina
social da Igreja, a começar da
Rerum novarum[60],
para se criarem associações de trabalhadores em defesa dos
seus direitos há-de ser honrado, hoje ainda mais do que
ontem, dando antes de mais nada uma resposta pronta e
clarividente à urgência de instaurar novas sinergias a nível
internacional, sem descurar o nível local.
A mobilidade laboral, associada à generalizada
desregulamentação, constituiu um fenómeno importante, não
desprovido de aspectos positivos porque capaz de estimular a
produção de nova riqueza e o intercâmbio entre culturas
diversas. Todavia, quando se torna endémica a incerteza
sobre as condições de trabalho, resultante dos processos de
mobilidade e desregulamentação, geram-se formas de
instabilidade psicológica, com dificuldade a construir
percursos coerentes na própria vida, incluindo o percurso
rumo ao matrimónio. Consequência disto é o aparecimento de
situações de degradação humana, além de desperdício de força
social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial
do passado, hoje o desemprego provoca aspectos novos de
irrelevância económica do indivíduo, e a crise actual pode
apenas piorar tal situação. A exclusão do trabalho por muito
tempo ou então uma prolongada dependência da assistência
pública ou privada corroem a liberdade e a criatividade da
pessoa e as suas relações familiares e sociais, causando
enormes sofrimentos a nível psicológico e espiritual. Queria
recordar a todos, sobretudo aos governantes que estão
empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas económicos
e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e
valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade: « com
efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a
vida económico-social »[61].
26. No plano cultural, as diferenças, relativamente aos
tempos de Paulo VI, são ainda mais acentuadas. Então, as
culturas apresentavam-se bastante bem definidas e tinham
maiores possibilidades para se defender das tentativas de
homogeneização cultural. Hoje, cresceram notavelmente as
possibilidades de interacção das culturas, dando
espaço a novas perspectivas de diálogo intercultural; um
diálogo que, para ser eficaz, deve ter como ponto de partida
uma profunda noção da específica identidade dos vários
interlocutores. No entanto, não se deve descurar o facto de
que esta aumentada transacção de intercâmbios culturais traz
consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar,
nota-se um ecletismo cultural assumido muitas vezes
sem discernimento: as culturas são simplesmente postas lado
a lado e vistas como substancialmente equivalentes e
intercambiáveis umas com as outras. Isto favorece a cedência
a um relativismo que não ajuda ao verdadeiro diálogo
intercultural; no plano social, o relativismo cultural faz
com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas
separados, sem autêntico diálogo e, consequentemente, sem
verdadeira integração. Depois, temos o perigo oposto que é
constituído pelo nivelamento cultural e a
homogeneização dos comportamentos e estilos de vida. Assim
perde-se o significado profundo da cultura das diversas
nações, das tradições dos vários povos, no âmbito das quais
a pessoa se confronta com as questões fundamentais da
existência[62].
Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de
separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas
deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as
transcende[63],
acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando
isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servidão
e manipulação.
27. Em muitos países pobres, continua — com risco de
aumentar — uma insegurança extrema de vida, que deriva da
carência de alimentação: a fome ceifa ainda inúmeras
vítimas entre os muitos Lázaros, a quem não é permitido —
como esperara Paulo VI — sentar-se à mesa do rico avarento[64].
Dar de comer aos famintos (cf. Mt 25, 35.37.42) é
um imperativo ético para toda a Igreja, que é resposta aos
ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o
Senhor Jesus. Além disso, eliminar a fome no mundo
tornou-se, na era da globalização, também um objectivo a
alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra. A
fome não depende tanto de uma escassez material, como
sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante
dos quais é de natureza institucional; isto é, falta um
sistema de instituições económicas que seja capaz de
garantir um acesso regular e adequado, do ponto de vista
nutricional, à alimentação e à água e também de enfrentar as
carências relacionadas com as necessidades primárias e com a
emergência de reais e verdadeiras crises alimentares
provocadas por causas naturais ou pela irresponsabilidade
política nacional e internacional. O problema da insegurança
alimentar há-de ser enfrentado numa perspectiva a longo
prazo, eliminando as causas estruturais que o provocam e
promovendo o desenvolvimento agrícola dos países mais pobres
por meio de investimentos em infra-estruturas rurais,
sistemas de irrigação, transportes, organização dos
mercados, formação e difusão de técnicas agrícolas
apropriadas, isto é, capazes de utilizar o melhor possível
os recursos humanos, naturais e sócio-económicos mais
acessíveis a nível local, para garantir a sua manutenção a
longo prazo. Tudo isto há-de ser realizado, envolvendo as
comunidades locais nas opções e nas decisões relativas ao
uso da terra cultivável. Nesta perspectiva, poderia
revelar-se útil considerar as novas fronteiras abertas por
um correcto emprego das técnicas de produção agrícola, tanto
as tradicionais como as inovadoras, desde que as mesmas
tenham sido, depois de adequada verificação, reconhecidas
oportunas, respeitadoras do ambiente e tendo em conta as
populações mais desfavorecidas. Ao mesmo tempo não deveria
ser transcurada a questão de uma equitativa reforma agrária
nos países em vias de desenvolvimento. Os direitos à
alimentação e à água revestem um papel importante para a
consecução de outros direitos, a começar pelo direito
primário à vida. Por isso, é necessário a maturação duma
consciência solidária que considere a alimentação e o
acesso à água como direitos universais de todos os seres
humanos, sem distinções nem discriminações[65].
Além disso, é importante pôr em evidência que o caminho da
solidariedade com o desenvolvimento dos países pobres pode
constituir um projecto de solução para a presente crise
global, como homens políticos e responsáveis de instituições
internacionais têm intuído nos últimos tempos. Sustentando,
através de planos de financiamento inspirados pela
solidariedade, os países economicamente pobres, para que
provejam eles mesmos à satisfação das solicitações de bens
de consumo e de desenvolvimento dos próprios cidadãos, é
possível não apenas gerar verdadeiro crescimento económico
mas também concorrer para sustentar as capacidades
produtivas dos países ricos que correm o risco de ficar
comprometidas pela crise.
28. Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual
é a importância do tema do respeito pela vida, que
não pode ser de modo algum separado das questões relativas
ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que,
nos últimos tempos, está a assumir uma relevância sempre
maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza
[66] e subdesenvolvimento às questões relacionadas com o
acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo é de várias
maneiras impedido.
Não só a situação de pobreza provoca ainda altas taxas de
mortalidade infantil em muitas regiões, mas perduram também,
em várias partes do mundo, práticas de controle demográfico
por parte dos governos, que muitas vezes difundem a
contracepção e chegam mesmo a impor o aborto. Nos países
economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as
legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e
a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade
antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a
outros Estados como se fosse um progresso cultural.
Também algumas organizações não governamentais trabalham
activamente pela difusão do aborto, promovendo nos países
pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as
mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que
às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam
associadas com determinadas políticas sanitárias que
realmente implicam a imposição de um forte controle dos
nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que
prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e
internacionais que reivindicam o seu reconhecimento
jurídico.
A abertura à vida está no centro do verdadeiro
desenvolvimento.
Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida,
acaba por deixar de encontrar as motivações e energias
necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do
homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao
acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de
acolhimento úteis à vida social[67].
O acolhimento da vida revigora as energias morais e
torna-nos capazes de ajuda recíproca. Os povos ricos,
cultivando a abertura à vida, podem compreender melhor as
necessidades dos países pobres, evitar o emprego de enormes
recursos económicos e intelectuais para satisfazer desejos
egoístas dos próprios cidadãos e promover, ao invés, acções
virtuosas na perspectiva duma produção moralmente sadia e
solidária, no respeito do direito fundamental de cada povo e
de cada pessoa à vida.
29. Outro aspecto da vida actual, intimamente relacionado
com o desenvolvimento, é a negação do direito à liberdade
religiosa. Não me refiro só às lutas e conflitos que
ainda se disputam no mundo por motivações religiosas, embora
estas às vezes sejam apenas a cobertura para razões de outro
género, tais como a sede de domínio e de riqueza. Na
realidade, com frequência hoje se faz apelo ao santo nome de
Deus para matar, como diversas vezes foi sublinhado e
deplorado publicamente pelo meu predecessor João Paulo II e
por mim próprio[68].
As violências refreiam o desenvolvimento autêntico e impedem
a evolução dos povos para um bem-estar sócio-económico e
espiritual maior. Isto aplica-se de modo especial ao
terrorismo de índole fundamentalista[69],
que gera sofrimento, devastação e morte, bloqueia o diálogo
entre as nações e desvia grandes recursos do seu uso
pacífico e civil. Mas há que acrescentar que, se o fanatismo
religioso impede em alguns contextos o exercício do direito
de liberdade de religião, também a promoção programada da
indiferença religiosa ou do ateísmo prático por parte de
muitos países contrasta com as necessidades do
desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos
espirituais e humanos. Deus é o garante do verdadeiro
desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua
imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade
transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de « ser
mais ». O homem não é um átomo perdido num universo casual[70],
mas é uma criatura de Deus, à qual quis dar uma alma imortal
e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do
acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de
reduzir-se ao horizonte restrito das situações em que vive,
se tudo fosse somente história e cultura e o homem não
tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida
sobrenatural, então poder-se-ia falar de incremento ou de
evolução, mas não de desenvolvimento. Quando o Estado
promove, ensina ou até impõe formas de ateísmo prático, tira
aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável
para se empenhar no desenvolvimento humano integral e
impede-os de avançarem com renovado dinamismo no próprio
compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor
divino[71].
Sucede também que os países economicamente desenvolvidos ou
os emergentes exportem para os países pobres, no âmbito das
suas relações culturais, comerciais e políticas, esta visão
redutiva da pessoa e do seu destino. É o dano que o «
superdesenvolvimento »
[72] acarreta ao desenvolvimento autêntico, quando é
acompanhado pelo « subdesenvolvimento moral »[73].
30. Nesta linha, o tema do desenvolvimento humano integral
atinge um ponto ainda mais complexo: a correlação entre os
seus vários elementos requer que nos empenhemos por fazer
interagir os diversos níveis do saber humano tendo em
vista a promoção de um verdadeiro desenvolvimento dos povos.
Muitas vezes pensa-se que o desenvolvimento ou as relativas
medidas sócio-económicas necessitam apenas de ser postos em
prática como fruto de um agir comum, ignorando que este agir
comum precisa de ser orientado, porque « toda a acção social
implica uma doutrina »[74].
Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias
disciplinas devem colaborar através de uma ordenada
interdisciplinaridade. A caridade não exclui o saber, antes
reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber
nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser
reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser
sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios
primeiros e dos seus fins últimos, deve ser « temperado »
com o « sal » da caridade. A acção é cega sem o saber, e
este é estéril sem o amor. De facto, « aquele que está
animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as
causas da miséria, encontrar os meios de a combater e
vencê-la resolutamente »[75].
Relativamente aos fenómenos que analisamos, a caridade na
verdade requer, antes de mais nada, conhecer e compreender
no respeito consciencioso da competência específica de cada
nível do saber. A caridade não é uma junção posterior, como
se fosse um apêndice ao trabalho já concluído das várias
disciplinas, mas dialoga com elas desde o início. As
exigências do amor não contradizem as da razão. O saber
humano é insuficiente e as conclusões das ciências não
poderão sozinhas indicar o caminho para o desenvolvimento
integral do homem. Sempre é preciso lançar-se mais além:
exige-o a caridade na verdade[76].
Todavia ir mais além nunca significa prescindir das
conclusões da razão, nem contradizer os seus resultados. Não
aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de
inteligência e a inteligência cheia de amor.
31. Isto significa que as ponderações morais e a pesquisa
científica devem crescer juntas e que a caridade as deve
animar num todo interdisciplinar harmónico, feito de unidade
e distinção. A doutrina social da Igreja, que tem « uma
importante dimensão interdisciplinar »[77],
pode desempenhar, nesta perspectiva, uma função de
extraordinária eficácia. Ela permite à fé, à teologia, à
metafísica e às ciências encontrarem o próprio lugar no
âmbito de uma colaboração ao serviço do homem; é sobretudo
aqui que a doutrina social da Igreja actua a sua dimensão
sapiencial. Paulo VI tinha visto claramente que, entre as
causas do subdesenvolvimento, conta-se uma carência de
sabedoria, de reflexão, de pensamento capaz de realizar uma
síntese orientadora[78],
que requer « uma visão clara de todos os aspectos económicos,
sociais, culturais e espirituais »[79].
A excessiva fragmentação do saber[80],
o isolamento das ciências humanas relativamente à metafísica[81],
as dificuldades no diálogo entre as ciências e a teologia
danificam não só o avanço do saber mas também o
desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se verifica,
fica obstaculizada a visão do bem completo do homem nas
várias dimensões que o caracterizam. É indispensável o «
alargamento do nosso conceito de razão e do uso da mesma »
[82] para se conseguir sopesar adequadamente todos os
termos da questão do desenvolvimento e da solução dos
problemas sócio-económicos.
32. As grandes novidades, que o quadro actual do
desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em muitos casos
novas soluções. Estas hão-de ser procuradas
conjuntamente no respeito das leis próprias de cada
realidade e à luz duma visão integral do homem, que espelhe
os vários aspectos da pessoa humana, contemplada com o olhar
purificado pela caridade. Descobrir-se-ão então singulares
convergências e concretas possibilidades de solução, sem
renunciar a qualquer componente fundamental da vida humana.
A dignidade da pessoa e as exigências da justiça requerem,
sobretudo hoje, que as opções económicas não façam aumentar,
de forma excessiva e moralmente inaceitável, as diferenças
de riqueza
[83] e que se continue a perseguir como prioritário o
objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua
manutenção. Bem vistas as coisas, isto é exigido também pela
« razão económica ». O aumento sistemático das desigualdades
entre grupos sociais no interior de um mesmo país e entre as
populações dos diversos países, ou seja, o aumento maciço da
pobreza em sentido relativo, tende não só a minar a coesão
social — e, por este caminho, põe em risco a democracia —,
mas tem também um impacto negativo no plano económico com a
progressiva corrosão do « capital social », isto é, daquele
conjunto de relações de confiança, de credibilidade, de
respeito das regras, indispensáveis em qualquer convivência
civil.
E é ainda a ciência económica a dizer-nos que uma situação
estrutural de insegurança gera comportamentos antiprodutivos
e de desperdício de recursos humanos, já que o trabalhador
tende a adaptar-se passivamente aos mecanismos automáticos,
em vez de dar largas à criatividade. Também neste ponto se
verifica uma convergência entre ciência económica e
ponderação moral. Os custos humanos são sempre também
custos económicos, e as disfunções económicas acarretam
sempre também custos humanos.
Há ainda que recordar que o nivelamento das culturas à
dimensão tecnológica, se a curto prazo pode favorecer a
obtenção de lucros, a longo prazo dificulta o enriquecimento
recíproco e as dinâmicas de cooperação. É importante
distinguir entre considerações económicas ou sociológicas a
curto prazo e a longo prazo. A diminuição do nível de tutela
dos direitos dos trabalhadores ou a renúncia a mecanismos de
redistribuição do rendimento, para fazer o país ganhar maior
competitividade internacional, impede a afirmação de um
desenvolvimento de longa duração. Por isso, há que avaliar
atentamente as consequências que podem ter sobre as pessoas
as tendência actuais para uma economia a curto senão mesmo
curtíssimo prazo. Isto requer uma nova e profunda
reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins[84],
bem como uma revisão profunda e clarividente do modelo de
desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfunções e
desvios. Na realidade, exige-o o estado de saúde ecológica
da terra; pede-o sobretudo a crise cultural e moral do
homem, cujos sintomas são evidentes por toda a parte.
