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A CATEQUESE
DO PAPA.
A fé não é só pensamento
mas diz também respeito ao coração e aos sentidos
"A experiência da fé empenha "não só a mente e o coração,
mas também os sentidos", disse Bento XVI falando do
ensinamento do monge Rabano Mauro, na audiência geral de
quarta-feira, 3 de Junho, na Praça de São Pedro.
Caros
irmãos e irmãs
Hoje
gostaria de falar de uma personagem do Ocidente latino
verdadeiramente extraordinário: o monge Rabano Mauro.
Juntamente com homens como Isidoro de Sevilha, Beda o
Venrável e Ambrósio Autperto, de quem já falei em
catequeses precedentes, ao longo dos séculos da chamada Alta
Idade Média ele soube manter o contacto com as grandes
culturas dos antigos sábios e dos Padres cristãos.
Recordado frequentemente como "praeceptor Germaniae",
Rabano Mauro teve uma fecundidade extraordinária. Com a sua
capacidade de trabalho absolutamente excepcional, talvez
tenha contribuído mais do que todos para manter viva a
cultura teológica, exegética e espiritual, da qual teriam
haurido os séculos sucessivos. Nele inspiram-se quer grandes
personagens pertencentes ao mundo dos monges, como Pier
Damiani, Pedro o Venerável e Bernardo de Claraval, quer
também um número cada vez mais consistente de "clérigos"
do clero secular, que durante os séculos XII-XIII deram
vida a um dos florescimentos mais bonitos e fecundos do
pensamento humano.
Tendo
nascido em Mainz por volta de 760, Rabano entrara no
mosteiro extremamente jovem: foi-lhe acrescentado o nome de
Mauro precisamente com referência ao jovem Mauro que,
segundo o Livro II dos Diálogos de São
Gregório Magno, fora confiado quando era ainda criança pelos
seus pais, nobres romanos, ao abade Bento de Núrsia. Esta
inserção precoce de Rabano como "puer oblatus" no
mundo monástico beneditino, e os frutos que obteve
para o seu crescimento humano, cultural e espiritual,
abririam sozinhos uma espiral interessantíssima não só sobre
a vida dos monges e da Igreja, mas também sobre toda a
sociedade da sua época, habitualmente qualificada como
"carolíngia". Deles, ou talvez de si mesmo, Rabano Mauro
escreve: "Há alguns que têm a sorte de ser
introduzidos no conhecimento das Escrituras desde a tenra
infância" ("a cunabulis suis") e foram
tão bem nutridos com o alimento oferecido pela Santa Igreja
que, com a educação apropriada, puderam ser promovidos às
ordens sagradas mais altas" (pl 107, col.
419 bc).
A
cultura extraordinária, pela qual Rabano Mauro se
distinguia, chamou depressa a atenção dos grandes do seu
tempo. Tornou-se conselheiro de príncipes. Empenhou-se para
garantir a unidade do império e, a nível cultural mais
amplo, nunca deixou de oferecer a quem o interrogava uma
resposta ponderada, que tirava preferivelmente da Bíblia e
dos textos dos santos Padres. Eleito primeiro Abade do
famoso mosteiro de Fulda e depois Arcebispo da cidade natal,
Mainz, não cessou por isso de continuar os seus estudos,
demonstrando com o exemplo da sua vida que se pode estar
simultaneamente à disposição dos outros, sem se privar por
isso de um tempo côngruo para a reflexão, o estudo e a
meditação. Assim Rabano Mauro foi exegeta, filósofo,
poeta, pastor e homem de Deus.
As
dioceses de Fulda, Mainz, Limbourg e Wroclaw veneram-no como
Santo ou Beato. As suas obras completam seis volumes da
Patrologia Latina do Migne. É a ele que se deve,
provavelmente, um dos hinos mais bonitos e conhecidos da
Igreja latina, o "Veni Creator Spiritus", síntese
extraordinária de pneumatologia cristã. O primeiro
compromisso teológico de Rabano manifestou-se, com efeito,
sob a forma de poesia e teve como objeto o mistério da Santa
Cruz, numa obra intitulada: "De laudibus Sanctae Crucis",
concebida de maneira a propor não somente conteúdos de
conceito, mas também estímulos mais requintadamente
artísticos, utilizando tanto a forma poética como a
pictórica no interior do mesmo códice manuscrito.
