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A CATEQUESE
DO PAPA.
As culturas que se abrem à
Cristo
formam a universalidade da Igreja
Alocução da audiência geral de quarta-feira 18 de Fevereiro,
na Praça São Pedro, o Papa fala sobre Beda, o Venerável.
Prezados irmãos e irmãs
O
Santo do qual hoje nos aproximamos chama-se Beda e nasceu no
Nordeste da Inglaterra, exactamente na Northumbria, no ano
de 672/673.
Ele
mesmo narra que com sete anos de idade os seus parentes o
confiaram ao abade do vizinho mosteiro beneditino para que
fosse educado: "Neste mosteiro ele recorda desde então
sempre vivi, dedicando-me intensamente ao estudo da
Escritura e, enquanto eu observava a disciplina da Regra e o
compromisso quotidiano de cantar na igreja, sempre me
aprouve aprender, ou ensinar ou escrever" (Hisotia eccl.
Anglorum, v, 24).
Com
efeito, Beda tornou-se uma das figuras mais insignes de
erudito da alta Idade Média, podendo valer-se dos muitos
manuscritos preciosos que os seus abades, voltando das
viagens freqüentes ao continente e a Roma, lhe traziam. O
ensinamento e a fama dos escritos proporcionaram-lhes muitas
amizades com as principais personalidades do seu tempo, que
o encorajaram a continuar o seu trabalho, do qual muitos
beneficiavam.
Tendo
adoecido, não parou de trabalhar, conservando sempre uma
alegria interior que se expressava na oração e no canto.
Concluía a sua obra mais importante, a História
ecclesiastica gentis Anglorum, com esta invocação:
"Peço-te, ó bom Jesus, que benevolamente me permitiste
haurir as dóceis palavras da sua sabedoria, concede-me
benigno que um dia eu chegue a ti, fonte de toda a
sabedoria, e que eu permaneça sempre diante do teu rosto".
A morte arrebatou-o a 26 de Maio de 735: era o dia da
Ascensão.
As
Sagradas Escrituras são a fonte constante da reflexão
teológica de Beda.
Tendo em consideração um atento estudo crítico do texto
(chegou até nós um exemplar do monumental Codex Amiatinus
da Vulgata, no qual Beda trabalhou), ele comenta a
Bíblia, lendo-a em chave cristológica, ou seja, reúne duas
coisas: por um lado, ouve exatamente o que o texto
diz, quer realmente ouvir, compreender o próprio texto; por
outro, está convencido de que a chave para compreender a
Sagrada Escritura como única Palavra de Deus é Cristo e com
Cristo, na sua luz, compreende-se o Antigo e o Novo
Testamento como "uma" Sagrada Escritura.
As
vicissitudes do Antigo e do Novo Testamento caminham juntas,
são um caminho rumo a Cristo, embora sejam expressas com
diferentes sinais e instituições (aquela à qual ele chama
concordia sacramentorum). Por exemplo, a tenda da
aliança que Moisés levantou no deserto e o primeiro e
segundo templo de Jerusalém são imagens da Igreja, novo
templo edificado sobre Cristo e os Apóstolos com pedras
vivas, cimentadas pela caridade do Espírito.
E como
para a construção do antigo templo contribuíram também
pessoas pagãs, pondo à disposição materiais preciosos e a
experiência técnica dos seus mestres-de-obras, assim para a
edificação da Igreja contribuem apóstolos e mestres
provenientes não apenas das antigas linhagens judaica, grega
e latina, mas também dos novos povos, entre os quais apraz a
Beda enumerar os Iro-Celtas e os Anglo-Saxões.
São
Beda vê crescer a universalidade da Igreja, que não é
limitada a uma determinada cultura, mas compõe-se de
todas as culturas do mundo que devem abrir-se a Cristo e
encontrar nele o seu ponto de chegada.
