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A CATEQUESE
DO PAPA.
A FORÇA DA
IGREJA VEM DE CRISTO.
Alocução da audiência geral de quarta-feira, 14 de Janeiro,
na Sala Paulo VI, sobre a visão de São Paulo
Queridos irmãos e irmãs!
Entre
as Cartas do epistolário Paulino, há duas, aos Colossenses e
aos Efésios, que em certa medida se podem considerar gêmeas.
De fato, as duas contêm expressões que se encontram só
nelas, e foi calculado que mais de um terço das palavras da
Carta aos Colossenses se encontra também na Carta
aos Efésios. Por exemplo, enquanto em Colossenses
se lê literalmente o convite: "admoestando-vos... com
salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando... louvores a
Deus em vossos corações" (Cl 3, 16), em
Efésios recomenda-se igualmente que se recite
"entre vós salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e
louvando ao Senhor em vossos corações" (Ef 5,
19).
Poderíamos meditar sobre estas palavras: o coração
deve cantar, e assim também a voz, com salmos e hinos para
entrar na tradição da oração de toda a Igreja do Antigo e do
Novo Testamento; aprendemos assim a estar juntamente conosco
e entre nós, e com Deus. Além disso, nas duas
Cartas encontra-se um chamado "código doméstico",
ausente das outras Cartas paulinas, ou seja, uma série de
recomendações dirigidas a maridos e esposas, a pais e
filhos, a senhores e escravos (cf. respectivamente Cl
3, 18-4, 1 e Ef 5, 22-6, 9).
É
ainda mais importante verificar que só nestas duas Cartas
é confirmado o título de "cabeça", kefalé, dado a
Jesus Cristo. E este título é empregue num nível duplo.
Num primeiro sentido, Cristo é entendido como cabeça da
Igreja (cf. Cl 2, 18-19 e Ef 4, 15-16). Isto
tem dois significados: o primeiro, que ele é o governante,
o dirigente, o responsável que guia a comunidade cristã como
seu chefe e Senhor (cf. Cl 1, 18): "Ele é a
cabeça do Corpo, a Igreja"; e depois o outro
significado é que ele é como a cabeça que alimenta e une
todos os membros do corpo sobre o qual foi elegido (de fato,
segundo Cl 2, 19) é preciso "manter-se
vinculado à Cabeça, pela qual todo o corpo é alimentado e
unido"): ou seja, não é só alguém que dá ordens,
mas alguém que organicamente está unido a nós, do qual vem
também a força de agir de modo reto.
Nos
dois casos, a Igreja é considerada submetida a Cristo, quer
para seguir a sua orientação superior os mandamentos quer
para receber todas as influências vitais que d'Ele promanam.
Os seus ensinamentos não são palavras, mandamentos, mas
forças vitais que provêm d'Ele e nos ajudam.
Esta
idéia é desenvolvida de modo particular em Efésios, onde até
os ministérios da Igreja, em vez de serem reconduzidos ao
Espírito Santo (como 1 Cor 12) são conferidos por
Cristo ressuscitado: foi Ele quem "estabeleceu alguns
como apóstolos, outros como profetas, outros como
evangelistas, outros como pastores e mestres" (4,
11). E é d'Ele que "o corpo inteiro, coordenado e
unido, por meio de todas as junturas, opera o seu
crescimento orgânico... a fim de se edificar na caridade"
(4, 16). De fato, Cristo dedicou-se totalmente a
"apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem
ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada"
(Ef 5, 27). Com isto diz-se que a força com a qual
constrói a Igreja, a guia e lhe dá também a justa
orientação, é precisamente o seu amor.
Portanto, o primeiro significado é Cristo Cabeça da Igreja:
quer no que se refere à condução, quer, sobretudo, no que
diz respeito à inspiração e revitalização pelo seu amor.
Depois, num segundo sentido, Cristo é considerado não só
como cabeça da Igreja, mas como cabeça dos poderes celestes
e de toda a criação. Assim em Colossenses lemos que
Cristo "despojou os Principados e as Potestades,
exibiu-os publicamente, triunfando deles pela Cruz"
(2, 15). Analogamente em Efésios encontramos escrito
que, com a ressurreição, Deus colocou Cristo "acima de
todo o Principado, Potestade, Virtude e Dominação e acima de
todo o nome que se evoca, não só neste mundo como também no
futuro" (1, 21). Com estas palavras as duas
Cartas entregam-nos uma mensagem altamente positiva e
fecunda. É esta: Cristo não teme qualquer eventual
concorrente, porque é superior a qualquer tipo de poder que
presumisse humilhar o homem. Só Ele "nos amou e por nós se
entregou" (Ef 5, 2). Por isso, se estamos
unidos a Cristo, não devemos temer inimigo algum nem
qualquer adversidade; mas isto significa portanto que
devemos manter-nos muito firmes a Ele, sem abrandar a presa!
