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O JEJUM E A ABSTINÊNCIA.
Catecismo de São Pio X.
Com o intuito de fazer penitência por nossos pecados, de
melhor nos dispor para a oração e de estar unidos aos
sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Igreja nos
pede, nos tempos de penitência, que ofereçamos jejum e
abstinência a Deus.
O Jejum:
Penitência é a mortificação do corpo.
A Igreja convida todos os fiéis à corresponderem ao
preceito divino da penitência que, além das renúncias
impostas pelo peso da vida cotidiana, pede alguns atos de
mortificação também do corpo ... A Igreja quer indicar na
Tríade Tradicional "ORAÇÃO, JEJUM, CARIDADE" os modos
fundamentais para obedecer ao preceito divino da penitência.
Ela defendeu a oração e as obras de caridade, também,
e com insistência, a abstinência de carne e o jejum.
Praticado desde toda a Antiguidade pelo povo eleito, como
sinal de arrependimento, praticado por Nosso Senhor Jesus
Cristo e por todos os santos, recomendado pela Santa Igreja
como instrumento de santificação da alma, de controle do
corpo e equilíbrio emocional, o jejum obrigatório foi sendo
reduzido ao longo dos séculos.
Na prática do dia-a-dia há muitas formas de fazer
penitência, devemos aproveitar por exemplo, silenciando algo
que sabemos de alguém. Deixar de olhar televisão. Suportar
os defeitos de alguém. Viver sem reclamar. Ter coragem de
falar sempre bem do próximo. Cumprimentar sempre e,
principalmente, aqueles que não nos são simpáticos. Dobrar
os joelhos enquanto rezamos. Fazer o sinal da Cruz quando
passamos diante de uma Igreja. Deixar de comer algum
alimento que gostamos em determinados dias da semana.
Agradecer com humildade todos os sofrimentos que ocorrem no
dia a dia. Enfim, a penitência nos eleva, nos conduz à viver
às 24 horas do dia na graça. Sejamos fortes fazendo
penitência.
A oração e o jejum representam, em certo sentido, dois
pilares da nossa fé.
O jejum constitui um dos princípios fundamentais da vida
cristã; ele torna o devoto capaz de viver de acordo com a
vontade de Deus; em todas as circunstâncias. Mediante
a prática do jejum, a vontade de Deus poderá ser reconhecida
mais facilmente, e raramente será perdida de vista.
Como a respiração é função fundamental da vida física, assim
o jejum e a oração representam as
funções fundamentais da vida espiritual.
Nossa Senhora, em Medjugorje, nos pediu a volta à prática
do jejum e nos disse que a melhor forma de jejuar é aquela a
pão e água. Então constatamos que pão e água
não representam a única maneira de jejuar, mas é a melhor
maneira segundo a afirmação da Virgem.
O pão é o alimento fundamental do povo de Deus e, ao mesmo
tempo simboliza a vida. A água é insubstituível em nossa
vida; ela simboliza a purificação espiritual.
O jejum alimenta a oração e o impulso para Deus, para a paz
e a reconciliação: eco fiel do Evangelho. Põe o corpo em
sintonia com a alma e transforma-se em fonte de uma outra
reconciliação, a interior.
Quando devemos jejuar por obrigação?
Na
Quarta-feira de cinzas, abertura da Quaresma
Na
Sexta-feira Santa, dia da morte de Nosso Senhor.
No
entanto, todos os católicos devem ter a mortificação e
o jejum presentes em suas vidas ao longo do ano,
principalmente durante o Advento, a
Quaresma e nas Quatro Têmporas, tendo sempre o
espírito mortificado, fugindo do excesso de conforto e
prazeres e, na medida do possível, oferecendo alguns
sacrifícios a Deus, seja no comer, no beber,
nas diversões (televisão principalmente),
nos desconfortos que a vida oferece (calor,
trabalho, etc.), sabendo suportar os outros, tendo
paciência em tudo.
Assim
sendo, mesmo não sendo obrigatório, continua sendo
recomendado o jejum nas Quartas e Sextas da Quaresma e
do Advento, guardando-se sempre o espírito pronto
para as pequenas mortificações também nos
demais dias.
Quem deve jejuar?
As
pessoas maiores de 21 anos são obrigadas. Mas é evidente que
os adolescentes podem muito bem oferecer esse sacrifício sem
prejuízo para a saúde.
Quanto
às crianças menores, mesmo alimentando-se bem, devem ser
orientadas no sentido de oferecer pequenos sacrifícios, e
acompanhar a frugalidade das refeições.
As
pessoas doentes podem ser dispensadas (é sempre bom pedir
a permissão ao padre)
As
pessoas com mais de sessenta anos não têm obrigação de
jejuar, mas podem fazê-lo se não houver perigo para a saúde.
Como jejuar nos dias de jejum obrigatório?
- Café
da manhã mais simples que de hábito: uma xícara de café
puro, um pedaço de pão, uma fruta.
