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CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO
XII
LE PÈLERINAGE DE LOURDES
SOBRE O CENTENÁRIO DAS
APARIÇÕES
DA SS. VIRGEM EM LOURDES
Aos nossos caríssimos filhos
o cardeal Achilles Liénart, Bispo de Lille;
o cardeal Pierre Gerlier, Arcebispo de Lião;
o cardeal Clément Roques, Arcebispo de Rennes;
o cardeal Maurice Feltro, Arcebispo de Paris;
o cardeal Georges Grente, Arcebispo-Bispo de Mans;
e a todos os nossos Veneráveis irmãos os Arcebispos e os
Bispos da França,
em paz e comunhão com a Sé Apostólica,
por ocasião do primeiro Centenário das Aparições da ss.
Virgem em Lourdes
INTRODUÇÃO
1. A peregrinação a Lourdes, que tivemos a alegria de
realizar ao irmos presidir, em nome do nosso predecessor Pio
XI, as festas eucarísticas e marianas do encerramento do
jubileu da redenção, deixou em nossa alma profundas e doces
recordações. Por isso, particularmente agradável nos é saber
que, por iniciativa do bispo de Tarbes e Lourdes, a cidade
marial se apresta para celebrar com brilho o centenário das
aparições da Virgem imaculada na gruta de Massabielle, e que
um comitê internacional foi, mesmo, constituído para esse
fim sob a presidência do eminente cardeal Eugène Tisserant,
deão do Sacro Colégio. Convosco, caros filhos e veneráveis
irmãos, queremos agradecer a Deus o insigne favor feito à
vossa pátria, e tantas graças derramadas desde há um século
sobre a multidão dos peregrinos. Queremos igualmente
convidar todos os nossos filhos a renovarem, neste ano
jubilar, a sua piedade confiante e generosa para com aquela
que, segundo a palavra de s. Pio X, se dignou estabelecer em
Lourdes "a sede da sua imensa bondade".(1)
I. NOSSA
SENHORA NA HISTÓRIA DA FRANÇA
2. Toda
terra cristã é uma terra marial, e não há povo redimido pelo
sangue de Cristo que não goste de proclamar Maria sua mãe e
sua padroeira. Relevo empolgante assume, todavia, esta
verdade quando se evoca a história da França. O culto da Mãe
de Deus remonta às origens da sua evangelização, e, entre os
mais antigos santuários marianos, Chartres ainda atrai os
peregrinos em grande número, e milhares de jovens. A Idade
Média, que, notadamente com s. Bernardo, cantou a glória de
Maria e lhe celebrou os mistérios, viu a admirável
eflorescência das vossas catedrais dedicadas a Nossa
Senhora: Le Puy, Reims, Amiens, Paris e tantas outras...
Essa glória da Imaculada anunciam-na elas de longe pelas
suas flechas esbeltas, fazem-na resplandecer na pura luz dos
seus vitrais e na harmoniosa beleza das suas estátuas;
atestam elas sobretudo a fé de um povo a se alçar acima de
si mesmo num surto magnífico, para erguer no céu da França a
homenagem permanente da sua piedade mariana.
Os vários
títulos de nossa Senhora
3. Nas
cidades e nos campos, no topo das colinas ou dominando o
mar, os santuários consagrados a Maria humildes capelas ou
esplêndidas basílicas cobriram pouco a pouco o país com a
sua sombra tutelar. Neles, príncipes, pastores e fiéis
inúmeros afluíram, ao longo dos séculos, para a Virgem
santa, a quem saudaram com os títulos mais expressivos da
sua confiança ou da sua gratidão. Aqui se invoca nossa
Senhora da misericórdia, de todo auxílio ou do bom socorro;
ali o peregrino refugia-se ao pé de nossa Senhora da guarda,
da piedade ou da consolação; alhures, a sua prece sobe para
nossa Senhora da luz, da paz, da alegria ou da esperança;
ou, ainda, implora ele nossa Senhora das virtudes, dos
milagres ou das vitórias. Admirável ladainha de invocações,
cuja enumeração jamais acabada narra, de província em
província, os benefícios que a Mãe de Deus tem derramado, no
correr dos tempos, sobre a terra da França.