33. Passados mais de quarenta anos da publicação da
Populorum progressio, o seu tema de fundo —
precisamente o progresso — permanece ainda um problema em
aberto, que se tornou mais agudo e premente com a crise
económico-financeira em curso. Se algumas áreas do globo,
outrora oprimidas pela pobreza, registaram mudanças notáveis
em termos de crescimento económico e de participação na
produção mundial, há outras zonas que vivem ainda numa
situação de miséria comparável à existente nos tempos de
Paulo VI; antes, em qualquer caso pode-se mesmo falar de
agravamento. É significativo que algumas causas desta
situação tivessem sido já identificadas na
Populorum progressio, como, por exemplo, as altas
tarifas aduaneiras impostas pelos países economicamente
desenvolvidos que ainda impedem aos produtos originários dos
países pobres de chegar aos mercados dos países ricos.
Entretanto, outras causas que a encíclica tinha apenas
pressentido, apareceram depois com maior evidência; é o caso
da avaliação do processo de descolonização, então em pleno
curso. Paulo VI almejava um percurso de autonomia que havia
de realizar-se na liberdade e na paz; quarenta anos depois,
temos de reconhecer como foi difícil tal percurso, tanto por
causa de novas formas de colonialismo e dependência de
antigos e novos países hegemónicos, como por graves
irresponsabilidades internas aos próprios países que se
tornaram independentes.
A novidade principal foi a explosão da interdependência
mundial, já conhecida comummente por globalização. Paulo
VI tinha-a em parte previsto, mas os termos e a
impetuosidade com que aquela evoluiu são surpreendentes.
Nascido no âmbito dos países economicamente desenvolvidos,
este processo por sua própria natureza causou um
envolvimento de todas as economias. Foi o motor principal
para a saída do subdesenvolvimento de regiões inteiras e,
por si mesmo, constitui uma grande oportunidade. Contudo,
sem a guia da caridade na verdade, este ímpeto mundial pode
concorrer para criar riscos de danos até agora desconhecidos
e de novas divisões na família humana. Por isso, a caridade
e a verdade colocam diante de nós um compromisso inédito e
criativo, sem dúvida muito vasto e complexo. Trata-se de
dilatar a razão e torná-la capaz de conhecer e orientar
estas novas e imponentes dinâmicas, animando-as na
perspectiva daquela « civilização do amor », cuja semente
Deus colocou em todo o povo e cultura.
CAPÍTULO III
FRATERNIDADE,
DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
E SOCIEDADE CIVIL
34. A caridade na verdade coloca o homem perante a
admirável experiência do dom. A gratuidade está presente na
sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam
despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e
utilarista da existência. O ser humano está feito para o
dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência.
Por vezes o homem moderno convence-se, erroneamente, de que
é o único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade.
Trata-se de uma presunção, resultante do encerramento
egoísta em si mesmo, que provém — se queremos exprimi-lo em
termos de fé — do pecado das origens. Na sua
sabedoria, a Igreja sempre propôs que se tivesse em conta o
pecado original mesmo na interpretação dos fenómenos sociais
e na construção da sociedade. « Ignorar que o homem tem uma
natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves
erros no domínio da educação, da política, da acção social e
dos costumes »[85].
No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos
perniciosos do pecado, há muito tempo que se acrescentou
também o da economia. Temos uma prova evidente disto mesmo
nos dias que correm. Primeiro, a convicção de ser
auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na
história apenas com a própria acção induziu o homem a
identificar a felicidade e a salvação com formas imanentes
de bem-estar material e de acção social. Depois, a convicção
da exigência de autonomia para a economia, que não deve
aceitar « influências » de carácter moral, impeliu o homem a
abusar dos instrumentos económicos até mesmo de forma
destrutiva. Com o passar do tempo, estas convicções levaram
a sistemas económicos, sociais e políticos que espezinharam
a liberdade da pessoa e dos corpos sociais e, por isso
mesmo, não foram capazes de assegurar a justiça que
prometiam. Deste modo, como afirmei na encíclica
Spe salvi[86],
elimina-se da história a esperança cristã, a qual, ao
invés, constitui um poderoso recurso social ao serviço do
desenvolvimento humano integral, procurado na liberdade e na
justiça. A esperança encoraja a razão e dá-lhe a força para
orientar a vontade[87].
Já está presente na fé, pela qual aliás é suscitada. Dela se
nutre a caridade na verdade e, ao mesmo tempo, manifesta-a.
Sendo dom de Deus absolutamente gratuito, irrompe na nossa
vida como algo não devido, que transcende qualquer norma de
justiça. Por sua natureza, o dom ultrapassa o mérito; a sua
regra é a excedência. Aquele precede-nos, na nossa própria
alma, como sinal da presença de Deus em nós e das suas
expectativas a nosso respeito. A verdade, que é dom tal como
a caridade, é maior do que nós, conforme ensina Santo
Agostinho[88].
Também a verdade acerca de nós mesmos, da nossa consciência
pessoal é-nos primariamente « dada »; com efeito, em
qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida
por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal
como o amor, ela « não nasce da inteligência e da vontade,
mas de certa forma impõe-se ao ser humano »[89].
Enquanto dom recebido por todos, a caridade na verdade é uma
força que constitui a comunidade, unifica os homens segundo
modalidades que não conhecem barreiras nem confins. A
comunidade dos homens pode ser constituída por nós mesmos;
mas, com as nossas simples forças, nunca poderá ser uma
comunidade plenamente fraterna nem alargada para além de
qualquer fronteira, ou seja, não poderá tornar-se uma
comunidade verdadeiramente universal: a unidade do género
humano, uma comunhão fraterna para além de qualquer divisão,
nasce da convocação da palavra de Deus-Amor. Ao enfrentar
esta questão decisiva, devemos especificar, por um lado, que
a lógica do dom não exclui a justiça nem se justapõe a ela
num segundo tempo e de fora; e, por outro, que o
desenvolvimento económico, social e político precisa, se
quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao
princípio da gratuidade como expressão de fraternidade.
35. O mercado, se houver confiança recíproca e
generalizada, é a instituição económica que permite o
encontro entre as pessoas, na sua dimensão de operadores
económicos que usam o contrato como regra das suas relações
e que trocam bens e serviços entre si fungíveis, para
satisfazer as suas carências e desejos. O mercado está
sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa,
que regula precisamente as relações do dar e receber entre
sujeitos iguais. Mas a doutrina social nunca deixou de pôr
em evidência a importância que tem a justiça distributiva
e a justiça social para a própria economia de
mercado, não só porque integrada nas malhas de um contexto
social e político mais vasto, mas também pela teia das
relações em que se realiza. De facto, deixado unicamente ao
princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o
mercado não consegue gerar a coesão social de que necessita
para bem funcionar. Sem formas internas de solidariedade
e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir
plenamente a própria função económica. E, hoje, foi
precisamente esta confiança que veio a faltar; e a perda da
confiança é uma perda grave.
Na
Populorum progressio, Paulo VI sublinhava
oportunamente o facto de que seria o próprio sistema
económico a tirar vantagem da prática generalizada da
justiça, uma vez que os primeiros a beneficiar do
desenvolvimento dos países pobres teriam sido os países
ricos[90].
Não se tratava apenas de corrigir disfunções, através da
assistência. Os pobres não devem ser considerados um « fardo
»[91]
mas um recurso, mesmo do ponto de vista estritamente
económico. Há que considerar errada a visão de quantos
pensam que a economia de mercado tenha estruturalmente
necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento
para poder funcionar do melhor modo. O mercado tem interesse
em promover emancipação, mas, para o fazer verdadeiramente,
não pode contar apenas consigo mesmo, porque não é capaz de
produzir por si aquilo que está para além das suas
possibilidades; tem de haurir energias morais de outros
sujeitos, que sejam capazes de as gerar.
36. A actividade económica não pode resolver todos os
problemas sociais através da simples extensão da lógica
mercantil. Esta há-de ter como finalidade a
prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também
e sobretudo a comunidade política. Por isso, tenha-se
presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir
económico — ao qual competiria apenas produzir riqueza — do
agir político, cuja função seria buscar a justiça através da
redistribuição.
Desde sempre a Igreja defende que não se há-de considerar o
agir económico como anti-social. De per si o mercado não é,
nem se deve tornar, o lugar da prepotência do forte sobre o
débil. A sociedade não tem que se proteger do mercado, como
se o desenvolvimento deste implicasse ipso facto a
morte das relações autenticamente humanas. É verdade que o
mercado pode ser orientado de modo negativo, não porque isso
esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode
dirigi-lo em tal sentido. Não se deve esquecer que o
mercado, em estado puro, não existe; mas toma forma a partir
das configurações culturais que o especificam e orientam.
Com efeito, a economia e as finanças, enquanto instrumentos,
podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas
referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir
transformar instrumentos de per si bons em instrumentos
danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas
consequências, não o instrumento por si mesmo. Por isso, não
é o instrumento que deve ser chamado em causa, mas o homem,
a sua consciência moral e a sua responsabilidade pessoal e
social.
A doutrina social da Igreja considera possível viver
relações autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de
solidariedade e reciprocidade, mesmo no âmbito da actividade
económica e não apenas fora dela ou « depois » dela. A área
económica não é nem eticamente neutra nem de natureza
desumana e anti-social. Pertence à actividade do homem; e,
precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada
e institucionalizada.
O grande desafio que temos diante de nós — resultante das
problemáticas do desenvolvimento neste tempo de
globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a
crise económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de
pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser
transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da
ética social, como a transparência, a honestidade e a
responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais,
o princípio de gratuidade e a lógica do dom como
expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar
dentro da actividade económica normal. Isto é uma
exigência do homem no tempo actual, mas também da própria
razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente
da caridade e da verdade.
37. A doutrina social da Igreja sempre defendeu que a
justiça diz respeito a todas as fases da actividade
económica, porque esta sempre tem a ver com o homem e
com as suas exigências. A angariação dos recursos, os
financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras
fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações
morais. Deste modo cada decisão económica tem
consequências de carácter moral. Tudo isto encontra
confirmação também nas ciências sociais e nas tendências da
economia actual. Outrora talvez se pudesse pensar, primeiro,
em confiar à economia a produção de riqueza para, depois,
atribuir à política a tarefa de a distribuir; hoje tudo isto
se apresenta mais difícil, porque, enquanto as actividades
económicas deixaram de estar circunscritas no âmbito dos
limites territoriais, a autoridade dos governos continua a
ser sobretudo local. Por isso, os cânones da justiça devem
ser respeitados desde o início enquanto se desenrola o
processo económico, e não depois ou marginalmente. Além
disso, é preciso que, no mercado, se abram espaços para
actividades económicas realizadas por sujeitos que
livremente escolhem configurar o próprio agir segundo
princípios diversos do puro lucro, sem por isso renunciar a
produzir valor económico. As numerosas expressões de
economia que tiveram origem em iniciativas religiosas e
laicas demonstram que isto é concretamente possível.
Na época da globalização, a economia denota a influência de
modelos competitivos ligados a culturas muito diversas entre
si. Os comportamentos económico-empresariais daí resultantes
possuem, na sua maioria, um ponto de encontro no respeito da
justiça comutativa. A vida económica tem, sem dúvida,
necessidade do contrato, para regular as relações de
transacção entre valores equivalentes; mas precisa
igualmente de leis justas e de formas de
redistribuição guiadas pela política, para além de obras
que tragam impresso o espírito do dom. A economia
globalizada parece privilegiar a primeira lógica, ou seja, a
da transacção contratual, mas directa ou indirectamente dá
provas de necessitar também das outras duas: a lógica
política e a lógica do dom sem contrapartidas.
38. O meu antecessor João Paulo II sublinhara esta
problemática, quando, na
Centesimus annus, destacou a necessidade de um
sistema com três sujeitos: o mercado, o Estado
e a sociedade civil[92].
Ele tinha identificado na sociedade civil o âmbito mais
apropriado para uma economia da gratuidade e da
fraternidade, mas sem pretender negá-la nos outros dois
âmbitos. Hoje, podemos dizer que a vida económica deve ser
entendida como uma realidade com várias dimensões: em todas
deve estar presente, embora em medida diversa e com
modalidades específicas, o aspecto da reciprocidade
fraterna. Na época da globalização, a actividade económica
não pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a
solidariedade e a responsabilidade pela justiça e o bem
comum em seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em
última análise, de uma forma concreta e profunda de
democracia económica. A solidariedade consiste primariamente
em que todos se sintam responsáveis por todos[93]
e, por conseguinte, não pode ser delegada só no Estado. Se,
no passado, era possível pensar que havia necessidade
primeiro de procurar a justiça e que a gratuidade intervinha
depois como um complemento, hoje é preciso afirmar que, sem
a gratuidade, não se consegue sequer realizar a justiça.
Assim, temos necessidade de um mercado, no qual possam
operar, livremente e em condições de igual oportunidade,
empresas que persigam fins institucionais diversos. Ao lado
da empresa privada orientada para o lucro e dos vários tipos
de empresa pública, devem poder-se radicar e exprimir as
organizações produtivas que perseguem fins mutualistas e
sociais. Do seu recíproco confronto no mercado, pode-se
esperar uma espécie de hibridização dos comportamentos de
empresa e, consequentemente, uma atenção sensível à
civilização da economia. Neste caso, caridade na verdade
significa que é preciso dar forma e organização àquelas
iniciativas económicas que, embora sem negar o lucro,
pretendam ir mais além da lógica da troca de equivalentes e
do lucro como fim em si mesmo.
39. Na
Populorum progressio, Paulo VI pedia que se
configurasse um modelo de economia de mercado capaz de
incluir, pelo menos intencionalmente, todos os povos e não
apenas aqueles adequadamente habilitados. Solicitava que
nos empenhássemos na promoção de um mundo mais humano para
todos, um mundo no qual « todos tenham qualquer coisa a dar
e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao
desenvolvimento dos outros »[94].
Estendia assim ao plano universal as mesmas instâncias e
aspirações contidas na Rerum novarum, escrita quando
pela primeira vez, em consequência da revolução industrial,
se afirmou a ideia — seguramente avançada para aquele tempo
— de que a ordem civil, para subsistir, tinha necessidade
também da intervenção distributiva do Estado. Hoje esta
visão, além de ser posta em crise pelos processos de
abertura dos mercados e das sociedades, revela-se incompleta
para satisfazer as exigências duma economia plenamente
humana. Aquilo que a doutrina social da Igreja, partindo da
sua visão do homem e da sociedade, sempre defendeu, é hoje
requerido também pelas dinâmicas características da
globalização.
Quando a lógica do mercado e a do Estado se põem de acordo
entre si para continuar no monopólio dos respectivos âmbitos
de influência, com o passar do tempo definha a solidariedade
nas relações entre os cidadãos, a participação e a adesão, o
serviço gratuito, que são realidades diversas do « dar para
ter », próprio da lógica da transacção, e do « dar por dever
», próprio da lógica dos comportamentos públicos impostos
por lei do Estado. A vitória sobre o subdesenvolvimento
exige que se actue não só sobre a melhoria das transacções
fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as
transferências das estruturas assistenciais de natureza
pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em
contexto mundial, para formas de actividade económica
caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão. O
binómio exclusivo mercado-Estado corrói a sociabilidade,
enquanto as formas económicas solidárias, que encontram o
seu melhor terreno na sociedade civil sem contudo se reduzir
a ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade não
existe, tal como não se podem estabelecer por lei
comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a
política precisam de pessoas abertas ao dom recíproco.