Para o
mundo pagão, que acreditava num mundo cheio de espíritos, em
grande parte perigosos e dos quais era preciso defender-se,
aparecia como uma verdadeira libertação o anúncio de que
Cristo era o único vencedor e que quem estava com Cristo
ninguém devia temer. O mesmo é válido também para o
paganismo de hoje, porque os atuais seguidores de
semelhantes ideologias vêem o mundo cheio de poderes
perigosos. A estes é preciso anunciar que Cristo é o
vencedor, de modo que quem está com Cristo, quem permanece
unido a Ele, não deve temer nada nem ninguém.
Parece-me que isto é importante também para nós, que devemos
aprender a enfrentar todos os receios, porque Ele está acima
de qualquer dominação, é o verdadeiro Senhor do mundo.
Até a
criação inteira Lhe está submetida, e para Ele converge como
para a própria cabeça. São célebres as palavras da Carta
aos Efésios, que fala do projeto de Deus de
"recapitular em Cristo todas as coisas, as do céu e as da
terra" (1, 10). Analogamente na Carta aos
Colossenses lê-se que "por meio d'Ele todas as
coisas foram criadas, as do céu e as da terra, as visíveis e
as invisíveis" (1, 16) e que pacificou "pelo
sangue da Sua Cruz, tanto as da terra como as dos Céus"
(1, 20). Portanto não há, por um lado, o grande mundo
material e, por outro, esta pequena realidade da história da
nossa terra, o mundo das pessoas: tudo é um em Cristo. Ele
é a cabeça da criação; também o cosmos foi por Ele criado,
criado para nós porque estamos unidos a Ele. É uma visão
racional e personalista do universo. E diria que não era
possível conceber uma visão mais universalista do que esta,
e ela convêm só a Cristo ressuscitado. Cristo é o
Pantokrátor, ao qual estão submetidas todas as coisas:
o pensamento dirige-se precisamente para Cristo Pantocrator,
que enche a bacia absidal das igrejas bizantinas, por vezes
representado sobre um arco-íris para indicar a sua
equiparação ao próprio Deus, a cuja direita está sentado
(cf. Ef 1, 20; Cl 3, 1), e portanto também a
sua inigualável função de condutor dos destinos humanos.
Uma
visão como esta só é concebível da parte da Igreja, não no
sentido de que ela pretenda indevidamente apropriar-se
daquilo a que não tem direito, mas num sentido duplo: seja
porque a Igreja reconhece que contudo Cristo é maior do que
ela, dado que pelo seu senhorio se alarga também para além
dos seus confins, e seja porque só a Igreja é qualificada
como Corpo de Cristo, e não a criação. Tudo isto significa
que devemos considerar positivamente as realidades terrenas,
porque Cristo as recapitula em si, e de igual modo devemos
viver em plenitude a nossa específica identidade eclesial,
que é a mais homogênea com a identidade do próprio Cristo.
Há
depois também um conceito especial, que é típico destas duas
Cartas, que é o do "mistério". Uma vez fala-se do
"mistério da vontade" de Deus (Ef 1, 9) e
outras vezes do "mistério de Cristo" (Ef
3, 4; Cl 4, 3) ou até do "mistério de Deus, que é
Cristo, no qual estão escondidos os tesouros da sabedoria e
do conhecimento" (cf. Cl 3, 2-3). Isto significa o
imperscrutável desígnio divino sobre o destino do homem, dos
povos e do mundo. Com esta linguagem as duas Epístolas
dizem-nos que é em Cristo que se encontra o cumprimento
deste mistério.
Se
estamos com Cristo, mesmo se não podemos intelectualmente
compreender tudo, sabemos que estamos no núcleo do
"mistério" e no caminho da verdade. É Ele na sua totalidade,
e não só num aspecto da sua pessoa ou num momento da sua
existência, que traz em si a plenitude do insondável plano
divino de salvação. N'Ele assume forma aquela a que se chama
"a multiforme sabedoria de Deus (Ef 3,
10), porque n'Ele "habita corporalmente toda a
plenitude divina" (Cl 2, 9).