Nossa
Senhora das Graças e nossa Senhora de Lourdes
4. Devia,
no entanto, o século XIX, após a tormenta revolucionária,
ser por muitos títulos o século das predileções marianas.
Para só citarmos um fato, quem é que não conhece hoje em dia
a "medalha milagrosa"? Revelada, no próprio coração da
capital francesa, a uma humilde filha de s. Vicente de Paulo
que tivemos a alegria de inscrever no catálogo dos santos,
essa medalha cunhada com a efígie de "Maria concebida sem
pecado" espalhou por todos os lugares os seus prodígios
espirituais e materiais. E, alguns anos mais tarde, de 11 de
fevereiro a 16 de julho de 1858, à bem-aventurada virgem
Maria aprazia, por um favor novo, manifestar-se na terra dos
Pirineus a uma menina piedosa e pura, saída de uma família
cristã, trabalhadora na sua pobreza. "Ela vem a Bernardete,
dizíamos nós outrora, fala a sua confidente, a colaboradora,
o instrumento da sua ternura maternal e da misericordiosa
onipotência de seu Filho, para restaurar o mundo em Cristo
por uma nova e incomparável efusão da redenção".(2)
Lourdes
5. Os
acontecimentos que então se desenrolaram em Lourdes, e cujas
proporções espirituais melhor medimos hoje, são-vos bem
conhecidos. Sabeis, caros filhos e veneráveis irmãos, em que
condições estupendas, apesar de zombarias, de dúvidas e de
oposições, a voz daquela menina, mensageira da Imaculada, se
impôs ao mundo. Sabeis a firmeza e a pureza do testemunho,
experimentado com sabedoria pela autoridade episcopal e por
ela sancionado desde 1862. Já as multidões haviam acorrido e
não têm cessado de precipitar-se para a gruta das aparições,
para a fonte milagrosa, para o santuário elevado a pedido de
Maria. É o comovente cortejo dos humildes, dos doentes e dos
aflitos; é a imponente peregrinação de milhares de fiéis de
uma diocese ou de uma nação; é a discreta diligência de uma
alma inquieta que busca a verdade... Dizíamos nós: "Jamais
num lugar da terra se viu semelhante cortejo de sofrimento,
jamais semelhante irradiação de paz, de serenidade e de
alegria!"(3) E, poderíamos acrescentar,
jamais se saberá a soma de benefícios de que o mundo é
devedor à Virgem auxiliadora! "Ó gruta feliz, honrada pela
presença da Mãe de Deus! Rocha digna de veneração, da qual
brotaram abundantes as águas vivificadoras!"(4)
Lourdes e
a Santa Sé
6. Estes
cem anos de culto mariano teceram, ademais, entre a Sé de
Pedro e o santuário pirenaico laços estreitos, que nos apraz
reconhecer. A própria virgem Maria não desejou essas
aproximações? "O que em Roma, pelo seu magistério infalível,
o sumo pontífice definia, a Virgem Imaculada Mãe de Deus, a
bendita entre as mulheres, quis, ao que parece, confïrmá-lo
por sua boca, quando pouco depois se manifestou por uma
célebre aparição na gruta de Massabielle".(5)
Certamente, a palavra infalível do pontífice romano,
intérprete autêntico da verdade revelada, não necessitava de
nenhuma confirmação celeste para se impor à fé dos fiéis.
Mas com que emoção e com que gratidão o povo cristão e seus
pastores não recolheram dos lábios de Bernardete essa
resposta vinda do céu: "Eu sou a Imaculada Conceição"!