-
Almoço normal, mas sem carne (peixe pode), sem doces e
sobremesas mais apetitosas, sem bebidas alcoólicas ou
refrigerantes.
- No
jantar, um copo de leite ou um prato de sopa, um pedaço de
pão, uma fruta.
- O
ideal é jejuar a pão e água.
(desde o amanhecer até o
anoitecer se tiver fome comer pão, se tiver sede tomar água.
Não devemos comer pão e tomar água ao mesmo tempo, pois leva
a dor de cabeça. Devemos comer pão calmamente em pequenas
porções segurando na boca mastigando bem de modo que se
dissolva com a saliva. Para beber água é bom dar um tempo
após comer pão, também tomar a água calmamente como fez com
o pão, segurar na boca um tempo para se misturar à saliva.
Diz-se que devemos tomar o pão e mastigar a água). Pode
tomar e comer quantas vezes for necessário durante o dia, em
que sentir fome e sede.)
São
inúmeras as passagens das Sagradas Escrituras referentes ao
jejum. Eis algumas poucas referências:
- II
Reis XII,16
-
Tobias XII,8
-
Daniel I, 6-16
- S.
Mateus IV,1
- S.
Mateus VI, 17
- S.
Mateus XVII,20
- Atos
XIV,22
- II
Coríntios VI,5
A Abstinência de carne
Dentro
do mesmo espírito de mortificação, pede-nos a Santa
Madre Igreja a mortificação de não comer carne às
sextas-feiras, o ano todo, de modo a honrar e adorar a
santa morte de Nosso Senhor.
(ficam excluídas as
sextas-feiras das grandes festas, segundo a orientação do
padre).
A
abstinência ainda é praticada e, diferente do jejum, começa
desde a adolescência, a partir dos quatorze anos.
Nas
sextas-feiras do ano, e mais ainda durante os tempos de
penitência, saibamos oferecer esse pequeno sacrifício a
Nosso Senhor. Se vamos a um restaurante, peçamos peixe
(muitos
restaurantes ainda hoje servem pratos de peixe nas
sextas-feiras).
O Jejum eucarístico
O
jejum eucarístico é o fato de se comungar sem nenhum
alimento comum no estômago, em honra à Santíssima
Eucaristia.
O
espírito do jejum eucarístico é de receber a Santa Comunhão
como primeiro alimento do dia. Quando o Papa Pio XII
modificou a disciplina do jejum eucarístico, devido à
guerra, salientou que todos os que podiam deviam praticar
esse jejum, chamado natural: só tomar alimento depois da
comunhão. Quem assiste à Santa Missa cedo pode, muitas
vezes, praticar esse jejum.
Apesar
da lei eclesiástica em vigor determinar apenas uma hora
antes da comunhão para o jejum eucarístico, todos os padres
sérios pedem a seus fiéis que se esforcem para deixar
três horas, visto que uma hora não chega a ser nem
mesmo um sacrifício.
Caso
as crianças ou pessoas debilitadas precisarem tomar algo
antes da comunhão, com menos de três horas, procurem, ao
menos, tomar apenas líquido, um copo de leite, por exemplo.
Porém,
tendo se alimentado com menos de uma hora antes da hora da
comunhão, não se deve, de modo algum,
se aproximar da Sagrada Mesa.
O jejum, a abstinência e o confessionário.
Como o
jejum e a abstinência fazem parte dos mandamentos da Igreja,
devemos nos empenhar para praticá-los por amor à Deus. Caso
haja alguma negligência ou fraqueza da nossa vontade que nos
leve a quebrar o santo jejum ou a abstinência, devemos nos
arrepender por não termos obedecido ao que nos ordena nossa
Santa Madre Igreja, confessando-nos por termos assim
ofendido a Deus.
Nos
casos de esquecimento, devemos substituir essa obra por
outra equivalente, como fazer o jejum em outro dia, rezar um
terço, etc.
É
sempre bom lembrar que a água pura não quebra o jejum.
As
pessoas inclinadas à mortificação e ao jejum não devem nunca
determinar um aumento de penitência sem o consentimento
explícito do sacerdote responsável.
O demônio usa muito o
excesso de penitência corporal para enfraquecer a alma.
Tudo
fazer na obediência.
A MORTIFICAÇÃO CRISTÃ
OBJETIVOS E EXERCÍCIOS
Escrito pelo Cardeal Desidério José Mercier
Livre-tradução do Artigo “La mortificación cristiana” do
Cardeal Desidério José Mercier publicado em “Cuadernos de La
Reja” número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora
Corredentora da FSSPX.
Artigo 1 - Objeto da mortificação cristã
A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências
malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas
almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa
regeneração em Cristo, ainda que anulou completamente o
pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão
e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a
concupiscência, ou seja, o triple apetite da carne, dos
olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, inclusive depois
do batismo, afim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida
cristã (Conc. Trid., Sess. 5, Decretum de pecc. orig.).
