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CATEQUESE
DO PAPA BENTO XVI.
A ressurreição de Jesus
ilumina o enigma humano do sofrimento
Na audiência geral de quarta-feira, 15 de Abril,
que teve lugar na Praça de São Pedro na presença de
numerosos fiéis, o Papa recordou que a narração evangélica
não pode ser limitada a um mito "retomando e reapresentando
antigas e já consumadas teorias como novas e científicas".
Queridos irmãos e irmãs!
Esta
habitual Audiência geral da quarta-feira está hoje repleta
do júbilo espiritual, aquele júbilo que sofrimento ou pena
alguma podem cancelar, porque é alegria que brota da certeza
que Cristo, com a sua morte e ressurreição, triunfou
definitivamente sobre o mal e sobre a morte. "Cristo
ressuscitou! Aleluia!, canta a Igreja em festa. E este clima
de festa, estes sentimentos típicos da Páscoa, prolongam-se
não só durante esta semana a Oitava de Páscoa mas também nos
cinqüenta dias que vão até ao Pentecostes. Aliás,
podemos dizer: o mistério da Páscoa abraça todo o arco da
nossa existência.
Neste
tempo litúrgico são deveras muitas as referências bíblicas e
os estímulos à meditação que nos são oferecidos para
aprofundar o significado e o valor da Páscoa. A "via
crucis", que no Tríduo Santo repercorremos com Jesus até ao
Calvário revivendo a dolorosa paixão, na solene Vigília
pascal tornou-se a confortadora "via lucis".
Visto
a partir da ressurreição, podemos dizer que todo este
caminho de sofrimento é caminho de luz e de renascimento
espiritual, de paz interior e de esperança firme. Depois do
pranto, depois da desorientação da Sexta-Feira Santa,
seguida pelo silêncio cheio de expectativa do Sábado Santo,
na alvorada do "primeiro dia depois do sábado"
ressoou com vigor o anúncio da Vida que derrotou a morte:
"Dux vitae mortuus/ regnat vivus o Senhor da vida
estava morto; mas agora, vivo, triunfa!".
A
novidade perturbadora da ressurreição é tão importante que a
Igreja a proclama ininterruptamente, prolongando a sua
recordação sobretudo ao domingo: de fato, todos os domingos
são "dia do Senhor" e Páscoa semanal do povo
de Deus. Os nossos irmãos orientais, quase para evidenciar
este mistério de salvação que investe a nossa vida
quotidiana, chamam em língua russa ao domingo "dia da
ressurreição" (voskrescénje).
Portanto, é fundamental para a nossa fé e para o nosso
testemunho cristão proclamar a ressurreição de Jesus de
Nazaré como acontecimento real, histórico, confirmado por
muitas e respeitáveis testemunhas. Afirmamo-lo com vigor
porque, também neste nosso tempo, não falta quem procura
negar a sua historicidade reduzindo a narração evangélica a
um mito, a uma "visão" dos Apóstolos, retomando e
apresentando antigas e já consumadas teorias como novas e
científicas.
Certamente a ressurreição não foi para Jesus um simples
regresso à vida precedente. Neste caso, de fato, teria sido
uma coisa do passado: há dois mil anos alguém ressuscitou,
voltou à sua vida precedente, como por exemplo Lázaro. A
ressurreição situa-se noutra dimensão: é a passagem
para uma dimensão de vida profundamente nova, que diz
respeito também a nós, que envolve toda a família humana, a
história e o universo.
Este
acontecimento que introduziu uma nova dimensão de vida, uma
abertura deste nosso mundo à vida eterna, mudou a existência
das testemunhas oculares como demonstram as narrações
evangélicas e os outros escritos neotestamentários; é um
anúncio que inteiras gerações de homens e mulheres ao longo
dos séculos receberam com fé e testemunharam com freqüência
com o preço do seu sangue, sabendo que precisamente assim
entravam nesta nova dimensão da vida.
Também
este ano, na Páscoa ressoa inalterada e sempre nova, em
todos os recantos da terra, esta boa notícia: Jesus morto
na cruz ressuscitou, vive glorioso porque derrotou o poder
da morte, levou o ser humano a uma comunhão nova de vida com
Deus e em Deus. Esta é a vitória da Páscoa, a nossa
salvação! Podemos, portanto, cantar com Santo Agostinho:
"A ressurreição de Cristo é a nossa esperança", porque
nos introduz num futuro novo.
É
verdade: a ressurreição de Jesus funda a nossa firme
esperança e ilumina toda a nossa peregrinação terrena,
inclusive o enigma humano do sofrimento e da morte. A fé em
Cristo crucificado e ressuscitado é o âmago de toda a
mensagem evangélica, o núcleo do nosso "Credo". Deste
"Credo" essencial podemos encontrar uma expressão autorizada
num conhecido trecho paulino, contido na Primeira Carta
aos Coríntios (15, 3-8) no qual, o Apóstolo, para
responder a alguns da comunidade de Corinto que
paradoxalmente proclamavam a ressurreição de Jesus mas
negavam a dos mortos a nossa esperança transmite fielmente o
que ele Paulo tinha recebido da primeira comunidade
apostólica sobre a morte e ressurreição do Senhor.