7. Por
isso, não é de admirar que os nossos predecessores se hajam
comprazido em multiplicar os seus favores para com esse
santuário. Desde 1860, Pio IX, de santa memória,
regozijava-se de que os obstáculos suscitados contra Lourdes
pela malícia dos homens houvessem permitido "manifestar com
mais força e mais evidência a clareza do fato".(6)
E, forte dessa segurança, ele cumula de benefícios
espirituais a Igreja recém-educada, e faz coroar a estátua
de nossa Senhora de Lourdes. Leão XIII, em 1892, concede o
oficio próprio e a missa da festa "in apparitione Beatae
Mariae Virginis Immaculatae", coisa que o seu sucessor
estenderá em breve à Igreja universal; o antigo apelo da
Escritura aí achará, de então por diante, aplicação nova:
"Levanta minha amada, formosa minha, vem a mim! Pomba minha,
que se aninha nos vãos do rochedo, pela fenda dos
barrancos!"(7) Pelo fim da sua vida, o
grande pontífice fez questão de inaugurar e de benzer
pessoalmente a reprodução da gruta de Massabielle edificada
nos jardins do Vaticano, e, na mesma época, a sua voz se
elevava para a Virgem de Lourdes por
uma prece ardente e confiante: "Que, no seu poder, a Virgem
Mãe, que outrora cooperou por seu amor no nascimento dos
fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã
da nossa salvação; ...restitua a tranqüilidade da paz aos
espíritos angustiados; apresse enfim, na vida privada como
na vida pública, o retorno a Jesus Cristo".(8)
8. O cinqüentenário da definição dogmática da imaculada
conceição da santíssima Virgem ofereceu a s. Pio X o ensejo
de atestar num documento solene o liame histórico entre esse
ato do magistério e a aparição de Lourdes: "Apenas Pio IX
definira de fé católica que desde a origem Maria foi isenta
de pecado, a própria Virgem começava a operar maravilhas em
Lourdes".(9) Pouco depois, cria ele o
título episcopal de Lourdes, ligado ao de Tarbes, e assina a
introdução da causa de beatificação de Bernardete. Reservado
estava sobretudo a esse grande papa da eucaristia frisar e
favorecer a admirável conjunção que existe em Lourdes entre
o culto eucarístico e a oração marial. Nota ele: "A piedade
para com a Mãe de Deus ali fez florescer uma notável e
ardente piedade para com Cristo nosso Senhor".(10)
Podia, aliás, ser diversamente? Tudo em Maria nos leva para
seu Filho, único salvador, na previsão de cujos méritos ela
foi imaculada e cheia de graças; tudo em Maria nos eleva ao
louvor da adorável Trindade, e bem-aventurada foi Bernardete
desfiando o seu terço diante da gruta, e dos lábios e do
olhar da Virgem Santa aprendendo a dar glória ao Pai, ao
Filho e ao Espírito Santo! Por isso somos felizes, neste
centenário, de associarnos a essa homenagem prestada por s.
Pio X: "A glória única do santuário de Lourdes reside no
fato de nele serem os povos atraídos de toda parte, por
Maria, à adoração de Cristo Jesus no augusto sacramento; de
sorte que aquele santuário, ao mesmo tempo centro de culto
mariano e trono do mistério eucarístico, excede em glória,
ao que parece, todos os outros no orbe católico".(11)
9. Aquele santuário já cumulado de favores, Bento XV fez
questão de enriquecê-lo de novas e preciosas indulgências,
e, se as trágicas circunstâncias do seu pontificado não lhe
permitiram multiplicar os atos públicos da sua devoção,
todavia ele quis honrar a cidade mariana concedendo ao seu
bispo o privilégio do pálio no lugar das aparições. Pio XI,
que fora pessoalmente peregrino de Lourdes, prosseguiu a
obra dele, e teve a alegria de elevar aos altares a
privilegiada da Virgem, tornada, sob o véu, Irmã Maria
Bernarda, da Congregação da caridade e da instrução cristã.