40. As actuais dinâmicas económicas internacionais,
caracterizadas por graves desvios e disfunções, requerem
profundas mudanças inclusivamente no modo de conceber a
empresa. Antigas modalidades da vida empresarial
declinam, mas outras prometedoras se esboçam no horizonte.
Um dos riscos maiores é, sem dúvida, que a empresa preste
contas quase exclusivamente a quem nela investe, acabando
assim por reduzir a sua valência social. Devido ao seu
crescimento de dimensão e à necessidade de capitais sempre
maiores, são cada vez menos as empresas que fazem
referimento a um empresário estável que se sinta responsável
não apenas a curto mas a longo prazo da vida e dos
resultados da sua empresa, tal como diminui o número das que
dependem de um único território. Além disso, a chamada
deslocalização da actividade produtiva pode atenuar no
empresário o sentido da responsabilidade para com os
interessados, como os trabalhadores, os fornecedores, os
consumidores, o ambiente natural e a sociedade circundante
mais ampla, em benefício dos accionistas, que não estão
ligados a um espaço específico, gozando por isso duma
extraordinária mobilidade; de facto, o mercado internacional
dos capitais oferece hoje uma grande liberdade de acção. Mas
é verdade também que está a aumentar a consciência sobre a
necessidade de uma mais ampla « responsabilidade social » da
empresa. Apesar de os parâmetros éticos que guiam
actualmente o debate sobre a responsabilidade social da
empresa não serem, segundo a perspectiva da doutrina social
da Igreja, todos aceitáveis, é um facto que se vai
difundindo cada vez mais a convicção de que a gestão da
empresa não pode ter em conta unicamente os interesses dos
proprietários da mesma, mas deve preocupar-se também com as
outras diversas categorias de sujeitos que contribuem para a
vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, os
fornecedores dos vários factores de produção, a comunidade
de referimento. Nos últimos anos, notou-se o crescimento
duma classe cosmopolita de gerentes, que muitas vezes
respondem só às indicações dos accionistas da empresa
constituídos geralmente por fundos anónimos que estabelecem
de facto as suas remunerações. Todavia, hoje, há também
muitos gerentes que, através de análises clarividentes, se
dão conta cada vez mais dos profundos laços que a sua
empresa tem com o território ou territórios, onde opera.
Paulo VI convidava a avaliar seriamente o dano que a
transferência de capitais para o estrangeiro, com exclusivas
vantagens pessoais, pode causar à própria nação[95].
E João Paulo II advertia que investir tem sempre um
significado moral, para além de económico[96].
Tudo isto — há que reafirmá-lo — é válido também hoje, não
obstante o mercado dos capitais tenha sido muito
liberalizado e as mentalidades tecnológicas modernas possam
induzir a pensar que investir seja apenas um facto técnico,
e não humano e ético. Não há motivo para negar que um certo
capital possa ser ocasião de bem, se investido no
estrangeiro antes que na pátria; mas devem-se ressalvar os
vínculos de justiça, tendo em conta também o modo como
aquele capital se formou e os danos que causará às pessoas o
seu não investimento nos lugares onde o mesmo foi gerado[97].
É preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos
financeiros seja especulativo, cedendo à tentação de
procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar igualmente
da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu serviço
concreto à economia real e duma adequada e oportuna promoção
de iniciativas económicas também nos países necessitados de
desenvolvimento. Também não há motivo para negar que a
deslocalização, quando compreende investimentos e formação,
possa fazer bem às populações do país que a acolhe — o
trabalho e o conhecimento técnico são uma necessidade
universal –; mas não é lícito deslocalizar somente para
gozar de especiais condições de favor ou, pior ainda, para
exploração, sem prestar uma verdadeira contribuição à
sociedade local para o nascimento de um robusto sistema
produtivo e social, factor imprescindível para um
desenvolvimento estável.
41. Dentro do mesmo tema, é útil observar que o espírito
empresarial tem, e deve assumir cada vez mais, um
significado polivalente. A longa prevalência do binómio
mercado-Estado habituou-nos a pensar exclusivamente, por um
lado, no empresário privado de tipo capitalista e, por
outro, no director estatal. Na realidade, o espírito
empresarial há-de ser entendido de modo articulado, como se
depreende duma série de motivações meta-económicas. O
espírito empresarial, antes de ter significado profissional,
possui um significado humano[98];
está inscrito em cada trabalho, visto como « actus
personæ »[99],
pelo que é bom oferecer a cada trabalhador a possibilidade
de prestar a própria contribuição, de tal modo que ele mesmo
« saiba trabalhar ‘‘por conta própria'' »[100].
Ensinava Paulo VI, não sem motivo, que « todo o trabalhador
é um criador »[101].
Precisamente para dar resposta às exigências e à dignidade
de quem trabalha e às necessidades da sociedade é que
existem vários tipos de empresa, muito para além da simples
distinção entre « privado » e « público ». Cada uma requer e
exprime um espírito empresarial específico. A fim de
realizar uma economia que, num futuro próximo, saiba
colocar-se ao serviço do bem comum nacional e mundial,
convém ter em conta este significado amplo de espírito
empresarial. Tal concepção mais ampla favorece o intercâmbio
e a formação recíproca entre as diversas tipologias de
empresariado, com transferência de competências do mundo sem
lucro para aquele com lucro e vice-versa, do sector público
para o âmbito próprio da sociedade civil, do mundo das
economias avançadas para aquele dos países em vias de
desenvolvimento.
Também a « autoridade política » tem um
significado polivalente, que não se pode esquecer quando
se procede à realização duma nova ordem económico-produtiva,
responsável socialmente e à medida do homem. Assim como se
pretende fomentar um espírito empresarial diferenciado no
plano mundial, assim também se deve promover uma autoridade
política repartida e activa a vários níveis. A economia
integrada de nossos dias não elimina a função dos Estados,
antes obriga os governos a uma colaboração recíproca mais
intensa. Razões de sabedoria e prudência sugerem que não se
proclame depressa demais o fim do Estado; relativamente à
solução da crise actual, a sua função parece destinada a
crescer, readquirindo muitas das suas competências. Além
disso, existem nações, cuja edificação ou reconstrução do
Estado continua a ser um elemento-chave do seu
desenvolvimento. A ajuda internacional, precisamente
no âmbito de um projecto de solidariedade que tivesse em
vista a solução dos problemas económicos actuais, deveria
sobretudo apoiar a consolidação de sistemas constitucionais,
jurídicos, administrativos nos países que ainda não gozam de
tais bens. A par das ajudas económicas, devem existir outros
apoios tendentes a reforçar as garantias próprias do
Estado de direito, um sistema de ordem pública e
carcerário eficiente no respeito dos direitos humanos,
instituições verdadeiramente democráticas. Não é preciso que
o Estado tenha, em todo o lado, as mesmas características: o
apoio para reforço dos sistemas constitucionais débeis pode
muito bem ser acompanhado pelo desenvolvimento de outros
sujeitos políticos de natureza cultural, social, territorial
ou religiosa, ao lado do Estado. A articulação da autoridade
política a nível local, nacional e internacional é, para
além do mais, uma das vias mestras para se chegar a poder
orientar a globalização económica; e é também o modo de
evitar que esta mine realmente os alicerces da democracia.
42. Notam-se às vezes atitudes fatalistas a respeito da
globalização, como se as dinâmicas em acto fossem
produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas
independentes da vontade humana[102].
A tal propósito, é bom recordar que a globalização há-de ser
entendida, sem dúvida, como um processo sócio-económico, mas
esta sua dimensão não é a única. Sob o processo mais
visível, há a realidade duma humanidade que se torna cada
vez mais interligada; tal realidade é constituída por
pessoas e povos, para quem o referido processo deve ser de
utilidade e desenvolvimento[103],
graças à assunção das respectivas responsabilidades por
parte tanto dos indivíduos como da colectividade. A
superação das fronteiras é um dado não apenas material mas
também cultural nas suas causas e efeitos. Se a globalização
for lida de maneira determinista, perdem-se os critérios
para a avaliar e orientar. Trata-se de uma realidade humana
que pode ter, na sua fonte, várias orientações culturais,
sobre as quais é preciso fazer discernimento. A verdade da
globalização enquanto processo e o seu critério ético
fundamental provêm da unidade da família humana e do seu
desenvolvimento no bem. Por isso é preciso empenhar-se sem
cessar por favorecer uma orientação cultural personalista
e comunitária, aberta à transcendência, do processo de
integração mundial.
Não obstante algumas limitações estruturais, que não se
hão-de negar nem absolutizar, « a globalização a priori
não é boa nem má. Será aquilo que as pessoas fizerem dela »[104].
Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas, actuando
com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade.
Opor-se-lhe cegamente seria uma atitude errada, fruto de
preconceito, que acabaria por ignorar um processo marcado
também por aspectos positivos, com o risco de perder uma
grande ocasião de se inserir nas múltiplas oportunidades de
desenvolvimento por ele oferecidas. Adequadamente concebidos
e geridos, os processos de globalização oferecem a
possibilidade duma grande redistribuição da riqueza a nível
mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos,
podem, pelo contrário, fazer crescer pobreza e desigualdade,
bem como contagiar com uma crise o mundo inteiro. É preciso
corrigir as suas disfunções, tantas vezes graves, que
introduzem novas divisões entre os povos e no interior dos
mesmos, e fazer com que a redistribuição da riqueza não se
verifique à custa de uma redistribuição da pobreza ou até
com o seu agravamento, como uma má gestão da situação actual
poderia fazer-nos temer. Durante muito tempo, pensou-se que
os povos pobres deveriam permanecer ancorados a um estádio
predeterminado de desenvolvimento, contentando-se com a
filantropia dos povos desenvolvidos. Contra esta
mentalidade, tomou posição Paulo VI na
Populorum progressio. Hoje, as forças materiais de
que se pode dispor para fazer aqueles povos sair da miséria
são potencialmente maiores do que outrora, mas acabaram por
se aproveitar delas prevalentemente os povos dos países
desenvolvidos, que conseguiram desfrutar melhor o processo
de liberalização dos movimentos de capitais e do trabalho.
Por isso a difusão dos ambientes de bem-estar a nível
mundial não deve ser refreada por projectos egoístas,
proteccionistas ou ditados por interesses particulares. De
facto, hoje, o envolvimento dos países emergentes ou em vias
de desenvolvimento permite gerir melhor a crise. A transição
inerente ao processo de globalização apresenta grandes
dificuldades e perigos, que poderão ser superados apenas se
se souber tomar consciência daquela alma antropológica e
ética que, do mais fundo, impele a própria globalização para
metas de humanização solidária. Infelizmente esta alma é
muitas vezes abafada e condicionada por perspectivas
ético-culturais de impostação individualista e utilitarista.
A globalização é um fenómeno pluridimensional e polivalente,
que exige ser compreendido na diversidade e unidade de todas
as suas dimensões, incluindo a teológica. Isto permitirá
viver e orientar a globalização da humanidade em termos
de relacionamento, comunhão e partilha.
CAPÍTULO IV
DESENVOLVIMENTO DOS POVOS,
DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE
43. « A solidariedade universal é para nós não só um facto e
um benefício, mas também um dever »[105].
Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de que
não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas.
Considerando-se titulares só de direitos, frequentemente
deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma
responsabilidade no âmbito do desenvolvimento integral
próprio e alheio. Por isso, é importante invocar uma nova
reflexão que faça ver como os direitos pressupõem
deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em
arbítrio[106].
Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um
lado, se reivindicam presuntos direitos, de carácter
arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e
promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem
direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa
parte da humanidade[107].
Aparece com frequência assinalada uma relação entre a
reivindicação do direito ao supérfluo, senão mesmo à
transgressão e ao vício, nas sociedades opulentes e a falta
de alimento, água potável, instrução básica, cuidados
sanitários elementares em certas regiões do mundo do
subdesenvolvimento e também nas periferias de grandes
metrópoles. A relação está no facto de que os direitos
individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes
confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma
espiral de exigências praticamente ilimitada e sem
critérios. A exasperação dos direitos desemboca no
esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque
remetem para o quadro antropológico e ético cuja verdade é o
âmbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, não
descambam no arbítrio. Por este motivo, os deveres reforçam
os direitos e propõem a sua defesa e promoção como um
compromisso a assumir ao serviço do bem. Se, pelo contrário,
os direitos do homem encontram o seu fundamento apenas nas
deliberações duma assembleia de cidadãos, podem ser
alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os
respeitar e promover atenua-se na consciência comum. Então
os governos e os organismos internacionais podem esquecer a
objectividade e « indisponibilidade » dos direitos. Quando
isto acontece, põe-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento
dos povos[108].
Semelhantes posições comprometem a autoridade dos organismos
internacionais, sobretudo aos olhos dos países mais
carecidos de desenvolvimento. De facto, estes pedem que a
comunidade internacional assuma como um dever ajudá-los a
serem « artífices do seu destino »[109],
ou seja, a assumirem por sua vez deveres. A partilha dos
deveres recíprocos mobiliza muito mais do que a mera
reivindicação de direitos.
44. A concepção dos direitos e dos deveres no
desenvolvimento deve ter em conta também as problemáticas
ligadas com o crescimento demográfico. Trata-se de um
aspecto muito importante do verdadeiro desenvolvimento,
porque diz respeito aos valores irrenunciáveis da vida e da
família[110].
Considerar o aumento da população como a primeira causa do
subdesenvolvimento é errado, inclusive do ponto de vista
económico: basta pensar, por um lado, na considerável
diminuição da mortalidade infantil e no alongamento médio da
vida que se regista nos países economicamente desenvolvidos,
e, por outro, nos sinais de crise que se observam nas
sociedades onde se regista uma preocupante queda da
natalidade. Obviamente é forçoso prestar a devida atenção a
uma procriação responsável, que constitui, para além do
mais, uma real contribuição para o desenvolvimento integral.
A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do
homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos também
no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser reduzido a um
mero facto hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação
sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo como
única preocupação defender os interessados de eventuais
contágios ou do « risco » procriador. Isto equivaleria a
empobrecer e negligenciar o significado profundo da
sexualidade, que deve, pelo contrário, ser reconhecido e
assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pela
comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se
considere a sexualidade como uma simples fonte de prazer ou
que seja regulada com políticas de planificação forçada dos
nascimentos. Em ambos os casos, estamos perante concepções e
políticas materialistas, no âmbito das quais as pessoas
acabam por sofrer várias formas de violência. A tudo isto há
que contrapor a competência primária das famílias neste
campo[111],
relativamente ao Estado e às suas políticas restritivas, e
também uma apropriada educação dos pais.
A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza
social e económica.
Grandes nações puderam sair da miséria, justamente graças ao
grande número e às capacidades dos seus habitantes. Pelo
contrário, nações outrora prósperas atravessam agora uma
fase de incerteza e, em alguns casos, de declínio
precisamente por causa da diminuição da natalidade, problema
crucial para as sociedades de proeminente bem-estar. A
diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do
chamado « índice de substituição », põe em crise também os
sistemas de assistência social, aumenta os seus custos,
contrai a acumulação de poupanças e, consequentemente, os
recursos financeiros necessários para os investimentos,
reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados,
restringe a reserva aonde ir buscar os « cérebros » para as
necessidades da nação. Além disso, as famílias de pequena e,
às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer
as relações sociais e de não garantir formas eficazes de
solidariedade. São situações que apresentam sintomas de
escassa confiança no futuro e de cansaço moral. Deste modo,
torna-se uma necessidade social, e mesmo económica,
continuar a propor às novas gerações a beleza da família e
do matrimónio, a correspondência de tais instituições às
exigências mais profundas do coração e da dignidade da
pessoa. Nesta perspectiva, os Estados são chamados a
instaurar políticas que promovam a centralidade e a
integridade da família, fundada no matrimónio entre um
homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade[112],
preocupando-se também com os seus problemas económicos e
fiscais, no respeito da sua natureza relacional.
