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JESUS NO MONTE DAS OLIVEIRAS.
Jesus, com os Apóstolos, a caminho do horto de Getsêmani
Quando
Jesus, depois da instituição do SS. Sacramento, saiu do
Cenáculo com os onze Apóstolos, já tinha a alma oprimida de
aflição e crescente tristeza. Conduziu os onze, por um
desvio, ao vale de Josafá, dirigindo-se ao monte das
Oliveiras.
Ao
chegarem ao portão, vi a lua, ainda não inteiramente cheia,
levantar-se por cima da montanha. Andando com os Apóstolos
pelo vale, disse-lhes o Senhor que lá voltaria um dia, para
julgar o mundo, mas não pobre e sem poder como hoje, e que
então muitos, com grande medo, exclamariam: “Montes,
cobri-nos”.
Os
discípulos não O compreenderam, pensando, como muitas vezes
nessa noite, que a fraqueza e o esgotamento os faziam
delirar. Ora andavam, ora paravam, conversando com o Mestre.
Disse-lhes também Jesus:
“Vós todos haveis de escandalizar-vos em mim esta noite”;
pois está escrito: “Tirarei o pastor, e as ovelhas
serão dispersas. – Mas, quando tiver ressuscitado,
preceder-vos-ei na Galiléia”.
Os Apóstolos estavam ainda cheios de entusiasmo e
amor, pela recepção do SS. Sacramento e pelas palavras
solenes e afetuosas de Jesus. Comprimiam-se-Lhe em torno,
exprimindo-Lhe de vários modos o seu amor e protestando que
não O abandonariam nunca. Mas, como Jesus continuasse a
falar no mesmo sentido, disse-lhe Pedro:
“E, se todos se escandalizarem por vossa causa, eu nunca me
escandalizarei”.
Respondeu-lhe o Senhor:
“Em verdade te digo, tu mesmo três vezes me negarás esta
noite, antes do galo cantar”.
Pedro,
porém, não quis conformar-se de modo algum e disse:
“Mesmo que tivesse de morrer convosco, não vos havia de
negar”.
Assim
falaram também todos os outros. Continuavam andando e
parando alternadamente e a tristeza de Jesus aumentava cada
vez mais. Queriam os Apóstolos consolá-Lo de modo
inteiramente humano, assegurando-lhe que não aconteceria
tal. Nesses vãos esforços se cansaram, começaram a duvidar e
veio-lhes a tentação.
Atravessaram a torrente Cedron, não pela ponte,
sobre a qual Jesus foi depois conduzido preso, mas por
outra, porque tinham tomado um desvio.
Getsêmani, situado no monte das Oliveiras, para onde se
dirigiram, fica a meia hora certa do Cenáculo, pois do
Cenáculo À porta que dá para o vale de Josafá, se leva um
quarto de hora e dali ao Getsêmani outro tanto.
Este
lugar, no qual Jesus ensinou algumas vezes aos discípulos,
passando ali a noite com eles nos últimos dias, consta de
algumas casas de pousada, abertas e desocupadas e de um
largo jardim, cercado de sebe, no qual há somente plantas
ornamentais e árvores frutíferas.
Os
Apóstolos e diversas outras pessoas tinham a chave deste
jardim, que era um lugar de recreio e de oração. Gente que
não tinha jardim próprio fazia às vezes festas e banquetes
ali. Havia também vários caramanchões de folhagem espessa,
num dos quais ficaram naquele dia oito Apóstolos e alguns
outros discípulos, que se lhes juntaram mais tarde.
O
horto das Oliveiras é separado do Jardim de Getsêmani por um
caminho e estende-se mais para o alto do monte. É aberto,
cercado apenas de um aterro e menor do que Getsêmani, um
canto cheio de grutas e recantos, em que por toda a parte se
vêem oliveiras. Um lado era mais bem tratado; havia nele
assentos, bancos de relva bem cuidados e grutas espaçosas e
sombrias. Quem quisesse, podia ali facilmente achar um lugar
próprio para a oração e meditação. Era à parte
mais sem cuidados que Jesus ia rezar.
Jesus atribulado pelos horrores do pecado.
Eram quase 9 horas da noite, quando Jesus chegou,
com os discípulos, a Getsêmani. Ainda reinava a escuridão na
terra, mas no céu a lua já espargia a luz prateada. Jesus
estava muito triste e anunciou-lhes a aproximação do perigo.
Os discípulos assustaram-se e Ele disse a oito dos
companheiros que ficassem no Jardim de Getsêmani, num lugar
onde havia um caramanchão.
“Ficai aqui, disse, enquanto vou ao meu lugar rezar”.
Tomando consigo Pedro, João e Tiago o Maior, subiu mais para
o alto e, cruzando um caminho, avançara, numa distância de
alguns minutos, do horto das Oliveiras ao pé do monte.
Ele estava numa indizível tristeza; pressentia a tribulação
e tentação, que se aproximavam.
João perguntou-lhe como podia agora estar tão abatido,
quando sempre os tinha consolado. Então Jesus disse:
“Minha alma está triste até a morte”
e, olhando em redor de si, viu de todos os lados se
aproximarem angústias e tentações, como nuvens cheias de
figuras assustadoras. Foi nessa ocasião que disse aos
Apóstolos:
“Ficai aqui e vigiai comigo; orai, para não serdes
surpreendidos pela tentação”.
Eles ficaram então ali; Jesus, porém, adiantou-se ainda
mais; mas as horrorosas visões assaltavam-no de tal modo,
que, cheio de angustia, desceu um pouco à esquerda dos três
Apóstolos, escondendo-se debaixo de um grande rochedo, numa
gruta de talvez 7 pés de profundidade; os Apóstolos ficaram
em cima desse rochedo, numa espécie da cavidade. O chão da
gruta era suavemente inclinado e as plantas pendentes do
rochedo, que sobressaía em frente, formavam uma cortina
diante da entrada, de maneira que quem estivesse dentro da
gruta, não podia ser visto de fora.
Quando Jesus se afastou dos discípulos, vi em redor
dele um largo círculo de imagens horríveis, o qual se
apertava mais e mais. Cresceu-lhe a tristeza e a tribulação
e retirou-se tremendo para dentro da gruta, semelhante ao
homem que, fugindo de uma repentina tempestade, procura
abrigo para rezar, vi, porém, que as imagens
assustadoras o perseguiram lá dentro da gruta, tornando-se
cada vez mais distintas.
A
estreita caverna parecia encerrar o horrível espetáculo de
todos os pecados cometidos, desde a primeira queda do homem,
até ao fim dos séculos, como também todos os castigos. Foi
ali, no monte das Oliveiras, que Adão e Eva, expulsos do
Paraíso, pisaram primeiro a terra e foi nessa caverna que
choraram e gemeram.
Tive a
clara impressão de que Jesus, entregando-se às dores da
Paixão, que ia começar e sacrificando-se à justiça divina,
em satisfação de todos os pecados do mundo, de certo modo
retirou a sua divindade para o seio da SS. Trindade;
impelido por amor infinito, quis entregar-se à fúria
de todos os sofrimentos e angústias, na sua humanidade
puríssima e inocente, verdadeira e profundamente sensível,
para expiação dos pecados do mundo, armado
somente do amor do seu coração humano.
Querendo satisfazer pela raiz e por todas as excrescências
do pecado e da má concupiscência, tomou o
Misericordiosíssimo Jesus no coração a raiz de toda a
explicação purificadora e de toda a dor santificante, por
amor de nós, pecadores e, para satisfazer pelos pecados
inumeráveis, deixou esse sofrimento infinito estender-se,
como uma arvore de dores e penetrar-lhe com mil ramos todos
os membros do corpo sagrado, todas as faculdades da alma
santa.
Entregue assim inteiramente à sua humanidade, implorando a
Deus com tristeza e angustia indizíveis, prostrou-se por
terra. Viu em inumeráveis imagens todos os pecados do mundo,
com toda a sua atrocidade, tomou todos sobre si e
ofereceu-se na sua oração, para dar satisfação à justiça do
Pai Celestial, pagando com os sofrimentos toda essa dívida
da humanidade para com Deus.
Satanás, porém, que se movia no meio de todos os horrores,
em figura terrível e com um riso furioso, enraivecia-se cada
vez mais contra Jesus e, fazendo passar-lhes diante da alma
visões sempre mais horrorosas, gritou diversas vezes à
humanidade de Jesus:
“Que? Tomarás
também isto sobre ti? Sofrerás também o castigo por este
crime? Como podes satisfazer por tudo isto?”
Veio, porém, um estreito feixe de luz, da região
onde o sol está entre as dez e onze horas, descendo sobre
Jesus e nela vi surgir uma fileira de Anjos, que Lhe
transmitiram força e ânimo.
A
outra parte da gruta estava cheia de visões horrorosas dos
nossos pecados e de maus espíritos, que O insultavam e
agrediam; Jesus aceitou tudo; o seu Coração, o único que
amava perfeitamente a Deus e aos homens, nesse deserto cheio
de horrores, sentia com dilacerante tristeza e terror a
atrocidade e o peso de todos esses pecados. Ai! vi tantas
coisas ali! Nem um ano chegaria para contá-las!
Tentações da parte de Satanás.
Quando
essa multidão de culpas e pecados acabou de passar diante da
alma de Jesus, como um mar de horrores e após se haver ele
oferecido, como sacrifício de explicação por tudo e chamado
sobre si toda a onda de penas e castigos, suscitou-lhe
Satanás inumeráveis tentações, como outrora no deserto;
apresentou até numerosas acusações contra o puríssimo
Salvador. “Que”!
Disse ele, “Queres
tomar tudo isto sobre ti e não és puro? Vê isto e aquilo e
mais isto!”
E então desenrolou, diante dos olhos imaculados da Divina
Vítima, com impertinência infernal, uma multidão de
acusações inventadas.
Acusou-O das faltas dos discípulos, dos escândalos que
tinham dado, das perturbações que Ele trouxe ao mundo,
renunciando aos costumes antigos. Satanás procedeu como o
mais hábil e astuto fariseu. Acusou-O de ter sido a
causa da matança dos inocentes por Herodes, dos perigos e
sofrimentos de seus pais no Egito; acusou-O de não ter
salvado da morte a João Batista, de ter desunido famílias,
protegido pessoas de má fama, de não ter curado certos
doentes, de ter causado prejuízo aos habitantes de Gergesa,
porque permitiu aos possessos que entornassem a sua dorna de
bebidas e porque causou a morte da manada de porcos no lago.
