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S. S. o Papa BENTO XVI
Não basta falar.
Os Pastores devem tornar-se modelos do rebanho.
Bento XVI na homilia da Missa da solenidade de S. Pedro e S.
Paulo
Nesta
Segunda-feira, dia 29, Solenidade de São Pedro e São
Paulo, Bento XVI presidiu na Basílica de São Pedro a
celebração Eucarística durante a qual impôs o Pálio a 34
arcebispos metropolitas de todo o mundo. O metropolita
preside a uma província eclesiástica constituída por
diversas dioceses. A imposição do Pálio teve lugar no altar
da confissão da Basílica de São Pedro.
Nesta
Solenidade de São Pedro e São Paulo, o Patriarca Ecumênico
de Constantinopla, Bartolomeu I, enviou uma delegação para
participar na cerimônia de encerramento do Ano Paulino que
se realizou na Basílica de São Paulo fora de muros, na tarde
deste domingo. A delegação também participou na cerimônia,
desta manhã na Basílica de São Pedro.
- A
figura do Bispo pastor e defensor das almas, que procura ver
pessoas e realidades do ponto de vista de Deus, vivendo e
testemunhando a Palavra e a fé , procurando aprofundar a
razão da esperança: estas as linhas fundamentais da densa
homilia de Bento XVI, na Missa desta manhã, partindo da I
Carta de São Pedro – “texto riquíssimo, que provem do
coração e toca o coração” – disse.
“O que
é que nos diz São Pedro (nesta sua primeira Carta) sobre a
tarefa do padre, precisamente neste Ano sacerdotal –
interrogou-se o Papa. “Antes de mais – fez notar, ele
compreende o ministério sacerdotal totalmente a partir de
Cristo”. Chama a Cristo o “pastor e defensor… das
almas”. A palavra traduzida por “defensor” –
advertiu – no texto grego é “episcopos” (bispo), palavra que
tem na sua raiz o verbo “ver”, ser vigilante, não no sentido
externo, mas um ver do alto, das alturas de Deus, na
perspectiva de Deus.
“Cristo é o bispo das almas, diz-nos Pedro. Isso significa:
Ele vê na perspectiva de Deus. Olhando a partir de Deus,
tem-se uma visão de conjunto, vêem-se os perigos, assim como
também as esperanças e possibilidades. Na perspectiva de
Deus, vê-se a essência, vê-se o homem interior”.
A
palavra “bispo” aproxima-se muito da palavra “pastor” –
sublinhou Bento XVI. São dois conceitos intercambiáveis.
“É tarefa do pastor apascentar e defender o rebanho e
conduzi-lo às justas pastagens. Apascentar o rebanho quer
dizer preocupar-se de que as ovelhas encontrem o alimento
justo, seja saciada a sua fome e apagada a sua sede. Aparte
a metáfora, isto significa: a palavra de Deus é o nutrimento
de que o homem tem necessidade. É tarefa do reto Pastor
tornar sempre de novo presente a palavra de Deus e dar assim
nutrimento aos homens”.
Ele, o
Pastor reto, deve também saber resistir aos inimigos, aos
lobos. Deve caminhar à frente, indicar o caminho, manter a
unidade do rebanho…
“Não basta falar. Os Pastores devem tornar-se modelos do
rebanho. A palavra de Deus, quando é vivida, é trazida do
passado para o presente. É maravilhoso ver como nos santos a
palavra de Deus se torna uma palavra dirigida ao nosso
tempo. Em figuras como Francisco e depois de novo no Padre
Pio e muitos outros, Cristo torna-se verdadeiramente
contemporâneo da sua geração, saiu do passado e entrou no
presente. Ser pastor – modelo do rebanho – significa viver
agora a palavra, na grande comunidade da santa Igreja”.
O Papa
prosseguiu chamando a atenção para outra frase da I Carta de
São Pedro, muito comentada na Idade Média e de certo modo
redescoberta nos últimos tempos: “Adorai o Senhor,
Cristo, nos vossos corações, sempre prontos a responder a
quem quer que vos peça a razão da esperança que está em
vós”.
“A fé cristã é esperança. Abre o caminho para o futuro. E é
uma esperança que possui razoabilidade. É uma esperança cuja
razão podemos e devemos expor. A fé provém da Razão eterna
que entrou no nosso mundo e nos mostrou o verdadeiro Deus.
Vai para além da capacidade própria da nossa razão, assim
como o amor vê mais do que a simples inteligência”.
“Mas a fé fala à razão e no confronto dialético pode fazer
face à razão. Sem a contradizer, vai passo a passo com ela,
ao mesmo tempo que conduz para além dela – introduz na Razão
maior (superior) de Deus”.
“Como Pastores do nosso tempo, temos a tarefa de
compreender, nós próprios antes de mais, a razão da fé. A
tarefa de não a deixar permanecer simplesmente como uma
tradição, mas de a reconhecer como resposta às nossas
perguntas. A fé exige a nossa participação racional, que se
aprofunda e se purifica numa partilha de amor. Faz parte dos
nossos deveres como Pastores penetrar a fé com o pensamento,
para estarmos em condições de mostrar a razão da nossa
esperança na disputa de nosso tempo”.
Contudo – advertiu Bento XVI – como falar apenas não basta,
também não basta pensar. No segundo capítulo desta Carta,
São Pedro alude ao Salmo usado na Igreja primitiva no
contexto da comunhão – “Saboreai e vede como é bom o
Senhor”:
“Se no Sacramento encontramos o Senhor; se na oração falamos
com Ele; se nas decisões do quotidiano aderimos a Cristo –
então vemos cada vez mais quanto Ele é bom. Então
experimentamos que é bom estar com Ele. É dessa certeza
vivida que deriva depois a capacidade de comunicar aos
outros a fé, de modo credível. O Cura d’Ars não era um
grande pensador. Mas ele saboreava o Senhor. Vivia com Ele
nas minúcias do dia a dia e não apenas nas grandes
exigências do ministério pastoral. Deste modo se tornou
alguém que vê”.
A
concluir, Bento XVI comentou ainda uma expressão da Carta de
São Pedro: “Purificai as vossas almas com a obediência
à verdade”.
“É a obediência à verdade que torna pura a alma.
É o conviver com a falsidade que a contamina. A
obediência à verdade começa com as pequenas verdades do dia
a dia, que muitas vezes podem ser árduas e dolorosas. Esta
obediência estende-se depois à obediência sem reservas
perante a própria Verdade que é Cristo. Esta obediência
torna-nos não só puros, mas sobretudo também livres para o
serviço a Cristo e assim para a salvação do mundo”.
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