45. Dar resposta às exigências morais mais profundas da
pessoa tem também importantes e benéficas consequências no
plano económico. De facto, a economia tem necessidade da
ética para o seu correcto funcionamento; não de uma
ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa. Hoje
fala-se muito de ética em campo económico, financeiro,
empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos
de negócios éticos; difunde-se no mundo desenvolvido o
sistema das certificações éticas, na esteira do movimento de
ideias nascido à volta da responsabilidade social da
empresa. Os bancos propõem contas e fundos de investimento
chamados « éticos ». Desenvolvem-se as « finanças éticas »,
sobretudo através do micro-crédito e, mais em geral, de
micro-financiamentos. Tais processos suscitam apreço e
merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se
sentir também nas áreas menos desenvolvidas da terra.
Todavia, é bom formar também um válido critério de
discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo «
ético », o qual, se usado vagamente, presta-se a designar
conteúdos muito diversos, chegando-se a fazer passar à sua
sombra decisões e opções contrárias à justiça e ao
verdadeiro bem do homem.
Com efeito, muito depende do sistema moral em que se baseia.
Sobre este argumento, a doutrina social da Igreja tem um
contributo próprio e específico para dar, que se funda na
criação do homem « à imagem de Deus » (Gn 1, 27), um
dado do qual deriva a dignidade inviolável da pessoa humana
e também o valor transcendente das normas morais naturais.
Uma ética económica que prescinda destes dois pilares
arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico e
a prestar-se a instrumentalizações; mais concretamente,
arrisca-se a aparecer em função dos sistemas
económico-financeiros existentes, em vez de servir de
correcção às disfunções dos mesmos. Além do mais, acabaria
até por justificar o financiamento de projectos que não são
éticos. Por outro lado, não se deve recorrer ao termo «
ético » de modo ideologicamente discriminatório, dando a
perceber que não seriam éticas as iniciativas não dotadas
formalmente de tal qualificação. Um dado é essencial: a
necessidade de trabalhar não só para que nasçam sectores ou
segmentos « éticos » da economia ou das finanças, mas também
para que toda a economia e as finanças sejam éticas: e não
por uma rotulação exterior, mas pelo respeito de exigências
intrínsecas à sua própria natureza. A tal respeito, se
pronuncia com clareza a doutrina social da Igreja, que
recorda como a economia, em todas as suas extensões, seja um
sector da actividade humana[113].
46. Considerando as temáticas referentes à relação entre
empresa e ética e também a evolução que o sistema
produtivo está a fazer, parece que a distinção usada até
agora entre empresas que têm por finalidade o lucro (profit)
e organizações que não buscam o lucro (non profit) já
não é capaz de dar cabalmente conta da realidade, nem de
orientar eficazmente o futuro. Nestas últimas décadas, foi
surgindo entre as duas tipologias de empresa uma ampla área
intermédia. Esta é constituída por empresas tradicionais mas
que subscrevem pactos de ajuda aos países atrasados, por
fundações que são expressão de empresas individuais, por
grupos de empresas que se propõem objectivos de utilidade
social, pelo mundo diversificado dos sujeitos da chamada
economia civil e de comunhão. Não se trata apenas de um «
terceiro sector », mas de uma nova e ampla realidade
complexa, que envolve o privado e o público e que não exclui
o lucro mas considera-o como instrumento para realizar
finalidades humanas e sociais. O facto de tais empresas
distribuírem ou não os ganhos ou de assumirem uma ou outra
das configurações previstas pelas normas jurídicas torna-se
secundário relativamente à sua disponibilidade a conceber o
lucro como um instrumento para alcançar finalidades de
humanização do mercado e da sociedade. É desejável que estas
novas formas de empresa também encontrem, em todos os
países, adequada configuração jurídica e fiscal. Sem nada
tirar à importância e utilidade económica e social das
formas tradicionais de empresa, fazem evoluir o sistema para
uma assunção mais clara e perfeita dos deveres por parte dos
sujeitos económicos. E não só... A própria pluralidade
das formas institucionais de empresa gera um mercado mais
humano e simultaneamente mais competitivo.
47. O fortalecimento das diversas tipologias de empresa,
mormente das que são capazes de conceber o lucro como um
instrumento para alcançar finalidades de humanização do
mercado e das sociedades, deve ser procurado também nos
países que sofrem exclusão ou marginalização dos circuitos
da economia global, onde é muito importante avançar com
projectos de subsidiariedade devidamente concebida e gerida
que tendam a potenciar os direitos, mas prevendo sempre
também a assunção das correlativas responsabilidades. Nas
intervenções em prol do desenvolvimento, há que
salvaguardar o princípio da centralidade da pessoa humana,
que é o sujeito que primariamente deve assumir o dever do
desenvolvimento. A preocupação principal é a melhoria das
situações de vida das pessoas concretas duma certa região,
para que possam desempenhar aqueles deveres que actualmente
a indigência não lhes permite respeitar. A solicitude nunca
pode ser uma atitude abstracta. Para poderem adaptar-se às
diversas situações, os programas de desenvolvimento devem
ser flexíveis; e as pessoas beneficiárias deveriam estar
envolvidas directamente na sua delineação e tornar-se
protagonistas da sua actuação. É necessário também aplicar
os critérios da progressão e do acompanhamento — incluindo a
monitorização dos resultados — porque não há receitas
válidas universalmente; depende muito da gestão concreta das
intervenções. « São os povos os autores e primeiros
responsáveis do próprio desenvolvimento. Mas não o poderão
realizar isolados »[114].
Esta advertência de Paulo VI é ainda mais válida hoje, com o
processo de progressiva integração que se vai consolidando
na terra. As dinâmicas de inclusão não têm nada de mecânico.
As soluções hão-de ser calibradas olhando a vida dos povos e
das pessoas concretas com base numa ponderada avaliação de
cada situação. Ao lado dos macro-projectos servem os
micro-projectos, e sobretudo serve a mobilização real de
todos os sujeitos da sociedade civil, das pessoas tanto
jurídicas como físicas.
A cooperação internacional precisa de pessoas que
partilhem o processo de desenvolvimento económico e humano,
através da solidariedade feita de presença, acompanhamento,
formação e respeito. Sob este ponto de vista, os próprios
organismos internacionais deveriam interrogar-se sob a real
eficácia dos seus aparatos burocráticos e administrativos,
frequentemente muito dispendiosos. Às vezes sucede que o
destinatário das ajudas seja utilizado em função de quem o
ajuda e que os pobres sirvam para manter de pé dispendiosas
organizações burocráticas que reservam para sua própria
conservação percentagens demasiado elevadas dos recursos
que, ao invés, deveriam ser aplicados no desenvolvimento.
Nesta perspectiva, seria desejável que todos os organismos
internacionais e as organizações não governamentais se
comprometessem a uma plena transparência, informando os
doadores e a opinião pública acerca da percentagem de fundos
recebidos destinada aos programas de cooperação, acerca do
verdadeiro conteúdo de tais programas e, por último, acerca
da configuração das despesas da própria instituição.
48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente
associado também com os deveres que nascem do
relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi
dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma
responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações
futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar
pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do
determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade
debilita-se nas consciências. Na natureza, o crente
reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de
Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para
satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e
imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da
própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba ou
por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao
contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas
atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da
criação de Deus.
A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade.
Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de
vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu
amor pela humanidade. Está destinada, no fim dos tempos, a
ser « instaurada » em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col
1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma « vocação »[115].
A natureza está à nossa disposição, não como « um monte de
lixo espalhado ao acaso »[116],
mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos
intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidas
orientações para a « guardar e cultivar » (Gn 2, 15).
Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro
desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que
a própria pessoa humana. Esta posição induz a comportamentos
neo-pagãos ou a um novo panteísmo: só da natureza, entendida
em sentido puramente naturalista, não pode derivar a
salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar
também a posição oposta, que visa a sua completa
tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria
de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admirável do
Criador, contendo nela uma « gramática » que indica
finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não
instrumental nem arbitrária. Advêm, hoje, muitos danos ao
desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas.
Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples
dados reais acaba por ser fonte de violência contra o
ambiente e até por motivar acções desrespeitadoras da
própria natureza do homem. Esta, constituída não só de
matéria mas também de espírito e, como tal, rica de
significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um
carácter normativo também para a cultura. O homem interpreta
e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por
sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável,
atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projectos para
um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os
vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a
justiça entre as gerações, tendo em conta os diversos
âmbitos: ecológico, jurídico, económico, político, cultural[117].
49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a
preservação do ambiente devem ter na devida consideração as
problemáticas energéticas. De facto, o açambarcamento
dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns
Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave
impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes
não têm os meios económicos para chegar às fontes
energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a
pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopolização dos
recursos naturais, que em muitos casos se encontram
precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes
conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas
vezes estes conflitos são travados precisamente no
território de tais países, com um pesado balanço em termos
de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade
internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias
institucionais para regular a exploração dos recursos não
renováveis, com a participação também dos países pobres, de
modo a planificar em conjunto o futuro.
Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral
de uma renovada solidariedade, especialmente nas
relações entre os países em vias de desenvolvimento e os
países altamente industrializados[118].
As sociedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir
o consumo energético seja porque as actividades
manufactureiras evoluem, seja porque entre os seus cidadãos
reina maior sensibilidade ecológica. Além disso há que
acrescentar que, actualmente, é possível melhorar a
eficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energias
alternativas; mas é necessária também uma redistribuição
mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios
países desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu
destino não pode ser deixado nas mãos do primeiro a chegar
nem estar sujeito à lógica do mais forte. Trata-se de
problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo
adequado, requerem da parte de todos uma responsável tomada
de consciência das consequências que recairão sobre as novas
gerações, principalmente sobre a imensidade de jovens
presentes nos povos pobres, que « reclamam a sua parte
activa na construção de um mundo melhor »[119].
50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito
somente à energia, mas a toda a criação, que não devemos
deixar às novas gerações depauperada dos seus recursos. É
lícito ao homem exercer um governo responsável sobre a
natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar
inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para que
possa acolher e alimentar condignamente a população que a
habita. Há espaço para todos nesta nossa terra: aqui a
família humana inteira deve encontrar os recursos
necessários para viver decorosamente, com a ajuda da própria
natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do
seu próprio trabalho e inventiva. Devemos, porém, sentir
como gravíssimo o dever de entregar a terra às novas
gerações num estado tal que também elas possam dignamente
habitá-la e continuar a cultivá-la. Isto implica « o empenho
de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente
qual a estrada a percorrer, com o objectivo de reforçar
aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve
ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para
Quem estamos a caminho »[120].
É desejável que a comunidade internacional e os diversos
governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as
modalidades de utilização do ambiente que sejam danosas para
o mesmo. É igualmente forçoso que se empreendam, por parte
das autoridades competentes, todos os esforços necessários
para que os custos económicos e sociais derivados do uso dos
recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira
transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui
e não por outras populações nem pelas gerações futuras: a
protecção do ambiente, dos recursos e do clima requer que
todos os responsáveis internacionais actuem conjuntamente e
se demonstrem prontos a agir de boa fé, no respeito da lei e
da solidariedade para com as regiões mais débeis da terra[121].
Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso
mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre
presente que a noção de eficiência não é axiologicamente
neutra.
51. As modalidades com que o homem trata o ambiente
influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e
vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma séria
revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do
mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos
danos que daí derivam[122].
É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza
a adoptar novos estilos de vida, « nos quais a busca
do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros
homens para um crescimento comum sejam os elementos que
determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos
investimentos »[123].
Toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca
danos ambientais, assim como a degradação ambiental por sua
vez gera insatisfação nas relações sociais. A natureza,
especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas
dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma
variável independente. A desertificação e a penúria
produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do
empobrecimento das populações que as habitam e do seu
atraso. Incentivando o desenvolvimento económico e cultural
daquelas populações, tutela-se também a natureza. Além
disso, quantos recursos naturais são devastados pela guerra!
A paz dos povos e entre os povos permitiria também uma maior
preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos,
especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre
as populações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos
recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o
bem-estar das sociedades interessadas.
A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação
e deve fazer valer esta responsabilidade também em público.
Ao fazê-lo, não tem apenas de defender a terra, a água e o
ar como dons da criação que pertencem a todos, mas deve
sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo.
Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida no
justo sentido. De facto, a degradação da natureza está
estreitamente ligada à cultura que molda a convivência
humana: quando a « ecologia humana »
[124] é respeitada dentro da sociedade, beneficia
também a ecologia ambiental. Tal como as virtudes
humanas são intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento
de uma põe em risco também as outras, assim também o sistema
ecológico se rege sobre o respeito de um projecto que se
refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bom
relacionamento com a natureza.
Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos
ou penalizações económicas, nem é suficiente uma instrução
adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o
problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral.
Se não é respeitado
o direito à vida e à morte natural, se se torna artificial a
concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são
sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência
comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com
ele, o de ecologia ambiental. É uma contradição pedir às
novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a
educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas.
O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a
vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da
sexualidade, do matrimónio, da família, das relações
sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.
Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com
os deveres que temos para com a pessoa considerada em si
mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e
espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da
mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa,
transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.
52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem
produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem
pode ser — o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade
e Amor. Este princípio é muito importante para a sociedade e
para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser
somente produtos humanos; a própria vocação ao
desenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a
simples deliberação humana, mas está inscrita num plano que
nos precede e constitui para todos nós um dever que há-de
ser livremente assumido. Aquilo que nos precede e constitui
— o Amor e a Verdade subsistentes — indica-nos o que é o bem
e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte,
aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.
CAPÍTULO V
A COLABORAÇÃO
DA FAMÍLIA HUMANA
53. Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode
experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras
pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento,
de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas
frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma
originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que
pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um facto
insignificante e passageiro, um « estrangeiro » num universo
formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou
se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer
num Fundamento[125].
A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos
unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias[126].
A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no
passado: esta maior proximidade deve transformar-se em
verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende
sobretudo do reconhecimento que são uma só família, a
qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por
sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros[127].
Observava Paulo VI que « o mundo sofre por falta de
convicções »[128].
A afirmação quer exprimir não apenas uma constatação, mas
sobretudo um voto: serve um novo ímpeto do pensamento para
compreender melhor as implicações do facto de sermos uma
família; a interacção entre os povos da terra chama-nos a
este ímpeto, para que a integração se verifique sob o signo
da solidariedade[129],
e não da marginalização. Tal pensamento obriga a um
aprofundamento crítico e axiológico da categoria relação.
Trata-se de uma tarefa que não pode ser desempenhada só
pelas ciências sociais, mas requer a contribuição de
ciências como a metafísica e a teologia para ver lucidamente
a dignidade transcendente do homem.
De natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas
relações interpessoais: quanto mais as vive de forma
autêntica, tanto mais amadurece a própria identidade
pessoal. Não é isolando-se que o homem se valoriza a si
mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus, pelo
que estas relações são de importância fundamental. Isto vale
também para os povos; por isso é muito útil para o seu
desenvolvimento uma visão metafísica da relação entre as
pessoas. A tal respeito, a razão encontra inspiração e
orientação na revelação cristã, segundo a qual a comunidade
dos homens não absorve em si a pessoa aniquilando a sua
autonomia, como acontece nas várias formas de totalitarismo,
mas valoriza-a ainda mais porque a relação entre pessoa e
comunidade é feita de um todo para outro todo[130].