Imputou-Lhe as faltas de Maria Madalena, por não lhe ter
impedido a recaída no pecado; acusou-O de ter abandonado a
família e de ter dissipado o bem alheio; numa palavra, tudo
de que Satanás podia ter acusado, na hora da morte, um homem
comum, que tivesse feito tais ações externas, sem motivos
sobrenaturais: tudo apresentou o tentador à alma abatida de
Jesus, para amedrontá-la e desanimá-la; pois ignorava que
Jesus era o Filho de Deus e tentou-O somente como ao mais
justo dos homens.
Nosso
Salvador deixou predominar a sua humanidade de tal modo, que
quis sofrer também aquelas tentações, que assaltam mesmo os
homens que têm uma morte santa, pondo em dúvida o valor
interno das obras boas. Jesus permitiu, para esvaziar todo o
cálice da agonia, que o tentador, ignorando-Lhe a divindade,
Lhe apresentasse todas as suas obras de caridade como outras
tantas dívidas, ainda não pagas, à graça divina.
O
tentador censurou-O de querer expiar as culpas de outros,
Ele, que não tinha méritos e que tinha ainda de satisfazer à
justiça divina, pelas graças de tantas obras que considerava
boas. A divindade de Jesus permitiu que o inimigo lhe
tentasse a humanidade, como podia tentar um homem que
quisesse atribuir ás suas obras um valor próprio, além
daquele único que podem ter, da união com os méritos da
morte redentora de nosso Senhor e Salvador.
O
tentador apresentou-Lhe assim todas as suas obras de amor
como atos privados de todo mérito, que antes O constituíam
devedor de Deus, porque, segundo o acusador, o seu valor
provinha antecipadamente, por assim dizer, dos méritos da
Paixão, ainda não consumada e cujo valor infinito Satanás
ainda não conhecia; portanto, não teria Jesus ainda
satisfeito, na opinião do tentador, pelas graças recebidas
para essas obras e disse, aludindo a estas:
”Ainda deves por esta obra e
por aquela”.
Finalmente desenrolou mais um título de dívida diante de
Jesus, afirmando que tinha recebido e gasto o preço da venda
da propriedade de Maria Madalena em Magdalum; disse a Jesus:
“Como ousaste
desperdiçar o bem alheio, prejudicando assim aquela
família?”
Vi a
apresentação de tudo a cuja expiação Jesus se oferecera e
senti com Ele todo o peso das numerosas acusações que o
tentador levantou contra Ele; pois, entre os pecados do
mundo que o Salvador tomou sobre si, vi também os meus
inumeráveis pecados e do círculo das tentações veio também a
mim, um como rio de acusações, nas quais se me patentearam
todos os meus pecados de atos e omissões.
Eu,
porém, olhava sempre para o meu Esposo celeste, durante essa
apresentação dos pecados, gemendo e rezando com Ele e
virava-me também com Ele para os Anjos consoladores. Ai! O
Senhor torcia-se como um verme, sob o peso da dor e das
angústias!
Durante todas essas acusações de Satanás contra o
puríssimo Salvador, somente com grande esforço consegui
conter-me; mas, quando levantou a acusação da venda da
propriedade de Madalena, não pude mais me conter e
gritei-lhe: “Como podes chamar dívida o preço da venda
dessa propriedade? Eu mesma vi o Senhor, com essa quantia,
que lhe foi entregue por Lázaro, para obras de misericórdia,
remir 27 pobres desamparados dos cárceres de Tirza”.
A princípio estava Jesus de joelhos, rezando
tranquilamente; mais tarde, porém, se lhe assustou a alma, à
vista da atrocidade dos inumeráveis crimes e da ingratidão
dos homens para com Deus; assaltaram-no angústia e dor tão
veementes, que suplicou tremendo:
“Meu Pai, se for possível, passe
este cálice longe de mim. Meu Pai, tudo vos é possível:
afastai este cálice de mim”. Depois sossegou
e disse: “Não se faça, porém,
a minha vontade, mas a vossa”. A sua vontade
e a do Pai eram uma só; mas entregue à fragilidade da
natureza humana, por amor, Jesus tremia à vista da morte.
Jesus
volta para junto dos três, Apóstolos.
Vi a
caverna rodeada de formas assustadoras; todos os pecados,
toda a iniqüidade, todos os vícios, todos os tormentos, toda
a ingratidão, que o angustiavam; vi os terrores da morte, o
horror que sentia, como homem, diante do imenso sofrimento
expiatório, assaltando-O e oprimindo-O, sob as formas de
espectros hediondos.
Ele caiu por terra, torcendo as mãos; cobria-O o suor da
angústia; tremia e estremecia. Levantou-se, mas os joelhos
trementes quase não O suportavam; estava inteiramente
desfigurado e irreconhecível, os lábios pálidos, o cabelo
eriçado.
Eram cerca de dez horas e meia, quando se levantou e se
arrastou para junto dos três Apóstolos, cambaleando, caindo
a cada passo, banhado num suor frio. Subiu à esquerda da
caverna, e, passando por cima desta, chegou a um aterro,
onde os discípulos estavam adormecidos, encostados um ao
outro, abatidos pela fadiga, tristeza, inquietação e
tentação.
Jesus aproximou-se-lhes, como um homem angustiado a quem o
terror impele para junto dos amigos e como um bom pastor
que, transtornado, profundamente, vai para junto do rebanho,
que sabe, ameaçado de um perigo próximo; pois não ignorava
que também eles se achavam em angústia e tentação. Vi as
horrorosas visões cercarem-no também nesse curto caminho.
Encontrando os Apóstolos a dormir, torceu as mãos e caiu por
terra ao lado deles, cheio de tristeza e fraqueza, dizendo:
“Simão, dormes?” Então acordaram e
levantaram-se; e Ele disse, no seu desamparo: “Então
não pudestes velar uma hora comigo?”. Quando o viram
tão assustado e desfigurado, pálido, cambaleando, banhado de
suor, tremendo e estremecendo, quando O ouviram queixar-se
com voz quase extinta, não sabiam mais o que pensar; se não
lhes tivesse aparecido cercado de luz que bem conheciam, não
teriam reconhecido.
Disse-lhe João: “Mestre, que tendes? Quereis que
chame os outros Apóstolos? Devemos fugir?” Jesus, porém,
respondeu: “Ainda que vivesse mais 33 anos, ensinando
e curando enfermos, não chegaria ao que tenho de cumprir até
amanhã. Não chames os oito; deixai-os ali,
porque não poderiam ver-me nesta aflição, sem
escandalizar-se; cairiam em tentação, esquecer-se-iam de
muitas coisas e duvidariam de Mim. – Vós, porém, que vistes
o Filho do homem transfigurado, podeis vê-lo também no seu
desamparo; mas vigiai e orai para não cairdes em tentação. O
espírito é pronto, mas a carne é fraca”.
Disse-o, referindo-se a eles e a si mesmo. Quis induzi-los,
com essas palavras, à presença e dar-lhes a saber a luta da
sua natureza humana contra a morte e a causa daquela
fraqueza. Falou-lhes ainda sobre outras coisas, sempre
abismado naquela tristeza e ficou cerca de um quarto de hora
com eles. Em angústia mais e mais crescente voltou à gruta;
eles, porém, estenderam para Ele as mãos chorando e caíram
uns nos braços dos outros, perguntando: “Que é isto? Que
lhe aconteceu? Está tão desolado!” Começaram a rezar,
com as cabeças cobertas, cheios de tristeza.
Tudo que acabo de contar, deu-se em mais ou menos uma hora e
meia, depois que entraram no horto das Oliveiras. É verdade
que Jesus disse, segundo o Evangelho: “Não podeis
velar uma hora comigo?” Mas não se o pode entender
ao pé da letra, segundo o nosso modo de falar, os três
Apóstolos, que vieram com Jesus, tinham rezado no começo;
mas depois adormeceram; conversando entre si com pouca
confiança, caíram em tentação. Os oito Apóstolos, porém, que
ficaram na entrada do horto, não dormiram. A angústia que se
mostrara nessa noite em todos os discursos de Jesus,
tornou-os muito perturbados e inquietos; erravam pelas
vizinhanças do monte das Oliveiras para procurar um lugar de
refúgio, em caso de perigo.
Em Jerusalém houve nessa noite pouco movimento; os judeus
estavam nas suas casas, ocupados com os preparativos para a
festa. Os acampamentos dos forasteiros que tinham vindo para
a festa, não estavam nas vizinhanças do monte das Oliveiras.
Enquanto eu ia e voltava nesses caminhos, vi discípulos e
amigos de Jesus, andando e conversando; pareciam inquietos,
à espera de qualquer desgraça. A Mãe do Senhor, com
Madalena, Marta, Maria, mulher de Cléofas, Maria Salomé e
Salomé, assustadas por boatos, foram com amigas para fora da
cidade, a fim de ter notícias de Jesus.
Ali as encontraram Lázaro, Nicodemos, José de Arimatéia e
alguns parentes de Hebron e procuraram sossegá-las; pois,
tendo eles mesmos conhecimento, pelos discípulos, dos
tristes discursos feitos por Jesus no Cenáculo, foram pedir
informações a alguns fariseus conhecidos e destes souberam
que não constava nada sobre tentativas imediatas contra o
Senhor.
Disseram por isso às mulheres que o perigo não podia ser
grande, que tão próximo da festa não poriam as mãos em
Jesus. É que não sabiam da traição de Judas. Maria, porém,
contou-lhes o estado perturbado deste nos últimos dias ao
sair do Cenáculo e advertiu-os de que com certeza fora trair
ao Senhor, apesar das repreensões, pois era filho da
perdição. Depois voltaram as santas mulheres à casa de
Maria, mãe de Marcos.
Anjos mostram a Jesus a
enormidade dos seus sofrimentos e consolam-nO.
Voltando à gruta, com toda a tristeza que o acabrunhava,
Jesus prostrou-se por terra, com os braços estendidos e
rezou ao Pai Celeste. Mas passou-lhe na alma nova luta, que
durou três quartos da hora. Anjos vieram apresentar-Lhe em
grande número de visões, tudo o que devia aceitar de
sofrimentos, para expiar o pecado.