A Escritura logo chama esta triple concupiscência de “homem
velho”, oposto ao “homem novo” que é Jesus que vive em nós e
nós mesmos que vivemos em Jesus, como “carne” ou natureza
caída, oposta ao “espírito” ou natureza regenerada pela
graça sobrenatural. Este velho homem ou esta carne, ou seja,
o homem inteiro com sua dupla vida moral e física, deve ser,
não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure
a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido
praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um
morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado,
e anular sua ação em toda a nossa vida moral.
A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem
inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas
quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da
virtude de mortificação. Vamos indicar sua prática,
recorrendo sucessivamente as manifestações múltiplas de
atividade em que se traduz em nós:
I)
A atividade orgânica ou a vida corporal;
II)
A atividade sensível, que se exerce seja debaixo da forma do
conhecimento sensível pelos sentidos exteriores ou pela
imaginação, seja debaixo da forma de apetite sensível ou de
paixão;
III)
A atividade racional e livre, princípio de nossos
pensamentos e de nossos juízos, e das determinações de nossa
vontade;
IV)
Consideraremos a manifestação exterior da vida de nossa
alma, ou nossas ações exteriores;
V)
E, finalmente, o intercâmbio de nossas relações com o
próximo.
Artigo 2 - Exercício
da mortificação cristã
A. Mortificação do corpo
1º
Limite-se, tanto quanto possa, em matéria de alimentos, ao
estritamente necessário. Medite estas palavras que Santo
Agostinho dirigia a Deus: “Me ensinastes, oh meu Deus, a
pegar os alimentos somente como remédios. Ah, Senhor!, aqui
quem de entre nós não vai além do limite? Se há um só,
declaro que este homem é grande e que deve grandemente
glorificar vosso nome” (Confissões, liv. X, cap. 31);
2º
Roga a Deus com freqüência, roga-lhe a cada dia que lhe
impeça, com Sua graça, de transpassar os limites da
necessidade, ou deixar-se levar pelo atrativo do prazer;
3º
Não pegue nada entre as refeições, ao menos que haja alguma
necessidade ou razões de conveniência;
4º
Pratique a abstinência e o jejum, mas pratique-os somente
debaixo da obediência e com discrição;
5º
Não
lhe está proibido saborear alguma satisfação corporal, mas
faça-o com uma intenção pura e bendizendo a Deus;
6º
Regule seu sono, evitando nisto toda relaxação ou molície,
sobretudo pela manhã. Se pode, fixe-se uma hora para
deitar-se e levantar-se, e obrigue-se a ela energicamente;
7º
Em geral, não descanse senão na medida do necessário;
entregue-se generosamente ao trabalho, e não meça esforços e
penas. Tenha cuidado para não extenuar seu corpo, mas
guarde-se também de agradá-lo: quando sentir que ele está
disposto a rebelar-se, por pouco que seja, trate-o como a um
escravo;
8º
Se
sente alguma ligeira indisposição, evite irritar-se com os
demais por seu mal humor; deixe aos seus irmãos o cuidado de
queixar-se; pelo que lhe cabe, seja paciente e mudo como o
divino Cordeiro que levou verdadeiramente todas as nossas
enfermidades;
9º
Guarde-se de pedir uma dispensa ou revogação à sua ordem do
dia pelo mínimo mal-estar. “Há que fugir como da peste de
toda dispensa em matéria de regras”, escrevia São João
Berchmans;
10º
Receba docilmente, e suporte humilde, paciente e
perseverantemente a mortificação penosa que se chama doença.