Do mesmo modo que a comunidade familiar não anula em si as
pessoas que a compõem e a própria Igreja valoriza plenamente
a « nova criatura » (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17)
que pelo baptismo se insere no seu Corpo vivo, assim também
a unidade da família humana não anula em si as pessoas, os
povos e as culturas, mas torna-os mais transparentes
reciprocamente, mais unidos nas suas legítimas diversidades.
54. O tema do desenvolvimento coincide com o da inclusão
relacional de todas as pessoas e de todos os povos na única
comunidade da família humana, que se constrói na
solidariedade tendo por base os valores fundamentais da
justiça e da paz. Esta perspectiva encontra um decisivo
esclarecimento na relação entre as Pessoas da Trindade na
única Substância divina. A Trindade é absoluta unidade,
enquanto as três Pessoas divinas são pura relação. A
transparência recíproca entre as Pessoas divinas é plena, e
a ligação de uma com a outra total, porque constituem uma
unidade e unicidade absoluta. Deus quer-nos associar também
a esta realidade de comunhão: « para que sejam um como Nós
somos um » (Jo 17, 22). A Igreja é sinal e
instrumento desta unidade[131].
As próprias relações entre os homens, ao longo da história,
só podem ganhar com a referência a este Modelo divino. De
modo particular compreende-se, à luz do mistério revelado
da Trindade, que a verdadeira abertura não significa
dispersão centrífuga, mas profunda compenetração. O mesmo
resulta das experiências humanas comuns do amor e da
verdade. Como o amor sacramental entre os esposos os une
espiritualmente a ponto de formarem « uma só carne » (Gn
2, 24; Mt 19, 5; Ef 5, 31) e, de dois que
eram, faz uma unidade relacional e real, de forma análoga a
verdade une os espíritos entre si e fá-los pensar em
uníssono, atraindo-os e unindo-os nela.
55. A revelação cristã sobre a unidade do género humano
pressupõe uma interpretação metafísica do humanum
na qual a relação seja elemento essencial. Também outras
culturas e outras religiões ensinam a fraternidade e a paz,
revestindo-se, por isso, de grande importância para o
desenvolvimento humano integral; mas não faltam
comportamentos religiosos e culturais em que não se assume
plenamente o princípio do amor e da verdade, e acaba-se
assim por refrear o verdadeiro desenvolvimento humano ou
mesmo impedi-lo. O mundo actual regista a presença de
algumas culturas de matiz religioso que não empenham o homem
na comunhão, mas isolam-no na busca do bem-estar individual,
limitando-se a satisfazer os seus anseios psicológicos.
Também uma certa proliferação de percursos religiosos de
pequenos grupos ou mesmo de pessoas individuais e o
sincretismo religioso podem ser factores de dispersão e de
apatia. Um possível efeito negativo do processo de
globalização é a tendência a favorecer tal sincretismo[132],
alimentando formas de « religião » que, em vez de fazer as
pessoas encontrarem-se, alheiam-nas umas das outras e
afastam-nas da realidade. Simultaneamente às vezes perduram
legados culturais e religiosos que bloqueiam a sociedade em
castas sociais estáticas, em crenças mágicas não
respeitadoras da dignidade da pessoa, em comportamentos de
sujeição a forças ocultas. Nestes contextos, o amor e a
verdade encontram dificuldade em afirmar-se, com prejuízo
para o autêntico desenvolvimento.
Por este motivo, se é verdade, por um lado, que o
desenvolvimento tem necessidade das religiões e das culturas
dos diversos povos, por outro, não o é menos a necessidade
de um adequado discernimento. A liberdade religiosa não
significa indiferentismo religioso, nem implica que todas as
religiões sejam iguais[133].
Para a construção da comunidade social no respeito do bem
comum, torna-se necessário, sobretudo para quem exerce o
poder político, o discernimento sobre o contributo das
culturas e das religiões. Tal discernimento deverá basear-se
sobre o critério da caridade e da verdade. Dado que está em
jogo o desenvolvimento das pessoas e dos povos, aquele há-de
ter em conta a possibilidade de emancipação e de inclusão na
perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente
universal. O critério « o homem todo e todos os homens »
serve para avaliar também as culturas e as religiões. O
cristianismo, religião do « Deus de rosto humano »[134],
traz em si mesmo tal critério.
56. A religião cristã e as outras religiões só podem dar o
seu contributo para o desenvolvimento, se Deus encontrar
lugar também na esfera pública, nomeadamente nas
dimensões cultural, social, económica e particularmente
política. A doutrina social da Igreja nasceu para
reivindicar este « estatuto de cidadania »[135]
da religião cristã. A negação do direito de professar
publicamente a própria religião e de fazer com que as
verdades da fé moldem a vida pública, acarreta consequências
negativas para o verdadeiro desenvolvimento. A exclusão da
religião do âmbito público e, na vertente oposta, o
fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as
pessoas e a sua colaboração para o progresso da humanidade.
A vida pública torna-se pobre de motivações, e a política
assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos humanos
correm o risco de não ser respeitados, ou porque ficam
privados do seu fundamento transcendente ou porque não é
reconhecida a liberdade pessoal. No laicismo e no
fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um diálogo
fecundo e de uma profícua colaboração entre a razão e a fé
religiosa. A razão tem sempre necessidade de ser
purificada pela fé; e isto vale também para a razão
política, que não se deve crer omnipotente. A religião,
por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela razão,
para mostrar o seu autêntico rosto humano. A ruptura deste
diálogo implica um custo muito gravoso para o
desenvolvimento da humanidade.
57. O diálogo fecundo entre fé e razão não pode deixar de
tornar mais eficaz a acção da caridade na sociedade, e
constitui o quadro mais apropriado para incentivar a
colaboração fraterna entre crentes e não crentes na
perspectiva comum de trabalhar pela justiça e a paz da
humanidade. Na constituição pastoral
Gaudium et spes, os Padres conciliares afirmavam: «
Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função
do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um
acordo quase geral entre crentes e não crentes »[136].
Segundo os crentes, o mundo não é fruto do acaso nem da
necessidade, mas de um projecto de Deus. Daqui nasce o dever
que os crentes têm de unir os seus esforços com todos os
homens e mulheres de boa vontade de outras religiões ou não
crentes, para que este nosso mundo corresponda efectivamente
ao projecto divino: viver como uma família, sob o olhar do
seu Criador. Particular manifestação da caridade e critério
orientador para a colaboração fraterna de crentes e não
crentes é, sem dúvida, o princípio de subsidiariedade[137],
expressão da inalienável liberdade humana. A subsidiariedade
é, antes de mais nada, uma ajuda à pessoa, na autonomia dos
corpos intermédios. Tal ajuda é oferecida quando a pessoa e
os sujeitos sociais não conseguem operar por si sós, e
implica sempre finalidades emancipativas, porque favorece a
liberdade e a participação enquanto assunção de
responsabilidades. A subsidiariedade respeita a dignidade da
pessoa, na qual vê um sujeito sempre capaz de dar algo aos
outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constituição íntima
do ser humano, a subsidiariedade é o antídoto mais eficaz
contra toda a forma de assistencialismo paternalista. Pode
motivar tanto a múltipla articulação dos vários níveis e
consequentemente a pluralidade dos sujeitos, como a sua
coordenação. Trata-se, pois, de um princípio particularmente
idóneo para governar a globalização e orientá-la para um
verdadeiro desenvolvimento humano. Para não se gerar um
perigoso poder universal de tipo monocrático, o governo
da globalização deve ser de tipo subsidiário, articulado
segundo vários e diferenciados níveis que colaborem
reciprocamente. A globalização tem necessidade, sem dúvida,
de autoridade, enquanto põe o problema de um bem comum
global a alcançar; mas tal autoridade deverá ser organizada
de modo subsidiário e poliárquico[138],
seja para não lesar a liberdade, seja para resultar
concretamente eficaz.
58. O princípio de subsidiariedade há-de ser mantido
estritamente ligado com o princípio de solidariedade e
vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a
solidariedade decai no particularismo social, a
solidariedade sem a subsidiariedade decai no
assistencialismo que humilha o sujeito necessitado. Esta
regra de carácter geral deve ser tida em grande consideração
também quando se enfrentam as temáticas referentes às
ajudas internacionais destinadas ao desenvolvimento.
Estas, independentemente das intenções dos doadores, podem
por vezes manter um povo num estado de dependência e até
favorecer situações de sujeição local e de exploração dentro
do país ajudado. Para serem verdadeiramente tais, as ajudas
económicas não devem visar segundos fins. Hão-de ser
concedidas envolvendo não só os governos dos países
interessados, mas também os agentes económicos locais e os
sujeitos da sociedade civil portadores de cultura, incluindo
as Igrejas locais. Os programas de ajuda devem assumir
sempre mais as características de programas integrados e
participados a partir de baixo. A verdade é que o maior
recurso a valorizar nos países que são assistidos no
desenvolvimento é o recurso humano: este é o autêntico
capital que se há-de fazer crescer para assegurar aos países
mais pobres um verdadeiro futuro autónomo. Há que recordar
também que, no campo económico, a principal ajuda de que têm
necessidade os países em vias de desenvolvimento é a de
permitir e favorecer a progressiva inserção dos seus
produtos nos mercados internacionais, tornando possível
assim a sua plena participação na vida económica
internacional. Muitas vezes, no passado, as ajudas serviram
apenas para criar mercados marginais para os produtos destes
países. Isto, frequentemente, fica a dever-se à falta de uma
verdadeira procura destes produtos; por isso, é necessário
ajudar tais países a melhorar os seus produtos e a
adaptá-los melhor à procura. Além disso, alguns temem a
concorrência das importações de produtos, normalmente
agrícolas, provenientes dos países economicamente pobres;
contudo devem-se recordar que, para estes países, a
possibilidade de comercializar tais produtos significa
muitas vezes garantir a sua sobrevivência a breve e longo
prazo. Um comércio internacional justo e equilibrado no
campo agrícola pode trazer benefícios a todos, quer do lado
da oferta quer do lado da procura. Por este motivo, é
preciso não só orientar comercialmente estas produções, mas
também estabelecer regras comerciais internacionais que as
apoiem e reforçar o financiamento ao desenvolvimento para
tornar mais produtivas estas economias.
59. A cooperação no desenvolvimento não deve
limitar-se apenas à dimensão económica, mas há-de tornar-se
uma grande ocasião de encontro cultural e humano. Se
os sujeitos da cooperação dos países economicamente
desenvolvidos não têm em conta — como às vezes sucede — a
identidade cultural, própria e alheia, feita de valores
humanos, não podem instaurar algum diálogo profundo com os
cidadãos dos países pobres. Se estes, por sua vez, se abrem
indiferentemente e sem discernimento a qualquer proposta
cultural, ficam sem condições para assumir a
responsabilidade do seu autêntico desenvolvimento[139].
As sociedades tecnologicamente avançadas não devem confundir
o próprio desenvolvimento tecnológico com uma suposta
superioridade cultural, mas hão-de descobrir em si próprias
virtudes, por vezes esquecidas, que as fizeram florescer ao
longo da história. As sociedades em crescimento devem
permanecer fiéis a tudo o que há de verdadeiramente humano
nas suas tradições, evitando de lhe sobrepor automaticamente
os mecanismos da civilização tecnológica globalizada.
Existem, em todas as culturas, singulares e variadas
convergências éticas, expressão de uma mesma natureza humana
querida pelo Criador e que a sabedoria ética da humanidade
chama lei natural[140].
Esta lei moral universal é um fundamento firme de todo o
diálogo cultural, religioso e político e permite que o
multiforme pluralismo das várias culturas não se desvie da
busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a adesão
a esta lei escrita nos corações é o pressuposto de qualquer
colaboração social construtiva. Em todas as culturas existem
pesos de que libertar-se, sombras a que subtrair-se. A fé
cristã, que se encarna nas culturas transcendendo-as, pode
ajudá-las a crescer na fraternização e solidariedade
universais com benefício para o desenvolvimento comunitário
e mundial.
60. Quando se procurarem soluções para a crise económica
actual, a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres deve
ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de
riqueza para todos. Que projecto de ajuda pode abrir
perspectivas tão significativas de mais valia — mesmo da
economia mundial — como o apoio a populações que se
encontram ainda numa fase inicial ou pouco avançada do seu
processo de desenvolvimento económico? Nesta linha, os
Estados economicamente mais desenvolvidos hão-de fazer o
possível por destinar quotas maiores do seu produto interno
bruto para as ajudas ao desenvolvimento, respeitando os
compromissos que, sobre este ponto, foram tomados a nível de
comunidade internacional. Poderão fazê-lo inclusivamente
revendo as políticas internas de assistência e de
solidariedade social, aplicando-lhes o princípio de
subsidiariedade e criando sistemas mais integrativos de
previdência social, com a participação activa dos sujeitos
privados e da sociedade civil. Deste modo, pode-se até
melhorar os serviços sociais e de assistência e
simultaneamente poupar recursos, eliminando desperdícios e
subvenções abusivas, para destinar à solidariedade
internacional. Um sistema de solidariedade social melhor
comparticipado e organizado, menos burocrático sem ficar
menos coordenado, permitiria valorizar muitas energias, hoje
adormecidas, em benefício também da solidariedade entre os
povos.
Uma possibilidade de ajuda para o desenvolvimento poderia
derivar da aplicação eficaz da chamada subsidiariedade
fiscal, que permitiria aos cidadãos decidirem a destinação
de quotas dos seus impostos versados ao Estado. Evitando
degenerações particularistas, isso pode servir de incentivo
para formas de solidariedade social a partir de baixo, com
óbvios benefícios também na vertente da solidariedade para o
desenvolvimento.
61. Uma solidariedade mais ampla a nível internacional
exprime-se, antes de mais nada, continuando a promover,
mesmo em condições de crise económica, maior acesso à
educação, já que esta é condição essencial para a
eficácia da própria cooperação internacional. Com o termo «
educação », não se pretende referir apenas à instrução
escolar ou à formação para o trabalho — ambas, causas
importantes de desenvolvimento — mas à formação completa da
pessoa. A este propósito, deve-se sublinhar um aspecto do
problema: para educar, é preciso saber quem é a pessoa
humana, conhecer a sua natureza. A progressiva difusão de
uma visão relativista desta coloca sérios problemas à
educação, sobretudo à educação moral, prejudicando a sua
extensão a nível universal. Cedendo a tal relativismo, ficam
todos mais pobres, com consequências negativas também sobre
a eficácia da ajuda às populações mais carecidas, que não
têm necessidade apenas de meios económicos ou técnicos, mas
também de métodos e meios pedagógicos que ajudem as pessoas
a chegar à sua plena realização humana.
Um exemplo da relevância deste problema temo-lo no fenómeno
do turismo internacional[141],
que pode constituir notável factor de desenvolvimento
económico e de crescimento cultural, mas pode também
transformar-se em ocasião de exploração e degradação moral.