Mostraram-lhe a beleza do homem antes do primeiro pecado,
como imagem de Deus e quanto o pecado o tinha rebaixado e
desfigurado. Mostraram-lhe como o primeiro pecado fora a
origem de todos os pecados, a significação e essência da
concupiscência e seus terríveis efeitos sobre as faculdades
da alma e do corpo do homem, como também a essência e a
significação de todas as penas contrárias à concupiscência.
Mostraram-lhe os seus sofrimentos expiatórios primeiramente
como sofrimentos de corpo e alma, suficientes para cumprir
todas as penas impostas pela justiça divina à humanidade
inteira, por toda a má concupiscência; e depois como
sofrimento, que, para dar verdadeira satisfação, castigou os
pecados de todos os homens na única natureza humana que era
inocente: na humanidade do Filho de Deus, O qual, para tomar
sobre si, por amor, a culpa e o castigo da humanidade
inteira, devia também combater e vencer a repugnância humana
contra o sofrimento e a morte.
Tudo isto lhe mostraram os Anjos, ora em coros inteiros, com
séries de imagens, ora separados, com as imagens principais;
vi as figuras dos Anjos mostrando com o dedo elevado às
imagens e percebi o que disseram, mas sem lhes ouvir as
vozes.
Não há língua que possa descrever o horror e a dor que
invadiram a alma de Jesus, ao ver esta terrível expiação;
pois não viu somente a significação das penas expiatórias
contrárias à concupiscência pecaminosa, mas também a
significação de todos os instrumentos do martírio, de modo
que O horrorizou, não só a dor causada pelos instrumentos,
mas também o furor pecaminoso daqueles que o inventaram, a
malícia dos que os usavam e a impaciência daqueles que com
eles tinham sido atormentados, pois pensavam sobre Ele todos
os pecados do mundo. O horror
desta visão foi tal, que lhe saiu do corpo um suor de
sangue.
Enquanto a humanidade de Jesus sofria e tremia, sob esta
terrível multidão de sofrimentos, notei um movimento de
compaixão nos Anjos; houve uma pequena pausa: parecia-me que
desejavam ardentemente consolá-lo e que apresentavam as
súplicas diante do trono de Deus. Era como se houvesse uma
luta instantânea entre a misericórdia e a justiça de Deus e
o amor que se estava sacrificando.
Foi-me mostrada uma imagem de Deus, não como em outras
ocasiões, num trono, mas numa forma luminosa menos
determinada; vi a pessoa do Filho retirar-se na pessoa do
Pai, como que lhe entrando no peito; a pessoa do Espírito
Santo saindo do Pai e do Filho e estando entre Eles; e todos
eram um só Deus. Quem poderá descrever exatamente uma tal
visão?
Não tive tanto uma visão com figuras humanas, como uma
percepção interna, na qual me foi mostrado, por imagem, que
a vontade divina de Jesus Cristo se retirava mais para o
Pai, para deixar pesar sobre a sua humanidade todos os
sofrimentos, que esta pedia ao Pai que afastasse; de modo
que a vontade divina de Jesus, unida ao Pai, impunha à sua
humanidade todos os sofrimentos que a vontade humana, pelas
súplicas, queria afastar.
Vi-O no momento da compaixão dos Anjos, quando estes
desejavam consolar Jesus que, com efeito, teve neste
instante um certo alívio. Depois desapareceu tudo e os
Anjos, com sua compaixão consoladora, abandonaram o Senhor,
cuja alma entrou em novas angústias.
Mais imagens de pecados
que atormentam o Senhor.
Quando o Redentor, no monte das Oliveiras, se entregou, como
homem verdadeiro e real, ao horror humano, à dor e à morte,
quando se incumbiu de vencer esta repugnância de sofrer, que
faz parte de todo o sofrimento, foi permitido ao tentador
que lhe fizesse tudo o que costuma fazer a todo homem que
quer sacrificar-se por uma causa santa.
Na primeira agonia Satanás mostrara a Nosso Senhor, com
raivosa zombaria, a enormidade da culpa do pecado, que
quisera tomar a si e levou a audácia ao ponto de afirmar que
a vida do mesmo Redentor não era livre de pecados.
Na segunda agonia viu Jesus a imensidade da Paixão
expiatória, em toda a sua realidade e amargura. Esta
apresentação foi feita pelos Anjos; pois não compete a
Satanás mostrar a possibilidade da expiação, nem convém que
o pai da mentira e do desespero mostre as obras da
misericórdia divina.
Tendo, porém, Jesus resistido a todas essas tentações, pelo
abandono completo à vontade do Pai Celeste, foi-Lhe
apresentada à alma uma nova série terrível de visões
assustadoras; a dúvida e inquietação que no coração do homem
precedem a todo o sacrifício, a pergunta amarga: Qual será o
resultado, o proveito deste sacrifício? A visão de um futuro
assustador atormentou-Lhe então o Coração amoroso.
Deus mergulhou o primeiro homem, Adão, num profundo sono,
abriu-lhe o lado, tomou-lhe uma das costelas, formou dela
Eva, a mulher, a mãe de todos os vivos e apresentou-a a
Adão. Então disse este: “Este é o osso dos meus ossos
e a carne da minha carne; o homem deixará pai e mãe, para
aderir à sua mulher e serão dois numa só carne”.
Do matrimônio foi escrito: ”Este sacramento é grande,
digo, porém, em Jesus Cristo e na Igreja”; Pois
Jesus Cristo, o novo Adão, quis também se submeter a um
sono, o sono da morte na Cruz; quis também deixar que lhe
abrissem o lado, para que deste fosse feita a nova Eva,
sua esposa imaculada, a Igreja, mãe de todos os
vivos; quis dar-lhe o sangue da redenção, a água da
purificação e o Espírito Santo: os três que dão
testemunho na terra; quis dar-lhe os santos
Sacramentos, para que fosse uma esposa pura, santa e
imaculada; quis ser-lhe a cabeça e nós devíamos ser-lhe os
membros, sujeitos à cabeça, devíamos ser os ossos dos seus
ossos, carne da sua carne.
Aceitando a natureza humana, para sofrer a morte por nós,
tinha Jesus abandonado pai e mãe e unira-se a sua esposa, à
Igreja; tornou-se uma carne com ela,
alimentando-a com o santíssimo
Sacramento do Altar, no qual se une a nós dia
após dia; quis permanecer presente na terra com sua esposa,
a Igreja, até nos unirmos todos a Ele no Céu e
disse: “As portas do inferno não prevalecerão contra
ela”. Para praticar esse incomensurável amor para
com os pecadores, tornara-se homem e irmão dos pecadores,
tomando sobre si a pena de toda a culpa.
Tinha visto com grande tristeza a imensidade desta culpa e
da paixão expiatória e contudo entregara-se voluntariamente
à vontade do Pai celeste, como vítima expiatória. Neste
momento, porém, viu Jesus os sofrimentos, as perseguições,
as feridas da futura Igreja, sua esposa, que estava para
remir tão caro, com o seu próprio sangue: viu a
ingratidão dos homens.
Apresentaram-se-Lhe diante da alma todos os futuros
sofrimentos dos Apóstolos, discípulos e amigos, a Igreja
primitiva, tão pouco numerosa, depois também as heresias e
cismas, que nasceram á medida que a Igreja crescia,
repetindo a primeira queda do homem pelo orgulho e
desobediência, pelas diversas formas de vaidade e falsa
justiça.
Viu a tibieza, a corrupção e malícia de um número
infinito de cristãos, as mentiras e a esperteza enganadora
dos mestres orgulhosos, os crimes sacrílegos de todos os
sacerdotes viciosos e todas as horríveis conseqüências:
A abominação e desolação do reino de Deus sobre a terra,
neste santuário da humanidade ingrata, o qual estava: para
fundar e remir com indizíveis sofrimentos, pelo preço de seu
sangue e sua vida.
Vi passar diante da alma do nosso pobre Jesus, em séries
mensais de visões, os escândalos de todos os séculos, até o
nosso tempo e mesmo até o fim do mundo, em todas as formas
do erro doentio, da intriga orgulhosa, do fanatismo furioso,
dos falsos profetas, da obstinação e malícia herética.
Todos os apóstatas, os heresiarcas, os reformadores de
aparência santa, os sedutores e os seduzidos insultavam e
torturavam-na, como se não tivesse sofrido bastante, nem
sido bem crucificado a seu ver e conforme o desejo orgulhoso
e presunção vaidosa de cada um; rasgavam e partiam,
disputando, a túnica sem costuras da Igreja;
cada um queria tê-Lo como Redentor de modo diferente
do que se tinha mostrado no seu amor.
Muitos O maltratavam, insultavam, negavam-nO. Viu inúmeros
alçarem os ombros e sacudirem a cabeça, afastando-se dos
braços que lhes estendia para salvá-los e precipitar-se no
abismo, que os tragou.
Viu um número infinito de outros, que não ousavam negá-lO em
alta voz, mas que se afastavam, por desgosto das aflições da
Igreja, como o levita que se afastou do pobre viajante que
caíra nas mãos dos salteadores. Viu-os separar-se de sua
esposa ferida, como filhos covardes e infiéis abandonam as
mães de noite, quando a casa é assaltada por ladrões e
assassinos, aos quais por descuido abriram a porta.
Viu-os seguirem os despojos levados ao deserto, os vasos de
ouro e os colares quebrados. Viu-os separados da videira
verdadeira, pousarem sob as videiras silvestres; viu-os como
ovelhas extraviadas, abandonadas aos lobos, conduzidas a mau
pasto por mercenários e não querendo entrar no aprisco do
bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.
Viu-os errarem, sem pátria, no deserto, não querendo ver a
sua cidade, colocado sobre o monte e que não pode ficar
escondida. Viu-os em discórdia, agitados pelo vento para lá
e para cá, nas areias do deserto, mas sem querer ver a casa
de sua esposa, a Igreja fundada sobre a pedra,
com a qual prometeu ficar até o fim do mundo e contra a qual
as portas do inferno não prevalecerão.
Não queriam entrar pela porta estreita, para
não baixar a cabeça. Viu-os seguir a outros, que não
entraram no aprisco pela porta verdadeira. Construíram,
sobre a areia, cabanas mudáveis e diferentes umas das
outras, que não tinham nem altar nem sacrifício,
porém cata-ventos nos tetos e suas doutrinas mudavam-nas com
os ventos; contradiziam-se uns aos outros, não se entendiam,
nem tinham estadia permanente.