B. Mortificação dos sentidos, da
imaginação e das paixões
1º Feche seus olhos, diante de tudo e sempre, a todo
espetáculo perigoso, e inclusive tenha a valentia de
fechá-los a todo espetáculo vão e inútil. Veja sem olhar;
não se fixe em ninguém para discernir sua beleza ou feiúra;
2º
Tenha seus ouvidos fechados às palavras bajuladoras, aos
louvores, às seduções, aos maus conselhos, às maledicências,
às zombarias que ferem, às indiscrições, à crítica malévola,
às suspeitas comunicadas, a toda palavra que possa causar o
menor esfriamento entre duas almas;
3º
Se o sentido do olfato tem que sofrer algo por conseqüência
de certas doenças ou debilidades do próximo, longe de
queixar-se disso, suporte-o com uma santa alegria;
4º
No
que concerne à qualidade dos alimentos, seja muito
respeitoso do conselho de Nosso Senhor: “Comei o que vos for
apresentado”. “Comer o que é bom sem comprazer-se nisto, o
que é mau sem mostrar aversão, e mostrar-se indiferente
tanto em um como no outro, esta é a verdadeira
mortificação”, dizia São Francisco de Sales;
5º
Ofereça a Deus suas comidas, imponha-se na mesa uma pequena
privação: por exemplo, negue-se um grão de sal, um copo de
vinho, uma guloseima, etc.; os demais não o perceberão, mas
Deus o terá em conta;
6º
Se o que lhe apresentam excita vivamente seu atrativo, pense
no fel e no vinagre que apresentaram a Nosso Senhor na cruz:
isto não lhe impedirá de saborear o manjar, mas servirá de
contrapeso ao prazer;
7º
Há que evitar todo contato sensual, toda carícia em que se
poria certa paixão, em que se buscaria ou onde se teria um
gozo principalmente sensível;
8º
Prescinda de ir aquecer-se ao menos que lhe seja necessário
para evitar-lhe uma indisposição;
9º
Suporte tudo o que aflige naturalmente a carne;
especialmente o frio do inverno, o calor do verão, a dureza
da cama e todas as incomodidades do gênero. Faça boa cara em
todos os tempos, sorria a todas as temperaturas. Diga com o
profeta: “Frio, calor, chuva, bendizei ao Senhor”. Felizes
se podemos chegar a dizer com gosto esta frase tão familiar
a São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor do que quando
não estou bem”;
10º
Mortifique sua imaginação quando lhe seduz com a isca de um
posto brilhante, quando se entristece com a perspectiva de
um futuro sombrio, quando se irrita com a recordação de uma
palavra ou de um ato que o ofendeu;
11º
Se sente em você a necessidade de sonhar, mortifique-a sem
piedade;
12º
Mortifique-se com o maior cuidado sobre o ponto da
impaciência, da irritação ou da ira;
13º
Examine a fundo seus desejos, e submeta-os ao controle da
razão e da fé: você não deseja mais uma vida longa que uma
vida santa? prazer e bem-estar sem tristeza nem dores,
vitórias sem combates, êxitos sem contrariedades, aplausos
sem críticas, uma vida cômoda e tranqüila sem cruzes de
nenhum tipo, ou seja, uma vida completamente oposta à de
nosso divino Salvador?
14º
Tenha cuidado de não contrair certos costumes que, sem ser
positivamente maus, podem chegar a ser funestos, tais como o
costume de leituras frívolas, dos jogos de azar, etc.;
15º
Trate de conhecer seu defeito dominante, e quando o tiver
conhecido, persiga-o até suas últimas pregas. Por isso,
submeta-se com boa vontade ao que poderia ter de monótono e
de entediado na prática do exame particular;
16º
Não lhe está proibido ter bom coração e mostrá-lo, mas fique
atento para o perigo de exceder o justo meio. Combata
energicamente os afetos demasiado naturais, as amizades
particulares, e todas as sensibilidades moles do coração.
C. Mortificação do espírito e da
vontade
1º
Mortifique seu espírito proibindo-lhe todas as imaginações
vãs, todos os pensamentos inúteis ou alheios que fazem
perder o tempo, dissipam a alma, e provocam o desgosto do
trabalho e das coisas sérias;
2º
Deve distanciar de seu espírito todo pensamento de tristeza
e de inquietude. O pensamento do que poderá suceder no
futuro não deve preocupá-lo. Quanto aos maus pensamentos que
o molestam, deve fazer deles, distanciando-os, matéria para
exercer a paciência. Se são involuntários, não serão para
você senão uma ocasião de méritos;
3º
Evite a teimosia em suas idéias, e a obstinação em seus
sentimentos. Deixe prevalecer de boa vontade o juízo dos
demais, salvo quando se trate de matérias em que você tem o
dever de pronunciar-se e falar;
4º
Mortifique o órgão natural de seu espírito, ou seja, a
língua. Exerça-se de boa vontade no silêncio, seja porque
sua Regra o prescreve, seja porque você o impõe
espontaneamente;
5º
Prefira escutar os demais do que falar você mesmo; mas, sem
embargo, fale quando convenha, evitando tanto o excesso de
falar demasiado, que impede os demais expressar seus
pensamentos, como o de falar demasiado pouco, que denota
indiferença que fere ao que dizem os demais;
6º
Não interrompa nunca quem fala, e não corte com uma resposta
precipitada quem lhe pergunta;
7º
Tenha um tom de voz sempre moderado, nunca brusco nem
cortante. Evite os “muito”, os “extremamente”, os
“horrivelmente”, etc.: não seja exagerado em seu falar;
8º
Ame a simplicidade e a retidão. A simulação, os rodeios, os
equívocos calculados que certas pessoas piedosas se permitem
sem escrúpulo, desacreditam muito a piedade;
9º
Abstenha-se cuidadosamente de toda palavra grosseira,
trivial ou inclusive ociosa, pois Nosso Senhor nos adverte
que nos pedira conta delas no dia do Juízo;
10º
Acima de tudo, mortifique sua vontade; é o ponto decisivo.