Ele
inicia com uma afirmação quase peremptória:
"Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos anunciei, o qual
recebestes e no qual perseverais. Por ele sereis salvos, se
o tiverdes como vo-lo transmiti; de outra forma, tereis
acreditado em vão" (vv. 1-2). Acrescenta
imediatamente que lhes transmitiu o que ele mesmo tinha
recebido. Segue depois a perícope que ouvimos no início
deste nosso encontro. São Paulo apresenta antes de tudo a
morte de Jesus e coloca, num texto tão pobre, dois
complementos à notícia de que "Cristo morreu". O
primeiro é: morreu "pelos nosso pecados"; e o seguinte:
"segundo as Escrituras" (v. 3).
Esta
expressão "segundo as Escrituras" coloca o acontecimento da
morte do Senhor em relação com a história da aliança
veterotestamentária de Deus com o seu povo, e faz-nos
compreender que a morte do Filho de Deus pertence ao tecido
da história da salvação, e aliás, faz-nos compreender que
esta história recebe dela a sua lógica e o seu verdadeiro
significado.
Até
àquele momento a morte de Cristo tinha permanecido quase um
enigma, cujo êxito ainda era incerto. No mistério pascal
cumprem-se as palavras da Escritura, isto é, esta morte
realizada "segundo as Escrituras" é um acontecimento que tem
em si o logos, uma lógica: a morte de Cristo
testemunha que a Palavra de Deus se fez totalmente "carne",
"história" humana. Compreende-se, de outro acréscimo feito
por Paulo, o como e o porquê isto aconteceu: Cristo morreu
"pelos nosso pecados".
Com
estas palavras o texto paulino parece retomar a profecia de
Isaías contida no Quarto Canto do Servo de Deus (cf.
Is 53, 12). O Servo de Deus assim diz o canto
"despojou-se até à morte", carregou "os pecados de muitos",
e intercedendo pelos "culpados" pôde proporcionar o dom da
reconciliação dos homens entre si e dos homens com Deus: a
sua é portanto uma morte que põe fim à morte; o
caminho da Cruz leva à Ressurreição.
Nos
versículos que seguem, o Apóstolo detém-se depois sobre a
ressurreição do Senhor. Ele diz que Cristo
"ressuscitou no terceiro dia segundo as Escrituras".
De novo: "segundo as Escrituras"! Não poucos
exegetas entrevêem na expressão: "ressuscitou no
terceiro dia segundo as Escrituras" uma
significativa referência a quanto lemos no Salmo 16,
no qual o Salmista proclama: "Vós não me entregareis
à mansão dos mortos, nem deixareis que o Vosso amigo veja o
sepulcro" (v. 10).
Este é
um dos textos do Antigo Testamento, citados com freqüência
no cristianismo primitivo, para provar o caráter messiânico
de Jesus. Dado que segundo a interpretação judaica a
corrupção começava depois do terceiro dia, a palavra
da Escritura cumpre-se em Jesus que ressuscitou no terceiro
dia, isto é, antes que comece a corrupção.
São
Paulo, ao transmitir fielmente o ensinamento dos apóstolos,
ressalta que a vitória de Cristo sobre a morte acontece
através do poder criador da Palavra de Deus. Este poder
divino dá esperança e alegria: é este definitivamente o
conteúdo libertador da revelação pascal. Na Páscoa, Deus
revela-se a Si mesmo e ao poder do amor trinitário que
destrói as forças destruidoras do mal e da morte.
Queridos irmãos e irmãs, deixemo-nos iluminar pelo esplendor
do Senhor ressuscitado. Acolhamo-lo com fé e aderamos
generosamente ao seu Evangelho, como fizeram as testemunhas
privilegiadas da sua ressurreição; como fez, alguns anos
mais tarde, São Paulo que encontrou o Mestre divino de modo
extraordinário no caminho de Damasco. Não podemos conservar
só para nós o anúncio desta Verdade que muda a vida de
todos.
E com
humilde confiança rezamos: "Jesus, que ao ressuscitar
dos mortos antecipastes a nossa ressurreição, nós cremos em
Ti!". Apraz-me concluir com uma exclamação que
Silvano de Monte Athos gostava de repetir: "Rejubila,
ó minha alma. É sempre Páscoa, porque Cristo ressuscitado é
a nossa ressurreição!".
Que a
Virgem Maria nos ajude a cultivar em nós, e à nossa volta,
este clima de alegria pascal, para sermos testemunhas do
Amor divino em cada situação da nossa existência. Mais uma
vez, Boa Páscoa a todos vós!
No final da Audiência geral, saudando em várias línguas
os fiéis presentes, o Papa disse aos de expressão
portuguesa:
Amados
peregrinos de língua portuguesa alegrai-vos e exultai
comigo, porque o Senhor Jesus ressuscitou. A ressurreição de
Cristo é a nossa esperança! Este pregão pascal ressoa por
toda a terra: ressoa no coração dos brasileiros e dos
portugueses de Lamego e da diocese de Coimbra! Com alegria,
saúdo a comunidade do seu Seminário Maior que, há 250 anos,
facilita esta passagem do testemunho da ressurreição, com a
formação de novos arautos e servidores.
Sobre
todos, desça a minha Bênção. Ad multos annos!
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