Por assim dizer, não autenticava ele por sua vez a promessa
da Imaculada à jovem Bernardete, "de ser feliz não neste
mundo, mas no outro"? E de então por diante Nevers, que se
honra de guardar a urna preciosa, atrai em grande número os
peregrinos de Lourdes, desejosos de aprender junto à santa a
acolherem como convém a mensagem de nossa Senhora. Em breve
o ilustre pontífice, que a exemplo dos seus predecessores
acabava de honrar com uma Legação as festas de aniversário
das aparições, decidia encerrar o jubileu da redenção na
gruta de Massabielle, lá onde, segundo os seus próprios
termos, "a Virgem Maria Imaculada várias vezes se mostrou à
bem-aventurada Bernardete Soubirous, onde com bondade
exortou todos os homens à penitência, naquele lugar mesmo da
estupenda aparição que ela cumulou de graças e prodígios".(12)
Em verdade, concluía
Pio XI, aquele santuário "passa agora, a justo título, por
ser um dos principais santuários marianos do mundo".(13)
10. A
esse unânime concerto de louvores como não haveríamos nós de
unir a nossa voz? Fizemo-lo especialmente na nossa encíclica
Fulgens corona, relembrando, em seguimento aos nossos
predecessores, que, "ao que parece, a própria bem-aventurada
virgem Maria quis confirmar por um prodígio a sentença que o
vigário de seu divino Filho na terra acabava de proclamar
com os aplausos da Igreja inteira".(14)
E, naquela ocasião, lembrávamos como, cônscios da
importância daquela peregrinação, os pontífices romanos não
haviam cessado de "enriquecê-la de favores espirituais e dos
benefícios da sua benevolência".(15) A
história destes cem anos, que acabamos de evocar a grandes
traços, não é, com efeito, uma constante ilustração dessa
benevolência pontifícia, cujo último ato foi o encerramento,
em Lourdes, do ano centenário do dogma da imaculada
conceição? Mas a vós, caros filhos e veneráveis irmãos,
gostamos de lembrar especialmente um documento recente, pelo
qual favorecíamos o surto de um apostolado missionário na
vossa cara Pátria. Nele quisemos evocar "os méritos
singulares que, no correr dos séculos, a França adquiriu
para si no progresso da fé católica", e, a este título,
"volvíamos a nossa mente e o nosso coração para Lourdes,
onde, quatro anos após a definição do dogma, a própria
Virgem imaculada confirmou sobrenaturalmente, por aparições,
conversas e milagres, a declaração do doutor supremo".(16)
11. Ainda
hoje nos volvemos para o célebre santuário que se prepara
para acolher nas margens do Gave a multidão dos peregrinos
do centenário. Se, desde há um sécolo, ardentes súplicas,
públicas e privadas, pela intercessão de Maria, ali têm
obtido de Deus tantas graças de cura e de conversão, temos a
firme confiança de que neste ano jubilar nossa Senhora
quererá ainda com largueza corresponder à expectativa de
seus filhos; mas temos sobretudo a convicção de que ela nos
exorte a recolhermos as lições espirituais das aparições e a
enveredarmos pela trilha que ela tão claramente nos traçou.
II. AS
LIÇÕES ESPIRITUAIS DAS APARIÇÕES
12. Essas
lições, eco fiel da mensagem evangélica, fazem ressaltar de
maneira impressionante o contraste que opõe os juízos de
Deus à vã sabedoria deste mundo. Numa sociedade que não tem
lá muita consciência dos males que a corroem, numa sociedade
que vela as suas misérias e as suas injustiças sob
aparências prósperas, brilhantes e descuidosas, a Virgem
imaculada, por quem o pecado jamais roçara, manifesta-se à
uma menina inocente. Com compaixão maternal percorre com o
olhar este mundo redimido pelo sangue de seu Filho, onde,
infelizmente, o pecado faz cada dia tantas devastações, e
por três vezes lança o seu apelo premente:
"Penitência, penitência, penitência!" Gestos
expressivos são, mesmo, pedidos: "Ide beijar a terra
em penitência pelos pecadores". E ao gesto há que
juntar a súplica: "Rogareis a Deus pelos pecadores".