Adapte-a constantemente ao que sabe ser do beneplácito
divino e da ordem da Providência, sem ter nenhuma conta nem
de seus gostos nem de suas aversões. Submeta-se inclusive a
seus inferiores nas coisas que não interessam para a glória
de Deus e os deveres de seu cargo;
11º
Considere a menor desobediência às ordens e inclusive aos
desejos de seus Superiores como dirigida a Deus;
12º
Lembre-se de que praticará a maior de todas as mortificações
quando ame ser humilhado e quando tenha a mais perfeita
obediência àqueles a quem Deus quer se se submeta;
13º
Ame ser
esquecido e ser tido por nada: é o conselho de São João da
Cruz, é o conselho da Imitação: não fale apenas de si mesmo
nem para bem nem para mal, senão busque pelo silêncio
fazer-se esquecer;
14º
Diante de uma humilhação ou repreensão, se sente tentado a
murmurar. Diga como Davi: “Melhor assim! Me é bom ser
humilhado!”;
15º
Não
entretenha desejos frívolos: “Desejo poucas coisas, e o
pouco que desejo, o desejo pouco”, dizia São Francisco;
16º
Aceite
com a mais perfeita resignação as mortificações chamadas de
Providência, as cruzes e os trabalhos unidos ao estado em
que a Providência o pôs. “Quanto menos há de nossa eleição,
mais há de beneplácito divino”, dizia São Francisco de
Sales. Queríamos escolher nossas cruzes, ter outra distinta
da nossa, levar uma cruz pesada que tivesse ao menos algum
brilho, antes que uma cruz ligeira que cansa por sua
continuidade: Ilusão! Devemos levar nossa cruz, e não outra,
e seu mérito não se encontra em sua qualidade, senão na
perfeição com que a levamos;
17º
Não se deixe turbar pelas tentações, pelos escrúpulos, pelas
aridezes espirituais: “o que se faz durante a sequidão é
mais meritório diante de Deus do que o que se faz durante a
consolação”, dizia o santo bispo de Genebra;
18º
Não
devemos entristecer-nos demasiado por nossas misérias, senão
mais bem humilhar-nos. Humilhar-se é uma coisa boa, que
poucas pessoas compreendem; inquietar-se e impacientar-se é
uma coisa que todo o mundo conhece e que é má, porque nesta
espécie de inquietude e de despeito o amor próprio tem
sempre a maior parte;
19º
Desconfiemos igualmente da timidez e do desânimo, que fazem
perder as energias, e da presunção, que não é mais do que o
orgulho em ação. Trabalhemos como se tudo dependesse de
nossos esforços, mas permaneçamos humildes como se nosso
trabalho fosse inútil.
D. Mortificações que há que
praticar em nossas ações exteriores
1º
Deve ser o mais exato possível em observar todos os pontos
de sua regra de vida, obedecer sem demora, lembrando-se de
São João Berchmans, que dizia: “Minha maior penitência é
seguir a vida comum”; “Fazer o maior caso das menores
coisas, tal é o meu lema”; “Antes morrer que violar uma só
de minhas regras!”;
2º
No
exercício de seus deveres de estado, trate de estar muito
contente com tudo o que parece feito de propósito para
desagradá-lo e molestá-lo, lembrando-se também aqui da frase
de São Francisco de Sales: “Nunca estou melhor quando não
estou bem”;
3º
Não conceda jamais um momento à preguiça; da manhã à noite,
esteja ocupado sem descanso;
4º
Se sua vida se passa dedicada, ao menos em partes, ao
estudo, aplique os seguintes conselhos de Santo Tomás de
Aquino aos seus alunos: “Não se contentem com receber
superficialmente o que lêem ou escutam, senão tratem de
penetrar e aprofundar seu sentido. - Não fiquem nunca com
dúvidas sobre o que podem saber com certeza. - Trabalhem com
uma santa avidez em enriquecer seu espírito; classifiquem
com ordem em sua memória todos os conhecimentos que possa
adquirir. - Sem embargo, não tratem de penetrar os mistérios
que estão por acima de sua inteligência”;
5º
Ocupe-se unicamente da ação presente, sem voltar ao que
precedeu nem adiantar-se pelo pensamento ao que vem a
seguir; diga com São Francisco: “Enquanto faço isto, não
estou obrigado a fazer outra coisa”; “Apressemo-nos com
bondade: será tão logo tanto quanto esteja bom”;
6º
Seja modesto em sua compostura. Nenhum porte era tão
perfeito como o de São Francisco; tinha sempre a cabeça
direita, evitando igualmente a ligeireza que a gira em todos
os sentidos, a negligência que a inclina adiante e o humor
orgulhoso e altivo que a levanta para trás. Seu rosto estava
sempre tranqüilo, livre de toda preocupação, sempre alegre,
sereno e aberto, sem ter sem embargo uma jovialidade
indiscreta, sem risadas ruidosas, imoderadas ou demasiado
freqüentes;
7º
Quando se encontrava só mantinha-se em tão boa compostura
como diante de uma grande assembléia. Não cruzava as pernas,
não apoiava a cabeça no encosto. Quando rezava, ficava
imóvel como uma coluna. Quando a natureza lhe sugeria seus
gostos, não a escutava em absoluto;
8º
Considere a limpeza e a ordem como uma virtude, e a sujeira
e a desordem como um vício: evite os vestidos sujos,
manchados ou rasgados. Por outra parte, considere como um
vício ainda maior o luxo e o mundanismo. Faça de modo de ao
ver sua vestimenta e adereços, ninguém diga: está
desarrumado; nem: está elegante; senão que todo o mundo
possa dizer: está decente.
