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A CATEQUESE
DO PAPA.
A verdadeira autoridade é ponderada
porque Deus é razão criadora
Na audiência geral de quarta-feira, 10 de Junho, o Papa
falou sobre o teólogo irlandês João Escoto Erígena
Queridos irmãos e irmãs!
Hoje
gostaria de falar de um notável pensador do Ocidente
cristão: João Escoto Erígena, cujas origens porém são pouco
claras. Provinha certamente da Irlanda, onde nasceu no
início de 800, mas não sabemos quando deixou a sua Ilha para
atravessar a Mancha e assim começar a fazer parte plenamente
daquele mundo cultural que estava a renascer em volta dos
Carolíngios, e em particular de Carlos, o Calvo, na França
do século IX. Assim como não se conhece a data certa do seu
nascimento, também ignoramos o ano da sua morte
que, segundo os estudiosos, deveria contudo colocar-se por
volta do ano 870.
João
Escoto Erígena possuía uma cultura patrística, quer grega
quer latina, de primeira mão: de fato, conhecia diretamente
os escritos dos Padres latinos e gregos. Conhecia bem, entre
outras, as obras de Agostinho, de Ambrósio, de
Gregório Magno, grandes Padres do Ocidente cristão, mas
também conhecia bem o pensamento de Orígenes, de Gregório de
Nissa, de João Crisóstomo e de outros Padres cristãos
do Oriente não menos grandes.
Era um
homem excepcional, naquele tempo que dominava também a
língua grega. Demonstrou uma atenção muito particular por
São Máximo, o Confessor e, sobretudo, por Dionísio, o
Areopagita. Sob este pseudônimo esconde-se um escritor
eclesiástico do século V, da Síria, mas toda a Idade Média e
também João Escoto Erígena, estava convencida de que este
autor fosse idêntico a um discípulo direto de São Paulo, do
qual se fala nos Atos dos Apóstolos (17, 34).
Escoto
Erígena, convencido desta apostolicidade dos escritos de
Dionísio, qualificava-o "autor divino" por excelência; os
seus escritos foram por isso uma fonte eminente do seu
pensamento. João Escoto traduziu as suas obras em latim. Os
grandes teólogos medievais, como São Boaventura, conheceram
as obras de Dionísio através desta tradução.
Dedicou-se toda a vida a aprofundar e a desenvolver o seu
pensamento, haurindo destes escritos, a ponto que
ainda hoje às vezes pode ser difícil distinguir onde estamos
diante do pensamento de Escoto Erígena e onde, ao contrário,
de mais não faz do que repropor o pensamento do
Pseudodionísio.
Na
realidade, o trabalho teológico de João Escoto não teve
muita sorte. Não só o final da era carolíngia fez esquecer
as suas obras; também uma censura por parte da Autoridade
eclesiástica lançou uma sombra sobre a sua figura. Na
realidade, João Escoto representa um platonismo radical, que
por vezes parece aproximar-se de uma visão panteísta, mesmo
se as suas intenções pessoais subjetivas foram sempre
ortodoxas.
De
João Escoto Erígena chegaram até nós algumas obras, entre as
quais merecem ser recordadas, em particular, o tratado
"Sobre a divisão da natureza" e as
"Exposições sobre a hierarquia celeste de São Dionísio".
Nestas obras ele desenvolve estimulantes reflexões
teológicas e espirituais, que poderiam sugerir interessantes
aprofundamentos também aos teólogos contemporâneos.
Refiro-me, por exemplo, a quanto escreve sobre o dever de
exercer um discernimento apropriado sobre o que é
apresentado como auctoritas vera, ou sobre o
compromisso de continuar a procurar a verdade enquanto não
se alcançar uma certa experiência na adoração silenciosa de
Deus.
O
nosso autor diz: "Salus nostra ex fide inchoat: a nossa
salvação começa com a fé". Isto é, não podemos
falar de Deus partindo das nossas invenções, mas de quanto
Deus diz de si mesmo nas Sagradas Escrituras.
Contudo, dado que Deus diz unicamente a verdade, Escoto
Erígena está convencido de que a autoridade e a razão nunca
podem estar em contraste uma com a outra; está convencido de
que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia
coincidem.
Nesta
perspectiva escreve: "Qualquer tipo de autoridade que
não for confirmada por uma verdadeira razão deveria ser
considerada frágil... De fato, não é verdadeira autoridade,
a não ser a que coincide com a
verdade descoberta em virtude da razão,
mesmo que se trate de uma autoridade recomendada e
transmitida para utilidade das gerações vindouras pelos
santos Padres" (i, pl, 122, col. 513bc).
Por
conseguinte, ele admoesta: "Autoridade alguma te
atemorize ou te distraia de quanto te faz compreender a
persuasão obtida graças a uma reta contemplação racional. De
fato, a autêntica autoridade nunca contradiz a reta razão,
nem esta poderá jamais contradizer uma verdadeira
autoridade. Uma e outra provêm sem dúvida alguma da mesma
fonte, que é a sabedoria divina" (i, pl 122,
col. 511b). Vemos aqui uma corajosa afirmação do valor da
razão, fundada sobre a certeza de que a autoridade
verdadeira é ponderada, porque Deus é a razão criadora.