Tal como no tempo de João Batista, tal como no início do
ministério de Jesus, a mesma injunção, forte e rigorosa,
dita aos homens a trilha da volta a Deus:
"Arrependei-vos" (Mt 3,2; 4,17). E quem
ousaria dizer que esse apelo à conversão do coração perdeu,
nos nossos dias, a sua atualidade?
13. Mas
poderia a Mãe de Deus vir a seus filhos senão como
mensageira de perdão e de esperança? Já a água lhe jorra aos
pés: "Ó vós todos que tendes sede, vinde às águas e
recebereis do Senhor a salvação".(17)
Àquela fonte onde, dócil, Bernardete foi a primeira a ir
beber e lavar-se, afluirão todas as misérias da alma e do
corpo. "Lá fui, lavei-me e vi" (Jo 9,11), poderá responder,
como o cego do evangelho, o peregrino agradecido. Mas, tal
como para as turbas que se comprimiam em volta de Jesus, a
cura das chagas físicas ali fica sendo, ao mesmo tempo que
um gesto de misericórdia, o sinal do poder que o Filho do
Homem tem de perdoar os pecados (cf. Mc 2,10). Junto a gruta
bendita, a Virgem nos convida, em nome de seu divino Filho,
à conversão do coração e à esperança do perdão.
Escutá-la-emos?
Enveredar
pela trilha que nossa Senhora nos traçou
14. Nessa
humilde resposta do homem que se reconhece pecador reside a
verdadeira grandeza deste ano jubilar. Que benefícios não
estaríamos no direito de esperar para a Igreja se cada
peregrino de Lourdes - e mesmo todo cristão unido de coração
às celebrações do centenário - realizasse primeiramente em
si mesmo essa obra de santificação, "não em palavras e
de língua, mas em atos e em verdade" (1Jo 3,18)?
Tudo, aliás, a isso ali o convida, pois em parte alguma,
talvez, tanto quanto em Lourdes, a gente se sente
levado ao mesmo tempo à oração, ao esquecimento de si e à
caridade. A vermos a dedicação dos padioleiros e a
paz serena dos doentes; a verificarmos a fraternidade que
congrega numa mesma invocação fiéis de todas as origens; a
observarmos a espontaneidade do auxílio mútuo e o fervor,
sem afetação, dos peregrinos ajoelhados diante da gruta,
os melhores são empolgados pelo atrativo de uma vida mais
totalmente dada ao serviço de Deus e de seus irmãos; os
menos fervorosos tomam consciência da sua tibieza e
reencontram o caminho da oração; não raras vezes os
pecadores mais empedernidos e os próprios incrédulos são
tocados pela graça, ou, ao menos, se são leais, não ficam
insensíveis ao testemunho daquela "multidão de crentes que
têm um só coração e uma só alma" (At 4,32).
15.
Geralmente, entretanto, essa experiência de alguns breves
dias de peregrinação não basta, por si só, para gravar em
caracteres indeléveis o apelo de Maria a uma autêntica
conversão espiritual. Por isso exortamos os pastores das
dioceses e todos os sacerdotes a rivalizarem em zelo para
que as peregrinações do centenário se beneficiem de uma
preparação, de uma realização e sobretudo de amanhãs, tanto
quanto possível propícios, a uma ação profunda e
duradoura da graça. O retorno a uma prática assídua dos
sacramentos, o respeito da moral cristã em toda a vida,
o ingresso, enfim, nas fileiras da Ação católica e das
diversas obras recomendadas pela Igreja: só nestas condições
- não é verdade? - o importante movimento de multidões
previsto em Lourdes para o ano de 1958 dará, segundo a
própria expectativa da Virgem imaculada, os frutos de
salvação tão necessários à humanidade presente.