E. Mortificações para praticar
em nossas relações com o próximo
1º
Suporte os defeitos do próximo: faltas de educação, de
espírito, de caráter. Suporte tudo o que nele lhe desagrada:
seu modo de andar, sua atitude, seu tom de voz, seu sotaque,
e todo o resto;
2º
Suporte tudo a todos e suporte até o fim e cristãmente. Não
se deixe levar jamais por essas impaciências tão orgulhosas
que fazem dizer: Que posso fazer de tal o qual? Em que me
concerne o que diz? Para que preciso o afeto, a benevolência
ou a cortesia de uma criatura qualquer, e desta em
particular? Nada é menos segundo Deus que estes
desprendimentos altaneiros e estas indiferenças
depreciativas; melhor seria, certamente, uma impaciência;
3º
Encontra-se tentado a irar-se? Pelo amor a Jesus, seja
manso. De vingar-se? Devolva bem por mal. Diz-se que o
segredo de chegar ao coração de Santa Teresa, era fazer-lhe
algum mal. De mostrar a alguém uma cara má? Sorria com
bondade. De evitar seu encontro? Busque-o por virtude. De
falar mal dele? Fale bem. De falar-lhe com dureza? Fale doce
e cordialmente;
4º
Ame
fazer o elogio de seus irmãos, sobretudo daqueles a quem sua
inveja se dirige mais naturalmente;
5º
Não diga acuidades em detrimento da caridade;
6º
Se
alguém se permite em sua presença palavras pouco
convenientes, ou mantém conversações próprias para danificar
a reputação do próximo, poderá às vezes repreender com
doçura a quem fala, mas mais freqüentemente será melhor
distanciar habilmente a conversação ou manifestar por um
gesto de descontentamento ou de desatenção querida que o que
se está dizendo o desagrada;
7º
Quando lhe custe fazer um favor, ofereça-se a fazê-lo: terá
duplo mérito;
8º
Tenha horror de apresentar-se diante de si mesmo ou dos
demais como uma vítima. Longe de exagerar suas cargas,
esforce-se em encontrá-las leves. O são em realidade muito
mais freqüentemente do que parece, e o seriam sempre se
tivesse um pouco mais de virtude.
Conclusão
Em geral, saiba negar à natureza o que pede sem necessidade.
Saiba fazer-lhe dar o que ela nega sem razão. Seus
progressos na virtude, disse o autor da Imitação de Cristo,
serão proporcionais à violência que saiba fazer-se.
Dizia o santo Bispo de Genebra: “Há que morrer afim de que
Deus viva em nós: porque é impossível chegar à união da alma
com Deus por outro caminho que pela mortificação. Estas
palavras: Há que morrer! são duras, mas serão seguidas de
uma grande doçura, porque não se morre a si mesmo senão para
unir-se a Deus por esta morte”.
Quisera Deus que pudéssemos aplicar-nos com pleno direito as
seguintes palavras de São Paulo: “Em todas as coisas
sofremos a tribulação... Trazemos sempre em nosso corpo a
morte de Jesus, afim de que a vida de Jesus se manifeste
também em nossos corpos” (2 Cor. 4, 10).
O SILÊNCIO.
Os doze graus do silêncio, Irmã Amada de Jesus
Livre-tradução do Artigo “Los
doce grados del silencio” de “Sor Amada de Jesús” publicado
em “Cuadernos de La Reja” número 2 do Seminário
Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX.
Enquanto o mundo grita desesperado, e os rumores atordoam as
multidões, cabe espaço em nós para o silêncio, pois somente
através dele, nos calando, é que podemos escutar a voz
de Deus. O Espírito Santo não atua na balbúrida, na
confusão, na música profana e atordoante, na gritaria e sim
no silêncio dos corações.
A vida interior poderia consistir só nesta palavra:
Silêncio! O silêncio prepara os santos; ele os começa, os
continua e os acaba. Deus, que é eterno, não diz mais que
uma só palavra, que é o Verbo. Do mesmo modo, seria
desejável que todas as nossas palavras digam Jesus direta ou
indiretamente. Esta palavra: silêncio, quão formosa é!