A
própria Escritura não evita, segundo Erígena, a necessidade
de ser abordada utilizando o mesmo critério de
discernimento. De fato, a Escritura afirma o teólogo
irlandês repropondo uma reflexão já presente em João
Crisóstomo mesmo provindo de Deus, não teria sido necessária
se o homem não tivesse pecado. Portanto, deve-se deduzir que
a Escritura foi dada por Deus com uma intenção pedagógica e
por condescendência, para que o homem pudesse recordar tudo
o que lhe tinha sido impresso no coração desde o momento da
sua criação, "à imagem e semelhança de Deus"
(cf. Gn 1, 26) e que a queda original lhe tinha feito
esquecer.
Erígena escreve nas Expositiones: "O homem não
foi criado para a Escritura, da qual não teria necessidade
se não tivesse pecado, mas ao contrário, a Escritura
embebida de doutrina e de símbolos foi dada ao homem. Graças
a ela, de fato, a nossa natureza racional pode ser
introduzida nos segredos da autêntica contemplação pura de
Deus" (ii, pl 122, col. 146c). A palavra da
Sagrada Escritura purifica a nossa razão um pouco cega e
ajuda-nos a voltar à recordação do que nós, enquanto imagem
de Deus, trazemos no nosso coração, infelizmente vulnerado
pelo pecado.
Isto
origina algumas conseqüências hermenêuticas, sobre o modo de
interpretar a Escritura, que podem indicar ainda hoje o
caminho justo para uma correta leitura da Sagrada Escritura.
De fato, trata-se de descobrir o sentido escondido no texto
sagrado e isto supõe uma particular prática interior, graças
à qual a razão se abre ao caminho seguro rumo à verdade.
Esta prática consiste em cultivar uma disponibilidade
constante à conversão.
De
fato, para chegar a uma visão profunda do texto é necessário
progredir simultaneamente na conversão do coração e na
análise conceptual da página bíblica quer ela seja de
caráter cósmico, histórico ou doutrinal. De fato, só
graças à constante purificação quer do olhar do coração quer
do olhar da mente se pode conquistar a exata compreensão.
Este
caminho inacessível, exigente e entusiasmante, feito de
contínuas conquistas e relativizações do saber humano,
conduz a criatura inteligente ao limiar do Mistério divino,
onde todas as noções acusam a própria debilidade e
incapacidade e por isso impõem, com a simples força livre e
doce da verdade, que se vá sempre além de tudo o que é
continuamente adquirido. O reconhecimento adorante e
silencioso do Mistério, que acaba na comunhão unificante,
revela-se por isso como o único caminho de uma relação com a
verdade que seja ao mesmo tempo a mais íntima possível e a
mais escrupulosamente respeitadora da alteridade.
João
Escoto utilizando também aqui um vocabulário querido à
tradição cristã de língua grega chamou a esta experiência
para a qual tendemos, "theosis" ou divinização, com
afirmações tão audaciosas que foi possível suspeitá-lo de
panteísmo heterodoxo. Permanece contudo forte a emoção face
a textos como o seguinte, no qual recorrendo à antiga
metáfora da fusão do ferro escreve: "Portanto, como
todo o ferro tornado ardente se derreteu a ponto de parecer
haver apenas fogo mas permanecendo contudo distintas as
substâncias de um e de outro, assim se deve aceitar que
depois do fim deste mundo toda a natureza, quer a corpórea
quer a incorpórea, manifeste apenas Deus e contudo permaneça
íntegra de tal modo que Deus possa ser de certa forma
compreendido, mesmo permanecendo incompreensível e a própria
criatura seja transformada, com admiração inefável, em Deus"
(v, pl 122, col. 451b).
Na
realidade, todo o pensamento teológico de João Escoto é a
demonstração mais evidente da tentativa de expressar o
dizível do Deus indizível, fundando-se unicamente no
mistério do Verbo feito carne em Jesus de Nazaré. As
numerosas metáforas por ele utilizadas para indicar esta
realidade inefável demonstram quanto ele está consciente da
absoluta inadequação das palavras com as quais falamos
destas coisas. E contudo permanece o encanto e aquela
atmosfera de autêntica experiência mística que se pode de
vez em quando verificar nos seus textos.
É
suficiente citar, como prova disto, uma página do De
divisione naturae que sensibiliza profundamente também o
coração dos crentes do século XXI: "Não se deve
desejar outra coisa escreve ele a não ser a alegria da
verdade que é Cristo, nem evitar outra coisa a não ser a Sua
ausência. De fato, ela deveria ser considerada a única causa
da total e eterna tristeza.
Priva-me de Cristo e não terei bem algum nem nada me
atemorizará como a sua ausência. O maior tormento de uma
criatura racional são a privação e a ausência d'Ele"
(v, pl 122, col. 989a). São palavras que
podemos fazer nossas, traduzindo-as em oração Àquele que
constitui o anseio também do nosso coração.
No
final da audiência geral, ao saudar em várias línguas os
fiéis presentes, Bento XVI disse aos de expressão
portuguesa:
Dirijo
agora uma cordial saudação a todos os peregrinos de língua
portuguesa, nomeadamente ao grupo brasileiro de Santa
Catarina e aos "pequenos cantores" de Amorim, Portugal,
pedindo à Virgem Mãe que guarde a vida e a família de cada
um com um canto de louvor perene a Deus e de bênção generosa
para quantos cruzam o seu caminho. Obrigado pela vossa
jubilosa participação neste encontro com o Sucessor de
Pedro. Sobre vós e vossos entes queridos, desça a minha
Bênção.
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