Outro
tema apreciado por Beda é a história da Igreja. Depois de se
ter interessado pela época descrita nos Atos dos
Apóstolos, ele volta a percorrer a história dos Padres
e dos Concílios, persuadido de que a obra do Espírito Santo
continua na história. Nos Chronica Maiora Beda
delineia uma cronologia que se tornará a base do Calendário
universal "ab incarnatione Domini".
Já
desde então calculava-se o tempo a partir da fundação da
cidade de Roma. Vendo que o verdadeiro ponto de
referência, o centro da história, é o nascimento de Cristo,
Beda transmitiu-nos este calendário que lê a história a
partir da Encarnação do Senhor. Registra os primeiros seis
Concílios Ecumênicos e os seus desenvolvimentos,
apresentando fielmente a doutrina escatológica, mariológica
e soteriológica, e denunciando as heresias monofisita e
monotelita, inconolasta e neopelagiana. Enfim, redige com
rigor documentário e perícia literária a já mencionada
História Eclesiástica dos Povos Anglos, pela qual é
reconhecido como "o pai da historiografia inglesa".
Os
traços característicos da Igreja que Beda gostava de
evidenciar são:
a)
A catolicidade como fidelidade à tradição e, ao mesmo
tempo, abertura aos desenvolvimentos históricos, e como
busca da unidade na multiplicidade, na diversidade da
história e das culturas, segundo as diretrizes que o Papa
Gregório Magno tinha dado ao Apóstolo da Inglaterra,
Agostinho de Canterbury;
b)
a apostolicidade e a romanidade: a este propósito,
considera de primeira importância convencer todas as Igrejas
Iro-Celtas e dos Pitti a celebrar unitariamente a Páscoa
segundo o calendário romano. O Cálculo por ele
cientificamente elaborado para estabelecer a data exata da
celebração pascal, e por isso todo o ciclo do ano litúrgico,
tornou-se o texto de referência para toda a Igreja católica.
Beda
foi também um insigne mestre de teologia litúrgica. Nas
Homilias sobre os Evangelhos dominicais e festivos,
desempenha uma verdadeira mistagogia, educando os fiéis para
celebrar alegremente os mistérios da fé para os reproduzir
de maneira coerente na vida, à espera da sua plena
manifestação na volta de Cristo quando, com os nossos corpos
glorificados, seremos admitidos em procissão ofertorial na
liturgia eterna de Deus no céu.
Seguindo o "realismo" das catequeses de Cirilo, Ambrósio e
Agostinho, Beda ensina que os sacramentos da iniciação
cristã constituem cada fiel "não só cristão, mas Cristo".
Com efeito, cada vez que uma alma fiel acolhe e
conserva com amor a Palavra de Deus, à imitação de Maria,
concebe e gera novamente Cristo. E cada vez que um grupo de
neófitos recebe os sacramentos pascais, a Igreja "gera-se a
si mesma" ou, com uma expressão ainda mais ousada, a Igreja
torna-se "mãe de Deus", participando na geração dos seus
filhos, por obra do Espírito Santo.
Graças
a este seu modo de fazer teologia, entrelaçando Bíblia,
Liturgia e História,
Beda tem uma mensagem atual para os diversos "estados
de vida":
a)
aos estudiosos (doctores ac doctrices) recorda duas
tarefas essenciais: perscrutar as maravilhas da Palavra de
Deus para as apresentar de forma atraente aos fiéis;
expor as verdades dogmáticas, evitando as
complicações eréticas e seguindo a "simplicidade
católica", com a atitude dos pequenos e humildes, aos quais
Deus desejou revelar os mistérios do Reino;
b)
os pastores, por sua vez, devem dar prioridade à pregação,
não apenas mediante a linguagem verbal ou hagiográfica, mas
valorizando também ícones, procissões e peregrinações. A
eles, Beda recomenda o uso da língua vulgar, como ele mesmo
faz, explicando em Northumbro o "Pai-Nosso", o "Credo" e
continuando até ao último dia da sua vida o comentário, em
vulgar, ao Evangelho de João;
c)
às pessoas consagradas que se dedicam ao Ofício
divino, vivendo na alegria da comunhão fraterna e
progredindo na vida espiritual mediante a ascese e a
contemplação, Beda recomenda que se cuide do
apostolado ninguém tem o Evangelho só para si, mas deve
senti-lo como um dom também para os outros quer colaborando
com os Bispos em atividades pastorais de vários tipos a
favor das jovens comunidades cristãs, quer tornando-se
disponíveis para a missão evangelizadora junto dos pagãos,
fora do próprio país, como "peregrini pro amore Dei".