1º Falar pouco às criaturas e
muito a Deus
Este é o primeiro passo, mas indispensável, nas vias
solitárias do silêncio. Nesta escola é onde se ensinam os
elementos que dispõe à união divina. Aqui a alma estuda e
aprofunda esta virtude, no espírito do Evangelho, no
espírito da Regra que abraçou, respeitando os lugares
consagrados, as pessoas, e sobretudo esta língua na qual tão
freqüentemente descansa o Verbo ou a Palavra do Pai, o Verbo
feito carne. Silêncio ao mundo, silêncio às notícias,
silêncio com as almas mais justas: a voz de um Anjo turbou
Maria...
2º Silêncio no trabalho, nos
movimentos
Silêncio no porte; silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz;
silêncio de todo o ser exterior, que prepara a alma para
passar a Deus. A alma merece tanto quanto pode, por estes
primeiros esforços em escutar a voz do Senhor. Que bem
recompensado é este primeiro passo! Deus a chama ao deserto,
e por isso, neste segundo estado, a alma aparta tudo o que
poderia distraí-la; se distancia do ruído, e foge sozinha
Àquele que somente é. Ali ela saboreará as primícias da
união divina e o zelo de seu Deus. É o silêncio do
recolhimento, ou o recolhimento do silêncio.
3º Silêncio da imaginação
Esta faculdade é a primeira em chamar à porta fechada do
jardim do Esposo; com ela vêm as emoções alheias, as vagas
impressões, as tristezas. Mas neste lugar retirado, a alma
dará ao Bem Amado provas de seu amor. Apresentará a esta
potência, que não pode ser destruída, as belezas do céu, os
encantos de seu Senhor, as cenas do Calvário, as perfeições
de seu Deus. Então, também ela permanecerá no silêncio, e
será a servente silenciosa do Amor divino.
4º Silêncio da memória
Silêncio ao passado... esquecimento. Há que saturar esta
faculdade com a recordação das misericórdias de Deus... É o
agradecimento no silêncio, é o silêncio da ação de graças.
5º Silêncio às criaturas
Oh, miséria de nossa condição presente! Com freqüência a
alma, atenta a si mesma, se surpreende conversando
interiormente com as criaturas, respondendo em seu nome. Oh,
humilhação que fez gemer os santos! Nesse momento esta alma
deve retirar-se docemente às mais íntimas profundezas deste
lugar escondido, onde descansa a Majestade inacessível do
Santo dos santos, e onde Jesus, seu consolador e seu Deus,
se descobrirá a ela, lhe revelará seus segredos, e a fará
provar a bem-aventurança futura. Então lhe dará um amargo
desgosto para tudo o que não é Ele, e tudo o que é da terra
deixará pouco a pouco de distrair-la.
6º Silêncio do coração
Se a língua está muda, se os sentidos se encontram na
calma, se a imaginação, a memória e as criaturas se calam e
fazem silêncio, se não ao redor, ao menos no íntimo desta
alma de esposa, o coração fará pouco ruído. Silêncio dos
afetos, das antipatias, silêncio dos desejos no que tem de
demasiado ardente, silêncio do zelo no que tem de
indiscreto; silêncio do fervor no que tem de exagerado;
silêncio até nos suspiros... Silêncio do amor no que tem de
exaltado, não dessa exaltação da qual Deus é autor, senão
daquela na qual se mistura a natureza. O silêncio do amor, é
o amor no silêncio...
É o silêncio diante de Deus, suma beleza, bondade,
perfeição... Silêncio que não tem nada de chateado, de
forçado; este silêncio não danifica a ternura, o vigor deste
amor, de modo semelhante a como o reconhecimento das faltas
não danifica tampouco o silêncio da humildade, nem o bater
das asas dos anjos de que fala o profeta o silêncio de sua
obediência, nem o fiat o silêncio de Getsemani, nem o
Sanctus eterno o silêncio dos serafins...
Um coração no silêncio é um coração de virgem, é uma melodia
para o coração de Deus. A lâmpada se consome sem ruído
diante do Sacrário, e o incenso sobe em silêncio até o trono
do Salvador: assim é o silêncio do amor. Nos graus
precedentes, o silêncio era ainda a queixa da terra; neste a
alma, por sua pureza, começa a aprender a primeira nota
deste cântico sagrado que é o cântico dos céus.
7º Silêncio da natureza, do amor
próprio
Silêncio à vista da própria corrupção, da própria
incapacidade. Silêncio da alma que se compraz na sua
baixeza. Silêncio aos louvores, à estima. Silêncio diante
dos desprezos, das preferências, das murmurações; é o
silêncio da doçura e da humildade. Silêncio da natureza
diante das alegrias ou dos prazeres. A flor se abre no
silêncio e seu perfume louva em silêncio ao criador: a alma
interior deve fazer o mesmo. Silêncio da natureza na pena ou
na contradição. Silêncio nos jejuns, nas vigílias, nas
fadigas, no frio e no calor. Silêncio na saúde, na
enfermidade, na privação de todas as coisas: é o silêncio
eloqüente da verdadeira pobreza e da penitência; é o
silêncio tão amável da morte a todo o criado e humano. É o
silêncio do eu humano transformando-se no querer divino. Os
estremecimentos da natureza não poderiam turbar este
silêncio, porque está acima da natureza.