Viu-os destruírem muitas vezes as cabanas, lançado os
destroços contra a pedra angular da Igreja,
que ficou inabalável. Viu muitos que, apesar da escuridão
nas suas moradas, não queriam aproximar-se da luz, posta no
candelabro, na casa da esposa, mas erravam, com os olhos
cerrados, em redor do jardim cercado da Igreja, de cujos
perfumes ainda viviam. Estendiam as mãos a imagens nebulosas
e seguiam astros errantes, que os conduziam a poços sem água
e mesmo na margem das fossas, não davam ouvido à voz
do Esposo que os chamava e esfomeados riam-se ainda,
com orgulho arrogante, dos servos mensageiros, que os
convidavam para o banquete nupcial. Não queriam entrar no
jardim, por temerem os espinhos da cerca - viva.
Viu-os o Senhor, inebriados de amor próprio, morrer de fome,
por não ter trigo e de sede, por não ter vinho; cegos pela
sua própria luz, chamavam de invisível a Igreja do
Verbo encarnado. Jesus viu-os todos com tristeza;
quis sofrer por todos que não queriam segui-lo,
carregando a cruz da Igreja, sua esposa, à, qual se deu no
SS. Sacramento, na sua cidade colocada no cimo do
monte, que não pode ficar escondida, na sua Igreja, fundada
sobre a pedra e contra a qual as portas do inferno não
prevalecerão.
Todas estas inumeráveis visões da ingratidão dos homens, do
abuso feito da morte expiatória de meu Esposo Celeste, vi-as
passar diante da alma contristada do Senhor, ora variando,
ora em dolorosa repetição; vi Satanás, em diversas figuras
assustadoras, arrancando e estrangulando, diante dos olhos
de Jesus, os homens remidos pelo seu sangue e até mesmo
homens ungidos com o seu santo Sacramento.
O Salvador viu com grande amargura toda a ingratidão, toda a
corrupção, tanto dos primeiros cristãos, como dos que se lhe
seguiram, dos presentes e dos futuros. Entre estas aparições
dizia o tentador continuamente à humanidade do Cristo:
“Eis aí, por tal
ingratidão queres sofrer?”
Estas imagens passaram, em contínua repetição diante do
Senhor e com tanta impetuosidade, com tanto horror e
escárnio pesaram sobre Jesus, que angústia, indizível lhe
oprimia a natureza humana.
Jesus Cristo, o Filho do Homem, estendia e torcia as mãos,
caindo como que oprimido e pôs-se de novo de joelhos. A
vontade humana do Redentor travava uma luta terrível contra
a repugnância de sofrer tanto por uma raça tão ingrata, que
o sangue lhe saiu do corpo, em grossas gotas de suor e
correu em torrentes sobre a terra. Naquela aflição olhou em
redor de si como para pedir socorro e parecia chamar o céu,
a terra e os astros do firmamento pro testemunhas de seu
sofrimento. Parecia-me ouvi-lo exclamar: “É possível
suportar tal ingratidão? Sois testemunhas do que sofro”.
Então foi como se a lua e as estrelas se aproximassem num
instante; senti nesse momento que se tornava mais claro.
Observei então a lua, o que antes não fizera, e pareceu-me
de todo diferente: ainda não era toda cheia e parecia maior
do que em nossa terra. No meio vi uma mancha escura,
semelhante a um disco posto diante dela e no meio havia uma
abertura, pela qual brilhava a luz para o lado onde a lua
ainda não estava cheia. A mancha escura era como um monte e
em redor da lua havia ainda um círculo luminoso, como um
arco-íris.
Jesus, na sua aflição, levantou a voz por alguns momentos,
em alto pranto. Vi os Apóstolos levantarem-se assustados,
com as mãos postas erguidas, escutarem e querendo correr
para junto do Mestre. Mas Pedro reteve a João e Tiago,
dizendo: “Ficai, eu vou lá”. Vi-o correr e entrar na
gruta. “Mestre, disse ele, que tendes”?, e parou,
tremendo, ao vê-lo todo
ensangüentado e angustiado. Jesus, porém, não
lhe respondeu e pareceu não lhe notar a presença. Então
voltou Pedro para junto dos outros dois e suspirava. Por
isso lhes aumentou ainda a tristeza; sentaram-se velando as
cabeças e rezaram entre lágrimas.
Eu, porém, voltei a meu Esposo Celeste, em sua dolorosa
agonia. As imagens hediondas da ingratidão e dos abusos dos
homens futuros, cuja culpa tomara sobre si, a cuja pena se
entregara, arremessaram-se contra Ele, cada vez mais
terríveis e impetuosas. De novo lutou contra a repugnância
da natureza humana de sofrer; diversas vezes o ouvi
exclamar: “Meu Pai, é possível sofrer por todos estes?
Pai, se este cálice não pode ser afastado de mim, seja feita
a vossa vontade”.
No meio de todas estas visões de pecados contra a divina
misericórdia, vi Satanás em diversas formas hediondas,
conforme a espécie dos pecados. Ora aparecia como homem alto
e negro, ora sob a figura de tigre, ora como raposa ou lobo,
como dragão ou serpente; não eram, porém, as figuras
naturais desses animais, mas apenas as feições salientes da
respectiva natureza, misturadas com outras formas horríveis.
Não havia nada ali que representasse figura completa de uma
criatura, eram somente símbolos de decadência, de
abominação, de horror, da contradição e do pecado: símbolos
do demônio. Essas figuras diabólicas empurravam, arrastavam,
despedaçavam, e estrangulavam, à vista de Jesus, inumeráveis
multidões de homens, por cujo resgate, das garras de
Satanás, o Salvador entrara no doloroso caminho da Cruz. No
principio não vi tão freqüentemente a serpente, mas no fim a
vi gigantesca, com uma coroa na cabeça, arremessar-se com
força terrível contra Jesus e com ela, de todos os lados,
exércitos de todas as gerações e classes.
Armados de todos os meios de destruição, instrumentos de
martírio e armas, lutavam ora uns contra os outros, ora com
terrível raiva contra Jesus. Era um espetáculo horrível.
Carregavam-nO de insultos, maldições e imundícies,
cuspiam-Lhe, batiam-Lhe, traspassavam-nO. As suas armas,
espadas e lanças, iam e vinham, como os manguais dos
debulhadores numa imensa eria; todos desencadeavam a sua
fúria sobre o grão de trigo celeste, caído na terra
para nela morrer e depois alimentar eternamente todos os
homens com o pão da vida, com fruto imensurável.
Vi Jesus no meio destas coortes furiosas, entre as quais me
parecia haver muitos cegos; estava tão alterado, como se
realmente sentisse os golpes dos agressores. Vi-O cambalear
de um lado para o outro; ora caia, ora de novo se levantava.
Vi a serpente no meio de todos esses exércitos,
instigando-os continuamente; batia ora aqui, ora ali, com a
cauda, estrangulando, despedaçando e devorando todos que com
ela derrubava.
Tive a explicação de que a multidão dos exércitos que
lutavam contra Nosso Senhor, era o número imenso daqueles
que maltrataram de muitíssimos modos a Jesus Cristo,
seu Redentor, real e substancialmente presente
no Santíssimo Sacramento,
com divindade e humanidade, com corpo e alma, com carne e
sangue, debaixo das espécies de pão e vinho.
Avistei entre esses inimigos de Jesus todas as espécies de
profanadores do SS. Sacramento, penhor
vivo de sua continua presença pessoa na Igreja Católica.
Vi com horror todos esses ultrajes, desde o descuido,
irreverência, abandono, até o desprezo, abuso e sacrilégios
os mais horrorosos, o culto dos ídolos deste mundo, orgulho
e falsa ciência e por outro lado, heresia e descrença,
fanatismo, ódio e sangrenta perseguição.
Vi entre esses inimigos de Jesus todas as espécies de
homens: até cegos e aleijados, surdos e mudos e mesmo
crianças; cegos, que não queriam ver a verdade; coxos, que
por preguiça não queriam segui-lO; surdos, que não queriam
ouvir-Lhe as exortações e advertências; mudos, que não
queriam lutar por Ele nem com a palavra; crianças, desviadas
na companhia dos pais e mestres mundanos e esquecidos de
Deus, nutridos pela concupiscência, ébrias de ciência falsa,
sem gosto das coisas divinas ou já perdidas por falta delas,
para sempre.
Entre as crianças, cujo aspecto me afligiu particularmente,
porque Jesus amava tanto as crianças, vi também muitos
meninos ajudantes da Santa Missa, pouco instruídos,
mal educados e desrespeitosos, que nem respeitavam a Jesus
Cristo na mais santa cerimônia. Em parte eram
culpados os mestres e os reitores das Igrejas.
Vi com espanto que também muitos sacerdotes, de todas as
hierarquias contribuíam para o desrespeito de Jesus no
SS. Sacramento, até alguns que se tinham por crentes
e piedosos. Quero mencionar, entre estes infelizes, apenas
uma classe: vi ali muitos que acreditavam, adoravam e
ensinavam a presença de Deus vivo no SS. Sacramento,
mas na sua conduta não Lhe manifestavam fé e respeito: pois
descuidavam-se do palácio, do trono, da tenda, da
residência, dos ornamentos do Rei do Céu e da Terra, isto é,
não cuidavam da Igreja, do altar, do tabernáculo, do
cálice, do ostensório de Deus vivo e dos vasos, utensílios,
ornamentos, vestes para uso e enfeite da casa do Senhor.
Tudo estava abandonado e se desfazia em poeira, mofo e
imundície de muitos anos; o culto divino era celebrado
com pressa e descuido e se não profanado
internamente, pelo menos degradado exteriormente. Tudo isso,
porém, não era conseqüência de verdadeira pobreza, mas de
indiferença, preguiça, negligencia, preocupação com
interesses vãos deste mundo, muitas vezes também de egoísmo
e morte espiritual, pois vi tal descuido também em Igrejas
ricas e abastadas; vi muitos até, nas quais o luxo mundano e
inconveniente e sem gosto substituíra os magníficos e
veneráveis monumentos de uma época mais piedosa, para
esconder, sob aparências mentirosas e cobrir com um disfarce
brilhante o descuido, a imundície, a desolação e o
desperdício.