A situação actual oferece singulares oportunidades para que
os aspectos económicos do desenvolvimento, ou seja, os
fluxos de dinheiro e o nascimento em sede local de
significativas experiências empresariais, cheguem a
combinar-se com os aspectos culturais, sendo o educativo o
primeiro deles. Há casos onde isso ocorre, mas em muitos
outros o turismo internacional é fenómeno deseducativo tanto
para o turista como para as populações locais. Com
frequência, estas são confrontadas com comportamentos
imorais ou mesmo perversos, como no caso do chamado turismo
sexual, em que são sacrificados muitos seres humanos, mesmo
de tenra idade. É doloroso constatar que isto acontece
frequentemente com o aval dos governos locais, com o
silêncio dos governos donde provêm os turistas e com a
cumplicidade de muitos agentes do sector. Mesmo quando não
se chega tão longe, o turismo internacional não raramente é
vivido de modo consumista e hedonista, como evasão e com
modalidades de organização típicas dos países de
proveniência, e assim não se favorece um verdadeiro encontro
entre pessoas e culturas. Por isso, é preciso pensar num
turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento
recíproco, sem tirar espaço ao repouso e ao são
divertimento: um turismo deste género há-de ser
incrementado, graças também a uma ligação mais estreita com
as experiências de cooperação internacional e de
empresariado para o desenvolvimento.
62. Outro aspecto merecedor de atenção, ao tratar do
desenvolvimento humano integral, é o fenómeno das
migrações. É um fenómeno impressionante pela quantidade
de pessoas envolvidas, pelas problemáticas sociais,
económicas, políticas, culturais e religiosas que levanta,
pelos desafios dramáticos que coloca às comunidades nacional
e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um
fenómeno social de natureza epocal, que requer uma forte e
clarividente política de cooperação internacional para ser
convenientemente enfrentado. Esta política há-de ser
desenvolvida a partir de uma estreita colaboração entre os
países donde partem os emigrantes e os países de chegada;
há-de ser acompanhada por adequadas normativas
internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas
legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exigências e
os direitos das pessoas e das famílias emigradas e, ao mesmo
tempo, os das sociedades de chegada dos próprios emigrantes.
Nenhum país se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho,
os problemas migratórios do nosso tempo. Todos somos
testemunhas da carga de sofrimentos, contrariedades e
aspirações que acompanha os fluxos migratórios. Como é
sabido, o fenómeno é de gestão complicada; todavia é certo
que os trabalhadores estrangeiros, não obstante as
dificuldades relacionadas com a sua integração, prestam com
o seu trabalho um contributo significativo para o
desenvolvimento económico do país de acolhimento e também do
país de origem com as remessas monetárias. Obviamente, tais
trabalhadores não podem ser considerados como simples
mercadoria ou mera força de trabalho; por isso, não devem
ser tratados como qualquer outro factor de produção. Todo o
imigrante é uma pessoa humana e, enquanto tal, possui
direitos fundamentais inalienáveis que hão-de ser
respeitados por todos em qualquer situação[142].
63. Ao considerar os problemas do desenvolvimento, não se
pode deixar de pôr em evidência o nexo directo entre
pobreza e desemprego. Em muitos casos, os pobres são o
resultado da violação da dignidade do trabalho humano,
seja porque as suas possibilidades são limitadas
(desemprego, subemprego), seja porque são desvalorizados «
os direitos que dele brotam, especialmente o direito ao
justo salário, à segurança da pessoa do trabalhador e da sua
família »[143].
Por isso, já no dia 1 de Maio de 2000, o meu predecessor
João Paulo II, de venerada memória, lançou um apelo, por
ocasião do Jubileu dos Trabalhadores, para « uma coligação
mundial em favor do trabalho decente »[144],
encorajando a estratégia da Organização Internacional do
Trabalho. Conferia, assim, uma forte valência moral a este
objectivo, enquanto aspiração das famílias em todos os
países do mundo. Qual é o significado da palavra « decência
» aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada
sociedade, seja a expressão da dignidade essencial de todo o
homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que
associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao
desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste
modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem
qualquer discriminação; um trabalho que consinta satisfazer
as necessidades das famílias e dar a escolaridade aos
filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um
trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se
livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe
espaço suficiente para reencontrar as próprias raízes a
nível pessoal familiar e espiritual; um trabalho que
assegure aos trabalhadores aposentados uma condição
decorosa.
64. Ao reflectir sobre este tema do trabalho, é oportuna uma
chamada de atenção também para a urgente necessidade de as
organizações sindicais dos trabalhadores – desde
sempre encorajadas e apoiadas pela Igreja — se abrirem às
novas perspectivas que surgem no âmbito laboral. Superando
as limitações próprias dos sindicatos de categoria, as
organizações sindicais são chamadas a responsabilizar-se
pelos novos problemas das nossas sociedades: refiro-me, por
exemplo, ao conjunto de questões que os peritos de ciências
sociais identificam no conflito entre pessoa-trabalhadora e
pessoa-consumidora. Sem ter necessariamente de abraçar a
tese duma efectiva passagem da centralidade do trabalhador
para a do consumidor, parece em todo o caso que também este
seja um terreno para experiências sindicais inovadoras. O
contexto global em que se realiza o trabalho requer
igualmente que as organizações sindicais nacionais, fechadas
prevalentemente na defesa dos interesses dos próprios
inscritos, volvam o olhar também para os não inscritos,
particularmente para os trabalhadores dos países em vias de
desenvolvimento, onde frequentemente os direitos sociais são
violados. A defesa destes trabalhadores, promovida com
oportunas iniciativas também nos países de origem, permitirá
às organizações sindicais porem em evidência as autênticas
razões éticas e culturais que lhes consentiram, em contextos
sociais e laborais diferentes, ser um factor decisivo para o
desenvolvimento. Continua sempre válido o ensinamento da
Igreja que propõe a distinção de papéis e funções entre
sindicato e política. Esta distinção possibilitará às
organizações sindicais individualizarem na sociedade civil o
âmbito mais ajustado para a sua acção necessária de defesa e
promoção do mundo do trabalho, sobretudo a favor dos
trabalhadores explorados e não representados, cuja amarga
condição resulta frequentemente ignorada pelo olhar
distraído da sociedade.
65. Em seguida, é preciso que as finanças enquanto
tais — com estruturas e modalidades de funcionamento
necessariamente renovadas depois da sua má utilização que
prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento
que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o
desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as
finanças em toda a respectiva extensão, e não apenas em
alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo ético
a fim de criar as condições adequadas para o desenvolvimento
do homem e dos povos. É certamente útil, senão mesmo
indispensável em certas circunstâncias, dar vida a
iniciativas financeiras nas quais predomine a dimensão
humanitária. Isto, porém, não deve fazer esquecer que o
inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio
a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, é necessário que
não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva
capacidade de produzir bens. Os operadores das finanças
devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua
actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados
que possam atraiçoar os aforradores. Recta intenção,
transparência e busca de bons resultados são compatíveis
entre si e não devem jamais ser separados. Se o amor é
inteligente, sabe encontrar também os modos para agir
segundo uma previdente e justa conveniência, como
significativamente indicam muitas experiências no campo do
crédito cooperativo.
Tanto uma regulamentação do sector capaz de assegurar os
sujeitos mais débeis e impedir escandalosas especulações,
como a experimentação de novas formas de financiamento
destinadas a favorecer projectos de desenvolvimento, são
experiências positivas que hão-de ser aprofundadas e
encorajadas, invocando a responsabilidade própria do
aforrador. Também a experiência do
micro-financiamento, que mergulha as próprias raízes na
reflexão e nas obras dos humanistas civis (penso
nomeadamente no nascimento dos montepios), há-de ser
revigorada e sistematizada, sobretudo nestes tempos em que
os problemas financeiros podem tornar-se dramáticos para
muitos sectores mais vulneráveis da população, que devem ser
tutelados dos riscos de usura ou do desespero. Os sujeitos
mais débeis hão-de ser educados para se defender da usura,
do mesmo modo que os povos pobres devem ser educados para
tirar real vantagem do micro-crédito, desencorajando assim
as formas de exploração possíveis nestes dois campos. Uma
vez que existem novas formas de pobreza também nos países
ricos, o micro-financiamento pode proporcionar ajudas
concretas para a criação de iniciativas e sectores novos em
favor das classes débeis da sociedade mesmo numa fase de
possível empobrecimento da própria sociedade.
66. A interligação mundial fez surgir um novo poder
político: o dos consumidores e das suas associações.
Trata-se de um fenómeno carecido de aprofundamento, com
elementos positivos que hão-de ser incentivados e excessos
que se devem evitar. É bom que as pessoas ganhem consciência
de que a acção de comprar é sempre um acto moral, para além
de económico. Por isso, ao lado da responsabilidade social
da empresa, há uma específica responsabilidade social do
consumidor. Este há-de ser educado[145],
sem cessar, para o papel que exerce diariamente e que pode
desempenhar no respeito dos princípios morais, sem diminuir
a racionalidade económica intrínseca ao acto de comprar.
Também no sector das compras — precisamente em tempos como
os que se estão experimentando e que vêem o poder de compra
reduzir-se, devendo por conseguinte consumir com maior
sobriedade — é necessário percorrer outras estradas como,
por exemplo, formas de cooperação para as compras à
semelhança das cooperativas de consumo activas a partir do
século XIX graças à iniciativa dos católicos. Além disso, é
útil favorecer formas novas de comercialização de produtos
provenientes de áreas pobres da terra para garantir uma
retribuição decente aos produtores, contanto que se trate de
um mercado verdadeiramente transparente, que os produtores
não usufruam apenas de uma margem maior de lucro mas também
de maior formação, profissionalização e tecnologia, e que,
enfim, não se incluam em tais experiências de economia
visões ideológicas de parte. Um papel mais incisivo dos
consumidores, desde que não sejam eles próprios manipulados
por associações não verdadeiramente representativas, é
desejável como factor de democracia económica.
67. Perante o crescimento incessante da interdependência
mundial, sente-se imenso — mesmo no meio de uma recessão
igualmente mundial — a urgência de uma reforma quer da
Organização das Nações Unidas quer da arquitectura
económica e financeira internacional, para que seja
possível uma real concretização do conceito de família de
nações. De igual modo sente-se a urgência de encontrar
formas inovadoras para actuar o princípio da
responsabilidade de proteger
[146] e para atribuir também às nações mais pobres uma
voz eficaz nas decisões comuns. Isto revela-se necessário
precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico
e económico que incremente e guie a colaboração
internacional para o desenvolvimento solidário de todos os
povos. Para o governo da economia mundial, para sanar as
economias atingidas pela crise de modo a prevenir o
agravamento da mesma e em consequência maiores
desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral
desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a
salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos
migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade
política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o
Beato João XXIII. A referida Autoridade deverá regular-se
pelo direito, ater-se coerentemente aos princípios de
subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a
consecução do bem comum[147],
comprometer-se na realização de um autêntico desenvolvimento
humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade.
Além disso, uma tal Autoridade deverá ser reconhecida por
todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a
segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos[148].
Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as
partes respeitem as próprias decisões, bem como as medidas
coordenadas e adoptadas nos diversos fóruns internacionais.
É que, se isso faltasse, o direito internacional, não
obstante os grandes progressos realizados nos vários campos,
correria o risco de ser condicionado pelos equilíbrios de
poder entre os mais fortes. O desenvolvimento integral dos
povos e a colaboração internacional exigem que seja
instituído um grau superior de ordenamento internacional de
tipo subsidiário para o governo da globalização
[149] e que se dê finalmente actuação a uma ordem social
conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e
social, entre política e esfera económica e civil que
aparece já perspectivada no Estatuto das Nações Unidas.
CAPÍTULO VI
O DESENVOLVIMENTO
DOS POVOS E A TÉCNICA
68. O tema do desenvolvimento dos povos está intimamente
ligado com o do desenvolvimento de cada indivíduo. Por sua
natureza, a pessoa humana está dinamicamente orientada para
o próprio desenvolvimento. Não se trata de um
desenvolvimento garantido por mecanismos naturais, porque
cada um de nós sabe que é capaz de realizar opções livres e
responsáveis; também não se trata de um desenvolvimento à
mercê do nosso capricho, enquanto todos sabemos que somos
dom e não resultado de auto-geração. Em nós, a liberdade é
originariamente caracterizada pelo nosso ser e pelos seus
limites. Ninguém plasma arbitrariamente a própria
consciência, mas todos formam a própria personalidade sobre
a base duma natureza que lhe foi dada. Não são apenas as
outras pessoas que são indisponíveis; também nós não podemos
dispor arbitrariamente de nós mesmos. O desenvolvimento
da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a única produtora
de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento
dos povos, se a humanidade pensa que se pode re-criar
valendo-se dos « prodígios » da tecnologia. Analogamente, o
progresso económico revela-se fictício e danoso quando se
abandona aos « prodígios » das finanças para apoiar
incrementos artificiais e consumistas. Perante esta
pretensão prometeica, devemos robustecer o amor por uma
liberdade não arbitrária, mas tornada verdadeiramente humana
pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objectivo,
é preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer
as normas fundamentais da lei moral natural que Deus
inscreveu no seu coração.
69. Hoje, o problema do desenvolvimento está estreitamente
unido com o progresso tecnológico, com as suas
deslumbrantes aplicações no campo biológico. A técnica — é
bom sublinhá-lo — é um dado profundamente humano, ligado à
autonomia e à liberdade do homem. Nela exprime-se e
confirma-se o domínio do espírito sobre a matéria. O
espírito, « tornando-se assim ‘‘mais liberto da escravidão
das coisas, pode facilmente elevar-se ao culto e à
contemplação do Criador'' »[150].
A técnica permite dominar a matéria, reduzir os riscos,
poupar fadigas, melhorar as condições de vida. Dá resposta à
própria vocação do trabalho humano: na técnica, considerada
como obra do génio pessoal, o homem reconhece-se a si mesmo
e realiza a própria humanidade. A técnica é o aspecto
objectivo do agir humano[151],
cuja origem e razão de ser estão no elemento subjectivo: o
homem que actua. Por isso, aquela nunca é simplesmente
técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações ao
desenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma
gradual superação de certos condicionamentos materiais.
Assim, a técnica insere-se no mandato de « cultivar e
guardar a terra » (Gn 2, 15) que Deus confiou ao
homem, e há-de ser orientada para reforçar aquela aliança
entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor
criador de Deus.
70. O desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia de
auto-suficiência da própria técnica, quando o homem,
interrogando-se apenas sobre o como, deixa de
considerar os muitos porquês pelos quais é impelido a
agir. Por isso, a técnica apresenta-se com uma fisionomia
ambígua. Nascida da criatividade humana como instrumento da
liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de
liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos
limites que as coisas trazem consigo. O processo de
globalização poderia substituir as ideologias com a técnica[152],
passando esta a ser um poder ideológico que exporia a
humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um a
priori do qual não poderia sair para encontrar o ser e a
verdade. Em tal caso, todos nós conheceríamos, avaliaríamos
e decidiríamos as situações da nossa vida a partir do
interior de um horizonte cultural tecnocrático, ao qual
pertenceríamos estruturalmente, sem poder jamais encontrar
um sentido que não fosse produzido por nós. Esta visão torna
hoje tão forte a mentalidade tecnicista que faz coincidir a
verdade com o factível. Mas, quando o único critério da
verdade é a eficiência e a utilidade, o desenvolvimento
acaba automaticamente negado. De facto, o verdadeiro
desenvolvimento não consiste primariamente no fazer; a chave
do desenvolvimento é uma inteligência capaz de pensar a
técnica e de individualizar o sentido plenamente humano do
agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na
globalidade do seu ser. Mesmo quando actua mediante um
satélite ou um comando electrónico à distância, o seu agir
continua sempre humano, expressão de uma liberdade
responsável. A técnica seduz intensamente o homem, porque o
livra das limitações físicas e alarga o seu horizonte.