8º Silêncio do espírito
Fazer calar os pensamentos inúteis, os pensamentos
agradáveis e naturais; só estes danificam o silêncio do
espírito, e não o pensamento em si mesmo, que não pode
deixar de existir. Nosso espírito quer a verdade, e nós lhe
damos a mentira! Agora bem, a verdade essencial é Deus! Deus
é o bastante à sua própria inteligência divina, e não basta
à pobre inteligência humana!
No que concerne a uma contemplação de Deus perene e
imediata, não é possível na debilidade da carne, a não ser
que Deus conceda um puro dom de sua bondade; mas o silêncio
nos exercícios próprios do espírito consiste, em relação à
fé, em contentar-se com sua luz escura. Silêncio aos
raciocínios sutis que debilitam a vontade e dissecam o amor.
Silêncio na intenção: pureza, simplicidade; silêncio às
buscas pessoais; na meditação, silêncio à curiosidade; na
oração, silêncio às próprias operações, que não fazem mais
que entravar a obra de Deus. Silêncio ao orgulho que se
busca em tudo, sempre e em todas as partes; que quer o belo,
o bem, o sublime; é o silêncio da santa simplicidade, do
desprendimento total, da retidão.
Um espírito que combate contra tais inimigos é semelhante a
esses anjos que vêem sem cessar a Face de Deus. Esta é a
inteligência, sempre no silêncio, que Deus eleva a si.
9º Silêncio do juízo
Silêncio quanto às pessoas, silêncio quanto às coisas. Não
julgar, não deixar ver a própria opinião. Não ter opinião às
vezes, ou seja, ceder com simplicidade, sem nada se opor a
ele por prudência ou por caridade. É o silêncio da
bem-aventurada e santa infância, é o silêncio dos perfeitos,
o silêncio dos anjos e dos arcanjos, quando seguem as ordens
de Deus. É o silêncio do Verbo encarnado!
10º Silêncio da vontade
O silêncio aos mandamentos, o silêncio às santas leis da
regra, não é, por dizer assim, mais que o silêncio exterior
da própria vontade. O Senhor tem algo que ensinar-nos de
mais profundo e de mais difícil: o silêncio do escravo sob
os golpes de seu amo. Mas, feliz escravo, pois o Amo é Deus!
Este silêncio é o da vítima sobre o altar, é o silêncio do
cordeiro que é despojado de sua pele, é o silêncio nas
trevas, silêncio que impede pedir a luz, ao menos a que
alegra.
É o silêncio nas angústias do coração, nas dores da alma; o
silêncio de uma alma que se viu favorecida por seu Deus, e
que, sentindo-se rechaçada por Ele, não pronuncia nem sequer
estas palavras: Por que? Até quando? É o silêncio no
abandono, o silêncio sob a severidade do olhar de Deus, sob
o peso de sua mão divina; o silêncio sem outra queixa que a
do amor. É o silêncio da crucifixão, é mais que o silêncio
dos mártires, é o silêncio da agonia de Jesus Cristo. Se
este silêncio é seu divino silêncio e nada é comparável à
sua voz, nada resiste à sua oração, nada é mais digno de
Deus que esta classe de louvor na dor, que este fiat no
sofrimento, que este silêncio no trabalho da morte.
Enquanto esta vontade humilde e livre, verdadeiro holocausto
de amor, se despedaça e se destrói para a glória do nome de
Deus, Ele a transforma em sua vontade divina. Então o que
falta para sua perfeição? O que requer ainda para a união? O
que falta para que Cristo seja acabado nesta alma? Duas
coisas: a primeira é o último suspiro do ser humano; a
segunda é uma doce atenção ao Bem Amado cujo beijo divino é
a inefável recompensa.
11º Silêncio consigo mesmo
Não falar-se interiormente, não escutar-se, não queixar-se
nem consolar-se. Em uma palavra, calar-se consigo mesmo,
esquecer-se de si mesmo, deixar-se só, completamente só com
Deus; fugir, separar-se de si mesmo. Este é o silêncio mais
difícil, e sem embargo é essencial para unir-se a Deus tão
perfeitamente como possa fazê-lo uma pobre criatura que, com
a graça, chega com freqüência até aqui, mas se detém neste
grau, porque não o compreende e o pratica menos ainda. É o
silêncio do nada. É mais heróico que o silêncio da morte.
12º Silêncio com Deus
No começo Deus dizia à alma: “Fala pouco às criaturas e
muito comigo”. Aqui lhe diz: “Não me fales mais”. O silêncio
com Deus é aderir-se a Deus, apresentar-se e expor-se diante
de Deus, oferecer-se a Ele, aniquilar-se diante dEle,
adorá-lo, amá-lo, escutá-lo, ouvi-lo, descansar nEle. É o
silêncio da eternidade, é a união da alma com Deus.
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