O que faziam os ricos, por vaidosa ostentação, logo imitaram
estupidamente os pobres, por falta de simplicidade. Não pude
deixar de pensar nesta ocasião na Igreja do nosso pobre
convento, cujo belo altar antigo, esculpido artisticamente
em pedra, tinham também coberto com uma construção de
madeira e pintura tosca, imitando mármore, o que sempre me
fez muita pena.
Todas essas ofensas feitas a Jesus no SS. Sacramento,
vi-as aumentadas por numerosos reitores das Igrejas, que não
tinham esse sentimento de justiça de repartir pelo menos o
que possuíam com o Salvador, presente sobre o Altar,
que se entregou por eles à morte e se lhes deu todo
inteiro no SS. Sacramento.
Em verdade, mesmo os mais pobres estavam muitas vezes melhor
instalados nas suas casas do que o Senhor nas Igrejas. Ai!
como esta falta de hospitalidade entristecia Jesus, que se
lhes tinha dado como alimento espiritual! Pois não é preciso
ser rico para hospedar aquele que recompensa ao cêntuplo o
copo de água oferecido a quem tem sede.
Oh! Quanta sede tem ele de nós! Não terá acaso motivo de
queixar-se de nós, se o copo estiver sujo e a água também?
Por tais negligências vi os fracos escandalizados, o
SS. Sacramento profanado, as Igrejas abandonadas, os
sacerdotes desprezados e em pouco tempo passou essa
negligência também às almas dos fiéis daquelas paróquias:
não guardavam mais puro o tabernáculo do coração, para
receber nele o Deus vivo, do que o tabernáculo dos altares.
Para agradar e adular os príncipes e grandes deste
mundo, para satisfazer-lhes os caprichos e desejos mundanos,
vi tais administradores de Igrejas fazer todos os esforços e
sacrifícios; mas o Rei do Céu e da Terra estava deitado,
como o pobre Lázaro, diante da porta, desejando em vão as
migalhas de caridade que ninguém lhe dava. Tinha
apenas as chagas que nós lhe fizemos e que lhe lambiam os
cães, isto é, os pecadores reincidentes, que, semelhantes a
cães, vomitam e depois voltam para comer o vômito.
Se falasse um ano inteiro, não podia contar todas as
afrontas feitas a Jesus e que deste modo conheci. Vi os
autores dessas afrontas agredirem a Nosso Senhor com
diferentes armas, conforme a espécie de seus pecados.
Vi clérigos irreverentes, de todos os séculos, sacerdotes
levianos, em pecado, sacrílegos celebrando o Santo
Sacrifício e distribuindo a sagrada Eucaristia; vi
multidões de comungastes tíbios e indignos. Vi
homens numerosos para os quais a fonte de toda a benção, o
mistério de Deus vivo, se tornara uma palavra de maldição,
fórmula de maldição; guerreiros furiosos e servidores do
demônio, profanando os vasos sagrados e jogando fora as
hóstias sagradas ou maltratando-as horrivelmente e até
abusando do Sumo Bem, por uma hedionda e diabólica
idolatria.
Ao lado destes brutais e violentos, vi inúmeras outras
impiedades, menos grosseiras, mas do mesmo modo abomináveis.
Vi muitas pessoas, seduzidas por mau exemplo e ensino
perfilo, perderem a fé na presença real de Jesus na
Eucaristia e deixarem de adorar nela humildemente seu
Salvador.
Vi nestas multidões grande números de professores indignos,
que se tornaram heresiarcas; lutavam a princípio uns contra
os outros e depois se uniam, para atacar furiosamente
a Jesus no SS. Sacramento, na sua igreja. Vi um
grupo numeroso destes heresiarcas negar e insultar o
sacerdócio da Igreja, contestar e negar a presença
de Jesus Cristo neste mistério à Igreja e havê-lo esta
guardado fielmente; pela sedução Lhe arrancaram do coração
um número imenso de homens, pelos quais tinha derramado o
seu sangue.
Ai! Era um aspecto horrível: pois vi a Igreja como
corpo de Jesus, que reunira, pela dolorosa Paixão,
os membros separados e dispersos; vi todas aquelas
comunidades e famílias e todos os seus descendentes,
separados da Igreja, serem arrancados, como grandes pedaços
de carne, do corpo vivo de Jesus, ferindo e despedaçando-O
dolorosamente.
Ai! Ele os seguia com olhares tão tristes, lastimando-lhes a
perdição. Ele, que no SS. Sacramento se nos tinha dado
como alimento, para unir ao corpo da Igreja, sua Esposa,
os homens separados e dispersos, viu-se despedaçado e
dividido nesse mesmo corpo de sua Esposa, pelos maus frutos
da árvore da discórdia.
A mesa da união no SS. Sacramento, suas mais sublime obra de
amor, na qual quis ficar eternamente com os homens,
tornara-se, pela malícia dos falsos doutores, fonte de
separação. No lugar mais conveniente e salutar para união de
muitos, na mesa sagrada, onde o próprio Deus vivo é o
alimento das almas, deviam os seus filhos separar-se dos
infiéis e hereges, para não se tornarem réus de pecado
alheio.
Vi que deste modo povos inteiros se Lhe arrancaram do
coração, privando-se do tesouro de todas as graças, que Ele
deixara à Igreja. Era horrível vê-los separarem-se, só
poucos no princípio, mas esse se voltaram como povos
grandes, em hostilidade uns contra os outros, por estarem
separados no Santíssimo.
Por fim vi todos que estavam separados da Igreja,
embrutecidos e enfurecidos, em descrença, superstição,
heresia, orgulho e falsa filosofia mundana, unidos em
grandes exércitos, atacando e devastando a Igreja e no meio
deles, a serpente, instigando e estrangulando-os. Ai! Era
como se Jesus se visse e sentisse despedaçado em inúmeras
fibras, das mais delicadas.
O Senhor viu e sentiu nessas angústias toda a árvore
venenosa do cisma, com todos os respectivos ramos e frutos,
que continuam a dividir-se até o fim do mundo, quando o
trigo será recolhido ao celeiro e a palha será lançada ao
fogo.
Esta horrorosa visão era tão terrível e hedionda, que meu
Esposo celeste me apareceu e, colocando a mão misericordiosa
sobre o meu peito, disse:
“Ninguém viu isto ainda e o teu coração se despedaçaria de
dor, se eu não o sustentasse”.
Vi então o sangue rolando, em largas e escuras gotas, sobre
o pálido semblante do Senhor; o seu cabelo, em geral liso e
repartido no meio da cabeça, estava conglutinado com o
sangue, eriçado e desgrenhado, a barba ensangüentada e em
desordem.
Foi depois da última visão, na qual os exércitos inimigos O
despedaçaram, que saiu da caverna, quase fugindo e voltou
para junto dos discípulos. Mas não tinha o andar firme;
andava como um homem coberto de feridas e curvado sob um
fardo pesado, como quem tropeça a cada passo. Chegando junto
dos três Apóstolos, viu que não se tinham deitado para
dormir, como da primeira vez; estavam sentados, as cabeças
veladas e apoiadas sobre os joelhos, posição em que vejo
muitas vezes o povo daquele país, quando estão de luto ou
querem rezar.
Adormeceram vencidos pela tristeza, medo e fadiga. Quando
Jesus se aproximou, tremendo e gemendo, acordaram, mas ao
vê-lo diante de si, na claridade do luar, com o peito
encolhido, o semblante pálido e ensangüentado, o cabelo
desgrenhado, fitando-os com olhar triste, não O reconheceram
por alguns momentos, com a vista fatigada, pois estava
indizivelmente desfigurado.
Jesus, porém, estendeu os braços; então se levantaram
depressa e, segurando-O sob os braços, ampararam-nO
carinhosamente. Disse-lhes que no dia seguinte os
inimigos O matariam; dai a uma hora O prenderiam,
conduziriam ao tribunal, seria maltratado, insultado,
açoitado e finalmente entregue à morte mais cruel.
Com grande tristeza lhes disse tudo o que teria de sofrer
até a tarde do dia seguinte e pediu que consolassem sua Mãe
e Madalena. Esteve assim diante deles por alguns minutos,
falando-lhes; mas não responderam, porque não sabiam o que
dizer, de tal modo as palavras e o aspecto do Mestre os
tinha assustado; pensavam até que estivesse em delírio.
Quando, porém, quis voltar à gruta, não tinha mais força
para andar; vi que João e Tiago O conduziram e, depois de
ter entrado na gruta, voltaram. Eram cerca de onze horas e
um quarto.
Durante essas angústias de Jesus, vi a SS. Virgem
também cheia de tristeza e angústia, em casa de
Maria, mãe de Marcos. Estava com Madalena e a mãe de Marcos,
num jardim ao lado da casa; prostrara-se de joelhos, sobre
uma pedra. Diversas vezes perdeu os sentidos exteriormente,
pois viu grande parte dos tormentos de Jesus. Já enviara
mensageiros a Jesus, para ter noticias, mas não podendo, na
sua ânsia, esperar-lhe a volta, saiu com Madalena e Salomé
para o vale de Josafá.
Ela andava velada e estendia muitas vezes as mãos para o
monte das Oliveiras, porque via em espírito, Jesus banhado
em suor de sangue e ela parecia, com as mãos estendidas,
querer enxugar-lhe o rosto. Vi Jesus, comovido por esses
caridosos impulsos da alma de sua Mãe, olhar para a direção
em que Maria se achava, como para pedir socorro. Vi esses
movimentos de compaixão em forma de raios luminosos, que
emanavam de um para o outro.
O Senhor pensou também em Madalena, percebeu-lhe comovido a
dor e olhou também para ela; por isso mandou também os
discípulos que a consolassem, pois sabia que, depois do amor
de sua Mãe, o de Madalena era o mais forte e tinha também
visto o que ela teria de sofrer por Ele e que nunca mais O
ofenderia pelo pecado.
Neste momento, cerca de 11 horas e 15 minutos, voltaram os
oito Apóstolos à cabana de folhagem, no horto de Getsêmani;
ali conversaram ainda e finalmente adormeceram. Estavam
muito assustados e desanimados, em veementes tentações. Cada
um tinha procurado um lugar para esconder-se e perguntaram
uns aos outros inquietamente: “Que faremos, se o
matarem? Abandonamos tudo quanto tínhamos e ficamos pobres e
expostos ao escárnio do mundo. Fiamo-nos inteiramente nEle e
ei-Lo agora tão impotente e abatido, que não podemos mais
procurar nEle consolação”.