Propondo iconograficamente nas
entrelinhas do seu escrito a imagem de Cristo crucificado,
ele por exemplo escreve: "Eis a imagem do Salvador
que, com a posição dos seus membros, torna sagrada para nós
a salubérrima, dulcíssima e amadíssima forma da Cruz, a fim
de que, acreditando no seu nome e obedecendo aos seus
mandamentos, possamos obter a vida eterna graças à sua
Paixão. Por isso, cada vez que elevarmos o olhar para a
Cruz, recordemo-nos daquele que padeceu por nós para nos
tirar do poder das trevas, aceitando a morte para nos tornar
herdeiros da vida eterna" (Lib. 1, Fig. 1,
pl 107 col. 151 c).
Este
método de combinar todas as artes, o intelecto, o
coração e os sentidos, que vinha do Oriente, teria
tido um desenvolvimento enorme no Ocidente, atingindo níveis
inigualáveis nos códices miniaturados da Bíblia e em outras
obras de fé e de arte, que floresceram na Europa até à
invenção da imprensa e além dela também. De qualquer modo,
isto demonstra que Rabano Mauro tem uma consciência
extraordinária da necessidade de empenhar, na experiência da
fé, não apenas a mente e o coração, mas também os sentidos
mediante aqueles outros aspectos do gosto estético e da
sensibilidade humana que levam o homem a fruir da verdade
com a totalidade do seu ser,
"espírito, alma e corpo". Isto é importante:
a fé não é só pensamento, mas refere-se a todo o nosso ser.
Dado
que Deus se fez homem em carne e osso, entrando no mundo
sensível, nós em todas as dimensões do nosso ser temos que
procurar e encontrar Deus. Assim a realidade de Deus,
mediante a fé, penetra no nosso ser transformando-o.
Por isso Rabano Mauro concentrou a sua atenção sobre tudo
na Liturgia, como síntese de todas
as dimensões da nossa percepção da realidade.
Esta
intuição de Rabano Mauro torna-o extraordinariamente atual.
Dele permaneceram inclusive os famosos "Carmina",
propostos para ser utilizados principalmente nas celebrações
litúrgicas. Com efeito, dado que Rabano era acima de
tudo um monge, era totalmente evidente o seu interesse pela
celebração litúrgica. Porém, ele não se dedicava à
arte poética como fim em si mesma, mas subordinava a arte e
qualquer outro tipo de saber ao aprofundamento da Palavra de
Deus. Por isso, com compromisso e rigor extremos, procurou
introduzir os seus contemporâneos, mas em primeiro lugar os
ministros (bispos, presbíteros e diáconos), na
compreensão do significado profundamente teológico e
espiritual de todos os elementos da celebração litúrgica.
Assim,
tentou compreender e propor aos outros os significados
teológicos escondidos nos ritos, inspirando-se na Bíblia e
na tradição dos Padres. Não hesitava em declarar,
por honestidade mas também para dar maior importância às
suas explicações, as fontes patrísticas às quais devia o seu
saber. Todavia, servia-se das mesmas com liberdade e
discernimento atento, dando continuidade ao desenvolvimento
do pensamento patrístico.
Por
exemplo, no final da "Epistola prima", dirigida a um
"corepiscopo" da diocese de Mainz, depois de ter respondido
aos pedidos de esclarecimento a respeito do comportamento
que se devia ter no exercício da responsabilidade pastoral,
prossegue: "Escrevemos-te tudo isto do modo como o
deduzimos das Sagradas Escrituras e dos cânones dos Padres.
Tu porém, santíssimo homem, toma as tuas decisões como
melhor te parecer, caso por caso, procurando moderar a tua
avaliação de forma a garantir em tudo a discrição, porque
esta é a mãe de todas as virtudes" (Epistulae,
i, pl 112, col. 1510 c).