Mas a liberdade humana só o é propriamente quando responde à
sedução da técnica com decisões que sejam fruto de
responsabilidade moral. Daqui, a urgência de uma
formação para a responsabilidade ética no uso da técnica. A
partir do fascínio que a técnica exerce sobre o ser humano,
deve-se recuperar o verdadeiro sentido da liberdade, que não
consiste no inebriamento de uma autonomia total, mas na
resposta ao apelo do ser, a começar pelo ser que somos nós
mesmos.
71. Esta possibilidade da mentalidade técnica se desviar do
seu originário álveo humanista ressalta, hoje, nos fenómenos
da tecnicização do desenvolvimento e da paz. Frequentemente
o desenvolvimento dos povos é considerado um problema de
engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redução
das tarifas aduaneiras, de investimentos produtivos, de
reformas institucionais; em suma, um problema apenas
técnico. Todos estes âmbitos são muito importantes, mas não
podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, até agora,
as opções de tipo técnico tenham resultado apenas de modo
relativo. A razão há-de ser procurada mais profundamente. O
desenvolvimento não será jamais garantido completamente por
forças de certo modo automáticas e impessoais, sejam elas as
do mercado ou as da política internacional. O
desenvolvimento é impossível sem homens rectos, sem
operadores económicos e homens políticos que sintam
intensamente em suas consciências o apelo do bem comum.
São necessárias tanto a preparação profissional como a
coerência moral. Quando prevalece a absolutização da
técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios: como
único critério de acção, o empresário considerará o máximo
lucro da produção; o político, a consolidação do poder; o
cientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo
sucede frequentemente que, sob a rede das relações
económicas, financeiras ou políticas, persistem
incompreensões, contrariedades e injustiças; os fluxos dos
conhecimentos técnicos multiplicam-se, mas em benefício dos
seus proprietários, enquanto a situação real das populações
que vivem sob tais influxos, e quase sempre na sua
ignorância, permanece imutável e sem efectivas
possibilidades de emancipação.
72. Às vezes, também a paz corre o risco de ser considerada
como uma produção técnica, fruto apenas de acordos entre
governos ou de iniciativas tendentes a assegurar ajudas
económicas eficientes. É verdade que a construção da paz
exige um constante tecimento de contactos diplomáticos,
intercâmbios económicos e tecnológicos, encontros culturais,
acordos sobre projectos comuns, e também a assunção de
empenhos compartilhados para conter as ameaças de tipo
bélico e cercear à nascença eventuais tentações terroristas.
Mas, para que tais esforços possam produzir efeitos
duradouros, é necessário que se apoiem sobre valores
radicados na verdade da vida. Por outras palavras, é preciso
ouvir a voz das populações interessadas e atender à situação
delas para interpretar adequadamente os seus anseios. De
certo modo, deve-se colocar em continuidade com o esforço
anónimo de tantas pessoas decididamente comprometidas a
promover o encontro entre os povos e a favorecer o
desenvolvimento partindo do amor e da compreensão recíproca.
Entre tais pessoas, contam-se também fiéis cristãos,
empenhados na grande tarefa de dar ao desenvolvimento e à
paz um sentido plenamente humano.
73. Ligada ao desenvolvimento tecnológico está a crescente
presença dos meios de comunicação social. Já é quase
impossível imaginar a existência da família humana sem eles.
No bem e no mal, estão de tal modo encarnados na vida do
mundo, que parece verdadeiramente absurda a posição de
quantos defendem a sua neutralidade, reivindicando em
consequência a sua autonomia relativamente à moral que diria
respeito às pessoas. Muitas vezes tais perspectivas, que
enfatizam a natureza estritamente técnica dos mass-media,
de facto favorecem a sua subordinação a cálculos económicos,
ao intuito de dominar os mercados e, não último, ao desejo
de impor parâmetros culturais em função de projectos de
poder ideológico e político. Dada a importância fundamental
que têm na determinação de alterações no modo de ler e
conhecer a realidade e a própria pessoa humana, torna-se
necessária uma atenta reflexão sobre a sua influência
principalmente na dimensão ético-cultural da globalização e
do desenvolvimento solidário dos povos. Como requerido por
uma correcta gestão da globalização e do desenvolvimento,
o sentido e a finalidade dos mass-media devem ser
buscados no fundamento antropológico. Isto quer dizer
que os mesmos podem tornar-se ocasião de humanização,
não só quando, graças ao desenvolvimento tecnológico,
oferecem maiores possibilidades de comunicação e de
informação, mas também e sobretudo quando são organizados e
orientados à luz de uma imagem da pessoa e do bem comum que
traduza os seus valores universais. Os meios de comunicação
social não favorecem a liberdade nem globalizam o
desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente
porque multiplicam as possibilidades de interligação e
circulação das ideias; para alcançar tais objectivos, é
preciso que estejam centrados na promoção da dignidade das
pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridade e
colocados ao serviço da verdade, do bem e da fraternidade
natural e sobrenatural. De facto, na humanidade, a liberdade
está intrinsecamente ligada a estes valores superiores. Os
mass-media podem constituir uma válida ajuda para fazer
crescer a comunhão da família humana e o ethos das
sociedades, quando se tornam instrumentos de promoção da
participação universal na busca comum daquilo que é justo.
74. Hoje, um campo primário e crucial da luta cultural entre
o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem
é o da bioética, onde se joga radicalmente a própria
possibilidade de um desenvolvimento humano integral.
Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde
irrompe, com dramática intensidade, a questão fundamental de
saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de
Deus. As descobertas científicas neste campo e as
possibilidades de intervenção técnica parecem tão avançadas
que impõem a escolha entre estas duas concepções: a da razão
aberta à transcendência ou a da razão fechada na imanência.
Está-se perante uma opção decisiva. No entanto a concepção
racional da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-se
como irracional, porque implica uma decidida rejeição do
sentido e do valor. Não é por acaso que a posição fechada à
transcendência se defronta com a dificuldade de pensar como
tenha sido possível do nada ter brotado o ser e do acaso ter
nascido a inteligência[153].
Face a estes dramáticos problemas, razão e fé ajudam-se
mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem:
fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está
destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência,
enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da
vida concreta das pessoas[154].
75. Paulo VI já tinha reconhecido e indicado o horizonte
mundial da questão social[155].
Prosseguindo por esta estrada, é preciso afirmar que hoje a
questão social tornou-se radicalmente antropológica,
enquanto toca o próprio modo não só de conceber mas também
de manipular a vida, colocada cada vez mais nas mãos do
homem pelas biotecnologias. A fecundação in vitro, a
pesquisa sobre os embriões, a possibilidade da clonagem e
hibridação humana nascem e promovem-se na actual cultura do
desencanto total, que pensa ter desvendado todos os
mistérios porque já se chegou à raiz da vida. Aqui o
absolutismo da técnica encontra a sua máxima expressão. Em
tal cultura, a consciência é chamada apenas a registar uma
mera possibilidade técnica. Contudo não se pode minimizar os
cenários inquietantes para o futuro do homem e os novos e
poderosos instrumentos que a « cultura da morte » tem à sua
disposição. À difusa e trágica chaga do aborto poder-se-ia
juntar no futuro — embora sub-repticiamente já esteja
presente in nuce — uma sistemática planificação
eugenética dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo
caminho uma mens eutanasica, manifestação não menos
abusiva de domínio sobre a vida, que é considerada, em
certas condições, como não digna de ser vivida. Por detrás
destes cenários encontram-se posições culturais
negacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas
práticas estão destinadas a alimentar uma concepção material
e mecanicista da vida humana. Quem poderá medir os efeitos
negativos de tal mentalidade sobre o desenvolvimento? Como
poderá alguém maravilhar-se com a indiferença diante de
situações humanas de degradação, quando se comporta
indiferentemente com o que é humano e com aquilo que não o
é? Maravilha a selecção arbitrária do que hoje é proposto
como digno de respeito: muitos, prontos a escandalizar-se
por coisas marginais, parecem tolerar injustiças inauditas.
Enquanto os pobres do mundo batem às portas da opulência, o
mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos à
sua porta por causa de uma consciência já incapaz de
reconhecer o humano. Deus revela o homem ao homem; a razão e
a fé colaboram para lhe mostrar o bem, desde que o queira
ver; a lei natural, na qual reluz a Razão criadora, indica a
grandeza do homem, mas também a sua miséria quando ele
desconhece o apelo da verdade moral.
76. Um dos aspectos do espírito tecnicista moderno é
palpável na propensão a considerar os problemas e as moções
ligados à vida interior somente do ponto de vista
psicológico, chegando-se mesmo ao reducionismo neurológico.
Assim esvazia-se a interioridade do homem e,
progressivamente, vai-se perdendo a noção da consistência
ontológica da alma humana, com as profundidades que os
Santos souberam pôr a descoberto. O problema do
desenvolvimento está estritamente ligado também com a nossa
concepção da alma do homem, uma vez que o nosso eu acaba
muitas vezes reduzido ao psíquico, e a saúde da alma é
confundida com o bem-estar emotivo. Na base, estas reduções
têm uma profunda incompreensão da vida espiritual e
levam-nos a ignorar que o desenvolvimento do homem e dos
povos depende verdadeiramente também da solução dos
problemas de carácter espiritual. Além do crescimento
material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual,
porque a pessoa humana é « um ser uno, composto de alma e
corpo »[156],
nascido do amor criador de Deus e destinado a viver
eternamente. O ser humano desenvolve-se quando cresce no
espírito, quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende
as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen, quando dialoga
consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem
vive inquieto e está mal. A alienação social e psicológica e
as inúmeras neuroses que caracterizam as sociedades
opulentas devem-se também a causas de ordem espiritual. Uma
sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas
oprimente para a alma, de per si não está orientada para o
autêntico desenvolvimento. As novas formas de escravidão da
droga e o desespero em que caiem tantas pessoas têm uma
explicação não só sociológica e psicológica, mas
essencialmente espiritual. O vazio em que a alma se sente
abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e
para o psíquico, gera sofrimento. Não há desenvolvimento
pleno nem bem comum universal sem o bem espiritual e moral
das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e
corpo.
77. O absolutismo da técnica tende a produzir uma
incapacidade de perceber aquilo que não se explica meramente
pela matéria; e, no entanto, todos os homens experimentam os
numerosos aspectos imateriais e espirituais da sua vida.
Conhecer não é um acto apenas material, porque o conhecido
esconde sempre algo que está para além do dado empírico.
Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, é sempre um
pequeno prodígio, porque nunca se explica completamente com
os instrumentos materiais que utilizamos. Em cada verdade,
há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor
que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende.
Não deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes
prodígios. Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a
alma do homem experimenta um « extra » que se assemelha
muito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos
sentimos atraídos. Também o desenvolvimento do homem e dos
povos se coloca a uma tal altura, se considerarmos a
dimensão espiritual que deve necessariamente conotar
aquele para que possa ser autêntico. Este requer olhos novos
e um coração novo, capaz de superar a visão materialista
dos acontecimentos humanos e entrever no desenvolvimento
um « mais além » que a técnica não pode dar. Por este
caminho, será possível perseguir aquele desenvolvimento
humano integral que tem o seu critério orientador na força
propulsora da caridade na verdade.
CONCLUSÃO
78. Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue
sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas
do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo
e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus
Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: « Sem
Mim, nada podeis fazer » (Jo 15, 5), e encoraja: « Eu
estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt
28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos
apoiados pela fé na presença de Deus junto daqueles que se
unem no seu nome e trabalham pela justiça. Paulo VI
recordou-nos, na
Populorum progressio, que o homem não é capaz de
gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si
mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos
que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a
fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que
seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir
novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo
integral. Por isso, a maior força ao serviço do
desenvolvimento é um humanismo cristão
[157] que reavive a caridade e que se deixe guiar pela
verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus.
A disponibilidade para Deus abre à disponibilidade para os
irmãos e para uma vida entendida como tarefa solidária e
jubilosa. Pelo contrário, a reclusão ideológica a Deus e o
ateísmo da indiferença, que esquecem o Criador e correm o
risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje
entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento. O
humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano. Só um
humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promoção e
realização de formas de vida social e civil — no âmbito das
estruturas, das instituições, da cultura, do ethos —
preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas
do momento. É a consciência do Amor indestrutível de Deus
que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a favor
da justiça, do desenvolvimento dos povos, por entre êxitos e
fracassos, na busca incessante de ordenamentos rectos para
as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair
daquilo que é limitado e não definitivo, dá-nos coragem de
agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que
não se realize imediatamente e aquilo que conseguimos actuar
— nós e as autoridades políticas e os operadores económicos
— seja sempre menos de quanto anelamos[158].
Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum,
porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior.
79. O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os
braços levantados para Deus em atitude de oração,
cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de
verdade — caritas in veritate –, do qual procede o
desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos
dado. Por isso, inclusive nos momentos mais difíceis e
complexos, além de reagir conscientemente devemos sobretudo
referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica atenção à
vida espiritual, uma séria consideração das experiências de
confiança em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de
entrega à providência e à misericórdia divina, de amor e de
perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo,
de justiça e de paz. Tudo isto é indispensável para
transformar os « corações de pedra » em « corações de carne
» (Ez 36, 26), para tornar « divina » e
consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra.
Tudo isto é do homem, porque o homem é sujeito da
própria existência; e ao mesmo tempo é de Deus,
porque Deus está no princípio e no fim de tudo aquilo que
tem valor e redime: « quer o mundo, quer a vida, quer a
morte, quer o presente, quer o futuro, tudo é vosso; mas vós
sois de Cristo, e Cristo é de Deus » (1 Cor 3,
22-23). A ânsia do cristão é que toda a família humana possa
invocar a Deus como o « Pai nosso ». Juntamente com o Filho
unigénito, possam todos os homens aprender a rezar ao Pai e
a pedir-Lhe, com as palavras que o próprio Jesus nos
ensinou, para sabê-Lo santificar vivendo segundo a sua
vontade, e depois ter o pão necessário para cada dia, a
compreensão e a generosidade com quem nos ofendeu, não ser
postos à prova além das suas forças e ver-se livres do mal
(cf. Mt 6, 9-13).
No final do Ano Paulino, apraz-me formular os
seguintes votos com palavras do Apóstolo tiradas da sua
Carta aos Romanos: « Que a vossa caridade seja
sincera, aborrecendo o mal e aderindo ao bem. Amai-vos uns
aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns
aos outros» (12, 9-10). Que a Virgem Maria, proclamada
por Paulo VI Mater Ecclesiæ e honrada pelo povo
cristão como Speculum Iustitiæ e Regina Pacis,
nos proteja e obtenha, com a sua intercessão celeste, a
força, a esperança e a alegria necessárias para continuarmos
a dedicar-nos com generosidade ao compromisso de realizar o
« desenvolvimento integral do homem todo e de todos os
homens »[159].
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho —
Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo — do ano 2009,
quinto do meu Pontificado.
BENEDICTUS PP. XVI
[1]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 22:
AAS 59 (1967), 268; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.
sobre a Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 69.
[2]
Discurso na Jornada do Desenvolvimento (23 de Agosto
de 1968): AAS 60 (1968), 626-627.
[3]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002: AAS
94 (2002), 132-140.
[4]
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no
mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 26.
[5]
Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55
(1963), 268-270.
[6]
Cf. n. 16: AAS 59 (1967), 265.
[7]
Cf. ibid., 82: o.c., 297.
[8]
Ibid.,
42: o.c., 278.
[9]
Ibid.,
20: o.c., 267.
[10]
Cf. Conc.
Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo
Gaudium et spes, 36; Paulo VI, Carta ap.
Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 4: AAS
63 (1971), 403-404; João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 43: AAS
83 (1991), 847.