Os outros discípulos, porém, erraram no princípio de um lado
para outro e depois terem ouvidos várias notícias das
últimas palavras assustadoras de Jesus, retiraram-se, pela
maior parte, para Betfagé.
Visões consoladoras;
Anjos confortam Jesus.
Vi Jesus rezando ainda na gruta e lutando contra a
repugnância da natureza humana ao sofrimento. Estava exausto
de fadiga e abatido e disse: “Meu
Pai, se é a vossa vontade, afastai de mim este cálice. Mas
faça-se a vossa vontade e não a minha”.
Então se abriu o abismo diante dEle e apareceram-Lhe os
primeiros degraus, do Limbo, como na extremidade de uma
vista luminosa. Viu Adão e Eva, os patriarcas, os profetas,
os justos, os parentes de sua Mãe e João Batista,
esperando-Lhe a vinda, no mundo inferior, como um desejo tão
violento, que essa visa Lhe fortificou e reanimou o coração
amoroso. Pela sua morte devia abrir o Céu a esses cativos;
devia tira-los da cadeia onde languesciam à espera.
Tendo visto, com profunda emoção, esses Santos dos tempos
antigos, apresentaram-Lhe os Anjos, todas as multidões de
bem-aventurados do futuro que, juntando seus combates aos
méritos da Paixão do Cristo, deviam unir-se por Ele ao Pai
Celeste. Era uma visão indizivelmente bela e consoladora.
Todos agrupados, segundo a época, classe e dignidade,
passaram diante do Senhor, vestidos dos seus sofrimentos e
obras.
Viu a salvação e santificação sair, em ondas inesgotáveis,
da fonte da Redenção, aberta pela sua morte. Os Apóstolos,
os discípulos, as virgens e santas mulheres, todos os
mártires, confessores e eremitas, papas e bispos, grupos
numerosos de religiosos, em uma palavra: um exército inteiro
de bem-aventurados apresentou-se-Lhe à vista.
Todos traziam na cabeça coroas triunfais e as coroas
variavam de forma, de cor, de perfume e de virtude, conforme
a diferença dos respectivos sofrimentos, combates e vitórias
que lhes tinham proporcionado a glória eterna. Toda a vida e
todos os atos, todos os méritos e toda força, assim como
toda glória e todo o triunfo dos Santos provinham
unicamente de sua união aos méritos de Jesus Cristo.
A ação e influência recíproca que todos estes Santos
exerciam uns sobre os outros, a maneira por que hauriam a
graça de uma única fonte, do santo Sacramento e da Paixão do
Senhor, apresentava um espetáculo singularmente tocante e
maravilhoso. Nada parecia casual neles; as obras, o
martírio, as vitórias, a aparência e os vestuários: tudo,
apesar de bem diferente, se fundia numa harmonia e unidade
infinitas; e essa unidade na variedade era produzida pelos
raios de um único sol, pela Paixão de Nosso Senhor, do Verbo
feito carne, o qual era a vida, a luz dos homens, que
ilumina as trevas, as quais não o compreenderam.
Foi a comunidade dos futuros Santos que passou diante da
alma do Salvador, que se achava colocado entre o desejo dos
patriarcas e o cortejo triunfal dos bem-aventurados futuros;
esses dois grupos unindo-se e completando-se de certo modo,
cercavam o coração do Redentor, cheio de amor, como uma
coroa de vitória. Essa visão, inexprimivelmente tocante, deu
à alma de Jesus um pouco de consolação e força.
Ah! Ele amava tanto seus irmãos e suas criaturas, que teria
aceito de boa vontade todos os sofrimentos, aos quais se
entregaria pela redenção até de uma só alma. Como essas
visões se referissem ao futuro, pairavam em certa altura.
Mas essas imagens consoladoras desapareceram e os Anjos
mostraram-lhe a Paixão, mais perto da terra, porque já
estava próximo. Estes Anjos eram muito numerosos.
Vi todas as cenas apresentadas muito distintamente diante
dele, desde o beijo de Judas, até à última palavra na Cruz;
vi lá tudo o que vejo nas minhas meditações da Paixão, a
traição de Judas, a fuga dos discípulos, os insultos perante
Anás e Caifás, a negação de Pedro, o tribunal de Pilatos, a
decisão diante de Herodes, a flagelação, a coroação de
espinhos, a condenação à morte, o transporte da cruz, o
encontro com a Virgem SS. no caminho do Calvário, o desmaio,
os insultos de que os carrascos O cobriram, o véu de
Verônica, a crucifixão, o escárnio dos fariseus, as dores de
Maria, de Madalena e João, a lançada no lado, em uma
palavra, tudo passou diante da alma de Jesus, com as menores
circunstâncias.
Vi como o Senhor, na sua angústia, percebia todos os gestos,
entendia todas as palavras, percebia tudo que se passava nas
almas. Aceitou tudo voluntariamente, sujeitou-se a tudo por
amor dos homens. O que mais O entristecia era ver-se pregado
na Cruz num estado de nudez completa, para explicar a
impudicícia dos homens: implorava com instância a graça de
livrar-se daquele opróbrio e que pelo menos Lhe fosse
concedido um pano para cingir os rins; e vi ser atendido,
não pelos carrascos, mas por um homem compassivo. Jesus viu
e sentiu profundamente a dor da Virgem SS., que pela união
interior aos sofrimentos do seu Divino Filho, caíra sem
sentidos nos braços das amigas, no Vale de Josafá.
No fim das visões da Paixão, Jesus caiu na Terra,
como um moribundo; os Anjos e as visões da Paixão
desapareceram; o suor do sangue brotava mais abundante; vi-O
escoar-se através da veste amarela encostado ao corpo. A
mais profunda escuridão reinava na caverna. Vi então um Anjo
descendo para junto de Jesus: era maior, mais distinto e
mais semelhante ao homem do que os eu vira antes.
Estava vestido como um sacerdote, de uma longa veste
flutuante, ornada de franjas e trazia na mão, diante de si,
um pequeno vaso, da forma do cálice da última Ceia. Na
abertura deste cálice se via um pequeno corpo oval, do
tamanho de uma fava, que espargia uma luz avermelhada. O
Anjo estendeu-Lhe a mão direita e pairando diante de Jesus,
levantou-se; pôs-lhe na boca aquele alimento misterioso e
fê-Lo beber do pequeno cálice luminoso. Depois desapareceu.
Tendo aceitado o cálice dos sofrimentos e recebido nova
força. Jesus ficou ainda alguns minutos na gruta, mergulhado
em meditação tranqüila e dando graças ao Pai Celeste. Estava
ainda aflito, mas confortado de modo sobrenatural, a ponto
de poder andar para junto dos discípulos sem cambalear e sem
se curvar sob o peso da dor. Estava ainda pálido e
desfigurado, mas o passo era firme e decidido. Enxugara o
rosto com um sudário e pusera em ordem os cabelos, que lhe
pendiam sobre os ombros, úmidos de suor e conglutinados de
sangue.
Quando saiu da gruta, vi a lua como dantes, com a mancha
singular que formava o centro e a esfera que a cercava, mas
a claridade dela e das estrelas era diferente da que tinham
dantes, por ocasião das grandes angústias do Senhor. A luz
era agora mais natural.
Quando Jesus chegou junto aos discípulos, estavam estes
deitados, como na primeira vez, encostados ao muro do
aterro, com a cabeça velada e dormiam. O Senhor disse-lhes
que não era tempo de dormir, mas que deviam velar e
orar. “Esta é a hora em que o Filho do homem
será entregue nas mãos dos pecadores, disse, levantai-vos e
vamos: o traidor está perto; melhor lhe seria que não
tivesse nascido”.
Os Apóstolos levantaram-se assustados e olharam em roda de
si inquietos. Depois de um pouco tranqüilo, Pedro disse
calorosamente: “Mestre, vou chamar os outros, para vos
defendermos”. Mas Jesus mostrou-lhes a alguma
distância, no vale, do outro lado da torrente de Cedron, uma
tropa de homens armados que se aproximavam com archotes e
disse-lhes que um deles O tinha traído. Os Apóstolos
julgavam-no impossível.
O Mestre falou-lhes ainda com calma, recomendando-lhes de
novo que consolassem a Virgem SS. e disse: “Vamos ao
encontro deles. Vou entregar-me sem resistência nas mãos dos
meus inimigos”. Então saiu do horto das Oliveiras,
com os três Apóstolos e foi ao encontro dos soldados, no
caminho que ficava entre o jardim e o horto de Getsêmani.
Quando a SS. Virgem voltou a si, nos braços de Madalena e
Salomé, alguns discípulos, que viram aproximar-se os
soldados, vieram a ela e reconduziram-na à casa de Maria,
mãe de Marcos. Os soldados tornaram um caminho mais curto do
que o que Jesus tinha seguido, vindo do Cenáculo.
A gruta onde Jesus tinha rezado nessa noite, não era aquela
na qual estava acostumado a rezar, no monte das Oliveiras,
ia geralmente a uma caverna mais afastada, onde, depois de
ter maldito a figueira infrutífera, rezara numa grande
aflição, com os braços estendidos e apoiados sobre um
rochedo.
Os traços do corpo e das mãos ficaram-Lhe impressos na pedra
e foram mais tarde venerados; mas não se sabia então em que
ocasião o prodígio fora feito. Vi diversas vezes semelhantes
impressões feitas em pedras, seja por profetas do Velho
Testamento, seja por Jesus, Maria ou algum dos Apóstolos; vi
também as do corpo de Santa Catarina de Alexandria, no monte
Sinai.
Essas impressões não parecem profundas, mas semelhantes às
que ficam, pondo-se a mão sobre uma massa consistente.
Judas e sua tropa.
Judas
não esperava que a traição tivesse as conseqüências que se
lhe seguiram. Queria ganhar a recompensa prometida e
mostrar-se agradável aos fariseus, entregando-lhes Jesus,
mas não pensara no resultado, na condenação e crucifixão do
Mestre; não ia tão longe em seus desígnios.
Era só o dinheiro que lhe preocupava o espírito
e já havia muito tempo travara relações com alguns fariseus
e Saduceus astutos que, com lisonjas, o incitavam à traição.
Estava aborrecido da vida fatigante, errante e perseguida,
que levavam os Apóstolos.