Assim,
vê-se a continuidade da fé cristã, que tem os seus
primórdios na Palavra de Deus; porém, ela é sempre viva,
desenvolve-se e exprime-se de modos novos, sempre em
coerência com toda a construção, com todo o edifício da fé.
Dado que uma parte integrante da celebração litúrgica é a
Palavra de Deus, a ela se dedicou Rabano Mauro com o máximo
empenhamento durante toda a sua existência.
Ofereceu explicações exegéticas apropriadas praticamente
para todos os livros bíblicos do Antigo e do Novo Testamento
com uma intenção claramente pastoral, que justificava com
palavras como estas: "Escrevi estas coisas...
resumindo explicações e propostas de muitos outros para
oferecer um serviço ao leitor pobre que não pode ter à
disposição muitos livros, mas também para ajudar aqueles que
em muitas coisas não conseguem entrar em profundidade na
compreensão dos significados descobertos pelos Padres"
(Commentariorum in Matthaeum praefatio, pl 107, col.
727 d). Com efeito, quando comentava os textos bíblicos,
hauria a mãos-cheias dos Padres antigos, com especial
predileção por Jerônimo, Ambrósio, Agostinho e Gregório
Magno.
Depois, a acentuada sensibilidade pastoral levou-o a
enfrentar sobretudo um dos problemas mais sentidos pelos
fiéis e pelos ministros sagrados do seu tempo: o da
Penitência. Efetivamente, foi compilador de "Penintenciários"
assim eram chamados nos quais, segundo a sensibilidade
dessa época, eram enumerados pecados e penas
correspondentes, utilizando na medida do possível motivações
tiradas da Bíblia, das decisões dos Concílios e das
Decretais dos Papas. De tais textos serviram-se
inclusive os "Carolíngios" na sua tentativa de reforma da
Igreja e da sociedade. A esta mesma intenção pastoral
correspondiam obras como "De disciplina ecclesiastica"
e "De institutione clericorum", nos quais,
inspirando-se principalmente em Agostinho, Rabano explicava
aos simples e ao clero da sua diocese os rudimentos
fundamentais da fé cristã: tratava-se de uma espécie de
pequenos catecismos.
Gostaria de concluir a apresentação deste grande "homem de
Igreja", citando algumas das suas palavras em que se
refletem a sua convicção de base: "Quem é negligente
na contemplação ("qui vacare Deo negligit"),
priva-se sozinho da visão da luz de Deus; além disso,
quem se deixa surpreender de modo indiscreto pelas
preocupações e permite que os seus pensamentos sejam
alterados pelo tumulto das coisas do mundo, condena-se à
absoluta impossibilidade de penetrar os segredos do Deus
invisível" (Lib. i, pl 112, col.
1263 a).
Penso
que Rabano Mauro dirige estas palavras também a nós, hoje:
nas horas de trabalho, com os seus ritmos frenéticos,
e nos períodos de férias, temos que reservar momentos para
Deus, abrir-lhe a nossa vida, dirigindo-lhe um pensamento,
uma reflexão, uma breve oração e principalmente não podemos
esquecer que o domingo é o dia do Senhor, o dia da liturgia,
para vislumbrar na beleza das nossas igrejas, da música
sacra e da Palavra de Deus, a própria beleza de Deus,
deixando-O entrar no nosso ser. Somente assim a nossa vida
se tornará grande, verdadeira.
No
final da audiência geral, o Papa saudou em várias línguas os
fiéis presentes, dizendo em português:
Com
amizade saúdo os diversos grupos do Brasil e demais
peregrinos de língua portuguesa, com votos de que alcanceis
aquilo que aqui vos trouxe de tão longe: parar junto das
memórias dos Apóstolos e dos Mártires, meditando sobre o fim
glorioso do seu combate por Cristo e receber a investidura
do mesmo Espírito para idênticas batalhas em prol do triunfo
do Evangelho no seio da família e da sociedade. Sobre cada
um de vós e vossos familiares desça a minha Bênção.
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