16. Por
mais primordial, porém, que ela seja, a conversão individual
do peregrino não poderia, aqui, bastar. Neste ano jubilar,
exortamo-vos, caros filhos e veneráveis irmãos, a
suscitardes entre os fiéis confiados aos vossos cuidados um
esforço coletivo de renovação cristã da sociedade, em
resposta ao apelo de Maria: "Que os espíritos obcecados...
sejam iluminados pela luz da verdade e da justiça", já pedia
Pio XI por ocasião das festas marianas do jubileu da
redenção; "que os que se transviam no erro sejam
reconduzidos ao reto caminho, que uma justa liberdade seja
em toda parte concedida à Igreja, e que uma era de concórdia
e de verdadeira prosperidade se levante sobre todos os
povos"(18).
17. Ora,
o mundo, que tantos e tão justos motivos de ufania e de
esperança oferece nos nossos dias, conhece também uma
terrível tentação de materialismo, muitas vezes denunciada
pelos nossos predecessores e por nós mesmos. Esse
materialismo não está somente na filosofia condenada que
preside à política e à economia de uma porção da humanidade;
manifesta-se também no amor do dinheiro, cujas devastações
se amplificam à medida dos empreendimentos modernos, e que,
infelizmente, comanda tantas determinações que pesam sobre a
vida dos povos; traduz-se pelo culto do corpo, pela procura
excessiva do conforto e pela fuga de toda austeridade de
vida; induz ao desprezo da vida humana, daquela, mesmo, que
é destruída antes de ver a luz; está na demanda desenfreada
do prazer, que se ostenta sem pudor e que mesmo, pelas
leituras e pelos espetáculos, tenta seduzir almas ainda
puras; está na indiferença para com seu irmão, no egoísmo
que o esmaga, na injustiça que o priva dos seus direitos,
numa palavra, nessa concepção da vida que regula tudo em
vista somente da prosperidade material e das satisfações
terrenas. "Minha alma, dizia um rico, tens quantidade de
bens em reserva por longo tempo; repousa, come, bebe, leva
vida regalada. Mas Deus lhe diz: Insensato, esta noite mesmo
vão te pedir a tua alma" (Lc 12,19-20).
18. A uma
sociedade que, na sua vida pública, não raras vezes contesta
os direitos supremos de Deus, que quereria ganhar o universo
ao preço de sua alma (cf. Mc 8,36), e que assim correria à
sua perdição, a Virgem maternal lançou como que um brado de
alarme. Atentos ao seu apelo, ousem os sacerdotes a pregar a
todos, sem temor, as grandes verdades da salvação. Com
efeito, não há renovação durável senão fundada nos
princípios infrangíveis da fé, e pertence aos
sacerdotes formar a consciência do povo cristão.
Assim como, compassiva para com as nossas misérias, mas
clarividente sobre as nossas verdadeiras necessidades, a
Imaculada vem aos homens para lhes lembrar as diligências
essenciais e austeras da conversão religiosa, devem os
ministros de Deus, com sobrenatural segurança, traçar às
almas a estrada estreita que conduz à vida (cf. Mt 7,14).
Fá-lo-ão sem esquecer de que espírito de doçura e de
paciência necessitam (cf. Lc 9,55), mas sem nada quererem
apelar das exigências evangélicas. Na escola de Maria
aprenderão a só viver para dar Cristo ao mundo, mas, se
também preciso, aprenderão a esperar com fé a hora de Jesus
e a permanecer ao pé da cruz.