Nos últimos meses furtara continuamente as esmolas, de que,
era depositário e a cobiça, irritada pela liberalidade de
Madalena quando derramou perfumes sobre Jesus, impeliu-o
finalmente ao crime. Tinha sempre esperado um reino temporal
de Jesus e uma posição brilhante e lucrativa nesse reino;
como, porém, não o visse aparecer, procurava amontoar
fortuna.
Via crescerem as fadigas e perseguições e pretendia manter
boas relações com os poderosos inimigos de Jesus, antes de
chegar o fim; pois via que Jesus não se tornaria rei,
enquanto que a dignidade do Sumo Sacerdote e a importância
dos seus confidentes lhe produziam viva impressão no
espírito.
Aproximava-se cada vez mais dos agentes fariseus, que o
lisonjeavam incessantemente, dizendo-lhe, num tom de grande
certeza, que dentro de pouco tempo dariam cabo de Jesus.
Ainda recentemente tinham vindo procurá-lo diversas vezes em
Betânia. O infeliz entregava-se cada vez mais a esses
pensamentos criminosos e multiplicava nos últimos
dias as diligências para que os príncipes dos sacerdotes se
decidissem a agir.
Estes ainda não queriam começar e tratavam-se com visível
desprezo. Diziam que não havia tempo suficiente antes da
festa e que qualquer tentativa causaria apenas desordem e
tumulto durante a festa. Somente o sinédrio deu atenção ás
propostas do traidor.
Depois da recepção sacrílega do SS. Sacramento,
Satanás apoderou-se totalmente de Judas, que
saiu decidido a praticar o crime. Primeiro procurou os
negociadores, que sempre o tinham lisonjeado até ali e que
receberam ainda com amizade fingida. Foi ter com outros,
entre os quais Caifás e Anás; este último, porém, usou para
com ele de um tom altivo e sarcástico. Estavam hesitantes,
não contavam com o êxito, porque não tinham confiança em
Judas.
Vi o império infernal dividido: Satanás queria o crime dos
Judeus, desejava a morte de Jesus, do santo Mestre que
fizeram tantas conversões, do Justo a quem tanto odiava; mas
sentia também não sei que medo interno da morte dessa
inocente vítima, que não queria subtrair-se aos
perseguidores; invejava-O por sofrer inocentemente. Vi-O
assim excitar de um lado o ódio e furor dos inimigos de
Jesus e de outro lado insinuar a alguns destes que Judas era
um patife, um miserável, que não se podia fazer o julgamento
antes da festa, nem reunir número suficiente de testemunhas
contra Jesus.
No sinédrio houve longa discussão sobre o que se devia fazer
e, entre outras coisas, perguntaram a Judas: “Podemos
prendê-Lo? Não terá homens armados consigo?” E o traidor
respondeu: “Não, está só com os onze discípulos; está
desanimado e os onze são homens medrosos”.
Também lhes disse que era preciso apoderar-se de Jesus nessa
ocasião ou nunca, que não podia esperar mais tempo para
entregá-Lo, porque não voltaria esperar mais tempo para
entregá-Lo, porque não voltaria para junto do Mestre, pois,
alguns dias antes, os outros discípulos e Jesus mesmo haviam
evidentemente suspeitado dele; pareciam pressentir-lhe os
ardis e sem dúvida o matariam, se voltasse para o meio
deles. Disse-lhes ainda que, se não O prendessem agora,
escaparia, voltando com um exército de partidários, para
fazer proclamar-se rei.
Essas ameaças de Judas fizeram efeito. Deram-lhe ouvido ao
conselho maldoso e ele recebeu o preço da traição, os trinta
dinheiros. Essas moedas tinham a forma de uma língua,
estavam furadas na parte arredondada e enfiadas, por meio de
argolas, numa espécie de corrente; traziam certos cunhos.
Judas, ofendido pelo contínuo desprezo e a desconfiança que
lhe manifestavam, sentiu-se impelido pelo orgulho a
restituir-lhes esse dinheiro ou oferecê-lo ao Templo, para
que o tomassem por um homem justo e desinteressado.
Mas
recusaram-no, porque era preço de sangue, que não se podia
oferecer ao Templo.
Judas viu quanto o desprezavam e sentiu-o profundamente. Não
tinha esperado provar os frutos amargos da traição já antes
de ter cometido; mas de tal modo que se havia comprometido
com aqueles homens, que estava nas suas mãos e não podia
mais se livrar deles. Observavam-no de muito perto e não o
deixariam sair antes de ter explicado o caminho a seguir,
para apoderar-se de Jesus.
Três fariseus acompanhavam-no, quando desceu a uma
sala, onde se achavam os guardas do Templo, que não eram
todos judeus, mas gente de todas as nações. Quando tudo
estava combinado e reunido o número de soldados necessários,
Judas correu primeiro ao Cenáculo, acompanhado de um servo
dos fariseus, para lhes dar notícia, se Jesus ainda estava
ali, por causa da facilidade de prendê-lo lá, ocupando as
portas; devia mandar avisar-lhe por um mensageiro.
Um pouco antes de Judas receber o prêmio da traição, um dos
fariseus saíra, para mandar sete escravos buscar madeira,
para preparar a Cruz de Cristo, no caso que fosse condenado,
porque no dia seguinte não teriam mais tempo, pois começava
a festa da Páscoa.
Andaram cerca de um quarto de hora, para chegar ao lugar
onde queriam buscar o madeiro da cruz; estava ali ao longo
de um muro alto e comprido, junto com muitas outras
madeiras, destinadas a construções do Templo; carregaram-no
para um lugar atrás do tribunal de Caifás, afim de
prepará-lo. A árvore da cruz crescera antigamente perto da
torrente Cedron, no valo, de Josafá; mais tarde caíra
através do ribeiro e servia de ponte.
Quando Neemias escondeu o fogo santo e os vasos sagrados na
piscina Betesda, empregou também este tronco para cobri-los,
junto com outra madeira; tirando-o depois de novo,
jogaram-no para o lado, com outra madeira de construção.
Em parte foi para zombar de Jesus, em parte aparentemente
por acaso, mas em verdade unicamente por disposição da
Divina Providência, que a Cruz foi construída de uma forma
especial. Sem contar a tábua do título, a cruz foi feita de
cinco diferentes espécies de madeiras. Tenho visto muitas
coisas a respeito da cruz, diversos acontecimentos e
significações, mas tenho esquecido tudo, fora o que acabo de
contar.
Judas, no entanto, voltou e disse que Jesus não estava mais
no Cenáculo, mas havia de estar certamente no monte das
Oliveiras, num lugar onde costumava rezar. Insistiu então
que mandassem com eles somente uma pequena tropa, para que
os discípulos, que espiavam por toda a parte, não
suspeitassem e provocassem uma insurreição.
Trezentos soldados deviam ocupar as portas e ruas de Ofel,
bairro ao sul do Templo e o vale Milo, até a casa de Anás,
no monte de Sião, para poder mandar reforço à tropa na
volta, caso o pedisse; pois em Ophel todo o povo baixo
aderia a Jesus.
O indigno traidor disse-lhes ainda que tomassem muito
cuidado, para Jesus não lhes escapar, mencionando que este
já muitas vezes se tinha tornado invisível, por meio de
artifícios misteriosos, fugindo assim aos companheiros na
montanha. Fez-lhes também a proposta de amarrá-lo com uma
corrente e servir-se de certas práticas mágicas, para que
Jesus não rompesse as correntes. Os Judeus, porém, recusaram
desdenhosamente esse conselho, dizendo: “Não nos podemos
impor nada; uma vez que esteja em nossas mãos, está seguro”.
Judas combinou com a tropa entrar ele primeiro no horto,
para beijar e saudar Jesus, como se voltasse do
negócio, como amigo e discípulo; depois deviam entrar os
soldados, para prender o Mestre. Procederia como se os
soldados tivessem chegado na mesma hora, só por acaso;
fugiria depois, como os outros discípulos, fingindo não
saber de nada.
Talvez pensasse também que houvesse um tumulto, no qual os
Apóstolos se defenderiam e Jesus fugiria, como fizera já
diversas vezes. Assim pensava nos momentos de raiva,
sentindo-se ofendido pelo desprezo e desconfiança dos
inimigos de Jesus, mas não porque se arrependesse da negra
ação ou por ter compaixão de Jesus; pois tinha-se entregue
inteiramente a Satanás.
Também não queria consentir que os soldados, entrando
depois, trouxessem algemas e cordas, nem que o
acompanhassem, homens de má reputação. Satisfizeram-lhe
aparentemente os desejos, mas procederam como julgavam dever
proceder com um traidor em quem não se pode fiar e que se
joga fora, depois de ter feito o serviço.
Foram dadas ordens expressas aos soldados de vigiar bem
Judas e não o deixar afastar-se antes de ter prendido e
amarrado Jesus; pois, como já tivesse recebido a
remuneração, era de recear-se que o patife fugisse com o
dinheiro e assim não poderiam prender Jesus de noite ou
prenderiam outro em seu lugar, de modo que resultariam desta
empresa apenas tumultos e desordens, no dia da Páscoa.
A tropa escolhida para prender Jesus compunha-se de vinte
soldados, alguns da guarda do Templo, os outros soldados de
Anás e Caifás. Estavam vestidos quase da mesma forma que os
soldados romanos; usavam capacetes e do gibão lhes pendiam
correias em redor da cintura, como tinham também os soldados
romanos.
Distinguiam-se desses principalmente pela barba, pois os
romanos em Jerusalém usavam só suíças, os lábios e queixo
tinham imberbes. Todos os vinte soldados estavam armados de
espadas, alguns tinham apenas lanças. Levavam consigo tochas
e braseiras que, fixas sobre paus, serviam de lanternas; mas
ao chegar, traziam acesa só uma das lanternas.
Os judeus queriam mandar antes uma tropa mais numerosa com
Judas, mas abandonaram esse plano, concordando com ele,
objeção do traidor, de que do monte das Oliveiras se podia
ver todo o vale e desse modo uma tropa maior não poderia
deixar de ser vista. Ficou, portanto, a maior parte em Ophel;
mandaram também sentinelas a vários atalhos e diversos
lugares da cidade, para impedir tumultos ou tentativas de
salvar Jesus.