Portanto, de agora em diante, não é possível pensar e adorar
o beneplácito de Deus, a sua soberana disposição, sem nos
conformarmos pessoalmente com o próprio Cristo, no qual
aquele "mistério" se encarna e pode ser visivelmente
sentido. Chega-se assim a contemplar a "insondável
riqueza de Cristo" (Ef 3, 8), que supera
qualquer compreensão humana. Não que Deus não tenha
deixado sinais da sua passagem, porque é o próprio Cristo a
pegada de Deus, a sua extrema marca; mas apercebemo-nos de
"qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade"
deste mistério "que excede toda a ciência" (Ef
3, 18-19).
As
categorias intelectuais sozinhas manifestam-se insuficientes
e, reconhecendo que muitas coisas superam as nossas
capacidades racionais, devemo-nos confiar à contemplação
humilde e jubilosa não só da mente mas também do coração. De
resto, os Padres da Igreja dizem-nos que o amor compreende
mais do que só a razão.
Deve
ser dita uma última palavra sobre o conceito, já mencionado,
relativo à Igreja como parceira esponsal de Cristo. Na
segunda Carta aos Coríntios o apóstolo Paulo tinha
comparado a comunidade cristã com uma noiva, escrevendo
assim: "Sinto por vós um santo ciúme, por vos ter
desposado com um único esposo, como virgem pura oferecida a
Cristo" (2 Cor 11, 2). A Carta aos Efésios
desenvolve esta imagem, esclarecendo que a Igreja não
é só uma esposa prometida, mas é a esposa real de Cristo.
Ele,
por assim dizer, conquistou-a, e fê-lo ao preço da sua
vida: como diz o texto, "entregou-se a Si mesmo por
ela" (Ef 5, 25). Qual demonstração de
amor pode ser maior do que esta? Mais ainda, ele está
preocupado com a sua beleza: não só com a beleza adquirida
no batismo, mas também com a que deve crescer todos os dias
graças a uma vida irrepreensível "sem mancha nem ruga", no
seu comportamento moral (cf. Ef 5, 26-27).
Daqui
à comum experiência do matrimônio cristão, o passo é breve;
aliás, nem sequer é bem claro para o autor da Carta o
ponto de referência inicial: se é a relação
Cristo-Igreja, em cuja luz considerar a união do homem e da
mulher, ou se o fato experiencial da união conjugal, em cuja
luz considerar a relação entre Cristo e a Igreja.
Mas ambos os aspectos se esclarecem reciprocamente:
aprendemos o que é o matrimônio à luz da comunhão de Cristo
e da Igreja, aprendemos como Cristo se une a nós pensando no
mistério do matrimônio. Contudo, a nossa Carta
situa-se quase a meio caminho entre o profeta Oséias, que
indicava a relação entre Deus e o seu povo nos termos de
núpcias já realizadas (cf. Os 2, 4.16.21), e o
Vidente do Apocalipse, que perspectivará o encontro
escatológico entre a Igreja e o Cordeiro como umas núpcias
jubilosas e indefectíveis (cf. Ap 19, 7-9;
21, 9).
Haveria ainda muito a dizer, mas parece-me que, do que foi
exposto, já se pode compreender que estas duas Cartas são
uma grande catequese, da qual podemos aprender não só
como ser bons cristãos, mas também como tornar-nos realmente
homens. Se começamos a compreender que a criação é a marca
de Cristo, aprendemos a nossa reta relação com a
criação, com todos os problemas da conservação do cosmos.
Aprendemos a vê-lo com a razão, mas com uma razão movida
pelo amor, e com a humildade e o respeito que permitem agir
de modo reto. E se pensamos que a Igreja é o Corpo de
Cristo, que Cristo se entregou a Si mesmo por ela,
aprendemos a viver com Cristo o amor recíproco, o amor que
nos une a Deus e que nos mostra no outro a imagem do próprio
Cristo.
Peçamos ao Senhor que nos ajude a meditar bem a Sagrada
Escritura, a sua Palavra, e assim a aprender realmente a
viver bem.
No final da audiência geral o Santo Padre saudou em
várias línguas os fiéis presentes.
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