19. Em
torno aos seus sacerdotes, devem os fiéis colaborar nesse
esforço de renovação. Lá onde a Providência o colocou, quem
é que não pode fazer algo mais pela causa de Deus? O nosso
pensamento volve-se primeiro para a multidão das almas
consagradas, que, na Igreja, se dedicam a inúmeras obras de
bem. Os seus votos de religião aplicam-nas mais do que
outras a lutar vitoriosamente, sob a égide de Maria, contra
o desencadear, no mundo, dos apetites imoderados de
independência, de riqueza e de gozo; por isso, ante o apelo
da Imaculada, ao assalto do mal quererão elas opor-se
pelas armas da oração e da penitência e pelas vitórias da
caridade. O nosso pensamento volve-se igualmente
para as famílias cristãs, para conjurá-las a permanecerem
fiéis à sua insubstituível missão na sociedade. Consagrem-se
elas, neste ano jubilar, ao coração imaculado de Maria! Este
ato de piedade será para os esposos um auxílio espiritual
precioso na prática dos deveres da castidade e da fidelidade
conjugais; conservará na sua pureza o ambiente do lar, onde
crescem os filhos; bem mais, da família vivificada pela sua
devoção mariana, fará uma célula viva da regeneração social
e da penetração apostólica. E certamente, para além do
círculo familiar, as relações profissionais e cívicas
oferecem aos cristãos cuidadosos de trabalhar na renovação
da sociedade um campo de ação considerável. Congregados aos
pés da Virgem, dóceis às suas exortações, eles lançarão
primeiro sobre si mesmos um olhar exigente, e quererão
extirpar da sua consciência os juízos falsos e as reações
egoístas, temendo a mentira de um amor de Deus que não se
traduza em amor efetivo de seus irmãos (cf.1Jo 4,20).
Cristãos de todas as classes e de todas as nações,
procurarão encontrar-se na verdade e na caridade, banir as
incompreensões e as suspeitas. Sem dúvida, enorme é o peso
das estruturas sociais e das pressões econômicas que se faz
sentir sobre a boa vontade dos homens e que não raro a
paralisa. Mas, se, como nossos predecessores e nós mesmo com
insistência o frisamos, é verdade que a questão da paz
social e política é, no homem, primeiramente uma questão
moral, reforma nenhuma é frutuosa, acordo algum é estável,
sem uma mudança e uma purificação dos corações. Lembra-o a
todos a Virgem de Lourdes neste ano jubilar!
20. E se,
na sua solicitude, Maria se curva com alguma predileção
sobre alguns de seus filhos, não é, caros filhos e
veneráveis irmãos, sobre os pequenos, sobre os pobres e
sobre os doentes, os quais Jesus tanto amou? "Vinde a mim
vós todos que estais cansados e onerados, e eu vos
aliviarei", parece ela dizer com seu divino Filho (Mt
11,28). Ide a ela, vós a quem a miséria material esmaga, vós
sem defesa ante os rigores da vida e a indiferença dos
homens; ide a ela, vós a quem ferem os lutos e as provações
morais; ide a ela, caros doentes e enfermos, que em Lourdes
sois verdadeiramente recebidos e honrados como membros
padecentes de nosso Senhor; ide a ela, e recebei a paz do
coração, a força do dever cotidiano, a alegria do sacrifício
oferecido. A Virgem imaculada, que conhece os
encaminhamentos secretos da graça nas almas e o trabalho
silencioso desse fermento sobrenatural do mundo, sabe de que
valor são aos olhos de Deus os vossos sofrimentos unidos aos
do Salvador. Podem eles grandemente concorrer, disso não
duvidamos, para essa renovação cristã da sociedade que de
Deus imploramos pela poderosa intercessão de sua Mãe. Que, a
rogo dos doentes, dos humildes, de todos os peregrinos de
Lourdes, Maria volva igualmente o seu olhar materno para
aqueles que ainda permanecem fora do redil único da Igreja,
para os congregar na unidade! Lance o seu olhar sobre
aqueles que buscam a verdade e dela têm sede, para os
conduzir à fonte das águas vivas! Percorra, enfim, com o
olhar esses continentes imensos e essas vastas zonas humanas
onde, infelizmente, Cristo é tão pouco conhecido, tão pouco
amado, e obtenha para a Igreja a liberdade e a alegria de,
em todos os lugares, sempre jovem, santa e apostólica,
corresponder à expectativa dos homens!