Colocando-se nesta perspectiva, no comentário ao Cântico
dos Cânticos Beda apresenta a Sinagoga e a Igreja como
colaboradoras na difusão da Palavra de Deus. Cristo Esposo
quer uma Igreja diligente, "bronzeada pelos cansaços da
evangelização" é clara a referência à palavra do Cântico dos
Cânticos (1, 5), onde a esposa diz: Nigra sumsed
formosa" (Sou morena, mas formosa) empenhada a arar
outros campos ou vinhas e a estabelecer entre as novas
populações "não uma cabana provisória, mas uma morada
estável", ou seja, a inserir o Evangelho no tecido social e
nas instituições culturais.
Nesta
perspectiva, o Santo Doutor exorta os fiéis leigos a
serem assíduos na instrução religiosa, imitando as
"insaciáveis multidões evangélicas, que não deixavam tempo
aos Apóstolos nem sequer para comer". Ensina-lhes a rezar
continuamente, "reproduzindo na vida aquilo que celebram na
liturgia", oferecendo todas as ações como sacrifício
espiritual em união com Cristo.
Aos
pais explica que também no seu pequeno âmbito doméstico
podem exercer "o ofício sacerdotal de pastores e de
guias", formando cristãmente os filhos, e afirma que conhece
muitos fiéis (homens e mulheres, casados ou
solteiros), "capazes de uma conduta irrepreensível
que, se forem oportunamente acompanhados, poderia
aproximar-se todos os dias da comunhão eucarística"
(Epist. ad Ecgberctum, ed. Plummer, pág. 149).
A fama
de santidade e sabedoria de que Beda gozava já durante a
vida levou-o a ganhar o título de "Venerável". Chama-lhe
assim também o Papa Sérgio I quando, em 701, escreve ao seu
abade pedindo que lhe permita vir temporariamente a Roma
para consultas sobre questões de interesse universal.
Depois
da morte, os seus escritos foram difundidos amplamente na
Pátria e no Continente europeu. O grande missionário da
Germânia, o Bispo São Bonifácio (+ 754), pediu várias vezes
ao Arcebispo de York e ao abade de Wearmouth que fizessem
transcrever algumas das suas obras e lhas mandassem, de tal
modo que também ele e os seus companheiros pudessem gozar da
luz espiritual que delas emanava.
Um
século mais tarde Notkero Galbulo, abade de São Galo (+
912), reconhecendo o extraordinário influxo de Beda,
comparou-o com um novo sol que Deus tinha feito nascer, não
do Oriente mas do Ocidente, para iluminar o mundo. À parte a
ênfase retórica, o fato é que, com as suas obras, Beda
contribuiu eficazmente para a construção de uma Europa
cristã, em que as diferentes populações e culturas se
amalgamaram entre si, conferindo-lhes uma fisionomia
unitária, inspirada na fé cristã.
Oremos
para que também hoje haja personalidades da estatura de Beda,
para manter todo o Continente unido; rezemos a fim de que
todos nós estejamos disponíveis a redescobrir as nossas
raízes comuns, para sermos construtores de uma Europa
profundamente humana e autenticamente cristã.
No
final da Audiência geral, o Santo Padre saudou os peregrinos
presentes.
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