[11]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 13:
AAS 59 (1967), 263-264.
[12]
Cf. Pont. Conselho « Justiça e Paz »,
Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 76.
[13]
Cf. Bento XVI,
Discurso na Sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência
Geral do Episcopado Latino-Americano e das Caraíbas
(13 de Maio de 2007): Insegnamenti III/1 (2007),
854-870.
[14]
Cf. nn. 3-5: AAS 59 (1967), 258-260.
[15]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
6-7: AAS 80 (1988), 517-519.
[16]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967) 14:
AAS 59 (1967), 264.
[17]
Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18:
AAS 98 (2006), 232.
[18]
Ibid.,
6: o.c., 222.
[19]
Cf. Bento XVI,
Discurso à Cúria Romana durante a apresentação de votos
natalícios (22 de Dezembro de 2005): Insegnamenti
I (2005), 1023-1032.
[20]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
3: AAS 80 (1988), 515.
[21]
Cf. ibid., 1: o.c., 513-514.
[22]
Cf. ibid., 3: o.c., 515.
[23]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 3: AAS
73 (1981), 583-584.
[24]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus
(1 de Maio de 1991), 3: AAS 83 (1991), 794-796.
[25]
Cf. Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 3:
AAS 59 (1967), 258.
[26]
Cf. ibid., 34: o.c., 274.
[27]
Cf. nn. 8-9: AAS 60 (1968), 485-487; Bento XVI,
Discurso aos participantes no Congresso Internacional
organizado no 40º aniversário da « Humanae vitae »
(10 de Maio de 2008): Insegnamenti IV/1 (2008),
753-756.
[28]
Cf. Carta enc.
Evangelium vitae (25 de Março de 1995), 93: AAS
87 (1995), 507-508.
[29]
Ibid.,
101: o.c., 516-518.
[30]
N. 29: AAS 68 (1976), 25.
[31]
Ibid.,
31: o.c., 26.
[32]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
41: AAS 80 (1988), 570-572.
[33]
Cf. ibid., 41: o.c., 570-572; Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5.54: AAS
83 (1991), 799.859-860.
[34]
N. 15: AAS 59 (1967), 265.
[35]
Cf. ibid., 2: o.c., 481-482; Leão XIII, Carta
enc.
Rerum novarum (15 de Maio de 1891): Leonis XIII
P. M. Acta, XI (1892), 97-144; João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
8: AAS 80 (1988), 519-520; Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS
83 (1991), 799.
[36]
Cf. Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 2.13:
AAS 59 (1967), 258.263-264.
[37]
Ibid.,
42: o.c., 278.
[38]
Ibid.,
11: o.c., 262; cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS
83 (1991), 822-824.
[39]
Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 15:
AAS 59 (1967), 265.
[40]
Ibid.,
3: o.c., 258.
[41]
Ibid.,
6: o.c., 260.
[42]
Ibid., 14: o.c., 264.
[43]
Ibid., 14: o.c., 264; cf. João Paulo II, Carta
enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 53-62: AAS
83 (1991), 859-867; Carta enc.
Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 13-14:
AAS 71 (1979), 282-286.
[44]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio
(26 de Março de 1967), 12: AAS 59 (1967), 262-263.
[45]
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo
Gaudium et spes, 22.
[46]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 13:
AAS 59 (1967), 263-264.
[47]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional
da Igreja que está em Itália (19 de Outubro de
2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477.
[48]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio
(26 de Março de 1967), 16: AAS 59 (1967), 265.
[49]
Ibid., 16: o.c., 265.
[50]
Bento XVI,
Discurso aos jovens no cais de Barangaroo (17 de
Julho de 2008): L'Osservatore Romano (ed. portuguesa
de 19//VII/2008), 4.
[51]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 20:
AAS 59 (1967), 267.
[52]
Ibid.,
66: o.c., 289-290.
[53]
Ibid.,
21: o.c., 267-268.
[54]
Cf. nn. 3.29.32: o.c., 258.272.273.
[55]
Cf. Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
28: AAS 80 (1988), 548-550.
[56]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 9:
AAS 59 (1967), 261-262.
[57]
Cf. Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
20: AAS 80 (1988), 536-537.
[58]
Cf. Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 22-29: AAS
83 (1991), 819-830.
[59]
Cf. nn. 23.33: AAS 59 (1967), 268-269.273-274.
[60]
Cf. Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 135.
[61]
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo
Gaudium et spes, 63.
[62]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 24: AAS
83 (1991), 821-822.
[63]
Cf. João Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6
de Agosto de 1993),
33.46.51:
AAS 85 (1993), 1160.1169-1171.1174-1175; Discurso
à Assembleia Geral das Nações Unidas na comemoração do
cinquentenário de fundação (5 de Outubro de 1995), 3:
Insegnamenti XVIII/2 (1995), 732-733.
[64]
Cf. Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 47:
AAS 59 (1967), 280-281; João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
42: AAS 80 (1988), 572-574.
[65]
Cf. Bento XVI,
Mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2007:
AAS 99 (2007), 933-935.
[66]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Evangelium vitae (25 de Março de 1995), 18.59.63-64:
AAS 87 (1995), 419-421.467-468.472-475.
[[67]
Cf. Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5:
Insegnamenti II/2 (2006), 778.
[68]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 4-7.12-15:
AAS 94 (2002), 134-136.138-140;
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2004, 8: AAS
96 (2004), 119;
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2005, 4: AAS
97 (2005), 177-178; Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10:
AAS 98 (2006), 60-61;
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5.14:
Insegnamenti II/2 (2006), 778.782-783.
[69]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 6: AAS
94 (2002), 135; Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10:
AAS 98 (2006), 60-61.
[70]
Cf. Bento XVI,
Homilia da Santa Missa no « Islinger Feld » di Regensburg
(12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II/2
(2006), 252-256.
[71]
Cf. Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS
98 (2006), 217-218.
[72]
João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
28: AAS 80 (1988), 548-550.
[73]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 19:
AAS 59 (1967), 266-267.
[74]
Ibid., 39: o.c., 276-277.
[75]
Ibid., 75: o.c., 293-294.
[76]
Cf. Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 28:
AAS 98 (2006), 238-240.
[77]
João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 59: AAS
83 (1991), 864.
[78]
Cf. Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 40.85:
AAS 59 (1967), 277.298-299.
[79]
Ibid., 13: o.c., 263-264.
[80]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 85: AAS
91 (1999), 72-73.
[81]
Cf. ibid., 83: o.c., 70-71.
[82]
Bento XVI,
Discurso na Universidade de Regensburg (12 de
Setembro de 2006): Insegnamenti II/2 (2006), 265.
[83]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio
(26 de Março de 1967), 33: AAS 59 (1967), 273-274.
[84]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2000, 15: AAS
92 (2000), 366.
[85]
Catecismo da Igreja Católica,
407; cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS
83 (1991), 822-824.
[86]
Cf. n. 17: AAS 99 (2007), 1000.
[87]
Cf. ibid., 23: o.c., 1004-1005.
[88]
Santo Agostinho expõe, de maneira detalhada, este
ensinamento no diálogo sobre o livre arbítrio (De libero
arbitrio, II, 3, 8s.). Aponta para a existência de um «
sentido interno » dentro da alma humana. Este sentido
consiste num acto que se realiza fora das funções normais da
razão, um acto não reflexo e quase instintivo, pelo qual a
razão, ao dar-se conta da sua condição transitória e
falível, admite acima de si mesma a existência de algo de
eterno, absolutamente verdadeiro e certo. O nome, que Santo
Agostinho dá a esta verdade interior, umas vezes é Deus (Confissões
X, 24, 35; XII, 25, 35; De libero arbitrio, II, 3, 8,
27), outras e mais frequentemente é Cristo (De magistro
11, 38; Confissões VII, 18, 24; XI, 2, 4).
[89]
Bento XVI, Carta enc.
Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 3: AAS
98 (2006), 219.
[90]
Cf. n. 49: AAS 59 (1967), 281.
[91]
João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 28: AAS
83 (1991), 827-828.
[92]
Cf. n. 35: AAS 83 (1991), 836-838.
[93]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de
1987), 38: AAS 80 (1988), 565-566.
[94]
N. 44: AAS 59 (1967), 279.
[95]
Cf. ibid., 24: o.c., 269.
[96]
Cf. Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS
83 (1991), 838-840.
[97]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio
(26 de Março de 1967), 24: AAS 59 (1967), 269.
[98]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS
83 (1991), 832-833; Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 25:
AAS 59 (1967), 269-270.
[99]
João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 24:
AAS 73 (1981), 637-638.
[100]
Ibid., 15: o.c., 616-618.
[101]
Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 27:
AAS 59 (1967), 271.
[102]
Cf. Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a liberdade
cristã e a libertação Libertatis conscientia (22 de
Março de 1987), 74: AAS 79 (1987), 587.
[103]
Cf. João Paulo II, Entrevista ao diário católico « La
Croix » de 20 de Agosto de 1997.
[104]
João Paulo II,
Discurso à Pontifícia Academia das Ciências Sociais
(27 de Abril de 2001): Insegnamenti XXIV/1 (2001),
800.
[105]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 17:
AAS 59 (1967), 265-266.
[106]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2003, 5: AAS
95 (2003), 343.
[107]
Cf. ibid., 5: o.c., 343.
[108]
Cf. Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 13:
Insegnamenti II/2 (2006), 781-782.
[109]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65:
AAS 59 (1967), 289.
[110]
Cf. ibid., 36-37: o.c., 275-276.
[111]
Cf. ibid., 37: o.c., 275-276.
[112]
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos
Apostolicam actuositatem, 11.
[113]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio
(26 de Março de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264; João
Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS
83 (1991), 832-833.
[114]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 77:
AAS 59 (1967), 295.
[115]
João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 6: AAS
82 (1990), 150.
[116]
Heráclito de Éfeso (± 535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H.
Diels-W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker (Weidmann,
Berlim [6]1952).
[117]
Cf. Pont. Conselho « Justiça e Paz »,
Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nn.
451-487.
[118]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 10: AAS
82 (1990), 152-153.
[119]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65:
AAS 59 (1967), 289.
[120]
Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2008, 7: AAS
100 (2008), 41.
[121]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Nações
Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti
IV//1 (2008), 618-626.
[122]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 13: AAS
82 (1990), 154-155.
[123]
João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1967), 36: AAS
83 (1991), 838-840.
[124]
Ibid., 38: o.c., 840-841; cf. Bento XVI,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 8:
Insegnamenti II/2 (2006), 779.
[125]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 2009), 41: AAS
83 (1991), 843-845.
[126]
Cf. ibid., 41: o.c., 843-845.
[127]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Evangelium vitae (25 de Março de 1995), 20: AAS
87 (1995), 422-424.
[128]
Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 85:
AAS 59 (1967), 298-299.
[129]
Cf. João Paulo II,
Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1998, 3: AAS
90 (1998), 150;
Discurso aos Membros da Fundação « Centesimus
annus » (9 de Maio de 1998), 2: Insegnamenti
XXI/1 (1998), 873-874;
Discurso às Autoridades Civis e Políticas e ao Corpo
Diplomático durante o encontro no « Wiener Hofburg »
(20 de Junho de 1998), 8: Insegnamenti XXI/1 (1998),
1435-1436;
Mensagem ao Reitor Magnífico da Universidade Católica «
Sacro Cuore » por ocasião do Dia Anual desta Instituição
(5 de Maio de 2000), 6: Insegnamenti XXIII/1
(2000), 759-760.
[130]
Segundo São Tomás, « ratio partis contrariatur rationi
personae », in III Sent. d. 5, 3, 2; e ainda « homo
non ordinatur ad communitatem politicam secundum se totum et
secundum omnia sua », in Summa Theologiae I-II, q.
21, a. 4, ad 3um.
[131]
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja
Lumen gentium, 1.
[132]
Cf. João Paulo II,
Discurso aos participantes na Sessão Pública das Academias
Pontifícias de Teologia e de São Tomás de Aquino (8
de Novembro de 2001), 3: Insegnamenti XXIX/2 (2001),
676-677.
[133]
Cf. Congr. da Doutrina da Fé, Decl. sobre a unicidade e
universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja
Dominus Iesus (6 de Agosto 2000), 22: AAS 92
(2000), 763-764;
Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à
participação e comportamento dos católicos na vida política
(24 de Novembro de 2002) 8: L'Osservatore Romano (ed.
portuguesa de 25/I/2005), 11.
[134]
Bento XVI, Carta enc.
Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 31: AAS
99 (2007), 1010;
Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional
da Igreja que está em Itália (19 de Outubro de
2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477.
[135]
João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS
83 (1991), 798-800; cf. Bento XVI,
Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional
da Igreja que está em Itália (19 de Outubro de
2006): Insegnamenti II/2 (2006), 471.
[136]
N. 12.
[137]
Cf. Pio XI, Carta enc.
Quadragesimo anno (15 de Maio de 1931): AAS
23 (1931), 203; João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 48: AAS
83 (1991), 852-854;
Catecismo da Igreja Católica, n. 1883.
[138]
Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55
(1963), 274.
[139]
Cf. Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 10.41:
AAS 59 (1967), 262.277-278.
[140]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos membros da Comissão Teológica Internacional
(5 de Outubro de 2007): Insegnamenti III/2 (2007),
418-421;
Discurso aos participantes no Congresso internacional sobre
« Lei Moral Natural » promovido pelo Pontifícia Universidade
Lateranense (12 de Fevereiro de 2007):
Insegnamenti III/1 (2007), 209-212.
[141]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos membros da Conferência Episcopal da Tailândia
em « Visita ad Limina » (16 de Maio de 2008):
Insegnamenti IV/1 (2008), 798-801.
[142]
Cf. Pont. Conselho da Pastoral para os Migrantes e os
Itinerantes, Instr.
Erga migrantes caritas Christi (3 de Maio de 2004):
AAS 96 (2004), 762-822.
[143]
João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 8: AAS
73 (1981), 594-598.
[144]
Discurso no final da Concelebração Eucarística por ocasião
do Jubileu dos Trabalhadores (1 de Maio de 2000):
Insegnamenti XXIII/1 (2000), 720.
[145]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS
83 (1991), 838-840.
[146]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Nações
Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti
IV/1 (2008), 618-626.
[147]
Cf. João XXIII, Carta enc.
Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55
(1963), 293; Pont. Conselho « Justiça e Paz »,
Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 441.
[148]
Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no
mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 82.
[149]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987),
43: AAS 80 (1988), 574-575.
[150]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 41:
AAS 59 (1967), 277-278; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.
past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo
Gaudium et spes, 57.
[151]
Cf. João Paulo II, Carta enc.
Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 5: AAS
73 (1981), 586-589.
[152]
Cf. Paulo VI, Carta ap.
Octogesima adveniens
(14 de Maio de 1971), 29: AAS 63 (1971), 420.
[153]
Cf. Bento XVI,
Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional
da Igreja que está em Itália (19 de Outubro de
2006): Insegnamenti II/2 (2006), 465-477;
Homilia da Santa Missa no « Islinger Feld » di Regensburg
(12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II/2 (2006),
252-256.
[154]
Cf. Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre algumas questões
de bioética
Dignitas personae (8 de Setembro de 2008): AAS
100 (2008), 858-887.
[155]
Cf. Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 3:
AAS 59 (1967), 258.
[156]
Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo
contemporâneo
Gaudium et spes, 14.
[157]
Cf. n. 42: AAS 59 (1967), 278.
[158]
Cf. Bento XVI, Carta enc.
Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 35: AAS
99 (2007), 1013-1014.
[159]
Paulo VI, Carta enc.
Populorum progressio (26 de Março de 1967), 42:
AAS 59 (1967), 278.
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