21.
Querereis ter a bondade de vir...", dizia a ss. Virgem a
Bernardete. Esse convite discreto que não força, que se
dirige ao coração e solicita com delicadeza uma resposta
livre e generosa, propõe-no de novo a Mãe de Deus aos seus
filhos da França e do mundo. Sem se impor, ela os preme a
reformar-se a si próprios e a trabalhar com todas as suas
forças na salvação do mundo. Não hão de os cristãos ficar
surdos a esse apelo; irão a Maria. E é a cada um deles que,
no termo desta carta, quiséramos dizer com s. Bernardo:
"Nos perigos, nas angústias, nas incertezas, pensa em
Maria. ... Seguindo-a não te perderás; rezando para ela não
desesperarás; pensando nela não te enganarás. Se ela te
segurar não cairás; se ela te proteger não temerás; se ela
te guiar, não te cansarás; se ela te conceder os seus
favores, chegarás ao teu fim...".(19)
22. Temos
confiança, caros filhos e veneráveis irmãos, de que Maria
atenderá à vossa oração e à nossa. Pedimos-lho nesta festa
da Visitação, bem própria para celebrar aquela que, há um
século, dignou-se de visitar a terra da França. E,
convidando-vos a cantar a Deus, com a Virgem imaculada, o
"Magnificat" da vossa gratidão, chamamos sobre vós mesmos e
sobre os vossos féis, sobre o santuário de Lourdes e sobre
os seus peregrinos, sobre todos aqueles que arcam com a
responsabilidade das festas do centenário, a mais larga
efusão de graças, em penhor das quais, na nossa constante e
paternal benevolência, vos concedemos de todo coração a
bênção apostólica.
Dado em
Roma, junto a São Pedro, na festa da Visitação da santíssima
Virgem, no dia 2 de julho do ano de 1957, XIX do nosso
pontificado.
PIO PP.
XII
Notas
(1)
Carta de 12 de julho de 1914: AAS 6(1914), p. 376.
(2)
Discurso de 28 de abril de 1935 em Lourdes: Eug. Card.
Pacelli, Discursos e Panegíricos, 2° ed.,
Vaticano,1956, p. 435.
(3)
Ibidem, p. 437.
(4)
Ofício da festa das Aparições, Hino das II Vésperas.
(5)
Decreto De Tuto para a canonização de santa
Bernardete, 2 de julho de 1933: AAS 25(1933), p. 377.
(6)
Carta de 4 de setembro de 1869 a Henri Lasserre: Arquivo
secreto vaticana, Ep. lat. an.1869, n. 388, f. 695.
(7)
Ct 2,13-14. Gradual da Missa da festa das Aparições.
(8)
Breve de 8 de setembro de 1901: Acta Leonis XIII,
vol. 21, pp.159-160.
(9)
Carta encíclica Ad diem illum, de 2 de fevereiro de
1904: Acta Pii X, vol. 1, p.149.
(10)
Carta de 12 de julho de 1914: AAS 6(1914), p. 377.
(11)
Breve de 25 de abril de 1911: Arch. Brev. Ap., Pius X, an.1911,
Div. Lib. IX, pars I, f. 337.
(12) Breve de 11 de janeiro de 1933: Arch. Brev. Ap. Pius
XI, Ind. Perpet, f.128.
(13)
Ibidem.
(14)
Carta encíclica Fulgens corona, de 8 de setembro de
1953: AAS 45(1953), p. 578.
(15)
Ibidem.
(16)
Constituição apost. Omnium Ecclesiarum, de 15 de
agosto de 1954: AAS 46,1954, p. 567.
(17)
Ofício da festa das Aparições. 1° Responso do III Noct.
(18)
Carta de 10 de janeiro de 1935; AAS 27, p. 7.
(19)
Hom. II super Missus est: PL 183, 70-71.
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