Judas marchou á frente dos vinte soldados; mandaram, porém,
segui-lo a certa distancia quatro soldados de má reputação,
gente ordinária, que levavam cordas e algemas. Alguns passos
atrás desses, seguiam aqueles seis agentes, com os quais
Judas travara relações há muito tempo. Havia entre eles um
sacerdote de alta posição e confidente de Anás, outro de
Caifás; além desses havia dois agentes fariseus e dois
saduceus,que eram também herodianos. Todos, porém, eram
espiões, hipócritas, aduladores interesseiros de Anás e
Caifás e inimigos ocultos de Jesus, dos mais maliciosos.
Os vinte soldados seguiram ao lado de Judas, até chegarem ao
lugar onde o caminho passa entre Getsêmani e o horto das
Oliveiras; aí não quiseram deixá-lo avançar sozinho e
começaram a discutir com ele, num tom grosseiro e
impertinente.
A prisão do Senhor.
Quando Jesus saiu do horto, no caminho entre Getsêmani e o
horto das Oliveiras, apareceu na entrada desse caminho, à
distância de vinte passos, Judas com os soldados, que ainda
estavam discutindo. Pois Judas queria, separado dos
soldados, aproximar-se de Jesus, como amigo; eles deviam
entrar como por acaso, aparentemente sem Ele saber; mas os
soldados seguraram-no, dizendo: “Assim não camarada, não
nos fugirás antes de termos preso a Galileu”.
Avistando depois os oito Apóstolos, que ao ouvir, o barulho
se aproximaram, chamaram os quatro soldados para
reforçar-se. Judas, porém, não consentiu que esses o
acompanhassem e discutiu veementemente com eles. Quando
Jesus e os três Apóstolos viram, à luz da lanterna, esse
tropel ruidoso, com as armas nas mãos, Pedro quis atacá-los
à força e disse: “Senhor, os oito de Getsêmani estão
também ali adiante: Vamos atacar esses soldados”.
Jesus, porém, mandou-o ficar quieto e retirou-se alguns
passos para além do caminho, onde havia um lugar coberto de
relva. Judas, vendo o seu plano transtornado, enraiveceu-se.
Quatro dos discípulos saíram do horto Getsêmani, perguntando
o que havia acontecido. Judas começou a conversar, querendo
sair do embaraço por meio de mentiras, mas os soldados não o
deixaram afastar-se. Aqueles quatro eram Tiago, o Menor,
Filipe, Tomé e Natanael; este e um dos filhos do velho
Simeão e alguns outros tinham vindo para junto dos oito
Apóstolos, em Getsêmani, uns enviados pelos amigos de Jesus,
para ter notícias dEle, outros impelidos pela inquietação e
curiosidade. Além desses quatro, andavam também os outros
discípulos pelas vizinhanças, espiando de longe e sempre
prontos a fugir.
Jesus, porém, aproximou-se alguns passos da tropa e disse em
voz alta e clara: “A quem estais procurando?”
Os chefes dos soldados responderam: “Jesus de Nazaré”.
E Jesus disse: “Sou eu”. Apenas tinha dito
estas palavras, caíram os soldados uns sobre os outros, como
que atacados de convulsões.
Judas, que estava perto, ficou ainda mais desconcertado no
seu plano; e pareceu querer aproximar-se de Jesus, mas o
Senhor levantou a mão, dizendo: “Amigo, para que
vieste?” Judas disse, cheio de confusão, alguma
coisa sobre negócio realizado. Jesus, porém, disse-lhe mais
ou menos as seguintes palavras: “Oh! Melhor te fora
não ter nascido”. Mas não me lembro mais das
palavras exatas.
No entretanto tinham-se levantado os soldados e
aproximaram-se de Jesus e dos seus, esperando o sinal do
traidor: que beijasse a Jesus. Pedro, porém, e
os outros discípulos, cercaram Judas com ameaças, chamando-o
de ladrão e traidor. O infeliz quis livrar-se deles por meio
de mentiras, mas não conseguiu justificar-se, pois os
soldados defenderam-no contra os discípulos, dando assim
testemunho contra ele.
Jesus, porém, disse mais uma vez: “A quem procurais?”
Virando-se para Ele, responderam de novo: “Jesus
de Nazaré”. Então disse?: “Sou Eu; já vos tenho
dito que sou Eu; se, pois, procurais a Mim, deixai aqueles.”
A palavra “Sou Eu”, caíram os soldados de novo
com convulsões e contorções, como as têm os epiléticos e
Judas foi de novo cercado pelos Apóstolos, que estavam
extremamente furiosos contra ele. Jesus disse aos soldados:
“Levantai-vos.”
Levantaram-se assustados e como os Apóstolos ainda
discutissem com Judas e também se dirigissem contra os
soldados, estes atacaram os Apóstolos, livrando-lhes Judas
das mãos e impelindo-o com ameaças a dar o sinal combinado,
pois tinham ordem de prender só aquele a quem beijasse.
Judas aproximou-se então de Jesus, abraçou e beijou-O,
dizendo, “Deus te salve, Mestre.” E Jesus disse:
“Judas é com um beijo que atraiçoas o Filho do Homem?”
Então os soldados cercaram Jesus e os soldados, avançando,
puseram mãos em Nosso Senhor. Judas quis fugir, mas os
Apóstolos detiveram-no e atacaram os soldados, gritando:
“Mestre, feriremos com as espadas?” Pedro, porém, mais
excitado e zeloso, puxou da espada e golpeou Malcho, criado
do Sumo Sacerdote, que o quis repelir e cortou-lhe um pedaço
da orelha, de modo que Malcho caiu por terra, aumentando
deste modo ainda a confusão.
A situação nesse momento do veemente ataque de Pedro era a
seguinte: Jesus preso pelos soldados, que O queriam amarrar;
cercavam-nO, num largo circulo, os soldados, um dos quais,
Malcho, foi prostrado por Pedro.
Outros soldados estava ocupados em repelir os discípulos,
que se aproximaram ou em perseguir outros que fugiram.
Quatro dos discípulos andavam pelo lado do monte e só se
avistavam de vez em quando, a grande distância. Os soldados
estavam em parte um pouco desanimados pelas quedas, em parte
não ousavam perseguir seriamente os discípulos, para não
enfraquecerem demasiadamente a tropa que cercava Jesus.
Judas, que quis fugir logo depois do beijo traidor, foi
detido a certa distancia por alguns discípulos, que o
cobriram de injúrias. Mas os seis agentes, que só então se
aproximaram, livraram-no das mãos dos cristãos indignados.
Os quatro soldados, em roda de Jesus, estavam ocupados com
as cordas e algemas, seguravam-nO e iam amarrá-lO.
Tal era a situação, quando Pedro golpeou Malcho e Jesus ao
mesmo tempo disse: “Pedro! Embainha a tua espada, pois
quem se serve da espada, perecerá pela espada. Ou pensas que
eu não podia pedir a meu Pai que me mandasse mais de doze
legiões de Anjos? Então não devo beber o cálice que meu Pai
me apresentou? Como se cumpririam as Escrituras se assim não
se fizesse?”
Disse aos soldados: “Deixai-me curar este homem”.
Aproximou-se de Malcho, tocou-lhe na orelha, rezando e ficou
sã. Estavam, porém, em roda os esbirros, os soldados e os
seis agentes, que O insultaram, dizendo aos soldados: “Ele
tem contrato com o demônio; a orelha por feitiço parecia
ferida e por feitiço sarou”.
Então lhes disse Jesus: “Viestes a mim, armados de
espadas e paus, a prender-me como um assassino. Todos os
dias tenho ensinado no Templo, no meio de vós e não ousastes
pôr a mão em mim; mas esta é a vossa hora, a hora das
trevas”.
Eles, porém, mandaram amarrá-lO e insultaram-nO, dizendo: “A
nós não nos pudeste jogar por terra com teu feitiço”. Do
mesmo modo falaram os soldados: “Acabaremos com as tuas
práticas de feiticeiro, etc”. Jesus respondeu ainda algumas
palavras, mas não sei mais o que foi; os discípulos, porém,
fugiram para todos os lados.
Os quatro soldados e os fariseus não tinham caído e portanto
também não se tinham levantado, o que sucedeu, como me foi
revelado, porque estavam inteiramente nas redes de Satanás,
do mesmo modo que Judas, que também não caíra apesar de
estar no meio dos soldados; todos os que caíram e se
levantaram, converteram-se depois e tornaram-se cristãos.
O cair e levantar era símbolo da conversão.
Esses soldados não puseram a mão em Jesus, mas apenas O
cercaram: Malcho converteu-se logo depois da cura, de modo
que só por causa da disciplina continuou o serviço; já nas
horas seguintes, durante a Paixão de Jesus, fazia o papel de
mensageiro entre Maria e os outros amigos de Jesus, para dar
notícias do que se passava.
Os soldados amarraram Jesus com grande barbaridade e com a
brutalidade de carrascos, por entre contínuos insultos e
escárnios dos fariseus. Eram pagãos da classe mais baixa e
vil; tinham o peito, os braços e joelhos nus; na cintura
usavam uma faixa de pano e na parte superior do corpo, gibão
sem mangas, ligado nos lados com correias. Eram de estatura
baixa, mas fortes e muito ágeis, de cor parda-ruiva, como a
dos escravos do Egito.
Amarraram Jesus de uma maneira cruel, com as mãos sobre o
peito, prendendo sem compaixão o pulso da mão direita por
baixo do cotovelo do braço esquerdo e o pulso da mão
esquerda por baixo do cotovelo do braço esquerdo e o pulso
da mão esquerda por baixo do cotovelo do braço direito, com
cordas novas e duras que lhe cortavam a carne. Passaram-lhe
em redor do corpo um cinturão largo, no qual havia pontas de
ferro e argolas de fibra ou vime, nas quais amarraram-Lhe
uma espécie de colar, no qual havia pontas e outros corpos
pontiagudos, para ferir; desse colar saiam, como uma estola,
duas correias cruzadas sobre o peito até o cinturão, ao qual
foram fortemente apertadas e ligadas. Fixaram ainda, em
diversos pontos do cinturão, quatro cordas comprimidas,
pelas quais podiam arrastar Jesus para lá e para cá,
conforme lhe ditava a maldade. Todas essas cordas e correias
eram novas e pareciam preparadas de propósito, desde que
começaram a pensar em prender Jesus.
Fonte: Extraído do Livro
"Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus - Anna
Catharina Emmerich - Ed. MIR.
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